terça-feira, 27 de dezembro de 2016

7ª Arte: La Lengua de las Mariposas – Resenha

Um filme baseado em três contos de Manuel Rivas

Por Eric Silva

“La lengua de la mariposa es una trompa enroscada como un muelle de reloj. Si hay una flor que la atrae, la desenrolla y la mete en el cáliz para chupar. Cuando lleváis el dedo humedecido a un tarro de azúcar, ¿a que sentís ya el dulce en la boca como si la yema fuese la punta de la lengua? Pues así es la lengua de la mariposa”.

(La Lengua de las Mariposas. In: Rivas, Manuel. ¿Qué me quieres, amor?)

A infância é um momento de descobertas. O período da vida em que um mundo cheio de mistérios se abre para nós. Mistérios que são revelados um após o outro de diferentes maneiras, através da escola, da observação dos adultos, do contato com os amigos e com a própria natureza. É o momento de experimentar os primeiros amores e as primeiras dores, de conhecer o significado da amizade e da perda. Uma viagem que nunca fazemos só.

Filme de José Luis Cuerda e baseado na obra de Manuel Rivas, La Lengua de las Mariposas narra a história de amizade e aprendizado entre o pequeno Mocho e seu professor Don Gregorio nos meses que antecedem a Guerra Civil Espanhola. Conta como aluno e mestre constroem uma relação de aprendizagem através da escuta e do estabelecimento de laços de respeito, admiração, cumplicidade e amizade, em uma época de grande instabilidade política e no qual os métodos de ensino ainda eram baseados na violência.

Resenha

Foi em abril desse ano que após fazer a leitura do livro A Sombra do Vento do espanhol Carlos Ruiz Zafón que decidi começar aqui no blog a campanha do #AnoDaEspanha. Hoje, oficialmente, vou encerrá-la para que ano que em 2017 possamos homenagear um novo país, uma nova literatura e um novo séquito de bons autores. E para finalizar aquela que para mim foi a campanha mais especial de 2016, escolhi fazer o segundo 7ª Arte com um filme espanhol especialíssimo que me emociona muito pela delicadeza com que trata o tema da infância e da educação, mas que infelizmente nunca vi em versão dublada para o português.

Moncho, interpretado por Manuel Lozano.
Dirigido pelo diretor, escritor e produtor de cinema espanhol José Luis Cuerda, La Lengua de las Mariposas (A Língua das Mariposas) é um drama que conta a história de como surgiu a amizade de Moncho (Manuel Lozano) com seu professor Don Gregorio (Fernando Fernán Gómez) e de como o menino superou seu medo da escola. O enredo se passa no ano de 1936, às vésperas da Guerra Civil Espanhola que mudaria os rumos da história do país e também dos personagens da trama. Desse modo o filme perfila a vida cotidiana de uma pequena comunidade galega, os posicionamentos políticos de alguns de seus moradores e os primeiros movimentos dos grupos nacionalistas de extrema direita contra os esquerdistas republicanos.

Personagem central da trama, Moncho era um menino esperto e muito ativo apesar de sua asma. Vivia com seus pais e o irmão em uma pequena vila rural da Galícia. O pai, Ramón (Gonzalo Martín Uriarte), era um alfaiate muito ligado a Frente Republicana Espanhola e durante o período em que esteve adoente ensinou o filho caçula a ler. A mãe, Rosa (Uxía Blanco), por sua vez, era uma dona de casa desvelada e bastante religiosa que vivia preocupada com o posicionamento político do marido. Enquanto que o irmão, Andrés (Alexis de los Santos), era um rapaz aprendiz de saxofonista e que mantinha uma boa relação com o irmão caçula.

Moncho e sua família reunidos durante a ceia
No ano de 1936, quando se desenrola a trama narrada pelo filme, o único medo de Moncho era ir para a escola, onde as crianças costumavam apanhar de seus professores. No primeiro dia de aula, quando foi chamado por seu novo professor, para que se apresentasse aos colegas de turma, o menino apreensivo e com medo urinou-se e fugiu para o bosque onde passou a noite escondido, deixando a todos preocupados. Contudo, Don Gregorio estava longe de ser o professor que Moncho e imaginava. Ao contrário era um senhor bonachão e um intelectual republicano em vias de se aposentar do ofício da docência. Por isso, preocupado com a atitude do novo aluno, Don Gregorio vai pessoalmente a casa da família para desculpar-se com o menino e tranquilizá-los, pois ao contrário dos demais docentes da época, o velho professor tratava seus alunos com complacência e buscava usar uma metodologia de ensino pautada no respeito, na não-violência e na formação de sujeitos livres. Assim, pouco a pouco, com sua inteligência e seu método de ensino, o velho professor vai conquistando a confiança e a atenção do pequeno que via um mundo novo desabrochar-se para ele.

É também em 1936, ora na companhia de seu amigo Roque, ora na de seu irmão, que Moncho vai descobrindo coisas do mundo dos adultos como a arte, o amor e o que é o sexo, através das histórias e do convívio com as pessoas da região, como Carmiña, uma garota que vivia isolada com sua mãe e seu cachorro Tarzan, mas que se encontrava às escondidas com um rapaz da vila. Encontros que furtivamente Moncho e Roque espiavam.

Uma das aulas ao ar livre do Don Gregorio (centro),
quando este fala da língua das mariposas (borboletas). 
Ao longo daquele ano, o pardal, como Moncho era chamado por su maestro, ao mesmo tempo que desfrutava a liberdade de sua infância, das brincadeiras e da escuta das aulas e palavras de seu professor, o menino vai acompanhando a vida dos moradores, os primeiros progressos da carreira de saxofonista do irmão e o aumento do fervor dos republicanos à medida que as notíciais dos embates políticos com os nacionalistas vinham de Madri. Contudo, 1936 não seria para Moncho apenas um momento de novas descobertas, seria também o ano em que conheceria a dor, o ódio e novos medos trazidos pelos prenúncios de tempos terríveis de guerra. Coisas complicadas e irracionais demais para que o menino pudesse compreender.

La Lengua de las Mariposas é uma história singela e tocante, uma narrativa contada a partir de pequenas cenas do cotidiano que nos vão falando de seus personagens, dos ideais, do medo e da luta pela sobrevivência. Um calidoscópio da vida, da infância, do amor, da política e da educação do início do século XX na Espanha, às vésperas do conflito que marcaria a vida, a literatura e o cinema espanhol até os dias atuais. Um enredo que foi composto por Cuerda a partir de três contos distintos do livro ¿Qué me quieres, amor?, obra do também espanhol Manuel Rivas e que infelizmente, até onde consegui pesquisar, não possui tradução para a língua portuguesa.

Com grande sensibilidade criativa o diretor costurou entrono do enredo do conto principal, que dá nome ao filme, as histórias de outros dois contos: Un saxo en la niebla e Carmiña. Para tanto o diretor espanhol vai ligando os personagens dos diferentes contos e associando-os através da figura de Moncho e de sua família, que originalmente eram personagens apenas de La Lengua de las Mariposas.

Não tenho prática com o espanhol, mas depois de dar uma olhada nos três contos consegui separá-los e entender algumas conexões realizadas pelo diretor do filme. Percebi inclusive que somente um telespectador muito atencioso, ou aquele que já tem conhecimento dos três contos de Rivas, atenta para o fato de que duas outras histórias correm paralelas ao enredo principal, isso porque o cineasta utiliza-se de vários personagens de uma e de outra história em um emaranhado que vai desde as associações familiares inexistentes na obra original a colocar um personagem em lugar de outro. Este último é o caso de Andrés que toma emprestado para si o papel do saxofonista de Un saxo en la niebla e, em uma viagem com a banda da Orquestra Azul, se apaixona por uma bela garota de traços orientais, mas que era casada com um homem bem mais velho.

O contexto histórico é um dos pontos altos da história, e peça fundamental de seu desfecho. Porém os atritos políticos entre os dois grupos políticos da época (nacionalistas e republicanos) é desnudado muito aos poucos, primeiro de uma forma discreta, aqui e ali, sugerido em um comentário, no título de um livro, em um cartaz pendurado na parede, nas convicções do professor. Mas a medida que a história segue seu curso o tema vai ganhando espaço e contorno, numa discussão no bar, em uma festa do partido e, sobretudo, no desfecho surpreendente e inesperado. Todavia tenho segurança para dizer que os temas infância e educação possuem mesmo ou maior peso na narrativa e povoa toda a extensão da história.

O cenário campestre é muito presente ao longo de todo o filme

Os cenários para mim foram os mais fabulosos porque exploraram a simplicidade do que é rústico e campestre, a história de construções austeras de um lugar de existência secular e a natureza dos bosques e das borboletas do norte da Península Ibérica. Cenários que falavam de seus personagens e de seus estilos de vida. Mas uma de minhas partes prediletas são as fotos de campesinos e citadinos da época que são mostradas logo no início da película. Nesse momento do filme a música de fundo me lembra a nostalgia de um passado que vai ficando longínquo, cada vez mais perdido no tempo, como se dissesse de um tempo em que fomos felizes, mas as circunstâncias fizeram com que se desse lugar a outro tempo diferente e melancólico.

A imagem antiga de crianças campesinas é uma das fotografias que iniciam a película.

Por fim, o desfecho da história é o momento mais comovente e o maior dos clímax da história, capaz de revoltar e dividir a opinião dos espectadores diante de algumas das atitudes tomadas por alguns personagens. Inclusive, a cena mais inquietante e comovente é a última fala do ator Manuel Lozano que interpreta Moncho, e que parece deixar uma mensagem cifrada e aberta a interpretação de quem assiste. Um filme até o fim delicado, profundo em sua simplicidade e sublime em sua mensagem.

La Lengua de las Mariposas entrou em cartaz pela primeira vez no ano de 1999, na Espanha. A película é uma produção dos estúdios do Canal+ España em parceria com Las Producciones del Escorpión, Sociedad General de Televisión (Sogetel), Televisión Española (TVE) e Televisión de Galicia (TVG) S.A. Tem duração de 96 minutos.

Abaixo você pode conferir o trailer do filme em sua versão dublada para o inglês (Butterfly):

Trailer





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