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domingo, 19 de julho de 2020

[Novos Escritores] O Amaldiçoado e o Príncipe das Trevas – João Gabriel Leal – Resenha

Por Eric Silva para a Tag Novos Escritores

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Nos últimos tempos, navegando pelas redes sociais, tenho conhecido muitos autores novos com poucos anos de carreira, estreantes, além de autores independentes que lutam pelo seu espaço no tão competitivo e fechado mercado editorial. Esses encontros casuais acabaram por me lembrar de muito outros que possuo na estante e que nunca cheguei a ler. No final, isso me deu a ideia de uma nova tag: o “Novos Escritores”.

Na terceira resenha dessa nova tag apresento o primeiro livro da trilogia O Amaldiçoado de João Gabriel Leal, O Amaldiçoado e o Príncipe das Trevas conta a história de Lucas, um menino de aparência muito exótica que descobre ser um lobisomem, cuja missão é exterminar o mal dos vampiros que ameaçam a humanidade. Um livro de tema um pouco batido, mas com seu próprio charme, esse é uma obra com um protagonista cativante e com um estilo de narrativa que muito me lembrou as histórias reunidas na Coleção Vaga-lume.

Confira a resenha.

Sobre o autor

João Gabriel Leal tem 26 anos de idade é jornalista, baiano, e atua na imprensa esportiva. Começou a escrever ainda criança, com apenas oito anos de idade.

Na infância, João Gabriel escrevia histórias curtas sobre super-heróis, porém só depois de adulto se sentiu pronto para desafios maiores e escrever mais do que algumas folhas de caderno. Depois de assistir a um documentário sobre lobisomens, teve a inspiração para escrever seu primeiro livro publicado, O Amaldiçoado e o Príncipe das Trevas, primeiro volume de uma trilogia que já tem continuação em O Amaldiçoado e a Tarefa dos Lunáticos, lançado ano passado.

Atualmente, está produzindo o terceiro livro da trilogia.

Sinopse do Enredo

Eulália é uma mulher muito religiosa, mas se casa com Arthur Lupino, um dos maiores mulherengos da pequena cidade sulista de Vale dos Anjos. Aparentemente, aquela relação impensável dá certo até o dia que supostamente Arthur é convocado pelo exército e só retorna nove meses depois com um bebê nos braços. Esse bebê é Lucas, uma criança que supostamente Arthur encontrou abandonado em um ninho de cobras e acabou salvando-lhe a vida. Mesmo desconfiada da história e preocupada com o destino de Lucas, Eulália aceita adotar o menino.

Um tempo depois Arthur é assassinado por um vampiro que tenta atacar sua família. Ninguém descobre a forma como ele morreu e consideram a morte como resultado de um suicídio. Eulália sozinha não consegue tocar a fazenda e torna a se casar, indo morar com Lucas na casa de seu novo marido, Pedro Antônio, e de seu filho, Édipo.

Com o passar do tempo, Lucas vai crescendo e se tronando um menino de aparência estranha, fome descontrolada e temperamento difícil. Está sempre metido em brigas e confusões na escola e tem uma relação delicada e difícil com o padrasto e o enteado da mãe, o que o coloca em situação difícil também com a mãe. O rapaz se irrita muito facilmente e apesar de muito franzino possui uma força descomunal. Mas é quando completa 13 anos de idade que Lucas faz uma grande descoberta sobre si mesmo: um monstro vivia dentro dele.

No dia do seu aniversário, Lucas se desentende e acaba agredindo Édipo, mandando-o para o hospital. Irritado consigo mesmo o garoto passa aquela noite inquieto e sente febre. Como consequência da misteriosa febre, Lucas passa por uma transformação que o torna num lobo faminto, destrói a janela do quarto e desaparece na noite iluminada pela lua cheia. No dia seguinte, o garoto acorda nu no meio da floresta ao lado dos restos de um animal morto que ele, transformado em lobisomem, havia devorado naquela noite.

Desorientado o menino vaga pela floresta sem saber como chegar em casa. É nesse momento que ele encontra um Border Collie[1] que o guia até uma cabana. Morcego, forma como Lucas apelida seu novo companheiro, guia o menino até a casa de seu dono, Anselmo, um antigo amigo de Arthur que revela a Lucas o que havia acontecido com ele e o esclarece acerca de sua missão no mundo, a missão de todos os lobisomens: caçar e exterminar os vampiros. Mais do que isso, o menino lobo é o único capaz de deter o retorno da Rainha das Trevas, a mais poderosa vampira da história. É nesse momento que tudo muda na vida do garoto que passa a enfrentar desafios enormes e perigosas aventuras, ao mesmo tempo que tem que lidar com a chegada de Félix, um garoto novo na escola, mas de áurea misteriosa e sombria. 

Resenha

Vampiros, lobisomens e adolescência: apreciação crítica das temáticas

Histórias de vampiros são muito comuns e não são poucas as obras que possam ser citadas quando se fala do tema. Contudo, histórias de lutas entre lobos e vampiros e o tema da miscigenação entre estas raças parecem ter se tornado mais populares após obras de grande sucesso e divulgação internacional como jogos de RPG, a série Crepúsculo e a franquia de filmes Anjos da Noite.

É possível perceber na trama de João Gabriel influências de algumas obras, sobretudo dos jogos de RPG. Isso não significa, porém, que o O Amaldiçoado e o Príncipe das Trevas não seja original. Pelo contrário, se o autor inicialmente parece se inspirar em outras obras para sua ideia base, por outro lado esbanja originalidade ao apresentar uma proposta de narrativa completamente distinta, nem exageradamente adulta, violenta e pouco crível como o elétrico Anjos da Noite; nem melosa, enjoativa e clichê como o romântico água com açúcar, Crepúsculo; e bem mais literário e intimista do que costumam ser os jogos de RPG.

Romance de terror infantojuvenil, puxado para o subgênero da fantasia sombria, João Gabriel oferta ao seu leitor uma história com muitos personagens realistas e cativantes como Lucas e seu Anselmo. Uma narrativa que não é exageradamente infantil para ser desprovida de ação realista e mortes reais, nem exageradamente adulta para deixar de ser recomendável aos menores como é o caso do subgênero do terror: o vampirismo erótico.

Gravura no frontispício do livro "História dos vampiros e espectros malignos: com um exame do vampiro" Publicado por Masson, Paris 1820 por Collin de Plancy. Wikimedia Commons.


É um livro leve sem deixar de ser crível ou abusar do sentido de impossível. Possui mágica e elementos fantásticos que me fizeram lembrar do universo paralelo de Harry Potter e a originalidade de uma mente criativa que gosta de brincar com seu enredo.

O Amaldiçoado e o Príncipe das Trevas é um livro que me lembrou bastante as histórias e o estilo das narrativas da Coleção Vaga-Lume. Não apenas por seu estilo de escrita se assemelhar com a de alguns escritores da coleção mais lida do país, mas porque ele possui uma temática sólida por trás, e que busca discutir nas entre linhas um aspecto da vida do leitor jovem. Não é um livro apenas para entretenimento, sem, por outro lado, deixar de sê-lo.

Todo livro destaca ou espelha algum aspecto da vida e nos leva a pensar a nossa realidade mesmo quando a trama é de fantasia e tem em si uma verossimilhança unicamente interna. No caso do livro de João Gabriel esse aspecto é a adolescência.

A adolescência é uma fase difícil porque é marcada por uma série muito grande e complicada de mudanças físicas, psicológicas e comportamentais. É um momento de descobertas e de construção da personalidade, das paixões súbitas, da não aceitação do corpo e de uma maior preocupação com a aparência e com a imagem que o outro faz de si.

Como passagem para a vida adulta, essa é uma fase complicadíssima de muitas mudanças e incertezas, no qual o adolescente busca desafiar-se e integrar-se com o mundo social. É um período de formação do indivíduo que será adulto logo mais, um momento de buscar voltar os olhos para o social, tirando-os um pouco do âmbito familiar. Por isso, os jovens gostam de estar integrados a grupos, aos seus pares e estar mais com os amigos e menos com a família.

Lucas está entrando na adolescência e se sente deslocado porque se sente diferente dos demais, mais do que isso, porque é visto como diferente, como estranho e, por isso, sofre rejeição e bullying, e tem dificuldade de fazer amizades. Se aceitar como diferente é seu principal desafio. Mas temos o outro lado também. Mesmo sendo um alguém diferente, Lucas também sente dificuldades de lidar com as diferenças dos outros. O exemplo máximo dessa assertiva é seu único “amigo”, Chico.

Francisco Redondo (um sobrenome bem clichê para alguém gordinho) possui uma personalidade bem diferente da de Lucas, além de ser bastante invasivo, ou “entrão”, como se diz aqui na Bahia. Chico, assim como Lucas, é um garoto solitário e isolado socialmente e vê no menino lobo a oportunidade fazer uma amizade. Por conta disso, Chico tenta de todo modo forçar uma aproximação que Lucas não desejou e nem deseja. Por seu turno, Lucas não sabe lidar com Chico porque, não forma com ele exatamente um igual, um semelhante, e isso cria em Lucas uma certa rejeição ao garoto e uma dificuldade de aceitá-lo como amigo.

Outro ponto desse personagem complexo que vive o principiar da adolescência é a busca por seu lugar no mundo e o papel que desempenhará nele. Descobrir que é um lobisomem não só joga o peso do mundo em suas costas como lhe dá uma missão que ele não pediu, que parece irrealizável, mas, também inescapável. Para alguém que ainda está se conhecendo e se descobrindo, criando referência e desenvolvendo-se a missão de proteger o mundo do retorno de uma poderosa vampira é um fardo pesadíssimo.


Desenho de um lobisomem na floresta à noite.Mont Sudbury. Wikimedia Commons.

Se tudo isso não bastasse ele também está apaixonado e tem fé que conseguirá atrair a atenção da garota que gosta, Melissa, mas, ao mesmo tempo, está inseguro de tudo e não tem certeza de que um dia conseguirá. Na escola as relações com os colegas e professores é um desafio e, em casa, os atritos e brigas são constantes.

Enfim, a adolescência é uma fase de contradições e Lucas é a própria contradição em pessoa. O livro de João Gabriel mostra com maestria o que é ser adolescente pela perspectiva do mais estranho e deslocado de todos: um garoto lobisomem. O livro fala de bullying, de primeiro amor, de amizades, de amor familiar, de aceitação e por isso é diversificado e ultrapassa os limites de uma narrativa de fantasia ou terror infantojuvenil sobre lobisomens e vampiros.  

O pequeno lobisomem e outros personagens

Um dos pontos que mais gostei neste livro foi a construção de seu protagonista que de tão complexo parece real.

João Gabriel concebe um protagonista com quem muitos facilmente se identificariam. O menino estranho dos cabelos espetados que cheira a cachorro molhado, que vive isolado, mas que esconde uma pequena paixão pela garota bonita da classe. Um filho que ama sua mãe, mas que não consegue evitar de trazer-lhe desgostos. Um jovem cheio de energia e potencial, mas que é hostilizado por um padrasto que o considera um incômodo. O garoto diferente que é alvo de bullying do enteado da mãe e dos valentões da escola. O rapaz que tenta entender quem ele é e qual o seu propósito no mundo. Todos eles são Lucas Lupino.

Lucas é um garoto diferente com uma aparência estranha (isso é fato incontestável). Tem uma fome incontrolável e uma irritação ameaçadora que assusta muitos a sua volta. Para muitos ele é só mais um futuro delinquente, mas intimamente ele é só um garoto como outro qualquer, com seus medos, sonhos e paixonites. Ele também é um monstro, perigoso, ameaçador quase incontrolável, mas também tem a pureza de alguém que deseja ser bom e fazer o seu melhor. Enfim, Lucas é um personagem multifacetado e isso faz dele um personagem intrigante ao mesmo tempo que cativante.

Acompanhá-lo é ver uma criança perdida que tenta desesperadamente buscar respostas e controlar seus ímpetos agressivos. Ele é um garoto corajoso, mas cheio de medos e indagações. Sua instabilidade emocional o faz tão frágil quanto o faz forte e, mesmo sua natureza biológica, ao que tudo indica, parece desafiar as próprias leis naturais. O tipo de personagem que mais adoro porque tem uma construção que tende a ser complexa e realista.

Acredito que todo ser humano é um universo em si complexo e multifacetados. Não somos a mesma pessoa nem agimos igual ao tempo todo e como cebolas (sim, cebolas, você não leu errado) somos feitos de camadas sobrepostas de tamanhos distintos, porém, diferentes das cebolas, com tons ligeiramente dessemelhantes.

Não gosto de personagens planos, simples construídas em redor de uma única qualidade ou defeito, mas de personagens complexos e contraditórios, os ditos personagens redondos. Lucas é um deles e já vale pelo livro inteiro.

O Amaldiçoado é uma série com um elenco vasto e muitos outros personagens perfilam pela história. O misterioso Arthur Pedro Antônio, o padrasto burguês e hostil que só pensa em dinheiro; seu filho, Édipo, prepotente e que pensa ser superior a Lucas e por isso está sempre atormentando seu juízo. Chico, o “melhor” e praticamente único amigo de Lucas, mas que passa a maior parte da história forçando esta aproximação e amizade. Melissa, a menina bonita por quem Lucas é apaixonado. Cito ainda Félix, o menino novo da escola que acaba criando uma grande confusão em Vale dos Anjos e se tornando elemento-chave na narrativa.

Muitos outros personagens secundários foram criados por João Gabriel, contudo estes alongariam demais a resenha caso fossem citados com pormenores. Contudo, dois personagens precisam ser destacados. O primeiro é Eulália, a mãe de Lucas, o outo seu Anselmo, que se destaca como mestre e instrutor de Lucas.

Destaco Eulália porque foi um personagem que me chamou a atenção e me causou estranhamento. Eulália é uma religiosa fervorosa, descrita como uma verdadeira beata, porém a maior parte do tempo ela não me convenceu. Achei que o personagem está demasiadamente cercado de estereótipos por ter sido criado como uma mulher exageradamente pura, cristianizada e correta, um exemplo de retidão e probidade só porque é religiosa. Fora os seus momentos de irritação, quando Lucas apronta das suas, Eulália é comparável a Virgem de tão certinha, por isso achei sua construção um pouco caricata e fora da realidade.

Eulália é um exemplo de personagem plano e na maior parte do tempo permanece como um – ela só mostra as unhas uma única vez, já perto do final do livro. Como já disse não gosto de personagens planos, porque é meio difícil de acreditar na constância moral deles, eles não me parecem críveis ou realistas. É certo que a história esconde um propósito para ter um personagem assim, mas isso só fica claro muito tempo depois e é só nesse momento que Eulália ganha um pouco mais de profundidade.

Por seu turno, destaco seu Anselmo por ser um dos personagens mais exóticos e enigmáticos da trama. Ele é descrito como um senhor de idade, sempre portando seu chapéu panamá, e que vive isolado na sua cabana no meio da floresta. Como Lucas ele é um lobisomem, já tem mais de 100 anos e é na trama a chave central para entendermos o passado do menino e suas origens. Ele cumpre o papel de mestre e mentor de Lucas, e o ajuda em muitos aspectos, mas acho que ele poderia ter uma presença mais intensa na trama. Ele some nos momentos mais cruciais da narrativa, mas tenho impressão que será elemento-chave no segundo volume da série.

Para finalizar...

A escrita de João Gabriel é leve e fácil de compreender. Ele escreve bem, no entanto, a história do livro tem um começo fraco e só ficar realmente interessante quando Lucas passa por sua primeira transformação.  A partir dali a narrativa passa alternar entre momentos tranquilos, momentos de tensão e outros de ação e morte. A leitura só é cansativa nos primeiros capítulos, mas, à medida que a trama se torna mais dinâmica e consistente, passa a fluir rapidamente e se torna mais instigante.

O Amaldiçoado e o Príncipe das Trevas é uma história interessante com um protagonista cativante com o qual o leitor divide e reage aos anseios e medos do mesmo. Lucas é um menino problemático, mas com o qual você se compadece. Só acho que a obra deveria evitar as armadilhas de americanização da cultura brasileira. Uma cidade inteira que comemora o dia das bruxas não é exatamente comum no Brasil. Comemorações como estas em escolas, sobretudo particulares, são bem comuns, mas uma cidade inteira não é ainda algo existente.

Infelizmente, O Amaldiçoado e o Príncipe das Trevas possui alguns pontos negativos, três para ser exato. O primeiro deles já mencionei quando falava de Eulália: essa não é uma obra livre de alguns estereótipos inocentes, mas inegáveis e que deixam alguns personagens, como Eulália com um certo ar caricatural.

O segundo ponto é o narrador e suas piadas sem humor. Narrado em terceira pessoa, o livro tem um narrador ativo na narrativa. Ele opina, se compadece dos personagens e tenta se engraçado, mas nem sempre consegue êxito.

Mas o que mais me chamou a atenção foi um pequeno trecho, imperceptível quase, mas destaco porque achei muito incoerente e, até certo ponto, inadequado para um livro infantojuvenil. Trata-se de um comentário sobre um dos personagens relacionada a questão da autodefesa do porte de armas:

“Na sala, pegou uma lanterna potente de fazendeiro, uma faca de caça e uma espingarda calibre doze que deixava num armário para ocasiões como aquela. Era a favor da autodefesa. Achava que a polícia não fazia seu trabalho direito e a segurança no país estava um caos”.

O comentário é completamente desnecessário para o entendimento da trama e de seu personagem. Sem querer, a passagem faz aos jovens uma espécie de apologia ao porte de armas, um posicionamento político do personagem desnecessário a obra que, para sua faixa etária e temática, deveria ser politicamente neutra. Na minha opinião, bastava mencionar que ele pegava uma espingarda, arma comum entre caçadores de animais.

O desfecho é sem dúvida um dos melhores aspectos da narrativa. Cheio de acontecimentos inesperados, mistérios e reviravoltas, a conclusão do primeiro livro nem de perto dá um ponto final na narrativa ou esgota suas possibilidades. João Gabriel soube o exato momento onde encerrar a escrita de O Amaldiçoado e o Príncipe das Trevas para deixar seu leitor curioso e ansioso pelo segundo volume da série.

O destino de Lucas fica em aberto bem como da maioria dos personagens. O seu futuro e o destino da humanidade ficam em suspenso e você curioso para saber como Lucas fará para enfrentar os novos desafios que se abrem a sua frente. Quais aliados fará nessa empresa e como seguirá em frente em direção ao seu destino? As possibilidades são imensas, mas tudo depende de como o autor conduzirá a segunda edição que já foi publicada sob o título de O Amaldiçoado e a Tarefa dos Lunáticos. Esperemos pelos desfechos do próximo livro.

A edição lida é independente e está disponível na Amazon, porém o livro já foi publicado em edição impressa pela Editora Giostri, no ano de 2017 e possui 188 páginas.



[1]Raça canina do tipo Collie desenvolvida na região da fronteira anglo-escocesa na Grã-Bretanha para o trabalho de pastorear gado, em especial, de ovelhas. (Wikipédia)


domingo, 7 de junho de 2020

Bruxa da Noite – Nora Roberts – Resenha



Por Eric Silva
05 de abril de 2020

“O mundo é mágico. As pessoas não morrem, ficam encantadas”.
(João Guimarães Rosa)

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Meu primeiro contato com a obra da cultuada Nora Roberts, Bruxa da Noite é uma narrativa que reúne história, magia, romance e a luta do bem conta o mal em um único enredo. Em alguns momentos empolgante e, em outros, maçante este é um livro que valeu a pena ler para conhecer a autora, mas que não mudou meu sentimento de antipatia em relação ao gênero romance de amor.

Sinopse do enredo


County Mayo, Irlanda.

Sorcha, a Bruxa da Noite, como era conhecida na região, sente-se cada vez mais debilitada após o aborto espontâneo de sua quarta criança. Sozinha com os três filhos (Brannaugh, Eamon e Teagan) enquanto o marido estava ausente em batalha, ela sente que a energia maléfica do bruxo Cabhan está cada vez maior, assim como o desejo dele de apossar-se dela e de seu poder. Ela e sua família estão em risco.

Para defender seus filhos contra os ataques de Cabhan e destruí-lo, Sorcha faz o mais extremo dos sacrifícios. Transfere para os filhos o seu poder, escolhendo para cada um deles um animal como guia (o cão, o falcão e o cavalo) e num ato suicida usa o pouco de poder que lhe resta para enganar e destruir seu inimigo. Contudo, Cabhan não está morto e de algum modo sua existência sombria vai, ao longo dos séculos, atormentando a descendência da grande bruxa, restando aos que herdaram o sangue de Sorcha terminar o que ela havia começado muito tempo antes.

Paisagem de County Mayo. Autor da Imagem: Comhar.
Julho de 2010. Wikimedia Commons.
Muitos séculos depois a extensa linhagem dos três filhos da Bruxa da Noite ainda sobrevive, dotados de poder e marcados pela maldição. Cabhan é ainda uma ameaça presente e poderosa da qual os irmãos Branna e Connor O’Dwyer tiveram que aprender a se defender ainda muito crianças. Descendentes dos três irmãos, ela é a bruxa guiada pelo cão e ele o bruxo guiado pelo falcão, mas para que o círculo fique completo, falta o terceiro, aquela que é guiada pelo cavalo, a descendente de Teagan.

Do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, Iona Sheehan cresceu ansiando por amor e aceitação. Com pais indiferentes, o porto seguro da menina foi sua avó materna, irlandesa, com quem aprendeu as lendas antigas da grande bruxa e através de quem Iona ficou sabendo onde encontrar suas raízes:  County Mayo. Ali Iona poderia entender quem é, compreender a dimensão dos seus poderes e encontraria um lar e o seu destino determinado muitos séculos antes de nascer.

Após vender o pouco que possuía, Iona faz as malas e deixa tudo para trás, com nada além de instruções de sua avó, muito otimismo, e um talento nato com cavalos. Abandona para sempre a vida infeliz que vivia para buscar as respostas para suas dúvidas naquela terra antiga, repleta de florestas exuberantes, ruínas, e velhas lendas.

Ali onde tinha origem o sangue e a magia de sua família, Iona encontra seus primos, Branna e Connor e é convidada a viver com eles em sua casa onde eles ensinariam tudo o que era necessário à jovem bruxa. É também com ajuda deles que a moça consegue um emprego nos estábulos locais e conhece Boyle McGrath, o proprietário. Boyle é um homem ousado, rústico e rude, mas capaz de mexer com os mais íntimos desejos de Iona.

Junto de seus primos, de Boyle e dos amigos que consegue fazer, logo a moça percebe que naquele lugar ela pode construir um lar para si e viver a sua vida como sonhava. Mas isso também significava enfrentar os assédios e os ataques do mal antigo que atormenta sua família e reunir forças para derrotá-lo de uma vez por todas.

Resenha


Infográfico da nossa resenha. Clique para Ampliar.
Elaboração: Eric Silva.

Não costumo ler livros do estilo que Nora Roberts escreve, apesar de ter resenhado dois em toda a história do blog até então. Isso significa que Bruxa da Noite, mais pela sua temática próxima do estilo fantasy, é meu primeiro contato com a obra da autora.

Para ser realmente sincero, escolhi este livro por acaso (na base do sorteio). Sou bibliomaníaco e tenho muitos livros digitais (e quando digo muitos é porque são muitos mesmo) e com frequência sorteio ao acaso um deles para ler. Trata-se de uma maneira meio hardcore[1] de fugir da minha lista de leitura, mas é também uma forma de ler algo não planejado. Foi assim inclusive que nasceu a Campanha Anual de Literatura de 2016, quando ao acaso decidi ler A Sombra do Vento, livro do espanhol Ruiz Carlos Zafón.

O problema disso é que quase sempre leio ou algo que não pretendia mesmo ler, ou algum gênero literário do qual não gosto. Foi o caso dessa vez, já que apesar de ser um romance paranormal, é também classificado nos gêneros de romance contemporâneo e de romance de amor.

Primeiro livro da trilogia Primos O'Dwyer, Bruxa da Noite faz parte de um gênero literário que não perco tempo lendo: o romance de amor. Em primeiro lugar, porque não sou do tipo romântico e que acredita nestas paixões avassaladores comuns nos livros de romance de amor, segundo, porque detesto livros que ocupam páginas ou até um capítulo inteiro descrevendo minuciosamente o coito selvagem de um casal. Confesso que tenho particular horror a romances de banca tipo Julia, Sabrina e Bianca.

É preciso uma escrita empolgante, um senso estético fabuloso, uma temática fora do padrão, um bom enredo e um escritor de renome para me convencer a ir além da página 12, ou então, a OBRIGATORIEDADE INESCAPÁVEL de ler algo de que não gosto. Nora Roberts tem a escrita, a temática, o senso e o renome necessário, por isso não abandonei Bruxa da Noite logo de cara.

Passagens míticas


Roberts começa seu livro contando os últimos dias de vida de Sorcha e de como começou a maldição que persegue sua família ao longo dos séculos. Com o talento de uma escritora experimentada, de cara ela nos introduz naquela atmosfera bucólica da vida na Irlanda antiga e reconstrói o caráter meio mágico, meio sombrio de suas florestas milenares.

Paisagem de County Mayo. Fiorde de Killary Harbour. Wikimedia Commons.

Não sei se fui influenciado pelo meu espirito geográfico que ama conhecer lugares diferentes, mas as descrições de Nora e minha imaginação tornavam quase palpável as imagens que ela descrevia, cenários e pessoas. Além disso, logo a autora faz você entrar numa atmosfera de livros de magia e bruxaria, passados em um tempo remoto e ancestral. Um bom começo posso dizer, mas ora e meia esse clima eram estragados pelos toques sensuais exagerados dado às sensações que Sorcha sentia quando na presença intimidadora de Cabhan.

“Sorcha sentia a luxúria dele como mãos suadas em sua pele”.

“Ela os sentiu como mãos ousadas em sua pele”.

Essas passagens que ora e meia explodiam no texto acabavam por me fazer recordar de que estava lendo um tipo de romance no qual essa pegada mais sexual é muito comum, e meio que destruíam o clima anterior. Mas as passagens míticas provocaram minha apreciação pelo gênero fantasy de um jeito que não me recordo ter sentido há muito tempo.

Há uma passagem do livro, em particular que mexeu muito comigo. Trata-se de quando Iona visita com Boyle as ruinas de Ross Errilly. Ross Errilly é um monastério franciscano medieval destruído após os britânicos terem expulsado os monges e, algum tempo depois, os seguidores de Oliver Cromwell[2] terem saqueado e queimado o que restou. Nesse lugar que Nora Roberts descreve como “saído de um filme antigo em que criaturas tramavam escondidas no escuro”, Iona tem uma visão do passado intensa e arrepiante.

Imagens das ruínas de Ross Errilly.
Wikimedia Commons.


A forma como Robert descreve a visão em meio as ruinas foi simplesmente poderosa. Iona percorre as velhas ruínas enquanto fala com Boyle e, ao mesmo tempo, vê-se numa vida passada na qual viveu por um curto período de tempo naquele lugar, entre os monges que a abrigaram com sua neta. Mas mais do que isso, ela reexperiencia quando febril, em seu leito de morte, se viu obrigada a passar seu poder e sua maldição à menina, para impedir que Cabhan conseguisse o que desejava.

Há muito tempo não sentia uma descrição literária com tanta intensidade, mas acho que não foi só a escrita desse trecho do livro que mexeu comigo, mas um conjunto de leitura e música.

Tenho costume de ler e escrever ouvindo música. Composições de Ludovico Einaudi, de Brian Crain, de Yann Tiersen, e, mais recentemente, de Abel Korzeniowski. Enquanto lia a passagem da visão de Iona, meu computador tocava Moonlit Shore, uma música melancólica de Brian Crain tocada ao piano, e antes dela, ouvi arrepiado a hipnotizante e até mítica composição de Ludovico Einaudi, The Tower. Só sei que ambas as composições, e sobretudo a de Einaudi, junto com a passagem da visão de Iona no livro criaram em meu quarto uma atmosfera intensa e que me tirou do ar.

Mas o que parece bom, nem sempre o é o tempo todo

Depois da morte de Sorcha, Bruxa da Noite dá um pulo no tempo e avança para os dias atuais nos quais conhecemos Iona e seus primos. É a partir daqui que o livro mostra de forma marcante a sua personalidade de romance de amor e a narrativa mítica perde força e se torna meio cansativa, repetitiva e arrastada.

A verdade é que Nora Roberts deixa a proposta inicial – a luta entre luz e escuridão – seguir um ritmo de desenvolvimento muito lento porque sua intenção era não esgotar uma narrativa que, na realidade, é bastante limitada. Deste modo a autora teria assunto para três livros nos quais o foco real é desenvolver a vida amorosa dos três protagonistas: Iona, Connor e Branna, nesta ordem. Destruir Cabhan é pôr fim prematuramente à saga.

Por essas razões, Bruxa da Noite tem maior foco no desenvolvimento pessoal e amoroso de Iona, destacando as mudanças sofridas em sua rotina ao chegar na Irlanda, seu crescimento em quanto bruxa e, principalmente, a evolução de seu relacionamento com seu cawboy ranzinza, problemático e cheio de frescuras. Cheguei inclusive a pular dois capítulos inteiros os quais a autora dedicou-se quase que exclusivamente a descrever (com por menores) as transas do casal.

Os momentos paranormais da narrativa passam a ser triviais e as constantes e inesperadas aparições de Cabhan vão seguindo uma formula repetitiva que tira pouco a pouco a mágica, o brilhantismo e alguma originalidade que a narrativa poderia ter. Com isso meu encanto inicial pela escrita de Nora também vai perdendo seu brilho e termina de morrer nos últimos capítulos quando, caminhando para o desfecho da narrativa, Nora Roberts perde completamente a mão para os elementos sobrenaturais e transforma o final do livro em uma luta confusa, sem resultados e sem emoção alguma.

Os personagens


No que tange a construção dos personagens e ao desenho psicológico dos mesmos, Nora Roberts se mostra uma escritora competente na criação de personagens com características bem diversas que as marcam e definem completamente.

Iona é uma moça bonita, ativa e impetuosa, mas sobretudo otimista. Mesmo tendo vivido com seus pais uma vida de pouco afeto e de pouco amor, ela é uma garota que sempre está em busca de amar e de ser amada. Iona também tem seus medos e seus momentos de dúvida e fraqueza, mas com esforço e vontade de progredir ela vai pouco a pouco conquistando seu espaço, tanto em Mayo como na vida de todos os outros personagens, tornando-se necessária e quista.

Connor é tranquilo, otimista e conciliador. Sempre muito bem-humorado, mas mostrando-se sério quando necessário, é ele que costuma desarmar os personagens em momentos de atrito, forçando o grupo a atingir um ponto de equilíbrio e trabalhar juntos contra as investidas de Cabhan.

Branna, por sua vez, é a mais realista e desconfiada. Quase sempre acorda com um humor acre, mas está sempre disposta a ouvir, aconselhar e alimentar quem precisa dela. Com um instinto matriarcal pronunciado, ela é a mais preocupada de todos, sendo bastante severa e exigente com o treinamento de Iona para que essa seja capaz de se defender e colaborar com os primos na luta contra o bruxo sombrio.

Quanto a Boyle, este é um homem explosivo que exige demais de si e também dos demais. Um homem acostumado a ser líder e ter iniciativa, mas que teme mais do que tudo se tornar refém de seus próprios sentimentos, com os quais tem uma dificuldade enorme de lidar. Iona entra na sua vida para virá-la de cabeça pra baixo e pouco a pouco desarmar todas as suas defesas.

Por fim, outros personagens se destacam também como importantes na trama e de personalidades bem demarcadas.

O primeiro é o misterioso e calmo Fin (Finbar Burke), sócio de Boyle e descendente de Cabhan. Fin é apaixonado por Branna, mas é constantemente evitado e afastado por ela, que desconfia do rapaz por conta da marca de sua descendência. Ele é junto com Boyle um dos melhores amigos de Connor.

A outra é Meara, uma amazona e professora de equitação, funcionária dos estábulos e melhor amiga de Branna. Meara é sarcástica, mas muito bem-humorada. Muito sincera, a moça não tem papas na língua e está sempre dizendo o que lhe vem na cabeça.

Por fim, Cabhan é muito pouco caracterizado na trama. Quase nada é revelado sobre seu passado e quem de fato era. Só um pouco de suas ações é descrito e, na verdade, ele próprio aprece muito de repente logo no começo da história.

[...]
– Se tivéssemos, papai lutaria contra eles. E eu também. – Ela olhou para sua mãe. – Dervia, do castelo, me disse que Cabhan foi banido.
– Você já sabia disso.
– Sim, mas ela disse que ele volta e se deita com mulheres. Sussurra em seus ouvidos e elas acham que é seu legítimo marido. Mas de manhã, descobrem. Choram. Ela disse que você deu às mulheres amuletos para mantê-lo longe, mas... ele seduziu uma das criadas da cozinha, no pântano. Ninguém consegue encontrá-la.
Sorcha sabia disso, e sabia também que a criada nunca seria encontrada.
– Ele brinca com elas e abate os fracos para se alimentar. Seu poder é negro e frio. A luz e o fogo sempre o derrotarão.
[...]

Na maioria das vezes Cabhan aparece como um lobo negro e feroz portando um colar com uma pedra de brilho vermelho, fonte de seu poder, e que sempre está atacando Iona, supostamente o elo mais fraco dos três bruxos da noite. Mas quando aparece em sua forma humana, ele se demonstra um homem sórdido e de grande luxuria, mas igualmente sedento por poder e destruição.

Concluindo...


Nora escreve bem e de forma fluida. As descrições são boas e não chegam a ser cansativas, exceto quando a autora resolve perder um ou meio capítulo narrando as “excussões” sexuais dos personagens principais.

Passagens como da visão de Iona em Ross Errilly, são carregadas de força e impressionam. Contudo, um problema sério de sua escrita é sua pouca preocupação em demarcar nos diálogos a quem pertence cada fala. Em muitos momentos ela apenas sugere a quem pertence a fala através de pistas dadas pelo próprio diálogo, e, em outras passagens, sobretudo nos diálogos entre duas pessoas, é a ordem das falas na sequencia o único elemento para diferenciar quem fala e quem ouve em cada momento do discurso. Fora isso, não há o que reclamar da sua escrita.

Além disso, os cenários escolhidos são fabulosos e míticos. Florestas tão sombrias quanto encantadoras e que mesclam beleza, misticismo e escuridão. Ruinas, castelos e construções antigas que despontam numa paisagem bucólica, rural e pontilhada de pequenas vilas com suas casas simples, mimosas e campestres.

Bruxa da Noite é um livro que muitas vezes lhe prende e em outras é apenas uma leitura fácil e prazerosa. Sua ideia não é original, mas em muitos momentos é bem executada. O narrador é bastante impessoal e isso não agrega grande coisa a narrativa também.

Deixar para depois a conclusão da batalha dos primos O'Dwyer contra Cabhan foi uma boa saída para transformar uma história que daria no máximo dois livros, contudo a dispersão enfraqueceu o primeiro livro. Diria que o livro de Nora é, pela soma dos pontos fortes e fracos, um livro mediano.

Não sei se seguirei lendo a série. Não é um hábito meu ler continuações, principalmente porque tenho muita coisa boa ainda esperando para ser lida. Algo que achei interessante e único neste livro foi o fato de que, no final, ele tem um capitulo extra, na verdade, o primeiro capitulo de Feitiço da Sombra segundo livro da sequência. Uma estratégia muito interessante para atiçar a vontade de continuar a série. Contudo, imagino que o foco dos livros posteriores seja o mesmo de Bruxa da Noite, e isso não me estimula.

Não sei, mas acho que eu gostaria mais de Bruxa da Noite se ele se passasse na Irlanda medieval do que no nosso mundo moderno. Os primeiros capítulos são, sem dúvida, os de melhor qualidade. Além disso, a parte romântica também seria possível no contexto de uma narrativa histórica. Fazer passar tantas gerações para que o embate final acontecesse fez, na minha modesta opinião, com que esse primeiro livro perdesse parte de seu misticismo e encantamento. Ainda mais que todos levam muito bem o fato de Bannar, Connor, Iona e Fin serem bruxos, quase como se fosse natural ter um amigo de infância feiticeiro. Muito inverossímil no meu ponto de vista.

Um Bruxa da Noite passado na idade média irlandesa seria mais empolgante e poderoso, quem sabe, até cinematográfico.

A edição lida é digital, da Editora Arqueiro, do ano de 2015 e possui 320 páginas em sua versão impressa.

Sobre o autor


Escritora norte-americana, Eleanor Marie Robertson ou Nora Roberts começou a escrever em 1979. Depois de várias rejeições, seu primeiro livro, Almas em chamas, foi publicado em 1981.

É autora de mais de 200 best-sellers românticos, publicados em mais de 35 países e traduzidos para 25 idiomas. Em seu lançamento, Um novo amanhã, Álbum de casamento, Bruxa da noite, Feitiço da sombra e Magia do sangue foram direto para o primeiro lugar da lista de mais vendidos do The New York Times, na qual Nora é presença constante.

Nora tem mais de 500 milhões de livros vendidos e foi a primeira mulher a figurar no Romance Writers of America Hall of Fame. Também recebeu diversos prêmios, entre eles o Golden Medallion, da Romance Writers of America, o RITA e o Quill.

Ela escreve também sob o pseudônimo de J. D. Robb (na Série Mortal), Jill March e Sarah Hardesty.

Preview do Google Books

Abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Google Books.




[1] Algo feito ou executado de forma extrema (https://www.significados.com.br/hardcore/)
[2] Oliver Cromwell (c. 1599 - 1658), foi um militar e líder político inglês e, mais tarde, Lorde Protetor. Puritano e um homem intensamente religioso ele acreditava profundamente que Deus era o seu guia nas suas vitórias. Participou na Guerra civil inglesa, ao lado dos Parlamentaristas. Foi um dos signatários da sentença de morte do rei Carlos I em 1649, e, como membro do Rump Parliament (1649–53), dominou a Comunidade da Inglaterra. Foi escolhido para assumir o comando da campanha inglesa na Irlanda durante 1649–50. As suas forças derrotaram a coligação entre os Confederados e os Realistas, e ocuparam o país – terminando, assim, com as Guerras confederadas irlandesas. Durante este período, foram redigidas uma série de Leis Penais contra os católicos romanos (uma minoria significativa na Inglaterra e na Escócia, mas uma grande maioria na Irlanda), e grande parte das suas terras foram confiscadas (texto: Wikipédia).

domingo, 3 de maio de 2020

O Código Perdido – Kevin Emerson – Resenha


Por Eric Silva
29 de março de 2020

Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.

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Um amor jovem nascido durante um acampamento para adolescentes, localizado naquele que era um dos últimos refúgios da humanidade. Um mundo colapsado por mudanças climáticas que comprometeram a sobrevivência no planeta. Conspirações, mentiras, mutações e uma profecia milenar. Esses são alguns dos ingredientes que compõe a trama teen de O Código Perdido, primeiro volume da trilogia Os Atlantes.

Sinopse do enredo

Um livro que mistura questões ambientais sobre mudanças climáticas e fantasia mitológica num mundo distópico, O Código Perdido, narra a história de como Owen Parker, um menino de condições financeiras muito baixas e que vivia numa das regiões mais insalubres do mundo, foi parar em um estranho acampamento para adolescentes, em um dos últimos lugares da Terra ainda protegido e em condições mais ou menos favoráveis a vida.

No mundo em que a série de Kevin Emerson se ambienta, as mudanças climáticas e o aquecimento global provocaram o colapso do planeta e pouquíssimas áreas não se tornaram completamente desérticas e inabitáveis, caso da maior parte da América do Norte. Além disso, o degelo rápido das calotas polares decorrente do aumento das temperaturas mundiais fez com que os níveis dos oceanos se elevassem e devorassem as regiões costeiras e com elas as antigas tecnópolis de Nova York, Xangai e Dubai.

Grande parte da população mundial não sobreviveu aos deslocamentos em massa, às guerras e ao caos que se seguiram ao cataclismo. Daqueles que restaram, a maioria passou a viver nas estreitas faixas de terra das Zonas Habitáveis, em lugares completamente insalubres, escondendo-se em abrigos subterrâneos onde ainda lhes restavam alguns recursos tecnológicos vindos da pujante era pré-Ascenção.

Somente alguns poucos privilegiados – que ponderam pagar por isso – passaram a viver nos cinco domos Éden, grandes estruturas controladas pela poderosa Corporação Éden capazes de abrigar em seus interiores pequenos bosques, lagos e cidades, e nos quais as pessoas podiam continuar vivendo como tinham vivido no passado.

Porém, mesmo os domos já demonstravam desgaste e era uma questão de tempo até que se tornassem insustentáveis e também colapsassem. A corporação sabe disso, ainda que tente esconder, e corre contra o tempo e usa dos meios mais sórdidos para encontrar uma solução que garanta sua própria sobrevivência.

É em um desses domos que funciona todos os anos o aparentemente inofensivo Acampamento Éden, onde Owen descobrirá, após se afogar por quase dez minutos, que não é uma pessoa normal. Desse dia em diante, o garoto se verá no difícil desafio de desvendar os mistérios que cercam sua descendência extremamente peculiar e que está modificando seu corpo e sua natureza, mas que é a chave para evitar o fim da raça humana. Para isso, ele precisará escapar das garras da Corporação Éden que aparenta um perverso interesse nos conhecimentos ancestrais que o menino descobre possuir (o código perdido). E para esta aventura ele conta com a ajuda de Lily, uma garota encantadora e misteriosa.

Resenha

Li O Código Perdido ano passado durante as férias e logo me esqueci dele.

Quem leu a sinopse do enredo provavelmente deve estar pensando agora que se trata de mais uma narrativa teen de ficção-científica envolvendo conspirações e um mundo pós-cataclismo que será salvo por um grupo de adolescentes cheios de adrenalina, espertos e exalando feromônio[1]. Bem, tem bastante disso, mas não se trata só disso.

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O que posso dizer é que o livro de Kevin é uma salada de frutas que mistura distopia, ficção-científica, mutação genética, conscientização para questões ambientais sérias, romance e dramas jovens e – o mais inusitado – fantasia mitológica atlante. Todo esse conjunto vem em um único pacote, no máximo, bem costurado e com alguns insights inteligentes e criativos, porém com uma narrativa bastante clichê e cheia de lugares comuns.

O que acabei de escrever pode soar bastante contraditório – o que não foge muito da minha natureza pessoal –, mas a verdade é que minha relação com esse livro foi também bastante contraditória. Ele não é suficientemente ruim para que eu diga que é perda total, nem suficientemente bom e instigante para que eu o considere como um dos meus favoritos dentro de seu gênero.

Seus personagens não me cativaram e sua narrativa não é nem marcadamente criativa, nem desprovida de originalidade. A escrita é boa e o desencadeamento lógico das coisas é até certo ponto bastante verossímil. Ainda assim, ele não me apetece. Tanto que não lerei os próximos livros da série – apesar que ler apenas o primeiro volume de uma série já tenha se tornado um hobby meu.

Diria eu que os elementos menos originais do livro são, em primeiro lugar, o fato de ser um livro distópico, cujo mundo foi virado de cabeça para baixo por questões ambientais, provocando sérios problemas para a continuação da humanidade. Parece-me que esse é um tema que está bastante em voga no gênero, aparecendo em livros como O Conto da Aia, Feios, Divergente, Maze Runner, etc. por isso está ficando desgastado.

Em segundo lugar, há muitos elementos clichês que destoam com o clima de desespero mundial que acontece fora do domo. Os principais deles são: um acampamento de verão para adolescentes, os dramas adolescentes, que parecem se tornar universais na literatura, e os amores de verão embalados pelo eterno clima de férias.

Para quem não tem paciência de vencer a maior parte da narrativa aquele acampamento parece algo inverossímil e destoante com a proposta do próprio livro, que se pretende ser uma distopia de um mundo em colapso. Obviamente que o clima de férias criado pelo acampamento foi cunhado propositadamente pelo autor, que inclusive já foi monitor de acampamentos antes de se dedicar à literatura.

A clara intenção de Kevin era mostrar mais explicitamente as contradições entre o estilo de vida daqueles que viviam dentro do domo Éden, protegidos da radiação solar e dos intemperes do novo clima, e a forma como viviam os desafortunados habitantes do exterior.

Owen, por exemplo, como personagem principal da história e um dos poucos garotos vindos de fora do domo, serve à narrativa como um contraponto entre como pensa as pessoas de dentro e de fora dos domos. Esse deveria ser, na verdade, o seu principal papel nos primeiros 2/3 da narrativa. Contudo, em muitos momentos, ele está mais preocupado com seus próprios problemas juvenis e corriqueiros, só mudando sua postura de forma mais marcante quando os problemas dentro do domo se mostrem cada vez mais explícitos.

Mas já que citei o protagonista, falemos dele e de outros personagens.

Owen é um daqueles adolescentes apagados, sem muita personalidade, ingênuo, deslocado e desprezado pelo rebanho, além de ser cheios das neuras e dos hormônios comuns a idade dele.

Ele vive com seu pai em uma região inóspita, onde as pessoas são obrigadas a viver nos subterrâneos, uma vida de muitos desafios, mas que na minha modesta opinião, infelizmente, não imprimiu tanto relevo quanto era possível a personalidade do jovem. Digo isso, porque minha impressão dele é que na maior parte da primeira metade da história ele está mais preocupado em parecer interessante para a garota mais cobiçada do acampamento e também se manter fora do caminho do valentão da história, o Sanguessuga.

Owen é para mim mais um adolescente qualquer do século XXI, mas que parece ter sido jogado em outra época sem que houvesse o perfeito encaixe entre a personalidade e o período histórico – ainda que Kevin tenha feito enormes esforços para isso. Ele é crítico e curioso, elemento que acaba por equilibrar um pouco o personagem, mas isso não foi o suficiente para que ele se tornasse cativante. A única coisa que achei interessante nele foi o seu senso de humor que geram algumas autorreflexões, além, é claro, da forma como ele passa a conversar com seu próprio corpo como se por dentro de si houvesse uma equipe de pequenos operadores responsáveis pelo funcionamento da “máquina Owen”.

Outros personagens da narrativa também merecem meu destaque.

O primeiro é o grupo dos jovens mais descolados do acampamento: Lilly, Aliah, Evan e Marco.

Eles formam uma espécie de grupo de elite, os Conselheiros em Treinamento (CET). Mais velhos do que os demais campistas eles são responsáveis por guiar os mais novos em várias das atividades realizadas no acampamento. O problema é que eles também são bastante clichês não tendo conseguido superar os estereótipos comuns aos jovens atléticos ditos “populares” das escolas estadunidenses, e que, lamentavelmente, servem de modelos a algumas centenas de livros, filmes e séries produzidos naquele país. Lilly, talvez é a única no grupo que parece se transformar na história.

Lilly, como uma das protagonistas da narrativa, é narrada como uma jovem bonita e atraente – apenas – mas no decorrer da narrativa ganha algum relevo ao se mostrar bastante humana, ética, forte, determinada e inteligente. Diria que de todos é o melhor personagem. Infelizmente os demais parceiros de seu grupo não apresentam grandes evoluções.

Quanto a ala vilã da história, Sanguessuga e seu pequeno bando de valentões seguem a mesma linha dos CETs e são clichês ao ponto de não merecerem grandes destaques. O mesmo se aplica ao dúbio e nenhum pouco confiável, Paul, o estranho e enigmático diretor do acampamento.

Apesar do tamanho (352 páginas), a leitura desse livro é fácil e rápida, e se você está preocupado só com o entretenimento e não com a profundidade dos personagens ou com a originalidade da narrativa, bem, ele é uma boa opção para se ler no final de semana, mas não vá com muitas expectativas.

Enfim, digo que O Código Perdido é um livro que me distraiu durante os dias monótonos das férias, mas não é um livro que eu leria de novo ou que tenha me motivado a continuar a leitura da saga. Claro que nas minhas críticas pesa também a minha particular antipatia pela maioria das histórias teens. E aí você pergunta: porque você leu então? E eu respondo simplesmente: não julgue o livro sem ter lido. ;)

A edição lida é da Editora Fantasy Casa da Palavra, do ano de 2015 e possui 352 páginas.

Sobre o autor

Estadunidense, Kevin Emerson cresceu em Connecticut e agora vive em Seattle com sua esposa e seus dois filhos. Antes de se dedicar a literatura, foi banqueiro, monitor de acampamento e professor de escola primária. Hoje, além de escritor é também músico e faz parte do The Board of Education, uma banda que apresenta músicas educacionais para crianças. Kevin também é voluntário no 826 Seattle, um braço do 826 National, uma instituição sem fins lucrativos que ensina jovens de 6 a 18 anos, fundada pelo escritor Dave Eggers.

Preview do Google Books

Abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Google Books.




[1] Substâncias químicas produzidas para fora do corpo que, ao serem disseminadas, promovem determinadas reações dentre outros indivíduos de uma mesma espécie (Wikipédia)

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