domingo, 27 de março de 2016

Beleza Perdida - Amy Harmon - Resenha

Capa da edição lida
Aparência ou essência? Perdido ou sozinho? Autopiedade ou coragem para prosseguir? Quando a aparência parece ser mais importante do que somos por dentro? Quando nos deixamos levar pela embalagem e nos esquecemos do que temos por dentro, do nosso conteúdo? E quando tudo parece perdido e a beleza vai embora, o que nos resta? Essas são algumas perguntas que Amy Harmon tenta responder aos seus leitores ao longo das páginas de Beleza Perdida, publicado no Brasil pela Verus Editora.

Ambrose Young era considerado um dos garotos mais atraentes da escola da pequena cidade de Hannah Lake. Principal atleta do time de luta livre da escola, o Hércules, como era chamado, já tinha seu futuro acadêmico garantido pelo esporte. A sua competência como lutador não só lhe fizera principal orgulho dos moradores da cidade, como lhe garantira também uma bolsa de estudos na Universidade da Pensilvânia.  Ele era tudo o que muitos outros jovens ansiavam ser.

Logo ali ao lado, Fern Taylor, a filha do pastor Joshua Taylor, nutria uma paixão inconfessável por Ambrose, mas ela se considerava feia demais para um dia ser notada pelo rapaz que poderia ter qualquer garota que quisesse. Por isso a garota dos cabelos que lembravam “uma coroa de fogo desenfreado” se contentava em sonhar acordada e entregar-se aos romances que lia e escrevia. Mas o verdadeiro consolo de Fern estava na amizade quase maternal que mantinha com o primo, o irreverente Bailey, portador de distrofia muscular de Duchenne, filho do treinador de Ambrose e mascote do time.

Porém tudo fica mais difícil para Fern quando ela descobriu que sua amiga mais próxima, Rita, também estava apaixonada por Ambrose e para ajudá-la acaba escrevendo cartas de amor para o rapaz no lugar de Rita. Porém aquela também seria uma possibilidade de conhecer melhor o objeto de seu amor.

A vida seguia seu curso normal até a chegada do dia 11 de Setembro de 2001. Após testemunhar com seus colegas de classe o trágico incidente com as Torres Gêmeas, Ambrose já não era mais o mesmo. Seu espírito e seu coração foram tomados pelos mesmos sentimentos de vazio e de dor e pelo desejo de justiça que recaíram sobre todos os americanos enlutados. Ambrose tomaria a mais importante e decisiva decisão de sua vida: lutaria ao lado de seus melhores amigos na guerra no Oriente Médio. Entretanto o custo de sua decisão seria mais elevado do que ele poderia supor. Isso iria custar inclusive a sua beleza e suas certezas.

Beleza Perdida é um livro que fala de perdas e de superação, de autopiedade e da necessidade de supera-la. A princípio o clima criado pela paixão platônica da garota feia pelo rapaz mais popular da escola me fez pensar que Beleza Perdida fosse só mais um romance Sessão da Tarde que enjoamos logo nos primeiros capítulos e que deduzimos o final com a mesma facilidade e segurança com que afirmamos que o céu fica azul em dias de sol. Mas confesso que foi surpreendido, fiquei emocionado em alguns dos capítulos que antecederam o seu desfecho e tirei dessa leitura alguns ensinamentos que levarei para a vida. Vamos a nossa resenha falando um pouquinho dos três personagens principais.

Capa da edição em inglês
Fern é uma garota doce, poética e inteligente, exageradamente apaixonada, mas muito dedicada as pessoas que ama e um verdadeiro porto seguro para qualquer um que seja sensível o suficiente para cativa-la. Mais do que romântica a garota mostra em algumas passagem um apurado conhecimento de vida e uma generosidade que transcende o ser amigo, o ser companheiro e alcança a plenitude daquele que ama verdadeiramente e de forma gratuita e devotada.

O que mais me comoveu na personagem não foi nem tanto seu sentimento por Ambrose, mas o seu amor beirando o materno pelo primo doente a quem ela tinha o prazer e a voluntariedade de servir. Arrisco a dizer que Bailey, e não Ambrose, fosse a outra metade da alma da ruiva, porém em um sentimento puramente fraterno.  Eram cúmplices, confidentes, inseparáveis. Os dois compunha um soneto ao mesmo tempo cômico, comovente e bonito.

Ambrose, por sua vez, é uma das veias trágicas da história. O rapaz além de introspectivo vive interiormente atormentado pelas consequências dramáticas de suas escolhas e se culpa por elas, o que faz com que o rapaz esteja sempre em conflito consigo mesmo e procure distanciar os demais de si. As reviravoltas que sua vida dá o distanciando bastante daquele garoto atraente da escola, porém, não diminuem o amor e o desejo que Fern sentia por ele. Contudo, consumido pelas suas amarguras, arrependimentos e pela autopiedade, o rapaz se torna por um certo tempo incapaz de acreditar nos sentimentos de Fern, ao mesmo tempo que duvida que o interesse da garota seria duradouro.

Por fim, termos Bailey, meu personagem preferido. Como portador de distrofia muscular de Duchenne Bailey sempre soube que sua vida seria muito curta e que logo estaria condenado a viver em uma cadeira de rodas, com seus movimentos reduzidos a quase nada e completamente dependente de que as pessoas fizessem tudo por ele. Ter chegado aos vinte e um anos foi para ele um milagre que só foi possível graças a incansável dedicação de seus pais e da prima Fern. É muito comovente quando se desabafando e ao mesmo tempo dando um sermão em Ambrose o rapaz fala de como teve que abandonar por completo qualquer sentimento de orgulho para continuar vivendo.

Porém, ao contrário do que se pode imaginar, Bailey é um rapaz alto-astral, cheio de sonhos, grato pelo o que tem, decidido e, principalmente, sem nenhum temor da morte. Ao contrário, ele é daquelas pessoas que faz piada de sua própria desgraça e se agarra a vida procurando aproveitar cada minuto e nunca perder um minuto que seja com autopiedade. Logo, ele é o polo oposto de Ambrose, ainda que admirasse bastante o lutador.

O tema centra do livro é com certeza a beleza, mas não apenas a beleza estética, a casca, mas a capacidade de ser belo por dentro, o que pressupõe possuir, cultivar e transmitir qualidades como gentileza, amizade, humildade, determinação, perseverança, voluntariedade e amorosidade. Os laços que unem os três personagens centrais da história são feitos destes sentimentos, o que torna a narrativa bonita e tocante. Ambrose precisa de ajuda para vencer seus demônios, e por amor Fern está pronta para fazer de tudo para que ele volte a ter confiança em si e seja capaz de superar seus problemas. Por sua vez, Bailey está também disposto a ajudá-los.

O livro também fala de perdas e da necessidade de que não cultivemos a autopiedade, que não nos deixemos consumir por nossa impotência diante da adversidade, mas que busquemos seguir em frente, conviver com o que somos, o que vemos no espelho, aproveitando o que de melhor a vida pode nos dar, junto de quem amamos.

Gostei muito do livro, e como já disse fui surpreendido pelos seus personagens e pelos acontecimentos que antecedem o desfecho. Mesmo não sendo meu gênero literário preferido fiquei emocionado em vários capítulos.

Achei interessante também por ele nos dá uma noção do sentimento vivido pelos americanos diante do terror do 11 de setembro. Mesmo em que em uma pequena dose, conhecemos através de Ambrose o vazio que aquele acontecimento trágico deixou no coração do povo estadunidense. Ao mesmo tempo ele nos dá uma pequena prova do horror vivido pelos jovens em campo inimigo. Pena que a discussão não foi aprofundada e a geopolítica envolvida na “Guerra contra o Terror” de Bush não é explorada. Mas fica claro que este não era o foco da narrativa. A autora pretendia mostrar a coisa pelo olhar dos jovens americanos, dos que lutaram pela sua nação.

Me chamou a atenção também como o começo da narrativa se assemelha a história de A Marca de uma Lágrima de Pedro Bandeira, outro livro já resenhado aqui no blog. A ideia é bem semelhante: uma garota que se acha feia, apaixonada por um garoto muito bonito que está envolvido com sua melhor amiga e ela se faz passar pela amiga escrevendo cartas de amor inundadas em poesia. Mas no prosseguir dos fatos as narrativas tomam caminho completamente distintos, sendo apenas uma breve semelhança.

Enquanto escrevia esse texto, estava ouvindo Photographde Ed Sheeran e pensando como valeu a pena ler esse livro, unicamente por causa dos laços poderosos e comoventes criados entre esses personagens. Esses laços foram o suficiente para que eu decidisse resenhar o livro, isso o diferenciou de um simples romance tipo Sessão da Tarde. Há momentos cansativos, mas que valem a pena. Na verdade Photograph é muito semelhante a proposta de Amy Harmon:

Loving can heal (Amar pode curar)
Loving can mend your soul (Amar pode remendar sua alma)
And it's the only thing that I know (E é a única coisa que eu sei)

Por fim, só uma dica a quem for ler o livro: prestem bastante atenção aos títulos dos capítulos! :>


A edição lida é de 2015, digital e publicado pela Verus Editora.

Confira também a postagem especial:

Distrofia muscular de Duchenne e o livro Beleza Perdida

2 comentários:

  1. Olá!
    Já tinha escutado falar desse livro, inclusive uma amiga me recomendou recentemente.
    Adorei sua resenha, super completa. Fiquei apaixonada pelo blog e já estou seguindo <3

    Beijão
    Leitora Cretina

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    Respostas
    1. Ficamos muito feliz que tenha gostado. Realmente é um livro muito interessante e vale a pena ler. Volte sempre, estaremos a sua espera.

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