quinta-feira, 10 de março de 2016

Desventuras em Série: Mau Começo, A Sala dos Répteis e O Lago das Sanguessugas

Diz o ditado que dinheiro não traz felicidade, mas os Baudelaire afirmariam que ele só traz infortúnios, uma palavra que aqui significa “acontecimentos infelizes que se sucedem a alguém ou a um grupo de pessoas” que no caso são os próprios Baudelaire.
Os irmãos Baudelaire em ilustração de Brett Helquist.

Desventuras em Série é um conjunto de 13 livros infanto-juvenis escritos por Daniel Handler sob o pseudônimo de Lemony Snicket. Os 13 volumes – lembrem que aqui no ocidente 13 representa má sorte – narram as desventuras de três irmãos herdeiros de uma grande fortuna que ao perdem seus pais no misterioso incêndio da mansão da família são entregues a novos tutores. Contudo, ao longo de toda a narrativa os três órfãos, Violet, Klaus e Sunny, são perseguidos pelo seu primeiro tutor, o inescrupuloso e razão das desventuras dos Baudelaire, o Conde Olaf, um ator decadente que com a ajuda de sua trupe de artistas bizarros tentam a todo custo se apoderarem da fortuna dos Baudelaire.

Nesta postagem decidi falar dos três primeiros livros da coleção de forma conjunta porque estes volumes foram as referências da adaptação da obra para o cinema feita pelo estúdios Paramount Pictures, DreamWorks Pictures e Nickelodeon Movies com direção de Brad Silberling. Como eu assistir ao filme antes de ler a série minha leitura foi fortemente influenciada pela película fílmica, e as comparações foram inevitáveis. Por isso, a postagem de hoje será tripla e a resenha unificará as impressões desse conjunto com algumas comparações com o filme. Inevitavelmente haverá spoiler.


Sinopses dos livros


Mau Começo 


Como o nome já insinua, este é o primeiro volume dá série onde somos apresentados aos protagonistas da narrativa: os três irmãos, o banqueiro Sr. Poe e o antagonista Conde Olaf.
Capa da edição brasileira de Mau Começo retratando
a chegada dos órfãos a casa do Conde Olaf

O livro começa narrando como os irmãos Baudelaire receberam pelo Sr. Põe a triste notícia do trágico incêndio que vitimara seus país. A partir dali, responsável pela gestão de seus bens, o banqueiro os conduzem ao seu novo tutor, um parente distante chamado Conde Olaf que seria responsável pela guarda das crianças.

Apoiando-se mutuamente os irmão se consolam com a perda prematura dos pais e depositam suas esperanças nesse novo tutor, contudo a primeira decepção começa com a situação escabrosa da casa onde seriam obrigados a viver:

“Os tijolos estavam encardidos e ensebados. Na fachada, só duas pequenas janelas, mantidas fechadas apesar de o dia estar muito bonito. Acima das janelas se erguia uma torre alta e suja, um pouco tombada para a esquerda. A porta da frente estava precisando ser repintada, e entalhada em seu centro havia a imagem de um olho. A construção inteira caía para um dos lados, como um dente torto”. 

Se já não bastasse essa primeira má impressão, o próprio conde era uma criatura de aspecto asquerosa assim como os esquisitos membros de sua trupe de artistas formada por pessoas de aspectos singulares e igualmente tenebrosas. Além disso, logo o novo tutor se demonstraria uma pessoa odiosa, perversa, astuta e ameaçadora com um único interesse: livra-se dos irmãos Baudelaire e apossar-se de sua fortuna, o que só seria possível quando Violet atingisse a maioridade legal. Em uma situação deplorável de abandono e exploração os irmãos encontrariam consolo apenas na juíza Strauss, a amigável vizinha do conde, mas que também logo seria envolvida em um ardiloso plano do conde.


A Sala dos Répteis


O segundo volume da obra conta o destino dado aos órfãos após os eventos narrados em Mau Começo. 
Capa do segundo volume da obra, A Sala dos Répteis,
edição brasileira. Na imagem vemos uma passagem da
história quando Sunny
brinca com a “Víbora Incrivelmente Mortífera".

Após seus planos derem errado, Conde Olaf se encontra foragido e os irmãos Baudelaire são levados por Sr. Poe a mansão de seu novo tutor, outro parente distante, o Dr. Montgomery, também chamado de Tio Monty.

Montgomery é um herpetologista - estudioso de répteis e anfíbios – que mantinha em sua casa uma imensa coleção de animais exóticos, a exemplo da “Víbora Incrivelmente Mortífera", que apesar do nome pomposo e sugestível se demonstrava como a mais dócil das criaturas. Tudo na casa recordava a paixão do seu dono até mesmo a decoração lembrava as perigosas serpentes estudadas por Montgomery: 

“Mas, diante da casa, via-se algo verdadeiramente fora do comum: um vasto e bem-cuidado gramado, repleto de longos e finos arbustos que haviam sido podados para ficar com a aparência de cobras. Cada arbusto era um tipo diverso de serpente: umas longas, outras curtas, umas de língua para fora e outras de boca aberta revelando dentes verdes assustadores. Todas bem intimidativas, tanto que Violet, Klaus e Sunny mostraram certa hesitação em caminhar passando ao lado delas no trajeto até a casa”.
Tio Monty se demonstram uma pessoa doce e logo cativa as crianças que pensavam ter finalmente encontrado consolo naquela casa inusitada e no seu alegre proprietário que já planejava uma viagem de expedição com as crianças pelas florestas do Peru. Contudo, tudo mudaria com a chegada do misterioso e suspeito Stephano, o novo ajudante de Montgomery e que viajaria com eles na expedição.

O lago das sanguessugas 


Após os acontecimentos ocorridos no livro anterior, os irmãos Baudelaire são levados para um novo tutor, a tia Josephine, uma mulher apaixonada pelo estudo da gramática, mas com manias e temores que abeiravam o irracional.
Capa da edição brasileira de o Lago das Sanguessugas.
Nela vemos a chegada do furacão Hermano.

Josephine morava próximo ao Cais de Dâmocles em uma casa que ficava a beira de um penhasco sustentada apenas por uma frágil estrutura que lhe impedia de desabar:


“Os Baudelaire deram uma olhada. De início, os três garotos viram apenas algo semelhante a uma caixinha quadrada que tinha uma porta branca com a pintura descascando e que parecia ser um pouco maior do que o táxi que os levara até ali. Mas quando saíram do carro e se aproximaram da construção, viram que a caixinha quadrada era a única parte da casa situada no cume do morro. O resto dela — uma grande pilha de caixas quadradas grudadas umas nas outras como cubos de gelo — pendia das encostas, prendendo-se no morro por estacas metálicas que eram como patas de aranha. Ao olhar para seu novo lar, os três órfãos tiveram a impressão de que a casa inteira se agarrava ao morro como se ele fosse uma tábua de salvação”. 
Ainda que vivendo em uma casa claramente insegura, tia Josephine, após a morte do marido, Belo, devorado pelas sanguessugas carnívoras do lago Lacrimoso, havia se tornado uma mulher muito medrosa que evitava qualquer coisa que jugasse perigoso. Se recusava até mesmo a atender o telefone por medo de ser eletrocutada por ele. Devido a seu medo irracional, a vida dos órfãos não era das mais agradáveis, sendo forçados inclusive a se alimentarem de comida fria pois sua nova tutora não permitia que ninguém usasse o fogão. 

Entretanto, se não era a vida mais aprazível, os irmãos se davam por satisfeitos por estarem juntos e distantes do malvados Conde Olaf. O que os três não imaginavam era que a estranha figura do capitão Sham, às vésperas da chegada do furacão Hermano, travessaria o seu caminho e acabaria com a tranquilidade de todos.

Resenha

Os spoilers começam aqui...

A princípio Desventuras em Série se mostrou um infanto-juvenil de características bastantes peculiares. Seu aspecto gótico, as situações e os lugares absurdos, a sinceridade do autor ao afirmar que ele não estava escrevendo uma história de finais felizes. É mesclar o fantástico e o real, em uma mistura única e original.
Cartaz do filme.

O fantástico está nos lugares como o Lago Lacrimoso com suas sanguessugas carnívoras, a Casa de Josephine dependurada na beira de um penhasco e no Mau Caminho com seu cheiro insuportável de raiz-forte. O real está na consciência de que a vida não é feita apenas de momentos felizes, ou melhor, de que eles são bastante raros e é preciso união para sobreviver. Por fim o gótico permeia toda a atmosfera desse mix de real e fantástico estando nos lugares excepcionais e sombrios, assim como nas personalidades inusitadas de cada um dos personagens. A proposta da série é, por si só, muito interessante. Porém...

Por ter assistido a adaptação para o cinema senti inicialmente que os livros referentes ficaram um pouco a desejar. Primeiramente, o Conde Olaf não tem um senso de humor que supere a criatividade do incrível Jim Carrey, na verdade o ator deu mais alma ao personagem. Em segundo lugar, os momentos de ação e de suspense da narrativa não conseguiram superar a releitura da película e nem a dramaticidade que o filme consegue subsumir (introduzir) na história. Pelo contrário, estes aspectos são um pouco fracos nesses três primeiros livros e talvez por isso o filme tenha introduzido elementos e cenas inexistentes na narrativa dos três primeiros livros, suprimindo e alterado a ordem de alguns acontecimentos.

Ainda assim, o conceito trazido pelo livro é fantástico, um livro gótico para crianças é simplesmente algo que eu jamais imaginaria. Já li infanto-juvenis dramáticos, como Tonico de José Rezende Filho, contudo nada como Desventuras. Sua perspectiva de que não haverá final feliz, de um mundo fantástico situado entre o irreal, o inusitado e um passado de datação incerta é bastante original. Por isso vou destacar alguns aspectos em que o livro ganha de sua adaptação para o cinema.

A primeira delas é que no livro os três irmão parecem mais humanos do que no filme e isso foi um alívio. Os três são realmente inteligentes, sarcásticos e criativos, mas Klaus não é aquela biblioteca ambulante que tem respostas prontas para tudo apenas puxando um ou dois livro de sua mente e que ele tenha lido. No livro ele lê e pesquisa para achar respostas e mesmo sendo sagaz leva um tempo para concluir uma saída para os problemas que aparecem. Violet também é bastante criativa e, sim, ela usa a fita para prender o cabelo, mas a sua genialidade ainda se situa entre a capacidade dos mortais. Por fim, Sunny não é nenhum monstrinho que abre uma lata com os dentes... se bem que ela rompe uma corda com os dentes e abre a perna de pau do capitão Sham com uma mordida... o.O

Em segundo lugar, os livros trabalham mais profundamente o convívio dos órfãos com os personagens coadjuvantes, a exemplo de Sr. Poe, Tio Monty, Tia Josephine e, principalmente, a gentil Juíza Strauss com quem as crianças constrói uma amizade significativa tornando a sua casa em um pequeno e breve refúgio para o sofrimento delas. Desta forma os livros são mais profundos em sua narrativa. Ainda assim o filme consegue preservar as principais características destes personagens

Para concluir destaco aqui três importantes pontos do filme inexistentes no livro ou que foram profundamente modificados:

A cena da destruição da casa de Josephine


Na versão do cinema Violet e Klaus são forçados a pensar um plano de fuga engenhoso para não desabarem do penhasco juntamente com a casa, porém quase toda aquela cena não existe na versão original do livro, há sim uma saída às pressas da casa que desabava, mas só. O plano de Violet com a âncora simplesmente não existe no livro.

Alteração na ordem dos acontecimentos


Com certeza para que o final do filme fosse mais dramático, a ordem cronológica dos fatos nos três livros foram alteradas e uma cena foi criada para dar coesão a narrativa.

No filme, o casamento entre Violet e Conde Olaf, ocorrido durante uma peça de teatro tramada pelo vilão apenas para que a juíza Strauss realizasse um casamento legal entre ele e a mais velha dos irmãos Baudelaire, é usado como desfecho na película, contudo, originalmente este seria o desfecho do primeiro livro, Mau Começo, e não do terceiro livro como faz supor a película fílmica. 

Para fazer com que essa alteração não prejudicasse a ordem lógica dos fatos foi criada uma cena extra como desfecho substituto do primeiro livro. A cena é aquela em que Olaf tenta se livra dos órfãos deixando-os trancados em seu carro na linha férrea enquanto o trem vinha na direção deles. O plano do vilão dá errado devido a inteligência dos irmãos, mas Sr. Poe chega na hora, interpreta a situação de maneira equivocada – só pra variar –, acusa Olaf de irresponsável e tira as crianças dele. Com esse acréscimo o Conde Olaf perde a guarda das crianças e elas são encaminhadas a Tio Monty e a transição de um livro para outro é feito sem prejuízo da ordem lógica dos acontecimentos.

O misterioso grupo da luneta e as investigações sobre incêndios

No filme, em quatro momentos diferentes Klaus encontra evidências da existência de um grupo secreto do qual seus pais, Tio Monty, Tia Josephine e Belo – o falecido marido de Josephine – teriam feito parte no passado.

O símbolo marcante do grupo seria a luneta e cada membro carregaria consigo uma. Outro elemento do mistério são os incêndios: os país dos Baudelaire haviam morrido em um incêndio na mansão onde moravam com os filhos, Monty teria perdido sua família da mesma forma e Belo durante anos havia investigado uma série de incêndios. Contudo nada disso aparece nos livros. Fiquei intrigado, seria mais uma invenção da adaptação para dar mais ânimo ao telespectador? Investiguei e parece que realmente existe um grupo misterioso na história, chamado de V.F.D. (Volunteer Fire Department, algo como Corpo de Bombeiros Voluntários), mas a primeira menção sobre o grupo só aparece em Inferno no Colégio Interno, quinto livro da série, mas não sei os detalhes porque ainda não li os livros seguintes. Fica no suspense.

As edições lidas foram da Editora Cia das Letras, edição de 2001

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

O que é spoiler?


Na mídia Spoiler significa um texto, afirmação, comentário ou imagem que revele informações importantes da narrativa de um livro ou de um filme, prejudicando a trama e desestimulando o leitor/telespectador em ler/assistir a narrativa. O spoiler seria assim como num romance policial um comentário que diga quem é o criminoso e a razão dele ter matado fulano ou sicrano. 


Exemplo de Spoiler:


Gattaca - A Experiência Genética (1997)

SINOPSE: Num futuro no qual os seres humanos são escolhidos geneticamente em laboratórios, as pessoas concebidas biologicamente são consideradas inválidas. Vincent Freeman (Ethan Hawke), o primogênito, nasceu do amor de seus pais sem preparos genéticos. Tem desde pequeno, o desejo de ser um astronauta, mas tem em seu código genético predisposições a doenças que não lhe permitem nada melhor em vida que o emprego de faxineiro. Consegue, porém, um lugar de destaque em uma corporação, escondendo sua identidade genética verdadeira. Tudo segue perfeitamente, com muito esforço, até que um assassinato em seu emprego põe sua máscara em risco, podendo expor seu passado.
Após conseguir se passar por Jeremy Morrow (Jude Law), entrando num acordo em que o ex-nadador paraplégico lhe fornece o material genético em troca de uma vida de conforto, Vincent consegue seguir sua vida tranquilamente e ainda manter um caso com sua colega Irene Cassini (Uma Thurman), que descobre a verdade, mas devido à sua paixão, não revela aos outros.
No dia da partida para lua Titã, objetivo de vida de Vincent, ele se despende de Jeremy pela última vez, e antes do embarquem, acaba se encontrando com seu irmão perfeito geneticamente Antonio, bioquímico da agência espacial, que faz os testes de urina, mas este resolve burlar o sistema e satisfazer o desejo do irmão "não-válido" e finalmente Vincent sai em busca do seu sonho, enquanto Jeremy se lança num incinerador suicidando-se, não sem antes deixar amostras genéticas o suficiente para Vincent e uma carta com uma mecha de cabelo, simbolizando sua decisão final.

Fonte: http://comoterminafilme.blogspot.com.br 

Referências:
SANTOS, Alex. Gattaca - A Experiência Genética (1997). Disponível: em: http://comoterminafilme.blogspot.com.br. Acesso em: 12 fev. 2012.

WIKIPÉDIA. Spoiler. Disponível em: http://pt.wikipedia.org. Acesso em: 12 fev. 2012. 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

CARTA EM DEFESA DO PIBID - FORPIBID - O Conhecertudo apoia esta causa!

Por mais e melhor formação de professores, por mais qualidade na escola pública 

O FÓRUM NACIONAL DOS COORDENADORES INSTITUCIONAIS DO PROGRAMA INSTITUCIONAL DE BOLSA DE INICIAÇÃO À DOCÊNCIA ­ FORPIBID ­ vem manifestar­se, com veemência, pelo fortalecimento do PIBID e do PIBID Diversidade e contra os cortes de, pelo menos, 50% do número de bolsas em 2016, anunciados pela CAPES. Os Programas têm contribuído com a formação de qualidade de uma nova geração de professores da Educação Básica, constituindo­se em uma referência no sentido da valorização da educação e de seus profissionais. 

O êxito do PIBID e PIBID Diversidade deu ensejo a mudanças na legislação educacional, responsabilizando o governo com a manutenção dos Programas. O Plano Nacional de Educação (Lei nº 13.005/2014) institui metas para a formação de professores, incluindo a estratégia de ampliar o PIBID como uma das medidas sistêmicas para a melhoria da qualidade da educação pública em todos os níveis e modalidades. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (alterada pela Lei nº 12.796/2013) estabelece o incentivo à formação de profissionais “mediante programa institucional de bolsa de iniciação à docência aos licenciandos” e as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores (Resolução CNE/CP nº 02/2015) exigem reformas nas licenciaturas, aproximando­as das características e dimensões da iniciação à docência realizadas pelos Programas. 

O PIBID é uma política de estado de caráter estruturante, que cria mecanismos concretos de articulação entre instituições e sujeitos de Norte a Sul do país, movimentando uma rede de trabalho e formação. O ideal de uma educação de qualidade como direito de cada brasileiro, nos Programas, se traduz em atividades planejadas de investigação, inovação e formação docente. Nessa rede, o conhecimento compartilhado sobre o trabalho/formação considera a pluralidade de escolas públicas, estimula enraizamento na cultura local e provoca o olhar para as conexões com o não­local. 

O PIBID lida com demandas que se acumularam no campo da educação. Assim, vem contribuindo para aumentar o interesse dos jovens pela profissão docente, ajudando-­os a construir a própria identidade profissional e a permanecer na licenciatura até concluir os estudos. Em paralelo, também contribui com a profissionalização e formação continuada dos professores formadores e inaugura um espaço privilegiado de diálogo e de trabalho integrado, derrubando os muros que separavam Instituições de Ensino Superior (IES) e escolas da Educação Básica. 

Fragilizar o PIBID e PIBID Diversidade é um grave equívoco da CAPES/MEC, especialmente, diante do “apagão” previsto com a falta de professores para as escolas públicas. Os cortes anunciados, sob o pretexto de recuperar “perdas” geradas pelos Programas implicam em descontinuidade política, fenômeno nefasto que marcou historicamente o campo da educação. Na verdade, dada a capilaridade e institucionalização alcançada, os cortes podem anular o esforço empreendido em regime de colaboração para edificar a política nacional de formação de professores. Tal ruptura implica não só na perda do investimento feito até aqui, mas no atraso de um projeto de educação que está em marcha, no adiamento ao combate às desigualdades, injustiças e problemas sociais, os quais sem a educação não serão jamais vencidos. 

Em respeito ao Estado Democrático, e enquanto sujeitos de direito, conclamamos a todos que almejam uma educação pública, gratuita e de qualidade para que somem forças em defesa do PIBID e PIBID Diversidade. Com efetiva responsabilidade, os atores que sustentam esse Programa mostram que é possível formar mais e melhores professores para a Educação Básica. Unamos forças para que os Programas possam avançar em conjunto com as políticas da educação e venham a contribuir para a construção de escolas melhores e, consequentemente de uma sociedade de fato democrática. 

Brasília, 25 de janeiro de 2015.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Los Alamos - Resenha - Martin Cruz Smith



Na capa da edição lida podemos visualizar 
dois buttes carcterísticos da paisagem
desértica da região dos Monument Valley
no Novo México durante o anoitecer.

Foi nas terras áridas e cingidas por montanhas e desfiladeiros de Los Alamos, no Estado americano de Novo México, onde se realizaram os primeiros testes para a produção da Bomba Atômica, ainda na segunda Guerra mundial. O controverso projeto denominado de Projeto Manhattan e comandado pelo físico Robert Oppenheimer e pelo major-general Leslie Groves, foi responsável pela produção das bombas nucleares que destruíram Nagasaki e Hiroshima – um dos maiores atentados ocorridos até então – como estratégia militar para pôr fim à guerra empreendida contra os japoneses no Pacífico. Contudo é o Projeto Manhattan o cenário escolhido por Martin Cruz Smith para ambientar o seu romance Los Alamos originalmente publicado em 1986 com o título de Stallion Gate.

A narrativa de Los Alamos gira entorno de Joe Peña, um sargento indígena do exército que havia sido preso por se envolver com a mulher de um oficial superior e que foi solto pelo Capitão Augustino especialmente para cuidar da segurança do projeto Manhattan.

Joe já era muito famoso dentro do exército e sobretudo no Novo México, sua terra natal, pela suas lutas como pugilista, sua música e também pelo sucesso que fazia com as mulheres. Mas a razão de Capitão Augustino quere-lo em Los Alamos era o seu conhecimento do lugar, dos povos indígenas que viviam ali e ameaçavam as operações secretas do projeto bem como sua proximidade com o chefe científico do projeto, Oppenheimer. Augustino desconfiava da presença de espiões entre os membros do corpo científico e Joe era sem dúvida o homem perfeito para ser seus olhos e ouvidos dentro do Projeto Manhattan.


Vista sobre Los Alamos, Novo México. 
A ponte no canto inferior direito é a ponte 
Ômega construída através de Los Alamos Canyon. 
Fonte: Wikimedia Commons
Ao longo da história, Cruz Smith descreve as aventuras amorosas de Joe Peña bem como o dia-a-dia dentro das instalações militares criadas especialmente para o projeto. Narra também os conflitos com alguns grupos indígenas da localidade e que colocam Joe em uma difícil posição entre suas obrigações como militar e para com seu povo. Também é muito enfatizado na história os conflitos internos travados por Joe que se sente culpado pela morte do irmão, Rudy, ocorrida durante a guerra no pacífico e que só entrara no exército por admirar o trabalho do irmão mais velho. A perda do irmão, porém, era para Joe um martírio ainda maior, pois também a mãe, Dolores, morrera culpando-o por ter impulsionado Rudy a seguir carreira militar.

Resenha

Há algum tempo eu vinha tendo uma vontade grande de ler este livro em grande parte por meu interesse sobre a temática da guerra que lhe serve de cenário e, em segundo lugar, pelo meu desconhecimento acerca de seu autor. Bem, tive minha oportunidade quando encontrei um volume antigo e amarelado na biblioteca da Filarmônica 30 de Junho. Fiquei ansioso para começa-lo e qual foi minha surpresa quando percebi que a narrativa não era nada do que eu imaginava. Joguei o livro em uma prateleira qualquer e acabei levando três meses para voltar e terminar de ler. E aí vocês me perguntam: e afinal porque você está resenhando esse livro? O motivo é bem simples: a relevância de sua temática e a qualidade de suas descrições, mas vamos por partes.
Os Físicos do Distrito Manhattan num colóquio em 
Los Alamos em 1946. Na linha de frente estão 
(da esquerda para direita) Norris Bradbury, 
John Manley, Enrico Fermi e J. M. B. 
Kellogg. Robert Oppenheimer, de paletó escuro,
está trás de Manley; à esquerda de Oppenheimer 
está Richard Feynman. Destes Fermi e Oppenheimer 
aparecem como personagens da narrativa de Cruz Smith.

Primeiro, porque não gostei da narrativa. Bem, para começar tudo o que eu esperava na história foi secundarizado ou não era o seu foco principal. Cruz Smith tinha em suas mãos a possibilidade de escrever uma narrativa emocionante cheia de conspirações e espionagem, não que estes elementos não estivessem presentes na história, mas foram tão secundarizadas que ficaram perdidas em meios aos problemas existenciais e amorosos do personagem principal, além disso faltou mais emoção, suspense e espaço na narrativa para que estes elementos se desenvolvessem. Na minha modesta opinião, somente o final dramático entre o fanático Augustino e Joe esteve a altura de tudo que a narrativa poderia ter sido, mas não foi. Além disso a história não vai além do Projeto Manhattan, não mostra suas consequências ou uso sobre as cidades japonesas destruídas pela bomba. Por fim, se centra demais na história e nas aventuras de Joe. Contudo, este último ponto possibilitou também alguns pontos interessante da narrativa.

Entretanto decidi resenhar o livro por dois motivos: a cultura indígena que aparece em alguns trechos e determinados pontos espaçados da história que nos mostra o que pensavam os americanos em relação a guerra que acontecia no Pacífico.

A "bomba" (recipiente sob pressão) 
sendo baixado em uma fornalha

Joe, como já afirmei, é indígena e através de suas andanças e das confusões em que se mete podemos conhecer um pouco da vida dos indígenas que viviam próximo à Los Alamos. Cruz Smith nos mostra um pouco da cultura indígena, de seus costumes e religião, além de nos apresentarmos aos kivas e aos pueblos. Ainda conhecemos um pouco das condições de pobreza e exploração em que viviam os índios dos pueblos do Novo México. O trabalho de cerâmica muito bem elaborado e com uma decoração que representava muito de sua cultura e mitologia mas que, no entanto, era comercializada para os turistas a preços irrisórios, assim como acontecia com a venda de turquesas e outras quinquilharias. Por fim, o autor ainda revela um pouco da tentativa destes povos de preservar parte de seus costumes religiosos. É inclusive por questões religiosas que os índios da região acabam por entrar em conflito com o exército e tentam sabotar suas atividades em Los Alamos. Motivados por Roberto, um velho índio cego, e seus sonhes proféticos, alguns índios começam um incêndio em uma das instalações de Los Alamos e devido a essa e outras interferências e incidentes acabam sendo perseguidos por dois vaqueiros do Serviço de Proteção aos Índios, por ordens do Exército americano.
Os Pueblos eram a forma de moradia típica dos indígenas 
que viviam no território do atual estado de Novo México. 
Na imagem Taos Pueblo (ou Pueblo de Taos). 
Fonte: Wikimedia Commons

O outro aspecto que me levou a resenhar o livro de Cruz Smith foi saber um pouco sobre o que os americanos e os cientistas – aqueles envolvidos com o projeto – pensavam da guerra e da construção daquela arma mortífera. Percebi que era consenso da maioria de que a bomba seria a única maneira de fazer com que os japoneses se rendessem e por fim de vez a guerra. Ficou nítido que, a qualquer custo, a meta perseguida era poupar a vida do maior número de soldados americanos. Em uma das passagens, inclusive, em um diálogo entre Dr. Harvey, Oppenheimer e Joe, o autor levanta a questão dos custos de vidas que o uso daquela bomba teria e se seria correto ou não construí-la ou detona-la sobre as cidades japonesas. Leiam um trecho:

“— Você argumenta, Harvey, que os japoneses estão praticamente derrotados. Segundo qualquer padrão racional, eles deveriam estar, concordo. Você acha que seria preferível explodir a bomba em uma demonstração anunciada publicamente — uma ilha da Baía de Tóquio, por exemplo, um lugar onde eles pudessem reunir seus melhores cientistas e generais. Se tivermos real mente de lançar a bomba sobre eles, você acha que o alvo deveria ser um posto militar remoto, uma base tão distante quanto possível de qualquer agrupamento de civis. Você não admite que mulheres e crianças morram simplesmente porque queremos demonstrar nossa eficiência. E acrescenta que há prisioneiros de guerra americanos em numerosas cidades japonesas que poderão estar relacionadas como alvos possíveis. Você acredita que se formos a primeira nação a usar uma arma tão terrível, ficaremos historicamente estigmatizados, granjeando a má vontade do mundo inteiro. Pior ainda, você receia o desencadeamento de uma corrida armamentista, com o aparecimento de artefatos cada vez mais poderosos, como a humanidade jamais sonhou e que a destruirão. Acha que usar uma arma assim na guerra impedirá qualquer tentativa de acordo internacional, relativo ao futuro controle de artefatos apocalípticos. Por fim, você argumenta que seremos os responsáveis diretos e específicos por essas armas, uma vez que fomos os homens e mulheres que as criamos. Quem, senão nós, tem o direito de decidir como e se tais armas devem ser usadas? Agora me diga: não fiz um resumo honesto de seus argumentos?”

São questões realmente importantes, mas que todos sabem pelo estudo da historiografia que não impediram a construção nem a detonação das bombas sobre Nagasaki e Hiroshima. Além disso, já li em alguns livros que a intensão americana não se resumia a forçar a rendição japonesa – o que aconteceu em 15 de agosto de 1945 – mas também demonstrar seu poderio militar a União Soviética que já despontava como principal rival do Estado americano. Inclusive há em Los Alamos há um rápido comentário em referência a isso, feito por um dos oficiais do projeto.

Por fim, outro ponto relevante a se destacar é a qualidade e propriedade mostrada pelo autor ao descrever os experimentos e testes envolvidos na fabricação da bomba, resultado provável de uma profunda pesquisa sobre o tema.

Bem, para quem quiser ler Los Alamos indico que o façam mais pela importância histórica do momento que serve de cenário ao romance do que pela busca por um thriller ou por uma história de ação e espionagem, porque esse não é o caráter desta obra. É meu primeiro Cruz Smith e já ouvi falar de outros dois livros dele que são considerados suas melhores obras: Parque Gorki e Terrores da Noite, mas ainda não decidi se vou lê-los.

A edição lida é da editora Record, publicado em 1986 com 303 páginas.

Obrigado pela atenção.

Os Kivas são antigas construções circulares que eram utilizadas para alguns rituais religiosos dos indígenas. Em um dos trechos da narrativa, Cruz Smith descreve o interior de um kiva: “Havíamos caído dentro de um antigo kiva e estávamos sentados no centro dele. Ao redor de nós havia uma porção de imagens. Um homem com a pele azul como a de um pássaro e a cabeça de búfalo. Uma andorinha com a cabeça de uma menina. Um puma sentado como se fosse humano. O kiva deveria ter uns quinhentos anos, talvez mil, mas as cores estavam tão vivas como se as figuras tivessem sido pintadas na véspera. Entretanto, passada uma hora, elas foram esmaecendo, e passada outra hora, mal podiam ser vistas; pouco depois, eu já nem enxergava as paredes da sala, que se enchia de terra e desaparecia, mas continuávamos lá”. Na foto o Interior de um kiva reconstruído no Parque Nacional de Mesa Verde. Fonte: Wikimedia Commons

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Treze à Mesa - Agatha Christie - Resenha

Eric Silva

Quem lê Agatha Christie sabe porque a autora é chamada de a rainha do crime. São poucos os autores de romances policiais que se aproximam de sua genialidade em compor uma trama intricada, um mistério aparentemente irresolvível ou cegar o seu leitor para que ele não enxergue o que é obvio. Tive provas destes fatos quando li A Mansão Hollow (The Hollow, 1946) e Um Gato entre os Pombos (Cat Among the Pigeons, 1959) ambos com o detetive belga Hercule Poirot. Hoje, estou aqui para falar de mais um Christie, de mais um dos seus celebres casos policiais. Impressiona-me a forma como Agatha consegue levar até as últimas páginas o mistério de quem é o assassino, de quais eram suas reais intensões e nos faz suspeitar de todos, mesmo quando álibis muito consistentes são apresentados.

Minha última leitura de Agatha foi Treze à Mesa publicado pela autora ainda no ano de 1933 com o nome original de Lord Edgware Dies, ou literalmente A morte de Lord Edgware. Narrado em primeira pessoa, é pela voz do amigo inseparável de Poirot, o capitão Hastings, que ficamos sabendo de toda a trama acompanhado de sua impressão dos fatos, das atitudes tomadas pelos demais personagens ora nos dando pistas pelas suas observações, ora nos desviando sem querer da trilha do assassino.

Poirot e Hastings assistiam em um teatro londrino à apresentação do espetáculo da atriz americana Carlota Adams, que fazia no momento um sucesso estrondoso nos palcos ingleses. Em sua exibição a Carlota encenava uma série de esquetes – peças de curta duração e de caráter cômico – que finalizava com a imitação de pessoas famosas do cinema, entre elas Jane Wilkinson, outra atriz de grande fama entre os ingleses e que por coincidência se encontrava na plateia assistindo a encenação na companhia de outro astro, o ator Bryan Martin. Hastings não deixa de notar a presença de Jane na casa e se surpreende com a forma bem humorada como ela assiste à sua imitante.

Após o término da apresentação Poirot e Hastings seguem para jantar no luxuoso hotel Savoy onde, por coincidência – se é que elas existem nas narrativas de Christie –, encontram Jane, Bryan e outros dois convivas e também Carlota Adams em companhia de um rapaz. Ao reconhecer Poirot Jane Wilkinson se aproxima dos dois amigos para cumprimentá-los e solicita uma entrevista com Poirot, ali mesmo no seu apartamento onde receberia também seus acompanhantes e Carlota com seu companheiro para um jantar. Hastings deixa transparecer em sua narrativa a forma impetuosa com que Jane levantou-se e dirigiu-se aos dois imprimindo claramente a urgência com o qual precisava falar com o detetive.

Antes que todos se dirigissem ao apartamento, a atriz conduz Poirot e Hastings para seus aposentos e lá esclarece aos dois que o motivo de sua urgência em fala-los era a necessidade imperativa de livrar-se de seu marido, o barão Edgware. Jane conta o seu desejo de divorciar-se do barão para casa-se com outro nobre inglês, o Duque de Merton, e da recusa de seu marido em conceder-lhe a separação. Por isso a atriz tenta convencer a Poirot a advogar pela sua causa junto ao Lord Edgware e persuadi-lo a aceitar o divórcio. Mostra-se inclusive disposta a ir ao extremo de cometer um homicídio para alcançar o que desejava.

“Levantou-se, apanhou o abrigo branco e ficou parada, com uma expressão suplicante no rosto. Escutei um rumor de vozes no corredor. A porta estava entreaberta.

— Caso contrário... — continuou ela. 

— Caso contrário, Madame? 

Deu uma risada.
— Terei de chamar um táxi e ir dar cabo dele pessoalmente”.


Mesmo relutante Poirot aceita a causa e passa ali parte da noite em companhia dos convidados da atriz que chegam logo após o término da entrevista.

Cena do crime em versão para a televisão 
dirigido por Brian Farnham. No
canto esquerdo, Poirot interpretado
por David Suchet. Fonte: Investigating 
Agatha Christie's Poirot
No dia seguinte, Poirot recebe a inesperada visita de Bryan Martin que lhe consulta sobre um caso em que desconfia estar sendo seguido por um misterioso homem do dente de ouro e pede-lhe ajuda. Contudo, não lhe dá mais nenhum detalhe a despeito da necessidade de consultar uma terceira pessoa, a única que poderia lhe autorizar a seguir em frente com a investigação. A jusante dessa história, Bryan aproveita para comentar os desatinos de sua colega Jane, e reforça que ela seria realmente capaz de dar cabo do marido para conseguir o que queria.

Mais à frente, Poirot consegue obter uma entrevista com o barão Edgware e este lhe revela algo inesperado: ele estava disposto a conceder a separação à esposa e que, inclusive, já havia há algum tempo escrito uma carta avisando-a de sua intenção. Diante daquilo Poirot e Hastings vão ao encontro de Jane e dão lhe as boas novas que ela recebe com alegria. O caso estava resolvido! Era ao menos o que Poirot considerava.

No dia seguinte o detetive é surpreendido com a vista do inspetor Japp. Lord Edgware havia sido encontrado morto em sua biblioteca apunhalado na nuca e a principal suspeita era a própria Jane Wilkinson com quem o barão havia se encontrado horas antes de ser descoberto morto. Mas Poirot não se convence da suposição da polícia, afinal, como Jane poderia ter assassinado o marido no mesmo momento em que estivera em um jantar na companhia de mais de uma dezena de pessoas? Haviam muito mais mistérios naquela morte do que a polícia imaginava.

Treze à Mesa é uma trama de muitos enganos capazes até mesmo de confundir a própria genialidade do mais famoso detetive de Agatha Christie. Cheia de pistas e fatos aparentemente desconexos que nos deixam a todo momento inseguros em apontar um possível assassino. Saltamos de um forte candidato a outro à medida que novas pistas são reveladas. Descartamo-los e voltamos a reconsiderá-los. Todos tem motivos de sobra para matar o barão que aos poucos é revelado como um homem odioso e com vários desafetos.

Mas mais surpreendente ainda é o desfecho inusitado em que nos é revelado a forma como tudo foi feito: uma trama intrincada, um crime quase perfeito e ousado, digno de um gênio do crime. Inimaginável para nós que contávamos apenas com algumas poucas pistas soltas. Digo que o ponto mais forte da história é, com certeza, o seu desfecho: a ousadia dos métodos do criminoso que por muito pouco não saiu impune.

Contudo Treze à Mesa tem também seus pontos problemáticos para quem o lê em nossa época.

Foto de pince-nez, antigo modelo de óculos usado entre 
os séculos de XV e XX. Fonte: Wikimedia Commons 
Por ser uma história publicada a mais de oitenta anos ela está povoada de elementos antigos essenciais para o entendimento da história mas que na época eram muito conhecidos pelos primeiros leitores da autora. O que seria um pince-nez, um chapéu clochê e ou ainda veronal? Todas essas coisas nos exige pequenas pesquisas no Google para termos ideia mais clara do que acontece na narrativa. Outro ponto negativo são as tiradas em francês de Hercule Poirot que exige, pelo menos de quem não fala o idioma, que façamos outras consultas, só que dessa vez, ao Google Tradutor.

A edição lida é da Editora Nova Fronteira, com 166 páginas, tradução de Milton Persson. 



domingo, 21 de junho de 2015

O Elixir da Longa Vida - J. W. Rochester - Resenha

Magia, riquezas inimagináveis, segredos perdidos sob o véu empoeirado do tempo e uma sociedade secreta e milenar formada por pessoas que já não conhecem os limites do corpo e do tempo. Este é o universo que o leitor de  de J. W. Rochester adentrará ao lado de Morgan, e com ele dividirá a experiência de um mundo fantástico e ao mesmo tempo tenebroso.

O Elixir da Longa Vida conta a história de Ralph Morgan, um jovem médico londrino que, vitimado por uma doença que limitava sua vida a uma existência modesta e moderada, espera o dia de sua morte eminente. Contudo, um dia Morgan é surpreendido pela chegada de um misterioso homem que carregava consigo uma caixa de prata cinzelada e que numa estranha conversa propõe ao jovem médico uma troca: uma vida imortal em troca de um pouco do sangue do médico marimbondo. Ralph se surpreende inicialmente, mas sua curiosidade e o fato de que nada mais tinha a perder na vida o empelem a seguir com o desconhecido que lhe promete o segredo do elixir.

Morgan e o príncipe Naraiana Supramati, como se chamava o misterioso homem, seguem numa viagem aos Alpes onde fazem uma escalada a montanha que o leva a um luxuoso esconderijo encravado na rocha:

“Na extremidade do corredor, o doutor percebeu uma escada em espiral, dando numa plataforma onde se abriam muitas portas. O desconhecido empurrou uma delas e ambos se acharam numa projeção de rocha em forma de terraço. Uma vista magnífica se estendia ali e Ralph, não se contendo, soltou um grito de entusiasmo,

Daquela altitude formidável, se descortinava uma paisagem mágica. Os rochedos, as planícies nevadas e as crateras profundas pareciam se perder na bruma purpúrea dos raios do sol poente. Ao longe, os campos e prados verdejantes se estendiam gigantescos, verdes como esmeraldas” (trecho de O Elixir da Longa Vida, J. W. Rochester).

     Será nesta paisagem que Morgan conhecerá a identidade de seu companheiro de viagem, de sua existência imortal, mas que poderia chegar ao fim com um pouco do sangue doente do médico. Em troca da liberdade que a morte lhe daria, Naraiana oferecia a Ralph um novo estado de saúde, a imortalidade e toda riqueza incalculável que possuía reunida ao longo de séculos de existência. Será a decisão tomada pelo jovem londrino que desencadeará sua longa trajetória por um mundo desconhecido, onde magos poderosos vivem além do que a existência humana pode permitir e seres obscuros espreitam em toda parte. Após tomar sua decisão, Ralph conhecerá pessoas cujas histórias revelarão todas as facetas das paixões e traições humanas; o lado obscuro, mesquinho e egoísta da natureza humana e até onde as pessoas são capazes de ir para obter o que desejam.
Retrato de John Wilmot,  o segundo conde
de Rochester, cujo espírito é atribuída a autoria
de O Elixir da Longa Vida. Fonte: Wekimedia Commons. 

Eu já havia lido este livro há algum tempo, mas retornei à sua leitura nessas últimas semanas porque foi uma narrativa que muito me chamou atenção, para além de seu conteúdo que me lembram um pouco as narrativas fantásticas, mas em razão da multiplicidade de espaços e épocas diferentes em que a narrativa se dá. Com O Elixir da Longa Vida, o leitor é levado a caminhar por paisagens as mais diversas. Começamos nossa narrativa na fria Londres e de lá vamos aos picos congelados dos Alpes. Do frio vamos a Veneza, Paris, um castelo medieval e um suntuoso palácio indiano. Também navegamos pelos mares em outras épocas e visitamos a antiga Roma. Isso tudo para um geografo como eu é um deleite.  Confesso que a narrativa pra mim ficou em alguns momentos em segundo plano, mas os mistério no qual está envolto também instiga a imaginação.

O Elixir da Longa Vida faz parte de uma trilogia no qual o segundo livro se chama Os Magos e o terceiro A Ira Divina.

A edição lida é da Livraria Espírita Boa Nova, de 1990, com 200 páginas. 


Postagens populares

Conhecer Tudo