segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Tonico - José Rezende Filho - Resenha

Por Eric Silva, dedicado à Lewie Jhony.

Já não me lembro como este livro chegou às minhas mãos, mas de uma coisa eu tenho certeza, assim como Meu Pé de Laranja Lima de José Mauro de Vasconcelos, Tonico de José Rezende Filho foi e ainda é uma narrativa que mexe muito comigo, seja por que este livro é um triste retrato da realidade de muitas crianças brasileiras, seja porque o sofrimento e as quimeras de uma criança me tocam muito.

José Rezende Filho escreve uma breve novela onde cabe todo o desejo, sonhos e incertezas de um personagem que poderia ser só mais uma criancinha mimada e teimosa, mas que se mostra alguém ansioso pela independência.

Tonico, um garoto de 13 anos (quase 14), pertence a uma família pobre do subúrbio ferroviário do Rio de Janeiro. Ele acabou de perder o pai, o que o fez do dia pra noite o homem da casa, mas tempos difíceis despontam no horizonte. Sua vida muda de uma hora para outra e o garoto, cujas únicas preocupações eram estudar e brincar, é cobrado a se tornar um pequeno trabalhador.

O tio tenta reorganizar a vida da família da irmã dentro das suas possibilidades parcas e, na impossibilidade dele mesmo ajuda-los financeiramente, vê como única saída que o sobrinho mais velho passe para a escola noturna e comece a trabalhar para ajudar a mãe e a avó no sustento da casa.  

Incialmente, Tonico se sente eufórico diante dessa nova realidade de trabalhar, ganhar seu próprio dinheiro e ajudar a família de cinco pessoas (ele, duas irmãs, mãe e avó), contudo, trabalhar na loja do seu Duda ou na farmácia do Seu Fonseca não estavam no seu ideário. Tonico, que ainda se equilibrava sobre o fino fio que separa a infância despreocupada da maturidade cheia de responsabilidades, desejava trabalhar e ser útil a casa, mas não estava disposto a sacrificar sua liberdade e por isso não sabia como lidar com toda aquela situação. Ora desejava sua vida de volta, ora sentia que necessitava ajudar a família, necessitava vestir as calças do “homem da casa” assim como lhe falara o tio.  Mas, por outro lado, também queria ser independente, queria ser livre. É na cadência desses sentimentos que o garoto enxerga na vida de Carniça, outro pequeno trabalhador, a possibilidade de conquistar seus sonhos.

Carniça é um garoto negro que desde os seis anos ganha a vida trabalhando vendendo jornais de trem em trem e engraxando sapatos na Zona Sul do Rio de Janeiro. Vivia pelas ruas, dormia no deposito de jornais, comia em pensões e quando queria voltava para casa onde morava com a mãe e dividia com ela o dinheiro que conseguia. Apesar de tudo, Carniça era livre, algumas vezes conseguia reunir em um único dia 30 cruzeiros, fazia o que queria e “não tinham hora para nada. A vida, boa ou má, já lhes pertencia”. A mãe de Tonico detestava o garoto, mas Tonico o idolatrava como um modelo e esse modelo de vida tão novo, tão excitante, tão aventureiro e livre seduz o menino que passa a planejar sua fuga de casa para trabalhar pelas ruas como o amigo de futebol.  

Tonico é um livro que nos leva à realidade das famílias pobres do nosso país que diante da necessidade são obrigadas a colocar suas crianças para trabalharem expondo-as a todo tipo de risco. Os trabalhos que o tio de Tonico arruma para ele são leves, o garoto poderia ser considerado apenas como um aprendiz, no entanto os mesmos obrigavam o garoto a estudar a noite e ter uma rotina exaustiva. No outro lado, a vida de Carniça é ainda mais perigosa e insalubre. Além de não estudar seu trabalho é altamente degradante no sentido em que está exposto a todo tipo de violência e doenças.

Carniça é o modelo perfeito da criança pobre que vive em situação de rua, ou seja, trabalha nas ruas para adquirir seu sustento, contudo ainda mantem laços com a família. Mas a liberdade que esta vida proporciona a quem a vive é o que atrai Tonico, que sem nenhum conhecimento prático sobre tudo a que ele estará exposto, não sabe o quanto difícil e perigoso é aventurar-se na vida de uma pequeno trabalhador das ruas.

Convido-os a descobrir os desafios enfrentados por Tonico que confrontar-se com sua família para ir em busca de seus sonhos de liberdade. O livro possui uma leitura fluída e rápida, de uma narrativa onde o psicológico de cada personagem é muito bem costurado. Um livro sensível cujo personagem principal vive o conflitante desafio de crescer.

A edição lida possui 94 páginas, ilustrada, é do ano de 1993, e é pertencente a Coleção Vaga-Lume da editora Ática – uma coleção altamente recomendável e uma das responsáveis pela minha iniciação no mundo da leitura (cresci lendo-a). Minha avaliação pessoal: Muito Bom.

PS.: A História de Tonico possui uma continuação no livro Tonico e Carniça de Assis Brasil e José Rezende Filho. Esse livro foi pensado por Rezende Filho, mas infelizmente o autor faleceu sem concretiza-lo. Seu amigo pessoal Assis Brasil, então decidiu-se reunir as anotações e ideias de Rezende Filho e concluiu ele mesmo a história, nos presenteando com mais uma ventura do pequeno Tonico. Esse livro é inédito pra mim, mas assim que eu o conseguir compartilho com vocês minhas impressões. Até lá. 



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