quarta-feira, 31 de maio de 2017

Deuses Esquecidos – Eduardo Kasse – Resenha

Por Eric Silva

Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.
Diga-nos o que achou da resenha nos comentários.

Sexto livro da campanha do #AnoDoBrasil, Deuses Esquecidos dá continuidade a série Tempos de Sangue, de autoria do escritor brasileiro, Eduardo Kasse. Uma história de vampiros que se passa em plena era de domínio da igreja católica na Europa medieval. Independente do primeiro livro da série Deuses Esquecidos narra as aventuras de um camponês italiano que se torna vampiro e tem sua vida virada do avesso. Dividido entre sua fé e a nova condição que lhe é imposta, Alessio segue em sua jornada por entender quem ele é agora e qual o seu lugar no plano divino. Deuses Esquecidos é a continuação de uma série que esbanja crítica e erotismo, mesclando o cotidiano, a violência e o fanatismo de uma era com o que há de melhor na literatura clássica sobre vampiros, sem perder a originalidade, é claro.

Confira a resenha do sexto livro da campanha anual de literatura e que nesse ano homenageia a literatura do Brasil.

Sinopse

Alessio é um camponês humilde e até um pouco simplório, que do mundo só conhecia o que a fé e sua vida pacata de lavrador permitiam. Desde muito novo começou a trabalhar nos parreirais da abadia de Nicola, e com uma certa idade casou-se e teve um único filho, Lino.

Muito religioso, vivia de forma simples, mas se julgava feliz pelas dádivas que Deus lhe concedia. Apesar disso, tudo muda quando Alessio é vítima do ataque de um homem misterioso e se transforma em um vampiro, uma raça cuja existência ele ignorava.  Atormentado e acreditando sofrer de algum mal terrível, Alessio abandona tudo e parte em busca de respostas para sua nova condição e para as sombras e dúvidas que esta lança sobre seu coração. Nesta busca, o camponês passa a vagar pela Itália medieval com destino a Roma e, na companhia de Lúcio, um monge glutão que lhe dá apoio em sua jornada, descobre as vantagens e os dissabores de ser um imortal.

Resenha                                                                                              

No ano passado li O Andarilho das Sombras, primeiro livro da série Tempos de Sangue, de autoria do brasileiro Eduardo Kasse, e que narra a história e as aventuras do vampiro Harold Stonecross antes e depois de seu renascimento. Um livro fantástico que me incentivou a procurar outras obras dessa nova geração de escritores nacionais que se dedicam ao gênero fantasia.

De lá para cá, venho tentando dar continuidade a série que foi concluída ano passado com a publicação de seu quinto volume, Ruínas na Alvorada. Entretanto, minha agenda em 2016 esteve tão cheia que o projeto de ler Deuses Esquecidos ficou para 2017, o #AnoDoBrasil. De certa forma esse atraso foi bom, porque depois de tanto tempo e com a possibilidade de aproveitar o tema da nossa campanha literária anual, nada mais justo que, pelo menos, um livro da série fizesse parte do nosso itinerário pela literatura brasileira.

Ao contrário do que se pode pensar, o segundo volume de Tempos de Sangue não dá continuidade a história do protagonista do livro anterior, Harold. Inclusive, Stonecross é apenas citado no livro, já no fim da narrativa de Deuses Esquecidos. Em lugar de ser uma continuidade, Kasse preferiu apresentar aos seus leitores um personagem novo, Alessio, que, acredito eu, ainda terá uma participação importante no transcorrer da série.

Ainda que Deuses Esquecidos preserve alguns elementos que são marcantes na narrativa de O Andarilho das Sombras, como a forte crítica religiosa e o erotismo da narração, por outro lado, as duas obras se distinguem em muitos outros aspectos, o que torna Deuses Esquecidos um livro um tanto distinto do primeiro.

A primeira mudança está no tempo da narrativa que não recorre a flashbacks e centra-se apenas no presente de seus personagens. A segunda é a alternância de focos narrativos onde o autor recorre a primeira pessoa para dar voz aos pensamentos e sentimentos de Alessio, e lança mão de um narrador onisciente para relatar os fatos que se passam com os demais personagens da narrativa.

Contudo a mudança mais importante está na proposta para o protagonista. Em O Andarilho das Sombras somos apresentados a um vampiro experiente, sarcástico e soberbo cuja existência já atravessara muitos séculos. Em contrapartida, Alessio, além de temeroso e de fé arraigada, é um mero iniciante. O mais interessante dessa mudança está na oportunidade de conhecermos os conflitos vividos e as descobertas realizadas pelo recém-criado, vemos como ele conserva ainda muito de sua humanidade e como esta vai dando lugar a uma outra forma de ver o mundo. É interessante também ver como Alessio busca adequar a sua nova condição às suas crenças, buscando lacunas nas interpretações da fé cristã para sentir-se parte do plano divino, quando, porém, suas ações parecem se distanciar disso e sua própria fé por vezes se demonstra vacilante.

Dentre os personagens que figuram os mais importantes da narrativa, os que mais me chamaram a atenção foram a vampira Tita e o monge Ugo, o carnefice[1]. Eles dois ocupam os lugares, respectivamente, do personagem mais curioso e do mais sádico.

Nascida ainda no período de domínio do Império Romano, Tita é uma garota vampira poderosa e travessa, um personagem difícil de caracterizar de tão especial e singular. Logo de início, Tita, ou raposa, como gosta de ser chamada, nos faz lembrar de uma ninfa, uma entidade do campo vivendo isolada na beirada de penhascos, mas logo o seu jeito travesso deixa tudo mais complexo.

A personagem tem um jeito de criança indócil, que se mescla com lampejos de sabedoria madura, um jeito ora relaxado e sem temor ou pudor que por vezes se torna enigmático. Um personagem que se coaduna[2] com duas realidades nem sempre harmônicas: o universo campesino europeu e aquele criado pelas histórias mais comuns do vampirismo.


"– Desculpe a minha falta de educação – disse estendendo a mão para me cumprimentar. – É que faz muito tempo que não recebo visitas. Sou Tita Domitius Lentiginius, sua criada. Mas pode me chamar de Raposa.
– Sou Alessio di Ettore – falei hesitante. – E pode me chamar de... Alessio – corei. – Não queria ter invadido a sua casa. É que...
– Eu sei, eu sei – respondeu com um sorriso. – Quando o Sol nasce é um Deus nos acuda, não é? – piscou.
Olhei para ela com as sobrancelhas franzidas.
– Não precisa desconfiar, meu amigo, somos da mesma laia.
– Não estou entendendo nada.
– Somos o mesmo tipo de criatura. Nem homem, ou mulher. Nem demônio, nem anjo... – disse com o olhar divertido. – Somos caçadores da noite.
– Eu não sei o que sou...
– Hum... Então as minhas esperanças em descobrir algo foram por água abaixo – gargalhou.
Até que a menina é bonita. Pensei.
– Eu estou tão confuso...
– Com certeza é por causa da sede – foi até o corredor. – Venha, vamos beber algo.
Segui-a ainda ressabiado.
Deveria ter corrido, sumido penhasco abaixo. Mas, sinceramente, não sentia medo. Não via qualquer ameaça naquela garota franzina e de pele tão clara que parecia ser feita de cal salpicado com barro vermelho.
Saímos da gruta e o ar fresco da noite me fez bem. Uma lufada úmida e revigorante. Estiquei a coluna e escalei a parede de pedra atrás da garota. Ela subia com uma agilidade impressionante, tal qual um gato escala um tronco de uma árvore.
Às vezes, ela parecia flutuar.
– Graciosa ela – sorri."


Por sua vez, Ugo é um monge que trabalha como uma espécie de inquisidor e que tem por missão caçar Alessio mesmo que deixe um rastro de mortes e crimes pelo caminho. Um ex-combatente que encontrou na histeria religiosa o canal perfeito para dar vazão a sua brutalidade. O típico sínico e sádico que usa a Igreja para justificar sua selvajaria e a autoflagelação como punição para crimes imperdoáveis e pecados que jamais um membro do clero deveria fazer.

Deuses Esquecidos possui vários outros personagens que figuram diversas facetas da realidade medieval e, dentre eles, os órfãos da floresta são para mim os mais nostálgicos, porque me fizeram recordar as travessuras e aventuras de Harold e Edred quando ainda eram crianças. Dois espíritos verdadeiramente livres.

A edição está perfeita. Acho inclusive que a arte dos livros da série são dos mais bonitos da Editora Draco. Com arte de Ericksama, as capas dos livros de Kasse rivalizam apenas com a arte da série de Império de Diamante, de J. M. Beraldo, e do Baronato de Shoah, de José Roberto Vieira.

Por fim, só tenho uma crítica ao livro. Não sei nem se estou certo em dizer isso, porque é só uma impressão da minha experiência com as narrativas do primeiro e do segundo livro. Mas, comparando com O Andarilho das Sombras senti que a narrativa de Deuses Esquecidos foi mais apressada.

A história de Harold foi construída de forma bem mais detalhada e com vários acontecimentos que descreveram seu passado e seu presente, delineando cada faceta do personagem e muitas de suas andanças. Um livro incrível, apaixonante mesmo. Porém, em Deuses Esquecidos faltou um pouco mais de profundidade. Ainda que seja uma boa história me deixou a impressão de que poderia ter mais da vida de Alessio antes do renascimento (não que seu passado não tenha sido relatado). Senti falta também de uma abordagem maior em relação a vida e o passado de Lúcio e dos monges da abadia de Nicola.

O autor
Sou muito curioso sobre o passado dos personagens dos livros que leio e, por isso, não me incomodo com histórias longas e detalhadas, de muitos capítulos. Por exemplo, meu livro predileto é Os Miseráveis, mas algo que me irrita na narrativa de Victor Hugo é o pouco que sabemos da vida de Jean Valjean antes dele ser preso nas galés. Em compensação, acompanhamos o restante de sua vida.

Kasse alimentou essa minha curiosidade com seu primeiro livro. Por isso senti falta de conhecer mais de Alessio, de Lúcio, de Nicola, histórias e aventuras do passado. Minha identificação com Harold veio justamente de conhecê-lo intimamente. Acredito que quando conhecemos o passado de alguém nos tornamos mais próximos dele.

Alessio é uma proposta de personagem interessante por partir da perspectiva de um vampiro recém-criado que ainda carrega consigo as crenças de sua outra vida. Isso o tornou mais humano, mas eu gostaria de tê-lo acompanhado por mais tempo, antes e depois do renascimento.

Entendo, porém, que o foco era justamente o contrário. O foco está na transição sofrida pelo personagem, no começo da vida como imortal, nas descobertas e no mundo novo que se abre com todo os seus dilemas. Ainda assim a sensação de “pressa” no desenvolvimento dos personagens e da própria narrativa não se desfez, ainda mais quando penso no desenvolvimento de Lino e dos órfãos da floresta. Na minha modesta opinião, Harold foi gestado com mais calma e riqueza que Alessio e a maioria do séquito de personagens de Deuses Esquecidos. Contudo é só a impressão que tive.

De toda forma, estou ansioso por Guerras Eternas que, segundo a sinopse, será o encontro dos principais filhos da noite da série. Será o reencontro com Harold e tudo indica que a narrativa será épica!

A edição lida é da Editora Draco, do ano de 2013 e possui 214 páginas. Abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Google Books.

Quer saber mais sobre o autor? Confira nossa postagem sobre os autores que estamos lendo na campanha (Clique Aqui).

Prévia do Google Books






[1] Italiano, originário do tatim carnifex: carrasco, torturador, perseguidor, assassino brutal. Carrasco (Wiktionary, 2017).
[2] Pôr(-se) em harmonia, conformar(-se), combinar(-se) (Houaiss, 2001).

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Retratos Ingleses – Charles Dickens – Resenha

Por Eric Silva

Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.

O que é um retrato? Uma imagem estática que imprime um momento que em seguida já pode ser considerado passado? Ou vai além, através da narrativa e descrição de uma realidade, de uma época? Retratos de uma era, da vida na distante Inglaterra Vitoriana, Retratos Ingleses é uma pequena coleção de contos do romancista inglês Charles Dickens, nos quais o escritor imprimiu um pouco do cotidiano e do comportamento de seus contemporâneos, falando desde situações banais do cotidiano, até dramas familiares e denúncia social.

Resenha

Há muito tempo que venho tentando terminar a leitura deste livro e, enfim, fazer sua resenha, mas, a despeito de seu tamanho muito reduzido, nunca tinha chegado a ler até o fim todos os contos que compõe esta coletânea. Sempre deixava o projeto, retomava, abandonava de novo. Enfim, esse é o momento.

Retratos Ingleses é uma pequena coletânea de contos do mais famoso romancista da Inglaterra Vitoriana, Charles Dickens. A edição que eu li é bem antiga, datando de duas décadas atrás, e hoje só pode ser encontrada em livrarias especializadas em livros usados. Nela foram reunidos seis contos retirados de outra edição ainda mais antiga da Editora Ediouro, Os Carrilhões e Outros Contos, publicada em 1988.

Para o pequeno livro de bolso foram selecionados contos que se ligam apenas por retratar pequenos fatos do cotidiano susceptíveis a qualquer inglês da época, a exemplo das ambições de Miss Amélia Martin, do conto A Modista Equivocada. Neste conto é contada a história de uma simples chapeleira-modista, que tinha como principal clientela as serviçais das cercanias de Euston Square, mas que, depois de uma festa de casamento, passa a aspirar por uma carreira de cantora.

Edição original de onde foram extraídos
os seis contos de Retratos Ingleses.
Após A Modista Equivocada outros contos de temas bem corriqueiros se seguem, como em Mr. Minns e Seu Primo, onde é retratada uma típica relação entre parentes inconvenientes – e interesseiros – e aqueles que, por cortesia e educação, o suportam; e em Sentimento, no qual uma família, buscando preservar o seu bom nome, evitando um casamento indesejado, transferem para uma escola interna a filha moça apaixonada por um rapaz de classe social inferior.

Esses três primeiros contos, sem dúvida, justificam o título do livro ao apresentar situações corriqueiras, até pouco relevantes, mas que, não só em sua narrativa e descrição de personagens e ambientes, mas em seu todo retratam alguns dos mais típicos hábitos e estilos de vida da Inglaterra Vitoriana. Ademais, é curioso notar que os pequenos acontecimentos ali narrados confluem, deveras, para surtir impacto nas vidas destes mesmos personagens.

Todavia, se os três primeiros contos pintam breves retratos do cotidiano de pessoas da pequena e grande burguesia, os três contos que encerram a obra tomam um corpus diferenciado com situações atípicas que vieram perturbar ou transformar os estilos de vida de seus personagens. São contos que de certo modo também traçam retratos, um deles ainda numa esfera do cotidiano da pequena burguesia, como é o caso de A História do Viajante, mas que se diferenciam dos primeiros por um tom mais fantástico e sobrenatural como no conto supracitado, ou mais macabro como em O Véu Negro. Neste último temos a história de um médico que recebe, em uma noite chuvosa, a visita de uma misteriosa mulher de véu negro que, sem revelar seu rosto encoberto, requisita seus serviços para um paciente que já julgava perdido, mas que ela envolve em uma aura de mistério que nos faz duvidar da sanidade mental da própria mulher.

Os dois contos supramencionado são interessantes e contrastam com os primeiros, não tanto por seus temas – ainda que em O Véu Negro tenhamos uma leve conotação de crítica social em seu desfecho –, mas, principalmente, pela atmosfera criada. Por isso, para mim, esta é a parte mais interessante da obra.

Não obstante, neste livro de pequenas histórias, ainda temos espaço para uma pequena amostra da conhecida crítica político-social do autor que se destacou por ter contribuído enormemente para a introdução da crítica social na literatura de ficção inglesa[1].

No alegórico enredo de A História de Ninguém, Dickens parece tecer uma crítica profunda e entremeada de simbolismos e poética. A meu ver, trata-se de uma denúncia às condições de penúria e esquecimento impostas aos trabalhadores por sua elite política que, em vez de atender aos interesses e reais necessidades de seu povo – e saúde e educação são bastante enfatizados –, preocupa-se com as infrutíferas e acaloradas discussões e retóricas parlamentares, que de nada servem para aplacar o sofrimento do povo quando estas não resultam em decisão alguma.

O autor
Dickens faz sua crítica de forma bastante figurada, ainda que inteligível, através da descrição de um personagem incógnito, em um lugar recôndito, mas que entrega a seus vizinhos barulhentos, a família Bigwig, as decisões acerca de questões que ele mesmo não podia resolver em decorrência do fatigante trabalho que sustentava a sua família.

Eram questões de importante natureza a exemplo da educação de seus filhos, que deveriam ser decididas pela peculiar família, de costumes estranhos, que, a despeito de suas longuíssimas discussões, jamais chegavam a uma decisão concreta que levasse a uma ação real. Enquanto isso, a família do pobre trabalhador, totalmente ao sabor daquelas decisões, prosseguia em um rápido processo de decadência. Diante desse poder de decisão que os Bigwigs exerciam sobre a vida do trabalhador sem nome, não é de surpreender que nesta alegoria Dickens tenha escolhido para a família o nome de Bigwig, que no inglês faz referência a uma pessoa importante, um figurão, “mandachuva”, ou, na minha interpretação, a classe dirigente na Inglaterra de sua época.

De toda forma, nestes contos encontramos diferentes vertentes exploradas pelo escritor que ficou mundialmente conhecido por ter escrito David Copperfield e Oliver Twist. Encontramos desde temas mais despreocupados e corriqueiros até histórias que parecem se preocupar com o contexto social de sua época.

Retratos Ingleses não é um livro do qual se tenha muita coisa para falar em decorrência de seu tamanho, ainda mais, este é meu primeiro contato com a obra do autor. Mesmo que já tenha assistido ao musical de Oliver Twist, isso não valeria pela obra escrita. Por isso esta minha resenha, atipicamente, está sendo breve.

A edição lida é da Editora Ediouro, do ano de 1996 e possui 112 páginas.





[1]https://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Dickens

segunda-feira, 15 de maio de 2017

[#MeusLivros] A Vida Íntima de Laura - Clarice Lispector - Resenha

Por Eric Silva


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No mês passado. o mundo todo comemorou o dia Internacional do Livro e, no dia 18, no Brasil, se comemorou o dia Nacional do Livro Infantil. Antes disso, no dia 02 do mesmo mês comemoramos o dia Internacional do Livro Infantil, com certeza um período delicioso para rememorar os livros que me fizeram leitor, que me iniciaram nos misteriosos caminhos da literatura. Por isso retomei, no mês passado, a campanha dos Livros da MinhaInfância e Adolescência (#MeusLivros). Na última resenha da campanha falei um pouco dos primeiros livros que li na vida e o primeiro que resenhei foi Rio Tem Coração? onde contei como os meus primeiros livros me foram dados. Hoje, falarei um pouco sobre outro livro dessa época: A Vida Íntima de Laura, de Clarice Lispector, uma história muito simples e corriqueira, mas com um grau de intimidade entre autor e leitor que dificilmente se vê na literatura.

Sinopse
Uma das obras infantis mais conhecidas de Clarice Lispector, A vida íntima de Laura conta de forma intimista e leve a história e as aventuras de Laura, uma galinha como tantas outras e sem nada que fosse excepcional mas que ganha vida e importância através do talento da grande autora.

Eu e A Vida Íntima de Laura
Não tenho muito o que falar de mim e este livro porque muito já falei na resenha de Rio Tem Coração? Mas, para mim, hoje é meio difícil de acreditar que entre os primeiros livros que li na vida estaria um dos mais importantes nomes da literatura brasileira, como é o caso de Clarice Lispector.

Lembro que quando lia A Vida Íntima de Laura não imaginava quem era sua autora ou sua importância. Na verdade, isso pouco importava, porque quando somos crianças o que nos importa não são a beleza das palavras ou a fama do escritor, mas principalmente a mágica da história. O enredo e seus personagens são o que de fato importam.

Lembro ainda que eu achava engraçado alguém ter escrito uma história sobre um animal que quase ninguém que mora na cidade dá importância, a menos que ele esteja na panela. Mas parecia que, para o narrador, elas eram criaturas muito interessantes e isso contagia o leitor, porque a medida com que ia falando conosco de como Laura era tão feia e burrinha, com “seus pensamentozinhos e sentimentozinhos”, a própria galinha ia ganhando importância e a nossa estima, evidenciando ser alguém bem maior e mais esperto do que o narrador de fato dizia, justamente porque ela não precisava ser excepcional ou perfeita para ser importante.

Hoje, dá até um pouco de pena comer um animalzinho tão singelo e pacato, ainda mais quando abro as páginas da minha edição toda pintada e riscada do livro de Clarice, mas a verdade é que amo quase todo prato que é feito com frango e a gula fala mais alto do que a consciência. “É que pessoas são uma gente meio esquisitona” e não tenho mesmo vocação para ser vegetariano.

Resenha
“Vou logo explicando o que quer dizer “Vida íntima”. É assim vida íntima quer dizer que a gente não deve contar a todo mundo o que se passa na casa da gente. São coisas que não se dizem a qualquer pessoa.Pois vou contar a vida íntima de Laura.  Agora adivinhe quem e Laura.Dou-lhe um beijo na testa se você adivinhar. E duvido que você acerte! Dê três palpites.Viu como é difícil?”
É dessa forma divertida e bem próxima do leitor mirim que Clarice inicia o seu pequeno monólogo sobre a vida de Laura, “uma galinha muito da simples”. esposa do galo Luís e que vivia no quintal de Dona Luísa. Em seu tom afável e descontraído que lembra mais uma prosa de fim de tarde, Clarice vai contando as intimidades e pequenas aventuras da “simpática” Laura e faz graça ao confessar que a galinha do pescoço feio é também “bastante burra”. Mas quem se importa com aparência, não é mesmo? “Porque o que vale mesmo é ser bonito por dentro”, e, quanto a Laura ser burríssima”, isto é um grande exagero, e sabe por quê? Porque “quem conhece bem Laura é que sabe que Laura tem seus pensamentozinhos e sentimentozinhos. Não muitos, mas que tem, tem.

É nesse tom e por meio de perguntas diretas que Clarice vai se achegando ao leitor, envolvendo-o e integrando-o ao universo de Laura e à própria história. Da mesma forma vai desfazendo preconceitos sobre a aparência e a intelectualidade e fomenta o respeito ao outro em suas particularidades como vemos no trecho abaixo:

“As outras são muito parecidas com ela: também meio ruiva e meio marrom. Só uma galinha é diferente delas: uma carijó toda de enfeites preto e branco. Mas elas não desprezam a carijó por ser de outra raça. Elas até parecem saber que para Deus não existem essas bobagens de raça melhor ou pior”.

A autora
A Vida Íntima de Laura é pouco mais do que um conto no qual Clarice Lispector escreve uma história simples e sem grandes acontecimentos. Escreve a história íntima de uma das criaturas mais corriqueiras e desinteressantes que existe, mas que ao mesmo tempo tem grande importância nas nossas vidas. E no meio dessa história Clarice expõe o quanto a vida singela de uma galinha meio burrinha pode suscitar uma série de importantes questões humanas e sobre as nossas relações interpessoais.

Mas como se era de esperar de uma escritora bem experimentada na literatura para adultos, na qual a vida é representada sem muitos floreios, a morte é um tema presente na história ainda que de forma bem atenuada. Ao integrar a morte na narrativa Clarice deixa claro que as galinhas são quase sempre criadas para a alimentação humana, e poucas como Laura contam com a estima de seus criadores.

Hoje, A Vida Íntima de Laura me faz pensar que ainda que muitas histórias infantis envolvam animais imponentes como leões e elefantes (a Disney que o diga com o Rei Leão e Dumbo) ou exóticos como o macaco e o camaleão, aquelas que mais nos ensinam são como a de Clarice, que falam de pequenos animais do nosso cotidiano e que nós, adultos, pouco valorizamos. Então reflito como a literatura tenta imitar a mágica da infância que parte de coisas tão pequenas e singelas e lhes dão tamanho e importância colossal. É como se um universo coubesse numa gota de orvalho mas estivéssemos ocupados demais para perceber isso.

Ao contrário de nós, com as crianças acontece diferente. Elas percebem esse mundo insondado que só existe na imaginação. Através dele reescrevem o cotidiano, o amplifica, o ultrapassa e o “magifica”. Penso que os livros infantis tentam explorar o mesmo caminho e daí nascem livros como A Vida Íntima de Laura.

Por fim, me parece que os contadores de história são os únicos adultos capazes de contar o mundo pelo olhar da criança. Clarice foi uma dessas pessoas que soube fazer a ponte entre o mundo infantil e o adulto, trazendo de um mundo e de outro os elementos para escrever sua história e fazendo da vida pacata de uma galinha algo interessante para os pequenos.


segunda-feira, 1 de maio de 2017

As Comunidades do Conhecer Tudo

Comunidades são espaço para encontros, para expressarmos nossos pensamentos compartilharmos com o mundo próximo (e até distante) tudo o que gostamos, sonhamos ou aquilo que nos faz rir, simplesmente. Nós da Conhecer Tudo sempre gostamos de comunidades, por isso temos tantas. Pequenas ainda, é fato, mas são lugarzinhos onde compartilhamos nosso trabalho, notícias interessantes, frases, coisas relevantes, sorteios das principais editoras e, principalmente, é onde CONHECEMOS PESSOAS INTERESSANTES, como VOCÊ. Na verdade, CONHECER é nosso lema, a palavra preferida do dicionário, e por isso não queremos estar sós. Uma comunidade é feita para TODOS, para MUITOS. Por isso estamos convidando você LEITOR, você BLOGUEIRO LITERÁRIO. Venha fazer parte destes nossos espaços, divulguem seu trabalho, compartilhem seus gostos, frases preferidas, livros que está lendo, os videos do seu canal literário, imagem de suas estantes. Estes espaços são NOSSOS, ocupe-os.

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