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Diga-nos o que achou da resenha nos comentários.
Em
26 de abril deste ano, o acidente nuclear de Chernobyl completa 34 anos. Hoje
começo uma série especial de artigos sobre o livro Vozes de Tchernóbil, de Svetlana Aleksiévitch (grafado também como Alexijevich
ou Alexievich), que documentou uma série de relatos de sobreviventes do
acidente e também de seus descendentes. Neste primeiro artigo, como forma de
introdução ao tema, trago um resumo do contexto histórico da época falando um
pouco das cidades atingidas, da União Soviética no contexto da Guerra Fria e do
acidente propriamente dito.
No
segundo artigo, trago a resenha crítica do livro de Svetlana, e, no terceiro, uma galeria de imagens da zona de exclusão com citações
do livro.
Confiram
agora o contexto histórico do acidente.
A época do acidente
Em 1986, o mundo
ainda vivia em plena Guerra Fria, um período no qual a ordem mundial se
encontrava bipolarizada e as nações divididas em dois blocos: o bloco
capitalista, comandado pelos EUA, e outro socialista, encabeçado pela União das
Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS, ou apenas União Soviética). Ambas as
nações naquele tempo buscavam demonstrar seu poderio tecnológico e bélico, bem
como defender e promover as ideias de seus respectivos modelos sociais e
econômicos, em um jogo político que buscavam influenciar diversos países,
sobretudo através de ajuda econômica.
Durante a Guerra
Fria os conflitos armados se deram de forma indireta, o que não eliminava,
porém, a tensão de uma possível guerra entre as duas superpotências. Na época,
a forte disputa ideológica empreendida pelas dois píeses, mas principalmente a
ameaça de uma guerra atômica entre eles e que provavelmente exterminaria a vida
na Terra, contribuíram não apenas para amedrontar todas as nações do mundo como
deixavam as populações americana e soviética sempre alertas ao ataque inimigo.
Não é de se
surpreender que o primeiro pensamento dos soviéticos, quando se iniciou a movimentação
do exército vermelho no local da explosão da central atômica de Chernobyl, fosse
a de que o acidente estivesse de alguma forma ligado a uma sabotagem promovida
pelos inimigos. Pensamento que só com o tempo foi desfeito.
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Localização da República Socialista Soviética da Ucrânia. Autor: Milenioscuro. Wikimedia Commons. |
Seria na Ucrânia
país, entre as cidades de Pripyat e Chernobyl, mais precisamente a noroeste desta
última, onde a usina nuclear de Chernobyl seria construída, a 16 km da
fronteira entre a Ucrânia e a Bielorrússia, e a cerca de 110 km de Kiev, a
capital da república[2]. Hoje, completamente
abandonadas, ambas as cidades são apenas o fantasma do que foram na época.
Chernobyl e Pripyat
Apesar de não terem sido as únicas áreas
atingidas pela radiação liberada na explosão do reator 4, Chernobyl e Pripyat
são os dois grandes símbolos do acidente.
Na época, Chernobyl era uma pequena e antiga cidade
de 14 mil habitantes[3]
localizada na província (oblast) de
Kiev. O primeiro documento a menciona a cidade data do ano de 1193, no qual o
sitio é descrito como um alojamento de caça pertencente ao Kniaz (rei,
príncipe) Rostislavich[4].
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Restaurante abandonado na cidade de Chernobyl. Autor: Natis. Wikimedia Commons. |
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Visão da cidade de Pripyat nos tempos atuais. Autor: IAEA Imagebank. Wikimedia Commons. |
Pripyat foi construída a 4 km da usina de Chernobyl e possuía a capacidade
de abrigar entorno de 50 mil habitantes[7].
Segundo Aleksêi Timofeitchev[8],
a cidade era mais uma das quase duas dúzias de “cidades atômicas” que existiam na URSS, tendo sido construída no
mesmo ano que a usina por brigadas “superprodutivas”.
Afirma também o autor que a cidade era habitada por uma população jovem (média
de 26 anos) proveniente de todo o território soviético.
Santiago (s/d)[9]
conta que a região era originalmente “um
modesto reduto de agricultores”, porém com a chegada da usina, a primeira da
Ucrânia, mas que mudaria completamente com a instalação do núcleo urbano. Afirma
ainda, que pensada para ser uma cidade-modelo, Pripyat foi “meticulosamente planejada” com uma
grande infraestrutura que ia desde “uma
ampla rede de atrativos culturais” até “um
centro médico, escolas secundárias, escola técnica, mercados e restaurantes”
além de diversas pré-escolas, opções para a prática de atividades físicas e
outras obras que ainda seriam implantadas. Contudo após o acidente toda a
população da cidade teve que ser evacuada e a infraestrutura abandonada.
O acidente e a zona de exclusão
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A tampa do reator (escudo biológico superior) apelidado de "Elena" caída de lado na cratera de explosão. Sobrepostas estão a posição pré-explosão dos tanques de vapor, do piso da sala do reator e das treliças do telhado. Autor: Tadpolefarm. Wikimedia Commons. |
Souza (s/d)[10] explica
que o objetivo do experimento realizado naquela noite era
observar o comportamento do reator quando este fosse utilizado com níveis
baixos de energia. Mais especificamente, Pedrolo (2014)[11] comenta
que a intensão era testar se as turbinas do reator “seriam capazes
de gerar energia suficiente para manter as bombas do líquido de refrigeração
funcionando” em situações de perda de potência “até que o gerador de emergência
fosse ativado”.
No processo, afirma Souza (s/d), diversas normas
de segurança foram desrespeitadas e um dos principais erros cometidos foi a
interrupção da circulação do sistema hidráulico que controlava a temperatura
dentro do reator, o que desencadeou um processo de superaquecimento irreversível
e a consequente explosão do reator cheio de Urânio-235. Contudo essa explicação
para o acidente não é aceita por todos, sendo que muitos apontam para falha
humana e outros para erros no projeto e na construção do reator.
O vídeo abaixo (em inglês) mostra um esquema de como o retor explodiu.
Com a explosão, uma enorme quantidade de material
radioativo foi lançado na atmosfera liberando uma radiação 400 vezes maior do
que as bombas de Nagasaki e Hiroshima (SOUZA, s/d).
O resultado foi a formação de uma grande nuvem de radiação que atingiu vários
países europeus, alcançou outros continentes, mas que contaminou principalmente
a república soviética mais próxima: a Bielorrússia (ou Belarus).
Nos dias que se seguiriam, a ação dos ventos e
da chuva aumentariam a disseminação da radiação e segundo reportagem da BBC[12],
o incêndio provocado pela explosão na usina ainda perduraria por mais 10 dias,
durantes os quais os soviéticos tentariam conter as chamas do material
radioativo com areia (para o incêndio) e chumbo (para a radiação) lançados
sobre o reator de helicóptero.
A reação do Estado Soviético ao incidente foi
considerada como lenta e contribuiu para que se prolongasse o tempo de
exposição de milhares de pessoas à radiação, sobretudo na cidade de Pripyat. A
população não foi avisada de imediato da magnitude da situação nem foram
tomadas medidas de emergência como a distribuição de pílulas de iodo para
impedir a absorção de iodo radioativo pelo corpo[13].
Mesmo o processo de evacuações só teve início 30h depois da explosão da usina,
quando milhares de pessoas foram deslocadas para outras áreas com a promessa de
que retornariam em poucos dias.
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Visão externa do Palácio da Cultura. Autor: Timm Suess. Wikimedia Commons. |
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Visão interna do Palácio da Cultura. Autor: Timm Suess. Wikimedia Commons. |
Como medida emergencial o governo soviético estabeleceu uma área de isolamento que se estende por uma área de raio de 30 km entorno do local da usina, evacuando mais de 135 mil pessoas residentes nesta área[14]. Ainda hoje a chamada Zona de alienação da Usina Nuclear de Chernobyl ou Zona de exclusão de Chernobyl ainda existe, é patrulhada por policiais aramados e a moradia é proibida, ainda que alguns dos evacuados tenham regressado a zona de forma clandestina e permanecem vivendo nela apesar do isolamento. Todavia, ainda segundo reportagem da BBC, a região nunca foi completamente evacuada devido a variação das regras de exclusão que dentro do perímetro da zona variam segundo os níveis de radiação.
“A usina, fechada em 2000, não tem residentes oficiais.
Trabalhadores envolvidos na desativação da usina e na descontaminação da área
têm permissão para morar na cidade de Chernobyl, a uma distância de 15 km da
usina, mas ainda assim há um limite para o número de semanas consecutivas que
podem passar no local”.
Outra medida adotada pelo Estado Soviético para
combater o incêndio do reator 4, isolá-lo e fazer a “limpeza” da usina,
cidades, povoados e campos contaminados foi a criação de uma brigada formada
por 600.000 homens entre soldados, voluntários e especialistas de diversas
áreas que passaram a ser chamados de “liquidadores” (“ликвида́тор” "likvidators").
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Liquidador soviético durante as atividades de descontaminação. Autor: IAEA Imagebank. Wikimedia Commons. |
Expostos a grande níveis de radiação e sem os
equipamentos de proteção adequados apenas 5% dos liquidadores ainda vivos se
encontram saudáveis[15],
a maioria morreu ainda muito jovem, sobretudo por doenças como o câncer e
muitos outros ficaram inválidos.
O “sarcófago” construído emergencialmente em
aço e concreto para cobrir e isolar o reator hoje se encontra em estado
avançado de deterioração o que cria o risco de um colapso da estrutura e o
espalhamento de uma grande quantidade de poeira e resíduos radioativos (“200
toneladas de cório radioativo, 30 de poeira contaminada e 16 toneladas da soma
de urânio e plutônio”[16]).
Ante a este risco eminente o governo ucraniano, com o apoio de 21 países
doadores, construiu uma nova estrutura de isolamento, o New Safe Confinement,
uma estrutura de 108 metros de altura por 257 de largura e pesando 36 mil
toneladas[17] que foi instalada, em
2016, sobre o reator 4.
Abaixo, no primeiro vídeo você pode conferir a
instalação do novo “sarcófago” do reator 4, enquanto que no segundo vídeo, é
possível se ter uma ideia da complexidade da construção dessa estrutura.
Novo sarcófago
Complexidade do projeto
As consequências
Além de inúmeras perdas humanas, materiais e
afetivas, a mais nefasta e duradora consequência do acidente se revelaria nas
gerações posteriores.
Após a liberação do material radioativo
cresceram o número de doenças congênitas como má formação de órgãos e doenças
cardiovasculares em crianças além do surgimento de mutações genéticas (KAPUSTINA,
2011)[18]. Além
disso, houve absurdo aumento nos casos de câncer e de doenças da tireoide (idem,
ibidem).
Por sua vez, as consequências psicológicas
não são quantificáveis. Muitos dos depoimentos trazidos pelo livro de Svetlana
pontuam algumas destas consequências no plano psicológico como nos trechos a
seguir.
“Não adianta, as nossas crianças não sorriem. E em
sonhos choram”.
“À nossa volta só se fala na morte. As crianças pensam
na morte. Mas isso é algo que só deveria ser pensado no final da vida, e não no
início dela”.
Nas regiões de maior contaminação, alimentos
e animais ainda apresentam elevados níveis de radiação o que torna impraticável
o seu consumo, e mesmo a cadeia alimentar selvagem foi atingida.
Durante as primeiras semanas após o acidente,
o governo soviético, na época chefiado por Mikhail Gorbachev, tentou esconder
do mundo a ocorrência do desastre. O desastre só seria revelado quando alguns
países europeus identificaram o aumento anormal nos níveis de radioatividade em
seus territórios, o que obrigou às autoridades locais a reconhecerem a
ocorrência do acidente. Ainda hoje, em decorrência desta política de pouca
transparência, as estatísticas de mortos e de pessoas contaminadas pela
radiação são escassas e imprecisas revelando em sua maioria números bem menores
do que a realidade.
[1]https://pt.wikipedia.org/wiki/Rep%C3%BAblica_Socialista_Sovi%C3%A9tica_da_Ucr%C3%A2nia
[2]
https://pt.wikipedia.org/wiki/Usina_Nuclear_de_Chernobil
[3]
https://es.wikipedia.org/wiki/Chern%C3%B3bil
[4]
https://es.wikipedia.org/wiki/Chern%C3%B3bil
[5]http://g1.globo.com/mundo/noticia/2016/04/apesar-da-radiacao-mais-de-150-pessoas-ainda-moram-em-chernobyl.html
[6]http://www.bbc.com/portuguese/internacional/2016/04/160426_chernobyl_ucrania_aniversario_imagens_fd
[7]http://www.bbc.com/portuguese/internacional/2016/04/160426_chernobyl_ucrania_aniversario_imagens_fd
[8]https://gazetarussa.com.br/multimedia/inpictures/2017/04/27/pripyat-a-vida-pre-chernobyl-de-uma-cidade-atomica_751761
[9] http://www.infoescola.com/uniao-sovietica/pripyat/
[10]SOUSA, Rainer Gonçalves.
Acidente de Chernobyl. Brasil Escola.
Disponível em: http://brasilescola.uol.com.br/historia/chernobyl-acidente-nuclear.htm.
Acesso em 26 de julho de 2017.
[11]PEDROLO, Caroline. Acidente da Usina Nuclear de Chernobyl. InfoEscola. Disponível em: http://www.infoescola.com/fisica/acidente-da-usina-nuclear-de-chernobyl/.
Acesso em 26 de julho de 2017.
[12]http://www.bbc.com/portuguese/internacional/2016/04/160426_chernobyl_ucrania_aniversario_imagens_fd
[13]http://noticias.r7.com/internacional/noticias/saiba-mais-sobre-os-efeitos-da-radiacao-no-corpo-humano-20110412.html
[14]https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2016/04/26/ucrania-lembra-30-anos-de-chernobyl-e-rende-tributo-a-liquidadores.htm
[15]http://www.bbc.com/portuguese/internacional/2016/04/160426_chernobyl_ucrania_aniversario_imagens_fd
[16]http://revistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2017/01/sarcofago-de-chernobyl-ganha-reforco-para-conter-poeira-radioativa.html
[18]
KAPUSTINA, Olga. Consequências da tragédia de Chernobyl persistem mesmo após 25
anos. DW, 2011. Disponível em:
http://www.dw.com/pt-br/consequ%C3%AAncias-da-trag%C3%A9dia-de-chernobyl-persistem-mesmo-ap%C3%B3s-25-anos/a-14950218.
Acesso em 26 de julho de 2017.
Oi, maravilhosa matéria! Também li o livro 'vozes de chernobyl', que é bastante impactante em algumas partes.
ResponderExcluirwww.sramaia.blogspot.com
Que bom que gostou. Semana que vem sai a resenha do livro. Obrigado pelo comentário.
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