Por Eric Silva, dedicado à Lewie Jhony.

José Rezende Filho escreve uma breve novela onde cabe todo o desejo, sonhos e incertezas de um personagem que poderia ser só mais uma criancinha mimada e teimosa, mas que se mostra alguém ansioso pela independência.
Tonico, um garoto de 13 anos (quase 14), pertence a uma família pobre do subúrbio ferroviário do Rio de Janeiro. Ele acabou de perder o pai, o que o fez do dia pra noite o homem da casa, mas tempos difíceis despontam no horizonte. Sua vida muda de uma hora para outra e o garoto, cujas únicas preocupações eram estudar e brincar, é cobrado a se tornar um pequeno trabalhador.
O tio tenta reorganizar a vida da família da irmã dentro das suas possibilidades parcas e, na impossibilidade dele mesmo ajuda-los financeiramente, vê como única saída que o sobrinho mais velho passe para a escola noturna e comece a trabalhar para ajudar a mãe e a avó no sustento da casa.
Incialmente, Tonico se sente eufórico diante dessa nova realidade de trabalhar, ganhar seu próprio dinheiro e ajudar a família de cinco pessoas (ele, duas irmãs, mãe e avó), contudo, trabalhar na loja do seu Duda ou na farmácia do Seu Fonseca não estavam no seu ideário. Tonico, que ainda se equilibrava sobre o fino fio que separa a infância despreocupada da maturidade cheia de responsabilidades, desejava trabalhar e ser útil a casa, mas não estava disposto a sacrificar sua liberdade e por isso não sabia como lidar com toda aquela situação. Ora desejava sua vida de volta, ora sentia que necessitava ajudar a família, necessitava vestir as calças do “homem da casa” assim como lhe falara o tio. Mas, por outro lado, também queria ser independente, queria ser livre. É na cadência desses sentimentos que o garoto enxerga na vida de Carniça, outro pequeno trabalhador, a possibilidade de conquistar seus sonhos.
Carniça é um garoto negro que desde os seis anos ganha a vida trabalhando vendendo jornais de trem em trem e engraxando sapatos na Zona Sul do Rio de Janeiro. Vivia pelas ruas, dormia no deposito de jornais, comia em pensões e quando queria voltava para casa onde morava com a mãe e dividia com ela o dinheiro que conseguia. Apesar de tudo, Carniça era livre, algumas vezes conseguia reunir em um único dia 30 cruzeiros, fazia o que queria e “não tinham hora para nada. A vida, boa ou má, já lhes pertencia”. A mãe de Tonico detestava o garoto, mas Tonico o idolatrava como um modelo e esse modelo de vida tão novo, tão excitante, tão aventureiro e livre seduz o menino que passa a planejar sua fuga de casa para trabalhar pelas ruas como o amigo de futebol.
Tonico é um livro que nos leva à realidade das famílias pobres do nosso país que diante da necessidade são obrigadas a colocar suas crianças para trabalharem expondo-as a todo tipo de risco. Os trabalhos que o tio de Tonico arruma para ele são leves, o garoto poderia ser considerado apenas como um aprendiz, no entanto os mesmos obrigavam o garoto a estudar a noite e ter uma rotina exaustiva. No outro lado, a vida de Carniça é ainda mais perigosa e insalubre. Além de não estudar seu trabalho é altamente degradante no sentido em que está exposto a todo tipo de violência e doenças.
Carniça é o modelo perfeito da criança pobre que vive em situação de rua, ou seja, trabalha nas ruas para adquirir seu sustento, contudo ainda mantem laços com a família. Mas a liberdade que esta vida proporciona a quem a vive é o que atrai Tonico, que sem nenhum conhecimento prático sobre tudo a que ele estará exposto, não sabe o quanto difícil e perigoso é aventurar-se na vida de uma pequeno trabalhador das ruas.
Convido-os a descobrir os desafios enfrentados por Tonico que confrontar-se com sua família para ir em busca de seus sonhos de liberdade. O livro possui uma leitura fluída e rápida, de uma narrativa onde o psicológico de cada personagem é muito bem costurado. Um livro sensível cujo personagem principal vive o conflitante desafio de crescer.
A edição lida possui 94 páginas, ilustrada, é do ano de 1993, e é pertencente a Coleção Vaga-Lume da editora Ática – uma coleção altamente recomendável e uma das responsáveis pela minha iniciação no mundo da leitura (cresci lendo-a). Minha avaliação pessoal: Muito Bom.
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Meu deussss, eu li esse livro quando criança e apesar de lembrar da história, não conseguia me lembrar do título de jeito nenhum! Que loucura ver ele assim aleatoriamente haha Eu lembro de ter gostado bastante.
ResponderExcluirÉ realmente um livro muito interessante, como quase todos da coleção Vaga-Lume.
Excluirqueria saber a descriçao dos personagens por favor
ResponderExcluirFaz mais de dois anos que li o livro, não saberia descrevê-los com fidelidade. Sobre Tonico diria que é um garoto ainda muito imaturo que se encontra dividido entre os deveres para com a família, como "o homem da casa", e o desejo de viver a infância e a liberdade que só conhecemos nela. Ele quer contribuir com a família, mas de uma forma rápida, que dê "lucros" imediatos, que lhe permita ter liberdade e viver ao seu modo, assim como acontece com Carniça. Sobre Carniça é mais difícil, ele aprece menos e o foco sobre ele é menor. Ele parece ter problemas em casa, porém é um garoto livre, que sofre para sobreviver e se acostumou com o sofrimento, mas que batalha pela sobrevivência nas ruas e busca aproveitar ao máximo seus momentos livres, fazendo o que lhe dá na telha, da forma como acha melhor para si mesmo. São só impressões, lembranças vagas que puxei agora da memoria. Sinto não poder ajudar mais.
ExcluirMas onde se passava a história 😵😕😶
ExcluirO texto não diz explicitamente, mas pelas indicações de algumas ruas, se passa no Rio de Janeiro.
ExcluirÉ realmente um livro muito interessante, como quase todos da coleção Vaga-Lume.
ResponderExcluirÉ uma coleção fascinante, formadora de leitores. Algumas das minhas paixões literárias vêm dessa coleção.
ExcluirObrigado pelo comentário.
AMEI NA MINHA INFÂNCIA TONICO, LEMBRO ME QUE CHORAVA LENDO ESSE LIVRO.
ResponderExcluirÉ um livro muito tocante mesmo o que mostra sua sensibilidade. Ainda quero ainda ler Tonico e Carniça, mas não encontrei oportunidade.
ExcluirObrigado pelo comentário.
Foi o primeiro livro que li na minha infância, lembro-me que minha professora pediu para lermos um livro fui até a biblioteca e escolhi esse livro comecei a ler com muita preguiça mas com o desenrolar da história achei fascinante uma grande história muito linda e tocante.
ResponderExcluirOi, Fran. Comigo foi um pouco diferente, mas também está ligado a escola. Sempre gostei muito da coleção vagalume e sempre que encontrava um dos livros queria ler. Esse eu ganhei num concurso de redação feito na escola. Lembro que a primeira vez que li me emocionei muito com as dificuldades vividas por Tonico nas ruas e com a forma como a morte de um pai mexe com a vida e a cabecinha de uma criança. É um livro muito especial.
ExcluirO lugar onde se passa a história e quanto tempo durou?por favor preciso pra amanhã
ResponderExcluirRio de Janeiro. Alguns meses (não é preciso).
ExcluirEste comentário foi removido por um administrador do blog.
ResponderExcluirQuem e como são os personagens?
ResponderExcluirTonico, Carniça, a avó (Dona Corália), o tio (Severino), a mãe (Dona Zen), o dono da loja (Seu Duda).
ExcluirLi esse livro em 1986 e até hoje lembro de algumas passagens de tão marcante que foi
ResponderExcluirTenho muito carinho por ele também.
ExcluirE se livro e muito bom recomendo que leiam
ResponderExcluirPfvr se vc souber o que acontece no final da história poderia me dizer de forma completa
ResponderExcluirSei sim, mas isso é registrar um spoiler sobre o livro, o que não é justo para quem pretende lê-lo.
ExcluirPor favor me ajuda por qual personagem Tonico nutria uma grande administração?
ResponderExcluirPelo seu amigo Carnica
ExcluirEsse livro é muito bom e triste ao mesmo tempo. É bem interessante perceber como o livro retrata as condições, à época, da cidade do Rio de Janeiro. Os engraxates antigamente tinham um "mercado" maior de clientes. Atualmente, são raros os engraxates pois quase não se usa mais sapato social. O clube de futebol América, um dos grandes times do Rio, era a paixão do pai do Tonico. Hoje, o clube é afundado no desconhecimento, quase extinto. Enfim, muitas análises são possíveis de serem feitas. Excelente resenha!
ResponderExcluirObrigado pelo comentário. Livros fazem registros históricos e ao lê-los é possível ver como o mundo mudou.
ExcluirQual é o foco narrativo do texto? E aonde está?
ResponderExcluirQual é o foco narrativo do livro ? E aonde está? Provando
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