quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

A Mulher que Escreveu a Bíblia – Moacyr Scilar - Resenha

Por Eric Silva para Edilva Bandeira e todos do grupo de leitura Ler é Viver

Sexo, machismo, desejo e beleza. A Mulher que Escreveu a Bíblia é um livro polêmico, mas irônico e bem humorado que aliando história religiosa e ficção busca falar de sexo, de libido e desejo de forma franca e bastante aberta. Ao mesmo tempo a obra do brasileiro Moacyr Scilar tece críticas indiretas ao culto à beleza e contra a tendência machista que desde tempos imemoráveis sobre-existe na sociedade, na religião e nas entrelinhas de sua referência mais importante: as sagradas escrituras. Um livro hilário e erótico que esboça com linhas seguras o talento do autor e que por isso não podia ficar de fora do nosso itinerário no #AnoDoBrasil.

Sinopse

Um professor de história abandona a carreira na docência para se tornar terapeuta de vidas passadas depois que, por acaso, consegue que um aluno se recorde de uma outra vida. Com seu novo talento o ex-professor se torna uma celebridade procurada por muitas pessoas que desejavam fazer regressão a vidas passadas, mas para seu infortúnio o homem acaba se apaixonando por uma de suas pacientes. Ela era uma mulher que, graças a ele, se recorda de quando no reino de Salomão foi uma das esposas – a mais feia – do harém do famoso monarca israelita. A Mulher que Escreveu a Bíblia é a história desta mulher que não só conviveu com o poderoso e lendário rei de Israel como foi a responsável pela escrita do livro mais lido do planeta: a bíblia.


Resenha

Li A Mulher que Escreveu a Bíblia ainda em 2016, quando o livro foi escolhido para ser a leitura do grupo Ler é Viver em Dezembro. Li-o rapidamente e ainda não sei como não morri de tanto rir. O livro é de fato hilário em sua maior parte, sobretudo devido ao sarcasmo, ironia e franqueza da narradora, uma mulher horrenda!, mas de uma personalidade e inteligência muito à frente de sua época. Porém, se é verdade que gostei bastante do livro, também o é que não tinha interesse algum em resenha-lo em 2016. Na verdade fiz esta resenha várias semanas depois, no calor do mês mais movimentado para mim e quando já havia resolvido de liberar a resenha apenas em 2017, no #AnoDoBrasil.

O Julgamento de Salomão, 1617 por Peter Paul Rubens (1577-1640).
Aqui Salomão é representado com feições europeizadas
em um das mais importantes passagens de seu livro na Bíblia.
Imagem Wikimedia Commons.
Apesar de começar no tempo presente, a história deste livro é quase que toda voltada para o passado, para as memórias de uma mulher que ao fazer terapia de regressão a vidas passadas recorda-se de uma de suas vidas. Em suas lembranças a mulher que escreveu a bíblia é a filha mais velha do líder de uma das inúmeras tribos israelitas, contudo, mesmo com esta importante posição no grupo, as pessoas sempre a evitaram, sem que ela soubesse a razão. Só muitos anos depois, em uma briga com a irmã mais nova por um espelho, que a nossa protagonista se dá conta de algo que sua família lhe escondera por muito tempo e que ninguém na tribo jamais se atreveu a revelar: era ela senhora de uma grande feiura, a maior e mais grotesca que já vira.

Naquele momento de contemplação de sua própria imagem, a jovem passa a compreender todas as situações constrangedoras que passara desde a infância e o distanciamento das pessoas. Desconsolada com sua aparência e também por não ter correspondido o seu amor por um solitário pastorzinho que preferira a irmã mais nova dela, a jovem passa a dedicar seu tempo ora ao isolamento das montanhas, ora as aulas que recebia com o velho escriba da tribo. Aulas que aconteciam às escondidas para que ninguém soubesse que ele ensinava a uma mulher a arte da escrita.

Passado algum tempo, o pai da jovem recebe na vila a inesperada visita de um emissário de Salomão, o rei de Israel. O homem tinha como missão levar até o monarca a filha do chefe da tribo para desposá-la como parte de um acordo político entre a tribo e o reino. Mesmo sendo a mais velha também a mais feia das irmãs, ela é levada ao rei e torna-se uma das esposas do monarca, assim como outras 699 mulheres e outras 300 concubinas que compunham o harém de Salomão.

É no harém, em meio a tantas jovens belas que, assim como ela, viviam para agradar Salomão e atrair a atenção do rei, que a protagonista do livro vai pouco a pouco aprendendo mais sobre a vida, sobre o desejo, a amizade e até mesmo sobre a morte, e gradativamente vai amadurecendo, sem, no entanto, deixar com que a essência de sua personalidade se desfaça.

Por muitas vezes a moça tenta consumar seu casamento com Salomão sem, no entanto, obter sucesso em sua empresa. Mas é o fato de ser a única mulher letrada do harém que chama a atenção do monarca. Encantado com a estética narrativa da esposa, Salomão incumbe à moça uma importante tarefa que tornaria real uma de suas maiores ambições: escrever em um único livro todas as histórias da tradição judaica e imortalizá-lo através de uma obra que atravessaria os séculos. Este livro era a bíblia.

Um livro curto, de leitura rápida, A Mulher que Escreveu a Bíblia foi o último romance do autor gaúcho falecido em 2011 aos 73 anos. Também foi meu primeiro contato com sua obra. Confesso que fiquei impressionado como o escritor conseguiu falar de vários temas delicados com bastante humor e com uma linguagem que vai do chulo ao rebuscado. 

Questões da sexualidade feminina que ainda são tabus na sociedade, a exemplo da masturbação feminina e o libido, são tratadas pelo autor de forma leve, franca e engraçada. Ao mesmo tempo, Moacyr Scilar tece, nas entrelinhas de seus anacronismos, diversas críticas, primeiro, ao valor desmedido que se dá à beleza estética (a aparência) em lugar da essência e, também, ao machismo persistente ao longo da história na sociedade e na própria religião de origem patriarcal. E a grande sacada do autor foi fazê-lo pelo olhar de um personagem feminino e de nome incógnito.

A personagem principal é uma narradora divertida, de fala desabusada, mas que, apesar de não receber um nome, mostra uma personalidade irônica e até galhofeira, que ganha o leitor pelo humor irreverente e pela franqueza. Na verdade, penso que não dar um nome a personagem foi algo inteligente. Incógnita a narradora ganhou uma dimensão maior do que ela mesma, porque ao mesmo tempo que representava a si mesma, representava também os anseios de todas mulheres que, naquela época – e em outras que se seguiriam –, sofriam com a segregação social e com a repressão de sua sexualidade imposta por uma sociedade de tradição patriarcal de moralidade machista.

O rei Salomão encontra a rainha de Sabá na porta do Paraíso
Relevo renascentista em um dos vários painéis que compõem
 o portal do Batistério de São João em Florença.
O episódio registrado na bíblia também tem importante espaço na
narrativa do livro de Moacyr porém de forma bem menos solene
e mais divertida. Imagem: Wikimedia Commons.
Sem acanhamento e até com zombaria, a narradora vai contando ao leitor suas fantasias sexuais com relação a um jovem pastor que não lhe correspondia o sentimento platônico, de suas frustrações em relação ao casamento com o inalcançável Salomão, quem a moça desejava sem ser para ele considerada um objeto de desejo.

A personagem de Moacyr vai na contramão de muitos aspectos que, na época, eram atribuídos ao comportamento desejável por parte da mulher, sendo senhora de um pensamento e de uma forma de expressão moderna. No período, a mulher era vista como a mãe, como a dona de casa, ou como o objeto sexual, que deve estar pronta a satisfazer o desejo do marido, sem que seu próprio desejo fosse levado em conta. O harém de Salomão é o exemplo máximo e a personificação dessa realidade.

Ter ideias próprias, adentrar o universo masculino - como no caso do trabalho escriba -, expressar seu desejo sexual de forma aberta, contestar seu marido, sobretudo em público, eram coisas impensáveis para uma mulher na época, atitudes quase sempre reprimida com violência.  Uma mulher manifestar seu próprio desejo era algo repreensível e até acusatório. Por isso a narrativa de Moacyr além de ser um manifesto contra o machismo é, ao mesmo tempo, povoada por anacronismos[1] que imputam à narradora uma atitude e pensamento que não era comuns nem a sua época, nem ao seu povo – é o passado analisado pelas lentes do presente.

Mas sexualidade não é o único tema da obra de Moacyr. O autor buscou também no humor irreverente a chave para falar de beleza e da importância desmedida que é dada ao aparente, não apenas hoje, mas desde tempos imemoráveis. Em A Mulher que Escreveu a Bíblia, Moacyr brinca com o tema beleza ao apresentar uma personagem que não está satisfeita com a sua aparência e que sofre preconceito por conta de sua feiura. É verdade que para o período, no qual a mulher era medida pela sua aparência e capacidade de ter filhos, nascer feia foi um grande infortúnio. Contudo, mesmo hoje vivemos uma ditadura do belo, do aparente, e que se desdobra em consequências não menos sérias do que aquelas decorrentes de ser uma mulher feia na era de Salomão.

Por isso, a personagem de Moacyr faz uma crítica ao valor demasiado que damos a beleza, porque mesmo sendo ela a mais feia do harém, mesmo ela tendo passado por seus momentos de depressão e de vontade de se isolar, ela não se deixou abater e fez humor com sua própria feiura, lutou com outras armas para conquistar o que queria, sobressaiu-se pela sua inteligência e talentos, e no final foi em busca de seus sonhos e se mostrou mais humana e sensível do que a maioria das pessoas ao seu redor (a irmã, as mulheres do harém, os cortesões, os escribas) que fechadas em suas redomas mantinham suas mentes limitadas e viviam sem propósitos ou ambições verdadeiramente grandes.

O que ela desejou no fim não foi algo tão grande, mas foi necessária imensurável coragem e determinação para correr atrás. A Mulher que Escreveu a Bíblia é uma narrativa que se encerra com uma das mais difíceis buscas: a busca pela aquela que para ela era a verdadeira felicidade, não a busca pela felicidade que eu ou você almeja, mas por aquilo onde ela considerava estar a sua real felicidade.

O autor
Por fim, ainda temos outro ponto importante a se destacar: a relação entre a obra de Moacyr e a Bíblia.

Já no prefácio do livro através de uma citação da obra “The Book of J.”, livro do historiador Harold Bloom, temos uma noção de onde veio a inspiração de Moacyr para A Mulher que Escreveu a Bíblia. Em The Book of J. – no Brasil publicado como O livro de J. – Bloom busca tecer considerações e teorias acerca de quem seria o verdadeiro autor das histórias mais antigas da bíblia e, acerta altura de suas considerações, chaga a conclusão de que estes livros só poderiam ter sido contados por uma mulher pertencente a corte real de Salomão, “uma pessoa altamente sofisticada, culta e irônica, [...], que escreveu para seus contemporâneos como mulher”, afirma.

Tomando o ensejo das teorias de Bloom, Moacyr concebe A Mulher que Escreveu a Bíblia, com uma personagem que se encaixa perfeitamente na descrição de Bloom – exceto pelo erotismo descarado e pela feiura, é claro – e que de fato, devido aos rumos que tomam a sua vida, se torna a redatora da bíblia.

Ao longo do livro, partes do antigo testamento – algumas de suas principais história – são mencionadas e comentadas pela personagem, ora com admiração pelas pessoas cujas histórias eram contadas, em outros momentos de forma crítica. Mas sem dúvida a mais irreverente inferências dá jovem estava relacionada à sua leitura erótica e nada convencional da história de Adão e Eva no paraíso e que logo é censuradas pelos anciões escribas – mais por questões vingativas e passionais do que por moralismo, diga-se de passagem.

Finalmente, é ainda válido ressaltar que, apesar de envolver uma temática que comumente é tratada de forma solene, prosaica e grave, o autor deu preferência por discutir a época e a confecção do livro sagrado – e até mesmo a narração de algumas de suas passagens mais emblemáticas – de forma mais leve, aberta e moderna sob o ponto de vista de uma mulher. Uma decisão no mínimo polêmica mas que teve um efeito muito divertido. Ao mesmo tempo o autor brinca com o dualismo profano e sagrado, em que a história de Salomão, presente na tradição judaica, é retratada de forma muito menos divina, romântica ou sobrenatural, abrindo espaço para temais bem mais terrenos e bem menos formais.

A edição lida é da Editora Companhia de Bolso, do ano de 2007 e possui 168 páginas. Abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Google Books.

Quer saber mais sobre o autor? Confira nossa postagem sobre os autores que estamos lendo na campanha (Clique Aqui).

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