quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Soldados de Salamina – Javier Cercas – Resenha

Por Eric Silva

Soldados de Salamina é uma narrativa que consegue misturar realidade e ficção de tal forma que se torna impossível separar aquilo que é real daquilo que é apenas ficcional. É desta forma que Javier Cercas, quinto escritor lido na campanha 2016 #AnoDaEspanha, nos conta um pouco da história da Guerra Civil Espanhola ocorrida na década de 1930. Neste livro, o autor, que também figura como um dos personagens da narrativa, nos conta a trajetória de Rafael Sánchez Mazas, um dos importantes nomes que contribuíram para a entrada do fascismo na Espanha e a consequente ascensão do ditador Franco ao poder. Uma narrativa e também um relato real, Soldados de Salamina é mais um livro a falar de um dos períodos mais conturbado e sombrio da história espanhola.

Sinopse

Javier Cercas é um escritor e jornalista que após se desiludir com sua carreira literária resolveu retornar ao jornalismo. Porém tudo muda para Javier depois que em uma confusa entrevista com Rafael Sánchez Ferlosio este lhe conta a história de como seu pai, Rafael Sánchez Mazas, um dos membros fundadores da Falange espanhola[1], havia conseguido sobreviver a seu fuzilamento já nos últimos dias da Guerra Civil Espanhola e fugido das últimas tropas republicanas que se encaminhavam para as fronteiras da Espanha com a França. Inquieto com a forma como a história de Mazas se desenrola, Javier decide investigar a fundo e escrever sobre aquele acontecimento que não era apenas mais um dos muitos ocorridos no momento mais funesto da história espanhola, como também foi contributivo para a legitimação do arbitrário e ditatorial governo franquista que viria em seguida.


Resenha

É impossível falar de Soldados de Salamina, livro do espanhol Javier Cercas e quinto da nossa campanha do #AnoDaEspanha, sem que se fale antes do que foi a Guerra Civil Espanhola, um dos maiores e mais importantes conflitos ocorridos em solo espanhol e que jogou o país em um regime ditatorial fascista de quase quatro décadas (1939 a 1976). Por isso começaremos com um resumo muitíssimo breve e até simplista dos fatos históricos (nos dedicaremos melhor a eles em outro momento) e depois falarei do livro.

Um pouco de história
Barricada montada pelas ruas das cidades
foram comuns durante o conflito

A Espanha da década de 1930 passava por grandes dificuldades econômicas em decorrência da depressão gerada pela crise de 29. Em meio ao cenário econômico muito pouco favorável, sobretudo, para as classes mais pobres da população, o panorama político se encontrava dividido e ao longo desta década dois grupos contrários emergem no cenário ideológico e político espanhol: ao lado dos Nacionalistas, a Falange Espanhola, representada por grupos conservadores da elite defensores de um regime totalitário de cunho fascista no país, e, do lado dos Republicanos, a Frente Popular, composta por líderes socialistas, anarquistas e comunistas desejosos de uma mudança social mais profunda.

Em 1936 a esquerda sob ao poder com Manuel Azaña Díaz, que teve como primeiro-ministro Largo Caballero, conhecido político socialista espanhol[2] que tentara implantar seu projeto de reforma agrária e trabalhista. Logo é crescente a insatisfação dos setores conservadores da sociedade espanhola (monarquia, grandes proprietários de terras, membros da Igreja Católica e o Exército) e que levou os falangistas, apoiados pelo Exército insurgente sob o comando do general Franco[3], a tentarem um golpe de Estado que, no entanto, fracassou, mas que deu início a guerra civil[4].

No combate que se inicia em 36, de um lado os nacionalistas com as tropas do Exército sob o comando de Franco iam sistematicamente dominando grandes parcelas do país a exemplo de Navarra, Castilha, Galícia, partes da Andalucía e Aragon, enquanto os republicanos se entrincheiravam nas regiões de Madri, Valencia e Barcelona, mais ricas, industrializadas[5] e onde o movimento sindical era mais forte e organizado.

Contudo, em 1939, os nacionalistas que além do Exército, contavam com o apoio da Alemanha Nazista e da Itália Fascista vencem os Republicanos, cujas tropas resistentes eram composta em sua maioria pelos trabalhadores organizados pelos sindicatos. Findada a guerra Franco instaura um regime ditatorial que perdurará até mesmo após sua morte.

Por sua vez, os momentos finais da batalha foram marcados por muitos episódios de fuzilamentos em massa de inimigos políticos cometidos tanto pelos republicanos como pelos nacionalistas, estes últimos bastante citados em outra obra resenhada aqui no blog: A Sombra do Vento, de Zafón, e cujo cenário da trama é a Barcelona franquista, ou seja, posterior ao fim do conflito. Porém, diferentemente, o foco da narrativa de Javier Cercas se centra no episódio de um dos fuzilamentos cometidos pelos republicanos.

O Livro

Rafal Sánchez Mazas
Soldados de Salamina situado nos tempos atuais vai, através da investigação jornalística de Javier Cercas – que além do autor do livro é também seu personagem principal –, recriar os conturbados momentos finais da guerra através da aventura de Rafael Sánchez Mazas, um dos fundadores da Falange que escapa de ser fuzilado pelos republicanos.

Mazas era um literato, um escritor oriundo de uma família espanhola tradicional que inspirado pelas ideias fascistas que conhecera na Itália ajudou na fundação da Falange Espanhola e trabalhou ativamente para a difusão de suas ideias, tomando parte no conflito civil que se desenrolou anos depois. Em 1937, Sánchez Mazas foge da embaixada chilena, onde se encontrava refugiado, com o objetivo de tentar atravessar a fronteira francesa, mas acaba por não fazê-lo e passa a liderar um destacamento dos Nacionalistas. Contudo, pouco depois é preso e levado ao barco Uruguay que se encontrava atracado em Barcelona sob o poder dos Republicanos.

Em 39, com outros presos políticos é levado ao santuário de Santa Maria de del Collell, onde se dá o episódio do fuzilamento do qual Mazas escapa por quase milagre e pela omissão de um soldado republicano que não o mata e nem o entrega aos seus superiores após encontrar o fugitivo em um bosque. É graças aquele inesperado e inexplicável ato do soldado republicano que de fato Sánchez Mazas consegue escapar da morte. Dali o falangista foge sem rumo pela região, conta com a ajuda de desertores locais que o encontram e sobrevive. Contudo muito pouco se sabia do que acontecera entre o momento de sua fuga do fuzilamento e o dia em que Sánchez se reuniu aos nacionalistas.
Santuário de Santa Maria del Collell onde Sánchez Mazas
ficou preso até o fuzilamento. Imagem de Olga Gairin

Após ouvir toda essa história do próprio filho de Mazas, Javier fica obcecado pelo que teria acontecido ao falangista durante o tempo em que ele ficara vagando pelos bosques da região de Cornellà de Terri. Movido pelo desejo de restituir os passos do falangista e narrá-lo através de um relato real, o jornalista é levado a uma complicada busca por informações e pelas pessoas que ajudaram Sánchez Mazas e vivenciaram com ele aqueles momentos confusos.

Soldados de Salamina é daqueles livros que não possui um grande mistério, nem muita ação, ou um caso chocante, nem é mesmo uma narrativa filosoficamente complexa. Todavia, o valor intrínseco da narrativa está naquilo que ela te ensina sobre um momento histórico importante que marcou um país e cujos desdobramentos podem ser sentidos até hoje. Por isso é daqueles livros que falam sobre a aventura humana de viver, sobretudo, em sociedade.

Por tratar de um personagem real, com uma história que realmente aconteceu é um tanto complicado no livro saber o que é real e o que é ficcional porque ambos se misturam. Se isso não bastasse outros personagens também são reais e centrais na trama a começar pelo autor da obra, Javier Cercas, e de seu amigo, o também escritor Roberto Bolaño.

Foto da região de Cornellà del Terri, por onde
Sánchez Mazas vagueia por alguns dias.
A cachoeira da imagem é Salt de Can Figa e não aparece na narrativa.
Fotografia de Carme Musquera
O livro é dividido em três grandes capítulos. No primeiro somos apresentados a Javier Cercas que além de falar de sua malsucedida carreira literária nos explica como chegou a Sánchez Mazas e, ao longo do capítulo, vamos acompanhando as suas investigações do passado do falangista. Na segunda parte do livro, o jornalista segue narrando suas descobertas nos dando detalhes da vida e da trajetória de Mazas durante os conturbados anos da guerra. Porém insatisfeito com o resultado e sentindo que seu relato está incompleto, Javier nos conduz ao terceiro e último capítulo no qual emerge um outro personagem, Miralles, um anônimo, ao contrário de Sánchez Mazas, mas que dava rosto aos muitos que corajosamente combateram os fascistas, ajudaram a escrever a História, mas foram por ela esquecidos. É neste último capítulo que aos pouco vamos nos dando conta de que o objetivo de Javier não era de fato relatar a aventura vivida por Sánchez Mazas, mas compreender porque o soldado que o encontrou no bosque logo após sua fuga não o matou ou o delatou aos seus oficiais.

Mesmo o livro tendo tudo para ser chato não o achei, muito provavelmente porque estou muito envolvido com tudo que diz respeito à Espanha, mas também porque é a obra de um autor cujo talento é bastante reconhecido. 

Minha curiosidade sobre a Guerra Civil Espanhola já era evidente porque este importante momento da história espanhola já havia perpassado outras leituras, como já mencionei. Também foi durante a Guerra Civil que Garcia Lorca, um dos autores que li durante a campanha [vide], perdeu sua vida sendo mais um dos que engrossou as fileiras de prisioneiros fuzilados durante o conflito. A guerra civil e o posterior regime ditatorial marcou a vida e a literatura da Espanha, isso para mim é mais do que evidente e com Soldados de Salamina pude conhecer um pouco mais o cenário da época, fechando um ciclo que se iniciou com a Sombra do Vento.

O autor
Além do mais, a história de Mazas é curiosa porque oportuniza ao leitor conhecer mais de perto quem foram aqueles que irresponsavelmente alimentaram uma das doutrinas políticas mais sádicas e desprezíveis da história, o nazifascismo, e que conduziu a história da Europa para um dos seus momentos mais soturnos. Ao mesmo tempo o livro traz um importante ensinamento que o leitor só encontrará já no final do terceiro capítulo.

Através de Miralles Javier desperta para algo que é fundamental na vida humana, mas que toma contornos mais nítidos em tempo de guerra quando muitas vidas são estupidamente interrompidas e depois esquecidas, virão números, baixas: só morremos de fato quando não resta quem se lembre de nós. Isso é algo que já refleti muito, principalmente quando penso nos milhões de seres humanos que nos precederam, mas que apenas um pequeno punhado até hoje são lembrados. Aqueles de fato já estão mortos, porque para a História eles já não possuem rostos ou nomes.

Recomendo o livro para quem gosta de história, para quem quer conhecer mais da Espanha, mas para os que buscam apenas mais uma distração, advirto que Soldados de Salamina pode não ser o melhor dos livros para isso. Por fim, o livro foi adaptado para o cinema em 2003 pelo diretor David Trueba.

A edição lida é da Editora Asa Edições, do ano de 2002 e possui 176 páginas.





[1] Organização política espanhola inspirada no fascismo italiano fundado no ano de 1933.
[2] http://historiadomundo.uol.com.br/idade-contemporanea/guerra-civil-espanhola.htm
[3] Francisco Franco Bahamonde foi um militar, chefe de Estado e ditador espanhol, principal líder da revolta nacionalista que deu origem a Guerra Civil Espanhola.
[4] http://www.infoescola.com/historia/guerra-civil-espanhola/
[5] http://www.infoescola.com/historia/guerra-civil-espanhola/

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