quarta-feira, 8 de março de 2017

[Lista] 5 grandes mulheres da literatura brasileira

Por Eric Silva

No dia 8 de março é comemorado o dia Internacional da Mulher. Uma data que é produto do reconhecimento pelos muitos anos nos quais as mulheres, através dos mais diferentes movimentos, batalharam pelos seus direitos. Na busca pelo direito ao voto, por igualdade de condições de trabalho e de direitos trabalhistas, muitas mulheres foram reprimidas com violência e até perderam suas vidas. Vozes que não se silenciaram com a morte e nem recuaram ante o autoritarismo. Mesmo contra toda adversidade elas sempre lutaram para conquistar seu espaço em um mundo controlado pelos homens. A luta se tornou diária e o combate contra o preconceito e o machismo persiste, bem como a luta por uma maior abertura e igualdade no mercado de trabalho.
Na literatura também elas perseveraram para garantir o seu espaço e o direito de exprimir seus sentimentos, contar suas histórias, fazer ouvir (ler) suas vozes (palavras). No #AnoDoBrasil e em homenagem a todas as mulheres brasileiras, e também do mundo, dedicamos essa singela postagem para listar cinco grandes escritoras do nosso país que conquistaram seu lugar no panteão dos grandes nomes da literatura brasileiras graças ao talento e competência que demonstraram. Artistas que por muitas gerações emocionaram milhares de leitores e que encantarão ainda muitos outros.


Carolina Maria de Jesus
Mineira de Sacramento, Carolina Maria de Jesus nasceu em 14 de março de 1914 e morreu em São Paulo, no dia 13 de fevereiro de 1977.
De origem muito humilde, viveu por muitos anos na favela do Canindé, em São Paulo, e para sobreviver e sustentar sua família trabalhava como catadora de papel. Era nos papéis que catava pelas ruas da capital paulista que Carolina escrevia seus diários onde imprimia a difícil rotina de catadora e os desafios de viver em uma favela brasileira, o quarto de despejo da cidade, como costumava dizer.
Depois de ser descoberta pelo jornalista Audálio Dantas, Carolina publicou o primeiro e mais importante de seus livros, Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, que além de ter sido traduzido para 15 idiomas, a colocaria entre uma das primeiras e mais importantes escritoras negras do país.
Teve uma carreira extremamente rápida e o sucesso do seu primeiro livro não se repetiu nas obras que se seguiram: Casa de alvenaria: diário de uma ex-favelada (1961), Provérbios (1963) e Pedaços da fome (1963). Diante do fracasso editorial de suas últimas obras, a autora logo voltou à pobreza e até hoje se mantém desconhecida por muitos brasileiros.

Clarice Lispector
Escritora e jornalista de origem judia, Clarice Lispector (ou Chaya Pinkhasovna Lispector) nasceu em Tchetchelnik, Ucrânia, no dia 10 de dezembro de 1920, pouco antes de sua família se preparar para fugir do antissemitismo resultante da Guerra Civil Russa (1918-1920) e virem viver no Brasil, onde aportaram em janeiro de 1922.
A escritora viveu sua infância no Recife, mas, em 1937, a família se muda para o Rio de Janeiro. Na nova cidade, aos 19 anos, publica seu primeiro conto “Triunfo” no semanário Pan. Diploma-se em Direito, em 1943, mesmo ano em que se casa com Maury Gurgel Valente, diplomata do Ministério das Relações Exteriores, e estreia na literatura com o seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem, pelo qual ganha o Prêmio Graça Aranha.
Viveu em muitos países como Inglaterra, Estados Unidos e Suíça, em companhia do marido, e na ocasião da Segunda Guerra Mundial, quando se encontrava na cidade italiana de Nápoles, serve como voluntária de assistente de enfermagem no hospital da Força Expedicionária Brasileira.
Após seu segundo filho divorcia-se e retorna ao Brasil. Passa a viver no Rio de Janeiro e ali continua sua carreira como escritora em paralelo com trabalhos na área de jornalismo. Em 1960 publicou seu primeiro livro de contos, “Laços de Família”.
Clarice é considerada uma das mais importantes escritoras brasileiras do século XX e “a maior escritora judia desde Franz Kafka”. A grande marca de sua obra o trabalho com cenas cotidianas simples e tramas psicológicas, e uma de suas principais características é “a epifania de personagens comuns em momentos do cotidiano”.
Sua última obra publicada em vida foi o romance Hora da Estrela em 1977. A autora falece no mesmo ano em decorrência do agravamento de um adenocarcinoma de ovário, problema de saúde que, na época, era desconhecido pela escritora.

Rachel de Queiroz
Nascida em Fortaleza, capital do Ceará, no dia 17 de novembro de 1910 Rachel de Queiroz foi tradutora, romancista, escritora, jornalista, cronista prolífica e dramaturga. Filha de intelectuais era parente distante do escritor José de Alencar. Com apenas 7 anos muda-se do Ceará para o Rio de Janeiro e em seguida para o Belém do Pará.
Formou-se professora em 1925, quando tinha apenas 15 anos de idade, e, em 1930, publica seu primeiro romance, “O Quinze”, pelo qual ganha o Prêmio Graça Aranha. Foi militante do Partido Comunista Brasileiro desde 1930 e seguiu também carreira como jornalista no Jornal do Ceará. Colaborou também com os jornais O Estado de S. Paulo e Diário de Pernambuco.
Em 1977, é escolhida para ser a quinta ocupante da Cadeira 5 da Academia Brasileira de Letras, se tornando a primeira mulher a ocupar uma cadeira na instituição. Em 1992, escreveu o romance Memorial de Maria Moura ganhador do Prêmio Camões.
Escreveu romances, contos e crônicas, e em sua obra deu grande destaque a questão social do Nordeste.
A escritora faleceu em 2003, vítima de problemas cardíacos, pouco antes de completar 93 anos.

Cecília Meireles
Jornalista, pintora, escritora e professora, Cecília Benevides de Carvalho Meireles nasce no Rio de Janeiro, em 7 de novembro de 1901 e faleceu na mesma cidade em 9 de novembro de 1964. Foi a “primeira voz feminina de grande expressão na literatura brasileira” e em sua carreira publicou mais de 50 obras.
Começou a escrever suas primeiras poesias ainda na infância, mas só estreou na literatura aos 18 anos com a publicação de Espectros, obra que foi fortemente influenciado pelo Simbolismo.
Foi fundadora da primeira biblioteca infantil do Rio de Janeiro no ano de 1934 e escreveu diversas obras para o público infantil, com destaque para “O cavalinho branco” e “Colar de Carolina”, que foram livros que como a maioria da produção da autora voltada para as crianças é marcada fortemente pela musicalidade dos versos.
Estudou literatura, música, folclore e teoria educacional. Chegou a atuar como jornalista entre os anos de 1930 e 1931, onde colaborou com artigos sobre educação, e como educadora lecionou e ministrou palestras sobre literatura, folclore e cultura brasileira em diferentes universidades do exterior.
Como poetisa o conjunto de suas obras expressa “estados de ânimo, predominando os sentimentos de perda amorosa e solidão”.

Lygia Fagundes Telles
Paulista, Lygia de Azevedo Fagundes nasceu em 19 de abril de 1923 e durante sua infância viveu em várias cidades onde seu pai atuou como promotor. Logo após ser alfabetizada começou a escrever suas primeiras histórias e com apenas 15 anos de idade publicou o primeiro livro, Porão e Sobrado. Contudo, só estreou oficialmente na literatura em 1944, com a publicação de outro livro de contos, Praia Viva, e seu primeiro romance, Ciranda de Pedra, seria publicado apenas em 1954.
Diplomada em Direito e Educação Física frequentou rodas de literatura onde conheceu grandes nomes do modernismo como Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Paulo Emílio.
Na década de 1970, escreve As Meninas, livro inspirado pelo contexto político do regime militar e que foi adaptado para o cinema por Emiliano Ribeiro em 1996.
Em 1987, toma posse da cadeira número 16 da Academia Brasileira de Letras, tornando-se a terceira mulher a se tornar um imortal, e, em 2016, se torna a primeira mulher brasileira a ser indicada ao Nobel de Literatura.

Referências
http://www.academia.org.br/academicos/rachel-de-queiroz/biografia
http://www.ims.com.br/ims/explore/artista/carolina-maria-de-jesus
http://www.releituras.com/clispector_bio.asp
http://www.suapesquisa.com/biografias/cecilia_meireles.htm
https://educacao.uol.com.br/biografias/clarice-lispector.htm https://educacao.uol.com.br/biografias/carolina-maria-de-jesus.htm
https://pt.wikipedia.org/wiki/Cec%C3%ADlia_Meireles
https://pt.wikipedia.org/wiki/Clarice_Lispector
https://pt.wikipedia.org/wiki/Rachel_de_Queiroz
https://www.ebiografia.com/cecilia_meireles/
https://www.ebiografia.com/clarice_lispector/

https://www.todamateria.com.br/vida-e-obra-de-rachel-de-queiroz/



terça-feira, 7 de março de 2017

Tenda dos Milagres – Jorge Amado - Resenha

Por Eric Silva, dedico a meu pai e aos soteropolitanos.

Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.


Quinto livro da campanha do #AnoDoBrasil, Tenda dos Milagres é uma obra densa e fantástica pela sua qualidade crítica e engajamento político, bem como por sua importância que supera a monotonia de alguns de seus capítulos.

Já li alguns livros de Amado, entre eles Capitães da Areia, e pude atestar o quanto é politizada e crítica a sua obra, talvez isso seja uma das coisas que mais admiro no autor baiano. Contudo, tenho para mim que Tenda dos Milagres tenha sido, dos romances do autor que já li, aquele que revela este caráter crítico de forma mais contundente.

O livro abriga em si uma denúncia extensiva do racismo e da perseguição contra as religiões de matriz africana na Bahia do início do século XX. Aborda com humor, as vezes com asco e bastante realismo, como até mesmo a ciência era usada e descaradamente manipulada para justificar e comprovar cientificamente a inferioridade de negros e mulatos, justificando deste modo o ódio dispensado a estes grupos e a marginalização a eles imposta. Politicamente engajado, mulato, pobre e frequentador do terreiro de mãe Majé Bassan, Pedro Archanjo, personagem principal da trama, é em si a personificação de tudo que a elite soteropolitana mais desprezava, reunindo os elementos de ambas as discussões engendradas pelo livro, no entanto, mais do que isso, Pedro é um personagem que veio para quebrar estereótipos e tabus e o faz magnificamente bem.



Sinopse

A vinda ao Brasil do professor da Universidade de Columbia e detentor do Prêmio Nobel, James D. Levenson, causa um verdadeiro alvoroço no país, mas é quando este aporta na Bahia para conhecer “onde viveu e trabalhou” o “homem notável, de ideias profundas e generosas”, Pedro Archanjo, que uma verdadeira corrida por parte da mídia é iniciada.

Aparentemente ninguém no país sabia a quem se referia o etnólogo norte-americano e por isso jornalistas e pesquisadores partem em uma busca frenética por desvendar o passado de Pedro Archanjo, Ojuobá, um mulato pobre da ladeira do Tabuão, autodidata, estudioso da herança africana na Bahia, entusiasta da miscigenação, bedel da Faculdade Baiana de Medicina e um mulherengo incorrigível, que a despeito e contra todo o preconceito de cor existente na Bahia do início do século XX, sobretudo nos meios acadêmicos, defendeu a miscigenação e a liberdade religiosa e produziu uma obra que não só abalou a ortodoxia acadêmica de seu tempo como escandalizou a elite branca soteropolitana da época.

Narrado em dois tempos, Tenda dos Milagres conta a história, aventuras e amores de Pedro Archanjo e de como, com ajuda de seu amigo tipógrafo e riscador de milagres, Lídio Corró, publicara com sacrifícios seus quatro únicos livros. Entremeado a narrativa da vida de Archanjo, o livro resgata também os fatos que no tempo presente (década de 60) levaram sua obra – por tanto tempo ignorada – a ser enaltecida por seus conterrâneos logo após o reconhecimento internacional de seu trabalho.

A Ciência elitista e as teorias racistas: os personagens Pedro Archanjo e Nilo Argolo

O autor
O racismo é o primeiro e principal tema desenvolvido em Tenda dos Milagres. Ele é apresentado tanto na sua forma mais comum – quando o “afilhado” de Pedro Archanjo é desprezado pela família da moça por quem se apaixona, por serem eles brancos e o rapaz mulato – como também, e principalmente, no embate intelectual que é travado pelos corredores da Faculdade de Medicina entre o bedel Pedro Archanjo e o professor Nilo Argolo, apresentando aos leitores o pouco discutido racismo científico.

Pedro Archanjo era morador de uma região pobre da cidade alta. Órfão, não conhecera seu pai, morto na Guerra do Paraguai. Foi criado pela mãe, mas também esta morreu de bexiga logo cedo, dez anos depois de seu nascimento. Ainda assim se tornou um rapaz obstinado e inteligente, curioso e amante de muitas mulheres. Pela força de sua determinação e apoio dos amigos tornou-se autodidata e bedel[1] da Faculdade de Medicina. Aprendeu o francês, o inglês, o espanhol e o italiano e com sacrifício estudou muito para produzir seus livros que falavam das raízes africanas da Bahia e da miscigenação de seu povo, o que Pedro defendia com afinco.

Nilo Argolo, por sua vez, era professor na Faculdade de Medicina nascido em uma das famílias mais ricas e tradicionais da Bahia. Admirador da falsa ideia de superioridade da raça ariana, desenvolvia e apoiava teorias de cunho racistas. Se orgulhava da suposta “pureza” de sua família e por isso nutria um ódio particular pelo bedel, desprezando-o não só pela sua posição baixa na hierarquia da universidade, mas principalmente pela sua cor e pela defesa que o outro fazia à miscigenação que tanto abominava o catedrático.

Através destes dois personagens Jorge Amado traz a discussão o tema da ciência elitista e suas teorias racistas do final do século XIX e início do século XX e que foram base entre outras coisas para determinar o perfil de potenciais criminosos a partir de características físicas como fisionomia do rosto e cor. Trata-se de um tema difícil de se encontrar na literatura, o que me surpreendeu bastante e que pretendo discutir mais profundamente em outra postagem.

Com Pedro Archanjo, Jorge Amado aponta como independente da origem ou da raça todos tem a possibilidade de ascender intelectualmente, dependo muito mais do interesse e do desejo de fazê-lo e das oportunidades que lhe é dada, do que propriamente de outros fatores. Archanjo é um pesquisador, um intelectual nascido das classes mais pobres e um autodidata, politizado e inteligente, cientista honoris causa e ativista consciente, ao mesmo tempo que homem do povo e de comportamento simples. Entretanto seus talentos são tardiamente reconhecidos e não por si mesmo, mas por pressão estrangeira.

Com este personagem, Amado desmente a teoria de seu outro personagem que vê nos negros e nos mulatos uma raça inferior e inábil, aproveitável apenas para o trabalho braçal, e que se isso não bastasse, ainda abomina a miscigenação por acreditar que isso diluiria tudo aquilo que tornava a raça branca superior e mais capaz.

O racismo e a perseguição religiosa do delegado Pedrito Gordo

Quem já leu Jorge Amado sabe que em muitos de seus romances é forte a presença das crenças míticas do candomblé, por isso elementos como terreiros, pais e filhos de santos e a crença nos orixás é bastante comum em suas histórias e personagens. Porém em Tenda dos Milagres o tema toma um corpo mais profundo e se mescla ao tema do racismo com um tom de denúncia contra o poder político, sobretudo na Bahia da década de 1920, que criminalizava o candomblé sob a acusação de “prática de feitiçaria e falsa medicina”[2].

Para dar relevo ao tema, Amado cria Pedrito Gordo, o inescrupuloso delegado que com seus policiais tocam o terror na cidade destruindo terreiros, agredindo e até matando inocentes em nome de uma guerra que considerava santa. Mas o que se observa era que nada mais se desejava do que uma higienização religiosa e racial. É evidente que a perseguição religiosa empreendida por Pedrito e apoiada pela elite da cidade tem um cunho de aversão a toda prática religiosa não católica, mas a base que dá lastro ao ódio às religiões de matriz africana continua sendo o racismo. É o ódio irracional entre raças que se estende também às manifestações culturais e religiosas vistas como animalescas e macabras. Trata-se pois de um misto abominável de preconceito religioso com racismo, em que se torna impossível separar uma coisa da outra.

Uma crítica a visão dos brasileiros em relação ao estrangeiro

Contudo as censuras ao racismo e à perseguição religiosa ao candomblé não são as únicas discussões de Amado em Tenda dos Milagres. É igualmente forte a sua crítica ao comportamento do brasileiro de supervalorizar o que é estrangeiro em detrimento do nacional.

Jorge Amado faz um crítica divertida ao mostrar como foi necessária a palavra e o reconhecimento de um estrangeiro, um PHD ganhador do prêmio Nobel, para que, no Brasil, se passasse a valorizar o trabalho de Archanjo, a tanto tempo relegado ao esquecimento. Foi necessário que um estadunidense, vindo “do mundo desenvolvido” reconhecesse a magnitude da contribuição teórica de Pedro para que se buscasse pela primeira vez ouvir aqueles teóricos brasileiros que já discutiam e falavam de Archanjo, de seu trabalho e creditavam a obra do baiano morto anos antes.

Este é um comportamento típico na maioria da população, um aspecto da síndrome do colonizado que valoriza demasiadamente a opinião, os modelos e de tudo quanto é estrangeiro – do “mundo desenvolvido” – em detrimento do que é de seu próprio país.

Porém a sua crítica não para aí e Amado vai também nos mostrando o quanto a camada empresarial brasileira começa a ver nesse “renascimento” de Archanjo uma forma de lucrar. Dessa forma o autor também desfia como o sistema capitalista tem o poder de tornar tudo mercadoria e em oportunidade de lucro, muitas vezes destorcendo os fatos ou destacando apenas aquilo que lhe é conveniente.

Bem, acho que posso ter dado alguns spoilers nesta resenha, mas foi necessário para demostrar a importância de Tenda dos Milagres como um livro capaz de fazer o seu leitor refletir sobre questões que muitas vezes são ignoradas pelas pessoas. Alternando poesia, sensualidade, realismo, misticismo e denúncia, Jorge Amado vai descrevendo a Bahia dos humildes, dos afoxés, dos babalorixás. Este livro é parte do projeto de Amado de valorização das classes marginalizadas pelo sistema social, ora esquecidos ora reprimidos pelo poder político da elite, mas que são a verdadeira face da cidade da Bahia, a cidade mais negra do país.

A edição lida é antiga, de luxo e da Editora Record. Foi dada para mim por meu pai e possui ilustrações de Jenny Augusto, Flávio de Carvalho e Zélia Amado.

Quer saber mais sobre o autor? Confira nossa postagem sobre os autores que estamos lendo na campanha do #AnoDoBrasil (link)





[1]Empregado de secretaria que, na universidade e em outros estabelecimentos de instrução, aponta as faltas dos estudantes e dos professores, entre outras tarefas administrativas. No Brasil também significa o funcionário de uma escola responsável pela disciplina. Fonte: Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/bedel [consultado em 25-09-2016].
[2]https://bahia320102myblog.wordpress.com/perseguicao-aos-terreiros-de-candomble-na-decada-de-1920/

quarta-feira, 1 de março de 2017

A Serraria Baixo-Astral – Lemony Snicket - Resenha

Por Eric Silva

Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.

Diga-nos o que achou da resenha nos comentários.


Com a chegada das Desventuras em Série na Netflix e vendo o entusiasmo de um dos meu alunos quando este decidiu começar a leitura da série de Lemony Snicket (ou Daniel Handler) resolvi retornar a minha própria leitura da série que estava parada desde março do ano passado. Na sequencia o próximo livro que deveria ler era A serraria Baixo-Astral, quarto livro da série que narra as desventuras dos irmãos Baudelaire com um novo e péssimo tutor que os poriam em mais uma situação complicada e perigosa. Para mim uma leitura com um enredo bastante previsível e com muitas fraquezas, mas que ao mesmo tempo trouxe à tona o tema da exploração do trabalho infantil e a delicada questão da dignidade humana do trabalhador.

Sinopse

Depois dos trágicos incidentes ocorridos às margens do lago Lacrimoso que terminaram com o fim de mais um tutor dos irmãos Baudelaire e uma nova fuga do desprezível Conde Olaf, Sr. Poe conduz os jovens irmãos para mais um novo tutor, Senhor, o dono de uma serraria na cidade de Paltryville. Em Paltryville os irmãos Baudelaire conhecem a fatigante e explorada vida dos trabalhadores da serraria Alto-Astral e são forçados pelo seu tutor a trabalharem na perigosa profissão, sob o regime autoritário do sádico capataz Flacutono em troca de serem mantidos longe das investidas do Conde Olaf.

Resenha

Desde março de 2016 que eu não pegava nos livros de Desventuras em Série para dar continuidade a minha leitura que havia parado com os três primeiros livros da série que correspondiam ao roteiro da versão fílmica da série. Mas depois que Reinaldo, um dos meus alunos e leitor voraz antenado com o mundo geek e pop, começou a ler a série e a Netflix anunciou uma nova série baseada nos livros de Snicket, resolvi retornar aos livros de Desventuras. E só para constar, tenho minhas desconfianças de que a série da Netflix possa dar mais alma a narrativa das desventuras dos irmãos Baudelaire do que os próprios livros de Snicket.

No quarto livro da série, titulado nos Estados Unidos como The Miserable Mill (algo como O Miserável Moinho em tradução livre) e traduzida no Brasil como A Serraria Baixo-Astral, os irmãos Baudelaire são entregues na cidade de Paltryville a um novo tutor.

Senhor, como é chamado o novo tutor uma vez que ninguém conseguia pronunciar seu verdadeiro nome, era sócio-diretor da serraria Alto-Astral e decide que a condição para que ele mantivesse os irmãos em segurança era os mesmos trabalharem na serraria na condição de empregados. Sem saber dessas condições (ou talvez não, quem sabe) Poe envia os irmãos para Senhor e os jovens Baudelaire são obrigados a se submeter a condições precárias de um trabalho inadequado para crianças (se é que existe um trabalho adequado para crianças) sob o comando de um capataz sádico e cruel.

Na serraria Violet, Klaus e Sunny descobre os árduos afazeres e as lamentáveis condições de trabalho dos funcionário da Alto-Astral que, além de viverem amontoados em beliches de um dormitório sem janelas, só recebiam chicletes no almoço e tickets como pagamento. Contudo o mais desesperador para as três crianças é a eminente possibilidade do aparecimento inesperado de Olaf e de seus compassas que poderiam surgir a qualquer momento com mais um de seus planos diabólicos.

Bem, não sou bem um fã da série, mas admiro algum de seus principais aspectos: o seu estilo gótico, a escrita sincera do autor, as paisagens incríveis em cenários surreais e os personagens exóticos e absurdos {se quiserem conferir a resenha dos outros três livros link aqui}. Além disso a versão da história no filme estrelado por Jim Carrey é muito boa – a verdade é que comecei a ler por conta do filme.  Por outro lado, em muitos momento Desventuras em Série assume uma monotonia e uma repetição da lógica dos acontecimentos que me incomodam e tornam a história muito previsível à medida que vamos avançando de um volume para outro. Mas falemos do quarto volume que é o primeiro dos livros da série que não fizeram parte do roteiro da versão para o cinema.

Começando pelos pontos negativos, achei que A Serraria Baixo-Astral além de possuir uma história de pouca complexidade, também traz para o leitor da série um enredo fraco e bastante previsível. À parte algumas coisas que irei discutir a seguir sobre o livro, a narrativa do quarto volume não tem muitas emoções, ou muito movimento. [SPOILER em itálico] Logo no início Lemony nos chama a atenção para uma casa em particular que possui o grotesco formato de um olho – a marca de Conde Olaf – e essa decisão, de cara, nos entrega boa parte da trama, bem como a localização do Conde. Além disso, fica óbvio, desde o começo, que o capataz era o próprio ou tinha relações com o Conde Olaf. Isso já minou boa parte do meu interesse.

Mais à frente somos apresentados aos dramas dos trabalhadores da serraria, à personalidade exploradora do tutor e ao capataz intransigente e de péssima índole, porém as complicações que daí se seguem e que acabam levando os irmãos ao Conde – [SPOILER em itálico] e aqui eu me refiro aos eventos relacionados aos incidentes com os óculos de Klaus e de sua consequente hipnose – foram fraquíssimas, na minha opinião. Ademais, o livro de Snicket continua apostando na já desgastada fórmula de que os adultos só passam a acreditar nos irmãos quando tudo se complica e o Conde mostra sua cara. Se isso não bastasse ainda tem a cansativa e completa falta de tato por parte do Sr. Poe que sempre deixa o Conde fugir quando finalmente o tem encurralado.

Porém o livro não foi de todo ruim. Em primeiro lugar porque partes do desfecho, ainda mais macabro do que no terceiro livro, compensa um pouco as fraquezas da narrativa, entretanto alguns pontos extremamente inverossímeis meio que enfraquecem essa parte da história e por isso o desfecho também não é o ponto alto do livro na minha opinião. O ponto alto está no mistério que envolve uma de suas personagens e no valor social da narrativa que, mesmo não sendo esse o objetivo, nos faz pensar em algumas questões como o trabalho análogo à escravidão e o trabalho infantil.

O primeiro ponto que me deixou curioso na história foi o novo tutor e pergunto-me porque o autor fez questão de ocultar completamente a sua identidade. Senhor é retratado na história como um homem baixo e cujo rosto sempre ficava oculto por trás da nuvem de fumaça que vinha de seu charuto. Uma caricatura dos empresários magnatas que obtém seus lucros da exploração do trabalho e da destruição da natureza. Contudo, a insistência de Lemony de esconder sua identidade por trás de um nome impronunciável e de um rosto encoberto pela fumaça inverossímil de um charuto é no mínimo intrigante. Será Senhor uma futura peça-chave da série?

Mas o tutor dos infortunados irmãos ainda o mais estranho e distante de todos os anteriores, é também um homem autoritário e explorador que impõe aos jovens um regime de trabalho ainda mais cruel e perigoso do que aquele imposto por conde Olaf no primeiro livro, Mau Começo. Além de incapaz de demonstrar qualquer afeição pelas crianças ele dispensa aos Baudelaire o mesmo tratamento grosseiro que dava aos seus empregados e encara a presença dos irmãos na serraria como apenas mais uma transação de negócios em que ele oferecia uma suposta proteção em troca de trabalho não remunerado.

Tamanho era o desprezo e indiferença que Senhor tinha pelas crianças, considerando-as um estorvo, que chega ao ponto de decidir que as entregaria a uma estranha que conhecera em um almoço, apenas porque esta manifestara em seu dialogo o desejo de adotar crianças. Se isso já não bastasse, o sócio de Senhor, Charles, demonstra maior consciência e até tenta ajudar as crianças da sua maneira, mas seu temor em irritar o sócio é tão grande que, num ato de covardia, o mesmo acaba se submetendo a vontade absoluta de Senhor e é conivente com os excessos e a exploração que ocorre no estabelecimento.

Mas com certeza o aspecto mais importante e interessante que encontrei neste livro é o que parece ser uma denúncia nas entrelinhas do trabalho infantil e do trabalho análogo a escravidão.

Polícia Federal Brasileira em operação de fiscalização para combate
ao trabalho escravo ou análogo à escravidão. Imagem:  Portal/MTe.
Algo que é de conhecimentos de poucos, infelizmente, é que a escravidão não desapareceu completamente do mundo, e mesmo no Brasil ela ainda existe, contudo, não mais nos mesmos modos que correra no tempo dos negros. Apenas seu modus operandi se modificou, bem como a categoria escravo.

Hoje no nosso país a escravidão, ou melhor, o trabalho análogo a escravidão é entendido assim como está disposto no artigo 149 do Código Penal Brasileiro: “Reduzir alguém a condição análoga à de escravo, quer submetendo-o a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-o a condições degradantes de trabalhando, quer restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o empregador ou preposto”.

Ou seja, trabalho escravo é toda atividade em que o patrão impõe aos seus trabalhadores: trabalho forçado, obrigando-o “a se submeter a condições de trabalho em que é explorado, sem possibilidade de deixar o local seja por causa de dívidas, seja por ameaça e violências física ou psicológica”; jornada exaustiva que vai além de horas extras e coloca em risco a integridade física do trabalhador, já que o intervalo entre as jornadas é insuficiente para a reposição de energia”, servidão por dívida e condições degradantes como alojamento precário, falta de assistência médica, péssima alimentação, falta de saneamento básico e água potável, maus-tratos (incluindo humilhações verbais) e uso de violência[1].

As condições de trabalho na serraria Alto-Astral a que somos apresentados não fogem muito ao que a lei, pelo menos a brasileira, entende como trabalho escravo. Primeiro, o alojamento onde TODOS os empregados da serraria de Senhor vivem não possui uma única janela para garantir nem ventilação nem a iluminação natural do lugar, o que deixa o ambiente constantemente com o cheiro de mofo. Em segundo lugar, os operários da serraria não recebem salário pelo seu trabalho, em lugar disso são pagos com tickets absurdos como “vinte por cento de desconto num xampu no Salão de Cabelereiro do Sam”, ou tickets que valiam chá gelado, ou ainda pior, “compre dois banjos e ganhe um de graça”. Em terceiro lugar, a longuíssima jornada de trabalho começa sem o desjejum e ao som do panelaço e das ofensas do capataz. A primeira refeição acontece apenas ao meio-dia quando cada um recebe um chiclete como almoço e cinco minutos para fazerem a refeição antes de retornarem ao trabalho. A única alimentação mais substancial que os empregados recebem é o jantar ao fim do expediente e que consiste, em geral, em carne com legumes cozidos. É preciso dizer mais alguma coisa?

Mas se isso não bastasse, Senhor obriga os irmãos Baudelaire a trabalhar junto com os adultos em tarefas como operar máquinas perigosas, lidar com instrumentos afiados de decorticação (processo de retirada da casca, córtice ou cortiça de árvores, arbustos etc.), carregamento de peso, no caso toras de madeira, e o trabalho com a serra que transformava a tora em tábuas. Trocando em miúdos, trabalho infantil, insalubre e perigoso.

Todas estas situações absurdas me levaram a crer que um dos objetivos do autor seja denunciar, ao seu modo e nas entre linhas de sua narração, bem como na fala de alguns poucos personagens, a exploração do trabalho que beira ao estado de escravidão, e, principalmente, denunciar o trabalho infantil, ambas realidades muito contrastantes com o propalado discurso dos direitos humanos. Inclusive, a cena em que Sunny, a menor dos irmãos, por não ter como manusear decorticador passa a retirar a casca das toras com os próprio dentes é a mais revoltante.

Enfim, A Serraria Baixo-Astral é um livro que não me agradou muito por sua narrativa em muitos momentos fraca e previsível, mas que, por outro lado, possui um peso social considerável por nos fazer pensar que, à parte os absurdos e exageros caricaturais que são a marca registrada da série, no mundo do trabalho ainda existe uma série de injustiças e crimes que são cometidos contra a dignidade humana e contra o direito à infância.

A edição lida é da Editora Companhia das Letras, do ano de 2002 e possui 176 páginas.
               




[1] http://escravonempensar.org.br/sobre-o-projeto/o-trabalho-escravo-no-brasil/
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