segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Um Estudo em Vermelho – Conan Doyle - Resenha

Por Eric Silva, pela Conhecer Tudo.

Um crime na cinzenta e chuvosa Londres e o escaldante Deserto do Colorado. O que há de comum entre eles?

Capa da edição lida da publicada 
pela Editora Melhoramentos.
Um estudo em vermelho é um clássico mundial, responsável por imortalizar um dos mais conhecidos autores britânicos do início do século XX. Não há uma só pessoa que goste de ler livros ficcionais que nunca tenha ouvido falar do grande e excêntrico detetive Sherlock Holmes criado pelo autor Sir. Conan Doyle. Holmes é um homem enigmático dotado de uma mente estritamente racional. Suas capacidades dedutivas vão além do normal e o mesmo busca desenvolve-las incessantemente com estudo científicos extremamente racionalizados, mas que nenhum cientista comum se inclinaria ou empreenderia seu tempo para realizar, como o estudo de pegadas e da cinza de charutos. Mas ainda assim, suas histórias conquistaram milhões de leitores ao longo de mais de um século desde quando Um estudo em vermelho apresentou-o ao mundo (o livro foi originalmente publicado em 1887).

Em nosso livro, Conan Doyle narra pela voz de John H. Watson, amigo e escudeiro de Holmes e é dividido em duas partes que narra duas histórias distintas, mas que se encontram como dois extremos de um mesmo fio. A primeira parte se sucede em Londres:

Watson é ex-médico militar que, depois de uma desventurada passagem pelo Afeganistão onde tomou parte na batalha de Maiwand durante a ocupação britânica do Afeganistão, retorna a Inglaterra a fim de restabelecer a saúde abalada durante o conflito. Sem muito dinheiro e longe dos parentes Watson vive na capital britânica em hotéis compatíveis com sua renda. Quando já estava decidido a ir embora da cidade londrina encontra em um bar Stamford, um de seus ex-assistente de hospital, e se alegra ao saber por ele que um outro cavalheiro desejava encontrar alguém para dividir as despesas de um apartamento alugado. Contudo, Watson é insistentemente alertado por seu ex-assistente acerca do temperamento e natureza peculiares de seu futuro flatmate (companheiro de apartamento): 

posso até imaginá-lo capaz de administrar a um amigo uma pitada do último alcaloide vegetal, não por malvadeza, compreenda-me, mas simplesmente pelo espirito da pesquisa e para ter uma ideia precisa dos efeitos. Faço-lhe, porém, justiça de admitir que ele próprio o tomaria com a mesma desenvoltura. Ao que me parece, a sua paixão é o conhecimento exato e completo”.

Contudo, Watson estava persuadido em convidar a notável figura para que com ele dividisse a despesa do aluguel de um apartamento e então não ter mais a necessidade de abandonar a capital. Por intermédio de Stamford Watson conhece Holmes no laboratório químico do hospital onde este trabalhava. Mas quando Sherlock Holmes os recebeu emocionado por ter encontrado um composto químico capaz de revelar evidencias de sangue (chave para a solução de vários crimes), e adivinhar precisamente que o médico vinha do Afeganistão, Watson teve uma amostra que aquele homem era muito mais do que seu ex-assistente pode lhe descrever.

Após um breve entrevista onde ambos expuseram seus principais defeitos e manias, a fim de se decidirem por dividirem o mesmo teto, o acerto é selado, sendo que no dia seguinte os dois alugam um apartamento no 221 B da Baker Street.

A coexistência entre os companheiros se dão de forma amistosa e conciliável. Cada um tentava conviver com os hábitos e manias do outro, sobretudo Watson em relação as esquisitices e mistérios de seu flatmate. Mas tudo o que Holmes fazia, as pessoas que recebia a sós na sala de estar e seus mistérios aguçavam a curiosidade do médico que ansiava compreender melhor quem era e ao que Holmes se dedicava. Ainda atiçava a curiosidade de Watson a dúvida de como Holmes deduzira que ele estivera no Afeganistão quando ainda eram totalmente estranhos um ao outro.

À medida que passavam as semanas, o meu interesse nele e a minha curiosidade quanto aos seus objetivos na vida iam gradualmente aumentando em extensão e profundidade. Até seu físico era tal que despertava a atenção do mais descuidado observador.

Watson só começa a compreender a inteligência prodigiosa e extremamente seletiva de seu companheiro quando sem saber o médico critica a completa ilógica de um dos artigos de Holmes sobre a ciência da dedução e este demonstrar o quanto era logica e coerente suas teorias. Holmes era um detetive nato, capaz de resolver os mais intrincados enigmas do mundo do crime, sem nem mesmo sair de casa ou ir in loco na sena do crime, bastava que lhe dissessem os pormenores dos fatos que ele apenas com o conhecimento racional, dedutivo e sistemático era capaz de solucionar o mistério. Tão certeiras eram suas deduções que os dois mais importantes investigadores da Scotland Yard, a Metropolitan Police Service de Londres, lhe pediam conselhos. Porém Holmes também era frustrado pois mesmo sendo um excepcional investigador, nunca colheu os louros de suas descobertas ficando sempre para polícia os créditos enquanto ele permanecia no anonimato.

Mas Watson fica surpreso com a grande capacidade de seu flatmate e o impele a aceitar o chamado do investigador Gregson para que fosse observar a cena de um crime ocorrido em condições misteriosas numa casa desabitada da Lauriston Gardens. É nesse ponto que a história começa.

Lauriston Gardens
Em uma das casas da Lauriston Gardens foi encontrada na madrugada o corpo de um americano que morrera em condições tais que se não fosse pelo sangue espalhado pela casa e o fato daquele estranha morte ter se dado em uma casa onde não vivia ninguém teria a polícia alegado à sua morte causas naturais, como ataque súbito, uma vez que inexistia marcas de tiros ou punhaladas em seu corpo, logo, o sangue não lhe pertencia. Além disso uma misteriosa inscrição feita em sangue numa das paredes da casa e que trazia a palavra rache, que, segundo o próprio Holmes, se tratava de uma palavra alemã que significava vingança. O crime parece insolucionável, contudo para Holmes “não há nada de novo debaixo do sol”.

A segunda parte da história somos transportados para um outra realidade totalmente adversa num recuo de tempo de várias décadas para o ano de 1847 e jogados em pleno deserto do Colorado diante de um viajante “esquálido e desencarnado” que mesmo vendo a morte se avizinhar permaneciam em seu caminho carregando nas costas uma pequena menina loira. Percebendo que sua jornada havia chegado ao fim, sentou-se com a criança sob a sombra de uma lapa, em companhia de abutres esperando que a morte chegasse para eles como antes havia chegado aos seus companheiros de viagem [mais do que isso é spoiler].

Nessa segunda parte, intitulada País dos Santos, somos levados por Doyle a uma paisagem muito adversa ao cenário londrino, posso afirmar que Um estudo em vermelho é uma história dentro da outra. Inicialmente País dos Santos, como um parêntese, nos lança em uma atmosfera diferenciada, cheia de conspirações, assassinatos e fanatismo religioso, decorado por um panorama paisagístico de tirar o folego. Doyle destila todo o seu potencial em uma narração descritiva impecável e extremamente geográfica do deserto:

(...) um árido e medonho deserto que por muitos anos foi uma barreira contra o avanço da civilização. Da Sierra Nevada ao Nebraska, e do rio Yellowstone, ao norte, até o Coloado, ao sul, tudo é desolação e silêncio. Mas nesta região sinistra a natureza não se apresenta sob um aspecto uniforme, pois que abrange altas montanhas cobertas de neve e vales profundos e tenebrosos. Há rios impetuosos que correm através dos cañons, e há vastas planícies que no inverno branquejam de neve e no verão ficam cinzentas de areia salitrosa e alcalina. Em tudo, porém, prevalece a característica de uma terra nua, inóspita e miserável.

É nessa paisagem que veremos desabrochar da flor do Utah que cresce entre os mórmons e protagonizará uma narrativa dramática.

Deserto do Colorado
Um estudo em vermelho é uma narrativa policial de muita criatividade, sobretudo que ela nos prende na tentativa vã de entender, até que se termine a história, qual a relação entre um assassinato ocorrido numa noite terrível e chuvosa e a narrativa que se desenrola nas vastas planícies áridas do Colorado.

Compreendo que existe dois tipos básicos de romance policial, uma mais tradicional onde a narrativa é preenchida sobretudo pelas capacidades dedutivas e arguciosas do investigador, onde a inteligência sobressai-se a história do assassinato; outras, mais modernas, onde o acaso é mais marcante na investigação, e a ação e as peças deixadas pelo caminho tomam conta da narrativa, sendo que a inteligência dedutiva do investigador é débil, ou pouco valorizada pela narrativa. Livros como os de Conan Doyle e Agatha Christie são do primeiro tipo. Eu, da minha parte, gosto de ambos os tipos, porque acima da inteligência do investigador, valorizo um bom mistério e histórias intricadas e difíceis de resenhar.

A edição que li é da editora Melhoramentos, editado em 1990, com tradução de Hamilcar de Garcia e capa de João Carlos Mosterio de Carvalho. 147 páginas. E minha avaliação pessoal é: Bom.

Abaixo trago um link para a edição ilustrada original em inglês do livro (A Study in Scarlet) disponível para ler online.







Que conhecer outras opiniões? 




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