quinta-feira, 30 de novembro de 2017

2017 - Ano do Brasil no Conhecer Tudo


Olá, caros leitores. 

Em 2016, aqui no Conhecer Tudo, realizamos o #AnoDaEspanha, a nossa campanha mais ambiciosa. Nela, durante quase nove meses, homenageamos a literatura e um pouco do cinema espanhol através da leitura de sete livros de autores mundialmente reconhecidos, além de três filmes, dois deles integrados a outro de nossos projetos, o 7ª Arte. Nessa linha e do desejo de conhecer mais a fundo a literatura espanhola nascia e ganhava contornos o que depois oficializaríamos como a Campanha Anual de Literatura do Conhecer Tudo, que usualmente identificamos com um #AnoDo...

O período de realização da primeira campanha foi muito especial, não apenas porque conhecemos autores incríveis e alguns livros fabulosos, mas porque olhamos mais de perto para um país cheio de contrastes, de cultura marcante, que respira história em cada pequena vila ou grande cidade, e principalmente, um país de beleza arquitetônica e natural surpreendente.

Foi tão prazeroso homenagear o país, que resolvemos continuar com uma campanha semelhante em 2017, porém com um novo país. Todavia, em 2016, homenagear a Espanha foi uma escolha nossa, mas para 2017 queríamos algo diferente, escolhida por vocês. Pensando nisso pré-selecionamos cinco países para representar os cinco continentes do globo: África do Sul (África), Alemanha (Europa), Brasil (América), Nova Zelândia (Oceania) e Rússia (Ásia - Eurásia).

Selecionados os países candidatos, montamos uma enquete e deixamos vocês escolherem através do nosso perfil no Google+. O resultado é que, em 3 meses de votação, 444 pessoas votaram e, com 72% dos votos, o Brasil foi escolhido para ser o país homenageado em 2017. Então é oficial, 2017 é o #AnoDoBrasil no Conhecer Tudo.

Durante esse período de 12 meses montaremos nosso itinerário pela literatura do nosso país, visitando-o pelo olhar de seus escritores, ou até mesmo indo a lugares longínquos concebidos pela criatividade dos autores nacionais. Assim leremos desde autores de renome internacional até os novos autores que despontam na constelação literária do país em busca de seu lugar no coração dos leitores.

Em paralelo falaremos também de filmes do cinema nacional e comporemos Postagens Especiais sobre os principais temas tratados pelos livros do itinerário.

É claro que assim como em 2016, nosso foco não será exclusivo para esta campanha, ainda mais que outros projetos exigem nossa atenção, mas o #AnoDoBrasil será prioritário e a marca principal do Conhecer este ano.

Quem quiser dar sugestões de livros para o itinerário, fique à vontade para postar nos comentários.


Enfim, será um ano para falar de nosso país e de encontrarmos a nossa brasilidade impressa na literatura. Estaremos em casa, em terras e páginas brasileiras.

Atte.,

Conhecer Tudo,
01 de Janeiro de 2017, Ano do Brasil

Os livros do nosso itinerário resenhados até agora:

#1 - Resenha de O Caçador - Ana Lúcia Merege
#2 - Resenha de Dois Irmãos - Milton Hatoum
#3 - Resenha de Aventuras do Vampiro de Palmares - Gerson Lodi-Ribeiro 
#4 - Resenha de A Mulher que Escreveu a Bíblia - Moacyr Scilar
#5 - Resenha de Tenda dos Milagres - Jorge Amado
#6 - Resenha de Deuses Esquecidos - Eduardo Kasse
#7 - Resenha de Sob a Luz de Seus Olhos - Chris Melo
#8 - Resenha de O Tigre na Sombra - Lya Luft

Sobre os autores:

2017 #AnoDoBrasil: Os autores que estamos lendo

Filmes do nosso itinerário:
#1 - 

Postagens Especiais do nosso itinerário:

#1 - Trilha sonora de Sob a luz de Seus Olhos  


Listas:
#1 - 5 grandes mulheres da literatura brasileira

Lirismos - antologia poética:
#1 - Sentimental - Carlos Drummond de Andrade
#2 - Meninos Carvoeiros - Manuel Bandeira
#3 - Praia do Caju - Ferreira Gullar
#4 - Tudo, todos e o todo - Carlos Rodrigues Brandão


Abaixo você pode localizar, no mapa do Brasil, os locais onde se desenrolam as tramas dos livros e filmes a medida que eles são resenhados, ou as cidades de origem dos escritores no caso de tramas que se desenrolam em outros lugares reais ou fictícios.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

#4 Lirismos: Tudo, todos e o todo – Carlos Rodrigues Brandão

Postagem: Eric Silva

Somos feitos de barro e de fogo
e por isso somos o desejo e o amor.
Fomos feitos de terra e de água
e assim somos eternos como a vida
e somos passageiros como a flor.
Somos a luz, a sombra, o clarão, a escuridão
a memória de deus, a história e a poesia.
Somos o espaço e o tempo, a casa e a janela
e a noite e o dia, e o sol e o céu e o chão.

Somos o silêncio e o som da vida.
O estudo, a lembrança e o esquecimento.
Somos o medo e o abandono.
A espera somos nós e somos a esperança.
Pois não somos mais e nem menos do que tudo.
Somos o perene e o momento, a pedra e o vento
a energia e a paz, a vida criada e o criador.

Somos o mundo que sente, e irmãos da vida
somos a aventura de ser vida e sentimento.
E assim em cada ave que voa há nossa alma
e em cada ave que morre, a nossa dor.



Sobre o autor

Carlos Rodrigues Brandão nasceu no Rio de Janeiro. É psicólogo, mestre em antropologia e doutor em ciências sociais e divide sua produção escrita entre a área científica e a literatura, tendo publicado mais de oitenta obras. Recebeu o Prêmio Poesia-Liberdade pela Fundação Centro Alceu Amoroso Lima, entre várias outras condecorações por seu trabalho científico. É professor emérito da Universidade Federal de Uberlândia e pesquisador do CNPq.








Poema extraído do livro O Jardim de Todos, publicado em 2007, pela editora Autores Associados.





quarta-feira, 26 de julho de 2017

O Tigre na Sombra – Lya Luft - Resenha

Por Eric Silva

Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.
Diga-nos o que achou da resenha nos comentários.

“Quem sabe a verdadeira vida é dentro do espelho, e tudo aqui fora é sonho”
(Lya Luft, em entrevista para o programa Sempre Um Papo)

Uma história trivial com todo um jeito próprio de se contada, um encontro entre prosa e poesia, entre realidade e fantasia. O Tigre na Sombra, romance da escritora Lya Luft, é o oitavo livro da campanha do #AnoDoBrasil. Um romance breve e bastante profundo, e que apesar de ser um livro de trama corriqueira e cotidiana, não deixou de me encantar pelo lirismo e profundidade da escrita da autora.

Confira a resenha do oitavo livro da campanha anual de literatura que nesse ano homenageia a literatura do Brasil.


Sinopse

Em O tigre na sombra, a autora brasileira Lya Luft retorna a prosa e ao tema dos dramas humanos. Mesclando prosa e poesia conta a história de Dôda, uma menina com uma perna mais curta, que enfrenta todos os dilemas de uma família onde os sentimentos e afetos se dão e se distribuem de forma desequilibrada. Apesar de tudo Dôda é dona de uma imaginação fértil que se torna em muitos momentos o seu refúgio da realidade difícil de sua família. É sob seu olhar que miscigena fantasia e realidade vamos conhecendo os dramas de cada personagem e dela mesma, assim como acompanhamos seu crescimento e entrada para vida adulta.

Resenha

Quando, procurando nas prateleiras da Biblioteca da Filarmônica um livro para ler, me deparei com O Tigre na Sombra. Quando o retirei da prateleira vi que era da mesma autora de um dos meus dicionários e isso me deixou curioso porque não sabia que era autora de romances, mas, na verdade, foi o título exótico que me chamou a atenção me fazendo recordar a longínqua Índia onde vivem os imponentes Tigres-de-Bengala. Só depois li a sinopse e me decidi a ter esse primeiro contato com a autora. Um contato interessante, uma experiência nova, pouco convencional, eu diria, mas não o suficiente para me fazer fã de Lya. Necessito de mais de sua narrativa-poesia para isso.

A despeito das imagens que o título me fez recordar, o tema do livro de Lya Luft nada tem a ver com a Índia, muito menos com os poderosos animais que lhe dão título e que na narrativa tem presença tênue ficando no campo do simbolismo e da metáfora. O tigre desta narrativa que, por sua vez, se integra com a poesia de forma muito bonita, existia apenas na tênue fronteira entre a imaginação e a realidade vivida por uma criança que se sentia pouco amada pela mãe e carregava o estigma de um pequena “deficiência” física: uma perna mais curta. Essa criança é Dolores, “nome escuro, de sombra e pranto, cheio de ôôôs lúgubres”, mas que por causa da irmã, Dália, passou a ser chamada de Dôda.

Dôda era uma menina cuja imaginação e sagacidade parecia não ter fronteiras. Via coisas que ninguém mais via, criava um tigre de olhos azuis no quintal. Via a si mesma no espelho como outra garota, a Dolores, que tinha a vida que ela sonhara ter. Uma imaginação que era alimentada pela sua avô delicada, mas pouco convencional que sempre lhe dizia: “Realidade? Bobagem. Cada um inventa a sua”.

Quando criança, Dôda sofria muito com o desafeto da mãe egoísta e cheia de sonhos de grandeza, mas que descontava no marido passivo suas frustrações por sua pobreza. Com as filhas não era diferente, de Dália e de Dôda, a caçula, sempre exigiu demais. Da mais velha que fosse a filha perfeita e a outra que não a envergonhe com suas limitações. Via a caçula como a deficiente, a limitada, limitação que a envergonhava, e a mais velha como a bonita, a que tinha futuro. Nada fez de bom e que não alimentasse o ressentimento das duas filhas, sentimentos que as meninas levariam também para a vida adulta.

Contado pelo olhar de Dôda a família retratada por Lya é marcada por diversos problemas além do desafeto, como o alcoolismo e a traição. Ao longo do livro a menina vai narrando seu relacionamento conturbado com a mãe, seu amor pela Vovinha que era tão diferente da filha única e que com o avô era o porto seguro de Dôda. Fala de seu relacionamento com a irmã e do pai passivo e incapaz de pôr limites aos excessos de sua esposa. Uma narração que se alonga até a idade adulta da personagem mostrando os desdobramentos daquelas relações sobre o psicológico das meninas e seus reflexos na maturidade. [SPOILER] mostrando como gradativamente Dôda abandona suas fantasias e passa a viver uma vida iludida.

Opinião e divagações

Aqui no blog eu tenho uma regra de respeito absoluto ao trabalho de qualquer autor que eu resenhe (veja os 13 mandamentos do bom leitor), logo nenhuma das resenhas que vão a público são daqueles livros que detestei, que eu tenho muitas ressalvas ou que simplesmente não gostei e não tenho nada de bom para falar. Livros assim eu prefiro não resenhar, não trazendo a público a minha opinião. Então quando eu dedico uma resenha aqui pode ser que o livro não tenha me interessado, mas nele há de algo de positivo, de instigante e que considero necessário dividir. Por esse motivo, por exemplo, algumas vezes evito parcerias.

Quando definitivamente não gosto de uma história e não tenho nada de positivo para falar sobre ela costumo deixar apenas um comentário para os meus amigos no Skoob e não faço resenha para o blog. Se quiserem me seguir lá vejam meu perfil.

Por isso costumo dividir os autores que resenho em três grupos principais: aqueles que me encantam pela sua escrita, pela originalidade e beleza da forma como manipulam e escolhem as palavras; os autores que me encantam pela originalidade da narrativa, com histórias que realmente prendem o leitor seja pela inteligência, seja pela criatividade e beleza de suas histórias; e, por fim, aqueles autores que de fato me encantam porque carregam ambas as características. Esses últimos são de fato aqueles de grande e genuíno talento no MEU ponto de vista.

A autora
Por enquanto Lya está no primeiro grupo. Não que O Tigre na Sombra seja um mal livro, ele não é, mas porque sua narrativa é cotidiana demais para o meu gosto que prefere as grandes tragédias, o histórico, o épico, o futurista, o misterioso e o fantástico. Por ser um livro do e sobre o cotidiano e as relações humanas, não podemos esperar grandes reviravoltas na trama. Além do mais, o corriqueiro me cansa e me dá enfado, talvez por isso poucos clássicos da nossa literatura me atraiam.

Melancólica e terna, cativante como criança travessa de sorriso bonito, a protagonista de Lya me conquistou nas primeiras páginas, mas pouco a pouco as coisas mudam, se tornam mais amarguradas, mais acres, perde a direção, ou melhor, mudam de curso e com ele o meu interesse. Não sei explicar, mas ao chegar no final do livro bem pouco da trama ainda me interessava e provavelmente essa resenha só foi escrita meses depois porque não sabia ao certo o que falar do livro.

Afirmo que Lya aborda com talento os dramas familiares da rejeição, do alcoolismo, dos relacionamentos fracassados e das infelicidades da vida ao exemplo da depressão e das situações traumáticas que marcam as pessoas, as modificam. Confesso, por outro lado, que dramas familiares não me chamam atenção, não se estes forem bastante temperados com trivialidades. Não obstante, não deixei de me encantar pelo lirismo e profundidade da escrita da autora que me fizeram divagar um pouco.

No caso do lirismo, percebi como a autora desfia o cotidiano de forma poética e com propriedade vai falando dos muitos problemas que se interpõem entre os membros da família. Poesia se intercala e se integra com prosa, num ritmo todo único e em alguns parágrafos nos são dados vislumbres do futuro na narrativa. O resultado final é de uma originalidade ímpar:


No fundo do corredor
um espelho em pé é uma casa
de vidro;
um espelho deitado é um mar,
abismo.
Em ambos algo me observa
lambendo calmamente as patas.

Ele é a vida e a morte,
reais
ou com disfarces bizarros:
quem se importa com a verdade?
Ela é sempre invenção de alguém.

(E os olhos do meu tigre
são azuis.)

Um homem tira o revólver da prateleira mais alta e coloca embaixo do travesseiro. E pensa antes de adormecer: Eu preciso ser alguém.
Uma mulher abre os olhos no escuro e pensa: Eu preciso encontrar alguém.
Uma mãe recebe nos braços seu bebê recém-nascido e não entende por que o rostinho dele está coberto por gaze.
Uma menina sonha que tem duas perninhas iguais.



Por sua vez, quanto a profundidade ela está sobretudo na reflexão dos personagens.

Dôda é uma personagem dividida entre a realidade e a fantasia, seu principal refúgio do desamor da mãe. Mas ao mesmo tempo ela é um personagem maduro que reflete bastante sobre a vida, dando voz a autora.

Algo que gostei muito na personagem e em sua avó foi esse jeito de deixar-se levar pelas fantasias, aceita-las como um real possível, e a realidade como algo vindo de nós e que forjamos. É um livro bastante subjetivo, mas que nos faz refletir, por exemplo, como são muitas as pessoas no mundo reprimidas pela necessidade de se ajustar, e tantas outras exprimidas na busca por um refúgio que lhe sirva como válvula de escape ou como armadura de autodefesa.

Não acho que a imaginação precise ser uma atitude de fuga, considero-a, primeira e primordialmente, como algo inerente ao espírito humano. Não é necessário ser alienado para se ter imaginação, nem acredito que todo alienado seja capaz de sonhar acordado. Imaginar não supõe ser irracional, racionalidade não inviabiliza o imaginar. O projeto humano de felicidade e igualdade, por exemplo, pressupõe a capacidade de imaginar uma outra maneira de se viver e se organizar em sociedade, é preciso isso para saber qual realidade se pretende construir. Assim nascem as utopias e por todas essas coisas é que meu ser pesquisador, educador e cientista não contradiz ou se opõe ao meu eu leitor e apreciador de fantasias.

Outra divagação que o livro de Lya me trouxe é sobre como as vezes idealizamos demais as pessoas e a vida e nos esquecemos que cada um tem seus próprios sonhos e desejos. Me fez pensar de como as nossas expectativas para com o outro podem representar grilões pesados demais e difíceis de romper. A mãe fez isso com Dália e [SPOILER] arruinou a sua vida.

Fez-me pensar também de como somos aquilo que recebemos das pessoas. De como nos construímos do amor, da indiferença, da presença e da ausência dos outros. Somos uma caleidoscópio, ou melhor, um mosaico de sentimentos aflorados da experiência e do contato com o outro. Se seremos mais imaginativos, felizes, desiludidos, amargurados ou complexados, se iremos nos revestir de uma couraça que nos proteja do mundo ou se vamos nos entregar a ele e ao sabor da fortuna[1], isso dependerá enormemente de quem foram as pessoas que nos cercaram, e com o qual nos relacionamos e trocamos experiências.

De todo modo, tenha eu ou não gostado da trama da narrativa de O Tigre na Sombra – algo que só agora consigo ver como muito pouco relevante – a verdade é que esse é um livro que nos faz pensar e ir além dele e isso já é mais do que suficiente. Vale a pena lê-lo.

A edição lida é da Editora Record, do ano de 2012 e possui 128 páginas. Abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Google Books e um vídeo da autora falando sobre seu livro.

Video



[1] Sorte, destino.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

#3 Lirismos: Praia do Caju – Ferreira Gullar

Postagem: Eric Silva
Escuta:
o que passou passou
e não há força
capaz de mudar isto.

Nesta tarde de férias, disponível, podes,
se quiseres, relembrar.
Mas nada acenderá de novo
o lume
que na carne das horas se perdeu.

Ah, se perdeu!
Nas águas da piscina se perdeu
sob as folhas da tarde
nas vozes conversando na varanda
no riso de Marília no vermelho
guarda-sol esquecido na calçada.
  
O que passou passou e, muito embora,
voltas às velhas ruas à procura.
Aqui estão as casas, a amarela,
a branca, a de azulejo, e o sol
que nelas bate é o mesmo
sol
que o Universo não mudou nestes vinte anos.





Caminhas no passado e no presente.
Aquela porta, o batente de pedra,
o cimento da calçada, até a falha do cimento. Não sabes já
se lembras, se descobres.
E com surpresa vês o poste, o muro,
a esquina, o gato na janela,
em soluços quase te perguntas
onde está o menino
igual àquele que cruza a rua agora,
franzino assim, moreno assim.
Se tudo continua, a porta
a calçada a platibanda,
onde está o menino que também
aqui esteve? aqui nesta calçada
se sentou?

E chegas à amurada. O sol é quente
como era, a esta hora. Lá embaixo
a lama fede igual, a poça de água negra
a mesma água o mesmo
urubu pousado ao lado a mesma
lata velha que enferruja.
Entre dois braços d’água
esplende, a croa do Anil. E na intensa
claridade, como sombra,
surge o menino
correndo sobre a areia. É ele, sim,
gritas teu nome: “Zeca,
Zeca!”
Mas a distância é vasta
tão vasta que nenhuma voz alcança.

O que passou passou.
Jamais acenderás de novo
o lume
do tempo que apagou.




Sobre o autor

Ferreira Gullar, pseudônimo de José Ribamar Ferreira, foi escritor, poeta, crítico de arte, biógrafo, tradutor, memorialista e ensaísta brasileiro. Nasceu em 10 de setembro de 1930, na cidade de São Luís do Maranhão e faleceu em 04 de dezembro de 2016, na cidade do Rio de Janeiro. Foi militante do Partido Comunista Brasileiro, posicionamento político que se reflete em muitas de suas poesias, e por isso foi exilado pela ditadura militar. Viveu na União Soviética, na Argentina e no Chile. O poeta é considerado um dos fundadores do neoconcretismo e foi escolhido para ocupar a cadeira nº 37 da Academia Brasileira de Letras em 2014.







Poema extraído do livro Melhores Poemas Ferreira Gullar, seleção de Alfredo Bosi, publicado em 2006, pela editora Global.





terça-feira, 11 de julho de 2017

#2 Lirismos: Meninos Carvoeiros – Manuel Bandeira

Postagem: Eric Silva
Os meninos carvoeiros
Passam a caminho da cidade.
- Eh, carvoero!
E vão tocando os animais com um relho enorme.

Os burros são magrinhos e velhos.
Cada um leva seis sacos de carvão de lenha.
A aniagem é toda remendada.
Os carvões caem.

(Pela boca da noite vem uma velhinha que os recolhe, dobrando-se com um gemido.)

- Eh, carvoero!
Só mesmo estas crianças raquíticas
Vão bem com estes burrinhos descadeirados.
A madrugada ingênua parece feita para eles...
Pequenina, ingênua miséria!
Adoráveis carvoeirinhos que trabalhais como se brincásseis!

-Eh, carvoero!

Quando voltam, vêm mordendo num pão encarvoado,
Encarapitados nas alimárias,
Apostando corrida,
Dançando, bamboleando nas cangalhas como espantalhos desamparados.



Sobre o autor


Manuel Bandeira foi poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor brasileiro. Nasceu em 19 de abril de 1886, na capital pernambucana e faleceu em 13 de outubro de 1968, na cidade do Rio de Janeiro. É considerado um dos principais poetas do modernismo e seu poema os sapos inaugurou a semana de 22 (semana da arte moderna de 1922). Poeta de escrita direta e simples, possui uma obra extensa e foi escolhido para ocupar a cadeira nº 24 da Academia Brasileira de Letras em 1940.







Poema extraído do livro O Ritmo Dissoluto, publicado em 2014, pela editora Global.
(Encontre o livro no link do título)






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