segunda-feira, 27 de novembro de 2017

7ª Arte: Que Horas Ela Volta? – Resenha

Um filme que daria um bom livro

Por Eric Silva


Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.

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Filme brasileiro escrito e dirigido pela paulista Anna Muylaert, Que Horas Ela Volta? é uma obra de enredo simples, mas que faz emergir um retrato social e cotidiano muito fiel do trabalho doméstico no Brasil e, paralelamente, da migração nordestina para a capital paulista. Um cotidiano que por vezes é marcado por humilhações e desrespeito aos direitos trabalhistas e que já foi, em parte, a minha realidade e também de minha mãe. Por isso, essa resenha terá um tom bastante pessoal.

Enredo

Em Que Horas Ela Volta?, Muylaert conta a história de Val (Regina Casé), uma pernambucana que deixou sua terra e uma filha ainda pequena, Jéssica (Camila Márdila), para tentar a vida como empregada doméstica na cidade de São Paulo.

Por mais de dez anos, a nordestina trabalhou como babá e empregada doméstica na casa de Bárbara (Karine Teles) e José Carlos (Lourenço Mutarelli). Nesse tempo ajudou na criação de Fabinho (Michel Joelsas), filho único do casal de classe alta, estabelecendo com o menino um laço emocional muito forte. Em contrapartida, durante isso Val se viu privada da convivência com a própria filha que só via quando viajava de férias ao Pernambuco, participando muito pouco do crescimento da menina.
Além disso, na convivência próxima com pessoas de classe muito alta, a pernambucana aprende a obedecer uma série de convenções que por elas foram estabelecidas para separar patrões e empregados e impor a estes últimos certos limites de intimidade.

A trama do filme se passa justamente quando, uma década depois, Jéssica resolve ir morar com a mãe para tentar ingressar no concorrido curso de arquitetura da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU).

Por exigência dos patrões ou por necessidade – o filme não esclarece – Val desde o início passou a viver no trabalho, ocupando o espaço diminuto de um quarto da área de serviço, onde também armazenava todas as suas coisas.

Mesmo com todos os anos de serviço nunca chegou a ter uma casa própria. Em conta disso, Val se vê obrigada a levar a filha para seu trabalho, enquanto buscava uma casa que pudessem alugar. Contudo, a chegada da inteligente e audaciosa Jéssica traz uma série de problemas para mãe.

Ignorando qualquer convenção que lhe dissesse qual o seu suposto lugar ou qual a maneira como se portar dentro da casa dos patrões de sua mãe, Jéssica acaba por atrair não só a ira de Bárbara, como também as atenções dos homens da casa, e, pouco a pouco, com suas atitudes expansivas e de insubmissão às regras sociais ali impostas vai mudando a forma de pensar e de ver o mundo da própria Val.

Os Personagens e seus papéis

Que Horas Ela Volta? possui personagens bem particulares, mas que, ao mesmo tempo, caminham por uma linha tênue que separa o estereótipo e a representação social de diferentes grupos. Ainda assim, cada personagem que figura a narrativa cumpre o papel de representar no conjunto o teatro social brasileiro, seus principais personagens, suas distorções e convenções.

Val tomando um pouco de sol, após terminar a lavagem da roupa da casa.
Val é uma pessoa divertida, expansiva e desengonçada, como a caracteriza Adriano Senkevics[1] do Ensaio de Gêneros, mas, ao mesmo tempo, ela carrega no olhar o peso dos anos e da rotina de trabalho além de um sofrimento silencioso que nasceu da distância que se interpôs entre ela e sua única filha Jéssica.

Como profissional é o tipo da empregada dedicada ao que faz, que se sente próxima dos patrões, mas sem deixar de manter um certo distanciamento respeitoso, não se permitindo ser íntima demais ou tomar liberdades que não condigam com sua posição de empregada. Nos seus gestos, palavras e atitudes humildes, sobretudo quando se desculpa por algo, é notória uma submissão pouco velada. Val é para mim como aquele personagem que vive em suspensão, em um eterno estado de transição que nasce da dualidade entre ser íntima e não o ser e nem permitir-se ser inteiramente, nem a todo momento e nem com qualquer um.

Em seu papel social dentro da trama Val ainda representa a coluna mestra que permite a tantas famílias de classe média a reproduzir seu status quo: enquanto os pais trabalham e gozam de seus privilégios de classe, é ela quem de fato cria as crianças e garante o funcionamento da casa. Dela depende toda a família, nos mais diferentes níveis, sem que, no entanto, saia de sua posição socialmente estabelecida.

Jéssica e Bárbara em uma das cenas onde a patroa da Val
busca deixar claro qual é a posição de Jéssica em sua casa. 
Jéssica, por sua vez, é o posto da mãe, em seu olhar, que Val define como de uma superioridade que “olha tudo parecendo o presidente da república”, arde uma determinação silenciosa, mas mal velada, ora por um ar de tédio ou de curiosidade, ora por um gesto mais expansivo e alegre. É um olhar crítico que explode em provocações e que alerta a mãe sobre a sua condição de subalternidade, expondo a falsidade das relações imbuídas no “ser parte da família”. É por ter ciência dessa falsidade que Jéssica não se diminui enquanto pessoa, preserva seu orgulho, aplica-se em seus estudos para ascender socialmente e, principalmente, transgrede qualquer regra social que lhe seja imposta ou a diminua à condição “de cidadã de segunda classe”. Por isso é um personagem que divide opiniões, porque mexe em uma ferida mal curada e aberta desde que foi declarada a abolição da escravatura.

Ao mesmo tempo, Jéssica é uma estudante aplicada, porque vê nos estudos a possibilidade de um futuro melhor e nisso ela é também um contraponto a Fabinho. O rapaz, ao contrário dela, já tinha tudo e o seu ingresso na faculdade representava garantir o status quo da família no futuro.

Quanto a família para quem Val trabalha, cada um cumpre representar uma parcela de uma classe que no Brasil é cercada de privilégios, detém o poder econômico e historicamente vem ditando as regras sociais dentro da sociedade brasileira.

José Carlos e Jéssica em cena na qual ele apresenta seu trabalho como pintor. 
José Carlos é o rico excêntrico que tendo enriquecido por conta da herança de família se tornou artista passando a viver só de sua arte. Ele não se veste luxuosamente, mas não é muito diferente da esposa no que diz respeito ao tratamento dispensado a Val. Ela é a empregada de confiança, mas é a empregada. Por ter entrado em um casamento que não o faz feliz, se sente atraído pela beleza, juventude e inteligência da filha da empregada e por isso a cerca de mimos. Entretanto, quanto a mãe, esta continua sendo a serviçal que também passa a servir a filha quando esta está em sua companhia.
Fabinho é o adolescente mimado, inconsequente, despreocupado e acostumado a ter tudo sem se preocupar com a origem da sua riqueza ou com o futuro. Ao mesmo tempo é o filho pouco ligado aos pais que maior parte do tempo se encontravam ausentes e não o provia do carinho e da atenção que ele necessitava. Os ciúmes de Jéssica é automático apesar de ser pouco expressado, mas não tanto pelo pai, ou até por Val, mas pela presença de alguém que ele acha “segura de mais de si”.

Por fim, Bárbara é a típica socialite que não faz nada em casa por conta própria, ligada ao mundo da moda e que como patroa sempre se mostra amável, mas não perde a chance de mostrar veladamente e, nas entrelinhas, qual é o lugar da criadagem e o seu descontentamento em relação a presença de Jéssica em sua casa. Sua recepção a Jéssica, bem no início, é calorosa, mas apenas até ela perceber que a menina não ficaria “da porta da cozinha pra lá”. Até notar o interesse mal dissimulado do seu marido e, iminentemente, também do filho. Logo a máscara de boa patroa é substituída pelo olhar prepotente, altivo e de pouco contentamento e as indiretas começam a surgir. O desfecho já era esperado.

No fim, o conjunto desses personagens representa três grandes grupos: a classe média acostumada a mandar e ser servida; a geração submissa da classe trabalhadora acostumada a receber ordens, acatá-las e respeitar as convenções impostas pela estratificação, bem como a própria estratificação; e, por fim, Jéssica seria a nova geração, como afirma Léa Maria Aarão Reis[2], que persegue um Brasil mais igualitário com a diminuição das desigualdades entre classes, e que acredita que, através da educação, é possível alcançar essa redução da desigualdade e por, extensão, alcançar também uma vida melhor.

Conclusão: porque um bom livro?

Como os leitores sabem o 7ª Arte se dedica a falar tanto de adaptações de livros para o cinema, como de filmes que dariam bons livros. No primeiro caso teço críticas e comparações entre o livro e sua adaptação, mas no segundo caso explano os motivos que me levam acreditar que o roteiro de um determinado filme se transformaria em um livro interessante caso fosse escrito nesse modelo.

Confesso que minha escolha por Que Horas Ela Volta? tem razões muito pessoais. Ele é um filme que tem muito a ver comigo e por isso chamou bastante a minha atenção.

Assim como a personagem Jéssica já fui o filho da empregada doméstica que morava no serviço. Vivi uma década de minha vida em uma casa que não era minha, e apesar de ter uma relação relativamente boa com os membros da casa, também passei por momentos bem ruins e desconfortáveis que só quem já viveu na casa dos outros sabe bem como é. Além disso, reconheço em Val a labuta, a submissão, a quase servidão a que minha mães esteve submetida, bem como o comportamento condicionado por limites invisíveis e que ela, para nos manter lá, também me impôs.

Por ter visto e vivido de perto a realidade dos empregados domésticos é que achei poderosa a opinião de Léa Maria, quando afirma que a cineasta de Anna Muylaert, com seu trabalho, “toca num nervo infeccionado, até então camuflado, da classe média brasileira”: a “hierarquização feroz das classes no Brasil”.

Porém, aparte das minhas razões pessoais e logo egoístas, considero que a relevância dos temas que são discutidos por Que Horas Ela Volta? já o tornaria um bom enredo para livro. Porém, além dessa relevância, soma-se o fato de que ainda não li um livro brasileiro que abordasse a questão dos trabalhadores domésticos desta maneira. Conheço apenas uma obra estrangeira que tenta desbravar as intrincadas relações entre patrões e empregados domésticos. Esse livro seria O Diário de uma Camareira, de Octave Mirbeau, mas que pelos seus 117 anos de existência fala de um contexto histórico muito diferente, além de ser sobre outro país.

O trabalho domestico na mansão de Bárbara.
Em primeiro plano, Val e a diarista que lhe ajuda com a limpeza da casa. 
O filme também soube retratar muito bem a realidade de um grupo social que possui muito pouca projeção no cinema e na literatura e que quando são representadas ou são destacadas as suas características quase sempre é de uma forma estereotipada.

Estou acostumado a ver no cinema e na literatura o empregado como uma espécie de figurante, ou personagem secundário, condizendo com sua posição dentro da casa dos seus senhores.

A cozinha é o lugar do mexerico, o mordomo é o lacaio fiel, a governanta é a tirana que conduz a mãos de ferro a criadagem subalterna, a empregada é o alvo preferido das ofensas, das provocações e humilhações de seus senhores. Esses são os esteriótipos mais comuns. Quando o personagem foge deles ela/ele é aquela pessoa maravilhosa, surreal, que merecia ser mais do que um simples empregado e por vezes é promovido a patroa/patrão. Logo é também um modelo nem sempre real.

Para mim, a Val de Que Horas Ela Volta? devolve a humanidade aos empregados domésticos ao ser retratada como alguém com seus próprios dramas pessoais, que padece os dissabores da profissão. Um alguém que é simples mas não ingênuo, que é envolvida pelo sentimento de dever imposto por sua posição, mas que também se envolve emocionalmente com as pessoas para quem trabalha, e que no fim, faz suas escolhas a partir daquilo que de fato é importante para si.

Ademais, Que Horas Ela Volta? tem um traço que gosto muito no nosso cinema: a sua capacidade de trazer histórias cheias de humanidade. Vi essa humanidade em toda a trama, na relação carinhosa entre Val e Fabinho e também no desfecho que fala de recomeço.

Trata-se de um filme que ao mesmo tempo que desnuda e expõe as relações entre ricos e pobres, patrões e empregados, também ressalta como o afeto pode estar pra além disso. Em meio a todas as questões de classe, o filme mostra que a humanidade existe no amor sincero cultivado ao longo dos anos com cumplicidade, afeto e atenção e não reconhece as fronteiras entre classes.

Val e Fabinho em uma das cenas que melhor representou o carinho entre os dois. 
Sempre ao lado de Fabinho, apoiando-o em tudo e preenchendo a lacuna de uma mãe ausente, Val constrói com o filho dos patrões uma relação muito próxima, muito sincera e muito bonita. A cena que mais me chamou a atenção foi quando com insônia, Fabinho deixou o conforto de seu quarto e vai se aninhar no acanhado espaço de Val, apenas para que ela acariciasse seus cabelos para fazê-lo dormir. Em contrapeso, seus pais lhe garantia tudo que fosse do melhor e a possibilidade de uma boa formação educacional, mas falhavam miseravelmente no que diz respeito à atenção, ao cuidado e ao carinho.

Enfim, é uma relação muito bonita de carinho e cumplicidade, nascida entre duas pessoas carentes de carinho, ele da mãe, ela da filha ausente. Sentimento raro, mas que mostra que, aparte de tudo, ainda somos humanos e em nossa humanidade, quando não nos deixamos levar pelas convenções sociais, somos capazes de amar e encontrar amor em toda parte.

Enfim, em seu conjunto e com a incrível atuação de Regina Casé, Que Horas Ela Volta? revela um retrato fiel das divisas sociais que separam as classes e que são reproduzidas em todos os contextos e dimensões da vida cotidiana da sociedade brasileira e, ao mesmo tempo, tratou da humanidade nas relações sinceras. Um filme real, bonito, sincero, humano. Preciso dizer mais alguma coisa?

A película é uma produção dos estúdios Gullane e África Filmes, com co-produção de Globo Filmes e entrou em cartaz no ano de 2015. Foi ganhador do Prêmio Especial do Júri Pela Atuação para Regina Casé e Camila Márdila no Festival de Sundance. Venceu no Festival de Berlim o prêmio do Público de Melhor ficção na Mostra Panorama e o prêmio CICCAE. Venceu ainda no RiverRun International Film Festival pelo melhor roteiro, dentre outros prêmios no Brasil e no mundo. Tem duração de 112 minutos.

Abaixo você pode conferir o trailer do filme:

Trailer



Postagens Relacionadas










[1] https://ensaiosdegenero.wordpress.com/2016/01/30/que-horas-ela-volta-um-filme-para-se-pensar-a-estratificacao-social-no-brasil/
[2]https://www.geledes.org.br/que-horas-ela-volta-com-medo-de-jessica/?gclid=EAIaIQobChMIx4mDzeXY1wIVS4GRCh1l8w4cEAAYASAAEgL-KvD_BwE

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Vidas Secas – Graciliano Ramos - Resenha

Por Eric Silva

Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.

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Falar de uma obra de quase 80 anos e que já foi exaustivamente estudada, analisada e comentada é um desafio assustador, principalmente para mim que sou muito rigoroso em relação ao conteúdo do que falo e escrevo quando se tratam dos clássicos da literatura nacional e universal. Terreno perigoso para divagar e emitir opinião.

Ainda assim, falar de Vidas Secas é para mim imperativo, porque esta obra tão singular trata de temas com os quais volta e meia estou envolvido. Então, não falar da obra-prima de Graciliano não era uma opção e, por isso, quando ficou decidido que, em 2017, homenagearíamos a literatura brasileira, pensei de imediato que este livro não podia ficar de fora do itinerário da campanha do #AnoDoBrasil. Este é meu retorno a uma obra que li pela primeira vez aos 19 anos na ocasião do vestibular da Uneb. Hoje, mais maduro e com outros objetivos, meu olhar é outro e pude perceber a profundidade de uma história que tem um valor social e histórico muito grande e que deveria ser lido por todos os brasileiros. Um retrato de um Nordeste que mesmo hoje ainda se encontra profundamente marcado por sérios problemas sociais.

Confira a resenha do décimo livro da campanha anual de literatura e que nesse ano homenageia a literatura do Brasil.

Sinopse

Importante livro da literatura modernista brasileira, Vidas Secas, livro de Graciliano Ramos narra a história de Fabiano, Sinhá Vitória, os dois meninos e a cadela Baleia, uma família de retirantes famintos, que vagando pelo sertão seco encontram abrigo em uma fazenda abandonada e ali se instalam. Com o retorno das chuvas, o proprietário regressa à fazenda e acaba por empregar Fabiano como vaqueiro da propriedade, onde a família permanece o retorno do período de estiagem. Carregado de crítica social e expondo as feridas profundas de um Nordeste maltratado pela seca e pela desigualdade social e latifundiária, Vidas Secas é um dos mais impressionantes e emblemáticos romances da chamada geração de 30.

Resenha

Publicado pela primeira vez em 1938 pela editora José Olympio, Vidas Secas é a obra-prima do escritor alagoano Graciliano Ramos, um dos principais representantes da segunda fase modernista da nossa literatura. De caráter regionalista, o livro de Graciliano, bem como as de seus contemporâneos do regionalismo de 30, se difere enormemente do regionalismo da escola romântica do século XIX, pelo seu caráter realista e denunciativo, preocupado com as questões sociais e políticas da época no Brasil. Como afirmam Terra e Nicola (2005, p. 503):

As transformações vividas pelo país com a Revolução de 1930 e o consequente questionamento das tradicionais oligarquias, os efeitos da crise econômica mundial e os choques ideológicos que levaram a posições mais definidas e engajadas formavam um campo propício ao desenvolvimento de um romance caracterizado pela denúncia social – verdadeiro documento da realidade brasileira –, em que as relações “eu”/mundo atingiam um elevado grau de tensão.

Vítimas das secas de 1877/1878, no Ceará.
Imagem: Wikimedia Commons
Com Vidas Secas não seria diferente. Principal marco da prosa da geração de 30 o tema explorado pelo romance não se limita a denunciar um Nordeste que sofria com a seca, mas que era – e ainda o é – igualmente marcado pela exploração do trabalho imposta pelos grandes latifundiários, verdadeiros detentores da posse da terra.

Um romance de pequena extensão, mas que expõe como nenhum outro o analfabetismo, a pobreza e a estrutura social e fundiária excludente pouco visíveis ao restante do país que enxerga o Nordeste apenas como a Região das Secas. Indo além da seca que dá nome ao romance esta é uma obra que fala da Vida, vidas que secam e se perdem na poeira da estrada. É, pois, uma denúncia das condições degradantes de miséria a que são submetidos os trabalhadores do campo, forçados a migrarem em busca de trabalho e melhores condições de sobrevivência.

Enredo e personagens

O enredo de Vidas Secas é do mais simples, apesar de trazer em seu bojo uma reflexão profunda da vida do trabalhador sertanejo que com sua família se retiram fugidos dos efeitos da seca.

O romance é composto em grande parte por pequenos momentos cotidianos dos personagens distribuídos em pequenos capítulos marcados pela falta de linearidade[1] – o que permite a leitura de cada um possa ser feita quase que de forma independente.

Logo no primeiro deles somos apresentados a situação lastimável da família de Fabiano que famintos e exaustos da viagem interminável caminhavam sob o sol abrasador. Neste momento, Graciliano, com sua narrativa seca e objetiva, busca ressaltar o farrapo humano no qual os cinco “viventes” se encontravam reduzidos. Tudo ali, seja na descrição dos “infelizes”, no seu caminhar arrastado em busca de alguma sombra, ou na atitude violenta de Fabiano com o filho que já não aguentava prosseguir com a caminhada, intencionalmente, o autor busca frisar o cansaço, a desgraça e o embrutecimento ao qual aquelas pessoas estavam submetidas ao longo de uma viagem fatigante e cruel pela caatinga ressequida.

Mas é após a chegada da família na fazenda abandonada, onde se instalam, que a narrativa prossegue apresentando as perspectivas, anseios e conflitos internos de cada um dos seus personagens, revelando seus dramas e conflitos pessoais à jusante da realidade de miséria, ignorância e exploração vivida pelos mesmos. Desta forma, a cada novo capitulo vamos nos aprofundando na visão que estes tinham de si, dos outros e do mundo. É, pois, nessa descrição dos pensamentos, anseios e reflexões que se encontra o valor intrínseco da obra. Narrador e personagem se fundem em uma só voz, o que chamamos de discurso indireto livre, dando vazão às frustrações, sonhos e medos que acometem aquelas pessoas simplórias e submissas aos desmandos da natureza e dos homens.

Capítulo por capítulo somos apresentados aos personagens. Primeiro a Fabiano, o chefe da família, um homem oprimido pela sua pouca capacidade de expressão e pobreza de conhecimentos, que ciente de sua exploração não sabe como se defender e se submete. Embora em meio a caatinga Fabiano se sinta pleno e valente, é no trato com as pessoas de fora que ele se reconhece diminuído, questiona sua humanidade e se sente inferior ao patrão e às pessoas de conhecimento e fala segura como sinhá Terta e seu Tomás da bolandeira. É neste momentos que se sente quase igual aos animais com quem lidava, quase um bicho.

Sinhá Vitória, quase sempre ocupada com os afazeres da casa tinha como único sonho uma cama de lastro de couro que substituísse a cama de varas que lhe incomodava as costas. Na visão de Fabiano, Sinhá Vitória é uma mulher forte e inteligente, “tinha miolo”. Como ele era analfabeta, e as vezes o marido caçoava da forma desengonçada com que ela andava com os sapatos de verniz, mas com suas sementes sabia contar e “nas situações difíceis encontrava saída”.

Por sua vez, nenhum dos dois meninos recebeu de Graciliano um nome. São diferenciados na história apenas como o “menino mais novo” e o “menino mais velho”. Contudo, a despeito de terem nome ou não, ambos possuem, na narrativa, personalidades bem distintas e marcantes.

O mais novo admirava o pai em seu trabalho como vaqueiro da fazenda, tentava imitá-lo, e por ser seu herói pessoal via-o maior do que de fato era. Por sua vez, o menino mais velho possuía uma capacidade imaginativa maior e se via atraído pelo universo das palavras, pelo desconhecido que existia em seus significados e nos montes além das terras da fazenda, onde imaginava residir forças maléficas e também protetoras, bem como criaturas inumanas, incríveis e mágicas que procediam como pessoas e conviviam com a eterna luta do bem contra o mal. Dessa forma o menino mais velho se demonstra o mais poético dos personagens:

Todos os lugares conhecidos eram bons: o chiqueiro das cabras, o curral, o barreiro, o pátio, o bebedouro — mundo onde existiam seres reais, a família do vaqueiro e os bichos da fazenda. Além havia uma serra distante e azulada, um monte que a cachorra visitava, caçando preás, veredas quase imperceptíveis na catinga, moitas e capões de mato, impenetráveis bancos de macambira — e aí fervilhava uma população de pedras vivas e plantas que procediam como gente. Esses mundos viviam em paz, às vezes desapareciam as fronteiras, habitantes dos dois lados entendiam-se perfeitamente e auxiliavam-se. Existiam sem dúvida em toda a parte forças maléficas, mas essas forças eram sempre vencidas. E quando Fabiano amansava brabo, evidentemente uma entidade protetora segurava-o na sela, indicava-lhe os caminhos menos perigosos, livrava-o dos espinhos e dos galhos.

É notável como Graciliano através dos dois meninos demostra o lado afetuoso, criativo e romântico das crianças, que enxergam, onde os adultos já não são capazes, a magia e a beleza, o fascínio e a inocência. Mas com certeza o personagem mais querido dos leitores do livro é a cadelinha Baleia, também a mais humana dos membros da família.

Sempre sensível aos anseios do filho mais velho, atenta às ações de todos, submissa e sempre disposta a relevar os maus-tratos dos adultos. Baleia é quase um membro da família [SPOILER em itálico] e seu final trágico é uma das cenas mais comoventes da história abalando sobretudo Fabiano, seu algoz.

Outro personagem que é importante destacar é o soldado amarelo, um tipo “fraco e ruim” que após perder um jogo provocara Fabiano até que este se exaltasse e tivesse um pretexto para espancá-lo e jogá-lo na cadeia, o que conseguiu fazer. Assim como o patrão que roubava nas contas e inventava juros e dívidas, o soldado amarelo cumpre na narrativa o papel de antagonista, a personificação da corrupção e da injustiça e que provoca em Fabiano o desejo de vingança. É também graças ao soldado amarelo que conhecemos a submissão de Fabiano frente ao Estado (governo), sua visão romântica do Estado como algo distante, perfeito, supra-humano e de autoridade indiscutível.

Murchar e florescer... palavras podem ser perigosas

Paisagem da Caatinga no período da seca,
 com o xique-xique em primeiro plano.
Imagem: Wikimedia Commons.
Como eu disse Vidas Secas é um livro de enredo simples, ainda que seja bastante profundo. Mas no bojo desta narrativa muitas outras coisas me chamam a atenção. A primeira delas é que ali a seca cumpre o papel do mais assustador dos algozes, a inimiga de vinda certa, sempre à espreita, aterrorizando sonhos, evocando a lembrança dos momentos ruins vividos, das perdas e fazendo lembrar de que a estada ali na fazenda é passageira, que não há raiz para Retirantes desprovidos de tudo, da terra, do saber, de dinheiro. É a certeza da chegada dela, da inevitável volta a estrada e, logo, da certeza da efemeridade de sua estadia ali, que mingua o sonho de se fixar, de criar raiz naquela terra que não lhe pertence, que nunca pertencerá.

Em contra partida, a esperança floresce no inverno. A chuva reintegra os sonhos, alimenta a esperança de mudança, como se tal fato fosse de todo a única coisa necessária para que a vida fosse outra, fosse melhor. Aproxima personagens que apesar de juntos se isolam e são isolados.

É válido ainda destacar o quanto a expressão (articulação) verbal entre os membros da família é pobre, estéril quase limitado a monossílabos e gestos confusos, como se não possuíssem o dom da fala. Os pais só falam com os filhos para repreendê-los e os diálogos, escassos, são bem mais gestuais. Palavras são escassas, e podem ser perigosas.

“Às vezes utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos – exclamações, onomatopeias. Na verdade falava pouco. Admirava as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas.”

Sim, elas podem ser perigosas, e foram para Fabiano quando, por ter xingado a mãe do soldado provocador, foi parar na cadeia. Também para Graciliano que, pela sua posição crítica a sociedade de sua época, mas sobretudo pela sua posição política favorável ao comunismo, foi perseguido e até mesmo preso.

Mas a falta de diálogo entre os membros da família vai além da pouca verbalização, está também na incapacidade de expressão dos sentimentos, de responder as indagações das crianças, de atender suas necessidades, por isso os meninos são tratados com rudez.

“Uma das crianças aproximou-se, perguntou-lhe qualquer coisa. Fabiano parou, franziu a testa, esperou de boca aberta a repetição da pergunta. Não percebendo o que o filho desejava, repreendeu-o. O menino estava ficando muito curioso, muito enxerido. Se continuasse assim, metido com o que não era da conta dele, como iria acabar? Repeliu-o, vexado:

– Esses capetas têm ideias...”

Por fim, foi gritante para mim, principalmente no primeiro capítulo, que a secura de que fala o título não está só na vida ou no período da estiagem, como também nas pessoas embrutecidas pelo sofrimento. Nos tornamos secos quando submetidos a hostilidade de um mundo opressor e indiferente ao sofrimento alheio
.

Graciliano Ramos de Oliveira. Data desconhecida.
O menino mais velho pôs-se a chorar, sentou-se no chão.

— Anda, condenado do diabo, gritou-lhe o pai.

Não obtendo resultado, fustigou-o com a bainha da faca de ponta. Mas o pequeno esperneou acuado, depois sossegou, deitou-se, fechou os olhos. Fabiano ainda lhe deu algumas pancadas e esperou que ele se levantasse. Como isto não acontecesse, espiou os quatro cantos, zangado, praguejando baixo.

A catinga estendia-se, de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas que eram ossadas. O voo negro dos urubus fazia círculos altos em redor de bichos moribundos.

— Anda, excomungado.

O pirralho não se mexeu, e Fabiano desejou matá-lo. Tinha o coração grosso, queria responsabilizar alguém pela sua desgraça. A seca aparecia-lhe como um fato necessário — e a obstinação da criança irritava-o. Certamente esse obstáculo miúdo não era culpado, mas dificultava a marcha, e o vaqueiro precisava chegar, não sabia onde.

Tinham deixado os caminhos, cheios de espinho e seixos, fazia horas que pisavam a margem do rio, a lama seca e rachada que escaldava os pés.

Pelo espírito atribulado do sertanejo passou a ideia de abandonar o filho naquele descampado. Pensou nos urubus, nas ossadas, coçou a barba ruiva e suja, irresoluto, examinou os arredores. Sinha Vitória estirou o beiço indicando vagamente uma direção e afirmou com alguns sons guturais que estavam perto. Fabiano meteu a faca na bainha, guardou-a no cinturão, acocorou-se, pegou no pulso do menino, que se encolhia, os joelhos encostados ao estômago, frio como um defunto. Aí a cólera desapareceu e Fabiano teve pena. Impossível abandonar o anjinho aos bichos do mato. Entregou a espingarda a sinha Vitória, pôs o filho no cangote, levantou-se, agarrou os bracinhos que lhe caíam sobre o peito, moles, finos como cambitos. Sinha Vitória aprovou esse arranjo, lançou de novo a interjeição gutural, designou os juazeiros invisíveis.

Enfim, Vidas Secas é uma obra excepcional. Gosto dela pela sua crítica social pertinente pelo seu gosto pela linguagem regional, pela cadelinha Baleia, pelo menino mais velho. Vivo no sertão, e me interesso profundamente pelo Semiárido Brasileiro, pela sua estrutura político-social e por sua história marcada pela injustiça. Pela luta de milhares de Fabianos que construíram a fortuna dos latifundiários, dos coronéis. Pessoas simples, mas dignas. Que conhecem a fome, a penúria e sabem valorizar o pouco, o mínimo. Que sonham com um sertão diferente, de fartura e liberdade.

A edição lida é da Editora Record, do ano de 2005 e possui 175 páginas. Abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Google Books.

Prévia do Google Books









[1] http://guiadoestudante.abril.com.br/estudo/vidas-secas-analise-da-obra-de-graciliano-ramos/

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

#9 Lirismos: Romance II ou Do ouro incansável – Cecília Meireles

Postagem: Eric Silva

Mil bateias Vão rodando
sobre córregos escuros;
a terra vai sendo aberta
por intermináveis sulcos;
infinitas galerias
penetram morros profundos.

De seu calmo esconderijo,
O ouro vem, dócil e ingênuo;
torna-se pó, folha, barra,
prestígio, poder, engenho..
É tão claro! - e turva tudo:
honra, amor e pensamento.

Borda flores nos vestidos,
sobe a opulentos altares,
traça palácios e pontes,
eleva os homens audazes,
e acende paixões que alastram
sinistras rivalidades.

Pelos córregos, definham
negros, a rodar bateias.
Morre-se de febre e fome
sobre a riqueza da terra:
uns querem metais luzentes,
outros, as redradas pedras.

Ladrões e contrabandistas
estão cercando os caminhos;
cada família disputa
privilégios mais antigos;
os impostos vão crescendo
e as cadeias vão subindo.

Por ódio, cobiça, inveja,
vai sendo o inferno traçado.
Os reis querem seus tributos,
- mas não se encontram vassalos.
Mil bateias vão rodando,
mil bateias sem cansaço.

Mil galerias desabam;
mil homens ficam sepultos;
mil intrigas, mil enredos
prendem culpados e justos;
já ninguém dorme tranqüílo,
que a noite é um mundo de sustos.

Descem fantasmas dos morros,
vêm almas dos cemitérios:
todos pedem ouro e prata,
e estendem punhos severos,
mas vão sendo fabricadas
muitas algemas de ferro.


Sobre o autor

Cecília Benevides de Carvalho Meireles foi uma jornalista, pintora, poetisa e professora brasileira. Nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 7 de novembro de 1901 e ali faleceu em 9 de novembro de 1964. Lançou seu primeiro livro de poemas, Espectros, em 1919, quando ainda tinha dezoito anos de idade. Participou do grupo literário da Revista Festa, de caráter católico, conservador e anti-modernista. Atuou como professora em várias universidade no Brasil e no exterior, e, na Universidade do Distrito Federal, lecionou Literatura Luso-Brasileira. Sua obra foi traduzida em vários países e é considerada a primeira mulher de grande expressão na literatura brasileira.
 






Poema extraído do livro Romanceiro da Inconfidência, publicado em 2013, pela editora Global.







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