Um filme que daria um livro interessante
Por Eric Silva
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Poster do filme. Imagem: Divulgação. |
No primeiro 7ª Arte de 2017 falaremos de um filme de
enredo singelo, mas muito interessante. Filme do brasileiro Daniel Ribeiro, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho é um
longa-metragem inspirado em um curta – Eu
não Quero Voltar Sozinho – produzido pelo mesmo diretor, mas que teve
grande aceitação do público pela delicadeza como tratava a questão da cegueira
e da homossexualidade na adolescência. Preservando a essência de seu trabalho
anterior, Ribeiro constrói uma trama simples mas repleta de temas importantes
que são muitas vezes negligenciados pela sociedade vidente[1] e que ainda caminha no
plano da aceitação e da tolerância ao que é diferente.
Sinopse
Leo é um garoto que desde seu
nascimento convive com a cegueira e a superproteção sobretudo da mãe. Em sua
relação nem sempre muito fácil com a família, ele luta para conquistar sua
independência ao mesmo tempo que enfrenta os pequenos dilemas comuns a qualquer
outro adolescente. Em seu dia a dia, ele conta com o apoio irrevogável da amiga
Giovana que o auxilia em suas atividades e defende o rapaz das brincadeiras
maldosas de alguns colegas. Entretanto, tudo muda com a chegada de Gabriel. A
amizade com Giovana é abalada e, no turbilhão de novas experiências, Leo
descobre novos sentimentos e mais sobre si e sua sexualidade.
Depois de um ano,
relembrando a proposta do 7ª Arte
Depois de muito tempo
finalmente teremos o primeiro 7ª Arte de 2017! Mas antes de falar sobre a
película fílmica da vez, acho que é interessante relembrar o propósito do 7ªArte que no Conhecer Tudo se difere bastante das críticas de cinema que muito
de vez em quando faço por aqui.
O 7ª Arte nasceu ano passado,
durante o #AnoDaEspanha, e nesse período resenhei dois filmes espanhóis: O Labirinto do Fauno e La Lengua de las
Mariposas. Como somos um blog
essencialmente literário, apesar de não ser unicamente voltado para isso, o
propósito pensado para o 7ª Arte é falar de filmes ou que se basearam em obras
literárias ou cujo enredo daria, essencialmente, em bons livros. Ou seja, no 7ª
Arte, o objetivo não é falar de atuação, nem de fotografia, enquadramento ou
todos esses aspectos do cinema que honestamente, não é minha praia. Gosto de
boas histórias e por isso o foco do nosso projeto é na história, no enredo, de
como ele foi adaptado para a telona ou de suas potencialidades literárias. Por
isso, que não é nem todo, nem qualquer filme que entra para o projeto. Uma
crítica contundente de uma adaptação exige a leitura prévia do livro e no caso
de um filme original a história precisa ser boa.
Está aí a essência do nosso
projeto que busca aliar o que há de melhor na sétima arte, o cinema, com a
nossa arte predileta, a literatura.
Mas vamos ao filme de hoje.
Hoje Eu Quero Voltar
Sozinho
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Os três protagonistas. Da esquerda para a direita: Gabriel, Giovana e Leonardo. |
Dirigido, produzido e
roteirizado por Daniel Ribeiro, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho é um filme
brasileiro que conta a história de três adolescentes de classe média: Leonardo
(Ghilherme Lobo), Giovana (Tess Amorim) e Gabriel (Fábio Audi).
Leo é cego de nascença e tem
na amizade com Giovana o seu principal apoio. Os dois são inseparáveis e
Giovana ajuda o rapaz em muitas de suas atividades cotidianas como ditar as
anotações do quadro e acompanhá-lo no trajeto de casa. Contudo, a amizade dos
dois sofre um profundo abalo com a chegada e aproximação de Gabriel, um garoto
recém-transferido da escola. Além disso, Giovana tem uma grande dificuldade em
compreender o desejo de Leo de ir embora de casa e fazer intercâmbio no
exterior para ficar longe da superproteção dos pais, deixando também ela para
trás.
Como em qualquer história
sobre adolescentes, Leo vive muitos dos dilemas e medos da puberdade: o desejo
de beijar pela primeira vez, o despertar da sexualidade e o primeiro amor. Ainda,
por ser cego, seus pais limitam bastante o seu ir e vir, exigindo dele que
sempre informe onde está, proibindo-o de ficar sozinho em casa e só permitindo
que ele vá as viagens e passeios da escola quando julgam seguro.
Desse aspecto surge outras
questões muito comuns a todos os adolescentes como ele: o anseio e luta por
independência e liberdade, o desejo de sair e se divertir, além das brigas e
atritos constantes com os pais superprotetores. Marcas inconfundíveis de uma das fases mais difíceis e gostosas da vida.
Contudo se engana quem pensa que os problemas do rapaz se resumem a isso.
Por ser deficiente visual Leo
também sofre bullying de alguns de seus colegas que, além de fazerem piadas
sobre a relativa dependência do garoto de que as pessoas lhe façam favores,
também brincam de forma bastante cruel se aproveitando das limitações dele.
Porém, as brincadeiras de mau gosto evoluem e se tornam insinuações acerca de
sua sexualidade sobretudo quando a amizade de Gabriel e Leonardo vai se
tornando mais estreita.
Hoje Eu Quero Voltar Sozinho como pode se ver é uma história singela e sem muitas
pretensões, mas que reúne um grande número de temas universais (que podem
acontecer em qualquer lugar, independente do cenário, não se prendendo ao local
e à época em que a história é narrada) tornando o filme um pequeno ode[2]
ao afeto, à juventude, às suas incertezas, aos seus dilemas e aos amores e
descobertas que fazemos nessa fase. Isso me levou a pensar porque ele não daria
um bom livro se análise psicológica dos personagens fosse mais profundamente
trabalhada? O que sua trama o faz inferior a livros como Cidade de Papel, Will &
Will, Apenas um Garoto ou Os 27
crushes de molly e tantos outros livros teens
de autores conhecidos?
Acredito que não diferem
muito, apesar de ter citado aqui livros que não li, mas que recordo ter visto
uma crítica, uma resenha ou adaptação. Assim como esses livros, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho trata da
adolescência sob muitos aspectos, muitos deles semelhantes. Contudo, a cegueira na adolescência é algo
mais raro de se ver na literatura, como os jovens cegos lidam com suas
limitações, como buscam alcançar sua independência, como amam, como são amados.
Mais do que isso, a história envolve
também a questão da homossexualidade, tema difícil e ainda polêmico seja para
os videntes ou para os eficientes de qualquer natureza. É um leque enorme de
questões que emergem no filme e tantas outras que poderiam emergir.
É certo que Hoje Eu Quero Voltar Sozinho não foi
capaz de dar profundidade a todas as questões que abordou, e pela complexidade
do tema, algumas coisas foram abordadas superficialmente. Mas me pergunto: não
é assim também com as adaptações de livros, mesmo os mais complexos? Não são
tratados superficialmente por conta do fator tempo de desenvolvimento, que no cinema é limitado a algumas poucas
horas de vídeo? Então como ser exigente em um filme original? Desenvolvê-lo
como livro resolveria certamente estas questões. Daqui em diante espero deixar
claro porque Hoje Eu Quero Voltar Sozinho
seria um bom livro teen.
Adolescência,
deficiência e superproteção
Se fossemos dividir a trama
de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho em
partes, elas seriam duas. A primeira a giraria entorno do tema da independência
dos jovens com deficiência visual e a superproteção de seus familiares, e a
outra seria o despertar da relação do par romântico da narrativa que se mescla
aos altos e baixos da amizade entre Leo e Giovana.
Leonardo além de ser portador
de deficiência visual, é também filho único e por isso seus pais, mas sobretudo
sua mãe, estão sempre cercando o rapaz de cuidados. Porém todo aquele amor e
atenção acabam por inevitavelmente sufocar o adolescente.
Como todo sabem, a
adolescência é uma fase onde o jovem está sempre em busca de independência e
muitos também de autonomia. Poder tomar
suas próprias decisões, não depender dos pais ir e vir sem necessidade de
autorização ou de dar satisfações são desejos que, na juventude, todos nós
ansiamos conquistar, e por vezes somos radicais no intento de consegui-lo.
Para alguns o processo de
conquista da independência é tranquilo e até natural, mas para muitos outros é
uma fase conturbada e de muitos atritos com os familiares que, ou por
superproteção ou por bom-senso, insistem em contrariar o desejo extremado de
liberdade de seus filhos. Mas, sem dúvida, esse desejo de liberdade é algo
comum aos jovens e muito próprio desta fase, entretanto o é também para os
deficientes visuais.
Com os adolescentes cegos a
realidade não é diferente, apenas se soma as limitações impostas pela cegueira
que afeta sensivelmente “aquisição de
habilidades” de seu portador, assim como afirmam as pesquisadoras Jhenifer
Geisa Burnagui, Mariana Peres e Gabriela Cordeiro em seu artigo, Autonomia e independência: percepção de
adolescentes com deficiência visual e de seus cuidadores[3].
As pesquisadoras relatam que,
nesta fase, além de ocorrer todo o conjunto de mudanças próprias da
adolescência, a exemplo “das mudanças
fisiológicas e do despertar da sexualidade”, há também “uma reconfiguração de identidade, uma nova
construção de si, que tem a deficiência visual como fator constituinte”, e
essa reconfiguração do eu não só envolveria as mudanças supracitadas como
também, e principalmente, “as relações
familiares e sociais”.
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Leonardo e os pais durante mais uma cessão de discussão. |
Contudo, voltando a dimensão
familiar Jhenifer, Mariana e Gabriela destacam ainda que no caso dos
adolescentes deficientes visuais a conquista da independência e autonomia não é
menos difícil e conflituosa do que no caso dos adolescentes videntes. Assim
afirmam as pesquisadoras: “Cuidadores
próximos de adolescentes com deficiência visual, geralmente pais e/ou avós, por
vezes têm em si despertados sentimentos de superproteção e cuidado excessivo,
podendo, dessa forma, interferir nos processos de obtenção de autonomia e
independência”.
A superproteção familiar é
uma questão central no filme. Os pais de Leo carregam consigo pensamentos
limitantes de que os cegos não podem fazer tudo sozinhos, não podem ficar
sozinhos sem supervisão ou companhia de um vidente, e, no caso de um
adolescente, deve sempre dar satisfação de tudo o que fazem e sobretudo de para
onde vão. E são todas estas coisas que eles projetam no filho e dele exigem. O
pai manifesta uma atitude mais compreensiva, mas a mãe é inflexível.
Algo que me chamou muito a
atenção é que apesar do discurso da mãe deixar claro que ela tem essa visão do
cego como um limitado e incapaz de fazer sozinho certas coisas, ela tateia as
palavras para não deixar esse pensamento explícito, não manifestá-lo em
palavras claras e uníssonas. Ela teme
por ele e por isso o limita mais do que sua própria deficiência. Essa
superproteção sufoca Leonardo e incita nele o desejo de estar longe dos pais. Ir
em busca de um intercâmbio e ir embora, fosse qual fosse o lugar, mas que fosse
longe do monitoramento imposto pelos pais. O resultado da divergência de
opiniões é claro: discussões e desentendimentos constantes.
Uma dialogo incrível do filme
e que bem ilustra essa percepção da mãe ocorre quando após desaparecer sem
dizer para onde ia Leo chega atrasado em casa e discute com os pais, ou melhor,
o pai quase não diz nada.
(Leo) – Eu não posso dar um passo
sem vocês me vigiarem?
(Mãe) – Você some por horas. Você
quer que a gente fique tranquilo?
(Leo) – Mãe, pergunta pra qualquer
pessoa da minha sala se o pai ia ficar nervoso por um atrasinho desses?
(Mãe) – Você sabe que é diferente!
(Leo) – Por que que tem que ser diferente,
mãe?! Porque você não tenta fazer ser igual?!
Adolescência, bullying
e consumo de bebidas alcoólicas
Antes de falarmos do segundo tema que subdivide a trama, uma
outra dimensão da vida adolescente que é bastante abordada na história é a
questão do bullying.
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Cena de bullying no qual os colegas de sala cercam e brincam com Leo sem que ele saiba quem está a sua volta. |
Como os demais temas, este também foi tratado com certa leveza
uma vez que os reflexos mais profundos e que são comuns a quem sofre com o
bullying não foram abordados pela trama. Leonardo se sente incomodado com as
agressões – esse é o nome correto a ser dado – mas em momento algum parece se
abater por conta delas.
Como todos sabem o bullying não é um fenômeno novo – presumo que
seja tão velho quanto a humanidade –, mas que vem se tornando um grande
problema, sobretudo nas escolas, porque mexe profundamente com o emocional da
vítima e traz consequências psicológicas que são sentidas mesmo depois da idade
adulta. Por denunciá-lo o filme revela mais uma faceta do universo estudantil,
mas, sinceramente, perde por não aprofundá-lo. De qualquer forma, esse não era
o foco principal da história e é posto mais como mais uma das dimensões que se
entrecruzam na difícil realidade de adolescentes cegos e homossexuais.
Uma outra crítica que tenho a fazer do filme, um tanto
moralista, confesso, é a respeito do consumo de bebidas alcoólicas por adolescentes.
Na minha opinião, o filme naturaliza o consumo ao representá-lo sem uma crítica
ou denúncia subjacente.
Essa é uma
realidade que conheço de perto, e meus alunos sabem que eu reprovo e não os
apoio em seu consumo, quase sempre exagerado e em idade inadequada. O
alcoolismo na adolescência é também uma realidade que não pode ser negada ou
ignorada. Acredito que o objetivo do filme foi retratar fielmente a realidade
dos adolescentes de hoje, mas o outro lado da moeda deveria ser apresentado
também.
Hoje não só no Brasil, mas no mundo todo, a ingestão de álcool é
a principal causa de morte de jovens de 15 a 24 anos de idade[4].
Além disso, o Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA)[5]
ainda aponta uma série de outras graves consequências pelo uso de álcool em
menores de idade: lesões e consequências sociais, suicídio, violência sexual,
prática de sexo inseguro e dependência, além dos efeitos nocivos ao cérebro,
podendo interromper processos chaves do desenvolvimento desse órgão.
Essa é uma
realidade que não foi representada no filme que tem faixa etária de 12 anos.
Adolescência,
sentimento e sexualidade
Hoje Eu Quero Voltar Sozinho nasceu como um curta-metragem chamado Eu não Quero Voltar Sozinho (assista no
final da postagem) cuja boa recepção da crítica impulsionou a criação do longa.
A segunda versão da história
de Leo, Giovana e Gabriel mantêm o mesmo elenco principal, mas amplia e
ressignifica a narrativa.
O filme conserva alguns
diálogos mudando seus contextos, também repete alguns acontecimentos porém,
novamente, alterando contextos. Contudo
a mudança mais sensível em relação a primeira
versão é o deslocamento para uma proposta multifocal. No curta, a
questão da deficiência visual de Leo é tratada só na superficialidade, o mesmo
para o bullying, enquanto que o despertar do interesse de Leonardo por Gabriel
se torna o foco principal da narrativa.
Diferentemente,
Hoje Eu Quero Voltar Sozinho busca trabalhar
todas as frentes citadas no parágrafo anterior, e inclui a ela a discussão da
independência do sujeito deficiente visual. Ainda assim, o despertar do amor
homossexual entre Leo e Gabriel tem um grande peso na narrativa e, do meio para
o final do longa, domina todo o cenário, ofuscando os temas que são mais
destacados na primeira parte do enredo.
Algo, porém, que me chamou a atenção é a forma como
acontece esse despertar no caso de Leonardo.
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Leo e Gabriel de mãos dadas após mais um ataque de bullying sofrido pelos dois |
O despertar da sexualidade,
segundo Thais Gurgel[6], se dá em, pelo menos,
três “frentes de descobrimento” e que se dão de forma paralela: “a da dinâmica das relações afetivas, a do
prazer com o corpo e a da identificação com o gênero”. No filme todas essas
frentes são destacadas em algum momento, porém, o maior foco foi na identificação com o gênero. É nessa
frente onde se dá a descoberta da orientação sexual, que emerge do interesse e
atração pelo sexo oposto, pelo mesmo sexo, ou por ambos.
Do meu ponto de vista, o
despertar da sexualidade, lato sensu[7], quase sempre
começa com o toque e ascende para a visão. O toque começa com o próprio corpo,
com o corpo materno durante a amamentação, mas é com a visão que com mais
intensidade expandimos e projetamos para o outro o nosso interesse. A imagem do que vemos no outro serve de
canal para o sentir-se atraído e para o achar belo. Com Leo, porém, esse
processo se dá por outros canais: a sensação do toque, dos cheiros que emanam
do outro, e poderíamos incluir também as sensações que são provocadas pelos
sons, o conforto que a voz do outro pode provocar.
Diferente dos deficientes
visuais, os videntes nem sempre dão atenção aos outros sentidos e a imagem do
outro prevalece sobre o que o olfato, a audição e o tato expressam. Por isso é
tão comum se apaixonar levando em consideração só a aparência. Mas como
enfatiza muito bem o pôster do filme: “nem todo amor acontece à primeira vista”,
um trocadilho entre o ditado popular e a condição de cego do personagem
principal, mas que serve de metáfora ao que discutimos.
Mas os sentidos nunca são os únicos fatores que provocam
o interesse pelo outro, as atitudes, o comportamento, o humor e mesmo a
inteligência e sensibilidade são elementos que pesam bastante. Com Leonardo outros fatores para além dos sentidos são
envolvidos e levam-no a perceber-se interessado no colega de escola.
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Leo e Gabriel andando de bicicleta com Leonardo guiando. |
Gabriel é o primeiro que
estimula Leo a aventurar-se, fazer coisas “que um cego não faria”, como ir ao
cinema, andar de bicicleta, fugir de casa para “ver” um eclipse, dançar em uma
festa com os amigos. São essas atitudes
que demonstram a Leo que, aos olhos de Gabriel, ele era capaz de tudo. O
colega não o via como alguém limitado pela sua deficiência e nem via motivos
para que isso o limitasse de fazer coisas que normalmente só os videntes
fariam. Trata-se de um convite a conquistar uma independência, a viver como os
demais, em suma, tudo o que Leonardo sonhava conquistar em sua relação com os
pais: estímulo, confiança e independência. Diante de tudo isso, a questão da
homossexualidade se torna só mais um elemento presente na história, sem,
todavia, deixar de ser marcante na trama.
O filme trata todos os seus temas com bastante leveza e, por
isso, deu um ar de maior naturalidade a relação entre Leonardo e Gabriel sem
explorar a fundo a questão do preconceito que, no entanto, não está ausente e
surge nas brincadeiras maldosas de alguns colegas. Porém, a forma como a
questão da homossexualidade é abordada devolveu a ela um ar de algo natural, de
uma forma de amor que é válida e deve ser respeitada. Acho que para demonstrar
a naturalidade dessa forma de amor que o tema não foi tratado em suas barreiras
e desafios mais comuns, e que são impostos por uma sociedade que ainda está
aprendendo a aceitar o diferente.
Conclusão
Considero que a trama geral de Hoje eu quero voltar sozinho seria a base para um livro
interessante, sobretudo por sua gama muito grande de temas interessantes e
importantes, mas que infelizmente – muito mais por conta do tempo
demasiadamente curto para desenvolvê-los – foram tratados um pouco
superficialmente.
Ainda assim, considero relevante o filme por congregar
uma multiplicidade de assuntos que precisam ser constantemente debatidos: a
independência e autonomia da pessoa cega, o bullying, o despertar e a
sexualidade propriamente dita do deficiente visual, a homossexualidade na
adolescência. Temas delicados e difíceis que o filme trata com suavidade e
cuidado, mas que na forma de livro teriam seus contornos mais bem delineados e
desenvolvidos, assim como sua discussão mais aprofundada.
Considero que seria uma leitura prazerosa para todos os
jovens videntes ou cegos, um livro que falaria de amor e de conquista, de
respeito e liberdade.
E vocês? Também não acham que daria um livro interessante
para esse público, principalmente se fosse escrito também em braile?
A película é uma produção dos
estúdios Lacuna Filmes e entrou em cartaz no ano de 2014. Tem duração de 96
minutos. Foi vencedor de vários prêmios, os primeiros deles no Festival
internacional de Cinema de Berlim: FIPRESCI Prize de Melhor Filme da mostra
Panorama e o Teddy Award de Melhor Filme com temática LGBT. Abaixo você pode conferir o trailer do filme
e o curta que inspirou o filme: Eu não
Quero Voltar Sozinho.
Trailer do filme
Eu
não Quero Voltar Sozinho – Curta metragem completo
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Cinema
[1] Que
ou aquele que vê, que pode fazer uso da vista; visual (Houaiss, 2001).
[2]Poema lírico composto de
estrofes de versos com medida igual, sempre de tom alegre e entusiástico
(Houaiss, 2001).
[3] DO
NASCIMENTO, Gabriela Cordeiro Corrêa; BURNAGUI, Jhenifer Geisa; DA ROSA,
Mariana Peres. Autonomia e independência: percepção de adolescentes com
deficiência visual e de seus cuidadores. Revista de Terapia Ocupacional
da Universidade de São Paulo, v. 27, n. 1, p. 21-28, 2016.
[4]
http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2017-02/guia-alerta-sobre-consumo-precoce-de-bebidas-alcoolicas-entre-jovens
[5]
http://www.cisa.org.br/artigo/167/uso-bebidas-alcoolicas-por-menores-idade.php
[6]
https://novaescola.org.br/conteudo/433/o-despertar-da-sexualidade
[7]Lato
sensu é uma expressão em Latim que significa “em sentido amplo”. É
utilizada em outros idiomas e áreas como Direito, Linguística, Semiótica e
outras, para referir que determinada interpretação deve ser compreendida
no seu sentido lato, mais abrangente. (Disponível em:
https://www.significados.com.br/lato-sensu/)
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