segunda-feira, 15 de maio de 2017

[#MeusLivros] A Vida Íntima de Laura - Clarice Lispector - Resenha

Por Eric Silva


Diga-nos o que achou da resenha nos comentários.

No mês passado. o mundo todo comemorou o dia Internacional do Livro e, no dia 18, no Brasil, se comemorou o dia Nacional do Livro Infantil. Antes disso, no dia 02 do mesmo mês comemoramos o dia Internacional do Livro Infantil, com certeza um período delicioso para rememorar os livros que me fizeram leitor, que me iniciaram nos misteriosos caminhos da literatura. Por isso retomei, no mês passado, a campanha dos Livros da MinhaInfância e Adolescência (#MeusLivros). Na última resenha da campanha falei um pouco dos primeiros livros que li na vida e o primeiro que resenhei foi Rio Tem Coração? onde contei como os meus primeiros livros me foram dados. Hoje, falarei um pouco sobre outro livro dessa época: A Vida Íntima de Laura, de Clarice Lispector, uma história muito simples e corriqueira, mas com um grau de intimidade entre autor e leitor que dificilmente se vê na literatura.

Sinopse
Uma das obras infantis mais conhecidas de Clarice Lispector, A vida íntima de Laura conta de forma intimista e leve a história e as aventuras de Laura, uma galinha como tantas outras e sem nada que fosse excepcional mas que ganha vida e importância através do talento da grande autora.

Eu e A Vida Íntima de Laura
Não tenho muito o que falar de mim e este livro porque muito já falei na resenha de Rio Tem Coração? Mas, para mim, hoje é meio difícil de acreditar que entre os primeiros livros que li na vida estaria um dos mais importantes nomes da literatura brasileira, como é o caso de Clarice Lispector.

Lembro que quando lia A Vida Íntima de Laura não imaginava quem era sua autora ou sua importância. Na verdade, isso pouco importava, porque quando somos crianças o que nos importa não são a beleza das palavras ou a fama do escritor, mas principalmente a mágica da história. O enredo e seus personagens são o que de fato importam.

Lembro ainda que eu achava engraçado alguém ter escrito uma história sobre um animal que quase ninguém que mora na cidade dá importância, a menos que ele esteja na panela. Mas parecia que, para o narrador, elas eram criaturas muito interessantes e isso contagia o leitor, porque a medida com que ia falando conosco de como Laura era tão feia e burrinha, com “seus pensamentozinhos e sentimentozinhos”, a própria galinha ia ganhando importância e a nossa estima, evidenciando ser alguém bem maior e mais esperto do que o narrador de fato dizia, justamente porque ela não precisava ser excepcional ou perfeita para ser importante.

Hoje, dá até um pouco de pena comer um animalzinho tão singelo e pacato, ainda mais quando abro as páginas da minha edição toda pintada e riscada do livro de Clarice, mas a verdade é que amo quase todo prato que é feito com frango e a gula fala mais alto do que a consciência. “É que pessoas são uma gente meio esquisitona” e não tenho mesmo vocação para ser vegetariano.

Resenha
“Vou logo explicando o que quer dizer “Vida íntima”. É assim vida íntima quer dizer que a gente não deve contar a todo mundo o que se passa na casa da gente. São coisas que não se dizem a qualquer pessoa.Pois vou contar a vida íntima de Laura.  Agora adivinhe quem e Laura.Dou-lhe um beijo na testa se você adivinhar. E duvido que você acerte! Dê três palpites.Viu como é difícil?”
É dessa forma divertida e bem próxima do leitor mirim que Clarice inicia o seu pequeno monólogo sobre a vida de Laura, “uma galinha muito da simples”. esposa do galo Luís e que vivia no quintal de Dona Luísa. Em seu tom afável e descontraído que lembra mais uma prosa de fim de tarde, Clarice vai contando as intimidades e pequenas aventuras da “simpática” Laura e faz graça ao confessar que a galinha do pescoço feio é também “bastante burra”. Mas quem se importa com aparência, não é mesmo? “Porque o que vale mesmo é ser bonito por dentro”, e, quanto a Laura ser burríssima”, isto é um grande exagero, e sabe por quê? Porque “quem conhece bem Laura é que sabe que Laura tem seus pensamentozinhos e sentimentozinhos. Não muitos, mas que tem, tem.

É nesse tom e por meio de perguntas diretas que Clarice vai se achegando ao leitor, envolvendo-o e integrando-o ao universo de Laura e à própria história. Da mesma forma vai desfazendo preconceitos sobre a aparência e a intelectualidade e fomenta o respeito ao outro em suas particularidades como vemos no trecho abaixo:

“As outras são muito parecidas com ela: também meio ruiva e meio marrom. Só uma galinha é diferente delas: uma carijó toda de enfeites preto e branco. Mas elas não desprezam a carijó por ser de outra raça. Elas até parecem saber que para Deus não existem essas bobagens de raça melhor ou pior”.

A autora
A Vida Íntima de Laura é pouco mais do que um conto no qual Clarice Lispector escreve uma história simples e sem grandes acontecimentos. Escreve a história íntima de uma das criaturas mais corriqueiras e desinteressantes que existe, mas que ao mesmo tempo tem grande importância nas nossas vidas. E no meio dessa história Clarice expõe o quanto a vida singela de uma galinha meio burrinha pode suscitar uma série de importantes questões humanas e sobre as nossas relações interpessoais.

Mas como se era de esperar de uma escritora bem experimentada na literatura para adultos, na qual a vida é representada sem muitos floreios, a morte é um tema presente na história ainda que de forma bem atenuada. Ao integrar a morte na narrativa Clarice deixa claro que as galinhas são quase sempre criadas para a alimentação humana, e poucas como Laura contam com a estima de seus criadores.

Hoje, A Vida Íntima de Laura me faz pensar que ainda que muitas histórias infantis envolvam animais imponentes como leões e elefantes (a Disney que o diga com o Rei Leão e Dumbo) ou exóticos como o macaco e o camaleão, aquelas que mais nos ensinam são como a de Clarice, que falam de pequenos animais do nosso cotidiano e que nós, adultos, pouco valorizamos. Então reflito como a literatura tenta imitar a mágica da infância que parte de coisas tão pequenas e singelas e lhes dão tamanho e importância colossal. É como se um universo coubesse numa gota de orvalho mas estivéssemos ocupados demais para perceber isso.

Ao contrário de nós, com as crianças acontece diferente. Elas percebem esse mundo insondado que só existe na imaginação. Através dele reescrevem o cotidiano, o amplifica, o ultrapassa e o “magifica”. Penso que os livros infantis tentam explorar o mesmo caminho e daí nascem livros como A Vida Íntima de Laura.

Por fim, me parece que os contadores de história são os únicos adultos capazes de contar o mundo pelo olhar da criança. Clarice foi uma dessas pessoas que soube fazer a ponte entre o mundo infantil e o adulto, trazendo de um mundo e de outro os elementos para escrever sua história e fazendo da vida pacata de uma galinha algo interessante para os pequenos.


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