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domingo, 1 de novembro de 2020

[Especial Zafón] O Labirinto dos Espíritos – Carlos Ruiz Zafón – Resenha

Por Eric Silva

15 de abril de 2020

As recordações que enterramos no silêncio são as que nunca deixam de nos perseguir

(O Labirinto dos Espíritos – Carlos Ruiz Zafón).

 

Está sem tempo para ler? Ouça a nossa resenha, basta clicar no play.

Retomando o Especial Zafón trago a resenha do livro épico que fecha a Série do Cemitério dos Livros Esquecidos. Numa trama noir e cinematográfica, O Labirinto dos Espíritos faz confluir as narrativas de todos os principais personagens da série e explora de forma bastante incisiva o lado obscuro do passado da cidade catalã de Barcelona nos seus tempos de regime franquista, denunciando as atrocidades que eram comuns durante e também após a Guerra Civil Espanhola.

Sinopse do enredo

A Espanha vivia o auge da Guerra Civil que culminaria com ascensão do General Francisco Franco quando Barcelona se tornou o alvo da Aviazione Legionaria italiana. Entre os dias 16 e 18 março de 1938 a cidade catalã seria intensamente bombardeada e 1.300 pessoas morreriam no ataque[1].

Na época, Alicia Gris ainda era uma menina que só escapou da morte, graças a inesperada ajuda de um amigo de seu pai, o foragido Fermín Romero de Torres. Desesperados, os dois fogem pelos telhados dos prédios vizinhos à casa da menina até que uma explosão os separa e deixa em Alicia uma ferida que a torturaria pelo resto de sua vida.

Vinte e um anos depois, Alicia é uma investigadora talentosa que percorre o submundo da capital espanhola solucionando casos a serviço do sistema franquista. Quando o ministro da educação, Maurício Valls, desaparece, a moça é recrutada para investigar e determinar seu paradeiro. É nesse momento que ela e seu parceiro no caso, o capitão Vargas, imergem numa trama obscura envolvendo o passado do ministro e que tem início ainda no período da guerra, quando ele ainda era diretor da prisão barcelonesa de Montjuic.

Em Barcelona, Daniel Sempere, protagonista de A Sombra do Vento, vive uma vida pacata ao lado da esposa e do filho, Julián, mas é constantemente atormentado pelas sombras do mistério que cerca a morte de sua mãe, Isabella. Angustiado pelo seu desejo de vingança, o rapaz dedica-se secretamente a investigações inúteis sobre seu principal suspeito, o desaparecido ministro Valls, enquanto administra a livraria do pai ao lado da esposa e de Fermín.

A medida que a investigação de Alicie avança, os fios que compõe a trama de uma história cheia de crimes e segredos vão convergindo e se entrelaçando à história da família Sempere, e em pouco tempo o destino de Alicia, Daniel e Fermín se entrecruzam revelando mistérios e fechando lacunas que foram deixadas nos livros publicados anteriormente. Assim, a macronarrativa do Cemitério dos Livros Esquecidos, que teve seu início a 18 anos atrás (2001 foi o ano de publicação de A Sombra do Vento), encontra seu desfecho com o entrecruzamento das várias narrativas dos muitos personagens que compõem a série.

 

Resenha

Quarto e último livro da série O Cemitério dos Livros Esquecidos, O Labirinto dos Espíritos reúne, integra e faz confluir as narrativas de todos os principais personagens da série, fazendo dos livros predecessores afluentes de um rio tortuoso que vai preenchendo as lacunas e clareando os livros anteriores. Ao mesmo tempo essa é também a mais longa narrativa de Zafón, que introduz na trama a história de um novo e importante personagem: a sombria e sarcástica Alicia Gris.

Sou fã declarado da série e do estilo de escrita de Zafón e a leitura de O Labirinto dos Espíritos me prendeu de forma irresistível em seu labirinto de histórias, tragédias e tramas. Zafón constrói cenários, enredos e personagens de uma forma única e, em seu estilo sombrio e misterioso, compõe com uma escrita que me fascina. O Labirinto dos Espíritos é mais um atestado da qualidade da obra do escritor barcelonês que fecha com estilo a sua série mais famosa.

Percebi que ao longo da escrita da série Zafón optou por escrever combinando as características de diferentes gêneros literários. A Sombra do Vento é basicamente um livro de mistério e aventura, característica que é mantida em O Prisioneiro do Céu, entretanto, esse último vai além da aventura e ressalta o cenário de terror da ascensão do regime franquista. Por sua vez, O Jogo do Anjo possui uma pegada mais sobrenatural e gótica, no qual elementos mágicos e a loucura são muito explorados. Contudo, O Labirinto dos Espíritos é essencialmente um romance noir[2]. Digo isso porque seu principal foco está nas investigações de Alicia e seu companheiro Vargas que na busca por encontrar o paradeiro de Valls revira o seu passado e desenterra seus crimes.

Diferente do que ocorre em A Sombra do Vento, no qual Daniel e Fermín investigam o passado do escritor maldito Julián Carax, os personagens do último livro da série são de fato investigadores profissionais.

Alicia não é uma policial como Vargas, mas não deixa de se comportar como uma investigadora, uma detetive implacável. Ela é uma mulher soturna e sofrida, como tantas outras que sobreviveram aos tempos de guerra.  Como investigadora Alice é uma pessoa curiosa, determinada e capaz de tudo. Sua aura é sombria e até mesmo fatal e seu humor sarcástico só vacila quando as dores de seu ferimento de guerra a atormentam. Mas no fundo ela é também uma pessoa sensível e que ama, uma literata apaixonada e alguém que inveja a felicidade modesta daqueles que vivem uma vida comum. Como um mosaico de sentimentos conflitantes que vão da frieza a doçura, Alicia é um personagem singular e único dentro do livro responsável por revelar cada um dos fios que ligam os muitos personagens da série.  Não é à toa que ela é a personagem preferida de seu criador.

Vargas, por sua vez, faz o papel do investigador durão e rústico, comilão e que odeia demonstrar qualquer tipo de fragilidade. Ele é o típico policial que, de tão acostumado ao submundo e aos seus horrores, já não consegue ter uma perspectiva positiva da vida, além de carregar consigo todo o peso de um passado de tragédias e traumas.

Juntos, mesmo que contra a vontade, os dois reviram o passado nebuloso do ministro Valls e revelam a corrupção e a podridão que existe por trás do sistema e das pessoas ilustres que representam o seu panteão.

Quanto a Daniel, também nesse livro sua participação é modesta, como vinha se revelando nos volumes anteriores protagonizados por outros personagens, mas tudo conflui para ele e para o passado de sua família como também já se era de esperar. O mesmo se dá com Fermín que, depois do seu protagonismo em O Prisioneiro do Céu, volta a dar mais espaço aos novos personagens, contudo ainda sendo uma peça chave para o desencadeamento da narrativa e para ligar as histórias de cada personagem na trama.  Por vezes, me questiono se Fermín não seria o grande personagem dessa série, haja vista a sua extensa participação nos fatos ocorridos em várias épocas da linha histórica de O Cemitério dos Livros Esquecidos.

Estilo e temática de um livro mosaico, caleidoscópico

Em O Labirinto dos Espíritos, Zafón volta a falar da corrupção e de toda a podridão impregnada dentro do sistema implantado durante o governo do general Franco. Os horrores do fim da Guerra Civil Espanhola também são novamente invocados.

Fotografia do bombardeio aéreo de Barcelona em 17 de março de 1938, visto de um bombardeiro italiano. Wikimedia Commons.
Fotografia do bombardeio aéreo a Barcelona em 17 de março de 1938, visto de um bombardeiro italiano. Wikimedia Commons.


Barcelona e Madri são cidades mergulhadas na obscuridade, ainda mais sombrias do que a Barcelona narrada pelo olhar de Daniel no primeiro livro da série. A narrativa, as suas personagens e os lugares que lhes servem de cenário estão impregnados pela melancolia, pelo sabor de derrota e pela taciturnidade dos espanhóis, mas principalmente pelas sombras pesadas de um regime que espalhara a morte e cultivava o terror através de seus agentes sombrios, que carregavam a morte no olhar e ceifavam vidas em nome de um sistema deturpado e a favor apenas dos mais poderosos.

Mas o elemento que mais se destaca no livro é o estilo. O Labirinto dos Espíritos representa, sem dúvida, o ápice da escrita de Zafón. Nele seu estilo que mistura poética, romance gótico e policial ganha um maior refinamento e sua escrita chega ao seu auge.

Sempre comento como admiro o estilo poético e cheio de construções estilísticas da escrita de Zafón. Mesmo falando sobre temas sombrios ele escreve de uma forma única que lhe é peculiar e que ajuda a construir com sombras e vapores os cenários e a atmosfera de seus enredos. A escrita é bastante descritiva, mas nunca se torna cansativa. Humor, sarcasmo, ironia e divagações poetizadas se misturam a uma descrição impecável e original que encanta aqueles que, como eu, apreciam um texto muito bem escrito. Mas o que o escritor barcelonês faz no último livro de sua série é levar ao ponto mais extremo esse seu estilo único e compor o volume mais bem escrito da coleção.

Confesso que ainda prefiro A Sombra do Vento, o livro mais romântico da série e que apresenta meu personagem predileto, Daniel. Ali Barcelona é uma mistura de sombras e perfumes que se misturam e revelam uma cidade cheia de mistérios, perdas e pessoas sofridas e taciturnas. Mas, ao mesmo tempo, é uma cidade que permite o florescer dos amores juvenis e inconsequentes como o de Daniel e Beatriz, e que abriga, apesar dos pesares, os sonhos daqueles que possuem muito pouca esperança.


Não obstante, à medida que avançamos na série, Barcelona vai se tornando cada vez mais sombria, por vezes gótica, mas sempre encoberta por um véu de obscuridade formada pelo medo, por mentiras e mistérios, e pela crueldade da guerra e do regime de Franco. O Labirinto dos Espíritos explora de forma ainda mais incisiva esse lado obscuro do passado da cidade catalã e denuncia as atrocidades cometidas durante a Guerra Civil Espanhola, ao mesmo tempo que faz uma excursão pelos bastidores do sistema implantado após a sua conclusão.

O romance é mosaico e em suas muitas partes ele vai conectando cada uma das narrativas contadas nos livros anteriores da série, compondo um labirinto com muitas portas, ramificações e fantasmas. Todas as histórias e personagens do Cemitério dos Livros Esquecidos convergem para essa trama e muitos pontos propositadamente deixados soltos nos demais livros vão sendo preenchidos e os vários fios da trama são atados em um ponto de convergência único.

Podemos considerar que em si o livro todo é o desfecho de uma grande história, a do Cemitério dos Livros Esquecidos, mas Zafón também buscou dar ao Labirinto dos Espíritos um desfecho completamente e indubitavelmente fechado, o que nos torna oficialmente órfãos da série.

O autor dá destino a todos os seus personagens, encerrando para sempre uma das melhores séries que já li. Por isso, O livro de Julián, a última parte que compõe a história, não só nos dá uma noção de depois, indicando os desdobramentos das vidas de cada personagem, como também nos dá uma noção da transformação sofrida pela Espanha com o final do regime franquista. A cidade que vemos é uma cidade que se moderniza e que dissipa as trevas e a lugubridade que marcam a Barcelona da série.

Assim, a história épica que começa com o jovem e ingênuo Daniel Sempere em uma madrugada de magia e descobertas, se encerra com a perigosa aventura de Alicia Gris e com o destino da nova geração que vislumbra, com brilho nos olhos, a magnífica basílica de livros, o Cemitério dos Livros Esquecidos.

Enfim, um fim digno a uma narrativa caleidoscópica que por 15 anos embalou os leitores assíduos e apaixonados de Zafón.

A edição lida é da Editora Suma, do ano de 2016 e possui 680 páginas.

Sobre o autor

Saiba mais sobre Carlos Ruiz Zafón na postagem especial que fizemos sobre ele.

Preview do Google Books

Abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Google Books.

 



[1]https://pt.wikipedia.org/wiki/Bombardeio_de_Barcelona

[2]Os romances Noir, Preto em francês é o tipo de romance policial onde os personagens são mais humanizados, os detetives nesse tipo de história, costumam beber, brigar, se envolver em romances e sexo. Também existem outras tramas paralelas, a história portanto não gira em torno de apenas um fato, mas vários. (Wikipédia)



terça-feira, 31 de março de 2020

8ª Confissão – James Patterson e Maxine Paetro – Resenha


Por Eric Silva
28 de março de 2020
“Para todo problema, existe uma solução mais simples.”
(Agatha Christie)

Diga-nos o que achou da resenha nos comentários.

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Descrição de uma sociedade marcada pelo abuso de drogas, 8ª Confissão transita por dois universos muito distintos: o da alta sociedade de São Francisco e o dos seus moradores de rua. Contudo um acontecimento em comum aproxima esses dois universos tão opostos: crimes complicados, sem motivação explicita e, à primeira vista, insolucionáveis.

Sinopse do enredo

Livro do gênero policial, 8ª Confissão, narra a história de dois crimes aparentemente muito difíceis de serem solucionados, contudo por razões muito diferentes. O primeiro pela sua natureza peculiar e extremamente limpa e, o segundo pelo descaso policial e pela escassa informação acerca da identidade da própria vítima.

Após assistirem à apresentação de Don Giovanni, na ópera de São Francisco, o jovem casal de milionários, Isa e Ethan Bailey são assassinados em quanto dormiam alcoolizados em sua mansão, no que poderia ser chamado de o crime perfeito. Sem deixar nenhum rastro e nenhuma arma do crime, ou melhor, nenhuma evidência de qual seria a arma do crime, o assassino executa uma terrível vingança e deixa a polícia atordoada sem compreender se os cadáveres perfeitamente intactos e ainda quentes dos Baileys teriam sido produzidos por um homicídio, um mal súbito ou um suicídio coletivo.

Encarregada de investigar as mortes de Isa e Ethan, a tenente Lindsay Boxer também ainda se vê no impasse de também investigar com seu parceiro, Richard Conklin, e sua amiga jornalista, Cindy Thomas, outro crime aparentemente sem suspeito: a morte violenta de Bagman Jesus, um respeitado morador de rua que foi brutalmente executado. Ao conhecer mais profundamente a história daquele homem conhecido nas ruas por ajudar muitas pessoas em condições semelhantes à dele, Cindy percebe que tem um furo de reportagem e se empenha não só para levar o caso a público como levar o assassino a justiça. Contudo, suas investigações a levam a uma conexão com uma rede criminosa.

Dois crimes misteriosos e de difícil solução que se somam aos problemas amorosos do trio de investigadores, cuja amizade é abalada quando Lindsay nota que Conklin e Cindy estão cada vez mais próximos e o ciúme estremece a relação dos três.

Resenha

Oitavo livro da série Clube das Mulheres Contra o Crime, escrita pelo estadunidense James Patterson, dessa vez em parceria com a também estadunidense Maxine Paetro, 8ª Confissão é um livro pequeno (187 páginas), mas com muitos capítulos (110, mais um prólogo e um epílogo).

No meu ponto de vista, não se trata de um thriller e também não chega a ser nem o melhor nem o mais misterioso livro policial que já li. Não pela qualidade da narrativa, que achei ótima, com uma linguagem objetiva e simples e com personagens até um certo ponto interessantes, ainda que clichês. O que me desagrada no livro de Patterson e Paetro é a obviedade de quem era o assassino dos Baileys e de quais as razões dos crimes por ele cometido.

Os autores não fizeram questão de omitir a identidade do assassino (só seu nome) e deixaram muito claro suas motivações ao introduzi-lo na narrativa. Seguindo a linha contrária da maioria dos romances policiais, nos quais a identidade do assassino é guardada até os últimos capítulos, Patterson e Paetro preferiram apostar no mistério de como o assassino matava suas vítimas. Um método inusitado e bastante engenhoso que realmente confundiria qualquer investigador por mais experiente que ele fosse.

Contudo, a aposta dos autores, apesar de dar certo, tira muito da graça que um fã do gênero gosta de encontrar em um bom mistério policial. Livros policiais não costumam ter enredos muito criativos no que consistem a motivação, mas é requisito mínimo que os crimes sejam engenhosos e que a identidade do assassino seja completa e totalmente desconhecida.

É esse mistério que motiva o leitor a ir até as últimas páginas num trabalho de Sherlock Holmes, juntando peças, falas e pequenos fragmentos que revelem a mínima pista da identidade do assassino e de suas motivações. No meu ponto de vista essa é a graça de se ler esse tipo de literatura – como sempre, mera opinião particular de um leitor muito chato como eu.

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Patterson e Paetro nos tiram a oportunidade de investigar identidade e motivação do assassino do caso Bailey, mas, ao mesmo tempo, nos devolvem essa oportunidade (por compensação, acho) com o misterioso caso do morador de rua, Bagman Jesus, encontrado morto largado na rua, desfigurado e cheio de perfurações à bala. Um caso totalmente desconexo com o caso principal da narrativa e mesmo depois de ter terminado a leitura.

Acredito que o caso Bagman figura nesse livro apenas por três razões. A primeira para compensar o fato de o assassino principal da narrativa ser revelado ainda nos primeiros capítulos. Sem isso 8ª Confissão seria um livro completamente frio e monótono. O que evita o livro de ser monótono é o foco da narrativa mudar muito, indo da vida íntima dos personagens principais – e também de alguns personagens secundários – até o desenrolar de cada caso. Inclusive o desfecho do caso Bagman é surpreendente, inesperado mesmo, e é o que mais vale a pena na história. 

A segunda razão seria a extensão do romance. Como já disse, 8ª Confissão é um livro sucinto com linguagem simples e sem floreios. Além disso ele contém histórias secundárias fracas: os ciúmes de Lindsay em relação a Conklin e Cindy, e um terceiro caso (esse em julgamento), que é acompanhado por outro personagem da história, a promotora de justiça, Yuki Castellano. Sem o caso adicional de Bagman Jesus a narrativa seria ainda menor e dificilmente chegaria as cem páginas.

A terceira razão, e a mais importante, é que os dois casos tratados juntos se contrapõem, fazendo com que o livro dos dois estadunidenses seja uma crítica ao comum descaso das chefias policiais quanto a casos de homicídios de indigentes, drogados e mendicantes.

Pela posição social elevada do casal assassinado na sociedade são-francisquense, pela projeção midiática que o caso passa a ter e pelo parentesco próximo com o prefeito da cidade, o caso dos Baileys é tratado pela chefia policial local como prioridade total e com total mobilização de todos os recursos policiais disponíveis. Isso acaba por diminuir as possibilidades de Lindsay e Conklin de investigarem outros casos em aberto e considerados por seus chefes naquele momento como de menor importância. Além disso, casos de pessoas em situação de rua, como era o caso de Bagman Jesus, em geral eram arquivados por falta de dados até mesmo da identidade das vítimas e pela pouca relevância que era dada a essas pessoas. Esses fatores dificultam o trabalho dos dois policiais em investigarem o caso do morador de rua assassinado, e se não fossem os esforços de Cindy, esse acabaria como mais um caso sem solução arquivado pela polícia.

O que se vê através da narrativa do livro é que os autores quiseram fazer uma crítica social de como a desigualdade social tem sua expressão até mesmo no âmbito policial. Não é novidade, pelo menos não no Brasil, que, a depender da posição social da vítima, os casos dos mais ricos quase sempre são considerados como mais prioritários pelas forças policiais e são investigados mais minuciosamente do que no caso de vítimas mais pobres, envolvidas com drogas, ou indigentes, como é o caso de Bagman.

Para além destas questões, 8ª Confissão também faz uma descrição bastante realista sobre o problema das drogas nas grandes metrópoles dos Estados Unidos. Não só seu uso por parte dos membros da alta sociedade e celebridades, mas principalmente da realidade das ruas.

Através das suas investigações Cindy desvenda para o leitor a situação das jovens viciadas em meth (metanfetamina), que vivem nas ruas e chegam a se prostituir em troca de drogas. Também dá evidências das graves consequências do uso dessa substância psicotrópica e ainda mostra o cenário de horror e destruição provocado pela ação dos traficantes entre a população moradora das ruas. A sensação que tenho depois da leitura é que o livro faz uma descrição muito próxima de uma realidade familiar a muitos brasileiros: a Cracolândia paulista.

Quanto aos personagens? Bem, eles não são nem muito complexos, nem muito cativantes, como em geral acontece em narrativas mais focadas em um elemento específico da história.

Os personagens de 8ª Confissão possuem personalidades bem demarcadas, algo que se torna natural depois de oito narrativas envolvendo um mesmo grupo, mas em muitos aspectos são bastante clichês, como é o caso do inspetor Conklin, que cumpre o papel de policial bonitão e cheio de sex appeal, e também de Cindy, que é a típica repórter enxerida, espaçosa e sem limites.

Quanto a Lindsay? Bem, não estou acostumado a ver romances policiais com investigadores o sexo feminino e muito menos sendo líder da dupla, esse é o primeiro livro policial que eu leio que cria uma protagonista nesses moldes e digo que gostei da ideia.

Apontaria como algo muito positivo de 8ª Confissão o empoderamento que ele dá aos seus personagens femininos.

A edição lida é da Editora Arqueiro, do ano de 2013 e possui 187 páginas.

Sobre o autor

James Patterson é um dos autores mais vendidos no mundo inteiro. Trabalhou muitos anos na área de Publicidade e foi presidente da J. Walter Thompson por quase seis anos. Ganhou o Edgar Award de melhor romance policial com seu livro de estreia, The Thomas Berrynan Number, que só chegou a ser publicado em 1976, depois de ter sido recusado por mais de 20 editores. Após essa dificuldade o autor iniciou uma série de best-sellers. Vive atualmente em Palm Beach, Flórida, com a mulher e o filho.

Maxine Paetro é romancista e jornalista. Mora com o marido em Nova York.

domingo, 5 de novembro de 2017

[Cinema] 2017 é o ano de Agatha Christie nos cinemas


Por Eric Silva

2017 parece ser o ano de retorno das obras de Agatha Christie as telonas de todo o mundo. Somente neste ano dois dos mais importantes livros da autora foram adaptados para o cinema: Assassinato no Expresso do Oriente e A Casa Torta. Confira os detalhes.


Agatha Christie é internacionalmente conhecida como a Rainha do Crime por ter sido reconhecida como uma das mais importantes e mais lidas escritoras de romance policial da história. Por conta de sua fama e da popularidade de seus livros, contos e peças teatrais, muitas de suas obras foram adaptadas para o cinema e para séries de televisão em todo o mundo.

Publicado pela primeira vez em 1949, A Casa Torta é um dos poucos romances da escritora inglesa que nunca haviam sido adaptados, em contraposição ao Assassinato no Expresso do Oriente, que além de ser um dos livros mais vendidos da autora, já foi transformado em jogo de computador e adaptado para o rádio em 1992, para o cinema em 1974, e para a televisão, em 2001, pela CBS, em 2010, pelos ITV Studios e WGBH-TV e, em 2015, para a televisão japonesa, pela Fuji Television[1].

Em A Casa Torta (Crooked House), Agatha narra a história do assassinato do milionário octogenário Aristide Leonides que morava com a esposa, cinquenta anos mais jovem, além de toda a sua família. O título do livro se deve a peculiar arquitetura da casa dos Leonides, uma mansão localizada nos arredores de Londres e que tinha a inusitada característica de ser torta. É naquela mansão que o patriarca é assassinado por envenenamento, tornando todos os habitantes da casa em suspeitos, o que leva a neta mais velha da vítima, Sophia, e seu namorado Charles Hayward, filho do inspetor chefe da Scotland Yard, a investigarem o crime.

Agatha Christie considerava A Casa Torta, junto com Punição para a Inocência (1957), uma de suas melhores obras. A adaptação para o cinema, que ainda não tem data de lançamento no Brasil, foi dirigido pelo francês Gilles Paquet-Brenner que dirigiu, entre outros filmes, Lugares Escuros (2015) e A Chave de Sarah (2010). 

No elenco: Max Irons no papel de Charles Hayward, Stefanie Martini como sua namorada Sophia, Glenn Close como Lady Edith, Gillian Anderson estrelando como Magda West e Christina Hendricks como Brenda Leonides.

A película é uma produção dos estúdios Brilliant Films, com coprodução da Fred Films. Segundo o site da IMDb, entrou em cartaz em 31 de outubro desse ano na Itália, e está previsto, em Portugal, no dia 7 de dezembro. Tem duração de 1h e 55 minutos.

Por sua vez, Assassinato no Expresso do Oriente (Murder on the Orient Express) conta a história de um assassinato ocorrido durante uma viagem do Expresso Oriente, o mais famoso e luxuoso trem de passageiros do mundo, que liga Paris à Istambul (antiga Constantinopla). Pertencente ao subgênero do “locked room” (“mistério do quarto fechado”), a trama põe como suspeitos todos a bordo do famoso trem (milionários, aristocratas e empregados) e o mais célebre detetive de Agatha Christie, Hercule Poirot, como o responsável por descobrir a identidade do criminoso.

A nova adaptação cinematográfica é dirigida pelo britânico Kenneth Branagh, diretor de Cinderela (2015) e Thor (2011) e é estrelado Albert Finney no papel de Hercule Poirot, Lauren Bacall como Sra. Hubbard, Martin Balsam representando Bianchi e Ingrid Bergman interpretando o papel de Greta Ohlsson.

A película é uma produção dos estúdios Twentieth Century Fox, com coprodução da Genre Films, The Mark Gordon Company, Scott Free Productions e Latina Pictures, com colaboração do The Estate of Agatha Christie. 

Segundo o site da IMDb, entra em cartaz no Brasil em 23 de novembro desse ano e tem duração de 1h e 54 minutos.

Confira os trailers dos filmes.



Trailer de A Casa Torta (Crooked House)



1º Trailer de Assassinato no Expresso do Oriente (Murder on the Orient Express)



2º Trailer de Assassinato no Expresso do Oriente (Murder on the Orient Express)





[1] https://en.wikipedia.org/wiki/Murder_on_the_Orient_Express

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Lágrimas na Chuva – Rosa Montero - Resenha

Por Eric Silva


“Vi coisas nas quais vocês não acreditariam. Atacar naves em chamas para além de Órion. Vi Raios-C brilharem na escuridão perto da Porta de Tannhauser. Todos esses momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva. É hora de morrer.”
(Extraído do livro Lágrimas na Chuva de Rosa Montero)

Futurista, distópico, policial e também ficção científica Lágrimas na Chuva é um livro completo e incrível escrito pela espanhola Roa Montero e o quarto livro da nossa campanha do #AnoDaEspanha. Uma leitura interessante em um universo primorosamente construído pela sua autora.

Sinopse

O ano é 2109 e o mundo é bastante diferente do que se conhece hoje. O ser humano já não é mais a única criatura cognoscitiva a habitar a Terra e divide seu espaço com alienígenas e seres artificiais. Por sua vez a Terra do século XXII é um mundo marcado por conflitos, pela desigualdade e pela tensão entre espécies. Neste cenário a detetive particular Bruna Husky, uma androide, ou melhor, uma replicante como são chamados em sua época os androides orgânicos criados em laboratório, se vê implicada em um caso que ameaça a frágil paz entre humanos e androides quando um surto de assassinatos cometidos por replicantes deixa tensa a cidade de Madri dos Estados Unidos da Terra. Ao mesmo tempo os arquivos que contém a história mundial estão sendo modificados para incitar o ódio aos replicantes.

Contratada pelo Movimento Radical Replicante para descobrir o que está por trás da onda de assassinatos dos androides e da crise que aos poucos desestabiliza o governo terrícola, Bruna embarca em uma investigação que pode modificar profundamente sua vida e pôr em jogo a paz entre as espécies.

Resenha

Uma distopia de ficção científica e também um romance policial, Lágrimas na Chuva, da escritora espanhola Rosa Montero Gayo, reúne alguns dos meus gêneros prediletos em um único livro. A obra da autora é sem dúvida uma explosão de criatividade. Rosa compõem não só uma narrativa interessante como todo um mundo futurista em ricos detalhes e que vão desde a história de sua gênese aos problemas sociais ali existentes.

A Terra do século XXII é habitada por humanos, alienígenas imigrantes de seus planetas natais e também por replicantes, androides orgânicos criados através de células troncos, maturados em laboratório e quase idênticos aos seres humanos tanto na aparência quanto nas capacidades cognoscitivas. Porém este caldeirão de espécies já havia sido décadas antes o cenário de uma terrível guerra entre humanos e androides, quando estes últimos lutaram para terem seus direitos reconhecidos. Mesmo depois da conquista, a duras penas, de uma convivência pacífica entre as espécies através do reconhecimento dos direitos replicantes, muitos grupos supremacistas humanos ainda alimentavam pelos reps – como também são chamados os replicantes – um forte sentimento racista.

Mas neste universo futurista de Lágrimas na Chuva cabe ainda uma série de outras questões que vão além das tensões interespecíficas. Em sua narrativa Montero cria uma sociedade de poucos privilegiados, de desigualdade e discriminação, marcada por conflitos constantes e problemas ambientais gravíssimos. Uma “humanidade” em que o oxigênio é comercializado e para aqueles que não podem pagar pelo ar que respiram é reservada a segregação socioespacial em áreas onde a elevada contaminação do ar reduz a expectativa de vida de jovens e adultos.

A personagem de Rosa Montero, Bruna Husky, desenhado por Alejandro Valdrighi para a versão em quadrinhos de "Lágrimas na Chuva". Fonte: El País.
O avanço tecnológico permitiu as viagens intergalácticas e o desenvolvimento de vida inteligente artificial e orgânica como os replicantes. Mas as viagens intermundiais podem ser bastante perigosas e os organismos criados em laboratório além de terem uma vida extremamente curta (10 anos) morrem de uma doença brutal para a qual não existe cura ou possibilidade de prolongamento da vida: o Tumor Total Tecno.

No plano político, a Terra vive com o cenário de terrorismo e fragilidade do sistema democrático. As nações terrícolas se unem para formar um novo Estado, os Estados Unidos da Terra e outras nações se formam em grandes estruturas artificiais que orbitam o planeta. Por sua vez, toda a história da “humanidade” é catalogada e armazenada por uma única organização, o Arquivo Central dos Estados Unidos da Terra.

Rosa Montero
Trata-se de um mundo que certamente eu não gostaria de viver, mas que Rosa Montero consegue conceber com uma criatividade espantosa e, para descrevê-lo em seus detalhes, a autora não só usa inteligentemente os personagens da trama como também a transcrição de alguns dos documentos do Arquivo Central. Destas formas ficamos sabendo de forma dosada e progressiva toda a história de como aquela nova sociedade se formou, a origem de seus problemas e os avanços tecnológicos por ela alcançados.

Sobre a personagem principal posso dizer que é uma figura interessante e nada sintética. Vou explicar.

Mesmo sendo androides os replicantes são tão humanos quanto nós, são inclusive feitos de células orgânicas. Pouco os diferenciam de nós, e nos assemelhamos pelas capacidades emotivas e intelectuais, o que nos difere é uma ou outra característica física, a origem de nascimento e o fato de que estes não possuem parentes ou infância. Foram criados para tarefas pesadas e de combate mas se igualaram a nós naquilo que nos faz humanos. Com Bruna não é diferente. Ela é uma rep. forte física e emocionalmente falando, mas também consegue ser sensível. Tem suas paranoias e suas dores. É impulsiva e fala o que lhe vem à mente sem medir muito bem as suas palavras, ainda que depois ela se arrependa. Um temperamento difícil enfim. E além disso amarga a expectativa da morte certa e datada, que ela conta regressivamente, a todo o momento, em anos, meses e dias. É certamente uma pessoa oprimida pela sua condição de replicante à espera da chegada de seu TTT, a morte replicante.

Capa da edição espanhola de El Peso del Corazón
Em uma entrevista sobre o livro El Peso del Corazón, que dará continuidade a Lágrimas na Chuva – ainda sem publicação no Brasil – a autora afirma que Bruna é a personagem com quem mais se identifica por se parecer muito com ela. Fico me perguntando que traços as aproximam. Me pergunto também que tipo de pessoa seria Rosa Monteiro e isso me leva a pensar que deveríamos saber mais sobre os autores que lemos, não é mesmo?

Com certeza Lágrimas na Chuva é um livro promissor, mas que deixou um pouco a desejar com seu desfecho um tanto em aberto. O segredo é revelado, mas a forma como tudo se dá quebra um pouco do ritmo da história. A explicação é pouco convincente até mesmo para os personagens e a sensação é que a trama do livro é só a ponta do iceberg, como se a autora reservasse algo maior para outro livro. Por isso minha esperança está em El Peso del Corazón que fora classificado pela Porto Editora como o livro mais realista da autora.

Por fim, gostaria de comentar que a primeira coisa que me deixou curioso no momento em que esbarrei nesse livro durante a montagem do itinerário da campanha do #AnoDaEspanha foi o motivo de ser seu título tão singular: Lágrimas na Chuva do original em espanhol Lágrimas en la Lluvia. Esse título possui uma estética interessante que parece quase filosófico e de imediato evoca na nossa imaginação uma imagem tão bela quanto inquietante de alguém que chora embaixo da chuva. Acho que foi isso que me fez escolher este livro em lugar de outras obras de Rosa como A Louca da Casa ou Instruções para Salvar o Mundo. Foi de certo a imagem provocada pelo título. Pensei inclusive em contar aqui o motivo do título, mas não vou. Deixei apenas uma pequena pista no começo da resenha.

A edição lida é da Editora Nova Fronteira, do ano de 2014 com 368 páginas e tradução de Celina Portocarrero.

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quarta-feira, 7 de setembro de 2016

A Tábua de Flandres - Arturo Pérez-Reverte - Resenha

Por Eric Silva

“Porque o jogo do xadrez é, com efeito, um sucedâneo da guerra; mas é também mais qualquer coisa... Parricídio. (...) Trata-se de dar cheque ao rei, compreendem?... Matar o pai. Eu diria mesmo que, muito mais do que com a arte da guerra, o xadrez tem muito a ver com a arte do assassínio”.
(A Tábua de Flandres - Arturo Pérez-Reverte)

O xadrez não é só um dos jogos mais antigos do mundo como é também uma das mais complexas representações de um campo de guerra, onde dois poderosos exércitos se enfrentam. O objetivo é furar as linhas de defesa e matar o rei inimigo, mas apenas a melhor estratégia conduzirá o exército à vitória. Pensando desse modo, o xadrez é também uma representação da realidade das numerosas batalhas travadas na antiguidade e também na era moderna. Mas e quando o campo de batalha é novamente transposto para a realidade e você é a peça de uma partida mortal, movido pelas mão invisíveis de um adversário que age pelas sombras? Arte, xadrez e morte, em A Tábua de Flandres, o autor espanhol Arturo Pérez-Reverte compõe uma intrincada trama que transcende os séculos, envolta em mistérios e que inicia uma macabra partida onde o preço da derrota pode ser a morte.

Sinopse

Julia é uma jovem restauradora de obras de arte e seu último trabalho é o restauro de uma valiosa pintura do século XV e que está prevista de ir a leilão. A obra, pintada sobre uma tábua de carvalho pelo artista flamenco Pieter Van Huys, representa uma partida de xadrez entre dois importantes cavalheiros da corte ostenburguesa, tendo ao fundo uma dama vestida em negro que lê um livro posado sobre o colo. Mas o que até então seria uma mera representação – bastante realista – de uma cena doméstica, se revelaria a guardiã de um mistério centenário quando a jovem descobre oculta sob a pintura uma inquietante inscrição: Quis Negavit Equitem (Quem matou o cavaleiro?).

Pintura que ilustra a capa do livro na edição da Editora Alfaguara .

Após uma investigação histórica acerca dos personagens retratados na tela – fidalgos do ducado de Ostenburgo –, Julia descobre um suposto envolvimento dos três em um intrincado jogo político que envolvia os interesses das cortes francesa e borgonhesa pelo ducado e também um possível triangulo amoroso que teria acabado em tragédia, quando um deles, Roger de Arras, fora brutalmente assassinado, o que mudaria o curso da história da Europa. Tudo indicava que a pintura, ou mais precisamente a partida nela representada, era a chave para a resolução do crime.

Decidida a desvendar o enigma deixado pelo artista flamenco, Julia, com ajuda de seu amigo e confidente, César, e de um excêntrico e enigmático xadrezista, vê sua vida mudar radicalmente. E o que antes parecia se tratar apenas da investigação de um assassinato ocorrido cinco séculos antes, se torna um jogo mortal nas mãos de um misterioso e inteligente jogador que age nas sombras. É aí, sob as leis regias do enxadrismo e
entremeado a todos os ocorridos, que irá emergir uma trama de jogos de interesses que tem como plano de fundo o competitivo e muitas vezes obscuro mundo das artes.

Resenha

O Rei Preto.
Imagem: Wikimedia Commons 
Posso me considerar um xadrezista amador, de pouco talento, mas apaixonado por uma boa partida. O xadrez é um jogo que me intriga, que me desafia, um verdadeiro exercício – como muito poucos – para a inteligência e a estratégia. Não é à toa que fora jogado por alguns dos mais excepcionais estrategistas, a exemplo de Napoleão. Mas uma coisa eu tenho que concordar com o enxadrista Muñoz de A Tábua de Flandres, o xadrez é um jogo de morte, de assassínio, em que todas as peças são movidas com dois propósitos básicos: proteger o rei do ataque inimigo e matar o regente adversário. É uma dualidade, ou melhor uma antítese, em que se protege e também se ataca. Acho que pensando nisso que o espanhol Arturo Pérez-Reverte idealizou e compões a narrativa deste livro, porque estas ideias estão bem presentes na sua trama.

Para quem não gosta ou não sabe jogar xadrez A Tábua de Flandres pode ser, em longas passagens, um enredo desestimulante com todas as suas jogadas, regras e teorias de xadrez que vão pouco a pouco reconstituindo a partida retratada na pintura de Van Huys.

Eu mesmo tive dificuldades de imaginar as partidas e lances, principalmente porque em alguns momentos se é usado na trama o sistema de transcrição de partida, conhecida como notação algébrica ou notação francesa, em que os lances das partidas são descritos mediante um conjunto de letras, números e símbolos matemáticos. Não que o sistema seja complicado de compreender quando se dedica a estudá-lo e gravar suas regras e simbologias, mas para quem não o tenha feito é impossível compreendê-lo como um todo apenas pelo uso da lógica. Além disso, as partidas descritas verbalmente pelos jogadores são mais compreensíveis quando se tem a mão um tabuleiro, principalmente quando Muñoz faz a reconstituição reversa da partida retratada na pintura para saber quais foram os lances anteriores.

Por isso digo que em muitas passagens o livro pode ser bastante monótono. Porém, o autor soube explorar terrivelmente bem o campo da dúvida, nos expondo questões aparentemente insolúveis quando entra em cena um novo assassino que passa a jogar, das sombras, com as vidas de Julia e de seus aliados. Um novo jogador cujos crimes, de alguma forma, estavam ligados ao quadro. Quem seria esta pessoa? Qual a sua relação com o quadro e com o enigma que Julia tentava decifrar? Quais os seus objetivos? Que trama obscura se desenvolvia pelos bastidores de tudo aquilo?

Por muito tempo Arturo consegue deixar estas questões em aberto mantendo no ar o suspense de um segundo enigma, que para o leitor é bastante difícil de sugerir uma resolução, quer seja para a identidade do assassino que entra no jogo, mas principalmente, para os seus objetivos. Foram estas dúvidas, este novo enigma proposto pela narrativa, que me fizeram levar o livro até a última página, e o desfecho, para mim, foi inesperado e surpreendente.

Contudo a resenha não se encerra aqui, há outro ponto digno de nota. Arturo conseguiu em sua trama desenvolver personagens extremamente complexos e difíceis de analisar e descrever, a exemplo de César, um antiquário quinquagenário, homossexual e de costumes que misturavam o seu gosto e admiração pelos povos e clássicos (gregos e romanos) com a modernidade de sua época. Também Muñoz, um jogador de xadrez mal-ajambrado, um tanto autista, que não via no mundo nada que lhe interessasse além do xadrez, ou que não pudesse ser explicado pelo jogo e por padrões matemáticos. Temo que a mais simples das personagens seja a própria Julia, um misto de mulher e menina, um tanto impressionável, mas também ambiciosa.
O Tabuleiro.
Imagem: Wikimedia Commons.

O livro foi adaptado para o cinema em 1994, em filme dirigido por Jim McBride. Contudo não consegui a película para compara-lo ao livro. Uma pena.

Para concluir, afirmo que gostei do livro, mas mais dos capítulos que se encaminhavam para o desfecho. Se não gostasse de xadrez não teria suportado os diálogos e explicações dos capítulos iniciais e de desenvolvimento e abandonaria o livro sem chegar ao mais intrigante da narrativa. Foram as dúvidas implantadas pelo autor ao longo da história que me deram motivação de ir até o fim e não me arrependi, porque não fui capaz de deduzir o assassino e suas intensões até que o livro me revelasse tudo. Contudo, por outro lado fiquei triste porque o livro não explora os seus cenários, e apesar de se passar na cidade de Madri não nos permitiu, como em A Sombra do Vento, viver a cidade junto com os seus personagens. O farei de outras formas.

A edição lida é portuguesa – mas mais fácil de ler do que a versão portuguesa de A Sombra do Vento –, de 2009, realizada pela editora ASA. Digital. A versão impressa contém 336 páginas.

Obrigado pela atenção.


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