quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Soldados de Salamina – Javier Cercas – Resenha

Por Eric Silva

Soldados de Salamina é uma narrativa que consegue misturar realidade e ficção de tal forma que se torna impossível separar aquilo que é real daquilo que é apenas ficcional. É desta forma que Javier Cercas, quinto escritor lido na campanha 2016 #AnoDaEspanha, nos conta um pouco da história da Guerra Civil Espanhola ocorrida na década de 1930. Neste livro, o autor, que também figura como um dos personagens da narrativa, nos conta a trajetória de Rafael Sánchez Mazas, um dos importantes nomes que contribuíram para a entrada do fascismo na Espanha e a consequente ascensão do ditador Franco ao poder. Uma narrativa e também um relato real, Soldados de Salamina é mais um livro a falar de um dos períodos mais conturbado e sombrio da história espanhola.

Sinopse

Javier Cercas é um escritor e jornalista que após se desiludir com sua carreira literária resolveu retornar ao jornalismo. Porém tudo muda para Javier depois que em uma confusa entrevista com Rafael Sánchez Ferlosio este lhe conta a história de como seu pai, Rafael Sánchez Mazas, um dos membros fundadores da Falange espanhola[1], havia conseguido sobreviver a seu fuzilamento já nos últimos dias da Guerra Civil Espanhola e fugido das últimas tropas republicanas que se encaminhavam para as fronteiras da Espanha com a França. Inquieto com a forma como a história de Mazas se desenrola, Javier decide investigar a fundo e escrever sobre aquele acontecimento que não era apenas mais um dos muitos ocorridos no momento mais funesto da história espanhola, como também foi contributivo para a legitimação do arbitrário e ditatorial governo franquista que viria em seguida.


Resenha

É impossível falar de Soldados de Salamina, livro do espanhol Javier Cercas e quinto da nossa campanha do #AnoDaEspanha, sem que se fale antes do que foi a Guerra Civil Espanhola, um dos maiores e mais importantes conflitos ocorridos em solo espanhol e que jogou o país em um regime ditatorial fascista de quase quatro décadas (1939 a 1976). Por isso começaremos com um resumo muitíssimo breve e até simplista dos fatos históricos (nos dedicaremos melhor a eles em outro momento) e depois falarei do livro.

Um pouco de história
Barricada montada pelas ruas das cidades
foram comuns durante o conflito

A Espanha da década de 1930 passava por grandes dificuldades econômicas em decorrência da depressão gerada pela crise de 29. Em meio ao cenário econômico muito pouco favorável, sobretudo, para as classes mais pobres da população, o panorama político se encontrava dividido e ao longo desta década dois grupos contrários emergem no cenário ideológico e político espanhol: ao lado dos Nacionalistas, a Falange Espanhola, representada por grupos conservadores da elite defensores de um regime totalitário de cunho fascista no país, e, do lado dos Republicanos, a Frente Popular, composta por líderes socialistas, anarquistas e comunistas desejosos de uma mudança social mais profunda.

Em 1936 a esquerda sob ao poder com Manuel Azaña Díaz, que teve como primeiro-ministro Largo Caballero, conhecido político socialista espanhol[2] que tentara implantar seu projeto de reforma agrária e trabalhista. Logo é crescente a insatisfação dos setores conservadores da sociedade espanhola (monarquia, grandes proprietários de terras, membros da Igreja Católica e o Exército) e que levou os falangistas, apoiados pelo Exército insurgente sob o comando do general Franco[3], a tentarem um golpe de Estado que, no entanto, fracassou, mas que deu início a guerra civil[4].

No combate que se inicia em 36, de um lado os nacionalistas com as tropas do Exército sob o comando de Franco iam sistematicamente dominando grandes parcelas do país a exemplo de Navarra, Castilha, Galícia, partes da Andalucía e Aragon, enquanto os republicanos se entrincheiravam nas regiões de Madri, Valencia e Barcelona, mais ricas, industrializadas[5] e onde o movimento sindical era mais forte e organizado.

Contudo, em 1939, os nacionalistas que além do Exército, contavam com o apoio da Alemanha Nazista e da Itália Fascista vencem os Republicanos, cujas tropas resistentes eram composta em sua maioria pelos trabalhadores organizados pelos sindicatos. Findada a guerra Franco instaura um regime ditatorial que perdurará até mesmo após sua morte.

Por sua vez, os momentos finais da batalha foram marcados por muitos episódios de fuzilamentos em massa de inimigos políticos cometidos tanto pelos republicanos como pelos nacionalistas, estes últimos bastante citados em outra obra resenhada aqui no blog: A Sombra do Vento, de Zafón, e cujo cenário da trama é a Barcelona franquista, ou seja, posterior ao fim do conflito. Porém, diferentemente, o foco da narrativa de Javier Cercas se centra no episódio de um dos fuzilamentos cometidos pelos republicanos.

O Livro

Rafal Sánchez Mazas
Soldados de Salamina situado nos tempos atuais vai, através da investigação jornalística de Javier Cercas – que além do autor do livro é também seu personagem principal –, recriar os conturbados momentos finais da guerra através da aventura de Rafael Sánchez Mazas, um dos fundadores da Falange que escapa de ser fuzilado pelos republicanos.

Mazas era um literato, um escritor oriundo de uma família espanhola tradicional que inspirado pelas ideias fascistas que conhecera na Itália ajudou na fundação da Falange Espanhola e trabalhou ativamente para a difusão de suas ideias, tomando parte no conflito civil que se desenrolou anos depois. Em 1937, Sánchez Mazas foge da embaixada chilena, onde se encontrava refugiado, com o objetivo de tentar atravessar a fronteira francesa, mas acaba por não fazê-lo e passa a liderar um destacamento dos Nacionalistas. Contudo, pouco depois é preso e levado ao barco Uruguay que se encontrava atracado em Barcelona sob o poder dos Republicanos.

Em 39, com outros presos políticos é levado ao santuário de Santa Maria de del Collell, onde se dá o episódio do fuzilamento do qual Mazas escapa por quase milagre e pela omissão de um soldado republicano que não o mata e nem o entrega aos seus superiores após encontrar o fugitivo em um bosque. É graças aquele inesperado e inexplicável ato do soldado republicano que de fato Sánchez Mazas consegue escapar da morte. Dali o falangista foge sem rumo pela região, conta com a ajuda de desertores locais que o encontram e sobrevive. Contudo muito pouco se sabia do que acontecera entre o momento de sua fuga do fuzilamento e o dia em que Sánchez se reuniu aos nacionalistas.
Santuário de Santa Maria del Collell onde Sánchez Mazas
ficou preso até o fuzilamento. Imagem de Olga Gairin

Após ouvir toda essa história do próprio filho de Mazas, Javier fica obcecado pelo que teria acontecido ao falangista durante o tempo em que ele ficara vagando pelos bosques da região de Cornellà de Terri. Movido pelo desejo de restituir os passos do falangista e narrá-lo através de um relato real, o jornalista é levado a uma complicada busca por informações e pelas pessoas que ajudaram Sánchez Mazas e vivenciaram com ele aqueles momentos confusos.

Soldados de Salamina é daqueles livros que não possui um grande mistério, nem muita ação, ou um caso chocante, nem é mesmo uma narrativa filosoficamente complexa. Todavia, o valor intrínseco da narrativa está naquilo que ela te ensina sobre um momento histórico importante que marcou um país e cujos desdobramentos podem ser sentidos até hoje. Por isso é daqueles livros que falam sobre a aventura humana de viver, sobretudo, em sociedade.

Por tratar de um personagem real, com uma história que realmente aconteceu é um tanto complicado no livro saber o que é real e o que é ficcional porque ambos se misturam. Se isso não bastasse outros personagens também são reais e centrais na trama a começar pelo autor da obra, Javier Cercas, e de seu amigo, o também escritor Roberto Bolaño.

Foto da região de Cornellà del Terri, por onde
Sánchez Mazas vagueia por alguns dias.
A cachoeira da imagem é Salt de Can Figa e não aparece na narrativa.
Fotografia de Carme Musquera
O livro é dividido em três grandes capítulos. No primeiro somos apresentados a Javier Cercas que além de falar de sua malsucedida carreira literária nos explica como chegou a Sánchez Mazas e, ao longo do capítulo, vamos acompanhando as suas investigações do passado do falangista. Na segunda parte do livro, o jornalista segue narrando suas descobertas nos dando detalhes da vida e da trajetória de Mazas durante os conturbados anos da guerra. Porém insatisfeito com o resultado e sentindo que seu relato está incompleto, Javier nos conduz ao terceiro e último capítulo no qual emerge um outro personagem, Miralles, um anônimo, ao contrário de Sánchez Mazas, mas que dava rosto aos muitos que corajosamente combateram os fascistas, ajudaram a escrever a História, mas foram por ela esquecidos. É neste último capítulo que aos pouco vamos nos dando conta de que o objetivo de Javier não era de fato relatar a aventura vivida por Sánchez Mazas, mas compreender porque o soldado que o encontrou no bosque logo após sua fuga não o matou ou o delatou aos seus oficiais.

Mesmo o livro tendo tudo para ser chato não o achei, muito provavelmente porque estou muito envolvido com tudo que diz respeito à Espanha, mas também porque é a obra de um autor cujo talento é bastante reconhecido. 

Minha curiosidade sobre a Guerra Civil Espanhola já era evidente porque este importante momento da história espanhola já havia perpassado outras leituras, como já mencionei. Também foi durante a Guerra Civil que Garcia Lorca, um dos autores que li durante a campanha [vide], perdeu sua vida sendo mais um dos que engrossou as fileiras de prisioneiros fuzilados durante o conflito. A guerra civil e o posterior regime ditatorial marcou a vida e a literatura da Espanha, isso para mim é mais do que evidente e com Soldados de Salamina pude conhecer um pouco mais o cenário da época, fechando um ciclo que se iniciou com a Sombra do Vento.

O autor
Além do mais, a história de Mazas é curiosa porque oportuniza ao leitor conhecer mais de perto quem foram aqueles que irresponsavelmente alimentaram uma das doutrinas políticas mais sádicas e desprezíveis da história, o nazifascismo, e que conduziu a história da Europa para um dos seus momentos mais soturnos. Ao mesmo tempo o livro traz um importante ensinamento que o leitor só encontrará já no final do terceiro capítulo.

Através de Miralles Javier desperta para algo que é fundamental na vida humana, mas que toma contornos mais nítidos em tempo de guerra quando muitas vidas são estupidamente interrompidas e depois esquecidas, virão números, baixas: só morremos de fato quando não resta quem se lembre de nós. Isso é algo que já refleti muito, principalmente quando penso nos milhões de seres humanos que nos precederam, mas que apenas um pequeno punhado até hoje são lembrados. Aqueles de fato já estão mortos, porque para a História eles já não possuem rostos ou nomes.

Recomendo o livro para quem gosta de história, para quem quer conhecer mais da Espanha, mas para os que buscam apenas mais uma distração, advirto que Soldados de Salamina pode não ser o melhor dos livros para isso. Por fim, o livro foi adaptado para o cinema em 2003 pelo diretor David Trueba.

A edição lida é da Editora Asa Edições, do ano de 2002 e possui 176 páginas.





[1] Organização política espanhola inspirada no fascismo italiano fundado no ano de 1933.
[2] http://historiadomundo.uol.com.br/idade-contemporanea/guerra-civil-espanhola.htm
[3] Francisco Franco Bahamonde foi um militar, chefe de Estado e ditador espanhol, principal líder da revolta nacionalista que deu origem a Guerra Civil Espanhola.
[4] http://www.infoescola.com/historia/guerra-civil-espanhola/
[5] http://www.infoescola.com/historia/guerra-civil-espanhola/

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Nos dias 25 e 30 de outubro, acontece no Rio de Janeiro a 24ª edição do Anima Mundi


Entre os dias 25 e 30 de outubro, no Rio de Janeiro, e entre os dias 2 e 6 de novembro, em São Paulo, acontecerá a vigésima quarta edição do festival Anima Mundi, que todos os anos reúne produções de cinema de animações de todo o país e também de todo mundo.

O curta metragem brasileiro O Caçador de Árvores Gigantes de Anttonio Pereira
será uma das obras brasileiras a serem apresentadas
no evento no Centro Cultural Justiça Federal CCJF.
Iniciada em 1993, a iniciativa é hoje reconhecida como um dos maiores e mais importantes festivais do mundo. Nele se reúnem produtores e animadores de todo o mundo para exibirem suas últimas produções para centenas de fãs de animação e que em mais de 20 anos de existência do evento já reuniu um público de aproximadamente 1,2 milhões de pessoas.

Mas mais do que um festival de exibição de longas e curtas-metragens de animação, o Anima Mundi hoje é também um espaço para a discussão sobre o desenvolvimento do cinema de animação no pais, com o Anima Forum que reúne produtores, animadores e especialistas em diversas palestras e mesas redondas. Além disso o festival também um lugar de experiências riquíssimas para os participantes das oficinas gratuitas de animação.

O sul-coreano Luz Verde, obra do diretor Haejung Suk,
será outra produção exibida durante o evento
Neste ano mais de 400 filmes serão exibidos durante o evento, sendo 108 deles produções nacionais e os demais de outros 45 países. O evento vais se espalhar pelo centro do Rio de Janeiro e das zonas Sul e Norte da cidade. Em São Paulo, o evento acontecerá em parceria com a Cinemateca Brasileira, o Cine Belas Artes, o Circuito Spcine e 15 CEUs.


Mais detalhes do evento e de sua programação vocês podem encontrar na página oficial do Anima Mundi (http://www.animamundi.com.br/). Voê pode conferir a lista dos filmes participantes e os locais e datas de exibição aqui: http://filmes.animamundi.com.br/.

Bom festival para todos!


Referências
http://www.redbull.com/br/pt/music/stories/1331824985867/vem-ai-o-anima-mundi-2016
http://revistadecinema.uol.com.br/2016/10/24%C2%BA-anima-mundi-conta-com-mais-de-400-filmes/

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Lágrimas na Chuva – Rosa Montero - Resenha

Por Eric Silva

“Vi coisas nas quais vocês não acreditariam. Atacar naves em chamas para além de Órion. Vi Raios-C brilharem na escuridão perto da Porta de Tannhauser. Todos esses momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva. É hora de morrer.”
(Extraído do livro Lágrimas na Chuva de Rosa Montero)

Futurista, distópico, policial e também ficção científica Lágrimas na Chuva é um livro completo e incrível escrito pela espanhola Roa Montero e o quarto livro da nossa campanha do #AnoDaEspanha. Uma leitura interessante em um universo primorosamente construído pela sua autora.

Sinopse

O ano é 2109 e o mundo é bastante diferente do que se conhece hoje. O ser humano já não é mais a única criatura cognoscitiva a habitar a Terra e divide seu espaço com alienígenas e seres artificiais. Por sua vez a Terra do século XXII é um mundo marcado por conflitos, pela desigualdade e pela tensão entre espécies. Neste cenário a detetive particular Bruna Husky, uma androide, ou melhor, uma replicante como são chamados em sua época os androides orgânicos criados em laboratório, se vê implicada em um caso que ameaça a frágil paz entre humanos e androides quando um surto de assassinatos cometidos por replicantes deixa tensa a cidade de Madri dos Estados Unidos da Terra. Ao mesmo tempo os arquivos que contém a história mundial estão sendo modificados para incitar o ódio aos replicantes.

Contratada pelo Movimento Radical Replicante para descobrir o que está por trás da onda de assassinatos dos androides e da crise que aos poucos desestabiliza o governo terrícola, Bruna embarca em uma investigação que pode modificar profundamente sua vida e pôr em jogo a paz entre as espécies.

Resenha

Uma distopia de ficção científica e também um romance policial, Lágrimas na Chuva, da escritora espanhola Rosa Montero Gayo, reúne alguns dos meus gêneros prediletos em um único livro. A obra da autora é sem dúvida uma explosão de criatividade. Rosa compõem não só uma narrativa interessante como todo um mundo futurista em ricos detalhes e que vão desde a história de sua gênese aos problemas sociais ali existentes.

A Terra do século XXII é habitada por humanos, alienígenas imigrantes de seus planetas natais e também por replicantes, androides orgânicos criados através de células troncos, maturados em laboratório e quase idênticos aos seres humanos tanto na aparência quanto nas capacidades cognoscitivas. Porém este caldeirão de espécies já havia sido décadas antes o cenário de uma terrível guerra entre humanos e androides, quando estes últimos lutaram para terem seus direitos reconhecidos. Mesmo depois da conquista, a duras penas, de uma convivência pacífica entre as espécies através do reconhecimento dos direitos replicantes, muitos grupos supremacistas humanos ainda alimentavam pelos reps – como também são chamados os replicantes – um forte sentimento racista.

Mas neste universo futurista de Lágrimas na Chuva cabe ainda uma série de outras questões que vão além das tensões interespecíficas. Em sua narrativa Montero cria uma sociedade de poucos privilegiados, de desigualdade e discriminação, marcada por conflitos constantes e problemas ambientais gravíssimos. Uma “humanidade” em que o oxigênio é comercializado e para aqueles que não podem pagar pelo ar que respiram é reservada a segregação socioespacial em áreas onde a elevada contaminação do ar reduz a expectativa de vida de jovens e adultos.

A personagem de Rosa Montero, Bruna Husky, desenhado por Alejandro Valdrighi para a versão em quadrinhos de "Lágrimas na Chuva". Fonte: El País.
O avanço tecnológico permitiu as viagens intergalácticas e o desenvolvimento de vida inteligente artificial e orgânica como os replicantes. Mas as viagens intermundiais podem ser bastante perigosas e os organismos criados em laboratório além de terem uma vida extremamente curta (10 anos) morrem de uma doença brutal para a qual não existe cura ou possibilidade de prolongamento da vida: o Tumor Total Tecno.

No plano político, a Terra vive com o cenário de terrorismo e fragilidade do sistema democrático. As nações terrícolas se unem para formar um novo Estado, os Estados Unidos da Terra e outras nações se formam em grandes estruturas artificiais que orbitam o planeta. Por sua vez, toda a história da “humanidade” é catalogada e armazenada por uma única organização, o Arquivo Central dos Estados Unidos da Terra.

Rosa Montero
Trata-se de um mundo que certamente eu não gostaria de viver, mas que Rosa Montero consegue conceber com uma criatividade espantosa e, para descrevê-lo em seus detalhes, a autora não só usa inteligentemente os personagens da trama como também a transcrição de alguns dos documentos do Arquivo Central. Destas formas ficamos sabendo de forma dosada e progressiva toda a história de como aquela nova sociedade se formou, a origem de seus problemas e os avanços tecnológicos por ela alcançados.

Sobre a personagem principal posso dizer que é uma figura interessante e nada sintética. Vou explicar.

Mesmo sendo androides os replicantes são tão humanos quanto nós, são inclusive feitos de células orgânicas. Pouco os diferenciam de nós, e nos assemelhamos pelas capacidades emotivas e intelectuais, o que nos difere é uma ou outra característica física, a origem de nascimento e o fato de que estes não possuem parentes ou infância. Foram criados para tarefas pesadas e de combate mas se igualaram a nós naquilo que nos faz humanos. Com Bruna não é diferente. Ela é uma rep. forte física e emocionalmente falando, mas também consegue ser sensível. Tem suas paranoias e suas dores. É impulsiva e fala o que lhe vem à mente sem medir muito bem as suas palavras, ainda que depois ela se arrependa. Um temperamento difícil enfim. E além disso amarga a expectativa da morte certa e datada, que ela conta regressivamente, a todo o momento, em anos, meses e dias. É certamente uma pessoa oprimida pela sua condição de replicante à espera da chegada de seu TTT, a morte replicante.

Capa da edição espanhola de El Peso del Corazón
Em uma entrevista sobre o livro El Peso del Corazón, que dará continuidade a Lágrimas na Chuva – ainda sem publicação no Brasil – a autora afirma que Bruna é a personagem com quem mais se identifica por se parecer muito com ela. Fico me perguntando que traços as aproximam. Me pergunto também que tipo de pessoa seria Rosa Monteiro e isso me leva a pensar que deveríamos saber mais sobre os autores que lemos, não é mesmo?

Com certeza Lágrimas na Chuva é um livro promissor, mas que deixou um pouco a desejar com seu desfecho um tanto em aberto. O segredo é revelado, mas a forma como tudo se dá quebra um pouco do ritmo da história. A explicação é pouco convincente até mesmo para os personagens e a sensação é que a trama do livro é só a ponta do iceberg, como se a autora reservasse algo maior para outro livro. Por isso minha esperança está em El Peso del Corazón que fora classificado pela Porto Editora como o livro mais realista da autora.

Por fim, gostaria de comentar que a primeira coisa que me deixou curioso no momento em que esbarrei nesse livro durante a montagem do itinerário da campanha do #AnoDaEspanha foi o motivo de ser seu título tão singular: Lágrimas na Chuva do original em espanhol Lágrimas en la Lluvia. Esse título possui uma estética interessante que parece quase filosófico e de imediato evoca na nossa imaginação uma imagem tão bela quanto inquietante de alguém que chora embaixo da chuva. Acho que foi isso que me fez escolher este livro em lugar de outras obras de Rosa como A Louca da Casa ou Instruções para Salvar o Mundo. Foi de certo a imagem provocada pelo título. Pensei inclusive em contar aqui o motivo do título, mas não vou. Deixei apenas uma pequena pista no começo da resenha.

A edição lida é da Editora Nova Fronteira, do ano de 2014 com 368 páginas e tradução de Celina Portocarrero.

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quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Império de Diamante – J. M. Beraldo - Resenha

Por Eric Silva

Primeiro livro de fantasia inspirado na África que eu já tenha ouvido falar na literatura brasileira, Império de Diamante, do escritor de ficção científica e game designer brasileiro, João Marcelo Beraldo, foi mais um livro da nova geração de escritores nacionais que tem me reaproximado da literatura brasileira. Ambientado em um universo de guerras territoriais e religiosas que se mesclam a seres mágicos e um imperador imortal que se impõe como um deus entre os homens, Império de Diamante é um livro cheio de aventuras, lutas e mistérios que em uma narrativa bem construída, intensa e agitada pelo calor de muitas batalhas prende o seu leitor até o fim da leitura.

Sinopse

Myambe é um vasto continente repleto de diferentes culturas e de onde se originou a maioria dos povos do mundo. Porém há alguns milênios surgira ali um poderoso e imortal guerreiro, que reconhecido pelo seu povo como o deus-vivo, empreendeu uma longa campanha de guerra para subjugar os povos hereges e impor o seu próprio culto. Sob o comando deste Deus sem nome, ergue-se um dos mais poderosos impérios do planeta com um regente que é eterno e um exército de poderes sobrenaturais.

Contudo após milênios de governo próspero o Império de Diamante se encontra em rápido processo de decadência. A terra morre e com ele o seu povo, acometidos pela fome causada pela seca terrível. Apenas na capital, Jimfara, ainda impera a prosperidade, apesar de que após vinte longos anos, a ausência do imperador em reclusão pode ser sentida. Aproveitando da fragilidade do império, grupos rebeldes se erguem para derrubar o império monarca imortal e fazer ressurgir as culturas e religiões que outrora foram subjugadas. Em meio a este cenário de caos, quatro homens com vidas, crenças e interesses diferentes terão seus caminhos cruzados com o próprio destino do Império e com o mistério da origem do deus-vivo e ajudarão a decidir a sorte de toda a Myambe.

Resenha

Myambe é um continente marcado por guerras religiosas e expansionistas, mas cujo reino mais poderoso demonstra fortes sinais de desgaste. A população pobre, desesperada sucumbe à fome devido a uma seca severa e o seu Imperador, visto como um Deus entre os mortais e que subjugou dezenas de civilizações descrentes em relação a sua religião, por duas décadas se mantem recluso após ser ferido em combate.
Mapa de Myambe

Na clara ausência do Imperador seus sacerdotes de maior escalão assumem o governo da capital buscando manter os palacianos ignorantes em relação a situação de caos que se instalara além das fronteiras da capital, nas províncias mais distantes e também nas fronteiras, abandonadas à própria sorte pelo poder central.

Neste cenário emergem os quatro principais personagens da trama: Rais Kasim, um miliciano de Myambe que tendo lutado na guerra dos povos do Vale contra o Imperador de Diamante vai embora para terras estrangeiras e quando retorna é chefe de um pequeno e heterogêneo grupo de milicianos estrangeiros; Adisa, um jovem sacerdote do Império, com o talento de compreender toda e qualquer linga existente ou extinta, e que imerso em uma fé profunda no deus-vivo desconhece todos os problemas que vem enfrentando o povo de Myambe, mas que de repente se vê envolvido com os mistérios de seu imperador; Zaim Adoud, o general e governante da esquecida província fronteiriça de Abechét e que se vê com grandes dificuldades de gerir os problemas da cidade, da falta de compromisso e dos casos de heresia da elite local, bem como os problemas do crescimento descontrolado da comunidade de migrantes nos limites de Abechét e da escalada de violência de rebeldes contrários ao seu governo e ao do Império, sem que para enfrentar tantos problemas tenha nenhum apoio do governo da capital; e, por fim, Mukhtar Marid, líder das forças rebeldes do povo do Vale e fiel da crença a Estrela da Manhã, que com seus poucos soldados fieis, buscam uma maneira de pôr fim ao reinado do imperador imortal. Quando os caminhos destes quatro homens se cruzam o Império parece confluir para o seu destino em uma trama que envolve ação, aventura, magia e lutas que parecem impossíveis.

O primeiro a quem somos apresentados é a Rais Kasim ainda em meio ao calor da batalha contra a campanha imperial de anexar as terras do Vale ao império. Nesta batalha somos também apresentados ao formidável exército do imperador e, sobretudo, aos primogênitos, guerreiros poderosos que cobriam seus rostos com longas tiras de contas coloridas, donos de poderes sobre-humanos e temidos pela sua pretensa imortalidade. É ai, logo no começo, que o autor nos apresenta a grandiosidade do implacável exército imperial e a forma como o próprio Imperador é gravemente ferido em uma cena agitada de uma batalha desesperada entre o enfraquecido exército do Vale ante outro poderoso e invencível.

Após aquela batalha o império de Diamante já não seria o mesmo e a fome e a miséria arrasaria com todas as terras além da capital. Também Rais deixaria o continente para voltar vinte anos depois, sem ter conhecimento dos problemas em que Myambe fora mergulhada depois daquela batalha. Ao longo dos demais capítulos vamos conhecendo os demais personagens e suas histórias, até que elas se encontrem em caminhando a narrativa para o seu desfecho.

O Autor
Em o Império de Diamante, J. M. Beraldo tece uma narrativa complexa e inspirada na geografia física e cultural do continente africano. É a primeira vez em que leio um livro brasileiro onde os negros são os personagens principais e ao mesmo tempo que destaca o poder e a coragem de seu povo sem retrata-los nem como escravos, nem como membros de comunidades urbanas periféricas e empobrecidas – o que me deixou muito feliz. Beraldo parece se inspirar na força natural das tribos africanas e dos antigos impérios que ali existiam antes da chegada dos colonizadores. Povos que tiravam de suas relações com a natureza não só o substrato de sua fé, como também a força guerreira que faz das culturas africanas não apenas curiosas como sublimes e fascinantes. Por isso as imagens que são evocadas pela narrativa são fortes e impactantes, como a dos guerreiros do imperador de Diamante com suas máscaras de contas coloridas, com as poderosas zebras que lhe serviam de montaria e o poder mágico que deles emanavam.

Acho a África, com sua riqueza natural-paisagística e também cultural, um lugar sublime, ainda que marcado por chagas sociais profundas. Isso fez com que me identificasse de imediato com a narrativa de Beraldo que busca naquele continente a inspiração para criar Myambe e a complexa trama social e cultural de seu território, impossíveis de abarcar toda em uma só resenha.

Quanto ao enredo, o Império de Diamante é um daqueles livros que se devora rápido porque a todo o momento algo está acontecendo. Não é nem de longe uma trama parada, e o mistério de quem é de fato o imperador, se ele é realmente imortal, se de fato é um deus, bem como de qual é sua origem, permeia toda a narração como um fantasma que persegue os seus personagens. Além disso, o autor consegue um desfecho inesperado, realmente surpreendente em que muitos dos mistérios são revelados, mas algumas questões sobre o destino do continente negro ficam em suspenso e à espera da continuação da série.

Além disso a narrativa é fácil de compreender sem ser reducionista ou simplória e sem se descuidar com a qualidade da escrita, das descrições e do desencadeamento das ideias, cenas e acontecimentos. Cuidados que são essenciais para uma boa história e que junto com a qualidade e criatividade da ideia nos faz ter vontade de ler a continuação da narrativa.

Confesso que nunca tinha ouvido falar de Beraldo, mas a Editora Draco tem se revelado para mim, assim como as cavernas dos quarenta ladrões foi para Ali Babá, um recanto cheio de tesouros escondidos a espera de quem os encontre. E eu encontrei Eduardo Kasse, Ana Lúcia Merege e, agora, J. M. Beraldo. Três pérolas da literatura fantástica nacional que até então desconhecia. Kasse com a melhor história de vampiros que já li: o Andarilho das Sombras; Ana Lúcia com sua escrita gostosa, primorosamente bem feita e cheia de mágica que encontrei em O Castelo das Águias e em Anna e a Trilha Secreta; e agora Beraldo com este livro diferente de qualquer coisa que já li na nossa literatura. Autores antenados com os temas e os estilos que os brasileiros vão normalmente busca na literatura estrangeira e que mostram que boa literatura fantástica é feita aqui mesmo no Brasil.

A edição lida é digital, cedido pela Editora Draco, publicada no ano de 2015. A edição impressa possui 328 páginas e a história tem continuidade com o livro ÚltimoRefúgio.

Abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Google Books.


Prévia do Google Books

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Anna e a Trilha Secreta – Ana Lúcia Merege - Resenha

Por Eric Silva

Recentemente resenhei um dos principais livros da autora brasileira Anna Lúcia Merege, o primeiro livro da série Athelgard, O Castelo das Águias. Na ocasião da publicação a autora ficou sabendo da nossa resenha e nos deu o privilégio de lê-la e o prazer de manifestar sua opinião sobre ela. Mas mais do que isso Anna Lúcia nos enviou duas de suas outras obras para doação a biblioteca de nossa cidade: a Biblioteca da Filarmônica 30 de Junho. Uma atitude bonita e que permitirá com que os serrinhenses conheçam também um pouco de sua obra.

O primeiro dos livros é O Caçador, a primeira obra de ficção da autora e que resenharemos em breve, e o outro livro é Anna e a Trilha Secreta, obra pertencente ao universo de Athelgard e que será o tema desta resenha.

Sinopse

Anna é uma garota humana, mas que foi criada por sua avó entre os elfos da tribo da Floresta dos Teixos. Na tribo, cada um possui suas próprias responsabilidades e todos trabalham em conjunto para o bem estar e sobrevivência da comunidade. Porém Anna é mais lenta e mais forte do que seus amigos e muitas vezes o trabalho mais pesado acaba sendo dela, o que incomoda bastante a menina que se sente diferente dos demais por ser humana.

Como nem a avó, Kyara, e nem o primo xamã, Zendak, respondem às dúvidas que inquietam seu coração, Anna vai ao encontro de Maryan, sua mestra e esposa de Zendak. Contudo, também Maryan estava muito atarefada para dar a atenção que a menina necessitava naquele momento, mas encube à Anna a missão de levar a Zendak uma bolsa de talismãs que ela havia terminado de preparar.

Um tanto desconsolada, Anna aceita sua tarefa e regressa à floresta com a bolsa, porém, antes que encontrasse o primo, é surpreendida pelo ataque de uma coruja que rouba-lhe a bolsa. Aflita a menina resolve perseguir o animal pela floresta e dá início a uma aventura por uma trilha secreta que irá mudar toda a sua vida.

Resenha

Anna e a Trilha Secreta é uma novela infanto-juvenil que fala de identidade, de afirmação, de coragem e determinação. O livro não só complementa o universo da série Athelgard como dá ao seu leitor um entendimento mais amplo e próximo das origens de sua personagem principal. É uma história curta, mas povoada de significados e simbologias.
A autora

Na resenha do livro O Castelo da Águia abordei a forma como a personagem Anna de Bryle possuía uma forte identidade étnica e um sentimento de pertença muito grande em relação aos membros da tribo da Floresta dos Teixos. A Trilha é sem dúvida a resposta de como se formou esta identidade. Ao longo da narrativa, a menina órfã, humana e criada pela avó elfa em meio ao seu povo vai ganhando os primeiros contornos da mulher corajosa e identitariamente ligada ao seu lugar de origem, a mestra de sagas de O Castelo. Em a Trilha Secreta Anna é apresentada ainda criança e tem seus primeiros contatos com os espíritos guardiões de sua tribo.

Muitas vezes temos dúvidas sobre nosso papel no mundo, sobre a nossa função dentro do grupo, principalmente se nos sentimos diferente dos demais. Quando nos sentimos assim, às vezes, é necessário que ouçamos a opinião de outras pessoas, mais vividas e com mais experiência e que nos ajudam a reconhecer a nossa importância para o grupo. Mas, às vezes, é necessário mais que isso. É preciso que vivamos uma situação limite, que ponha a prova o conhecimento que temos de nós mesmos e do mundo para que, então, possamos reencontraram nosso caminho ou encontrar um caminho novo.

Esse primeiro encontro com as divindades da floresta será para Anna um desafio que lhe servirá não apenas como um teste, mas como um caminho de autoconhecimento, de formação e afirmação da própria identidade, o que será significativo para o seu auto-reconhecimento como membro legítimo do grupo. Desta forma, nas entrelinhas a autora vem trazer um ensinamento da necessidade de que trilhemos estes caminhos de autoconhecimento bastante espinhentos, algumas vezes tortuosos e incertos, para que saiamos deles renovados ou transformados, mas, com certeza, mais fortes. Não se trata apenas de um teste, mas uma busca por respostas, uma busca por nós mesmos.

Assim como em o Castelo das Águias, Anna e a Trilha Secreta também é uma história cheia de referências que se mesclam para compor as características culturais do povo da Floresta dos Teixos. Notei que a autora miscigena traços da cultura indígena norte americana com os mitos de alguns povos antigos da Europa, para compor os traços culturais da tribo de Anna.

Nas divindades da tribo da Floresta dos Teixos encontramos a referência aos indígenas norte-americanos que, em suas crenças, cultuavam animais como o lobo, o corvo, o urso, o coiote, a coruja e a águia. Estes indígenas também tinham no xamã seu guia espiritual e de contato com as divindades da floresta. Alguns destes animais sagrados também figuram o grupo de espíritos guardiões da comunidade de Anna e mesmo Zendak é um xamã, cujo guia é o corvo. Por sua vez, na espécie do povo da Floresta dos Teixos e na própria simbologia do teixo, uma espécie de árvore ancestral (vivem até 1200 anos) muito comum em alguns países europeus, vemos a referência às crenças nórdicas e célticas que acreditavam em elfos e outras criaturas míticas da floresta.

Arilos (maduro e imaturo) e folhagem de teixo. Wikimedia Commons.
Não sei os motivos que levaram a autora a escolher o teixo como símbolo da tribo de Anna, mas esta árvore por si só é muito peculiar. Descobri que além de tomar diferentes formas durante o seu lento processo de crescimento, o teixo é bastante conhecido pela alta toxidade de seus frutos e folhas (todas as partes do teixo são venenosas exceto os seus arilos[1]). Curiosamente suas folhas podem permanecer até 8 anos no ramo[2] e sua madeira, pela resistência, era uma das preferidas para a fabricação de arcos na Idade Média[3]. Mas algo mais curioso veio de um pesquisador alemão, Fred Hageneder, que em suas pesquisas descobriu que o teixo foi associado por algumas culturas antigas ao mito da Árvore do Mundo original[4]. Hageneder inclusive é autor de um livro sobre o teixo que se chama Yew – A History (Teixo – uma história).

Hoje o teixo é uma árvore ameaçada de extinção[5], mas coincidência ou não, existe realmente uma floresta de teixos na Reserva Natural Nacional de Kingley Vale. Kingley Vale fica em West Sussex, no sul da Inglaterra e lá fica uma das mais belas florestas de teixos da Europa. Segundo a lenda local, as arvores teriam teria sido plantadas como um memorial para uma batalha travada entre vikings e anglo-saxões ainda no ano de 859 d.C[6]. Ver as imagens de Kingley Vale nos dá uma ideia concreta de como deve ser a floresta da tribo de Anna imaginada por Merege.

Teixos da Reserva Natural Nacional de Kingley  Vale. Imagem: http://misteriosdomundo.org/

Por seu turno, os elfos figuram a mitologia dos povos escandinavos e dos celtas, interpretados como criaturas mágicas, imunes a velhice e a doença, mas que foram demonizados pelo cristianismo surgente na Europa[7]. Desta forma fica visível como a autora combina de forma harmoniosa um caldeirão de culturas antigas para compor o universo de Athelgard.

Por fim, uma coisa que gostaria de destacar é uma das minhas passagens preferidas no livro: o capítulo que fala dos Bosques sem Fim que crescem e se deslocam incessantemente impossibilitando que qualquer um encontre uma saída. Leia um trecho:

A floresta foi ficando mais e mais sombria. Não era apenas a escuridão da noite, que mal lhe permitia enxergar um palmo a frente do nariz; eram também as árvores, cada vez mais próximas uma das outras além de maiores e mais altas. Não brilhavam como no território do Lobo, mas seus galhos se torciam de forma estranha, e algumas vezes não se pareciam com as árvores que Anna conhecia da Floresta dos Teixos. Ou melhor, tinham alguma semelhança, mas estas se misturavam de um jeito que a deixavam confusa. Ela viu carvalhos nodosos cobertos por agulhas de pinheiro, troncos claros e retos de bétula encimados por copas frondosas, ramos de faia carregados de avelã. Algumas folhas tinham formatos que Anna nunca vira, e cores também, a julgar pelo que enxergava na escuridão crescente. Esse era o pior dos seus problemas: ela não tinha meios de se orientar. Nem conseguia enxergar uma trilha em meio às árvores, que cresciam em zigue-zague.  

Gostei do capítulo que fala do Bosque por dois motivos. O primeiro é que ele me fez lembrar a poesia de García Lorca, Manancial, que coloquei aqui no blog em uma postagem especial da campanha do #AnoDaEspanha. Na passagem mais bela deste poema, Lorca cria um efeito estético impressionante que envolve movimento e magia quando o eu lírico do poema, enquanto contempla o rio, transforma-se em uma árvore às suas margens. De alguma forma imaginar o bosque de Ana Lúcia ativou em minha memória a sensação que senti ao ler o poema de García Lorca, o mais belo do autor na minha opinião.

O segundo motivo foi me fazer lembrar de labirintos, uma imagem que para mim tem muitos significados e que me fez encarar os Bosques sem Fim como uma alegoria[8]. O bosque é nós mesmos, complexos em continua mudança e onde sentimentos, crenças e certezas podem se perder e dar lugar a desesperança. Também é a vida em completa e constante transformação e que se não formos capazes de um olhar total (de cima) acaba por nos tornar incapazes de antever a saída para nossos problemas. O bosque que se movimenta e se modifica é a vida que nos faz mudar de estratégia, que nos faz buscar novos olhares e nos adaptarmos dando resposta às adversidades, sobretudo quando a forma como abordamos os problemas se mostra ineficiente.

Talvez eu tenha ido um pouco longe. Só quem ler ou já leu poderá dizer se me deixei devanear, mas não é sempre que eu encontro tantos símbolos nas entrelinhas de um infanto-juvenil, mas já percebi que essa é uma marca das histórias de Ana Lúcia. Também, para quem lê os livros da autora, Anna e a Trilha Secreta é uma oportunidade de conhecer a personagem Anna quando ainda era criança. Nesta narrativa a menina ainda ignora o que acontecerá em seu futuro, mas os fatos ocorridos na trama lhe revelam lampejos de seu destino nas Terras Férteis.

A edição lida é da Editora Draco, do ano de 2015 e possui 83 páginas. Abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Google Books. Para o pessoal da Biblioteca da Filarmônica: em breve o livro estará lá para todos.


Previa do Google Books






[1] O arilo (arillus) é uma cobertura carnuda de certas sementes, formado a partir do funículo.
[2] http://www.aag.pt/fotos/agenda/ag_3520.PDF
[3] http://www.ehow.com.br/arvores-usadas-arcos-longos-info_190760/
[4] http://www.o-significado-das-arvores.net/o-teixo-e-falsos-conceitos-na-hist%C3%B3ria-religiosa
[5] http://www.aag.pt/fotos/agenda/ag_3520.PDF
[6] http://misteriosdomundo.org/a-antiga-floresta-de-teixo-de-kingley-vale/
[7] http://super.abril.com.br/historia/o-que-sao-os-elfos
[8] “Modo de expressão ou interpretação que consiste em representar pensamentos, ideias, qualidades sob forma figurada” (HOUAISS, 2001).
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