Por Eric Silva
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Diga-nos o que achou da
resenha nos comentários.
“Não é o amor que faz o mundo funcionar; é o dinheiro.”
(O Jardim dos Esquecidos – V. C. Andrews)
A resenha está dividida em dois grandes tópicos que descrevem
os personagens principais, o enredo e apresentam minhas impressões da obra.
Resenha
Já faz mais de quatro anos
que vi pela primeira vez este livro e lembro que, naquela época, fiquei muito
interessado em lê-lo. Pesquisei sinopse, resenha, os livros da continuação da
série, mas, devido a universidade e ao trabalho, que juntos me tomavam três
turnos do dia, eu quase não tinha tempo de ler. O pouco tempo que dispunha mal
dava para a leitura das matérias obrigatórias da faculdade. Por isso, esse foi
um período quase sem literatura para mim e ler O Jardim dos Esquecidos tornou-se um projeto para um futuro que
demorou a chegar.
Só ano passado decidi que
mudaria esta situação, nas férias de janeiro, mas mesmo nesse período tinha
matérias do curso de especialização para estudar. Acabei lendo só agora em
fevereiro e não me arrependi, ou melhor, lamento não ter podido fazer antes.
Em uma de suas séries mais
famosas, a estadunidense Virgínia C. Andrews conta a história dramática dos
irmãos Chris, Cathy, e dos gêmeos Carrie e Cory, com início nos eventos
descritos em O Jardim dos Esquecidos e prosseguimento nos outro quatro livros da saga: Pétalas ao Vento, Espinhos do Mal, Sementes do
Passado e O Jardim das Sombras. Hoje
falarei apenas do primeiro e espero o quanto antes prosseguir com a leitura dos
demais.
O enredo: crueldade, ambição e
fanatismo
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Os irmãos Dollanganger em adaptação para o cinema. Da esquerda para direita: Chris, Carrie, Cory e Cathy. |
Explicando aos filhos os
sérios problemas financeiros deixados pelo marido, Corrine convence os quatro a
se mudarem para Foxworth Hall, a mansão de seus pais, explicando que bastaria
ela reconquistar o carinho do pai para que eles passassem a viver uma vida de
luxo. Deslumbradas as crianças chegam a mansão com sonhos de riqueza, mas se
deparam com uma realidade bem diferente quando são informados que deveriam
ficar trancados em um quarto do sótão para que ninguém soubesse de suas
existências até que a mãe reconquistasse o pai ou este acabasse por morrer. Daquele
dia em diante, os quatro cresceriam afastados do mundo exterior e seriam submetidos
a tirania e violência da avó fanática que os desprezava e via nos netos o fruto
diabólico da relação incestuosa da filha.
O Jardim dos
Esquecidos é uma história que prende o leitor pela
imprevisibilidade da história, pelos personagens complexos e envoltos por segredos
e dissimulações, mas, principalmente, pela situação tão atípica, desumana e
irracional que dá corpo a história.
É difícil imaginar o que
aconteceria a quatro crianças que fossem obrigadas a ficarem presas dia e noite
e por anos em um quarto de sótão, apenas para que ficassem escondidas do restante
do mundo. Incógnitas e invisíveis até que um pretenso avô morresse e lhes
deixassem de herança uma riqueza incalculável. É absurdo só de imaginar, mas Virgínia o faz de forma brilhante, aliando,
de maneira bem dosada, crueldade, amor e ambição sem abusar muito dos clichês
ou transformar estes três elementos em lugar comum na história.
Narrado pela perspectiva
da inteligente e emotiva Cathy, anos após os dias vividos no sótão, a narrativa de O Jardim dos Esquecidos não é apressada e se desenvolve quase que
totalmente no que acontecia no quarto em que as crianças eram mantidas presas.
Essa relativa lentidão – que a gente nem percebe direito pela forma como
imergimos nas dúvidas e apreensões da narradora – permite com que a história siga
um desenvolvimento bastante natural enquanto que, de forma bem sutil, a autora
vai modificando seus personagens, moldando-os e evoluindo-os ao longo do tempo
da narrativa.
Por ser a autora tão detalhista
nos pequenos momentos, e por ser tão sutis e gradativas as modificações
sofridas pelas crianças, este livro me fez sentir uma sensação estranha, que outrora nenhum outro havia me inspirado, de
que até certo ponto nada daquilo era ficção, que havia sido real. Se isso
já não bastasse, em cada descrição de seus sentimentos, das reações percebidas
ou das palavras ditas ou pensadas, Cathy é fiel aos detalhes não apenas como se
rememorasse os fatos, mas como se tornasse a vivê-los.
Os personagens e os aspectos psicológicos da trama
Muito bem construídos e de uma vivacidade que os
tornam verossímeis[1],
os personagens de Virgínia são de personalidades muito bem demarcadas, e se em
alguns momentos parecem momentaneamente apáticos é porque as circunstâncias da
trama os levaram a sê-los.
Cathy é inteligente e
amorosa, mas é também a mais decidida a enfrentar os adultos e desconfiar
deles. É também a mais atingida pelo terrível jogo psicológico da avó e a que mais
se preocupa com o bem estar dos irmãos. Chris, por sua vez, é inteligente,
sensato e muito otimista o que faz com que o personagem algumas vezes seja
ingênuo e confiante demais, porém é também capaz de sacrifícios extremados e de
correr perigo pelo bem dos irmãos e para a sobrevivência de todos.
Os gêmeos apresentam entre
si uma sintonia e companheirismo bem grande, que não é tão bem desenvolvida na
trama como aquela entre os dois mais velhos, mas que é sempre explicitada pela
narradora. O menino, Cory, se destaca pelo seu talento inato pela música e pelo
carinho e dedicação à irmã gêmea. Por sua vez, Carrie é a mais tempestuosa e
imperativa das quatro crianças, além de ser exigente e birrenta e cujas ações
quase sempre dificultava a vida no sótão.
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A autora |
Contudo, o personagem mais dúbio[2]
é a mãe, Corrine. Imprevisível, é
sempre difícil saber o que ela de fato pretende ou quer. Amor e dedicação nesse
personagem se mistura a negligencia. Todavia, a peculiar posição em que ela se
encontra e que a força a esconder os filhos faz com que seja difícil formular
uma opinião concreta sobre ela.
Com personagens de personalidades bem distintas e tão
bem demarcadas, mas submetidos a uma situação hostil, esse é um romance onde a
análise e a transformação psicológica dos personagens tem presença forte.
O jardim dos
esquecidos trata de como tudo o que é extremo faz mal e traz
frutos ruins. A fé levada ao extremo
faz com que a avó trate de forma cruel os próprios netos. O apego extremado ao
dinheiro e à vida despreocupada e fácil que ele proporciona leva Corrine a
expor os filhos a uma situação também extrema e sobre-humana de reclusão. [SPOILER
em itálico] E essa mesma atitude leva à
mudança na saúde física e mental das crianças, levam-nas a mudar e inverter
seus papéis, a se sentirem sexualmente atraídas umas pelas outras, a absorverem
percepções de mundo que não entrariam em contato ou desenvolveriam em outro
contexto e mexe de forma irreparável no psicológico delas. Experiências
traumáticas que resultam em problemas psicológicos profundos.
Em conclusão, digo que é um livro surpreendente e
envolvente até o final. Chocante pela crueldade a que as crianças são
submetidas, mas que te faz seguir até o desfecho para saber o que acontece a
cada personagem. Contudo, o final é
semiaberto, por fechar apenas algumas das principais questões e revelar só
alguns dos segredos da família de Foxworth Hall. Por fim, ele deixa o destino final das crianças para o
volume seguinte, o que te faz ansiar ter a mão o segundo livro.
A edição lida é da Editora Francisco
Alves, do ano de 1982 e possui 285 páginas. Abaixo você pode conferir uma
prévia da edição do livro publicado em 2014 pela editora Figurati e que
encontra-se disponível no Google Books.
Prévia do Google Books
Oie:
ResponderExcluirProdução tocante mesmo...
Até me arrepio!
Lembro de ter alugado com alguns amigos e uma irmã (tem tempo/em 1992).
E atualmente passa com uma 'versão diferente' _ onde no ORIGINAL também seria.
Parece que no fim a "mâe morre tentando salvar a filha (protagonista) de um incêndio".
E nunca entendi se os FILHOS DELA COM O PAI FINADO SERIA DE INCESTO. Nas versões atuais aparece que os irmãos mais velhos cometem.
E o que preocupa é que ATROCIDADES ASSIM OCORREM EM TODO LUGAR. Quem atuou foi bom mesmo.
A que a fazia a avó... talvez o 'pior' papel da baita ESTELLE LOUISE FLETCHER. Onde a mãe fosse BEM PIOR.
E li num site famoso de TV onde perguntavam se "o Corey havia sido levado de fato para o hospital". De arrepiar.
Tchau,
Rodrigo
http://artedoro.blogspot.com