Mostrando postagens com marcador Romance Noir. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Romance Noir. Mostrar todas as postagens

sábado, 5 de fevereiro de 2022

[Especial Zafón] Marina - Carlos Ruiz Zafón - Resenha

Por Eric Silva

14 de março de 2021, Ano da Itália

“Cedo ou tarde, o oceano do tempo nos devolve as lembranças que enterramos nele”.

(Carlos Ruiz Zafón, Marina)

Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.

Diga-nos o que achou da resenha nos comentários.

Está sem tempo para ler? Ouça a nossa resenha, basta clicar no play.

Terror e mistério se misturam neste que é, sem dúvida nenhuma, o livro de transição entre o Zafón que escreveu a Trilogia da Névoa e aquele que cativou leitores do mundo todo com a quadrilogia do Cemitério dos Livros Esquecidos. Unindo um pouco de cada proposta, Marina é um livro sobre perdas, separações, loucura, genialidades deturpadas, intrigas, ambições, família e amor juvenil, mas em cujas páginas habitam criaturas malignas nascida do ódio e da perversão de alguém do passado. Uma narrativa que antes de A Sombra do Vento desnuda e viola os segredos da milenar cidade de Barcelona, e que apesar do enredo muito mais fantástico do que real, aborda o quanto são frágeis a sanidade e a vida humana.

Sinopse do enredo

Barcelona, setembro de 1979. Óscar Drai é apenas um menino solitário de 15 anos que vê seus dias transcorrerem na penumbra das galerias do internato onde seus pais o colocaram, mas seria naquele final de ano, percorrendo as ruelas do decadente bairro de Sarrià que sua vida mudaria para sempre.

Tudo começa quando, em uma de suas deambulações pelas ruas do bairro, ele se depara com um casarão aparentemente abandonado. Tomado pela curiosidade, o garoto aventura-se para além dos portões da propriedade e lá dentro é atraído pelo som de uma bela voz de mulher acompanhada pelo som de um piano. O indescritível som partia de uma galeria envidraçada onde cem velas bruxuleavam um brilho tênue.

Hipnotizado e sem se dar conta de sua imprudência, Óscar adentra o recinto e nele se depara com outro objeto enfeitiçado que lhe chama a atenção: ao lado do megafone que reproduzia aquela canção, repousava um relógio de bolso quebrado e muito antigo. Mas, subitamente, o encantamento se quebra quando o garoto se dá conta de que durante todo aquele tempo não esteve sozinho naquele lugar. Assustado com a presença inesperada, ele foge, mas por reflexo leva consigo o relógio.

Dias depois, ao retornar à casa para devolver o objeto roubado, Óscar conhece Marina, a jovem de olhos cinzentos que seria a chave para uma revolução nos dias monótonos do rapaz. Marina era filha de Germán, proprietário do casarão, e ainda que fosse tão jovem quanto Óscar, já carregava nos ombros a responsabilidade de cuidar do pai idoso na imensa e descaída propriedade, onde viviam com o espectro de uma felicidade passada que se deteriorou após a morte da mãe da garota. Ainda assim, o calor e a amorosidade daquelas duas pessoas enleiam o garoto que não consegue mais deixá-los, fugindo do internato sempre que possível para a casa daquela pequena família.

É convivendo com Marina que Óscar passa a aventurar-se pelos mistérios do passado de Barcelona, e em uma dessas aventuras, os dois presenciam uma cena estranha num antigo cemitério, onde uma mulher coberta por um manto negro visita uma sepultura sem nome, sempre à mesma data, à mesma hora.  Em um ímpeto imprudente, os dois se lançam ao desconhecido, passando por palacetes e estufas abandonadas, lutando contra manequins vivos e se defrontando diversas vezes com o símbolo de uma mariposa negra, numa busca desesperada por solucionar um mistério antigo e envolto em perigos que remontam aos anos de 1940.

Resenha

O último livro de Zafón que me restava resenhar, Marina é um livro de transição dentro da obra do escritor barcelonês e com ele me despeço definitivamente de meu querido autor. Depois desse texto resta-me apenas algumas postagens de análise de sua obra e encerrarei enfim esse longo projeto que se arrasta já há alguns anos (desde 2017).

Marina, como disse agora a pouco, é um livro de transição que demarca uma fronteira tênue entre o estilo narrativo inicial de Zafón que remonta as suas histórias infanto-juvenis de terror e povoa as páginas dos livros da série Trilogia da Névoa, e o estilo que se desenham na sua série mais famosa, O Cemitério dos Livros Esquecidos, com a qual ficou conhecido e foi consagrado como um dos maiores escritores espanhóis da história recente. Marina é um livro de transição, porque agrega em si o terror e as criaturas sombrias e macabras das primeiras narrativas do autor com a transformação de Barcelona em cidade-personagem, desterro de passados sombrios e trágicos no bom estilo investigativo de A Sombra do Vento.

Óscar Drai ainda não é um Daniel Sempere (vive no tempo futuro deste último e não tem um passado prévio que se misture simbioticamente ao passado da cidade), mas em muitas passagens do texto parece ser seu eco, seu alter ego. Ainda assim, Marina prenuncia a atmosfera sombria, decadente e antiga da cidade catalã envolta em brumas e vapor. O livro revira o passado de seus habitantes, exuma seus cadáveres, revolve o pó de seus palacetes para ouvir o eco de tragédias esquecidas, e nisso tudo faz lembrar o magnum opus de seu criador, como se fosse esta obra o epílogo de uma imersão na cidade mais goticamente hipnotizante da Catalunha. Claro que em 1999, quando foi publicada na Espanha, ninguém suspeitava destas coisas, porque de fato Marina foi o marco final dos textos infanto-juvenis de terror ao estilo de O Príncipe da Névoa e O Palácio da Meia-Noite com suas criaturas demoníacas. Cidades permeadas de segredos e um par ou mais de jovens investigando o passado das mesmas, na tentativa de saírem vivos da confusão para a qual – involuntariamente – são arrastados. Depois dessa obra Zafón só preservaria os conceitos investigativo e de cidade permeada de segredos e desgraças.

Marina preserva características que a aproximam bastante de As Luzes de Setembro, sobretudo na estética de seu terror pautado em criaturas mecânicas que diabolicamente possuem vida própria. No entanto, inicia lentamente a fórmula de A Sombra do Vento marcada por personagens mais complexos e pelo estilo gótico, histórico-investigativo que mergulha nas brumas de Barcelona, descortinando a cidade, nos fazendo vivê-la, percorrê-la, senti-la como se fosse nossa, como se fosse parte de seus personagens, como se fosse ela mesma a maior e a principal protagonista do enredo: tudo vem da história de Barcelona e diz respeito a ela. Descortinar os segredos por trás da mulher de preto e da marca da mariposa negra é antes de tudo descortinar o passado da cidade, entrar em sua intimidade.

Assim como os demais escritos de Zafón (contos, romances e novelas) Marina foi escrito de forma cinematográfica. É uma narrativa que propicia ao leitor imaginar grandes cenas como se estas fossem resultado do enquadramento de uma câmera. Cenários, a movimentação dos personagens, a forma como as marionetes se movem e atacam, tudo é tão bem descrito que você é capaz de “ver” a cena se desenrolar como se acompanhasse os personagens ao longos dos becos, ruas, ramblas e palacetes arruinados de Barcelona. Os mais imaginativos talvez consigam até mesmo crer que sentem o ar frio da noite barcelonesa.

A escrita do autor é aqui tão impecável quanto já seria nos seus livros posteriores. Estão lá as construções estilísticas, o texto instigante e elegantemente escrito, bem como as descrições muito bem construídas e com detalhes que ajudam a construir toda a atmosfera da trama sem ser econômico nem excessivo.

Quando se trata de mistério, Marina não é tão intrincado ou complexo quanto as obras que o sucederam, mas está um pouquinho além do que vemos nos livros que o antecedem. A história envolve mais personagens, mais histórias; é necessário acompanhar pistas e testemunhas são deixadas pelo meio do caminho. Mas quando se trata de terror, para mim, ela está no mesmo patamar de As Luzes de Setembro e suas repulsivas criaturas mecânicas (os de Marina me pareceram piores). Não sei se a razão seja pelo fato de eu odiar bonecas, mas achei tenebrosas as criaturas que povoam as páginas de Marina e, por isso, tenho para mim que – dos seus romances – este é o que contém o terror mais bem-acabado e desenvolvido. Contudo eu avaliaria melhor se gostasse e lesse com maior frequência o gênero terror. Prefiro o thriller e o suspense.

Mas a verdade é que Marina – sobre o fundo de uma trama de mistério e terror – é mais uma narrativa sobre perdas, separações, loucura, genialidades deturpadas, intrigas, ambições, família e amor juvenil, temas que foram caros a Zafón. A pesar de ser uma narrativa muito mais fantástica do que real, ela aborda o quanto são frágeis a sanidade e a vida humana.

Ademais, não conseguirei perscrutar muitos detalhes sobre os personagens, porque quase um ano separa a minha leitura do livro (fevereiro de 2021) e a escrita desta resenha (janeiro de 2022), contudo achei que a grande lacuna do livro é o passado de Óscar.

O rapaz a pesar de ser o principal personagem da trama – ao lado, é claro, de Marina –, está bem distante do foco da narrativa. Quase nada da sua vida antes e depois de Marina é abordado e isso é – com toda a certeza – intencional. Marina é o elo que une direta e indiretamente todas as peças da trama. Sem ela Óscar nunca teria seu caminho cruzado pela mulher de preto, nem vivido uma aventura arriscada e tenebrosa. É ela junto com o “furto” do relógio os dois grandes acontecimentos que fazem a trama mover-se. Também bem pouco ou nada Óscar teria feito. Foi a passagem dela pela vida do rapaz que o impele a narrar toda a história.  Sem Marina seus dias haveriam transcorrido como de costume e é por isso que ele narra essa história quinze anos após os fatos terem ocorrido. É ela também o personagem de quem melhor me recordo.

Marina é inteligente, corajosa e sagaz, misteriosa e de humor um tanto mutável. Há nela uma aura sedutora, travessa, zombeteira, mas que por vezes oscila para algo um tanto fadigado e envelhecido. Por vezes ela é séria, melancólica e reservada. É notável que pesa em suas costas uma grande responsabilidade, mas você sempre tem a sensação de que há algo a mais.

Germán, por sua vez, ao bom estilo zafoniano, é um homem envelhecido e doente que vive com os olhos voltados para os fantasmas de seu passado. Mas também lembro pouco sobre seu perfil psicológico.

Enfim, Marina me cativou bem mais do que os livros da Trilogia da Névoa, porque se assemelha bem mais as obras posteriores de Zafón do que os seus três primeiros livros – ainda que, na essência, eu classificaria Marina como um “quarto” livro desta coleção.

O desfecho da trama de mistério não me surpreendeu muito, mas o destino dos protagonistas me pegou de surpresa. Mas acostumado como estou com Zafón – enfim li toda a sua obra – aceitei bem o desfecho de tudo.

Ademais, gostei bastante da obra porque para mim foi um retorno a Barcelona, mas também porque entrevi nela o Zafón que conheci primeiro em A Sombra do Vento, o que me deixou bastante satisfeito. Infelizmente é o último Zafón que me restava ler, e doí-me saber que não haverá outro nem para mim nem para nenhum dos milhões de leitores que este barcelonês sério e meio misterioso cativou e fez seu fã. Com essa resenha – um pouco fraquinha, lamento – me despeço de um dos meus autores favoritos e espero que, no futuro, eu seja novamente cativado por alguém de igual ou maior valor.

À Zafón, o meu adeus.

A edição lida é da Editora Suma, do ano de 2011 e possui 192 páginas. Tradução de Eliana Aguiar. Título original: Marina.

Sobre o autor

Saiba mais sobre Carlos Ruiz Zafón na postagem especial que fizemos sobre ele.

Preview do Google Books

Abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Google Books.

Postagens relacionadas

A Sombra do Vento – Carlos Ruiz Zafón – Resenha de Releitura

As Luzes de Setembro – Carlos Ruiz Zafón – Resenha

El Príncipe de Parnaso (conto) – Carlos Ruiz Zafón – Resenha

Especial: Zafón

La Ciudad de Vapor (A Cidade de Vapor) – Carlos Ruiz Zafón – Resenha

O Jogo do Anjo – Carlos Ruiz Zafón – Resenha

O Labirinto dos Espíritos – Carlos Ruiz Zafón – Resenha

O Palácio da Meia-noite – Carlos Ruiz Zafón – Resenha

O Príncipe da Névoa – Carlos Ruiz Zafón – Resenha

O Prisioneiro do Céu – Carlos Ruiz Zafón – Resenha

Quem é Carlos Ruiz Zafón? – Especial Zafón

Rosa de Fuego (conto) – Carlos Ruiz Zafón – Resenha




domingo, 1 de novembro de 2020

[Especial Zafón] O Labirinto dos Espíritos – Carlos Ruiz Zafón – Resenha

Por Eric Silva

15 de abril de 2020

“As recordações que enterramos no silêncio são as que nunca deixam de nos perseguir”

(O Labirinto dos Espíritos – Carlos Ruiz Zafón).

 

Está sem tempo para ler? Ouça a nossa resenha, basta clicar no play.

Retomando o Especial Zafón trago a resenha do livro épico que fecha a Série do Cemitério dos Livros Esquecidos. Numa trama noir e cinematográfica, O Labirinto dos Espíritos faz confluir as narrativas de todos os principais personagens da série e explora de forma bastante incisiva o lado obscuro do passado da cidade catalã de Barcelona nos seus tempos de regime franquista, denunciando as atrocidades que eram comuns durante e também após a Guerra Civil Espanhola.

Sinopse do enredo

A Espanha vivia o auge da Guerra Civil que culminaria com ascensão do General Francisco Franco quando Barcelona se tornou o alvo da Aviazione Legionaria italiana. Entre os dias 16 e 18 março de 1938 a cidade catalã seria intensamente bombardeada e 1.300 pessoas morreriam no ataque[1].

Na época, Alicia Gris ainda era uma menina que só escapou da morte, graças a inesperada ajuda de um amigo de seu pai, o foragido Fermín Romero de Torres. Desesperados, os dois fogem pelos telhados dos prédios vizinhos à casa da menina até que uma explosão os separa e deixa em Alicia uma ferida que a torturaria pelo resto de sua vida.

Vinte e um anos depois, Alicia é uma investigadora talentosa que percorre o submundo da capital espanhola solucionando casos a serviço do sistema franquista. Quando o ministro da educação, Maurício Valls, desaparece, a moça é recrutada para investigar e determinar seu paradeiro. É nesse momento que ela e seu parceiro no caso, o capitão Vargas, imergem numa trama obscura envolvendo o passado do ministro e que tem início ainda no período da guerra, quando ele ainda era diretor da prisão barcelonesa de Montjuic.

Em Barcelona, Daniel Sempere, protagonista de A Sombra do Vento, vive uma vida pacata ao lado da esposa e do filho, Julián, mas é constantemente atormentado pelas sombras do mistério que cerca a morte de sua mãe, Isabella. Angustiado pelo seu desejo de vingança, o rapaz dedica-se secretamente a investigações inúteis sobre seu principal suspeito, o desaparecido ministro Valls, enquanto administra a livraria do pai ao lado da esposa e de Fermín.

A medida que a investigação de Alicie avança, os fios que compõe a trama de uma história cheia de crimes e segredos vão convergindo e se entrelaçando à história da família Sempere, e em pouco tempo o destino de Alicia, Daniel e Fermín se entrecruzam revelando mistérios e fechando lacunas que foram deixadas nos livros publicados anteriormente. Assim, a macronarrativa do Cemitério dos Livros Esquecidos, que teve seu início a 18 anos atrás (2001 foi o ano de publicação de A Sombra do Vento), encontra seu desfecho com o entrecruzamento das várias narrativas dos muitos personagens que compõem a série.

 

Resenha

Quarto e último livro da série O Cemitério dos Livros Esquecidos, O Labirinto dos Espíritos reúne, integra e faz confluir as narrativas de todos os principais personagens da série, fazendo dos livros predecessores afluentes de um rio tortuoso que vai preenchendo as lacunas e clareando os livros anteriores. Ao mesmo tempo essa é também a mais longa narrativa de Zafón, que introduz na trama a história de um novo e importante personagem: a sombria e sarcástica Alicia Gris.

Sou fã declarado da série e do estilo de escrita de Zafón e a leitura de O Labirinto dos Espíritos me prendeu de forma irresistível em seu labirinto de histórias, tragédias e tramas. Zafón constrói cenários, enredos e personagens de uma forma única e, em seu estilo sombrio e misterioso, compõe com uma escrita que me fascina. O Labirinto dos Espíritos é mais um atestado da qualidade da obra do escritor barcelonês que fecha com estilo a sua série mais famosa.

Percebi que ao longo da escrita da série Zafón optou por escrever combinando as características de diferentes gêneros literários. A Sombra do Vento é basicamente um livro de mistério e aventura, característica que é mantida em O Prisioneiro do Céu, entretanto, esse último vai além da aventura e ressalta o cenário de terror da ascensão do regime franquista. Por sua vez, O Jogo do Anjo possui uma pegada mais sobrenatural e gótica, no qual elementos mágicos e a loucura são muito explorados. Contudo, O Labirinto dos Espíritos é essencialmente um romance noir[2]. Digo isso porque seu principal foco está nas investigações de Alicia e seu companheiro Vargas que na busca por encontrar o paradeiro de Valls revira o seu passado e desenterra seus crimes.

Diferente do que ocorre em A Sombra do Vento, no qual Daniel e Fermín investigam o passado do escritor maldito Julián Carax, os personagens do último livro da série são de fato investigadores profissionais.

Alicia não é uma policial como Vargas, mas não deixa de se comportar como uma investigadora, uma detetive implacável. Ela é uma mulher soturna e sofrida, como tantas outras que sobreviveram aos tempos de guerra.  Como investigadora Alice é uma pessoa curiosa, determinada e capaz de tudo. Sua aura é sombria e até mesmo fatal e seu humor sarcástico só vacila quando as dores de seu ferimento de guerra a atormentam. Mas no fundo ela é também uma pessoa sensível e que ama, uma literata apaixonada e alguém que inveja a felicidade modesta daqueles que vivem uma vida comum. Como um mosaico de sentimentos conflitantes que vão da frieza a doçura, Alicia é um personagem singular e único dentro do livro responsável por revelar cada um dos fios que ligam os muitos personagens da série.  Não é à toa que ela é a personagem preferida de seu criador.

Vargas, por sua vez, faz o papel do investigador durão e rústico, comilão e que odeia demonstrar qualquer tipo de fragilidade. Ele é o típico policial que, de tão acostumado ao submundo e aos seus horrores, já não consegue ter uma perspectiva positiva da vida, além de carregar consigo todo o peso de um passado de tragédias e traumas.

Juntos, mesmo que contra a vontade, os dois reviram o passado nebuloso do ministro Valls e revelam a corrupção e a podridão que existe por trás do sistema e das pessoas ilustres que representam o seu panteão.

Quanto a Daniel, também nesse livro sua participação é modesta, como vinha se revelando nos volumes anteriores protagonizados por outros personagens, mas tudo conflui para ele e para o passado de sua família como também já se era de esperar. O mesmo se dá com Fermín que, depois do seu protagonismo em O Prisioneiro do Céu, volta a dar mais espaço aos novos personagens, contudo ainda sendo uma peça chave para o desencadeamento da narrativa e para ligar as histórias de cada personagem na trama.  Por vezes, me questiono se Fermín não seria o grande personagem dessa série, haja vista a sua extensa participação nos fatos ocorridos em várias épocas da linha histórica de O Cemitério dos Livros Esquecidos.

Estilo e temática de um livro mosaico, caleidoscópico

Em O Labirinto dos Espíritos, Zafón volta a falar da corrupção e de toda a podridão impregnada dentro do sistema implantado durante o governo do general Franco. Os horrores do fim da Guerra Civil Espanhola também são novamente invocados.

Fotografia do bombardeio aéreo de Barcelona em 17 de março de 1938, visto de um bombardeiro italiano. Wikimedia Commons.
Fotografia do bombardeio aéreo a Barcelona em 17 de março de 1938, visto de um bombardeiro italiano. Wikimedia Commons.


Barcelona e Madri são cidades mergulhadas na obscuridade, ainda mais sombrias do que a Barcelona narrada pelo olhar de Daniel no primeiro livro da série. A narrativa, as suas personagens e os lugares que lhes servem de cenário estão impregnados pela melancolia, pelo sabor de derrota e pela taciturnidade dos espanhóis, mas principalmente pelas sombras pesadas de um regime que espalhara a morte e cultivava o terror através de seus agentes sombrios, que carregavam a morte no olhar e ceifavam vidas em nome de um sistema deturpado e a favor apenas dos mais poderosos.

Mas o elemento que mais se destaca no livro é o estilo. O Labirinto dos Espíritos representa, sem dúvida, o ápice da escrita de Zafón. Nele seu estilo que mistura poética, romance gótico e policial ganha um maior refinamento e sua escrita chega ao seu auge.

Sempre comento como admiro o estilo poético e cheio de construções estilísticas da escrita de Zafón. Mesmo falando sobre temas sombrios ele escreve de uma forma única que lhe é peculiar e que ajuda a construir com sombras e vapores os cenários e a atmosfera de seus enredos. A escrita é bastante descritiva, mas nunca se torna cansativa. Humor, sarcasmo, ironia e divagações poetizadas se misturam a uma descrição impecável e original que encanta aqueles que, como eu, apreciam um texto muito bem escrito. Mas o que o escritor barcelonês faz no último livro de sua série é levar ao ponto mais extremo esse seu estilo único e compor o volume mais bem escrito da coleção.

Confesso que ainda prefiro A Sombra do Vento, o livro mais romântico da série e que apresenta meu personagem predileto, Daniel. Ali Barcelona é uma mistura de sombras e perfumes que se misturam e revelam uma cidade cheia de mistérios, perdas e pessoas sofridas e taciturnas. Mas, ao mesmo tempo, é uma cidade que permite o florescer dos amores juvenis e inconsequentes como o de Daniel e Beatriz, e que abriga, apesar dos pesares, os sonhos daqueles que possuem muito pouca esperança.


Não obstante, à medida que avançamos na série, Barcelona vai se tornando cada vez mais sombria, por vezes gótica, mas sempre encoberta por um véu de obscuridade formada pelo medo, por mentiras e mistérios, e pela crueldade da guerra e do regime de Franco. O Labirinto dos Espíritos explora de forma ainda mais incisiva esse lado obscuro do passado da cidade catalã e denuncia as atrocidades cometidas durante a Guerra Civil Espanhola, ao mesmo tempo que faz uma excursão pelos bastidores do sistema implantado após a sua conclusão.

O romance é mosaico e em suas muitas partes ele vai conectando cada uma das narrativas contadas nos livros anteriores da série, compondo um labirinto com muitas portas, ramificações e fantasmas. Todas as histórias e personagens do Cemitério dos Livros Esquecidos convergem para essa trama e muitos pontos propositadamente deixados soltos nos demais livros vão sendo preenchidos e os vários fios da trama são atados em um ponto de convergência único.

Podemos considerar que em si o livro todo é o desfecho de uma grande história, a do Cemitério dos Livros Esquecidos, mas Zafón também buscou dar ao Labirinto dos Espíritos um desfecho completamente e indubitavelmente fechado, o que nos torna oficialmente órfãos da série.

O autor dá destino a todos os seus personagens, encerrando para sempre uma das melhores séries que já li. Por isso, O livro de Julián, a última parte que compõe a história, não só nos dá uma noção de depois, indicando os desdobramentos das vidas de cada personagem, como também nos dá uma noção da transformação sofrida pela Espanha com o final do regime franquista. A cidade que vemos é uma cidade que se moderniza e que dissipa as trevas e a lugubridade que marcam a Barcelona da série.

Assim, a história épica que começa com o jovem e ingênuo Daniel Sempere em uma madrugada de magia e descobertas, se encerra com a perigosa aventura de Alicia Gris e com o destino da nova geração que vislumbra, com brilho nos olhos, a magnífica basílica de livros, o Cemitério dos Livros Esquecidos.

Enfim, um fim digno a uma narrativa caleidoscópica que por 15 anos embalou os leitores assíduos e apaixonados de Zafón.

A edição lida é da Editora Suma, do ano de 2016 e possui 680 páginas.

Sobre o autor

Saiba mais sobre Carlos Ruiz Zafón na postagem especial que fizemos sobre ele.

Preview do Google Books

Abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Google Books.

 



[1]https://pt.wikipedia.org/wiki/Bombardeio_de_Barcelona

[2]Os romances Noir, Preto em francês é o tipo de romance policial onde os personagens são mais humanizados, os detetives nesse tipo de história, costumam beber, brigar, se envolver em romances e sexo. Também existem outras tramas paralelas, a história portanto não gira em torno de apenas um fato, mas vários. (Wikipédia)



Postagens populares

Conhecer Tudo