terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Dois Irmãos – Milton Hatoum – Resenha

Por Eric Silva

Nesse mês de Janeiro iniciamos a nossa campanha do #AnoDoBrasil que ao longo do ano de 2017 fará um passeio pela literatura e pelo cinema brasileiro. O ponto de partida desse nosso itinerário foi O Caçador, livro de estreia da escritora carioca Ana Lúcia Merege, e agora, inspirados pela nova minissérie da Rede Globo, apresentamos o segundo ponto desse percurso: Dois Irmãos, livro do manauense Milton Hatoum. Com este romance publicado pela primeira vez no ano de 2000, somos levados para a exuberante capital amazonense, nas primeiras décadas do século XX, para conhecer os dramas vivido por uma família de ascendência libanesa marcada pelo ódio e pelos atritos entre dois irmãos, conflito que vai deixando um rastro de dores ao desgastar as relações e a convivência entre os membros da família.

Sinopse

Segundo livro de Milton Hatoum, Dois Irmãos narra a conflituosa história dos gêmeos Yaqub e Omar. Filhos de dois imigrantes libaneses que viviam no Amazonas, os irmãos preocupavam constantemente a família com suas brigas e o ódio que existia entre os dois, tornando impossível a convivência.

Centrada no drama da família que pouco a pouco vai se desestruturando, a narrativa é contada pelo olhar de Nael, o filho da empregada, que narra os acontecimentos 30 anos depois terem ocorridos e, a partir de suas memórias e das histórias que ouvia de sua mãe, Domingas, e do pai dos gêmeos, Halim, vai desnudando o cotidiano da família e da Manaus do início do século XX.



Resenha

Caim e Abel. Esaú e Jacó. Quantas histórias de irmão que não se entendem e se odeiam nós conhecemos? Relacionamentos que foram atravessados pela discórdia, pelo ódio, pela inveja e pelo ciúme. Citei apenas exemplos bíblicos, os mais conhecidos, mas mesmo aí ao lado, se você procurar bem, pode haver um. Talvez na sua rua, ou no seu bairro, até na sua própria família, quem sabe. É fácil encontrar casos de irmãos que não se dão bem. Às vezes, são coisas bobas, implicância mesmo, mas por vezes, coisas mais sérias de pessoas que deliberadamente se odeiam. Com efeito, esses últimos são casos que desestruturam a família, preocupam os pais, torna a convivência insuportável, quando não, impossível.

Coisas semelhantes aconteciam com os gêmeos Yaqub e Omar do livro Dois Irmãos. E por ser algo tão comum, escrever um livro sobre o assunto pode parecer, à primeira vista, mais um clichê. Eu, particularmente, durante muito tempo tive problemas com a literatura brasileira devido aos temas muito corriqueiros e repetitivos que tanto aparecem nos livros nacionais, a exemplo dos dramas amorosos e de famílias desestruturadas. Acho, inclusive, que pelo mesmo motivo não sou ligado em histórias de amor, ou em livros e filmes do tipo Sessão da Tarde. Dramas e histórias do tipo têm que apresentar tramas bem inteligentes, inovadores ou bastante tocantes para chamarem minha atenção.

Não seria de se admirar que eu achasse Dois Irmãos um livro chato, corriqueiro, clichê. No entanto, o encanto e profusão de cenários tão atípicos na minha realidade, que fizeram tudo parecer ser tão distante quando na verdade é tão próximo, aliado à narração límpida e envolvente, tão cheia de brasilidade e em muitos momentos atravessada por poesia, e, por fim, tudo isso arrematado com personagens tão intensos, algumas vezes incríveis, em outras odiáveis, por vezes tão familiares, me enredaram na atmosfera morna dos trópicos e li todo o romance quase sem perceber. No fim, achei-o mais real, mais vivo e, por isso, distante do idealismo enfadonho de alguns dos antigos clássicos do Romantismo Regionalista – desculpe gente, mas o trauma das aulas de literatura vai demorar mais um pouco a passar.

Yaqub e Omar ainda jovens com a mãe Zana em adaptação para
a televisão realizada pela Rede Globo de Televisão.
Halim era um imigrante libanês que há muito tempo viera com um tio para a cidade de Manaus. Sempre fora um homem pacato, que depois de muito esforço conseguiu conquistar Zana, a filha de Galib, outro imigrante do Líbano conhecido na capital amazonense por seu restaurante, o Biblos. Depois de casados, Zana desejava ter filhos, o que Halim não queria, preferindo a volúpia de sua vida de casado. Ainda assim, o casal tivera três filhos, primeiro os gêmeos Yaqub e Omar – ou o caçula, como era chamado – e depois, Rânia, a única mulher. Com eles, na casa do bairro portuário, ainda viviam Domingas, uma órfã indígena que desde jovem servia ao casal como empregada doméstica, e seu filho, Nael, nascido depois que os gêmeos já eram maiores. Mas sem dúvida, o centro de todas as atenções na casa eram os dois irmãos. Yaqub com seu temperamento calado e recluso em contraposição ao gênio competitivo, tempestuoso e inconsequente de Omar.

Numa síntese, eu caracterizaria Omar como impulsivo, bravejo, farrista, intenso demais em suas paixões pela boa vida e pelos prazeres que esta lhe proporcionava, um despreocupado rufião. Por sua vez, Yaqub é contido demais, calculista, frio em suas ações, só o irmão era capaz de deixá-lo exaltado. Personalidades conflitantes, extremamente opostas e dificilmente conciliáveis. Mas mais do que incompatibilidade de gênios, o favoritismo cego e doentio da mãe, pelo “mais novo”, seu zelo extremo e obsessivo, pesava negativamente na relação entre os irmãos, como uma centelha que avivou a chama de ódio entre os dois, ou como o movimento de placas que com sua força extrema e absurda amplia um abismo.

Contudo as brigas dos irmãos na infância tiveram seu apogeu quando Omar, em uma disputa pela atenção de Lívia, a sobrinha dos vizinhos, cortou o rosto do mais velho com os cacos de vidro de uma garrafa, deixando em Yaqub uma marca que jamais o permitiria esquecer seu ódio pelo irmão. Daquele dia em diante, tudo mudaria para o rapaz que sofreria não só com as brincadeiras na escola sobre a cicatriz em seu rosto, como também com a distância imposta pelo pai que o manda para casa de parentes no Líbano na tentativa de evitar um conflito maior entre irmãos.

“Os pais tiveram de conviver com um filho silencioso. Temiam a reação de Yaqub, temiam o pior: a violência dentro de casa. Então Halim decidiu: a viagem, a separação. A distância que promete apagar o ódio, o ciúme e o ato que os engendrou”.

“Foi o seu último baile. Quer dizer, a última manhã em que viu o irmão chegar de uma noitada de arromba. Não entendia por que Zana não ralhava com o Caçula, e não entendeu por que ele, e não o irmão, viajou para o Líbano dois meses depois”.

Durante o tempo em que Yaqub ficou no Líbano, Omar foi criado como filho único, com todos os seus desejos atendidos pela mãe, e com isso, o regresso irmão, cinco anos depois, reavivou o ódio entre eles.

Narrado a partir das lembranças de Nael e de tudo que ouvira da mãe e de Halim, Dois irmãos vai contando todos os conflitos, problemas e obsessões dos membros de uma família que pouco a pouco vai se destroçando, consumida pelo conflito entre os irmãos e pelas confusões causadas por Omar. Em paralelo, vamos percorrendo a história e as transformações sofridas pela capital do Amazonas no começo do século XX e durante o domínio repressivo da ditadura militar, bem como essas mudanças vão se refletindo na família de Halim e na sua vizinhança.

Como já mencionei, Dois irmãos é um livro que ultrapassa os clichês, não obstante é também uma obra que impulsiona seus leitores mais sensíveis a sentirem os mais intensos e diversos sentimentos pelos seus personagens. Um livro em que você ou ama os personagens ou odeia-os.

Eu amei Nael, cuja história, em minhas horas de meditação pós leitura, encontrei similitudes com meu próprio passado, mas senti de enfado a ódio por todos os outros. Yaqub pela sua arrogância e estreiteza de espírito e Omar pela sua falta de caráter e atitudes baixas e infantis. Odiei Zana pelos seus excessos e incapacidade de ver que ela era o verdadeiro centro e a força geradora de todos os conflitos e problemas da família – o livro deveria ser chamado de A Mãe. Também por Domingas e Rânia, por terem sido, na maior parte do tempo, incapazes de gritarem pela sua independência. E por fim, também Halim, por ser um homem fraco e omissivo diante dos inúmeros problemas de sua família. Contudo, em relação a este último, confesso que alguns de seus poucos rompantes, nos quais demonstrou-se mais enérgico, valeram a pena.

Só consegui torcer por Nael, porque me identifiquei profundamente com o personagem. Apesar de suspeitar que um dos gêmeos era seu pai, Nael nunca foi declarado como neto nem por Halim e muito menos por Zana, que expressava antipatia pelo garoto e fazia dele o seu moleque de recados. Trabalhava na casa como outro empregado, e os únicos que demonstravam realmente alguma empatia por ele era Halim, que sempre o tinha por perto contando suas histórias, e Yaqub apesar de ser bastante fechado. Mesmo Rânia, que nunca o tratara mal, sempre o usou o rapaz em atividades braçais e de rua no comércio da loja da família. Diante de tamanha indiferença e negligência é natural que Nael nutrisse ressentimento por não ter sido reconhecido por aquela família e em alguns momentos chega a ser palpável o sentimento do rapaz.

Contudo, me identifiquei com Nael, porque, como ele, eu também fui o filho da doméstica explorada, o elemento a mais que vivia no quartinho dos fundos da casa, assim como ele entregue aos estudos, uma de minhas poucas distrações. Não estive na posição dele de filho de um dos patrões, mas conheço bem o que é estar numa casa que não lhe pertence, na condição de agregado. Por isso, Dois Irmãos me soa tão familiar, tão próximo.

Além disso, a obra de Hatoum torna-se um livro de memórias, algumas confiáveis, outras nem tanto, que vão sendo costuradas pelo seu narrador, que é, ao mesmo tempo, testemunha ocular e ouvinte de informações que vem de outros, tornando Dois Irmãos um mosaico de lembranças.

Mas nesse mosaico algumas coisas me incomodaram bastante. Uma delas foram os capítulos demasiadamente longos e densos em acontecimentos, o que dificultava bastante decidir uma parada da leitura que não prejudicasse depois a retomada da narração. Mas a principal foi os recuos e retornos no tempo, muitos deles abruptos, em meio a descrição de um fato, desordenando e depois retornando ao ponto onde se estava.

O Autor
A escrita de Hatoum me fez lembra de como é nossa memória, que vai e vem, dançando no tempo, pelos anos, sem se preocupar com a ordem. Lembranças que puxam outras, referências que vão sendo lembradas em meio a recordação de outro fato, mas que na narração dificultavam a leitura e a localização no tempo da narrativa. Só para se ter uma ideia, não acreditei quando o narrador passou a sugerir que Halim e Zana já se tornavam idosos e sentiam o peso da idade, porque o vai e vem no tempo já havia me deixado totalmente confuso.

[SPOILER em itálico] Não posso me esquecer de mencionar que um tema polêmico tratado no livro é a questão do incesto. Cheio de sutilezas, no livro, a narrativa não afirma explicitamente, mas sugere um caso incestuoso entre Rânia e seus irmãos, sobretudo, o “mais velho”, Yaqub. A recusa em se casar, a devoção em relação ao irmão afastado, as várias horas que ficavam trancados no quarto a sós. Tudo é tratado de forma sutil, mas vai deixando pistas para que o leitor tire suas próprias conclusões, e se formos muito atentos, mesmo na relação entre Zana e Omar vemos algo de sexual, mas nada me pareceu ficar muito claro em relação a estes dois.

Mas como sempre, livros como este também me atarem pela Geografia e pela História contidas em suas tramas. Os igarapés, a cidade flutuante, a vida dos ribeirinhos e dos amazonenses tudo isso me chamou a atenção. As paisagens e estilo de vida em uma Manaus do começo do século XX, período em que a cidade passa a conhecer uma época de clara decadência e, anos depois, a tentativa de modernização através do seu processo de industrialização.

Ademais, em Dois Irmãos é notável a integração dos personagens com o meio. É possível notar como as mudanças que a cidade sofre vão repercutindo em suas personagens, porque são pessoas que ao longo da trama vão sendo tomadas pela nostalgia de outros tempos. No processo de reconstrução urbanística de Manaus é quando fica mais perceptível os sentimentos dos personagens aflorarem. Uma das cenas mais dramáticas é a destruição da Cidade Flutuante, um enorme conglomerado de casas de madeira construídas sobre toras e que flutuavam sobre o Rio Negro e os igarapés da cidade formando uma grande favela flutuante. A demolição do conglomerado mexe profundamente com Halim que sofre e se enfurece diante da destruição de lugares que lhe eram tão caros. Cenas como essa mostram a integração dos personagens com o lugar, com os cenários, algo que só havia visto nos livros de Jorge Amado, onde os personagens não estão apenas na cidade de Salvador, mas vivem e respiram a Cidade da Bahia, são parte dela e ela parte deles. Hatoum consegue efeito parecido.

A Cidade Flutuante de Manaus. Revista O Cruzeiro, 07 de Julho de 1962. Disponível em: http://idd.org.br

Numa tarde que ele escapara logo depois da sesta eu o encontrei na beira do rio Negro. Estava ao lado do compadre Pocu, cercado de pescadores, peixeiros, barqueiros e mascates. Assistiam, atônitos, à demolição da Cidade Flutuante. Os moradores xingavam os demolidores, não queriam morar longe do pequeno porto, longe do rio. Halim balançava a cabeça, revoltado, vendo todas aquelas casinhas serem derrubadas. Erguia a bengala e soltava uns palavrões, gritava “Por que estão fazendo isso? Não vamos deixar, não vamos”, mas os policiais impediam a entrada no bairro. Ele ficou engasgado, e começou a chorar quando viu as tabernas e o seu bar predileto, A Sereia do Rio, serem desmantelados a golpes de machado. Chorou muito enquanto arrancavam os tabiques, cortavam as amarras dos troncos flutuantes, golpeavam brutalmente os finos pilares de madeira. Os telhados desabavam, caibros e ripas caíam na água e se distanciavam da margem do Negro. Tudo se desfez num só dia, o bairro todo desapareceu. Os troncos ficaram flutuando, até serem engolidos pela noite.

Em conclusão, Dois Irmãos é um livro interessante que nos faz conhecer a multiplicidade cultural e étnica que nosso país abriga e abrigou ao longo de sua história. Acho ainda que o livro de Hatoum serve de mensagem para os muitos brasileiros que pouco sabem sobre a Região Norte do país, sobre as cidades ribeirinhas da Amazônia ou de seu estilo de vida, de suas cores e de seus sabores. Eu, particularmente, aprendi muito sobre um pedacinho do país que conheço pouco. Espero conhecer mais ainda.

A edição lida é da Editora Companhia das Letras, do ano de 2007 e possui 266 páginas. Se quiser saber mais sobre o autor confira nossa postagem sobre os autores que estamos lendo na campanha (Clique Aqui).

Abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Google Books.


Prévia do Google Books





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