segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A Marca de Uma Lágrima - Pedro Bandeira - Resenha

Por Eric Silva

Poesia, amor, mistério e morte – adolescência – esse é o tempero que envolve o coração de uma jovem inconformada com a própria aparência e que, com seu espirito intenso e avido por amar e ser amado, povoa de poesia as páginas de A Marca de uma Lágrima um conhecido infanto-juvenil do consagrado escritor brasileiro Pedro Bandeira.

Gosto de Bandeira, isso é fato incontestável! Considero A Droga da Obediência um clássico da literatura infanto-juvenil brasileira, pela forma ousada com que Pedro Bandeira narra (ele é um verdadeiro quebrador de tabus) e a franqueza de sua escrita. A Marca de uma Lágrima não é diferente, sobretudo quando Bandeira despi a jovem Isabel em corpo e em alma e costura um personagem, que mesmo jovem, fala de amor e sexo em verso e em prosa como um adulto de mente culta e criativa. Talvez esta seja a palavra que melhor descreve Isabel: criatividade.

Isabel é uma colegial de 14 anos, filha de pais separados e com uma mãe que não a compreende e nem a escuta, estando sempre mais preocupada com suas externas enxaquecas. Isabel é também, assim como muitos adolescentes – diga-se de passagem - inconformada com a própria aparência (se acha gorda e feia) e que desconta no espelho a quem trata de inimigo e que ela mesma personifica e dá vida através do êxtase criativo de suas emoções mais intensas. Intensidade é outra palavra que traduz a garota, que também sabe ser irônica e venenosa quando seu espirito ou a situação lhe convém ser.

Pedro Bandeira. Fonte: Wikimedia Commons
Tão absorvente são suas emoções que levam a menina a apaixonar-se desmedidamente e à primeira vista (literalmente) pelo primo que ela nem mais lembrava que existia, mas que sai do anonimato para se tornar aos seus olhos um deus grego reencarnado entre os mortais, um Apolo ou Dionísio que ela prefere chamar de “sonho”. Tudo acontece quando a mãe da garota a força a ir à festa de aniversário do primo, e para não estar sozinha junto a pessoas que para ela eram praticamente estranhas, Isabel leva a tiracolo a melhor amiga, Rosana. Contudo, o destino – ou o Cúpido, para gente não sair da Grécia (rsrsrs!) – leva Cristiano a se apaixonar-se pela amiga de Isabel. Esquecida pelo primo, Isabel se afunda na bebida e trata muito mal um rapaz que tenta corteja-la no jardim, seu nome é Fernando. Conseguindo despistar por um momento o rapaz ela tenta se esconder no jardim e espia um casal de namorados, que apesar da bebida, ela tem certeza que é seu primo e a amiga. Tonta de tão bêbada se desequilibra e cai no chão sendo levantada por um rapaz que o álcool a faz pensar ser Cristiano e o beija com fervor, beijo que não lhe sairá da mente alimentando ainda mais a paixão avassaladora pelo primo.

Abraçou-se fortemente contra o peito que a amparava. O calor daquele corpo forte deu-lhe febre e seus lábios espremeram-se loucamente contra aquela pele quente, com cheiro de colônia. Uma correntinha roçou-lhe o rosto e ela ergueu a cabeça, oferecendo os lábios úmidos, ávidos, desesperados.Uma boca maravilhosa colou-se à dela, enquanto a força daqueles braços a apertava com loucura. Sentiu-se morrer de felicidade e o mundo apagou-se com o nome adorado estourando em sua cabeça como um coro de anjos.— Cristiano... meu amor...

Passado o episódio, o porre e a bronca da mãe, Isabel, ainda nas nuvens sonha e sente o beijo do primo e anseia dizer tudo que seu coração lírico tinha para afagar o dele e a oportunidade surge quando ele pede para que se encontrem secretamente, em um lugar calmo. Ela escolhe o laboratório de química um lugar que para um encontro poderia ser considerado tenebroso:

As janelas do laboratório eram cobertas com cortinas pesadas para proteger da luz os produtos químicos. Um lugar ideal para um encontro de namorados.
Aos poucos, com a fraca luz que se filtrava através das cortinas, Isabel pôde perceber as estantes envidraçadas, cheia de frascos contendo formas assustadoras conservadas em formol. Uma enorme cascavel, com seus guizos, flutuava num líquido avermelhado por seu próprio sangue. Ao lado, uma caranguejeira peluda movia-se lentamente numa gaiola de vidro.

Ali ela anseia pela chegada do primo tensa e inquieta para confessar-lhe o amor que a dominava, mas é lançada ao sofrimento quando Cristiano confessa-lhe a paixão pela amiga Rosana e pede a sua ajuda para arrumar o namoro dos dois. Mesmo destruída a garota aceita e naquele momento está amarrado o seu destino: ser um elo entre os dois namorados, ajudando a amiga a ser feliz as custas de seu sofrimento pessoal. Mas ali também antes que a menina abandone o laboratório algo estranho acontece, uma pessoa que ela não consegue identificar quem entra e meche em um frasco que depois ela descobre ser de linamarina (cianureto, um veneno extremamente forte).

A vida transcorre enquanto, mesmo despedaçada, Isabel ajuda o namoro da amiga escrevendo cartas para Cristiano em nome de Rosana. Tão apaixonadas são as cartas que Cristiano passa a ama-las mais do que ama a própria Rosana, a suposta autora, o que reforça o sentimento do rapaz pela moça. Do outro lado, Fernando, um rapaz maduro, as vezes parece bem filosófico, mas quase sempre é racional, provocativo e insistente, sempre se fazendo presente e persiste em cortejar Isabel, mas sempre sem sucesso, apesar de pouco a pouco conquistar a amizade da garota que emersa em seu dilema sentimental mal repara no rapaz. Mas o que Isabel não sabia era que novamente o destino lhe reservava surpresas e ela se vê envolta em um episódio perigoso quando testemunha a morte da diretora da escola, que num suposto suicídio é encontrada envenenada por cianureto. Mas nem tudo parece se encaixar... {não vou dar spoiler}.

Temos aqui uma história romântica e poética, em alguns momentos maçante, é verdade, mas que nos pega de surpresa com uma morte inesperada que coloca nossos personagens principais em maus lençóis. Pedro então nos conduz num vai e vem entre os pensamentos de Isabel, sua poesia e os fatos que se desenrolam até o fim surpreendente da narrativa.

Isabel é uma personagem apaixonada por poesia e literatura e que se expressa na poesia moderna com tamanha desenvoltura que chega assustar quem a ouve explodir em amor e desejo através das suas palavras. Um gênio criativo perturbado que devora autores renomados e de estilos marcantes como Paul Valéry, Vinícius, Ferreira Gullar, Garcia Lorca e Pablo Neruda. De tão fantástica Isabel parece irreal. Contudo, como uma faca de dois gume, o que faz da personagem interessante é também o punhal que enfraquece a narrativa e quando a paixão desmedida e quase sem proposito toma conta de forma excessiva do enredo este se torna um tanto desinteressante.

O interessante da história é a discussão que traz a respeito da questão, entre os jovens, da aparência. A imposição da sociedade de um padrão de beleza leva muitos adolescentes como Isabel a um estado lastimável de desconforto com a própria aparência e isso é trabalhado por Bandeira de uma forma fantástica: através da personificação que ele faz do espelho com quem Isabel discute como se fosse um ser real que a afrontasse e humilhasse incessantemente, um inimigo mortal sempre pronto a escarnecer da garota (deixo um trecho no final pra vocês curtirem). A forma aberta com que o autor fala de temas que envolvem a sexualidade, a sensualidade, o entregar-se e o desejo também é muito provocante e ousado, o que considero uma marca do autor como já comentei.

Indico o livro para os adolescentes que curtem uma história de amor e poesia moderna. Pode ficar um tanto chato em alguns momentos, mas vale apena ir até o final e descobrir o que o destino reservava a Isabel.

Minha avaliação pessoal: não supera A droga da obediência - que ainda terei o prazer de resenhar, mas é bom, enfim, um Bandeira.

TRECHO SELECIONADO

Aquele era o seu pior inimigo. O mais cruel, o mais cínico, o mais sem piedade. Um inimigo que falava a verdade. Sempre. Sempre a verdade. Toda aquela verdade que Isabel conhecia muito bem e que nunca a abandonava.
Ainda com a escova de cabelo na mão, ela não podia deixar de encará-lo. Lá estava ele, encarando Isabel de volta, com os próprios olhos da menina. De um lado, eles estavam molhados. Do outro, refletiam-se gelados, vítreos, impiedosos.— Feia...Isabel sufocou um soluço.— Gorducha...Uma lágrima formou-se na pontinha da pálpebra.— Que óculos horrorosos...Como um bichinho que foge, a lágrima saiu da toca e foi esconder-se no aro dos óculos.— Você plantou uma rosa no nariz, é?— Cale a boca... por favor...Já mais grossa, a lágrima livrou-se dos óculos e escorreu pelo rosto de Isabel.— Sabe que essa rosa vai ficar amarela? Amarela e grande... A lágrima penetrou-lhe pelos lábios e Isabel reconheceu aquele gosto salgado, tão comum e tão amargo em momentos como aquele.— Por favor... me deixe em paz...— Você vai espremer a rosa amarela. O seu nariz vai inchar... Os lábios de Isabel apertaram-se, molhados, sem palavras. Aquela garota que sempre tinha resposta para tudo, sempre uma gozação na hora certa, uma tirada de gênio que deixava qualquer provocador sem graça, não sabia o que dizer quando seu grande inimigo apontava sadicamente cada ponto fraco que havia para apontar.—... e você vai ter vergonha de voltar às aulas na semana que vem...— Cale a boca!A raiva foi tanta que a escova de cabelo voou com força, acertando o inimigo em cheio, bem na cara.— Isabel! Venha cá. Morreu aí no banheiro, é?A voz penetrou-lhe os ouvidos como uma campainha de despertador. A voz irritante da mãe.Estridente como uma campainha. Devia estar com enxaqueca, é claro. Na certa ia reclamar de alguma coisa, exigir que a filha respeitasse pelo menos sua dor de cabeça, queixar-se de...O combate com o inimigo estava suspenso, por hora. Isabel sacudiu a cabeça, como se despertasse, e esfregou o rosto, apagando as marcas da luta.Uma última olhada para o inimigo. Ele a olhou de volta, agora com uma rachadura de alto a baixo."Sete anos de azar!", pensou Isabel. "Ah, o que são sete, para quem já viveu quatorze dos anos mais azarados do mundo?''

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