quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Marcelino Pão e Vinho – José María Sánchez-Silva – Resenha

Por Eric Silva

“O menino foi dando a volta até colocar-se debaixo do seu olhar. Jesus estava muito fraco e a barba caía-lhe aos borbotões sobre o peito; tinha as faces encovadas e seu olhar despertava muita pena em Marcelino. Marcelino vira muitas vezes Jesus, mas sempre pintado no quadro do altar da capela ou em crucifixos pequenos, como se fossem de brinquedo, nos rosários dos frades. Mas nunca havia visto um “de verdade” como agora, com todo o corpo nu e que se podia contornar com os braços, havendo espaço por trás. Então, tocando-lhe as pernas magras e duras, ergueu os olhos para o Senhor e disse-lhe, sem rodeios:— Você tem cara de fome!


Sexto livro da Campanha 2016 #AnoDaEspanhaMarcelino Pão e Vinho é um pequeno e delicado livro religioso publicado na Espanha em 1953 e de autoria do escritor José María Sánchez-Silva. Nesta que foi sua obra mais conhecida, Sánchez-Silva conta a história de Marcelino, um menino inteligente, carinhoso e bastante travesso que tendo sido abandonado na porta de um convento franciscano foi criado e educado por doze frades que ali viviam. Numa narrativa singela mas carregada de significados, Sánchez-Silva traz uma história comovente e que cumpre também um claro papel de ensinar às crianças um pouco da crença e dos valores católicos.

Sinopse

Em um pequeno vilarejo do interior da Espanha fazia alguns anos que frades franciscanos haviam erguido, para que lhes servisse de abrigo, um pequeno e humilde convento. O pequeno prédio havia sido construído por eles mesmos a partir das ruínas de uma granja cedidas aos mesmos pela prefeitura para que ali os religiosos residissem da forma que melhor lhes provessem.

Na humildade de seu lar, os franciscanos viviam e realizavam suas obrigações religiosas, sobrevivendo das esmolas que recebiam, pois como lhes impunham os preceitos da Ordem, não podiam conservar bens próprios, devendo viver da caridade cristã. Mas eis que na manhã em que nascia um novo século, os frades despertaram com uma surpresa em sua porta que mudariam suas vidas e também de todo o vilarejo: uma criança que ali fora abandonada enrolada em uma trouxa, o pequeno Marcelino.

Após batizarem a criança e tendo sido em vão os esforços de encontrar responsáveis para ela, os religiosos decidem conservar o menino entre eles e criarem-no da melhor forma possível que a já humilde vida franciscana permitisse. É em meio aos frades que Marcelino crescerá levado e algumas vezes maldoso com os animais, mas com um destino que já mais ninguém poderia supor.

Resenha

Lembro que quando eu era criança havia visto algumas vezes na televisão um desenho sobre um menino travesso que vivia entre frades franciscanos e que aprontava grandes confusões no pequeno convento onde moravam, brincando com os animais e pregando peças nos religiosos. Naquela época Marcelino Pão e Vinho não me chamou muita atenção e, mesmo sendo um catequizando, um desenho religioso me causavam mais tédio do que interesse. Coisas da infância, porque quando já era um pouco maior acordava cedo aos domingos para assistir os desenhos bíblicos que passavam na televisão.

Contudo, jamais tinha suposto que voltaria a falar de Marcelino Pão e Vinho, obra do escritor espanhol José María Sánchez-Silva. Só esse ano, com a campanha do #AnoDaEspanha, descobri que aquele desenho, que na infância não havia me cativado, não era só mais uma obra voltada para o público infantil, mas a adaptação de uma obra espanhola de sucesso que nascera como livro e que depois fora adaptada para a TV e o cinema.

Marcelino Pão e Vinho é uma narrativa simples e delicada onde claramente se vê a intensão de Sánchez-Silva em transmitir às crianças as crenças e os dogmas da fé católica, ensinar-lhes sobre a vida e sobre a religião. 

A Plaza Major, na cidade de La Alberca, foi um dos cenário
da adpatação filmica do livro Marcelino Pão e Vinho. Criative Commons.
Marcelino é um menino arteiro, que passa seus dias a fazer diversas travessuras com os frades, brincando com seu amigo imaginário, Manuel, e fazendo maldades com os pequenos animais que encontra no terreiro do convento. Mas em todas as suas ações não existe uma maldade deliberada, mas apenas as traquinagens de uma criança solitária, que vivendo dentro de uma casa de adultos onde todos tinham tantos deveres a cumprir, buscava distrair-se do modo que podia. Tinha certeza que era amado e os frades procuravam lhe ser atenciosos, mas ainda faltava ao menino a referência de uma mãe, e a companhia de outras crianças.

[SPOILERS em itálico] Porém, tudo muda para Marcelino quando ele encontra no sótão do convento a imagem de um Cristo crucificado. Marcelino que nunca tinha visto uma representação tão grande de Cristo começa a falar com a imagem que lhe responde suas perguntas e desce da cruz para conversar e lhe contar histórias. Bastante comovido com as condições de penúria em que encontrara Jesus, o menino decide, todos os dias, leva-lhe, em segredo, algum alimento, principalmente o pão e o vinho que Jesus comia com agradecimento.

[SPOILERS] Com o tempo Marcelino vai mantendo escondido dos frades seu novo amigo, até que estes mesmos desconfiam da comida que some e das escapadelas do menino, até o dia em que Jesus resolve atender um pedido de Marcelino e reuni-lo com a mãe no céu. Os frades que, por detrás das frestas da porta do sótão, observavam a conversa entre o menino e a imagem deram tudo aquilo por milagre quando a imagem tomou em seu colo o menino e o conduziu ao sono eterno.

[SPOILERS] O restante do enredo centra-se na viagem de Marcelino pelo céu ao lado de seu Anjo da Guarda em busca de se reencontrar com sua mãe. A medida que caminham pelas várias paisagens do paraíso e conversam, em flashbacks, o autor vai contando algumas das traquinagens do menino quando ainda estava vivo. Também vai sendo narrado o que acontecia aos frades na Terra após a morte de Marcelino e de como as circunstancias como esta aconteceu ter sido tomada pelas pessoas como um sinal de um milagre divino. Nessas passagens vamos ficando sabendo de que forma Marcelino havia sido abandonado e o que acontecera aos seus pais, bem como o destino do convento onde por tantos anos o menino havia vivido.

Vista frontal da Capela de El Cristo Caloco que serviu de
cenário para a versão filmica do livro. Critive Commons.
Trata-se de uma narrativa curta e bastante singela, apesar de muito bem narrada, mas que emociona seus leitores pela delicadeza de sua história e pelo destino comovente dado a criança. Esta delicadeza se expressa no ato dos frades em abrigarem a criança, no carinho que tinham pelo menino, na forma como lhe ensinavam sobre o mundo e sobre a fé e até mesmo nas travessuras de Marcelino e na forma como este buscava fugir do castigo. [SPOILERS em itálico] Mesmo a forma como Marcelino deixa o mundo e a maneira como o menino nomeia cada frade com alusão aos papéis que cada um possuíam no convento (Frei Papinha, Frei Dodói, Frei Porta, Frei Blém-Blém), mesmo aí podemos sentir a delicadeza da história de Marcelino Pão e Vinho. Um livro que não fala só de religião – ainda que esse seja o foco majoritário – mas também, de amor, de abandono, da infância, da morte, do respeito aos animais e das pequenas maldades e traquinagens infantis que não enxergam maiores consequências em seus atos. São estes elementos que deixam claro o caráter educativo-religioso do livro.

[SPOILERS] Uma coisa que acho válida ressaltar é que mesmo com a morte de Marcelino, de forma tão inesperada e até abrupta, em minha leitura não tive aquela sensação de perda que o leitor sente quando no enredo um personagem morre. Não sofri. Acho que a caminhada de Marcelino ao lado do anjo, afasta da narrativa a imagem da morte como sendo o fim de tudo. Ao contrário ela evoca a ideia de continuidade, da morte como apenas uma passagem para uma outra vida melhor e mais plena. Acho que esta era a ideia inicial de Sánchez-Silva: falar da morte como algo que não se deve lamentar, mas como uma passagem.

O livro foi publicado por Sánchez-Silva no ano de 1953 e um ano depois a trama foi adaptada para o cinema pelo diretor húngaro Ladislao Vajda, sendo um dos maiores êxitos do cinema espanhol[1]. No papel do travesso Marcelino atuou, aos 8 anos de idade, o ator espanhol Pablito Calvo. Como em seu livro Sánchez-Silva não revela o nome do vilarejo que serve de cenário a trama, no filme Vajda usa como cenários a pequena cidade espanhola de La Alberca, localizada na província de Salamanca, e a capela do Cristo Caloco em El Espinar, província de Segóvia, onde é criada toda a atmosfera do pequeno convento franciscano[2].

Por fim, gostaria de deixar uma nota pessoal como comentário final. Coincidência ou não, durante a semana em que estive lendo este livro, meu vizinho, que é muito religioso, passou as manhãs ouvindo canções de canto gregoriano, muito comuns entre os monges franciscanos. Engraçado que eu nunca tinha ouvido ele escutar este tipo de música, o que me deixou bastante curioso. Nem imagina ele que, enquanto ouvia suas canções, eu lia a história de Marcelino e dos frades que em um gesto de amor e compaixão se dedicaram a sua criação.

A edição lida é da Editora Record, do ano de 2005 e possui 176 páginas. Abaixo deixo um trecho do filme de Ladislao Vajda que entrou em cartaz, na Espanha, no ano de 1954.


Video - Marcelino, pan y vino, filme de Ladislao Vadja (1954)



[1] https://es.wikipedia.org/wiki/Marcelino,_pan_y_vino
[2] https://es.wikipedia.org/wiki/Marcelino,_pan_y_vino

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