sábado, 25 de fevereiro de 2017

[Lista] 9 livros para ler no Carnaval

Por Eric Silva



O carnaval está ai e muitas cidades como Salvador, Recife e o Rio de Janeiro já estão fervilhando de foliões numa explosão de cores e sons. Mas se o carnaval é para muitas pessoas um período de folia, para outras como eu é um daqueles momentos imperdíveis para pôr as leituras em dia ou começar um bom livro. Pensando nisso, selecionei para vocês 9 indicações de bons livros, de gêneros e autores diferentes e que espero agradar aos leitores dos mais diversos gostos. Confiram.

[Humor Erótico]
A Mulher que Escreveu a Bíblia – Moacyr Scilar

Boa pedida para quem está afim de dar boas gargalhadas, A Mulher que Escreveu a Bíblia, do brasileiro Moacyr Scilar, conta as memórias de uma mulher que, ao fazer terapia de regressão a vidas passadas, recorda-se de quando foi uma das 700 esposas do rei Salomão, a mais feia do harém, mas que também foi a primeira redatora do livro mais lido do planeta: a bíblia.

O livro é bastante cômico apesar de polêmico, com uma narradora inteligente, divertida e desabusada e, nas entre linhas, traça críticas indiretas ao culto à beleza e ao machismo da sociedade da época. Esse é também o quarto livro da campanha do #AnoDoBrasil.




[Histórico]
A Catedral do Mar – Ildefonso Falcones

A melhor obra de ficção resenhada no blog em 2016 e também parte integrante da campanha do #AnoDaEspanha, A Catedral do Mar é o livro de estreia do escritor barcelonês Ildefonso Falcones.
Épica e intensa, a trama deste livro é ambientada na próspera cidade de Barcelona do século XIV e conta, paralelamente, a história da construção da Catedral de Santa Maria del Mar e a intensa e conturbada trajetória de vida de um dos seus mais devotados filhos, Arnau Estanyol.

Arnau era filho de um camponês que, em busca de liberdade, foge do seu senhor feudal e se refugia com o filho na cidade de Barcelona na esperança de tornar-se um cidadão livre. Crescendo pelas ruas da cidade condal e acompanhando o trabalho de construção da igreja de Santa Maria, Arnau conhece a tirania dos nobres, a revolta, a pobreza e a fome. Buscando sobreviver às injustiças de sua época, o menino vive uma vida fatigante, mas repleta de aventuras e desventuras que lhe conduziriam a um destino surpreendente e epopeico.

Este é um livro ideal para quem gosta de uma boa história medieval, épica sem deixar de ser realista, bem escrito e com personagens marcantes. Quem gosta de história medieval lê e não consegue parar mergulhando profundamente no universo da época. Não é à toa que o autor tenha virado um fenômeno editorial na Espanha depois da publicação desse livro.


[Ficção Científica]
Lágrimas na Chuva – Rosa Montero

Futurista, distópico, policial e também ficção científica Lágrimas na Chuva é um livro completo e incrível escrito pela espanhola Rosa Montero.

Interessante e ambientado em um universo primorosamente construído pela sua autora, Lágrimas na Chuva se passa no ano de 2109, quando a Terra já é bastante diferente do que conhecemos e bem mais segregada. Os seres humanos dividem o planeta com criaturas alienígenas e androides orgânicos criados em laboratório, os replicantes. Neste mundo futurista a detetive particular e replicante Bruna Husky se vê implicada em um caso que ameaça a frágil paz entre humanos e androides quando um surto de assassinatos cometidos por replicantes deixa tensa a cidade de Madri dos Estados Unidos da Terra. Ao mesmo tempo, arquivos da história mundial estão sendo reescritos para incitar o ódio aos replicantes e um agressivo partido supremacista humano desponta no caótico cenário político. Contratada pelo Movimento Radical Replicante para descobrir o que está por trás dos assassinatos, Bruna embarca em uma investigação que pode virar de ponta cabeça a sua vida e decidir o destino da paz entre as espécies.

Lágrimas na Chuva é uma boa sugestão tanto para os fãs do gênero policial quanto para os amantes de ficção científica e distopia, porque nele você encontrará um pouco dos três. Esse livro também foi parte integrante da nossa campanha do #AnoDaEspanha no ano passado e ficou entre as cinco melhores obras de ficção da nossa retrospectiva de 2016.


[Fantasia Infantojuvenil]
Anna e a Trilha Secreta – Ana Lúcia Merege

Sugiro para o gênero infantojuvenil o delicado e profundo, Anna e a Trilha Secreta, livro da escritora brasileira Ana Lúcia Merege que fala sobre a infância de Anna entre os elfos da tribo da Floresta dos Teixos.

Personagem principal da série Athelgard, Anna quando criança vivia o dilema de ser uma criança humana numa tribo élfica onde todos eram tão diferentes dela. Como nem a avó, Kyara, nem o primo xamã, Zendak, ou sua mestra, Maryan, respondem às dúvidas que inquietam seu coração, Anna acaba se envolvendo em uma grande aventura arquitetada pelos seres da floresta e guardiões de seu povo através de uma trilha secreta da floresta e que mudará toda a sua vida.

Bastante delicado e trazendo uma bela mensagem de aceitação, autoconhecimento, identidade e autoestima, esse é também um livro essencial para os fãs da série e uma chance de conhecer mais profundamente a trajetória da protagonista Anna.




[Drama e Mistério]
A Sombra do Vento – Carlos Ruiz Zafón

Livro que inspirou nossa campanha do #AnoDaEspanha em 2016, A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón é o primeiro volume da série O Cemitério dos Livros Esquecidos. O best-seller espanhol é uma das mais belas histórias resenhadas aqui no blog e narra as aventuras de Daniel Sempere, um jovem barcelonês, filho de um livreiro da rua Santa Ana e que vivia em uma Barcelona dominada pela repressão do governo franquista.

Em uma noite, quando ainda era menino, Daniel acorda desesperado ao constatar que não lembrava mais do rosto da mãe falecida. Para consolá-lo, o pai leva o menino para uma biblioteca secreta onde eram guardados milhares de livros a salvo da ditadura. Ali o menino conhece A Sombra do Vento o livro de um autor pouco conhecido chamado Julián Carax. Obcecado pela história do passado nebuloso do escritor do livro, Daniel segue em busca de desvendar a história de Carax, que há alguns anos desaparecera sem deixar rastros e estava tendo todos os seus livros sistematicamente destruídos por um misterioso incendiário.

Apaixonante e de qualidade ímpar, A Sombra do Vento está entre meus livros prediletos e é ideal para quem gosta de mistério e perseguição, personagens de passado obscuro e lugares incríveis. Além de drama e mistério, o livro ainda pode ser considerado histórico e nele você encontrará algumas pegadas de romance.

[Drama Romântico Jovem]
Beleza Perdida – Amy Harmon – Resenha

Um livro bastante tocante, Beleza Perdida da autora americana Amy Harmon conta a história de amor e superação de três jovens: Ambrose Young, Fern Taylor e seu primo Bailey.

Ambrose Young era considerado um dos garotos mais atraentes da escola e um dos principais atletas do time de luta livre, por isso muitas garotas estavam interessadas nele e entre elas estava Fern Taylor. Contudo, a garota se considerava feia demais para um dia ser notada pelo rapaz e se isso não bastasse sua melhor amiga também gostava dele. Tudo muda depois que Ambrose decide ir para a Guerra do Iraque e volta de lá transformado.

Um livro sobre superação, amizade e amor, Beleza Perdida conquistou minha admiração por um de seus personagens mais cativantes: o irreverente Bailey, portador de distrofia muscular de Duchenne, filho do treinador de Ambrose e mascote do time de luta livre. Por isso é uma boa pedida para os fãs de drama romântico e de romance jovem.



[Fantasia Gótica]
Lugar Nenhum – Neil Gaiman

Primeiro livro que li do aclamado autor britânico, em Lugar Nenhum Gaiman idealiza a fantástica e misteriosa Londres-de-baixo, uma cidade subterrânea que fervilha de vida no interior da rede de esgotos e tuneis de metrô abandonados, como um universo paralelo abaixo da capital inglesa. Uma outra Londres que abriga criaturas estranhas que se esgueiram na escuridão lamacenta ou na névoa mais densa, e que também é o lar e domínio de pessoas que apesar de maltrapilhas e cobertas de sujeiras carregam consigo a mesma altivez que outrora tiveram os nobres ingleses do século XVII.

Em uma aventura surreal pelos recantos obscuros desta cidade cheia de perigos, a vida enfadonha e acomodada de Richard é radicalmente transformada quando por acidente encontra Door, uma garota da Londres-de-baixo que está fugindo de dois implacáveis assassinos de aluguel que eliminou toda a sua família.

Se você gosta de universos singulares e criativos ou do gênero fantasia com uma pegada gótica ou com um caráter urbano e atual, talvez este livro seja uma boa opção.


[Vampirismo]
O Andarilho das Sombras – Eduardo Kasse

Um livro sobre fé e corrupção na Europa medieval, O Andarilho das Sombras, obra do escritor brasileiro Eduardo Kasse, é o primeiro da série Tempos de Sangue, e narra os primeiros passos da instigante história de Harold Stonecross e de como este se tornou um vampiro.

Filho de um importante senhor, Harold fugiu de casa ainda menino para viver uma aventura pelas estradas perigosas e cidades imundas da Europa medieval. Ao longo de sua jornada o menino cruza com várias pessoas que seriam decisivas para seu crescimento como pessoa o tornando valoroso e sensato, mas que seriam igualmente passageiras em sua vida. Contudo, chegaria o momento funesto em que Harold deixaria de caminhar como homem para se tornar a criatura amaldiçoada, sedenta por sangue e destruição, igualmente errante, e que levaria a morte e o sofrimento a todo lugar por onde passasse.

Em um livro primoroso e magnético, Kasse narra simultaneamente o presente e o passado de um personagem cativante, sarcástico e inteligente numa Europa cingida pela hipocrisia religiosa e pela peste. O livro é ideal para os fãs de história medieval e do vampirismo clássico.


[Policial Clássico]
Um Gato entre os Pombos – Agatha Christie

Segundo livro que li da minha amada Agatha Christie, Um Gato entre os Pombos é mais uma aventura de um dos detetives mais conhecidos da história do gênero policial: Hercules Poirot. Nessa narrativa difícil de resenhar sem dar spoilers, vamos do longínquo Oriente Médio a um respeitado colégio inglês para moças no rastro de uma série de assassínios misteriosos e acontecimentos que se interligam de forma inusitada.

Como é de se esperar de um livro escrito por Agatha Christie, esta é uma daquelas histórias em que algo parece óbvio, mas que serve apenas de fachada para mais um caso obscuro e labiríntico, com um assassino, no mínimo, inesperado. Um livro perfeito para quem gosta do gênero policial investigativo clássico, isto é, menos sangue e mais gênio e complexidade.



É isso aí, pessoal. Espero que tenham gostado da lista. Obrigado pela visita e que vocês tenham um ótimo carnaval, porque o meu será regado a café e na companhia de Lya Luft, Brian Herbert e Kevin J. Anderson. Deixem seus comentários e deem sugestões de novas listas. Até a próxima.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

O Jardim dos Esquecidos – Virgínia C. Andrews - Resenha

Por Eric Silva

Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.

Diga-nos o que achou da resenha nos comentários.


“Não é o amor que faz o mundo funcionar; é o dinheiro.”
(O Jardim dos Esquecidos – V. C. Andrews)

Chocante e envolvente, O Jardim dos Esquecidos, de Virgínia C. Andrews é um livro antigo que conheci há muitos anos, mas que só pude ler agora em 2017 e já está entre as melhores leituras deste ano. Nele conhecemos a história dramática de quatro irmãos que passam a viver escondidos, trancados no sótão da mansão dos avós maternos a espera de que o avô morra e a mãe herde uma fortuna que mudaria a vida dos cinco. Cruel e muito bem escrito, o primeiro livro da saga dos Foxworth abre alas para um drama psicológico que fez muito sucesso na década de 1980 e que já foi duas vezes adaptado para o cinema.

A resenha está dividida em dois grandes tópicos que descrevem os personagens principais, o enredo e apresentam minhas impressões da obra.

Resenha

Já faz mais de quatro anos que vi pela primeira vez este livro e lembro que, naquela época, fiquei muito interessado em lê-lo. Pesquisei sinopse, resenha, os livros da continuação da série, mas, devido a universidade e ao trabalho, que juntos me tomavam três turnos do dia, eu quase não tinha tempo de ler. O pouco tempo que dispunha mal dava para a leitura das matérias obrigatórias da faculdade. Por isso, esse foi um período quase sem literatura para mim e ler O Jardim dos Esquecidos tornou-se um projeto para um futuro que demorou a chegar.

Só ano passado decidi que mudaria esta situação, nas férias de janeiro, mas mesmo nesse período tinha matérias do curso de especialização para estudar. Acabei lendo só agora em fevereiro e não me arrependi, ou melhor, lamento não ter podido fazer antes.

Em uma de suas séries mais famosas, a estadunidense Virgínia C. Andrews conta a história dramática dos irmãos Chris, Cathy, e dos gêmeos Carrie e Cory, com início nos eventos descritos em O Jardim dos Esquecidos e prosseguimento nos outro quatro livros da saga: Pétalas ao Vento, Espinhos do Mal, Sementes do Passado e O Jardim das Sombras. Hoje falarei apenas do primeiro e espero o quanto antes prosseguir com a leitura dos demais.

O enredo: crueldade, ambição e fanatismo

Os irmãos Dollanganger em adaptação para o cinema.
Da esquerda para direita: Chris, Carrie, Cory e Cathy.
A família Dollanganger era muito feliz até a morte repentina do pai em um acidente de carro. Mergulhada em dívidas que não podia pagar e preste a ser despejada de sua casa com os quatro filhos, a viúva, Corrine, decide pedir auxílio aos pais milionários dos quais esteve por muito tempo afastada após ter sido deserdada pelo pai. Em cartas escritas para a mãe, Corrine explica sua situação desesperadora e pede a ela que a ajude com o pai que nunca perdoara a filha por seu casamento incestuoso com o meio-tio. Após muitas cartas sem respostas, a avó das crianças cede, e trama uma maneira da filha reconquistar a confiança e o amor do pai enfermo.

Explicando aos filhos os sérios problemas financeiros deixados pelo marido, Corrine convence os quatro a se mudarem para Foxworth Hall, a mansão de seus pais, explicando que bastaria ela reconquistar o carinho do pai para que eles passassem a viver uma vida de luxo. Deslumbradas as crianças chegam a mansão com sonhos de riqueza, mas se deparam com uma realidade bem diferente quando são informados que deveriam ficar trancados em um quarto do sótão para que ninguém soubesse de suas existências até que a mãe reconquistasse o pai ou este acabasse por morrer. Daquele dia em diante, os quatro cresceriam afastados do mundo exterior e seriam submetidos a tirania e violência da avó fanática que os desprezava e via nos netos o fruto diabólico da relação incestuosa da filha.

O Jardim dos Esquecidos é uma história que prende o leitor pela imprevisibilidade da história, pelos personagens complexos e envoltos por segredos e dissimulações, mas, principalmente, pela situação tão atípica, desumana e irracional que dá corpo a história.

É difícil imaginar o que aconteceria a quatro crianças que fossem obrigadas a ficarem presas dia e noite e por anos em um quarto de sótão, apenas para que ficassem escondidas do restante do mundo. Incógnitas e invisíveis até que um pretenso avô morresse e lhes deixassem de herança uma riqueza incalculável. É absurdo só de imaginar, mas Virgínia o faz de forma brilhante, aliando, de maneira bem dosada, crueldade, amor e ambição sem abusar muito dos clichês ou transformar estes três elementos em lugar comum na história.

Narrado pela perspectiva da inteligente e emotiva Cathy, anos após os dias vividos no sótão, a narrativa de O Jardim dos Esquecidos não é apressada e se desenvolve quase que totalmente no que acontecia no quarto em que as crianças eram mantidas presas. Essa relativa lentidão – que a gente nem percebe direito pela forma como imergimos nas dúvidas e apreensões da narradora – permite com que a história siga um desenvolvimento bastante natural enquanto que, de forma bem sutil, a autora vai modificando seus personagens, moldando-os e evoluindo-os ao longo do tempo da narrativa.

Por ser a autora tão detalhista nos pequenos momentos, e por ser tão sutis e gradativas as modificações sofridas pelas crianças, este livro me fez sentir uma sensação estranha, que outrora nenhum outro havia me inspirado, de que até certo ponto nada daquilo era ficção, que havia sido real. Se isso já não bastasse, em cada descrição de seus sentimentos, das reações percebidas ou das palavras ditas ou pensadas, Cathy é fiel aos detalhes não apenas como se rememorasse os fatos, mas como se tornasse a vivê-los.

Os personagens e os aspectos psicológicos da trama

Muito bem construídos e de uma vivacidade que os tornam verossímeis[1], os personagens de Virgínia são de personalidades muito bem demarcadas, e se em alguns momentos parecem momentaneamente apáticos é porque as circunstâncias da trama os levaram a sê-los.

Cathy é inteligente e amorosa, mas é também a mais decidida a enfrentar os adultos e desconfiar deles. É também a mais atingida pelo terrível jogo psicológico da avó e a que mais se preocupa com o bem estar dos irmãos. Chris, por sua vez, é inteligente, sensato e muito otimista o que faz com que o personagem algumas vezes seja ingênuo e confiante demais, porém é também capaz de sacrifícios extremados e de correr perigo pelo bem dos irmãos e para a sobrevivência de todos.

Os gêmeos apresentam entre si uma sintonia e companheirismo bem grande, que não é tão bem desenvolvida na trama como aquela entre os dois mais velhos, mas que é sempre explicitada pela narradora. O menino, Cory, se destaca pelo seu talento inato pela música e pelo carinho e dedicação à irmã gêmea. Por sua vez, Carrie é a mais tempestuosa e imperativa das quatro crianças, além de ser exigente e birrenta e cujas ações quase sempre dificultava a vida no sótão.

A autora
Da sua parte, a avó é, ao longo da história, como uma aparição tenebrosa e ameaçadora, como uma fera sempre a espeita e a espera de que uma das crianças fizesse algo de errado. Sua presença “física” não se faz tão frequente na narrativa e vai se reduzindo gradativamente para se destacar apenas nos momentos mais cruciais da história, principalmente porque suas idas ao quarto dos netos indesejados eram rápidas e a mesma, em um determinado ponto da história, se recusava a dirigir a palavra a eles. No entanto, a todo momento a eminência de sua chegada – sempre sorrateira – é o que deixa mais tensa as crianças. Sádica e indiferente as tentativas de aproximação dos netos, era uma mulher que, através de seu fanatismo religioso arraigado e da brutalidade de suas ações, sabia manipular psicologicamente as crianças se comportando sempre como uma pessoa de atitudes difíceis de prever ou compreender.

Contudo, o personagem mais dúbio[2] é a mãe, Corrine. Imprevisível, é sempre difícil saber o que ela de fato pretende ou quer. Amor e dedicação nesse personagem se mistura a negligencia. Todavia, a peculiar posição em que ela se encontra e que a força a esconder os filhos faz com que seja difícil formular uma opinião concreta sobre ela.

Com personagens de personalidades bem distintas e tão bem demarcadas, mas submetidos a uma situação hostil, esse é um romance onde a análise e a transformação psicológica dos personagens tem presença forte.

O jardim dos esquecidos trata de como tudo o que é extremo faz mal e traz frutos ruins. A fé levada ao extremo faz com que a avó trate de forma cruel os próprios netos. O apego extremado ao dinheiro e à vida despreocupada e fácil que ele proporciona leva Corrine a expor os filhos a uma situação também extrema e sobre-humana de reclusão. [SPOILER em itálico] E essa mesma atitude leva à mudança na saúde física e mental das crianças, levam-nas a mudar e inverter seus papéis, a se sentirem sexualmente atraídas umas pelas outras, a absorverem percepções de mundo que não entrariam em contato ou desenvolveriam em outro contexto e mexe de forma irreparável no psicológico delas. Experiências traumáticas que resultam em problemas psicológicos profundos.

Em conclusão, digo que é um livro surpreendente e envolvente até o final. Chocante pela crueldade a que as crianças são submetidas, mas que te faz seguir até o desfecho para saber o que acontece a cada personagem. Contudo, o final é semiaberto, por fechar apenas algumas das principais questões e revelar só alguns dos segredos da família de Foxworth Hall. Por fim, ele deixa o destino final das crianças para o volume seguinte, o que te faz ansiar ter a mão o segundo livro.

A edição lida é da Editora Francisco Alves, do ano de 1982 e possui 285 páginas. Abaixo você pode conferir uma prévia da edição do livro publicado em 2014 pela editora Figurati e que encontra-se disponível no Google Books.

Prévia do Google Books



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[1] Que parece verdadeiro, real (Houaiss, 2001).
[2] Sujeito a diferentes interpretações; ambíguo (Houaiss, 2001).

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Crave a Marca – Veronica Roth – Resenha

Por Eric Silva

Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.

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“Sou shotet. Sou tão afiado e frágil quanto vidro quebrado. Conto mentiras melhor do que digo a verdade. Vejo tudo da galáxia e nunca tive um vislumbre dela”.
(Crave a Marca – Veronica Roth)

Nações em guerra, viagens intergalácticas, vários mundos e uma poderosa força que, sempre se fazendo presente, influencia a vida de todos. Pode parecer coisa de Star Wars, mas não é. A resenha de hoje vai falar de Crave a Marca, um dos últimos livros da autora estadunidense Veronica Roth que ficou mundialmente conhecida pela série Divergente. Dessa vez, a aposta da autora é em uma nova duologia onde fantasia e ficção científica se misturam para compor uma trama de luta pela sobrevivência.

Sinopse

Um planeta dividido e influenciado por uma força poderosa e mística, Thuvhe é o lar de dois povos inimigos que disputam o controle do território: shotet e thuvhesitas. Ao longo da história desta disputa ambos os lados tiveram muitas perdas, mas é na última invasão shotet que Akos e sua família tem a vida revirada de ponta-cabeça. Com o pai morto e levado com seu irmão para o território adversário, é na vida de prisioneiro e na amizade improvável com um dos inimigos que o rapaz descobre que não existe lugar para honra na sobrevivência.

Resenha

De antemão gostaria de ressaltar que não li Divergente, e, ainda que eu tenha assistido a todos os filmes da adaptação cinematográfica da série, não considero isso suficiente para tecer comparações, por isso não as farei.

Crave a Marca é o primeiro livro de uma duologia que se ambienta em um planeta dividido por duas potências antagonistas: a nação dos shotet e a dos thuvhesitas. Dois povos muito distintos entre si, como Esparta era de Atenas, e que se encontravam separados por uma grande plantação de capim-pena, uma planta causadora de alucinações que impedia que qualquer um atravessasse para o outro lado ao seu bel-prazer. Isso porém nunca impediu que o lado thuvhesita fosse invadido pelos guerreiros shotet.

Neste universo, onde Thuvhe era só mais um dos vários planetas, cada um dos corpos celestes são influenciados pela força poderosa de um fenômeno natural visível apenas através de um fluxo constante no espaço e que é chamado apenas de “a corrente”. Uma força não só empregada em naves, armas e máquinas como capaz de dotar cada pessoa do sistema solar com um poder singular. Um destes poderes era a capacidade de ver as várias ramificações e possibilidades do futuro, sendo que as poucas pessoas que tinham um futuro imutável, ou melhor, que convergia sempre para um mesmo resultado tantas fossem as variações, eram chamadas de afortunadas, sendo que suas “fortunas” eram guardadas como segredo de Estado.        

É quando o futuro de todos os afortunados é revelado que a vida do thuvhesita Akos Kereseth e sua família vira de ponta a cabeça. Sequestrados por soldados shotet, ele e o irmão são levados para território inimigo e feitos cativos pelo líder shotet, o sádico Ryzek Noavek.

Ali, Akos descobre não só a triste fortuna que o ligava a família Noavek, mas também que sua irmão era a chave para os planos de dominação do ditador Shotet. Cativo, mas treinado militarmente, com o passar dos anos, Akos busca sobreviver e fugir com o irmão consigo, e graças ao seu dom peculiar o rapaz se torna próximo da temida e perigosa Cyra Noavek, a única irmã de Ryzek e única chance de fuga dos irmãos Kereseth.

A primeira coisa que chama a atenção no novo livro de Veronica Roth, que no Brasil foi publicado pela editora Rocco, é sem dúvida a capa com suas marcas irregulares feitas sobre um fundo azul-brilhante e de onde escorre um “sangue” furta-cor. Quem lê o livro logo percebe que cada um dos elementos que estão naquela capa possui um significado na história e não estão ali apenas para serem bonitas. Mas para mim, o que mais chamou a atenção foi o slogan (“não há lugar para honra na sobrevivência”) que em conjunto com o título – propositadamente escrito no imperativo – desperta em que ler aquela sensação de se deparar com alguém de jeito militarizado. Mesmo isso tem significado na história ao apresentar ainda na capa o jeito shotet de ser: autoritário, militar e destemido.

Mas falando um pouco das características gerais do livro e da minha opinião sobre ele, que ressalto de antemão que não são conclusivas, haja vista que é uma série que ainda não li por completo, e nem absolutas e definitivas, porque cada história imprime em cada pessoa uma experiência e opinião diferente. Mas sendo objetivo. Crave a Marca é um livro comum, um tanto destemperado, e que na maior parte do tempo pareceu mais a ambientação[1], ou introdução, como preferirem, para o livro seguinte – um preâmbulo de mais de 400 páginas. Essa é a primeira sensação que tive e que persistiu por muito tempo.

O livro tem tudo para ser bom, e a autora me parece criativa na criação de seus universos, sendo que estes além de bem construídos, não parecem deixar lacunas ou aspectos mal explicados. Isso por si só já é bastante positivo. Mas a história de Crave a Marca, sobretudo, pelos seus personagens e pela pouca mobilidade da narrativa ao longo de seus primeiros 60%, não conseguiu me cativar e me deu essa impressão de uma eterna expectativa para um algo a mais que nunca chegava. Faltou dinamismo. O que temos é um livro formado de pequenos clímax e momentos de tensão que se espalham pela história, mas sem que nada se torne conclusivo ou aponte para a conclusão.

A autora
Se isso não bastasse, dos personagens principais, a única que parece menos apática é Cyra, a maioria dos demais ou nunca se destacam de verdade na trama ou só vão se desenvolver, de fato, com a história já bem desenvolvida. Ao contrário, a moça shotet é guerreira, sarcástica, forte, decidida e com breves momentos de fragilidade que reforçam sua humanidade. Sofre pelas barbaridades a que é forçada fazer por ordem do irmão e suporta com valor as dores sobre-humanas causadas por seu dom que traz dor física não só a ela como a qualquer um que se atreva a tocá-la. Gosto muito de personagens femininas cuja construção desafia o clichê do sexo frágil e isso me fez gostar bastante da princesa shotet.

Ao contrário de Cyra, o seu par, Akos, é pintado em cores mais desbotadas. Ele quer salvar o irmão e a autora pareceu querer desenhá-lo como alguém decidido, determinado, mas não me convenceu. Ele vai ganhar mais força à medida que caminhamos para o desfecho, mas ainda assim não conseguiu conquistar minha atenção. Outros personagens como Teka, que possui um gênio difícil, semelhante ao da protagonista, se destacam por se distanciar da apatia que reconheço na maioria do elenco, mas não ganham muito espaço na história para ter um desenvolvimento completo, mas que provavelmente terão no segundo livro.

Uma coisa curiosa no livro de Veronica é que ela trabalha com dois focos narrativos diferentes. Nos capítulos com o nome de Akos, a narrativa é contada em terceira pessoa. Naqueles com o nome de Cyra, o foco narrativo está em primeira pessoa, sendo ela o narrador personagem. O resultado direto disso é que este personagem ficou melhor caracterizado e mais forte na trama.

Uma referência que muita gente tem encontrado no livro é ao universo dos filmes de Star Wars, porque o conceito da corrente lembra bastante a Força usada pelos mestres jedi da obra de George Lucas, mas tem diferenças bem demarcadas que diluem a referência.

Outra coisa que tem chamado a atenção do pessoal é um suposto “racismo” na construção do universo da história em que os shotet, vistos como bárbaros pelos thuvhesitas, teriam pele morena enquanto os thuvhesitas, vistos como mais “civilizados” teriam pele mais clara. Primeiro acho que o pessoal não atentou para algumas passagens como estas:

Tudo que eu sabia sobe o povo thuvhesita – além do fato de serem nossos inimigos – era que tinham a pele fina, fácil de perfurar com uma lâmina, e se refestelavam nas flores-do-gelo, a seiva vital de sua economia”.

Muitos shotet tinham sangue misturado, então não era surpreendente – minha pele tinha um tom amarronzado, quase dourado sob certas luzes”.

Como meu livro é digital pude pesquisar todas as vezes em que o termo “pele” foi citado e em nenhuma se afirma que os thuvhesitas eram brancos e os shotet negros, mas que a pele dos primeiros eram sensíveis (fina), algo ruim quando se é um guerreiro, o que os shotet viam como desvantagem e até certo preconceito. Porém pele fina não é sinônimo de pele branca, ainda mais quando se vem de uma região gelada do planeta onde se é pouco exposto ao sol. O irmão de Akos, Eijeh, por exemplo, é descrito como tendo “pele marrom clara, como a terra leitosa do planeta Zold”. Se há alguma referência racista eu não a encontrei. O que eu encontrei foi miscigenação, misturas de linhagens e raças, porém citada apenas quanto aos shotet, porque todas as referências vem dos capítulos de Cyra. E só para encerrar esse assunto, tudo na narrativa indica que Akos tem ascendência shotet e ele é o único descrito realmente como branco.

Não li Divergente e depois de conhecer o filme e sobretudo o último (e pior deles) não tenho desejo de tentar. Não porque ache que foi de todo ruim, não, o final é meio decepcionante, mas o universo criado é singular e interessante. Confesso, inclusive, que o final do segundo filme e o iniciozinho do terceiro me pegaram de surpresa, mas não sinto vontade de ir aos livros da série porque tenho dezenas de outros livros bastante promissores na lista de leitura que quero muito ler, e cujas histórias ainda desconheço. Por isso, quis ler Crave a Marca quando ele ainda era um mistério. Assim conheceria o estilo da autora sem as mil referências da obra vinda dos fãs ou de adaptações. É chato ler um livro que você já conhece o final. É preciso estar muito apaixonado para isso.

Pretendo ler a continuação de Crave a Marca porque já no final da história a autora solta algumas revelações (uma delas bem inesperada) e que podem mudar o curso da narrativa no futuro, mas espero que o próximo seja mais dinâmico e que os personagens tenham uma construção mais sólida e menos apática.

A edição lida é digital, da Editora Rocco, do ano de 2017. A versão impressa possui 480 páginas. Abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Google Books.

Prévia do Google Books



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[1] Ambientar significa “adequar(-se), adaptar(-se) a um ambiente” ou, então, “ter a ação passada em; desenrolar-se” (Houaiss, 2001), mas costumo usar o termo ambientação de forma indiscriminada em minhas resenhas. Todavia, sempre uso o termo com o significado de preparação ou apresentação, ou seja, o processo em que o autor apresenta todo o universo de sua narrativa desde personagens, a cenários, a problemática, e etc. O uso do termo pode até ser pouco adequado, mas já se incorporou e tomou essa significação em minha retórica.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

A Mulher que Escreveu a Bíblia – Moacyr Scilar - Resenha

Por Eric Silva para Edilva Bandeira e todos do grupo de leitura Ler é Viver

Sexo, machismo, desejo e beleza. A Mulher que Escreveu a Bíblia é um livro polêmico, mas irônico e bem humorado que aliando história religiosa e ficção busca falar de sexo, de libido e desejo de forma franca e bastante aberta. Ao mesmo tempo a obra do brasileiro Moacyr Scilar tece críticas indiretas ao culto à beleza e contra a tendência machista que desde tempos imemoráveis sobre-existe na sociedade, na religião e nas entrelinhas de sua referência mais importante: as sagradas escrituras. Um livro hilário e erótico que esboça com linhas seguras o talento do autor e que por isso não podia ficar de fora do nosso itinerário no #AnoDoBrasil.

Sinopse

Um professor de história abandona a carreira na docência para se tornar terapeuta de vidas passadas depois que, por acaso, consegue que um aluno se recorde de uma outra vida. Com seu novo talento o ex-professor se torna uma celebridade procurada por muitas pessoas que desejavam fazer regressão a vidas passadas, mas para seu infortúnio o homem acaba se apaixonando por uma de suas pacientes. Ela era uma mulher que, graças a ele, se recorda de quando no reino de Salomão foi uma das esposas – a mais feia – do harém do famoso monarca israelita. A Mulher que Escreveu a Bíblia é a história desta mulher que não só conviveu com o poderoso e lendário rei de Israel como foi a responsável pela escrita do livro mais lido do planeta: a bíblia.


Resenha

Li A Mulher que Escreveu a Bíblia ainda em 2016, quando o livro foi escolhido para ser a leitura do grupo Ler é Viver em Dezembro. Li-o rapidamente e ainda não sei como não morri de tanto rir. O livro é de fato hilário em sua maior parte, sobretudo devido ao sarcasmo, ironia e franqueza da narradora, uma mulher horrenda!, mas de uma personalidade e inteligência muito à frente de sua época. Porém, se é verdade que gostei bastante do livro, também o é que não tinha interesse algum em resenha-lo em 2016. Na verdade fiz esta resenha várias semanas depois, no calor do mês mais movimentado para mim e quando já havia resolvido de liberar a resenha apenas em 2017, no #AnoDoBrasil.

O Julgamento de Salomão, 1617 por Peter Paul Rubens (1577-1640).
Aqui Salomão é representado com feições europeizadas
em um das mais importantes passagens de seu livro na Bíblia.
Imagem Wikimedia Commons.
Apesar de começar no tempo presente, a história deste livro é quase que toda voltada para o passado, para as memórias de uma mulher que ao fazer terapia de regressão a vidas passadas recorda-se de uma de suas vidas. Em suas lembranças a mulher que escreveu a bíblia é a filha mais velha do líder de uma das inúmeras tribos israelitas, contudo, mesmo com esta importante posição no grupo, as pessoas sempre a evitaram, sem que ela soubesse a razão. Só muitos anos depois, em uma briga com a irmã mais nova por um espelho, que a nossa protagonista se dá conta de algo que sua família lhe escondera por muito tempo e que ninguém na tribo jamais se atreveu a revelar: era ela senhora de uma grande feiura, a maior e mais grotesca que já vira.

Naquele momento de contemplação de sua própria imagem, a jovem passa a compreender todas as situações constrangedoras que passara desde a infância e o distanciamento das pessoas. Desconsolada com sua aparência e também por não ter correspondido o seu amor por um solitário pastorzinho que preferira a irmã mais nova dela, a jovem passa a dedicar seu tempo ora ao isolamento das montanhas, ora as aulas que recebia com o velho escriba da tribo. Aulas que aconteciam às escondidas para que ninguém soubesse que ele ensinava a uma mulher a arte da escrita.

Passado algum tempo, o pai da jovem recebe na vila a inesperada visita de um emissário de Salomão, o rei de Israel. O homem tinha como missão levar até o monarca a filha do chefe da tribo para desposá-la como parte de um acordo político entre a tribo e o reino. Mesmo sendo a mais velha também a mais feia das irmãs, ela é levada ao rei e torna-se uma das esposas do monarca, assim como outras 699 mulheres e outras 300 concubinas que compunham o harém de Salomão.

É no harém, em meio a tantas jovens belas que, assim como ela, viviam para agradar Salomão e atrair a atenção do rei, que a protagonista do livro vai pouco a pouco aprendendo mais sobre a vida, sobre o desejo, a amizade e até mesmo sobre a morte, e gradativamente vai amadurecendo, sem, no entanto, deixar com que a essência de sua personalidade se desfaça.

Por muitas vezes a moça tenta consumar seu casamento com Salomão sem, no entanto, obter sucesso em sua empresa. Mas é o fato de ser a única mulher letrada do harém que chama a atenção do monarca. Encantado com a estética narrativa da esposa, Salomão incumbe à moça uma importante tarefa que tornaria real uma de suas maiores ambições: escrever em um único livro todas as histórias da tradição judaica e imortalizá-lo através de uma obra que atravessaria os séculos. Este livro era a bíblia.

Um livro curto, de leitura rápida, A Mulher que Escreveu a Bíblia foi o último romance do autor gaúcho falecido em 2011 aos 73 anos. Também foi meu primeiro contato com sua obra. Confesso que fiquei impressionado como o escritor conseguiu falar de vários temas delicados com bastante humor e com uma linguagem que vai do chulo ao rebuscado. 

Questões da sexualidade feminina que ainda são tabus na sociedade, a exemplo da masturbação feminina e o libido, são tratadas pelo autor de forma leve, franca e engraçada. Ao mesmo tempo, Moacyr Scilar tece, nas entrelinhas de seus anacronismos, diversas críticas, primeiro, ao valor desmedido que se dá à beleza estética (a aparência) em lugar da essência e, também, ao machismo persistente ao longo da história na sociedade e na própria religião de origem patriarcal. E a grande sacada do autor foi fazê-lo pelo olhar de um personagem feminino e de nome incógnito.

A personagem principal é uma narradora divertida, de fala desabusada, mas que, apesar de não receber um nome, mostra uma personalidade irônica e até galhofeira, que ganha o leitor pelo humor irreverente e pela franqueza. Na verdade, penso que não dar um nome a personagem foi algo inteligente. Incógnita a narradora ganhou uma dimensão maior do que ela mesma, porque ao mesmo tempo que representava a si mesma, representava também os anseios de todas mulheres que, naquela época – e em outras que se seguiriam –, sofriam com a segregação social e com a repressão de sua sexualidade imposta por uma sociedade de tradição patriarcal de moralidade machista.

O rei Salomão encontra a rainha de Sabá na porta do Paraíso
Relevo renascentista em um dos vários painéis que compõem
 o portal do Batistério de São João em Florença.
O episódio registrado na bíblia também tem importante espaço na
narrativa do livro de Moacyr porém de forma bem menos solene
e mais divertida. Imagem: Wikimedia Commons.
Sem acanhamento e até com zombaria, a narradora vai contando ao leitor suas fantasias sexuais com relação a um jovem pastor que não lhe correspondia o sentimento platônico, de suas frustrações em relação ao casamento com o inalcançável Salomão, quem a moça desejava sem ser para ele considerada um objeto de desejo.

A personagem de Moacyr vai na contramão de muitos aspectos que, na época, eram atribuídos ao comportamento desejável por parte da mulher, sendo senhora de um pensamento e de uma forma de expressão moderna. No período, a mulher era vista como a mãe, como a dona de casa, ou como o objeto sexual, que deve estar pronta a satisfazer o desejo do marido, sem que seu próprio desejo fosse levado em conta. O harém de Salomão é o exemplo máximo e a personificação dessa realidade.

Ter ideias próprias, adentrar o universo masculino - como no caso do trabalho escriba -, expressar seu desejo sexual de forma aberta, contestar seu marido, sobretudo em público, eram coisas impensáveis para uma mulher na época, atitudes quase sempre reprimida com violência.  Uma mulher manifestar seu próprio desejo era algo repreensível e até acusatório. Por isso a narrativa de Moacyr além de ser um manifesto contra o machismo é, ao mesmo tempo, povoada por anacronismos[1] que imputam à narradora uma atitude e pensamento que não era comuns nem a sua época, nem ao seu povo – é o passado analisado pelas lentes do presente.

Mas sexualidade não é o único tema da obra de Moacyr. O autor buscou também no humor irreverente a chave para falar de beleza e da importância desmedida que é dada ao aparente, não apenas hoje, mas desde tempos imemoráveis. Em A Mulher que Escreveu a Bíblia, Moacyr brinca com o tema beleza ao apresentar uma personagem que não está satisfeita com a sua aparência e que sofre preconceito por conta de sua feiura. É verdade que para o período, no qual a mulher era medida pela sua aparência e capacidade de ter filhos, nascer feia foi um grande infortúnio. Contudo, mesmo hoje vivemos uma ditadura do belo, do aparente, e que se desdobra em consequências não menos sérias do que aquelas decorrentes de ser uma mulher feia na era de Salomão.

Por isso, a personagem de Moacyr faz uma crítica ao valor demasiado que damos a beleza, porque mesmo sendo ela a mais feia do harém, mesmo ela tendo passado por seus momentos de depressão e de vontade de se isolar, ela não se deixou abater e fez humor com sua própria feiura, lutou com outras armas para conquistar o que queria, sobressaiu-se pela sua inteligência e talentos, e no final foi em busca de seus sonhos e se mostrou mais humana e sensível do que a maioria das pessoas ao seu redor (a irmã, as mulheres do harém, os cortesões, os escribas) que fechadas em suas redomas mantinham suas mentes limitadas e viviam sem propósitos ou ambições verdadeiramente grandes.

O que ela desejou no fim não foi algo tão grande, mas foi necessária imensurável coragem e determinação para correr atrás. A Mulher que Escreveu a Bíblia é uma narrativa que se encerra com uma das mais difíceis buscas: a busca pela aquela que para ela era a verdadeira felicidade, não a busca pela felicidade que eu ou você almeja, mas por aquilo onde ela considerava estar a sua real felicidade.

O autor
Por fim, ainda temos outro ponto importante a se destacar: a relação entre a obra de Moacyr e a Bíblia.

Já no prefácio do livro através de uma citação da obra “The Book of J.”, livro do historiador Harold Bloom, temos uma noção de onde veio a inspiração de Moacyr para A Mulher que Escreveu a Bíblia. Em The Book of J. – no Brasil publicado como O livro de J. – Bloom busca tecer considerações e teorias acerca de quem seria o verdadeiro autor das histórias mais antigas da bíblia e, acerta altura de suas considerações, chaga a conclusão de que estes livros só poderiam ter sido contados por uma mulher pertencente a corte real de Salomão, “uma pessoa altamente sofisticada, culta e irônica, [...], que escreveu para seus contemporâneos como mulher”, afirma.

Tomando o ensejo das teorias de Bloom, Moacyr concebe A Mulher que Escreveu a Bíblia, com uma personagem que se encaixa perfeitamente na descrição de Bloom – exceto pelo erotismo descarado e pela feiura, é claro – e que de fato, devido aos rumos que tomam a sua vida, se torna a redatora da bíblia.

Ao longo do livro, partes do antigo testamento – algumas de suas principais história – são mencionadas e comentadas pela personagem, ora com admiração pelas pessoas cujas histórias eram contadas, em outros momentos de forma crítica. Mas sem dúvida a mais irreverente inferências dá jovem estava relacionada à sua leitura erótica e nada convencional da história de Adão e Eva no paraíso e que logo é censuradas pelos anciões escribas – mais por questões vingativas e passionais do que por moralismo, diga-se de passagem.

Finalmente, é ainda válido ressaltar que, apesar de envolver uma temática que comumente é tratada de forma solene, prosaica e grave, o autor deu preferência por discutir a época e a confecção do livro sagrado – e até mesmo a narração de algumas de suas passagens mais emblemáticas – de forma mais leve, aberta e moderna sob o ponto de vista de uma mulher. Uma decisão no mínimo polêmica mas que teve um efeito muito divertido. Ao mesmo tempo o autor brinca com o dualismo profano e sagrado, em que a história de Salomão, presente na tradição judaica, é retratada de forma muito menos divina, romântica ou sobrenatural, abrindo espaço para temais bem mais terrenos e bem menos formais.

A edição lida é da Editora Companhia de Bolso, do ano de 2007 e possui 168 páginas. Abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Google Books.

Quer saber mais sobre o autor? Confira nossa postagem sobre os autores que estamos lendo na campanha (Clique Aqui).

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[1] O anacronismo ou anticronismo consiste basicamente em utilizar os conceitos e ideias de uma época para analisar os fatos de outro tempo
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