segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Quem eram os bastaixos do livro A Catedral do Mar? – Postagem Especial

Por Eric Silva

Ao longo da história da humanidade muitas profissões desapareceram e muitas outras mudaram de forma. Mesmo em nossa era o desenvolvimento tecnológico acelerado é responsável por fazer desaparecer profissões tão rápido quanto cria novas áreas de atuação profissional.

Bastaix é uma palavra que não aparece nos dicionários da língua portuguesa, e mesmo na península ibérica, onde teve origem, ela caiu em desuso e quase desapareceu, mas para a Barcelona dos séculos XIII e XV aquela era uma palavra tão corrente quanto a profissão a ela associada era considerada indispensável ao funcionamento do porto barcelonês.
Figura de metal representando um dos muitos bastaixos que contribuíram com a construção da Catedral de Santa Maria del Mar em Barcelona.

Os bastaixos eram, na Barcelona, medieval os descarregadores do porto, responsáveis pelo carregamento e descarregamento das mercadorias dos navios mercantes que chegavam a cidade. Na época eram chamados também de “macips de ribeira” devido a condição escrava que possuíam antes que no século XIV a profissão passasse a ser exercida por homens livres que se agrupavam entorno de uma confraria. A confraria além de organizar o trabalho de seus membros com seus parcos recursos, também se dedicava a reunir esforços para garantir assistência às viúvas dos bastaixos e aqueles que já se encontravam em idade avançada para realizar o trabalho.

No trabalho como estivadores do porto, os bastaixos carregavam nas costas os fardos de mercadorias, tendo apenas como proteção a capçana, uma espécie de almofada que se colocava sobre a cabeça para evitar ferimentos e sustentar melhor o peso e que tinha preso a ela uma correia de couro para atá-la. Além de atravessarem ruas da cidade sustentando nas costas o peso das mercadorias, os mesmos deveriam ter todo o cuidado para não as estragarem, caso acontecesse, eram deles a responsabilidade de arcar com os prejuízos do mercador.

Na época, o trabalho dos bastaixos era muito importante para o comércio marítimo de Barcelona, sobretudo, porque o porto da cidade não possuía um lugar resguardado do mar, o que deixava todas as embarcações a mercê do perigo de naufragarem em caso de temporal as pegassem ancoradas muito próxima à praia. Por isso eram barqueiros os responsáveis por desembarcarem e embarcarem as mercadorias nos navios e aos bastaixos cabia o transporte pelas ruas da cidade até os armazéns. Porém a ambos cabiam agir de forma rápida e eficiente a fim de abreviar o tempo de ancoragem dos navios.

Mas não foi por sua importância como estivadores do porto que os bastaixos ficaram conhecidos na história de Barcelona, mas pela sua importante participação na construção de um dos mais formidáveis momentos da cidade e grande representante do gótico catalão: a Catedral de Santa Maria del Mar.

Fachada da Catedral de Santa Maria del Mar.
Wikimedia Commons.
Nos mais de 50 anos de construção da catedral os bastaixos foram importantes personagens para concretização do projeto dos arquitetos Berenguer de Montagut e Ramón Despuig. Construída em Barcelona entre os anos de 1329 e 1383, a igreja foi edificada, sobretudo, graças à devoção e ao trabalho devotado do povo mais humilde do bairro da Ribeira.

Junto aos trabalhadores do mar e moradores do entorno, os bastaixos foram importantes impulsionadores para a construção da catedral do bairro da Ribeira. Foram eles os responsáveis por carregar (gratuitamente e nas costas!) as pesadas pedras que serviram para a construção do templo. Traziam as pedras da pedreira real de Montjuïc ou de navios aportados na praia e que traziam-nas de outros lugares, e deixavam-nas no campo de obra para serem lavradas.

Graças a esta participação e grande demonstração de devoção que o trabalho como bastaix, mesmo sendo um dos mais humildes da cidade condal, foi imortalizada em diversas figuras de metal que decoram as portas do templo.

A primeira vez que ouvi o termo bastaix foi no livro A Catedral do Mar (Rocco, 2007), do também barcelonês Ildefonso Falcones – este foi o último livro da campanha do #AnoDaEspanha. Em seu romance, Ildefonso conta a história da construção da catedral gótica de Santa Maria del Mar em paralelo a épica trajetória de vida de Arnau Estanyol, que de filho de um camponês fugido do feudo de seus senhores se torna uma importante figura de Barcelona (confira a resenha).

Capa do livro de Ildefonso.
Em A Catedral do Mar, Ildefonso dá amplo destaque à caracterização do trabalho dos bastaixos, à sua devoção a padroeira do templo que ajudavam a erigir, as origens humildes de seus trabalhadores e, sobretudo, as rígidas regras que a confraria lhes impunham. Os bastaixos ganham tamanho espaço e importância na narrativa que o próprio personagem principal se torna um dos mais jovens e dedicados bastaix de Barcelona. Arnau admirava a força e a alegria daqueles homens que viviam de forma digna e honesta, e que apesar da dureza de sua tarefa estavam sempre contentes (talvez um pouco fantasioso).

Mas como já deve ter ficado bem claro o trabalho de um bastaix era duro e por demais sacrificante, mas igualmente perigoso. No livro de Ildefonso aprendemos que os bastaixos principiantes deviam pegar o peso de forma controlada e gradativa até que em suas costas se formasse calos onde os fardos carregados atritavam a pele. As chagas produzidas pelo peso secavam e formavam calos, estes, por sua vez, ajudavam no trabalho diminuindo a agressão do peso sobre a pele do trabalhador. Para obter o resultado esperado, ou seja, a formação dos calos, o iniciante deveria limpar os ferimentos e aplicar sobre eles unguentos que ajudavam a cicatrização das feridas e na formação dos calos.

Além disso, os bastaixos estavam submetidos a regras de conduta muito severas. A principal delas era a proibição de relações adulteras. Todo bastaix que cometesse adultério ou convivesse com uma mulher desonesta era condenado a expulsão da confraria, e justamente por isso esta imposição torna-se um fator complicador na trama. Também em decorrência desta regra, os bastaixos não podiam permanecer muito tempo na condição de homens solteiros, devendo contrair matrimônio com uma mulher que fosse honesta e manter-se fiel a ela.

Confesso que fiquei impressionado com os sacrifícios, a humildade e devoção destes homens. Comovido pela união e pela solidariedade existente entre eles e são estes aspectos que Ildefonso busca ressaltar em seu livro e o faz com maestria. Em respeito a esta profissão, a muito tempo esquecida, como um nome quase extinto que achei que os bastaixos mereciam uma postagem especial, ainda mais que na internet só encontrei referências em castelhano, italiano e catalão.
Obrigado pela paciência.

Faça um tour virtual pela catedral dos bastaixos: Santa Maria del Mar




Referências

https://es.wikipedia.org/wiki/Bastaixos
https://es.wikipedia.org/wiki/Bas%C3%ADlica_de_Santa_Mar%C3%ADa_del_Mar

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