Por Eric Silva
Ao longo da história da
humanidade muitas profissões desapareceram e muitas outras mudaram de forma.
Mesmo em nossa era o desenvolvimento tecnológico acelerado é responsável por
fazer desaparecer profissões tão rápido quanto cria novas áreas de atuação
profissional.
Bastaix é uma palavra que não
aparece nos dicionários da língua portuguesa, e mesmo na península ibérica,
onde teve origem, ela caiu em desuso e quase desapareceu, mas para a Barcelona
dos séculos XIII e XV aquela era uma palavra tão corrente quanto a profissão a
ela associada era considerada indispensável ao funcionamento do porto
barcelonês.
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Figura de metal representando um dos muitos bastaixos que contribuíram com a construção da Catedral de Santa Maria del Mar em Barcelona. |
Os bastaixos eram, na
Barcelona, medieval os descarregadores do porto, responsáveis pelo carregamento
e descarregamento das mercadorias dos navios mercantes que chegavam a cidade.
Na época eram chamados também de “macips
de ribeira” devido a condição escrava que possuíam antes que no século XIV
a profissão passasse a ser exercida por homens livres que se agrupavam entorno
de uma confraria. A confraria além de organizar o trabalho de seus membros com
seus parcos recursos, também se dedicava a reunir esforços para garantir
assistência às viúvas dos bastaixos e aqueles que já se encontravam em idade
avançada para realizar o trabalho.
No trabalho como estivadores
do porto, os bastaixos carregavam nas costas os fardos de mercadorias, tendo
apenas como proteção a capçana, uma espécie de almofada que se colocava sobre a
cabeça para evitar ferimentos e sustentar melhor o peso e que tinha preso a ela
uma correia de couro para atá-la. Além de atravessarem ruas da cidade
sustentando nas costas o peso das mercadorias, os mesmos deveriam ter todo o
cuidado para não as estragarem, caso acontecesse, eram deles a responsabilidade
de arcar com os prejuízos do mercador.
Na época, o trabalho dos
bastaixos era muito importante para o comércio marítimo de Barcelona,
sobretudo, porque o porto da cidade não possuía um lugar resguardado do mar, o
que deixava todas as embarcações a mercê do perigo de naufragarem em caso de
temporal as pegassem ancoradas muito próxima à praia. Por isso eram barqueiros
os responsáveis por desembarcarem e embarcarem as mercadorias nos navios e aos
bastaixos cabia o transporte pelas ruas da cidade até os armazéns. Porém a
ambos cabiam agir de forma rápida e eficiente a fim de abreviar o tempo de
ancoragem dos navios.
Mas não foi por sua
importância como estivadores do porto que os bastaixos ficaram conhecidos na história
de Barcelona, mas pela sua importante participação na construção de um dos mais
formidáveis momentos da cidade e grande representante do gótico catalão: a
Catedral de Santa Maria del Mar.
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Fachada da Catedral de Santa Maria del Mar. Wikimedia Commons. |
Nos mais de 50 anos de
construção da catedral os bastaixos foram importantes personagens para
concretização do projeto dos arquitetos Berenguer de Montagut e Ramón Despuig.
Construída em Barcelona entre os anos de 1329 e 1383, a igreja foi edificada,
sobretudo, graças à devoção e ao trabalho devotado do povo mais humilde do
bairro da Ribeira.
Junto aos trabalhadores do
mar e moradores do entorno, os bastaixos foram importantes impulsionadores para
a construção da catedral do bairro da Ribeira. Foram eles os responsáveis por
carregar (gratuitamente e nas costas!) as pesadas pedras que serviram para a
construção do templo. Traziam as pedras da pedreira real de Montjuïc ou de
navios aportados na praia e que traziam-nas de outros lugares, e deixavam-nas
no campo de obra para serem lavradas.
Graças a esta participação e
grande demonstração de devoção que o trabalho como bastaix, mesmo sendo um dos
mais humildes da cidade condal, foi imortalizada em diversas figuras de metal
que decoram as portas do templo.
A primeira vez que ouvi o
termo bastaix foi no livro A Catedral do Mar (Rocco, 2007), do também barcelonês Ildefonso Falcones
– este foi o último livro da campanha do #AnoDaEspanha. Em seu romance,
Ildefonso conta a história da construção da catedral gótica de Santa Maria del
Mar em paralelo a épica trajetória de vida de Arnau Estanyol, que de filho de
um camponês fugido do feudo de seus senhores se torna uma importante figura de
Barcelona (confira a resenha).
Capa do livro de Ildefonso (Rocco, 2007) |
Mas como já deve ter ficado
bem claro o trabalho de um bastaix era duro e por demais sacrificante, mas
igualmente perigoso. No livro de Ildefonso aprendemos que os bastaixos
principiantes deviam pegar o peso de forma controlada e gradativa até que em
suas costas se formasse calos onde os fardos carregados atritavam a pele. As
chagas produzidas pelo peso secavam e formavam calos, estes, por sua vez, ajudavam
no trabalho diminuindo a agressão do peso sobre a pele do trabalhador. Para
obter o resultado esperado, ou seja, a formação dos calos, o iniciante deveria
limpar os ferimentos e aplicar sobre eles unguentos que ajudavam a cicatrização
das feridas e na formação dos calos.
Além disso, os bastaixos
estavam submetidos a regras de conduta muito severas. A principal delas era a
proibição de relações adulteras. Todo bastaix que cometesse adultério ou
convivesse com uma mulher desonesta era condenado a expulsão da confraria, e
justamente por isso esta imposição torna-se um fator complicador na trama.
Também em decorrência desta regra, os bastaixos não podiam permanecer muito
tempo na condição de homens solteiros, devendo contrair matrimônio com uma
mulher que fosse honesta e manter-se fiel a ela.
Confesso que fiquei impressionado com os sacrifícios, a
humildade e devoção destes homens. Comovido pela união e pela solidariedade
existente entre eles e são estes aspectos que Ildefonso busca ressaltar em seu
livro e o faz com maestria. Em respeito a esta profissão, a muito tempo
esquecida, como um nome quase extinto que achei que os bastaixos mereciam uma
postagem especial, ainda mais que na internet só encontrei referências em
castelhano, italiano e catalão.
Obrigado pela paciência.
Faça um tour virtual pela catedral dos bastaixos: Santa Maria del Mar
Referências
https://es.wikipedia.org/wiki/Bastaixos
https://es.wikipedia.org/wiki/Bas%C3%ADlica_de_Santa_Mar%C3%ADa_del_Mar
FALCONES, Ildefonso. A
Catedral do Mar. Tradução Cristina Cavalcanti. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.
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Muito boa sua descrição. Vou ler o livro..
ResponderExcluirMuito obrigado. Leia sim, ele só é um pouco difícil de achar. Não teve reimpressão no Brasil.
ExcluirMuito obrigada pela matéria. Realmente, não tem quase nada sobre essa profissão na internet. Estou assistindo a essa triste e maravilhosa série. 💜
ResponderExcluirObrigado pelo comentário. Sim, é escasso, por isso, escrever o post foi complicado.
ExcluirTive conhecimento desta profissão através da série, que gostei muito. Foi ao procurar mais detalhes sobre a mesma que encontrei este Post, sobre o qual quero dar os meus parabéns por se encontrar muito bem explicado em que consiste esta profissão
ResponderExcluirMeu agradecimento pela excelente viagem no tempo.
ResponderExcluirMuito obrigada pela explicação, estou assistindo a série !
ResponderExcluirOlá. Estou assistindo a série: a Catedral do mar. Gosto de filme realista. Eu pesquisei e achei o livro, é uma história de um homen que sofreu bastante .
ResponderExcluirEstou adorando a série...
ResponderExcluirAss.: Iran Sales.