quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Anna e a Trilha Secreta – Ana Lúcia Merege - Resenha

Por Eric Silva

Recentemente resenhei um dos principais livros da autora brasileira Anna Lúcia Merege, o primeiro livro da série Athelgard, O Castelo das Águias. Na ocasião da publicação a autora ficou sabendo da nossa resenha e nos deu o privilégio de lê-la e o prazer de manifestar sua opinião sobre ela. Mas mais do que isso Anna Lúcia nos enviou duas de suas outras obras para doação a biblioteca de nossa cidade: a Biblioteca da Filarmônica 30 de Junho. Uma atitude bonita e que permitirá com que os serrinhenses conheçam também um pouco de sua obra.

O primeiro dos livros é O Caçador, a primeira obra de ficção da autora e que resenharemos em breve, e o outro livro é Anna e a Trilha Secreta, obra pertencente ao universo de Athelgard e que será o tema desta resenha.

Sinopse

Anna é uma garota humana, mas que foi criada por sua avó entre os elfos da tribo da Floresta dos Teixos. Na tribo, cada um possui suas próprias responsabilidades e todos trabalham em conjunto para o bem estar e sobrevivência da comunidade. Porém Anna é mais lenta e mais forte do que seus amigos e muitas vezes o trabalho mais pesado acaba sendo dela, o que incomoda bastante a menina que se sente diferente dos demais por ser humana.

Como nem a avó, Kyara, e nem o primo xamã, Zendak, respondem às dúvidas que inquietam seu coração, Anna vai ao encontro de Maryan, sua mestra e esposa de Zendak. Contudo, também Maryan estava muito atarefada para dar a atenção que a menina necessitava naquele momento, mas encube à Anna a missão de levar a Zendak uma bolsa de talismãs que ela havia terminado de preparar.

Um tanto desconsolada, Anna aceita sua tarefa e regressa à floresta com a bolsa, porém, antes que encontrasse o primo, é surpreendida pelo ataque de uma coruja que rouba-lhe a bolsa. Aflita a menina resolve perseguir o animal pela floresta e dá início a uma aventura por uma trilha secreta que irá mudar toda a sua vida.

Resenha

Anna e a Trilha Secreta é uma novela infanto-juvenil que fala de identidade, de afirmação, de coragem e determinação. O livro não só complementa o universo da série Athelgard como dá ao seu leitor um entendimento mais amplo e próximo das origens de sua personagem principal. É uma história curta, mas povoada de significados e simbologias.
A autora

Na resenha do livro O Castelo da Águia abordei a forma como a personagem Anna de Bryle possuía uma forte identidade étnica e um sentimento de pertença muito grande em relação aos membros da tribo da Floresta dos Teixos. A Trilha é sem dúvida a resposta de como se formou esta identidade. Ao longo da narrativa, a menina órfã, humana e criada pela avó elfa em meio ao seu povo vai ganhando os primeiros contornos da mulher corajosa e identitariamente ligada ao seu lugar de origem, a mestra de sagas de O Castelo. Em a Trilha Secreta Anna é apresentada ainda criança e tem seus primeiros contatos com os espíritos guardiões de sua tribo.

Muitas vezes temos dúvidas sobre nosso papel no mundo, sobre a nossa função dentro do grupo, principalmente se nos sentimos diferente dos demais. Quando nos sentimos assim, às vezes, é necessário que ouçamos a opinião de outras pessoas, mais vividas e com mais experiência e que nos ajudam a reconhecer a nossa importância para o grupo. Mas, às vezes, é necessário mais que isso. É preciso que vivamos uma situação limite, que ponha a prova o conhecimento que temos de nós mesmos e do mundo para que, então, possamos reencontraram nosso caminho ou encontrar um caminho novo.

Esse primeiro encontro com as divindades da floresta será para Anna um desafio que lhe servirá não apenas como um teste, mas como um caminho de autoconhecimento, de formação e afirmação da própria identidade, o que será significativo para o seu auto-reconhecimento como membro legítimo do grupo. Desta forma, nas entrelinhas a autora vem trazer um ensinamento da necessidade de que trilhemos estes caminhos de autoconhecimento bastante espinhentos, algumas vezes tortuosos e incertos, para que saiamos deles renovados ou transformados, mas, com certeza, mais fortes. Não se trata apenas de um teste, mas uma busca por respostas, uma busca por nós mesmos.

Assim como em o Castelo das Águias, Anna e a Trilha Secreta também é uma história cheia de referências que se mesclam para compor as características culturais do povo da Floresta dos Teixos. Notei que a autora miscigena traços da cultura indígena norte americana com os mitos de alguns povos antigos da Europa, para compor os traços culturais da tribo de Anna.

Nas divindades da tribo da Floresta dos Teixos encontramos a referência aos indígenas norte-americanos que, em suas crenças, cultuavam animais como o lobo, o corvo, o urso, o coiote, a coruja e a águia. Estes indígenas também tinham no xamã seu guia espiritual e de contato com as divindades da floresta. Alguns destes animais sagrados também figuram o grupo de espíritos guardiões da comunidade de Anna e mesmo Zendak é um xamã, cujo guia é o corvo. Por sua vez, na espécie do povo da Floresta dos Teixos e na própria simbologia do teixo, uma espécie de árvore ancestral (vivem até 1200 anos) muito comum em alguns países europeus, vemos a referência às crenças nórdicas e célticas que acreditavam em elfos e outras criaturas míticas da floresta.

Arilos (maduro e imaturo) e folhagem de teixo. Wikimedia Commons.
Não sei os motivos que levaram a autora a escolher o teixo como símbolo da tribo de Anna, mas esta árvore por si só é muito peculiar. Descobri que além de tomar diferentes formas durante o seu lento processo de crescimento, o teixo é bastante conhecido pela alta toxidade de seus frutos e folhas (todas as partes do teixo são venenosas exceto os seus arilos[1]). Curiosamente suas folhas podem permanecer até 8 anos no ramo[2] e sua madeira, pela resistência, era uma das preferidas para a fabricação de arcos na Idade Média[3]. Mas algo mais curioso veio de um pesquisador alemão, Fred Hageneder, que em suas pesquisas descobriu que o teixo foi associado por algumas culturas antigas ao mito da Árvore do Mundo original[4]. Hageneder inclusive é autor de um livro sobre o teixo que se chama Yew – A History (Teixo – uma história).

Hoje o teixo é uma árvore ameaçada de extinção[5], mas coincidência ou não, existe realmente uma floresta de teixos na Reserva Natural Nacional de Kingley Vale. Kingley Vale fica em West Sussex, no sul da Inglaterra e lá fica uma das mais belas florestas de teixos da Europa. Segundo a lenda local, as arvores teriam teria sido plantadas como um memorial para uma batalha travada entre vikings e anglo-saxões ainda no ano de 859 d.C[6]. Ver as imagens de Kingley Vale nos dá uma ideia concreta de como deve ser a floresta da tribo de Anna imaginada por Merege.

Teixos da Reserva Natural Nacional de Kingley  Vale. Imagem: http://misteriosdomundo.org/

Por seu turno, os elfos figuram a mitologia dos povos escandinavos e dos celtas, interpretados como criaturas mágicas, imunes a velhice e a doença, mas que foram demonizados pelo cristianismo surgente na Europa[7]. Desta forma fica visível como a autora combina de forma harmoniosa um caldeirão de culturas antigas para compor o universo de Athelgard.

Por fim, uma coisa que gostaria de destacar é uma das minhas passagens preferidas no livro: o capítulo que fala dos Bosques sem Fim que crescem e se deslocam incessantemente impossibilitando que qualquer um encontre uma saída. Leia um trecho:

A floresta foi ficando mais e mais sombria. Não era apenas a escuridão da noite, que mal lhe permitia enxergar um palmo a frente do nariz; eram também as árvores, cada vez mais próximas uma das outras além de maiores e mais altas. Não brilhavam como no território do Lobo, mas seus galhos se torciam de forma estranha, e algumas vezes não se pareciam com as árvores que Anna conhecia da Floresta dos Teixos. Ou melhor, tinham alguma semelhança, mas estas se misturavam de um jeito que a deixavam confusa. Ela viu carvalhos nodosos cobertos por agulhas de pinheiro, troncos claros e retos de bétula encimados por copas frondosas, ramos de faia carregados de avelã. Algumas folhas tinham formatos que Anna nunca vira, e cores também, a julgar pelo que enxergava na escuridão crescente. Esse era o pior dos seus problemas: ela não tinha meios de se orientar. Nem conseguia enxergar uma trilha em meio às árvores, que cresciam em zigue-zague.  

Gostei do capítulo que fala do Bosque por dois motivos. O primeiro é que ele me fez lembrar a poesia de García Lorca, Manancial, que coloquei aqui no blog em uma postagem especial da campanha do #AnoDaEspanha. Na passagem mais bela deste poema, Lorca cria um efeito estético impressionante que envolve movimento e magia quando o eu lírico do poema, enquanto contempla o rio, transforma-se em uma árvore às suas margens. De alguma forma imaginar o bosque de Ana Lúcia ativou em minha memória a sensação que senti ao ler o poema de García Lorca, o mais belo do autor na minha opinião.

O segundo motivo foi me fazer lembrar de labirintos, uma imagem que para mim tem muitos significados e que me fez encarar os Bosques sem Fim como uma alegoria[8]. O bosque é nós mesmos, complexos em continua mudança e onde sentimentos, crenças e certezas podem se perder e dar lugar a desesperança. Também é a vida em completa e constante transformação e que se não formos capazes de um olhar total (de cima) acaba por nos tornar incapazes de antever a saída para nossos problemas. O bosque que se movimenta e se modifica é a vida que nos faz mudar de estratégia, que nos faz buscar novos olhares e nos adaptarmos dando resposta às adversidades, sobretudo quando a forma como abordamos os problemas se mostra ineficiente.

Talvez eu tenha ido um pouco longe. Só quem ler ou já leu poderá dizer se me deixei devanear, mas não é sempre que eu encontro tantos símbolos nas entrelinhas de um infanto-juvenil, mas já percebi que essa é uma marca das histórias de Ana Lúcia. Também, para quem lê os livros da autora, Anna e a Trilha Secreta é uma oportunidade de conhecer a personagem Anna quando ainda era criança. Nesta narrativa a menina ainda ignora o que acontecerá em seu futuro, mas os fatos ocorridos na trama lhe revelam lampejos de seu destino nas Terras Férteis.

A edição lida é da Editora Draco, do ano de 2015 e possui 83 páginas. Abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Google Books. Para o pessoal da Biblioteca da Filarmônica: em breve o livro estará lá para todos.


Previa do Google Books






[1] O arilo (arillus) é uma cobertura carnuda de certas sementes, formado a partir do funículo.
[2] http://www.aag.pt/fotos/agenda/ag_3520.PDF
[3] http://www.ehow.com.br/arvores-usadas-arcos-longos-info_190760/
[4] http://www.o-significado-das-arvores.net/o-teixo-e-falsos-conceitos-na-hist%C3%B3ria-religiosa
[5] http://www.aag.pt/fotos/agenda/ag_3520.PDF
[6] http://misteriosdomundo.org/a-antiga-floresta-de-teixo-de-kingley-vale/
[7] http://super.abril.com.br/historia/o-que-sao-os-elfos
[8] “Modo de expressão ou interpretação que consiste em representar pensamentos, ideias, qualidades sob forma figurada” (HOUAISS, 2001).

Um comentário:

  1. Muito obrigada por mais essa leitura atenta! Espero que as crianças da Biblioteca também a apreciem, embora, claro, não devam enxergar tantos símbolos. Mas acho que a leitura vai ser agradável mesmo assim. :)

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