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domingo, 3 de janeiro de 2021

[Em Poucas Linhas] Soul – Resenha 7ª Arte

 

Por Eric Silva para a tag 7ª Arte


SINOPSE

Joe Gardner é um professor de música do ensino médio que sonhava em ser um músico de jazz, e finalmente teve a chance depois de impressionar outros músicos durante um ensaio aberto no Half Note Club. No entanto, um acidente faz com que sua alma seja separada de seu corpo e transportada para a “Escola da Vida”, um centro no qual as almas se desenvolvem e ganham paixões antes de serem transportadas para um recém-nascido. Joe deve trabalhar com almas em treinamento, como 22, uma alma com uma visão obscura da vida depois de ficar presa por anos na Escola da Vida, a fim de retornar à Terra

(Fonte: Wikipédia.org – modificado).

***

A Pixar novamente mostrou que apesar de ter sido absorvida pela Disney ainda contém em seu cerne alguma identidade própria, algo de original, de seu.

Soul é uma animação filosófica, existencialista e inspiradora. Foi criado para crianças, mas sua temática tão abstrata, questionadora e existencialista extrapola o mero propósito de entretenimento e resgata um questionamento fundante sobre o qual muitos filósofos e religiosos já se debruçaram: qual o significado (propósito) da vida?

Joe Gardner passou toda a sua vida obcecado com a ideia de que o seu propósito na vida era tocar piano como musicista de jazz, algo para o qual ele realmente tinha talento, mas que por diversas vezes fora recusado e nunca conseguira uma oportunidade concreta de viver de música e se tornar famoso. Quando finalmente a sorte parece lhe sorrir ele morre e tem seu sonho abortado. Extremamente frustrado por ter perdido a chance de realizar seu sonho ele faz de tudo para voltar a vida e vê em 22 – uma alma ainda não nascida, mas extremamente inteligente, instruída, autêntica, crítica e cética – a oportunidade de voltar à vida.

22 não via motivos para vir ao mundo e viver uma vida nele, porque não via significado nisso, nem nada que lhe atraísse, por isso que sempre que alguma alma (as mais brilhantes que já passaram pela Terra) tentava inspirar nela o que era necessário para que esse desejo de viver nascesse, era frustrada pela pequena alma.

Não estamos neste mundo por um propósito, diz o filme, estamos neste mundo para viver a vida. Este é o único e indiscutível propósito da vida: viver, nada mais. É algo no mínimo desesperador, mas, ao mesmo tempo, libertador. Contudo, Soul abre muitas portas para a divagação (assim como qualquer obra filosófica) e nos ajuda a questionar o nosso mundo. Esse mundo louco movido pelas leis do mercado que nos impõe como propósito de vida: viver para consumir, consumir para viver. Porque Soul explora – de forma ainda muito ingênua – um terreno perigoso e que nos inspira a ir além dele mesmo e dizer o que ele não disse: nos consumimos e nos destruímos de diferentes modos para obter e produzir coisas sem significado e valor intrínsecos (damos nosso tempo de vida em troca de coisas sem valor real).

Como assim?

Bem, nesse instante em que minhas ideias ainda estão caóticas em mim e se assentam pouco a pouco, o melhor exemplo que posso dar é a questão do trabalho.

O trabalho no mundo humano há muito que deixou de ser uma tarefa tão só para garantir ao corpo o que ele necessita para continuar vivendo, e se tornou a nossa própria vida. Não vivemos, trabalhamos.

Contudo, não trabalhamos unicamente para viver, mas para consumir ilusões. Ilusões que foram criadas para sustentar outras ilusões, ilusões de outras pessoas (poder, riqueza, fama, etc.). Vivemos em um mundo do ilusório, onde damos o nosso tempo – limitado e irrecuperável – não apenas para garantir a integridade de nossos corpos e assim continuar vivendo, mas para alimentar ilusões que são nossas ou que foram criadas para nós.

Vivemos para consumir e possuir objetos que na verdade não são necessários e só já muito tarde nos damos conta que nada daquilo que tanto perseguimos tinha um propósito em si mesmo, uma razão em si mesma. Somos nós que lhes damos significados (ou reproduzimos os significados dados por outrem), e somente nós podemos alterá-los.

O filme convida a pensar que cada um de nós temos paixões, talentos e objetivos, mas não devemos nos cegar por eles e deixar que eles tomem conta de nossas vidas, nos esquecendo do propósito real da vida (vivê-la).

Eu inverto a ideia dizendo que nossas paixões, talentos e objetivos são muitas vezes sufocados porque vivemos em um mundo que nos exige muito para viver nele, e, no final, não temos tempo para viver realmente.

Um mundo que categoriza a utilidade e o valor de cada talento destrói pessoas como Joe Gardner. Um mundo que torna o trabalho de cada um em algo sufocante, pesado e exaustivo mesmo quando você faz algo de que gosta também destrói vidas. Um mundo no qual mesmo a ideia de “viver realmente” se tornou uma coisa, um objeto mercadológico e voltado para o consumo, enfraquece (e empobrece) o viver. Viver é consumir, sugere a propaganda capitalista.

Enfim, eu viajei com o filme dirigido por Pete Docter que dá destaque a um personagem negro e determinado ao mesmo tempo que explora a cultura afrodescendente norte-americana, o mundo do jazz e do próprio soul (o título é uma brincadeira com os significados da palavra que é ao mesmo tempo “alma” e um gênero musical criado por essa mesma comunidade afro-americana).

Fala de temas bastante abstratos como vida pós-morte e “pré-vida” e brinca com isso, colocando no lugar dos anjos da cultura cristã, outros seres administradores e burocráticos de forma abstrata e curvilínea num estilo inspirado nos movimentos artísticos cubistas e de arte abstrata em geral (talvez com forte influência de Picasso), com identidades próprias e compartilhadas (todos, exceto um, se denominam com o mesmo nome) e que têm origem não mágico-mitológica, mas como “materialização” de forças naturais.

O mundo pré-vida de Soul com suas criaturas abstratas, seus tons tranquilos e formas simplificadas.


Os cenários exploram formas simples, com muitas cores em tons de azul, de lilás, de branco e de preto, e o mundo terreno em cores mais quentes e terrosas (tranquilidade e caos).

Como já era de se esperar, o filme explora bastante o jazz, o estilo musical pelo qual Gardner é apaixonado e traz peças musicais de muita originalidade, mas que causa estranhamento aos brasileiros desacostumados ao ritmo, como eu.

Em suma, um filme complexo, que flerta com o metafisico e que desafia o público infantil e também o adulto (que terá que responder perguntas difíceis sobre a morte, sobre a alma e a pós-vida). Melancólico em muitos aspectos e com personagens que tem passagens breves, mas que ainda assim foram muito bem definidos e com personalidades desenhadas de forma bem demarcadas. Um filme que também fala da escolha entre perseguir sonhos ou estabilidade e segurança, e que expõe os medos de uma mãe negra, preocupada e temerosa porque com seu salário de costureira teve que alimentar dois sonhadores: o esposo e o filho.

Enfim, a lição de soul é esta: a vida não tem significado em si mesma, somos nós que lhe damos um. Talvez você não enxergue no filme muita coisa do que eu disse aqui, mas pouco me importa. Soul é o tipo de filme que te provoca a ir muito além dele, e daqui eu retirei outra lição que ele não ensinou: o mundo que vivemos é criação humana e nós podemos recriá-lo se quisermos dar à vida significados melhores.

domingo, 2 de dezembro de 2018

7ª Arte: Koe no Katachi – Resenha


Por Eric Silva

Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.

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Está sem tempo para ler? Ouça a nossa resenha, basta clicar no play.


Sensível e comovente, Koe no Katachi (聲の形, lit. "A Voz do Silêncio") é um longa-metragem de animação japonesa que com uma profunda delicadeza aborda a questões sérias como a surdez, o bullying e o suicídio. Um filme com um enredo universal, mas que fala precisamente da realidade japonesa no que diz respeito ao drama do suicídio.

Sinopse

Shōko Nishimiya (西宮硝子) é uma menina com deficiência auditiva – baixa audição – que sofre bullying de um grupo de colegas ao entrar para uma escola de ensino regular. Atormentada pelo assédio de um dos garotos particularmente mais travesso, Shōya Ishida (石田将也), ela vive um inferno particular ainda que tente com todas as forças fazer o seu melhor e ser amiga de todos.
Ishida não consegue compreender nem aceitar a condição de Nishimiya e começa a assediá-la quebrando seus aparelhos auditivos, dando-lhe sustos, destruindo seu material escolar, até chegar ao ponto de ferir seus ouvidos, o que causa a revolta da família da menina que pouco depois sai da escola.

Em consequência de suas ações, a mãe de Ishida tem um prejuízo financeiro e o rapaz passa a ser hostilizado pelos colegas e desprezado por seus pares, o que o torna tímido e antissocial. Sua dificuldade de se relacionar com as pessoas é tão grande que ele passa a ignorar os sons do seu entorno e não consegue encarar os rostos de seus colegas. Anos depois, farto das atitudes de desprezo dos antigos amigos e dos colegas, Ishida tenta cometer suicídio, mas desiste no último segundo, tomando a atitude de tentar consertar seus erros cometidos no passado e viver uma vida nova.

Resenha

Baseado em um mangá homônimo, Koe no Katachi (2016) é um drama romântico, obra do diretor Naoko Yamada (K-On!) e escrito por Reiko Yoshida (Waka Okami wa Shōgakusei!)[1]. O filme tem uma trama universal pintado com as cores da realidade japonesa, país com elevadíssimo índice de suicídio. A ideia, porém é delicada, romântica, dramática e comovente.

Esta animação está entre meus longas animados favoritos e tenho por ele um carinho de fundo sentimental, por razões muito pessoais. Yamada faz um trabalho excepcional e singelo com uma trama simples, mas com cores complexas e profundas. O filme é sereno como carpas nadando em água cristalina e repleta de luz, mas seu caráter multitemático e a importância de seus temas o faz profundo como um poço.

Os diálogos são inteligentes e, por vezes, profundos. Uma de minhas falas preferidas é do personagem Tomohiro Nagatsuka (永束友宏), primeiro amigo que Ishida faz no novo colégio, após salvá-lo de um valentão. Na cena, Nagatsuka explica a Ishida porque se tornou seu amigo e num tom divertido e brincalhão diz uma das frases mais belas do filme: “amizade está além da lógica e das palavras”.

O filme não possui tom de humor, mas uma curva dramática suave e constante que envolve seu expectador e emociona, sobretudo em seu clímax, parte mais dramática, chocante e comovente de todo o filme.

Na parte técnica, Koe no Katachi é um filme que explora sobretudo o uso da câmera e uma paleta de cores bem claras e luminosas que pintam cenários singelos em sua maioria urbanos, mas também do rio local, principal cenário natural da história. Esses elementos juntos com uma trilha sonora que se harmoniza com os humores de cada cena enchem a tela de delicadeza, beleza e simplicidade.

Muita luz e cores claras.
Os cenários de Koe no Katachi não tem a mesma beleza estética de outra animação japonesa que assisti recentemente, Your Name, mas, ainda assim, é um filme belo e bem desenhado, algo bem dentro do padrão de qualidade da maioria dos animes japoneses. A luminosidade das cenas é fantástica entregando um filme claro que condiz com sua delicadeza.

A câmera sempre busca alternar diferentes ângulos produzindo efeitos bonitos e delicados. Longshots, planos de detalhes e contra-plongées são os enquadramentos mais bem explorados, indo do distante passamos para o muito próximo, e por vezes esse próximo capta apenas gestos ou detalhes: uma parte do corpo como mão, pés e braços, um jarro de flores, flores tremulando ao vento, pequenos furtos que caem de uma árvore ou a imagem singela de carpas nadando no rio.

A música de Kensuke Ushio não tem nada de especial, mas sustenta o equilíbrio entre câmera, cenário e cena, indo de alguns ritmos mais rápidos e agitados a outros muito tranquilos, em sua maioria tranquilos.

Porém, são os personagens os pontos mais fortes do filme. Muito diversas suas “atuações” demonstram as mais diferentes facetas dos sentimentos humanos como culpa, gentileza, raiva, preconceito, arrependimento, amor, agressividade, arrogância, perdão e vulnerabilidade. Sem dúvida são personagens bem-feitos, complexos, redondos e críveis, cada qual com sua própria “humanidade” e trazem uma mensagem positiva frente a vida e sobre o valor do arrependimento sincero e do perdão.


Elenco principal
Nishimiya é uma garota gentil e sensível que sinceramente deseja ser amiga de todos e se relacionar bem com seus colegas de sala. Ela é, sem dúvidas, uma protagonista que intriga e encanta o expectador tanto quanto Ishida que se transforma ao longo da trama se tornando mais gentil e preocupado com as pessoas. Ele era travesso e insensível no começo da história, mas se torna alguém triste e reflexivo, mas, ao mesmo tempo, alguém que vem dando tudo de si para se tornar alguém melhor. O romance que parece se desenvolver entre os dois não é foco do filme, o que o torna algo bastante delicado. Mas os dois são responsáveis pelas cenas mais tensas e difíceis da obra.

Os protagonistas podem até parecer monótonos, mas é o conjunto com as personalidades mais ativas dos outros personagens que fazem o filme. Personalidades como da determinada Yuzuru Nishimiya (西宮結絃), irmã mais nova de Shoko; da arrogante de Naoka Ueno (植野直花), colega de Ishida e Shoko quando eram do fundamental; ou a atitude egoísta de outra das colegas da época, Miki Kawai (川井みき) que sempre se fazia de vítima quando, na verdade, por omissão, também tinha parcela de culpa no bullying cometido contra Shoko. O choque entre essas personalidades contrastantes e as mudanças que elas vivem ao longo da trama tornam mais tensa, real e profunda a história.

Multitemático: a surdez, o bullying e a questão do suicídio.

Apesar de seu um drama romântico, o romantismo da trama é bem suave e fica em segundo plano, não se sobressaindo em relação a temas mais pesados como o bullying e o suicídio. Koe no Katachi é um filme multitemático e que perfeitamente enquadrado em seu contexto histórico e local. O tema da surdez é o ponto de apoio da trama cujo título (em português, A voz do silêncio) faz referência.

A surdez é uma condição que ao longo da história foi vista de forma preconceituosa. No passado, os surdos não eram vistos como pessoas. O grande valor que era dado a oralidade fazia com que o olhar da sociedade tirasse dessas pessoas a sua humanidade, puramente pela incapacidade dos mesmos de falar.

Na Idade Média, por exemplo, os surdos não podiam ser herdeiros de sua família e para contornar essa situação algumas famílias abastadas pagavam preceptores que fossem capazes de ensiná-los a falar. A Igreja Católica por muito tempo teve um importante papel nesse processo discriminatório já que sua surdez fugia do padrão de “a imagem e semelhança de Deus”.

Na História, houve períodos em que a linguagem de sinais foi desenvolvida para permitir a comunicação dessas pessoas, e, em outras, ela foi vista como maléfica e por conta disso muito surdos foram obrigados a aprender a falar, a usar a oralidade a partir até mesmo de métodos perversos e completamente ineficientes.

Enfim, ao longo de séculos a surdez foi colocada em uma condição de discriminação e os surdos colocados em uma posição submissa. Hoje muita coisa mudou, mas os surdos ainda não se encontram realmente incluídos na sociedade. Os Estados ainda não vêm preparando a sociedade para socializar normalmente com os surdos e facilitar a comunicação com os mesmos. O preconceito sobrevive e pouco é feito para combatê-lo. Mas esse preconceito, quando se dá nas escolas, dá margem a outro problema da sociedade moderna: o bullying.


Cena de bullying cometido por Ishida contra Shoko.
O bullying é um fenômeno que nasce da incapacidade das pessoas de aceitaram o que é diferente e numa atitude de demonstração de poder cometem atos de violência psicológica e até física contra aqueles que não se encaixam num determinado padrão social. É também uma atitude de tentativa de se sobressair socialmente través de brincadeiras que divertem alguns em detrimento de outros, no caso da vítima.

A condição de surdo é algo que despertou em Ishida essa incapacidade de aceitação. Ele considerava a atitude e as necessidades de Shoko incômodas, achava, ainda mais perturbadoras suas tentativas de socializar e fazer amizades, sempre perdoando ou fingindo não perceber as maldades de seus colegas, as brincadeiras cruéis e as agressões. Ela buscava fazer o seu melhor e integrar-se naquele conjunto como uma igual. Suas atitudes eram positivas, humildes e resignadas, mesmo quando ela tinha tudo para se lamentar ou sentir raiva. A personalidade tão diferente de Shoko desperta o ódio de Ishida, porque ele era incapaz de entendê-la e se demonstrou igualmente incapaz de fazer o mesmo quando foi sua vez de estar do outro lado e ser a vítima do bullying, tentando recorrer ao suicídio.

O suicídio é outra temática muito bem explorada pela trama do filme. O Japão é conhecido por possuir uma elevada taxa de suicídios se comparado a muitos países.

Tentativa de suícidio de Ishida
Segundo uma reportagem da BBC Brasil, de 2015[2], mais de 25 mil pessoas cometeram suicídio no Japão, numa média de 70 por dia, sendo que o suicídio é a principal causa de morte entre os homens japoneses com idades entre 20 e 40 anos.

Como afirma essa reportagem, o principal fator dos suicídios é o isolamento que antecede a depressão e o próprio suicídio. Acredita-se que o suicídio em nome da honra que historicamente foi cometido pelos samurais ("seppuku") e pelos jovens pilotos "kamikazes" da Segunda Grande Guerra seria um dos motivos principais para a elevada frequência com a qual os japoneses tiram a própria vida. Ou seja, eles encaram o suicídio “como uma forma de assumir responsabilidade por alguma coisa". Mas essa não seria a razão tratada pelo filme, e sim o sofrimento pessoal.

A reportagem da BBC esclarece que no caso dos jovens japoneses a perda da esperança e a incapacidade de pedir ajuda são os principais motivos para se matarem. As crises financeiras se demonstraram como fator estimulador, uma vez que a realidade trabalhista e econômica se tornou bastante difícil e desfavorável com "condições precárias de emprego".

No caso de Ishida e Shoko o sofrimento pessoal causado pelo bullying os levaram a uma condição de desespero e inconformidade. Sentir-se socialmente deslocado e isolado fragilizou a vontade de ambos em tentarem se manter vivos. O suicídio se apresenta então como possibilidade real de amenizar o sofrimento pessoal. A própria estrutura social os impelem a isso:

"Esta é uma sociedade muito orientada por regras. Jovens são moldados para se encaixar em nichos existentes. Não há como alguém expressar seus sentimentos verdadeiros. Se são pressionados por seu chefe ou se deprimem, alguns acham que a única saída é morrer."[3]

Esse é o caso dos personagens do filme, que apesar de jovens não se sentem adequados e são incapazes de pedir ajuda, pois a cultura os impelem a resolver sozinhos os seus problemas. Levá-los a outras pessoas significaria ser inconveniente e incômodo.

A reportagem ainda esclarece que “o Japão é famoso por uma condição conhecida como "hikkimori", um tipo de isolamento social grave”, que seria alimentado pela tecnologia que incentiva esse isolamento. Por se tratarem de jovens com “muito conhecimento, mas pouca experiência de vida”, pessoas como Ishida e Shoko “não sabem como expressar suas emoções", as guardam para si e chegam a um extremo de inferno pessoal. Se isso não bastasse, aponta a reportagem, os sistemas de tratamento para os que sofrem de depressão são ruins e a doença mal compreendida, o que inviabiliza um tratamento adequado e eficiente. O sofrimento dessas pessoas chega a uma condição insuportável e a morte se torna algo bem mais atraente.

A mensagem trazida pelo filme é a de que lutemos para dar o melhor de nós mesmos tentando preservar a esperança na vida. Que busquemos ajuda e nos relacionar melhor. Ele ainda busca demonstrar os resultados nefastos do bullying e combatê-lo, trazendo uma mensagem de respeito às diferenças e as deficiências físicas.

Enfim, é um filme delicado e inspirador que joga uma reflexão sobre eventos e questões contemporâneas tanto japonesas como universais, promovendo uma discussão relevante e tecendo uma mensagem positiva que atinge em cheio seus expectadores. Um filme que cumpriu minhas expectativas e que já assisti diversas vezes por ser especial, educativo e louvável seja pela beleza de sua narrativa ou pela importante contribuição social que ele faz.

A película é uma produção dos estúdios Kyoto Animation, e entrou em cartaz no ano de 2016. Tem duração de 130 minutos. Abaixo você pode conferir o trailer do filme:



Trailer








[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/Koe_no_Katachi_(filme)
[2] https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/07/150705_japao_suicidio_rb
[3] https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/07/150705_japao_suicidio_rb

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

7ª Arte: Kimi no na wa (Your Name) – Resenha


Por Eric Silva


Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.
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Quem foi que disse que um tema desgastado não produz um bom filme? Com uma qualidade gráfica surpreendente e um roteiro inteligente, Your name (no original, Kimi no na wa) mostra que mesmo um tema batido como a troca de corpos entre duas pessoas pode gerar um filme belo, poético e delicado e com alguma profundidade.

Confira o segundo 7ª Arte da III Campanha Anual de Literatura que comemora o ano do Japão no Conhecer Tudo.

Sinopse

“Mitsuha Miyamizu é uma colegial do interior do Japão que entediada com a monotonia e pequenez de sua cidade deseja um dia poder viver numa cidade grande como a capital japonesa, Tóquio. Enquanto isso, Taki Tachibana, é um garoto citadino que trabalha em meio período num restaurante italiano em Tóquio, desenhista talentoso que sonha um dia se tornar arquiteto. Os dois vivem realidades diferentes em lugares distintos e não se conhecem, mas estão misteriosamente conectados por um fenômeno sobrenatural que decidirá a vida de ambos.


Resenha
Um enredo delicado

Your Name ("Seu Nome"), ou no original, Kimi no Na wa (君の名は。) é um drama romântico jovem com uma boa dosagem de humor, realizado e escrito pelo japonês Makoto Shinkai (O Jardim das Palavras) e lançado em 2016. Baseado em um romance homônimo escrito por Makoto, o roteiro da película é muito dinâmico e conta a história de dois adolescentes, Mitsuha e Taki, que misteriosamente mudam de corpo após adormecerem, vivendo um a vida do outro ao longo de todo o dia.

Mitsuha Miyamizu (宮水 三葉) é uma garota de 17 anos que mora na pequena cidade de Itomori localizada no interior montanhoso do Japão. Filha do prefeito da pequena prefeitura, ela vive uma vida pacata ao lado da irmã menor, Yotsuha (四葉), e da avó, Hitoha (一葉). As três cuidam juntas do antigo templo xintoísta da família e que havia sido rejeitado e abandonado pelo pai, Toshiki Miyamizu (宮水 俊樹), após a morte da mãe das meninas. Por conta disso, Mitsuha e sua avó possuem uma difícil relação com Toshiki. Só em seus poucos momentos livre a garota fica ao lado de seus dois melhores amigos, Sayaka Natori (名取 早耶香)

Por sua vez, Taki Tachibana (立花 瀧) vive muito distante da cidade de Mitsuha, na capital japonesa, Tóquio. Taki é ainda um colegial e um garoto comum, que faz trabalhos de meio período como garçom para ter seu próprio dinheiro e é apaixonado por sua colega de trabalho e senpai[1], Miki Okudera (奥寺 ミキ). Ele vive sozinho com o pai em um pequeno apartamento de um conjunto habitacional e divide parte do seu tempo livre com os amigos de escola, Shinta Takagi (高木 真太) e Tsukasa Fujii (藤井 司).

A chegada de um cometa que se aproxima da Terra é o gatilho para desencadear o misterioso fenômeno sobrenatural que os obrigam a trocarem de corpo todas as vezes que adormecem. Daquele dia em diante, e sem controle algum do fenômeno, os dois passam a viver e enfrentar os desafios um do outro, enquanto trocam mensagens para manter o mínimo de controle sobre suas próprias vidas e evitar problemas posteriores por conta das ações um do outro durante as trocas. Eles, pouco a pouco, vão aprendendo a conviverem com suas diferenças e com o mundo novo que cada um experimenta a partir daquela experiência única.

Your Name parece à primeira vista ter uma trama simples, pouco estimulante e original, contudo a história conhece reviravoltas profundas no decorrer do desenvolvimento e, no fim, se torna uma corrida contra o tempo para evitar um enorme desastre que influiria na vida de todos, mas principalmente dos dois colegiais, tendo repercussão mesmo depois de adultos.

O filme de Shinkai possui uma trama instigante e inventiva que se transforma ao longo do desenvolvimento da narrativa, surpreendendo o espectador ao apresentar uma história mais complexa por trás da trama de troca de corpos. Isso, aliado a um trabalho que reuniu talentos extraordinários para o desenho de personagens e de cenários realistas, me fez fica interessado pelo filme até o último segundo quando o nome da película é novamente apresentado e sobe a lista do casting.

Os diálogos são limpos e não confundem o expectador que vai compreendendo junto com os personagens a origem do fenômeno que acometeu a vida de Taki e Mitsuha.


Com um enredo que trata de temas leves, Your Name faz uma reflexão sobre a vida e sobre a ligação das pessoas com o tempo. A relatividade do tempo é algo subjacente na trama que tem uma profunda pegada mística dando significados profundos, por exemplo, aos trançados confeccionados pelas três mulheres da família Miyamizu. Nessa pegada, o filme fala da flexibilidade do tempo, de como ele é nossos inimigo e aliado, mas principalmente da ligação imaterial e profunda entre as pessoas que estão predestinadas a algo maior que elas.

Mesmo trabalhando com temas com uma certa curva religiosa-mitológica o filme mantêm-se crível e não perde verossimilhança mesmo quando a trama se torna mais complexa. Outros temas ligados a juventude são tratados muito à tangente e há algumas brincadeiras relacionadas ao sexo demonstrando a curiosidade e o constrangimento de conhecer o corpo do sexo oposto.

Crítica

Your Name tem um tema batido (troca de corpos), mas seu roteiro é inteligente e poético. O humor se equilibra em boas dosagens com o romance e o dramático, alternando-se entre si enquanto estes dois últimos são construídos e desenvolvidos dentro da história. Esse é daqueles filmes que mudam de ritmo no meio da narrativa, mas sem perder o equilíbrio ou tornar a enredo ilógico ou forçado.

O filme é fluido e estável e atrama se desenvolve de forma equilibrada sem ser apressada demais nem demasiadamente lenta. Apesar de a trama ter tudo para se tornar confusa conseguimos entendê-la com muita facilidade, porque em momento nenhum a história perde verossimilhança.

Os personagens são bastante criveis e reais, o que é surpreendente se tratando de uma animação de romance com toques sobrenaturais. Normalmente os romances são bastante estereotipados, mas no caso de Your Name os personagens parecem bastante naturais, sobretudo Taki, que além de rebelde a sua medida, criativo e trabalhador é um tanto pervertido (sim ele não resiste em tocar seios!!), mostrando-se um adolescente comum. A vida de Mitsuha não é propriamente comum (“sacerdotisa” e filha de prefeito), mas em todo o resto é uma moça com sonhos e todos os desejos, neuras e gostos de uma adolescente qualquer.

Os principais personagens da trama são cativantes e o expectador se identifica com os protagonistas de imediato, sobretudo à medida que eles vão ficando desesperados tentando concertar suas vidas e ao mesmo tempo apoiar um ao outro em seus problemas mais emergenciais. É um filme que diverte e emociona os mais românticos que veem no lirismo de uma animação caprichada com um roteiro curioso que fala de família, juventude e tradições numa mistura interessante e até certa medida tocante.

A dublagem brasileira soa um pouco estranha e por isso preferi assistir ao filme em versão legendada. Em parte, minha preferência é porque estou muito acostumado a assistir animação japonesa em sua língua materna (legendado, obviamente), o que me faz apreciar mais a dublagem dos personagens animados em japonês. Todavia, achei estranha a dublagem brasileira que me pareceu um pouco mecânica e pouco natural. Algo completamente normal, quando imaginamos as diferenças entre ambas as línguas, suas estruturas fonéticas e silábicas.


Mas, sem dúvidas, a cenografia é o principal destaque deste que está entre uma das mais bem desenhadas animações japonesas que assisti. Tudo em Your Name foi desenhado para ser absurdamente belo e poético e para enfatizar a beleza das paisagens urbanas e campestres do Japão. Não obstante, esse belo e poético é idealizado de uma forma equilibrada para que as cenas fossem compostas de forma complementar aos cenários sem que esses roubassem completamente a atenção do expectador.

Os cenários e paisagens com seus traçados perfeitos se destacam em uma animação fluída com movimentos delicados e bem-feitos. Impressiona a riqueza de detalhes e a paleta de cores variada que explora com quase perfeição cores claras que tentam imitar a luminosidade dos ambientes. Se fosse um filme live-action, Your Name se destacaria por explorar lindamente as luzes de suas locações de filmagem.

No cenário só o que destoa um pouco é o desenho dos personagens, um pouco mais simplificado quando comparado aos planos de fundo riquíssimos e detalhistas.

Os planos e enquadramentos da câmera também são elementos significativos na animação. A câmera ora sai dos personagens para coisas diminutas como os detalhes de um trançado artesanal ou uma porta de correr sendo aberta até panorâmicas espetaculares que cobrem detalhados cenários urbanos e campestres. O resultado é de uma beleza e delicadeza que encanta o espectador.


Outro ponto a se destacar em relação a cenografia é a sua profunda ligação com uma narrativa que fala de dois diferentes estilos de vida. De um lado temos Tóquio, uma grande metrópole sedutora, moderna, barulhenta e diversa, mas que contrasta com a pequenez da bastante pacata e enfadonha Itomori, uma povoação ainda muito tradicional e às margens de um tranquilo lago. O contraste de cenários (cidade-campo) que se alternam torna ainda mais lindo um filme que não explora unicamente uma boa narrativa, mas a preciosidade do talento da equipe de desenho.

Por sua vez, a trilha sonora é muito variada. Indo de ritmos mais tranquilos com um pouco de jazz e música clássica instrumental, aos mais banais, delicados ou agitados, a trilha sonora confere ritmo a narrativa ou se liga a intensidade dos acontecimentos, mas na maior parte do tempo os sons são formados pela cacofonia típica de grandes metrópoles e pelas soadas comuns às pequenas cidades. Grilos, cigarras, pássaros e o trânsito são elementos sonoros comuns, mas as composições da banda Radwimps com seu estilo J-rock (Japanese rock, 日本のロック, nihon no rokku) são o principal destaque dentro de uma trilha sonora muito bem equilibrada e consonante com toda a trama romântica e jovem da narrativa.

Conclusão

Enfim, Your Name é um filme belo, tanto pelos cenários estonteantes muito bem desenhados, como pelo enquadramento da câmera ou pelo roteiro que surpreende ao longo do seu desenvolvimento se revelando muito poético e com certa profundidade.


O desfecho não decepciona e não é menos interessante do que o restante da trama. Além de emocionante e tocante, o final do filme reúne em si toda a delicadeza da obra de Makoto Shinkai, mostrando que mesmo com um tema batido é possível fazer um filme belo, sensível e cheio de significados.

Sucesso de bilheteria no Japão, Yor Name entrou em cartaz no Brasil em outubro de 2016 e logo foi anunciado a publicação do mangá pela Editora JBC.

No exterior, foi indicado para diversos prêmios, mas venceu apenas em solo japonês. Em 2016, foi vencedor do Japan Record Special Award de Melhor Música e, no ano seguinte, foi premiado com o Japan Academy Prize em três categorias diferentes: desempenho excecional da música, melhor argumento e popularidade[2].

Recomendo o filme para os românticos, os fanáticos por shojo e principalmente para quem gosta de uma animação muito bem-feita e com uma qualidade gráfica superior.
A película é uma produção dos estúdios CoMix Wave Films e entrou em cartaz no ano de 2016. Tem duração de 106 minutos. Abaixo você pode conferir o trailer do filme:

Trailer


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[1] Palavra japonesa usada para se referir a uma pessoa mais velha ou mais experiente e pelo qual se tem respeito.
[2] https://pt.wikipedia.org/wiki/Kimi_no_Na_wa.

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