terça-feira, 29 de novembro de 2016

A Catedral do Mar – Ildefonso Falcones – Resenha

Por Eric Silva

“Livre é o estado daquele que tem liberdade. Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”.

(Ilha das Flores – Jorge Furtado)

Sétimo e último livro do nosso itinerário pela literaturaEspanhola, A Catedral do Mar, livro de estreia do barcelonês Ildefonso Falcones, é um romance intenso e uma verdadeira aula de História sobre a Idade Média. Com uma ampla diversidade de temas como a questão religiosa e a injustiça social no período, este é um livro intenso e épico que narra a vida conturbada de Arnau, desde os trágicos acontecimentos de sua concepção até os diversos desafios que a vida e a busca pela sobrevivência lhe impuseram. Um livro sobre fé, intrigas e injustiças, que fala da luta pela liberdade em um mundo marcado pela servidão e exploração dos camponeses que garantiam os privilégios de uma nobreza soberba e cruel.

Sinopse

A Barcelona do século XIV já era uma cidade próspera e orgulhosa para onde se dirigiam todos os anos muitos camponeses fugidos de seus senhores, atraídos pela promessa de liberdade oferecida pela grande cidade condal. Também ali, no bairro da Ribeira, os barceloneses mais humildes, à custa de seus esforços e da contribuição de mercadores e pessoas importantes da cidade, erigiam a imponente Catedral de Santa Maria del Mar, a conclamada igreja do povo. Uma grandiosa construção que seria paralela a intensa e conturbada história de um dos seus mais devotados filhos, Arnau Estanyol, que de estivador chegaria a se tornar barão.

Arnau era filho de um camponês que em busca de liberdade e fugido dos abusos de seu senhor feudal, se refugiara em Barcelona na esperança de tornar-se um cidadão livre. Ainda menino conhece a tirania dos nobres, a revolta, a pobreza e a fome, mas buscando sobreviver às injustiças de sua época torna-se estivador, palafreneiro, soldado e depois cambista. Vive uma vida fatigante, sempre à sombra de Santa Maria do Mar, mas marcada por aventuras que lhe conduziriam a um destino surpreendente e épico.

Resenha

Quando encontrei este livro, já havia me decidido que encerraria a campanha do #AnoDaEspanha com o livro Marcelino Pão e Vinho, obra do espanhol José María Sánchez Silva. Mas A Catedral do Mar apareceu para mim antes que divulgasse minha decisão. Um romance histórico passado na Barcelona Medieval, a cidade espanhola que por mim é a mais querida, me deixou tentado a inserir mais um livro no itinerário. Depois de A Sombra do Vento, primeiro livro da campanha, este seria o meu retorno literário à Barcelona. Eu tinha vinte dias para ler suas 589 páginas e me dediquei a fazê-lo com afã, por sorte, a qualidade da narrativa fez tudo sozinha e terminei antes do prazo. Hoje lhes apresento aquela que foi uma das melhoras leituras que fiz no ano de 2016.

Bernat Estanyol era um simples camponês, mas que crescera ouvindo de seu pai as histórias de seus corajosos antepassados, que um dia foram livres das obrigações feudais e donos da terra. Porém seu pai, como todos os outros camponeses, nascera preso à terra dos nobres e sujeito a sua violência e exploração, e deixara a Bernat a mesma condição servil e o direito de uso da terra de onde tirava o sustento e o pagamento dos pesados impostos.

Na festa de seu casamento com a jovem Francesca, Bernat é surpreendido pela chegada do senhor das terras onde viviam, Llorenç de Bellera, que tomando parte na festa de seu servo, exige-lhe o direito de deitar-se com a noiva em sua primeira noite. Fruto da violência sofrida por Francesca nasceria Arnau por quem a moça não demonstrava nenhum afeto. Porém as perseguições de Llorenç se intensificam, e para salvar a vida de Arnau, Bernat foge do feudo levando consigo a criança. Acossado pelos homens de Bellera, Bernat vê como único refúgio possível a cidade de Barcelona que na época prometia cidadania e liberdade a todos que nela vivesse por um ano e um dia. Ali também poderia recorrer a única irmã, Guiamona, que vivia com o esposo em Barcelona e poderia abrigá-lo durante o tempo necessário para conseguir a cidadania barcelonesa.

É aí que se inicia a história épica de Arnau, o verdadeiro protagonista da trama, que cresce junto com a cidade, sendo testemunha e vítima das injustiças e atrocidades de uma época conduzida pela lei da tradição, da exploração e dos jogos de interesses, e governada pelo fanatismo, pelo ódio e pela nobreza indiferente a miséria por ela imposta ao restante da população.

Quem ler A Catedral do Mar logo percebe que esse livro é o retrato de uma época, mas que não se limita a falar apenas dela e conduz o seu leitor à reflexão acerca das nuanças da natureza humana por vezes soberba, injusta e mesquinha, mas igualmente capaz de nobreza e hombridade.

Inveja, intriga, soberba, ambição, preconceito e fanatismo, tudo está presente neste romance que transcursa cinco centenas de páginas sem jamais se tornar cansativo ou monótono. Mas o seu tema principal é, sem dúvida, a luta pela liberdade e contra as injustiças que os homens cometem uns contra os outros em nome de valores distorcidos pela conveniência dos interesses.
Em diversas passagens este livro me fez refletir, que não é o destino ou um plano divino que inflige ao homem o sofrimento, mas que é o homem o lobo do homem (homo homini lupus), como afirma a máxima do filósofo inglês Thomas Hobbes. Não são a Inquisição e os direitos feudais consequências da vontade divina ou por ela legitimadas, mas obra unicamente da vontade dos homens, que outorga para si o direito de infligir sofrimento ao outro em prol de seus próprios interesses.

O título do livro se deve a catedral gótica de Santa Maria del Mar, construída em Barcelona entre os anos de 1329 e 1383 a partir do projeto dos arquitetos Berenguer de Montagut e Ramón Despuig. A igreja do povo, como é chamada, levou meio século para ser concluída e foi construída, graças, sobretudo, ao trabalho devotado do povo mais humilde da cidade, sobretudo dos bastaixos, os descarregadores do porto de Barcelona que carregavam nas costas as pesadas pedras que serviram para a construção do templo. Em homenagem aos esforços e devoção destes trabalhadores diferentes insígnias dos bastaixos carregando as pedras da construção foram gravados na porta da catedral e existem até hoje.
Visão interna da Catedral. Wikimedia Commons.


No romance a construção da Catedral e a santa homenageada são importantes vetores na determinação da história dos personagens principais, como se fosse o tempo também um dos personagens da narrativa. Mas a construção de del Mar não é o único tema tratado pela história. Ao longo de suas páginas a obra de Ildelfonso vai perfilando um esboço da Idade Média, das relações servis e do poder da nobreza e da Igreja. Como poucos livros, A Catedral do Mar não segue a trilha das novelas cavaleirescas, que exaltam os feitos da nobreza forjando para época uma imagem que só cabe aos contos de fadas. Ao contrário, o livro de Idelfonso é uma sinopse das leis severas e das pesadas obrigações impostas aos camponeses, bem como aos cidadãos das poucas cidades livres da época, a exemplo de Barcelona, a principal cidade catalã do período. O livro é um esboço da perseguição religiosa aos judeus, da intolerância religiosa dos católicos e da intransigência dos Tribunais do Santo Ofício.

Acho que por ser advogado, o autor tenha dado um foco privilegiado às regras sociais, às leis injustas que privilegiavam a minoria bem-nascida e também as regras comerciárias da época. Porém não o fez como um livro didático que enumera lei e normas, mas as utilizou como pano de fundo para determinar o destino de seus personagens, influenciando suas decisões e os rumos de suas vidas. O episódio do estupro de Francesca é o principal exemplo disso, uma vez que fora legitimado pelo jus primae noctis ou o direito da primeira noite, uma antiga lei medieval que determinava que o senhor feudal tinha direito de desvirginar as noivas dos camponeses em sua primeira noite. Foi este episódio o grande desencadeado de toda a trama: o nascimento de Arnau, as dúvidas sobre sua paternidade, a fuga de Bernat meses depois e o destino humilhante de Francesca.

O trabalho de pesquisa histórica de Idelfonso é também um ponto imprescindível a se destacar. No final da edição, algumas páginas foram dedicadas pelo autor a explicação das suas inspirações para o livro e é ali que descobrimos que A Catedral do Mar é uma grande narrativa que mistura fatos históricos verídicos, pessoas e lugares reais com a capacidade imaginativa de seu autor.

Para compor suas personagens e as tramas por elas vividas, Idelfonso se dedicou por anos a uma apurada pesquisa histórica em documentos do acervo do Ateneu Barcelonês, um importante centro cultural de Barcelona que já foi tema de uma de nossas postagens [link]. O resultado foi uma narrativa de dimensões épicas que a cada capítulo reserva ao leitor uma nova surpresa, alguma nova complicação e outros panoramas da época e da vida de seus contemporâneos.

Mas mais do que um panorama da idade média ou da vida na Barcelona medieval, A Catedral do Mar abriga um séquito de personagens surpreendentes e pulsantes. Pessoas simples do povo, da elite soberba, do alto e do baixo clero, meretrizes, escravos e judeus. Mas de todos os que figuram o elenco da narrativa, o personagem mais cativante é o próprio Arnau.

Ainda criança Arnau já demonstrava sua simplicidade, a retidão de seu caráter e um coração sincero e determinado. É comovente a coragem e a determinação do garoto quando ainda adolescente passa a trabalhar como bastaix do porto, carregando nas costas os pesados fardos que eram descarregados das embarcações ou para elas encaminhados, além das enormes pedras que serviriam à construção da Catedral e que eram carregadas por todos os bastaixos. É como bastaix que Arnau vive alguns de seus anos mais duros, porém felizes.
Gravura de bastaix gravado nas portas da Catedral de Santa Maria do Mar, Barcelona. Foto: Tom B.

O trabalho de um bastaix era difícil e fatigante, mas eram todos eles trabalhadores unidos que aceitavam de bom grado as dores de seu trabalho e orgulhavam-se da catedral que ajudavam a construir. Arnau, que tinha pelos bastaix uma grande admiração e amava a Virgem del Mar como sua própria mãe, foi recebido pelos bastaixos como um irmão, e ao lado deles conseguia sustento para si e para o irmão adotivo, Joan, quando o pai lhes falta. Mas a vida lhe reservaria muitas reviravoltas e novos desafios que o levariam a uma posição muito diferente da qual poderia um dia imaginar. Mas ao contrário de muitos, nem a dureza da vida, nem as injustiças que sofrera e nem aquelas que ainda sofreria, não tornaram Arnau um homem amargo ou frio. Ao contrário, sua personalidade não se dilui, nem sua inclinação à humildade e a justiça. Um personagem admirável sem deixar de ser, no entanto, um humano que erra, que tem suas fraquezas e seus momentos de covardia e hesitação.

Ainda mais surpreendente é como, ao longo de sua vida, Arnau vai se envolvendo nas situações mais complicadas, sobrevivendo à morte do pai, à guerra e à peste até encontrar seu desfecho. Por isso ele me fez lembrar de outro personagem muito famoso da literatura clássica universal: Jean Valjean, o protagonista de Os Miseráveis, livro do francês Victor Hugo. Como Arnau, Jean passa por diversos desafios em sua vida enfrentando a ambição e a injustiça daqueles que se interpõem em seu caminho. Os Miseráveis é também um livro centrado na história de vida de seu personagem principal e ao mesmo tempo é o retrato de uma época. Um livro também fantástico e épico.

Após 10 anos da publicação de A Catedral do Mar na Espanha, em agosto deste ano Idelfonso lançou, pela editora espanhola Grijalbo, o livro Los herederos de la tierra, que dá prosseguimento aos acontecimentos narrados na Barcelona Medieval de Arnau Estanyol. O livro ainda não tem previsão de publicação no Brasil.

Em conclusão, para os que não gostam de história talvez as descrições históricas da narrativa pareçam cansativas, mas para mim que amo história, que sou fascinado pela Idade Média e que tenho um amor platônico por Barcelona, este livro terá para sempre um lugar de honra na estante, junto com A Sombra do Vento e Os Miseráveis.


A edição lida é da Editora Rocco, do ano de 2007 e possui 589 páginas.



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