Por Eric Silva
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Muitos anos depois da exibição da minissérie produzida
pela Rede Globo de Televisão, retornamos a história original da prostituta mais
famosa do país: Hilda Furacão, livro do brasileiro Roberto Drummond.
Misturando ficção e relato autobiográfico, Roberto recria
a atmosfera social moralista-conservadora da época e a tensão política que
agitava os últimos anos que antecederam o golpe militar de 1964. É com bastante
humor que ameniza o teor crítico de sua narrativa, que o autor vai descrevendo
uma Belo Horizonte dos sonhos, mas que também era palco de grandes conflitos,
contradições e disputas, e que como tal era um reflexo do que ocorria no Brasil
das décadas de 1950 e 1960.
Confira a resenha do penúltimo livro da campanha do #AnoDoBrasil,
a segunda edição da Campanha Anual de Literatura do Conhecer tudo.
Sinopse
Em uma narrativa que mescla o
romance proibido entre um frade e a prostituta mais cobiçada da capital mineira
e o cenário político e social conservador que antecedeu o golpe militar de
1964, Hilda Furacão narra a história de três amigos e uma bela prostituta que
chamou a atenção de toda a capital mineira. Os amigos são Roberto, um jovem
jornalista comunista que se divide entre a causa e os desafios de quem começa
no jornalismo; Aramel, um belo rapaz que sonha em tornar-se ator em Hollywood e
livrar-se da vida de pobreza que vivia; e Malthus a quem todos chamavam de
Santo, porque desde pequeno foi guiado pela mãe e pelo padre de Santana dos
Feros a seguir a vida religiosa para alcançar uma pretensa santidade. E ela era
Hilda, a Garota do Maiô Dourado, uma moça de família rica que desprezava todos
os pedidos milionários de casamento e que por algum motivo desconhecido
abandona tudo e muda-se para o quarto 304 do Maravilhoso Hotel, na zona boêmia
da cidade para o desassossego de esposas, namoradas e mães de toda Belo
Horizonte.
A primeira vez que ouvi falar
de Hilda Furacão nem imaginava que se tratava de um livro. Como a maioria dos
brasileiros conheci a história da prostituta mais cobiçada de Minas Gerais
através da minissérie produzida pela Rede Globo e exibida no ano de 1998.
Obviamente, ainda no auge dos
meus sete anos, pouco me lembro da telenovela que na época era proibida para a
minha idade, mas nunca me esqueci de como a beleza e sensualidade de Ana Paula
Arósio, intérprete da protagonista, fascinava qualquer garoto, eu entre eles.
Embalados pela voz morna de Nana Caymmi cantando Resposta ao Tempo muitos de nós nos apaixonamos pela beleza da
personagem e sobretudo de sua intérprete. Quase vinte anos depois, meio sem
querer esbarrei com o livro que inspirou a série na biblioteca da filarmônica
30 de Junho e não tive dúvidas, precisava lê-lo.
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Aramel, interpretado por Thiago Lacerda na minissérie da Rede Globo. |
Filha de uma família
tradicional e rica, desde a sua adolescência, Hilda era conhecida, em Belo
Horizonte, como a Garota do Maiô Dourado, sendo alvo das paixões de vários
rapazes. Contudo, no dia 1 de abril de 1959, a moça resolve abandonar tudo, sai
de casa e passa a ocupar o quarto 304 do Maravilhoso Hotel, na rua Guaicurus,
Zona Boêmia da capital mineira, onde habitavam prostitutas, boêmios e
travestis.
Ali, a Garota do Maiô Dourado
que antes frequentava a piscina do Minas Tênis Clube torna-se a Hilda Furacão,
a mais desejada e disputada prostituta da cidade. Logo sua fama de levar os
homens a “subir pelas paredes” ganha toda a cidade, fazendo crescer a fila na
porta do quarto 304. Contudo, a real razão da moça ter abandonado tudo para
seguir a vida de meretriz continuava um mistério que muitos desejavam
desvendar, entre eles Roberto, que recebera a missão de escrever uma matéria
sobre ela no jornal onde trabalhava.
O surgimento de Hilda Furacão
coincide com uma grande manifestação popular para acabar com os prostíbulos da
Zona Boêmia, transferindo os seus habitantes, bares, bordéis e hotéis para uma
área periférica, onde seria construída a chamada Cidade das Camélias.
O projeto, que ainda
precisava ser votado na câmara, dividia opiniões e pós em confronto, de um
lado, os defensores da Zona Boêmia, sobretudo os habitantes do Maravilhoso
Hotel – entre eles Hilda, a prostituta Maria Tomba-Homem e o travesti Cintura
Fina –, e, de outro, a Sociedade Defensora da Moral e dos Bons-Costumes,
liderados pela moralista Loló Ventura.
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Frei Malthus interpretado por Rodrigo Santoro na minissérie da Rede Globo |
Contudo, ao contrário do que
se pode pensar, Hilda Furacão não é o principal foco do livro que leva seu
nome. Em lugar disso, o livro mistura realidade e ficção centrando-se na
história de seu próprio autor e narrador.
Contando sua história desde
Santana dos Ferros quando morrera seu pai, até suas aventuras como jornalista
já na cidade de Belo Horizonte, Roberto traz a si mesmo como personagem ativo e
envolvido em quase tudo o que acontecia naqueles tempos na capital mineira.
Desta forma, todo o livro está povoado por muitas passagens autobiográficas que
se confundem com a parte ficcional da história, além de muitos personagens
reais que são inseridos na trama ou servem de base para a criação dos mesmos.
Maior exemplo dessa mistura
de ficção e realidade é a personagem principal, inspirada na história de
juventude da prostituta Hilda Maia Valentim, conhecida na zona boêmia de Belo
Horizonte como Hilda Furacão, mas que ao mesmo tempo foi enriquecida com vários
elementos ficcionais que a ampliaram e a adequaram à narrativa.
Em sua narrativa Roberto
pinta um Hilda forte e determinada, uma mulher que se faz admirável não apenas
pela sua beleza e sensualidade, mas igualmente pela força de seu espírito. O
que torna um pouco cansativo na história é a insistência do autor em afirmar
ser um mistério Hilda ter tornado-se uma prostituta, quando a própria narrativa
deixa claras as suas motivações e que se resumiam a pura superstição. Talvez
quando você ler também compreenda do que quero falar.
Os demais personagens da
narrativa possuem marcas muito próprias, apesar de achar que Aramel podia ter
sido melhor desenvolvido e ter tido sua personalidade mais acentuada na
narrativa. Porém, o personagem mais vivo e vibrante na história é, sem dúvidas,
o próprio Roberto. Conhecemos cada parte de sua personalidade, seus sonhos e
anseios são demonstrados com proximidade, bem como seus pensamentos. Nem mesmo
Santo, que na minha modesta opinião se mostra um homem fraco e vacilante, ou
mesmo Hilda Furacão, são tão bem caracterizados e aprofundados quanto o
narrador da história.
Narração e temáticas
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Roberto (personagem) interpretado por Danton Mello na minissérie da Rede Globo |
Mais do que uma história
romântica de um amor impossível entre um religioso e uma prostituta, Hilda Furacão é um livro que aborda
diversas questões que descrevem o cenário social moralista e conservador das
elites brasileiras bem como os fortes sentimentos anticomunistas do período que
antecedeu ao golpe militar de 1964.
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Roberto Drummond (autor), foi jornalista e escritor brasileiro. Faleceu em Belo Horizonte, no dia 21 de junho de 2002 |
No primeiro caso, vemos como
as mulheres de famílias tradicionais de Belo Horizonte se empenham para que o
projeto fosse aprovado e um processo de segregação socioespacial fosse feito,
afastando para o subúrbio a população da área boêmia que atraía maridos e
filhos para os bailes e as “mulheres de vida fácil”[1].
Tamanho era o fanatismo misturado com o sentimento de ameaça que as mulheres da
zona boemia, e sobretudo Hilda, representavam, que o grupo, liderado pela
tradicional e moralista Loló Ventura, viam em Hilda Furacão a própria imagem do
mal encarnado na forma de mulher, julgando-a possuída. Ideia essa que contagiou
até mesmo Malthus que quase nada sabia da mulher que prometera a Loló Ventura
exorcizar.
No segundo caso, o autor
descreve a polêmica criada quando a igreja de Santana dos Ferros recebe um
painel de uma cena do livro de gêneses na qual adão foi representado
completamente nu. Um episódio que consternou a maioria das beatas da cidade e
sobretudo uma das tias de Roberto que daquele dia em diante só entrava na
igreja de costas para não ver as “vergonhas” do primeiro homem. O autor aborda
estas questões com um misto de comédia que suaviza a crítica que ele faz nas
entre linhas a uma falsa moralidade que encontrava no campo religioso uma
grande vasão.
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Militares da Força Pública, atual polícia militar, protegendo o Palácio Guanabara, no rio de Janeiro, durante o Golpe Militar de 64. Imagem: Wikimedia Commons. |
Comunista e militante,
Roberto fala de seus sonhos de resistência, de fazer no Brasil uma revolução
socialista, de ter sua própria Serra
Maestra[2] e, nesse ínterim,
relata as dificuldades de manter em segredo o movimento, de conduzir suas ações
e treinamentos e principalmente a moralidade ferrenha existente também dentro
do partido, a moralidade socialista tão rigorosa quanto aquela defendida pelos
capitalistas da época.
De toda forma o cenário
político da época é um dos principais panos de fundo da narrativa que comenta
fatos do momento político do país como as reformas de base e a disputa entre
direita e esquerda durante os governos de Quadros e Goulart.
O livro termina com a eclosão
do movimento golpista empreendido pelos militares e que contava com o apoio dos
partidos de direita. Desse modo, o destino dos personagens principais coincidem
com o dia seguinte ao golpe que deu início à Ditadura Militar no Brasil,
ironicamente concluído em 1º de abril, Dia da mentira. Contudo
o desfecho da narrativa não foi exatamente o que eu esperava, marcado por
muitos desencontros e deixando um ar de história inconclusa.
O livro e a minissérie: comparações inevitáveis
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Abertura da minissérie da globo exibida em 1998 e inspirada no livro de Roberto Drummond. |
Outra mudança está na linearidade. Para não confundir o espectador, sobretudo aqueles que
não havia lido o livro que inspirou a série, a Globo preferiu contar a história
de Hilda de forma cronológica, quebrando com a total falta de linearidade do
original. Assim, o roteiro deixou mais fácil não só a compreensão das
discussões políticas acerca dos governos de Juscelino, Quadros e Goulart e, por
fim, da eclosão da Ditadura, como também da evolução de seus personagens na
trama.
Outro aspecto que notei é que o livro é muito menos
focado na história romântica de Hilda e Santo do que a minissérie. Hilda Furacão
tem mais traços de livro histórico e político do que de fato de uma história de
amor. Em muitos momentos o casal protagonista fica apagado na narrativa
enquanto se desenrola as aventuras do jornalista em sua causa socialista e em
meio as agitações políticas da época. Mesmo sem apagar o conteúdo político da
narrativa, a minissérie procurou dar destaque aquilo que chamaria mais atenção
do povão acostumado às novelas globais: um amor proibido dividido entre o
desejo e o medo do pecado.
Por fim, o humor
característico do narrador é outro elemento que senti falta na minissérie, mas
percebi que ele foi conservado nas cenas cômicas que se desenrolava na pequena
cidade de Santana dos Ferros.
Em conclusão, Hilda Furacão é um livro muito
bem-humorado, que fala dos bastidores de uma época no qual a tensão entre a
elite de direita e tradicionalista e os movimentos trabalhistas (de esquerda)
se encaminhava para o Golpe de 1964. Trata-se também de uma obra que desnuda,
de um lado, os últimos anos de uma era de grande participação política por
parte da população, representados por Roberto, e, de outro, os anos de ouro da
boemia, representados por Hilda Furacão e pelas pessoas da Rua Guaicurus.
Enfim, um livro bom.
A edição lida é da Geração
Editorial, do ano de 2008 e possui 295 páginas. Abaixo você pode conferir uma
prévia do livro disponível no Google Books.
Prévia do Google
Books
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[1]
Apesar de empregá-lo na resenha considero o termo
uma grande inverdade, posto que o próprio livro dá rápidas demonstrações de
quantos desafios eram enfrentados todos os dias pelas prostitutas e transexuais
da zona boêmia.
[2]
O autor faz referência as montanhas de Sierra Maestra, em Cuba, onde o
socialista e rebelde Fidel Castro e seus seguidores, na época, contrários ao
então ditador Fulgêncio Batista, se esconderam e mantiveram seu quartel-general
militar. O lugar é ainda hoje considerado um marco na história da Revolução
cubana realizada no ano de 1959.
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