quarta-feira, 26 de julho de 2017

O Tigre na Sombra – Lya Luft - Resenha

Por Eric Silva

Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.
Diga-nos o que achou da resenha nos comentários.

“Quem sabe a verdadeira vida é dentro do espelho, e tudo aqui fora é sonho”
(Lya Luft, em entrevista para o programa Sempre Um Papo)

Uma história trivial com todo um jeito próprio de se contada, um encontro entre prosa e poesia, entre realidade e fantasia. O Tigre na Sombra, romance da escritora Lya Luft, é o oitavo livro da campanha do #AnoDoBrasil. Um romance breve e bastante profundo, e que apesar de ser um livro de trama corriqueira e cotidiana, não deixou de me encantar pelo lirismo e profundidade da escrita da autora.

Confira a resenha do oitavo livro da campanha anual de literatura que nesse ano homenageia a literatura do Brasil.


Sinopse

Em O tigre na sombra, a autora brasileira Lya Luft retorna a prosa e ao tema dos dramas humanos. Mesclando prosa e poesia conta a história de Dôda, uma menina com uma perna mais curta, que enfrenta todos os dilemas de uma família onde os sentimentos e afetos se dão e se distribuem de forma desequilibrada. Apesar de tudo Dôda é dona de uma imaginação fértil que se torna em muitos momentos o seu refúgio da realidade difícil de sua família. É sob seu olhar que miscigena fantasia e realidade vamos conhecendo os dramas de cada personagem e dela mesma, assim como acompanhamos seu crescimento e entrada para vida adulta.

Resenha

Quando, procurando nas prateleiras da Biblioteca da Filarmônica um livro para ler, me deparei com O Tigre na Sombra. Quando o retirei da prateleira vi que era da mesma autora de um dos meus dicionários e isso me deixou curioso porque não sabia que era autora de romances, mas, na verdade, foi o título exótico que me chamou a atenção me fazendo recordar a longínqua Índia onde vivem os imponentes Tigres-de-Bengala. Só depois li a sinopse e me decidi a ter esse primeiro contato com a autora. Um contato interessante, uma experiência nova, pouco convencional, eu diria, mas não o suficiente para me fazer fã de Lya. Necessito de mais de sua narrativa-poesia para isso.

A despeito das imagens que o título me fez recordar, o tema do livro de Lya Luft nada tem a ver com a Índia, muito menos com os poderosos animais que lhe dão título e que na narrativa tem presença tênue ficando no campo do simbolismo e da metáfora. O tigre desta narrativa que, por sua vez, se integra com a poesia de forma muito bonita, existia apenas na tênue fronteira entre a imaginação e a realidade vivida por uma criança que se sentia pouco amada pela mãe e carregava o estigma de um pequena “deficiência” física: uma perna mais curta. Essa criança é Dolores, “nome escuro, de sombra e pranto, cheio de ôôôs lúgubres”, mas que por causa da irmã, Dália, passou a ser chamada de Dôda.

Dôda era uma menina cuja imaginação e sagacidade parecia não ter fronteiras. Via coisas que ninguém mais via, criava um tigre de olhos azuis no quintal. Via a si mesma no espelho como outra garota, a Dolores, que tinha a vida que ela sonhara ter. Uma imaginação que era alimentada pela sua avô delicada, mas pouco convencional que sempre lhe dizia: “Realidade? Bobagem. Cada um inventa a sua”.

Quando criança, Dôda sofria muito com o desafeto da mãe egoísta e cheia de sonhos de grandeza, mas que descontava no marido passivo suas frustrações por sua pobreza. Com as filhas não era diferente, de Dália e de Dôda, a caçula, sempre exigiu demais. Da mais velha que fosse a filha perfeita e a outra que não a envergonhe com suas limitações. Via a caçula como a deficiente, a limitada, limitação que a envergonhava, e a mais velha como a bonita, a que tinha futuro. Nada fez de bom e que não alimentasse o ressentimento das duas filhas, sentimentos que as meninas levariam também para a vida adulta.

Contado pelo olhar de Dôda a família retratada por Lya é marcada por diversos problemas além do desafeto, como o alcoolismo e a traição. Ao longo do livro a menina vai narrando seu relacionamento conturbado com a mãe, seu amor pela Vovinha que era tão diferente da filha única e que com o avô era o porto seguro de Dôda. Fala de seu relacionamento com a irmã e do pai passivo e incapaz de pôr limites aos excessos de sua esposa. Uma narração que se alonga até a idade adulta da personagem mostrando os desdobramentos daquelas relações sobre o psicológico das meninas e seus reflexos na maturidade. [SPOILER] mostrando como gradativamente Dôda abandona suas fantasias e passa a viver uma vida iludida.

Opinião e divagações

Aqui no blog eu tenho uma regra de respeito absoluto ao trabalho de qualquer autor que eu resenhe (veja os 13 mandamentos do bom leitor), logo nenhuma das resenhas que vão a público são daqueles livros que detestei, que eu tenho muitas ressalvas ou que simplesmente não gostei e não tenho nada de bom para falar. Livros assim eu prefiro não resenhar, não trazendo a público a minha opinião. Então quando eu dedico uma resenha aqui pode ser que o livro não tenha me interessado, mas nele há de algo de positivo, de instigante e que considero necessário dividir. Por esse motivo, por exemplo, algumas vezes evito parcerias.

Quando definitivamente não gosto de uma história e não tenho nada de positivo para falar sobre ela costumo deixar apenas um comentário para os meus amigos no Skoob e não faço resenha para o blog. Se quiserem me seguir lá vejam meu perfil.

Por isso costumo dividir os autores que resenho em três grupos principais: aqueles que me encantam pela sua escrita, pela originalidade e beleza da forma como manipulam e escolhem as palavras; os autores que me encantam pela originalidade da narrativa, com histórias que realmente prendem o leitor seja pela inteligência, seja pela criatividade e beleza de suas histórias; e, por fim, aqueles autores que de fato me encantam porque carregam ambas as características. Esses últimos são de fato aqueles de grande e genuíno talento no MEU ponto de vista.

A autora
Por enquanto Lya está no primeiro grupo. Não que O Tigre na Sombra seja um mal livro, ele não é, mas porque sua narrativa é cotidiana demais para o meu gosto que prefere as grandes tragédias, o histórico, o épico, o futurista, o misterioso e o fantástico. Por ser um livro do e sobre o cotidiano e as relações humanas, não podemos esperar grandes reviravoltas na trama. Além do mais, o corriqueiro me cansa e me dá enfado, talvez por isso poucos clássicos da nossa literatura me atraiam.

Melancólica e terna, cativante como criança travessa de sorriso bonito, a protagonista de Lya me conquistou nas primeiras páginas, mas pouco a pouco as coisas mudam, se tornam mais amarguradas, mais acres, perde a direção, ou melhor, mudam de curso e com ele o meu interesse. Não sei explicar, mas ao chegar no final do livro bem pouco da trama ainda me interessava e provavelmente essa resenha só foi escrita meses depois porque não sabia ao certo o que falar do livro.

Afirmo que Lya aborda com talento os dramas familiares da rejeição, do alcoolismo, dos relacionamentos fracassados e das infelicidades da vida ao exemplo da depressão e das situações traumáticas que marcam as pessoas, as modificam. Confesso, por outro lado, que dramas familiares não me chamam atenção, não se estes forem bastante temperados com trivialidades. Não obstante, não deixei de me encantar pelo lirismo e profundidade da escrita da autora que me fizeram divagar um pouco.

No caso do lirismo, percebi como a autora desfia o cotidiano de forma poética e com propriedade vai falando dos muitos problemas que se interpõem entre os membros da família. Poesia se intercala e se integra com prosa, num ritmo todo único e em alguns parágrafos nos são dados vislumbres do futuro na narrativa. O resultado final é de uma originalidade ímpar:


No fundo do corredor
um espelho em pé é uma casa
de vidro;
um espelho deitado é um mar,
abismo.
Em ambos algo me observa
lambendo calmamente as patas.

Ele é a vida e a morte,
reais
ou com disfarces bizarros:
quem se importa com a verdade?
Ela é sempre invenção de alguém.

(E os olhos do meu tigre
são azuis.)

Um homem tira o revólver da prateleira mais alta e coloca embaixo do travesseiro. E pensa antes de adormecer: Eu preciso ser alguém.
Uma mulher abre os olhos no escuro e pensa: Eu preciso encontrar alguém.
Uma mãe recebe nos braços seu bebê recém-nascido e não entende por que o rostinho dele está coberto por gaze.
Uma menina sonha que tem duas perninhas iguais.



Por sua vez, quanto a profundidade ela está sobretudo na reflexão dos personagens.

Dôda é uma personagem dividida entre a realidade e a fantasia, seu principal refúgio do desamor da mãe. Mas ao mesmo tempo ela é um personagem maduro que reflete bastante sobre a vida, dando voz a autora.

Algo que gostei muito na personagem e em sua avó foi esse jeito de deixar-se levar pelas fantasias, aceita-las como um real possível, e a realidade como algo vindo de nós e que forjamos. É um livro bastante subjetivo, mas que nos faz refletir, por exemplo, como são muitas as pessoas no mundo reprimidas pela necessidade de se ajustar, e tantas outras exprimidas na busca por um refúgio que lhe sirva como válvula de escape ou como armadura de autodefesa.

Não acho que a imaginação precise ser uma atitude de fuga, considero-a, primeira e primordialmente, como algo inerente ao espírito humano. Não é necessário ser alienado para se ter imaginação, nem acredito que todo alienado seja capaz de sonhar acordado. Imaginar não supõe ser irracional, racionalidade não inviabiliza o imaginar. O projeto humano de felicidade e igualdade, por exemplo, pressupõe a capacidade de imaginar uma outra maneira de se viver e se organizar em sociedade, é preciso isso para saber qual realidade se pretende construir. Assim nascem as utopias e por todas essas coisas é que meu ser pesquisador, educador e cientista não contradiz ou se opõe ao meu eu leitor e apreciador de fantasias.

Outra divagação que o livro de Lya me trouxe é sobre como as vezes idealizamos demais as pessoas e a vida e nos esquecemos que cada um tem seus próprios sonhos e desejos. Me fez pensar de como as nossas expectativas para com o outro podem representar grilões pesados demais e difíceis de romper. A mãe fez isso com Dália e [SPOILER] arruinou a sua vida.

Fez-me pensar também de como somos aquilo que recebemos das pessoas. De como nos construímos do amor, da indiferença, da presença e da ausência dos outros. Somos uma caleidoscópio, ou melhor, um mosaico de sentimentos aflorados da experiência e do contato com o outro. Se seremos mais imaginativos, felizes, desiludidos, amargurados ou complexados, se iremos nos revestir de uma couraça que nos proteja do mundo ou se vamos nos entregar a ele e ao sabor da fortuna[1], isso dependerá enormemente de quem foram as pessoas que nos cercaram, e com o qual nos relacionamos e trocamos experiências.

De todo modo, tenha eu ou não gostado da trama da narrativa de O Tigre na Sombra – algo que só agora consigo ver como muito pouco relevante – a verdade é que esse é um livro que nos faz pensar e ir além dele e isso já é mais do que suficiente. Vale a pena lê-lo.

A edição lida é da Editora Record, do ano de 2012 e possui 128 páginas. Abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Google Books e um vídeo da autora falando sobre seu livro.

Video



[1] Sorte, destino.

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