Referências
https://pt.wikipedia.org/wiki/Italo_Calvinohttps://www.companhiadasletras.com.br/autor.php?codigo=00077
https://pt.wikipedia.org/wiki/Elena_Ferrante
https://en.wikipedia.org/wiki/Niccol%C3%B2_Ammaniti
Por Eric Silva para a 4ª Campanha Anual de Literatura do Conhecer Tudo
7 de março de 2021, ano da Itália
“O mimetismo batesiano se verifica quando uma espécie
animal inócua, aproveitando sua semelhança com uma espécie tóxica ou venenosa
que vive no mesmo território, consegue imitar a cor e os comportamentos dessa
última. Assim, na mente dos predadores, a espécie imitadora é associada à
perigosa, o que aumenta suas possibilidades de sobrevivência”.
(Niccolò Ammaniti, epígrafe)
Nota: todos os termos com números entre
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Confira a resenha do terceiro livro da IV Campanha Anual
de Literatura do Conhecer Tudo que neste ano homenageia a literatura italiana.
Sinopse do enredo
Roma,
fevereiro de 2000. Munido de comida, bebida, livros e jogos, Lorenzo Cuni está
escondido no porão de seu prédio, rodeado de objetos empoeirados de uma
condessa morta, esperando que a semana branca (settimana bianca) acabe e ele possa enfim retornar para o andar de
cima e contar para a mãe o quão divertido foi passar aqueles dias esquiando nos
alpes italianos com seus amigos.
Mentir
e esconder-se ali era a única opção depois que ele inventou uma viagem que não
existia com amigos que ele nem se quer conhecia. Uma maneira louca de fugir da
perseguição dos pais que queriam que ele tivesse amizades.
Tudo
parecia dar certo. Ele conseguiu enganar os pais em relação a viagem, e
conseguiu despistar a mãe quando esta queria levá-lo ao ponto de encontro com
os tais amigos. Depois disso, conseguiu se instalar secretamente em seu refúgio
sem grandes esforços. Apesar disso, ele não contava que um segundo elemento se
introduziria em seus planos: a meia irmã Olivia, com a qual Lorenzo quase não
teve nenhum contato e que era viciada em drogas.
Naquele
justo momento, Olivia aparece em busca de algumas coisas pessoais no porão da
casa do pai, de algum dinheiro e de um lugar para “ficar limpa”, ou seja, para
esperar passar o tempo de abstinência dos narcóticos que usava. Sob coerção,
Lorenzo se vê obrigado a “hospedar” a irmã em seu refúgio secreto e, por vários
dias, conviver com ela, uma quase desconhecida. É assim que Olivia se soma a
equação de Eu e Você, e à vida do
jovem Lorenzo.
Resenha
Quando
comprei Eu e Você, em 2019, de
planos fazer naquele ano a quarta edição da CALCT, fiquei um
tanto receoso porque a capa e o título sugerem mais um daqueles romances de
amor adolescente e dramático. Todavia o livro de Niccolò Ammaniti vai para um
caminho totalmente oposto, e se ainda
assim Eu e Você (no original, Io e Te) seja um tanto dramático, é um livro sem muito romantismo,
cheio de originalidade e que conseguiu me agradar com seus personagens, sua
narrativa e sua leitura ágil e descomplicada.
Li numa resenha que este livro promete pouco e entrega pouco, mas para
mim, esse “pouco” foi mais do que o suficiente. É claro que Eu e Você não explora as belas paisagens italianas ou os cenários
romanos seculares, mas, por outro lado, explora um pouco da natureza humana
daqueles que são deslocados. O próprio protagonista e narrador é daquelas
almas egocêntricas que preferem a solitude de estar em sua própria companhia
porque considera que não há nenhuma outra associação melhor, mas que se vê –
por atrito – forçado a amadurecer. A outra protagonista é uma pessoa destruída
pelo desprezo de seus pares e pelo vício das drogas. Alguém desajustado, que
mesmo não estando à espera de que alguém lhe estenda a mão, luta com suas
próprias forças para encontrar um caminho.
Ammaniti parece gostar dos romances
dramáticos e de família, a exemplo do seu elogiado Como Deus Manda (Come Dio
Comanda), onde os dois protagonistas, pai e filho, vivem uma relação
baseada na violência e no conflito. Eu e Você é mais
suave, mas possui seus próprios tons dramáticos. A temática sobre as drogas já se tornou
corriqueira – afinal, mais do que nunca, o uso de drogas se tornou um fato
universal –, mas está em perfeito equilíbrio com a proposta e nível do livro.
Ainda assim, ele foi bom o suficiente para garantir uma adaptação para o cinema
realizado em 2012 por Bernardo Bertolucci e que rendeu várias indicações para o
Prêmio David di Donatello.
A
escrita de Ammaniti é ágil, leve e sucinta sem deixar de ser descritiva e bem
escrita. É prosaica, mas não destituídas de alguma poesia. Há um
equilíbrio entre diálogo e narração, e o narrador, por sua personalidade
individualista é irônico e opinativo. Mas o interessante nesse livro é o choque
existente entre duas gerações de irmãos tão distintos entre si. Ele amado e
mimado, ela ovelha negra, perdida, indesejada. Desse choque nasce uma novela
interessante, ainda que limitada. Mas o que quero mesmo é destacar seus
personagens muito bem-feitos.
Lorenzo
é um personagem tão peculiar quanto interessante. Ele é um ator nato e o meio termo entre um adolescente esnobe e
malcriado, mas sensível, e o futuro projeto de um manipulador taciturno,
antissocial e calculista, mas que não se concretiza. Observador,
inteligente, e egocêntrico, mas pouco dado a conversar com aqueles que não
faziam parte de seu círculo familiar. Só a mãe, o pai e a avó lhe importavam.
Os
pais se preocupam com a pouca sociabilidade do filho. Quando era pequeno,
Lorenzo só respondia aos estranhos com “sim, não, e não sei”, e se insistissem,
dizia aquilo que eles queriam ouvir. Quando “os outros” não o deixavam em paz,
se tornava agressivo e, por isso, os pais preocupados o mandaram para um
psicólogo, que o menino tratou logo de tentar enganar, fazendo-se passar por um
“menino normal”. Contudo o diagnóstico não poderia ser ao mais exato: Lorenzo
era “incapaz de sentir empatia pelos
outros”, “[...] tudo que está fora de
seu círculo afetivo não existe, não lhe suscita nada” e “acredita que é especial e que apenas pessoas
especiais como ele podem compreendê-lo”.
Os
pais, obviamente, desacreditaram deste diagnóstico e tiraram o menino do
tratamento. Para eles, o filho era “afetuoso”, “um menino normal”. No entanto,
aquela decisão foi a chave para que Lorenzo aprendesse a dissimular, fingir ser
quem não era para que as pessoas o deixassem em paz. Se misturava com os outros
jovens numa distância segura o suficiente para que eles e os pais pensassem que
ele era um “deles”, que tinha amigos, e longe o suficiente para não ser
importunado. Como um inseto havia aprendido a mimetizar.
“Eu me misturava como
uma sardinha em um cardume de sardinhas, me mimetizava como um bicho-pau entre
ramos secos”.
Contudo,
ao entrar no liceu[1] público a técnica deixa de
ser eficiente e ele se torna alvo de bullying. O que lhe resta é evoluir, não
como pessoa, mas como imitador, e é através da imitação das práticas e
trejeitos dos mais temidos da escola que ele consegue afastar todo os indesejáveis.
Ele passava a ser uma mosca que imitava as vespas.
“Em algum lugar, nos trópicos, vive uma mosca que imita as vespas. Tem
quatro asas, como todas as de sua espécie, mas mantém uma sobre a outra, e
assim parecem apenas duas. Tem listras amarelas e pretas no abdome, antenas,
olhos protuberantes e até um ferrão de mentira. Não faz nada, é boazinha. Mas,
vestida como uma vespa, é temida pelas aves, pelas lagartixas, até pelos seres
humanos. Pode entrar tranquilamente nos vespeiros, um dos lugares mais perigosos
e vigiados do mundo, e ninguém a reconhece.
Eu tinha errado tudo.
Era isso que eu devia fazer.
Imitar os mais perigosos”.
Desse modo, Lorenzo continuava sozinho e isolado.
Sentia-se feliz sozinho, mas ao lado dos outros tinha que representar, o que
chegava a amedrontá-lo. Além disso, inventava mentiras e casos engraçados da
escola para deixar os pais tranquilos. Foi nesse círculo interminável de
mentiras e dissimulações que ele acabou por inventar que alguns amigos haviam o
convidado para esquiar e teve que buscar uma maneira de sustentar sua mentira.
Nesse ponto começa de fato a história do livro.
[ALERTA DE SPOILER]. Olivia por sua vez é pintada pelo
narrador sob as cores da irmã-mistério, desconhecida, inoportuna, indesejada,
inteligente e boa mentirosa, mas, ao mesmo tempo, objeto de uma curiosidade
pouco confessada e que ao olhar do irmão vai pouco a pouco se transformando,
pela força da convivência forçada, como alguém em mutação.
[ALERTA DE SPOILER]. Ela, por sua vez, oscila da
indiferença a curiosidade, das pequenas implicâncias a solidariedade fraternal
que quebra lentamente o iceberg em que Lorenzo estava preso. Na maioria do
tempo padece dos efeitos da abstinência, mas, nas suas falas, é possível
perceber o ressentimento que nutria do pai e da madrasta.
É interessante notar que Olivia na história funciona como
o ponto de pressão de Oliver, forçando-o a abandonar seu egocentrismo para
ajudá-la em um momento em que ela se encontra extremante vulnerável e doente.
[ALERTA DE SPOILER]. Eles dois não conviveram, mal se
conheciam, e se viram em pouquíssimas oportunidades, mas a relação irmão e
irmã, com seus altos e baixos, birras e solidariedades está ali, explícita,
palpável. E desse modo aquele breve tempo juntos acaba por impulsionar o lado
mais humano do garoto e contribui para seu crescimento e amadurecimento por
forçá-lo a deixar de olhar para si, para olhar para o outro. Uma temporada
breve, mas significativa ao ponto de levar o menino a ampliar seu círculo
afetivo outrora tão estreito.
Enfim, o desfecho é singelo e muito
sensível, sem deixar de ser, até certo ponto, realista e verossímil. O livro
como um todo não é um clássico, e rapidamente caiu no esquecimento, mas tem
qualidade e te prende, sendo, em parte, até comovente.
A
edição lida é da Editora Bertrand Brasil, do ano de 2013 e possui 160 páginas.
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pandemias de peste negra e Covid-19
2021, o Ano da Itália no Conhecer Tudo - IV Campanha
Anual de Literatura do Conhecer Tudo
O Decamerão - Giovanni Boccaccio - Resenha
Um Amor Incômodo – Elena Ferrante – Resenha
Eu e Você – Niccolò Ammaniti – Resenha
Se um Viajante numa Noite de Inverno – Italo Calvino –
Resenha
[1]O
liceo italiano corresponde, aproximadamente, a nosso ensino médio, antigo
segundo grau. Dura cinco anos, e o aluno pode optar entre o liceo scientifico e o liceo classico. (Nota original do
tradutor)
Por Eric Silva para a 4ª Campanha Anual de Literatura do Conhecer Tudo
07 de fevereiro de 2021, ano da Itália
“Talvez eu quisesse tentar estabelecer
entre nós uma intimidade que nunca existira, talvez eu quisesse confusamente
fazer com que ela soubesse que eu sempre fora infeliz.”
(Elena
Ferrante – Um Amor Incômodo)
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| Edição Brasileira, pela editora Intrínseca. Preço de capa: R$ 39,90 |
Confira a resenha do segundo livro da IV Campanha Anual
de Literatura do Conhecer Tudo que neste ano homenageia a literatura italiana.
Sinopse
do enredo
Delia é uma desenhista de
quadrinhos que abandonou sua cidade natal, Nápoles, para fugir do seu passado e
da relação complicada que possuía com sua família. A única pessoa com quem a
desenhista mantinha proximidade era com Amalia, sua mãe, que frequentemente ia
a Roma visitá-la. Entretanto, mesmo essa presença um pouco constante da mãe era
indesejada e incômoda a Delia, até o dia que Amalia é encontrada morta em uma
praia em circunstâncias misteriosas: seminua, vestida apenas com um sutiã de
grife.
A morte inesperada da mãe
obriga Delia a retornar à Nápoles e enfrentar novamente o seu passado marcado
pela violência doméstica causada pelos rompantes de raiva e ciúmes obsessivo de
seu pai. Nessa viagem de volta ao passado, ao mesmo tempo em que busca lidar
com a perda da mãe, a quadrinista se vê diante do desafio de buscar preencher
as lacunas do passado, encarar os fortes sentimentos que Amalia lhe provocava e
descobrir como ocorreu a sua morte. Mas é principalmente a figura do suposto
amente da mãe, Caserta, que persegue as lembranças do passado e também o
presente de Delia.
Entorno da figura de Amalia e
Caserta gira a curiosidade e o desejo sôfrego de Delia de compreender o que de
fato havia acontecido entre os dois no passado, provocando na italiana a
reflexão dos fatos que se deram em sua infância e que levaram a deterioração da
sua relação com a mãe e também com o pai.
Resenha
Elena Ferrante é uma das mais curiosas escritoras italianas que
já ouvi falar. Não só por conta do sucesso de sua obra composta de nove livros
– todos já publicados no Brasil – como também pelo mistério que envolve sua
identidade, segredo este que já rendeu investigações e polêmicas na Itália há
alguns anos.
Nunca havia lido nada de Ferrante apesar do sucesso da escritora entre os leitores brasileiros, mas resolvi fazê-lo por conta da IV Campanha Anual de Literatura, que nesse ano homenageia a literatura italiana. Por força desse fator, decidi ter meu primeiro contato com a obra da escritora a partir de seu livro de estreia Um Amor Incômodo (L’amore molesto), que segundo dizem os leitores assíduos da italiana é um livro ainda da fase pouco madura da escritora e, logo, ainda um pouco distante da sua escrita atual.
Um Amor
Incômodo é um livro
intimista e com uma caraga dramática pesada, mas que aborda com muita sensibilidade
os desdobramentos emocionais na vida adulta de uma infância marcada pela
violência doméstica.
Publicado em 1992, a obra foi adaptada em filme homônimo pelo
cineasta Mario Martone em 1995, mas só em 2017 o livro foi publicado no Brasil.
O enredo conta a história de Delia, uma quadrinista
quadragenária, profissionalmente realizada, mas emocionalmente abalada pelo
passado familiar, o que imprime em seu comportamento um forte desejo de
distanciamento dos seus familiares.
![]() |
| Delia (interpretada por Anna Bonaiuto). Cena do filme L'amore Molesto (1995). |
Delia é o tipo
de personagem introspectivo que se perde bastante nos próprios sentimentos e
pensamentos. Como a história se passa no momento em que ela tenta lidar e
processar a perda da mãe encontrada afogada no dia do aniversário da filha,
durante grande parte da narrativa, Delia
divaga sobre o passado e vai, ao mesmo tempo, reconstruindo a linha histórica
de lembranças e memórias não muito confiáveis. Essa reconstrução é
importantíssima na trama, porque nos revela o passado da protagonista ao mesmo
tempo que, por um lado, nos elucida as circunstâncias que fizeram sua relação
com a mãe se tornar insustentável e, por outro, desvenda os últimos passos de
Amalia antes de ser encontrada morta.
![]() |
| Vista da cidade de Nápoles com Vesúvio ao fundo. Nápoles é o principal cenário do livro de Ferrante. Imagem de Damirux. Wikimedia Commons. |
O enredo em si
é esse reencontro da protagonista com o seu passado, com ela
mesma e com as lembranças de sua relação com a mãe. Mas mesmo sendo conturbada
essa relação entre mãe e filha, é ela que dá forma e norte a personalidade da
protagonista que inicialmente demonstra uma aversão quase que instintiva e
bastante intensa pela presença de Amalia, chegando a se sentir um tanto
aliviada com a morte de sua progenitora. No entanto, gradativamente vai se
revelando que, na verdade, essa aversão é fruto de um sentimento frustrado e
infantil de desejo de simbiose, ou
melhor dizendo, de querer ser a mãe, fundir-se e confundir-se com a
personalidade materna, como também observa Aline Aimee. Daí vem o título do
livro. O amor de Dalia por Amalia era
tão cheio de marcas, complexos e sentimentos conflitantes que ele se tornava incômodo, angustiante, sofrido.
A principal marca da personagem principal na narrativa é sua
difícil relação com a mãe. Delia analisa e reconstrói essa relação a partir das
memórias que possui de sua infância com Amalia, o pai, o tio e os vizinhos:
Caserta, o menino Antonio e o avô confeiteiro de Antonio. Ao mesmo tempo ela
envereda numa busca por reconstituir os últimos acontecimentos vividos por
Amalia, como sua reaproximação com o suposto amante do passado, Caserta, e
também fechar as lacunas que explicariam as circunstâncias de sua morte.
A minha opinião sobre a
personagem principal é que ela não é a figura mais importante de sua própria
história e perde um pouco de seu protagonismo para a figura da mãe,
personagem forte e dúbio e que, por isso, me faz lembrar de outra personagem
feminina: Capitu, do livro Dom Casmurro,
obra icônica do escritor brasileiro Machado de Assis.
Amalia, cuja
morte é o motivo de existir enredo, rouba a cena por ser uma personagem difícil
de precisar e de descrever, mas que ao mesmo tempo é a cola que une todo o elenco
do livro e os fios de sua trama. Sem ela, simplesmente, não existiria história.
![]() |
| Amalia jovem, interpretada por Licia Maglietta (1995). |
Em sua juventude, a mãe de Delia é descrita por Ferrante como
uma mulher bonita, risonha e provocante, que buscava preservar o bom humor e o
gosto pela vida, mesmo vivendo em um ambiente sufocante e marcado pela
violência. Casada com um pintor fracassado que sobrevivia com a venda de
pinturas baratas de temas vulgares, Amalia sofria constantemente com as
agressões do marido extremamente ciumento e que sempre a agredia. Mesmo em
ambientes públicos, quando algum homem se dirigia a ela e a mesma esboçava
algum tipo de simpatia, Amalia costumava ser vítima das agressões. Os abusos
também eram muito comuns por conta dos constantes presentes que Amalia recebia
do vizinho Caserta que era sócio de seu marido nos negócios de vendas de
pinturas.
Desse modo, o tema da violência doméstica se torna um elemento
imprescindível da história escrita por Ferrante e dá a narrativa um caráter
bastante realista. As lembranças de Delia são profundamente marcadas pelas
cenas de violência protagonizadas pelo pai e, por isso, o tema funciona como
elemento crucial na formação da personalidade da protagonista. O resultado é que o desenho psicológico de
Delia é bastante conturbado e atravessado pelo produto de um passado marcado de
um lado pela frustração e nunca conseguir se igualar a figura materna, e de
outro pela violência doméstica da qual ela foi testemunha e em um dado momento
foi também impulsionadora.
![]() |
Cenas do filme L'Amore Molesto de Mario Martone (1995) e que retratam a violência doméstica sofrida por Amalia. |
Outros dois personagens importantes na trama são o tio Filippo, irmão de Amalia e que em vez de defendê-la das agressões a culpava por elas, e Caserta, outro personagem enigmático da trama e que sustenta a narrativa junto com as lembranças de Amalia conservadas por Delia.
Filippo é um homem tosco e irritadiço. Na maior parte do tempo
fica xingando no dialeto local e falando mal de Amalia, a culpando por destruir
o próprio casamento por seu comportamento, na visão dele, bastante reprovável.
Ele junto com o pai de Delia representam na narrativa a figura do homem
machista que vê na mulher a reencarnação da devassidão e da pecaminosidade,
devendo ser corrigida a sua inclinação inevitável para a infidelidade com
pancadas.
Caserta é descrito no livro como um homem “esperto, de pele escura como um sarraceno, mas com olhos de diabo
assanhado”, tinha fama de importunar as mulheres do bairro e desde a
infância sua imagem causava a Delia uma mistura conflitante de atração, repulsa
e medo. Este não era seu nome, mas um apelido.
Na época, o pai da menina já era um pintor medíocre que pintava
por ninharias, foi Caserta quem percebeu a possibilidade de que ele ganhasse um
pouco mais pintando retratos a óleo das mães, irmãs e namoradas dos marinheiros
americanos com saudades de casa. O negócio com Caserta porém de se desfez
depois que o pai de Delia achou uma proposta mais vantajosa, pintando imagens
de ciganas. Amalia se opôs e daí em diante as brigas entre o casal por conta de
Caserta começaram, se tornando pior quando Delia lançou ao pai a semente da
desconfiança de uma possível traição. Filippo e o cunhado quase mataram Caserta
e seu filho, obrigando-o a fugir com sua família.
Passados todos aqueles anos Caserta ainda era um nome envolto em
mistério, e de alguma forma ele estava ligado aos últimos dias de vida de Amalia.
Delia não sabia como nem porque, mas o mistério daquele homem asqueroso a atraía.
A título de conclusão...
Apesar de ser uma narrativa na qual a narradora reflete bastante
sobre cenas e episódios ocorridos no passado, Ferrante usa de uma narração linear
e não recorre a flashbacks. Delia
narra os hábitos, as brigas, os fatos, os lugares e as pessoas, mas não perde a
sua condição de narradora quando evoca o passado. Por conta disso, ela acaba
por caminhando pela linha tênue entre os acontecimentos do passado e o
presente, como se o passado fosse imagens fantasmagóricas que a quadrinista
vislumbra sobrepostas às imagens do presente. Por isso, não é incomum que
sonho, lembrança e realidade se fundam na mente da narradora e ela chegue até
mesmo a ter visões, sobretudo da mãe.
Ferrante escreve um livro
de atmosfera intimista e psicológica muito marcante. Lembranças, divagações
e fantasias da protagonista se misturam, mostrando que muitas das respostas que
ela buscava já estavam guardadas em seu subconsciente, e seria o contato que
ela faz com todas aquelas pessoas do passado o fator responsável por trazer gradativamente
à tona as lembranças mais escondidas.
Desse modo, o tom que percebi
dominar na obra foi a da confusão de sentimentos, pensamentos e lembranças
que emanam de Delia e que conduzem a personagem em um encontro com seu passado,
recuperando cenas e enredos esquecidos e deformados com o passar do tempo.
Enfim, achei o livro monótono, mas a forma como Ferrante
aborda a violência doméstica através das lembranças um tanto inconsistentes da
protagonista e os complexos e aversões que ela desenvolveu no processo foi
excepcionalmente autêntico e até mesmo complexo. Ademais, Um Amor Incômodo é uma narrativa crua, de sentimentos muitos
intensos e conflitivos e que trabalha com o onírico e com a memória. Possui
personagens muito marcantes, cujos sentimentos e ações nos fazem questionar
muito sobre a natureza humana.
Muitos afirmam, que este livro não é o melhor de Elena,
mas como minha primeira experiência com a autora, não farei julgamento de
valor. Além disso, é sabido de qualquer leitor experimentado que livros de
estreia quase sempre são reflexos de um escritor ainda em formação, ainda cru e
em processo de aperfeiçoamento. Justamente por isso é interessante ler estes
livros, porque eles meio que humanizam aqueles que se encontram no panteão da
literatura internacional.
A edição lida é da Editora Intrínseca, do ano de 2017 e possui 176 páginas.
Sobre
o autor
Elena Ferrante é o pseudônimo de uma escritora italiana que
prefere manter sua identidade em segredo sob a justificativo poder escrever com
liberdade, e para que a recepção de seus livros não seja influenciada por uma
imagem pública. Especula-se que seja uma tradutora, Anita Raja, que nasceu em
Nápoles e que seja casada com o também escritor Domenico Starnone.
A autora concede poucas entrevistas, todas elas por escrito e
intermediadas pelas suas editoras italianas. A única certeza sobre ela é que
escreve desde 1991, ano em que publicou seu primeiro romance, L'amore
molesto, livro resenhado nesta
postagem.
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Opinião
| O Decamerão em tempos de quarentena: as pandemias de peste negra e Covid-19
2021,
o Ano da Itália no Conhecer Tudo - IV Campanha Anual de Literatura do Conhecer
Tudo
O
Decamerão - Giovanni Boccaccio - Resenha
Um
Amor Incômodo – Elena Ferrante – Resenha
Eu
e Você – Niccolò Ammaniti – Resenha
Se
um Viajante numa Noite de Inverno – Italo Calvino – Resenha
A
Solidão dos Números Primos – Paolo Giordano – Resenha
Por Eric Silva para
a 4ª
Campanha Anual de Literatura do Conhecer Tudo
17 de janeiro, Ano da Itália.
“A distinção entre
passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente”.
(Albert Einstein)
Está sem tempo para ler? Ouça a nossa
resenha, basta clicar no play.
No caso do livro O Decamerão (ou Decameron), obra centenária do italiano
Giovanni Boccaccio (1313 – 1375), ambas as proposições podem ser consideradas
como válidas e pude atestar a validade dessas afirmações quando li o livro em
meados do ano passado, em plena quarentena contra a COVID-19.
Escrito em pleno curso da pandemia de Peste Negra que varreu o
continente europeu entre os anos de 1347 e 1351, O Decamerão não é unicamente uma obra dedicada a falar do amor
erótico, mas é também uma expressão vívida e potente do horror causado pela
pestilência que vitimou um terço da população europeia.
Na primeira das dez jornadas que compõe o livro, Boccaccio
dedica algumas das páginas de sua obra para fazer um relato dirigido aos
leitores sobre os impactos da doença na cidade itálica de Florença, onde se
desenvolve a história central da obra. Nesse breve relato que permeia quase uma
dezena de páginas o autor – ainda muito impressionado com a violência da peste
e com a forma como a esta havia modificado o comportamento e a vida dos
florentinos – faz uma descrição abrangente no qual conta as origens, os danos e
sintomáticas da doença, seus reflexos sobre o comportamento dos florentinos, as
mudanças de hábitos, as crenças acerca da doença, as dificuldades de sepultamento,
além de falar do abandono dos campos e dos animais pelos camponeses que morriam
aos montes. Enfim, ele faz um panorama de como a doença se manifestava, mudava
o comportamento daquela sociedade e de como consumia a vida de suas vítimas,
aterrorizando os que ainda se mantinham sãos.
No contexto do momento em que li aquele relato foi inevitável
para mim não lançar sobre a obra um olhar comparativo com a realidade de
angustias, mortes e incertezas em que éramos forçados a viver na época de minha
leitura e ainda nos dias atuais. E acho que aprendi mais sobre a vida humana em
tempos de pandemia do que me limitando ao que via e ouvia no noticiário da TV.
A COVID-19 assustou o mundo, mas também o tornou mais nítido.
Como ainda não havíamos testemunhado, a misteriosa doença
principiada na longínqua cidade chinesa de Wuhan parou mercados em escala
global, forçou pessoas a mudarem suas formas de viver, trabalhar e se
relacionar e tornou em um caos a rotina de governos e profissionais de saúde.
O coronavírus mostrou-se bom de briga e obrigou empresas e
comércios a se adequarem a uma realidade nova e inesperada. Reuniu esforços
médicos e científicos de centenas de lugares. Escancarou o egoísmo humano bem
como destacou sua capacidade de empatia e solidariedade. Aproximou famílias,
desfez casamentos, fomentou o feminicídio e a violência doméstica. Evidenciou
desigualdades, aprofundou o desemprego, destruiu economias já irremediavelmente
frágeis.
No campo do poder, fez máscaras politicas caírem e evidenciou
quais eram os países e governos realmente preparados e com gestões competentes.
Nunca ficara tão violentamente evidente
quem eram aqueles que governavam com discursos vazios os seus belos castelos de
areia prestes a ruir. Polarizados, testemunhamos incrédulos um bizarro show
de mortes, irracionalidade e ódio gratuito fermentado por incertezas, teorias
da conspiração, guerra política, divergências, retrocessos e medo.
Enfim, o futuro ainda é incerto e nebuloso, mas quando li O Decamerão senti que haviam certos
padrões que se repetiam em nosso tempo atual – o famoso tempo circular –, bem
como deixou evidente para mim a diferença que faz o nível técnico e científico
de cada época para dar resposta a momentos de crise desta natureza.
PANDEMIAS SÃO
SEMPRE MOMENTOS DE MEDO, IRRACIONALIDADE, DIVERGÊNCIAS E POLARIZAÇÃO
Como homem de seu tempo Boccaccio inicia sua exposição sobre os
efeitos da Peste Negra colocando-a como desígnio e ira divina que se abatera
sobre os homens para puni-los de sua iniquidade e expiar seus pecados. O
discurso que é extremamente condizente com as crenças e mentalidade da época,
não difere essencialmente dos discursos atuais de uma minoria barulhenta que
(descrentes na ciência) constroem entorno da COVID-19 uma série de teorias
conspiratórias, disseminam uma enxurrada de informações falsas, tratamentos
supostamente miraculosos que vão de cloroquina a desinfetante e que atribuem o
caos instaurado pela doença a uma suposta histeria coletiva e infundada.
O nome que
posso dar ao que se dava na Europa de Boccaccio é desinformação fundada na
única explicação disponível: a explicação religiosa. O nome que damos ao que é
feito hoje (a despeito de todos os avanços científicos) é negacionismo
fundamentado na ignorância e no fanatismo. Eis a primeira distinção histórica.
Mas em termos de semelhanças, quando lemos o relato de
Boccaccio, vemos que o período da
pandemia de peste foi ele também uma época de divisão de opiniões e de certa
polaridade. Não se tratava, porém, de uma polaridade exatamente política
como a nossa e nem tão radicalmente inflexível, mas acerca de como melhor
proceder durante a pandemia. Essa polaridade dividia as pessoas e suas reações
frente a doença em quatro categorias:
“Alguns, considerando que viver com temperança e abster-se de qualquer
superfluidade ajudaria muito a resistir à doença, reuniam-se e passavam a viver
separados dos outros, recolhendo-se e encerrando-se em casas onde não houvesse
nenhum enfermo e fosse possível viver melhor, usando com frugalidade alimentos
delicadíssimos e ótimos vinhos, fugindo a toda e qualquer luxúria, sem dar
ouvidos a ninguém e sem querer ouvir notícia alguma de fora, sobre mortes ou
doentes, entretendo-se com música e com os prazeres que pudessem ter.
“Outros, dados a opinião contrária, afirmavam que o remédio infalível
para tanto mal era beber bastante, gozar, sair cantando, divertir-se,
satisfazer todos os desejos possíveis, rir e zombar do que estava acontecendo;
e punham em prática tudo o que diziam sempre que podiam, passando dia e noite
ora nesta taverna, ora naquela, bebendo sem regra nem medida, fazendo tais
coisas muito mais nas casas alheias, apenas por sentirem gosto ou prazer em
fazê-las. [...]
“[...] Muitos outros observavam uma via
intermediária entre as duas descritas acima, não se restringindo na
alimentação, como os primeiros, nem se entregando à bebida e a outras
dissipações como os segundos, mas usavam as coisas na quantidade suficiente
para atender às necessidades, não se encerravam em casa, iam a toda parte,
alguns com flores nas mãos, outros com ervas aromáticas, outros ainda com
diferentes tipos de especiaria, que levavam com frequência ao nariz, pois
consideravam ótimo aliviar o cérebro com tais odores, visto que o ar todo
parecia estar impregnado do fedor dos cadáveres, da doença e dos remédios.
“Outros tinham sentimento mais cruel (se bem que talvez fosse a atitude
mais segura) e diziam que contra a peste não havia remédio melhor nem tão bom
como fugir; [...].
“E, dentre esses que tinham tão variadas opiniões, embora não morressem
todos, também nem todos se salvavam: ao contrário, adoeciam muitos que pensavam
de modos diversos, em todos os lugares; [...].”
É obvio que na
nossa época a polaridade se dá em novos contextos. Não é
sensato querer dizer que agimos hoje de forma equivalente, mas mesmo agora as
opiniões estão divididas e polarizadas e as decisões tomadas por cada um,
seguindo esta ou aquela visão, contribuíram e vem contribuindo para o aumento
dos casos.
Há os que minimizam a gravidade da doença e não seguem as
medidas de proteção orientadas pelos médicos e autoridades sanitárias. Há
aqueles que as seguem parcialmente e com perigosa flexibilidade e que para não
se privar de seu lazer e divertimento, promovem ou participam de festas e
aglomerações. E por fim, há os que de fato se isolaram em quarentena. Entretanto algo que chama a atenção é que,
ao contrário do que ocorria no século XIV, hoje sambemos quais as medidas
preventivas, então a divisão de opiniões tem caráter pura e simplesmente
ideológica.
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| Várias centenas de manifestantes anti-lockdown se reuniram no Ohio Statehouse em 20 de abril. Wikimedia Commons. |
Boccaccio relata que fora aquela época um período que se deu muita vazão a imaginação, as crendices (que
direta ou indiretamente disseminam ideias falsas).
“De tais coisas e de muitas outras semelhantes ou piores originaram-se
diferentes medos e imaginações nos que continuavam vivos, e quase todos tendiam
a um extremo de crueldade, que era esquivar-se e fugir aos doentes e às suas
coisas; e, assim agindo, todos acreditavam obter saúde.”
Coisa semelhante se dá nos dias atuais. De coisas que as pessoas ouvem falar, de casos particulares que
presenciam ou de mera especulação ideológica nasceram dezenas de teorias
absurdas.
Alguns afirmam que o coronavírus teria sido fabricado em
laboratório por instituições farmacêuticas, outros que a pandemia seria parte
de um plano maior envolvendo governos e países. Há quem acredite que as vacinas
causam doenças graves e que conteriam de HIV à chips com o número da besta.
Contudo, uma das teorias mais comuns, é a de que os números de
mortos e doentes seriam inflacionados, sobretudo pelos dirigentes de
municípios, a fim de angariar recursos federais. Ainda que seja plausível
pensar que algumas lideranças políticas nos milhares de municípios brasileiros
tenham intenções corruptas, essa ideia é generalizada e propagandeada a fim de
minimizar a gravidade da doença.
São ideias conspiratórias de base ideológica e que encontram no
medo, na ignorância das pessoas ou na inflexibilidade de pensamento terreno
fértil para se disseminar. Elas se
assemelham ao que acontecia na época de Boccaccio porque são frutos da ignorância das pessoas, da desinformação ou
simplesmente porque são explicações que lhes agradam mais porque se harmonizam
melhor com suas crenças e visões de mundo.
Outras duas semelhanças que encontrei entre os dois momentos
históricos através das falas de Boccaccio estão relacionados a pobreza e as dificuldades de enterrar o
grande número de mortos.
Boccaccio menciona que os
pobres estavam entre as classes mais atingidas pela mortandade. Tal como
agora, as classes mais baixas eram as mais atingidas e não podiam retirar-se
das localidades de contágio e por isso adoeciam em grande quantidade.
“Maior era o espetáculo da miséria da gente miúda e, talvez, em grande
parte da mediana; pois essas pessoas, retidas em casa pela esperança ou pela
pobreza, permanecendo na vizinhança, adoeciam aos milhares; e, não sendo
servidas nem ajudadas por coisa alguma, morriam todas quase sem nenhuma
redenção.”
Em outras palavras, assim como agora, na Idade Média a desigualdade social também teve seus reflexos sobre o
agravamento da pandemia de peste bubônica. No caso do Brasil,
impossibilitados de trabalhar durante a quarentena o auxílio emergencial foi
imprescindível para salvar milhões da fome e da extrema pobreza. Além disso o
tamanho das casas de famílias mais humildes e numerosas também dificultou
bastante (e em alguns casos não permitiu) qualquer tipo de isolamento social
entre eles, ampliando os contágios. Mas mais do que isso, são inúmeros os casos
de pessoas de comunidades pobres que não encontraram assistência médica quando
doentes.
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| Gravura contemporânea de Marselha durante a Grande Peste em 1720. Conhecida como a Grande Peste de Marselha, essa epidemia de uma variação da Peste Negra matou cerca de 100 mil pessoas na cidade de Marselha, na França. Wikipedia Commons. |
Quanto aos mortos, relata Boccaccio que:
“Não sendo bastante o solo sagrado para sepultar a
grande quantidade de corpos que chegavam carregados às igrejas a cada dia e
quase a cada hora [...], abriam-se nos cemitérios das igrejas, depois que todos
os lugares ficassem ocupados, enormes valas nas quais os corpos que chegavam
eram postos às centenas: eram eles empilhados em camadas, tal como a mercadoria
na estiva dos navios, e cada camada era coberta com pouca terra até que a vala
se enchesse até a borda.”
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| Esqueletos numa vala comum de 1720 a 1721 em Martigues, França, renderam evidências moleculares do ramo orientalis de Yersinia pestis, o organismo responsável pela peste bubônica. A segunda pandemia de peste bubônica esteve ativa na Europa desde 1347, o início da peste negra, até 1750. Wikimedia Commons. |
O número de mortos e contaminados pela COVID-19 está até então
(e felizmente) em patamares extremamente menores do que os 70 a 200 milhões de
mortos[1]
que se estima que tenham morrido durante a Peste Negra, mas isso não impediu que em certas localidades faltassem cemitérios
para enterrar o grande volume de mortos.
Em abril de 2020, a prefeitura de Manaus necessitou abrir valas
comuns em cemitério para enterrar as vítimas de coronavírus[2].
Naquele mesmo mês Nova York vivia o drama de ter seus necrotérios lotados[3]
e também passou a usar valas comuns na Ilha Hart para enterrar seus mortos[4].
A DIFERENÇA
QUE A CIÊNCIA FAZ NA SALVAÇÃO DE VIDAS
Não obstante, de todos os
aspectos que o relato de Boccaccio em O Decamerão me fez
refletir, o principal está relacionado a
diferença que o conhecimento e o avanço científico fazem hoje em nossas vidas.
Segundo o relato do escritor medieval, a semelhança do que
governos, médicos e cientistas fazem na pandemia atual, algumas medidas sanitárias e de fechamento da
cidade (fechamento de fronteiras) foram adotadas na Florença da época. O
relato ainda deixa supor que até mesmo instruções foram dadas a população,
entretanto, todas essas medidas se demonstraram infrutíferas, por razões que
ele não explica em seu texto.
“E, de nada havendo servido os saberes e as providências humanas,
limpeza das imundícies da cidade por funcionários encarregados de tais coisas,
a proibição de entrada dos doentes e os muitos conselhos dados para a
conservação da salubridade [...]”.
O autor também relata que
na época faltava atendimento por
conta da periculosidade da doença ou por falta de serviços oportunos, o que
contribuiu para o aumento do número de mortos.
“Além disso, morreram muitos que, se porventura ajudados, teriam
escapado; assim, tanto por falta do devido atendimento, que os doentes não
podiam ter, quanto pela força da peste, era tamanha a multidão a morrer noite e
dia na cidade que causava espanto ouvir dizer, quanto mais presenciar.”
Mas, de todos os aspectos,
a falta de conhecimento médico sobre a doença foi fator decisivo.
Tratava-se de uma enfermidade nova, desconhecida. Na época mão
se sabia a origem da peste nem como esta passava aos seres humanos, por conta
disso, também se desconhecia a forma mais eficaz de tratá-la e de evitar os
surtos e propagações. Muitos médicos não passavam de charlatões e aqueles que
de fato eram formados em medicina também se encontravam quase que de mãos
atadas.
“Para tratar tais enfermidades não pareciam ter préstimo nem proveito a
sabedoria dos médicos e as virtudes da medicina: ao contrário, seja porque a
natureza do mal não admitisse tratamento, seja porque a ignorância dos que o
tratavam (cujo número era enorme, havendo, além dos cientistas, também mulheres
e homens que jamais haviam feito estudo algum de medicina) não permitisse
conhecer a sua causa, nem portanto usar o devido remédio, não só eram poucos os
que se curavam, como também quase todos morriam nos três dias seguintes ao
aparecimento dos sinais acima referidos, uns mais cedo, outros mais tarde, a
maioria sem febre alguma ou qualquer outra complicação”.
A peste bubônica é de origem bacteriana (bactéria Yersinia pestis), diferente da COVID-19
que é uma enfermidade viral (SARS-CoV-2). Mas, a semelhança daquela, a COVID-19
era no começo da pandemia quase que totalmente desconhecida, uma doença nova,
e, mesmo com todo o nosso avanço técnico, foram precisos muitos meses para que
médicos achassem os tratamentos mais eficazes e que cientistas pudessem
desenvolver vacinas. Essa corrida contra o tempo abriu espaço para especulações
de medicamentos supostamente eficazes, mas sem comprovação científica, a
exemplo da hidroxicloroquina, sugerida pelo presidente dos EUA, Donald Trump,
que chegou a falar também no uso de injeções de desinfetante[5].
A imprudência do chefe de estado americano chegou a repercutir e só na cidade
de Nova York as autoridades de saúde da cidade receberam 30 chamados por
ingestão de desinfetante nas dezoito horas que se seguiram a fala de Trump[6].
Mas a fala de Boccaccio deixa evidente como a ciência e os
avanços médicos são fundamentais para minimizar o número de mortos quando novas
doenças e com elevado grau de contaminação e mortes acaba por surgir no cenário
mundial. Para nós que vivemos em uma época radicalmente diferente, sobretudo em
termos de avanço técnico, mas com algumas tênues similitudes em relação a época
em relação a comportamento social diante de situações de pandemia, devemos nos atentar para a relevância da
ciência em nossa sobrevivência enquanto espécie e combater os pensamentos
retrógrados e reducionistas que tentam descreditar a ciência.
A peste negra matou muito mais e era potencialmente mais mortal
do que a COVID-19, mas foi o desconhecimento sobre as suas origens, acerca de
tratamentos eficazes de combate e imunização e sobretudo a ausência de uma
ciência médica desenvolvida para investigar em tempo hábil esses aspectos que
fizeram daquela pandemia muito mais mortífera que a atual.
Se houvesse na
época a integração e a facilidade de locomoção entre os vários continentes como
existe hoje, ou mesmo os grandes fluxos de circulação de pessoas – que muito
facilitam a propagação de agentes patogênicos como o coronavírus – os efeitos
seriam ainda mais mortíferos. Ainda assim, um terço da população europeia
sucumbiu.
Ademais, na época, se desconhecia a relação entre a peste, a
pouca higiene urbana, ratos e suas pulgas (principais transmissores). O
desconhecimento levou a explicações religiosas acerca de castigos divinos e
mesmo teorias de que a contaminação se dava por via área (pelo ar) – a teoria
do miasma. A importância da higiene só foi reconhecida séculos depois e o estabelecimento da ideia de quarentena em
1377, foi um avanço médico fundamental para o combate à doença[7]. A técnica até
hoje se mostra fundamental e básica para evitar a propagação de epidemias.
Temos hoje a nosso favor um número vasto de conhecimentos
acumulados e milhares de especialistas que trabalham em colaboração a nível
internacional. É graças aos avanços
científicos que tantas vacinas foram criadas em menos de um ano (tempo
recorde) e que desde o começo da
pandemia a população foi prontamente
orientada quanto as principais formas de prevenção (máscaras, álcool em
gel, higienização das mãos, medidas de isolamento social). Coisas assim eram inimagináveis na época de Boccaccio e custaram
milhões de vidas. Ainda assim, muitas pessoas desacreditam a ciência, agem
de forma negacionista e espalham desinformação, não só por ignorância, mas por
alienação política e até religiosa.
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| Um aviador dos EUA recebendo uma vacina COVID-19. Wikimedia Commons. |
Enfim, o que vem por aí nós não sabemos. Todavia concluo esse texto chegando a uma única e importante conclusão possível: o futuro pós-pandemia é imprevisível, mas certamente passaremos por uma mudança radical que nos levará a divisar novos horizontes formados pelo progresso em determinadas áreas e por terríveis retrocessos em outras.
Que nesse
nosso caminhar relatos como o de Boccaccio em O Decamerão nos sirvam de lembrete para que não repitamos os erros
do passado, afastemos de nós o negacionismo, a ignorância, as crendices e o
fanatismo religioso, bem como as firmações sem fundamentação ou lastro
científico, para que não experienciemos consequências tão desastrosas como
aquelas que a Europa vivera no século XIV.
Você pode
conferir a resenha de O Decamerão
neste link.
Referência da edição de onde foram extraídas as
citações
BOCCACCIO, Giovanni. Decameron. Tradução Ivone C. Benedetti.
Porto Alegre, L&PM, 2013.
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2021, o Ano da Itália no Conhecer Tudo – IV Campanha Anual de
Literatura do Conhecer Tudo.
[1]
https://pt.wikipedia.org/wiki/Peste_Negra
[2]
https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2020/04/21/prefeitura-de-manaus-faz-valas-comuns-em-cemiterio-para-enterrar-vitimas-de-coronavirus-veja-video.ghtml
[3]
https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52224123
[4]
https://oglobo.globo.com/mundo/nova-york-abre-valas-comuns-para-enterrar-mortos-por-coronavirus-24364067
[5]
https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/2020/04/24/trump-sugere-luz-solar-e-injecao-de-desinfetante-para-tratar-coronavirus
[6]
https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2020/04/25/ny-tem-30-chamados-por-ingestao-de-desinfetante-melhor-prevencao-e-higiene.htm
[7] https://pt.wikipedia.org/wiki/Peste_Negra#Causas