quinta-feira, 26 de maio de 2016

A Sombra do Vento – Carlos Ruiz Zafón - Resenha

Por Eric Silva

“Os leitores extraem dos livros, consoante o seu carácter, a exemplo da abelha ou da aranha que, do suco das flores retiram, uma o mel, a outra o seu veneno” (Friedrich Nietzsche).

Os livros são capazes de mudar vidas, até mesmo guiá-las. Não são apenas palavras impressas no papel, mas o clamor da alma de quem as escreve, que se mistura a alma de quem as lê, em um frenesi de sensações e sentimentos tão violento quanto o caudal de um rio furioso.  Foi esse frenesi, tão parecido com a sensação de estar apaixonado, que revolucionou a vida de Daniel e fez dele o homem que se tornou. Que o guiou pelas ramblas e ruelas da antiga Barcelona franquista, em busca dos rastro de alguém que parecia ter sido engolido pelas sombras e pelo fogo.


Resumo

Obra do escritor espanhol Carlos Ruiz Zafón, A Sombra do Vento narra as aventuras de Daniel Sempere, um jovem barcelonês em busca de desvendar o passado de Julián Carax: um autor pouco conhecido, que desapareceu do mapa e que, se isso não bastasse, estava tendo todos os seus livros sistematicamente destruídos por um misterioso incendiário.


Narrado em primeira pessoa pelo próprio Daniel, o livro começa com a noite em que, ainda menino, ele acorda desesperado por não conseguir mais lembrar do rosto da mãe, falecida alguns anos antes. Como consolo, o pai do menino leva-o no meio da noite a um lugar escondido na cidade de Barcelona. Um lugar cuja localização deveria continuar em segredo. Tratava-se do Cemitério dos Livros Esquecidos, uma colossal biblioteca onde livros de todas as partes eram resguardados, provavelmente do furor daqueles tempos de ditadura. 

Mas as pessoas que conheciam pela primeira vez aquele castelo de livros tinham o direito de levar para si um exemplar de suas muitas estantes e conserva-lo consigo para sempre. Daniel teria naquela noite a oportunidade de resgatar do cemitério um daqueles livros. Por isso, caminhando pela infinidade de estantes empoeiradas, o menino sai em busca de um volume que lhe agradasse e, perdido naquela profusão de livros, encontra aquele que seria o estopim para uma aventura que mudaria os rumos de sua vida: A Sombra do Vento, o livro de um escritor de nome Julián Carax.

Feliz com seu achado, Daniel mergulha no enredo de A Sombra do Vento naquela mesma noite e fascinado perde a noção do tempo, devorando toda a narrativa ao longo da madrugada.

Mas como todo bom leitor, Daniel queria mais. Queria ler outros livros daquele fantástico autor. Contudo, para a sua primeira decepção, seu pai, “livreiro de raça e bom conhecedor dos catálogos editoriais”, nunca havia ouvido falar nem do livro nem de seu autor. Carax era um mistério.

Diante daquele impasse, resolveram pai e filho consultar outro especialista que pudesse ter alguma pista: o rico e excêntrico Gustavo Barceló. Seria através de Barceló e Clara, a sobrinha cega do milionário, que o menino teria a sua segunda frustração: a vida de Carax parecia envolta em mistérios e sua história, cheia de lacunas. Pior do que isso, ao que parecia todos os livros do autor estavam sendo queimados por um louco que os comprava a qualquer preço, unicamente para depois deitar-lhes fogo.

A despeito das poucas informações sobre Carax, Daniel não se dá por vencido e decide, a partir daquele dia, reunir informações que o ajudassem a revelar o segredo da vida de Carax. O livro de Zafón irá, então, nos guiar entorno desta busca que se arrasta por anos, mas que contribuiu para o crescimento do próprio Daniel que incansável persistia em reunir todas as informações possíveis sobre a vida de Carax.

Resenha

A Sombra do Vento é uma narrativa cheia de surpresas. À medida que vamos lendo o magnetismo da escrita de Zafón prende nossa curiosidade e cada nova revelação tece uma parte de outra história paralela e marcada por sofrimento e desencontros: a história do passado de Julian Carax. 

Daniel é, a princípio, um garoto ingênuo, mas que ao longo da história vai ganhando maturidade, porém sem perder o frescor que é comum a juventude, nem a capacidade de se apaixonar por qualquer mulher que lhe encantasse os olhos. Pouco a pouco, aquele menino entristecido do primeiro capítulo vai dando lugar a um outro, mais aventureiro, mais aberto ao desconhecido. A verdade é que Carax foi para ele uma forma de preencher o vazio deixado pela morte da mãe.

Muito intenso em seus sentimentos e emoções, Daniel é um personagem cativante, a pesar de em alguns momentos se mostrar inseguro, vacilante – ora corajoso e imprudente, ora temeroso e fraco – mas são características o que o torna mais humano.  Ainda me impressionou algumas vezes como com o seu jeito manso, sua malícia e astúcia convencia as pessoas a dizerem o que ele queria saber. Um “diabinho”, mesmo que nem sempre seus ardis fossem suficiente e o amigo Fermín tivesse que intervir. É através de seus passos e andanças que vamos conhecendo a cidade e seus curiosos e melancólicos habitantes.

A Barcelona descrita na história é uma cidade marcada pelos despojos da Guerra Civil e envolta na atmosfera pesada e aterradora da censura da ditadura de Francisco Franco (1939 a 1976). As marcas do conflito estão em todos os lugares, não só nos restos de estilhaço na Plaza de San Felipe Neri, mas também nas pessoas. A Sombra do Vento, parafraseando Saramago, é um ensaio sobre a amargura e a solidão. Quase todos os personagens são de alguma forma atingidos pela amargura. São pessoas que sofreram os terrores do conflito ou que perderam pessoas queridas no Castillo de Montjuic, e que ainda viviam os dissabores da censura ditatorial e o gosto amargo de vidas solitárias.

O terror causado pelos anos de ditadura é marcante na história através da figura do inspetor Francisco Javier Fumero e que ao longo da história vai ganhando espaço e importância na narrativa como o principal antagonista de Daniel e seu companheiro de aventuras Fermín Romero de Torres.

Fumero era um homem asqueroso e louco com uma lista de assassinatos e torturas tão grande que fazia dele o homem mais perigoso de Barcelona. Além disso, o inspetor tinha Fermín como um de seus maiores desafetos.
Plaza de San Felipe Neri. 
Imagem: 
http://irbarcelona.com/

Por sua vez, Fermín era um alegre e beberrão morador de rua e que Daniel resgatou da indigência lhe dando um trabalho na livraria do pai. Um literato que viva fazendo referências aos clássicos com bom humor e bastante espirituoso. Mas Fermín é também um personagem que considero curioso. Mesmo tendo sofrido horrores durante e depois da Guerra Civil, ele conservava a alegria, a espiritualidade e a juventude que somente os personagens mais jovens da trama conseguiam esboçar e, mesmo assim, sem a mesma intensidade. Fermín juntamente com Daniel são a alma da narrativa e por isso, em meados da história, o ex-mendigo e Fumero se tornam pontos-chaves para a descoberta do mistério de Carax. 

Outros personagens são importantes, como Clara Barceló, Beatriz Aguilar, a família Aldaya, Nuria Monfort e principalmente Julián Carax. Entretanto falar deles revelaria segredos da narrativa. Mas são personagens que ao decorrer da narrativa tem suas vidas entrelaçadas como se fossem os fios de uma grande e complexa tapeçaria.

Lindo e sincero, A Sombra do Vento foi o livro que despertou em mim uma paixão pela Espanha, particularmente por Barcelona, que até então eu não tinha. Zafón nos mostra os recantos mais belos e também os mais tenebrosos da Barcelona da década de 1950, fazendo um passeio que nos revela os segredos daquela cidade à beira do Mar mediterrâneo.
O autor.
Foto: http://www.carlosruizzafon.co.uk/

Assim como o livro de Carax se caracterizava por ser uma narrativa fantástica que envolvia o sobrenatural e o misterioso, a obra de Zafón mergulha nesse mesmo universo de ausências, mistérios, perdas e solidão. O autor ainda demonstra uma sensível capacidade de compor imagens singelas e tenebrosas em que reúne beleza e sensibilidade – “uma rosa rodeada de inverno”. Tamanho foi meu entusiasmo que antes de terminar a leitura fiz uma postagem especial com alguns pontos interessantes da cidade que aparecem no livro (clique aqui).

Além disso, Zafón escreve com um lirismo capaz tanto de encantar como prender o seus leitor.

Pelo espaço de quase meia hora deambulei entre os meandros daquele labirinto que cheirava a papel velho, a pó e a magia. Deixei que a minha mão roçasse as avenidas de lombadas expostas, tentando a minha escolha. Avistei, entre os títulos sumidos pelo tempo, palavras em línguas que reconhecia e dezenas de outras que era incapaz de catalogar. Percorri corredores e galerias em espiral povoadas de centenas, milhares de volumes que pareciam saber mais acerca de mim do que eu deles. Daí a pouco, assaltou-me a ideia de que atrás da capa de um daqueles livros se abria um universo infinito por explorar e de que, para além daqueles muros, o mundo deixava passar a vida em tardes de futebol e folhetins radiofónicos, contentando-se em ver até onde alcança o seu umbigo e pouco mais. Talvez fosse aquele pensamento, talvez o acaso ou o seu parente de gala, o destino, mas naquele mesmo instante soube que já tinha escolhido o livro que ia adoptar. Ou talvez devesse dizer o livro que me ia adoptar a mim. Assomava timidamente no extremo de uma estante, encadernado a pele cor de vinho e sussurrando o seu título em letras douradas que ardiam à luz que a cúpula destilava lá do alto. Aproximei-me dele e acariciei as palavras com a ponta dos dedos, lendo em silêncio.

A Sombra do Vento
JULIÁN CARAX

Nunca tinha ouvido mencionar aquele título ou o seu autor, mas não me importou. A decisão estava tomada. Por ambas as partes. Peguei no livro com extremo cuidado e folheei-o, deixando esvoaçar as suas páginas. Libertado da sua cela na estante, o livro exalou uma nuvem de pó dourado. Satisfeito com a minha escolha, voltei pelo mesmo caminho ao longo do labirinto levando o meu livro debaixo do braço com um sorriso impresso nos lábios. Talvez a atmosfera feiticeira daquele lugar tivesse levado a melhor sobre mim, mas tive a certeza de que aquele livro tinha estado ali à minha espera durante anos, provavelmente desde antes de eu nascer.

Essa passagem além de revelar importantes aspectos do lirismo da escrita de Zafón mostra como este registra os fatos e os lugares de forma criativa e tece as história de seus personagens ligando-os entre si de forma majestosa e inteligente. Mesmo eu tendo lido uma versão portuguesa publicada pela Editora Dom Quixote e sentido dificuldades com palavras pouco correntes no Brasil, ainda consegui me apaixonar pela forma como ele compõe sua história, pela sua capacidade criativa. Um encantamento que nos levou a homenagear a literatura espanhola declarando 2016 o ano da Espanha no blog.

Como a edição que li é digital e estrangeira, já me decidir por comprar a edição brasileira impressa. Aqui no Brasil o livro foi publicado pela Suma de Letras com 399 páginas.

Ler A Sombra do Vento foi ainda mais interessante porque fala de um apaixonado pelos livros, assim como eu. Além disso a narrativa misturou tudo o que gosto: lugares incríveis, mistério, uma boa escrita e aventura. Enfim, A Sombra do Vento fala de mim, fala de você, leitor. Fala de nós, amantes dos livros que acreditamos nas palavras de Jorge Luis Borges que diz: “sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria”. 

No dia 14 de maio a obra completou seu aniversário de 15 anos de publicação. A data me faz pensar como foi possível ter ficado todo esse tempo sem ter lido A Sombra do Vento. São coisas da vida. Mas o importante é que esse momento chegou e hoje posso suspirar e dizer: quero um dia encontrar o caminho para o Cemitério dos Livros Esquecidos.

Obrigado pela atenção.
Eric Silva dos Santos

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