domingo, 21 de junho de 2015

O Elixir da Longa Vida - J. W. Rochester - Resenha

Magia, riquezas inimagináveis, segredos perdidos sob o véu empoeirado do tempo e uma sociedade secreta e milenar formada por pessoas que já não conhecem os limites do corpo e do tempo. Este é o universo que o leitor de  de J. W. Rochester adentrará ao lado de Morgan, e com ele dividirá a experiência de um mundo fantástico e ao mesmo tempo tenebroso.

O Elixir da Longa Vida conta a história de Ralph Morgan, um jovem médico londrino que, vitimado por uma doença que limitava sua vida a uma existência modesta e moderada, espera o dia de sua morte eminente. Contudo, um dia Morgan é surpreendido pela chegada de um misterioso homem que carregava consigo uma caixa de prata cinzelada e que numa estranha conversa propõe ao jovem médico uma troca: uma vida imortal em troca de um pouco do sangue do médico marimbondo. Ralph se surpreende inicialmente, mas sua curiosidade e o fato de que nada mais tinha a perder na vida o empelem a seguir com o desconhecido que lhe promete o segredo do elixir.

Morgan e o príncipe Naraiana Supramati, como se chamava o misterioso homem, seguem numa viagem aos Alpes onde fazem uma escalada a montanha que o leva a um luxuoso esconderijo encravado na rocha:

“Na extremidade do corredor, o doutor percebeu uma escada em espiral, dando numa plataforma onde se abriam muitas portas. O desconhecido empurrou uma delas e ambos se acharam numa projeção de rocha em forma de terraço. Uma vista magnífica se estendia ali e Ralph, não se contendo, soltou um grito de entusiasmo,

Daquela altitude formidável, se descortinava uma paisagem mágica. Os rochedos, as planícies nevadas e as crateras profundas pareciam se perder na bruma purpúrea dos raios do sol poente. Ao longe, os campos e prados verdejantes se estendiam gigantescos, verdes como esmeraldas” (trecho de O Elixir da Longa Vida, J. W. Rochester).

     Será nesta paisagem que Morgan conhecerá a identidade de seu companheiro de viagem, de sua existência imortal, mas que poderia chegar ao fim com um pouco do sangue doente do médico. Em troca da liberdade que a morte lhe daria, Naraiana oferecia a Ralph um novo estado de saúde, a imortalidade e toda riqueza incalculável que possuía reunida ao longo de séculos de existência. Será a decisão tomada pelo jovem londrino que desencadeará sua longa trajetória por um mundo desconhecido, onde magos poderosos vivem além do que a existência humana pode permitir e seres obscuros espreitam em toda parte. Após tomar sua decisão, Ralph conhecerá pessoas cujas histórias revelarão todas as facetas das paixões e traições humanas; o lado obscuro, mesquinho e egoísta da natureza humana e até onde as pessoas são capazes de ir para obter o que desejam.
Retrato de John Wilmot,  o segundo conde
de Rochester, cujo espírito é atribuída a autoria
de O Elixir da Longa Vida. Fonte: Wekimedia Commons. 

Eu já havia lido este livro há algum tempo, mas retornei à sua leitura nessas últimas semanas porque foi uma narrativa que muito me chamou atenção, para além de seu conteúdo que me lembram um pouco as narrativas fantásticas, mas em razão da multiplicidade de espaços e épocas diferentes em que a narrativa se dá. Com O Elixir da Longa Vida, o leitor é levado a caminhar por paisagens as mais diversas. Começamos nossa narrativa na fria Londres e de lá vamos aos picos congelados dos Alpes. Do frio vamos a Veneza, Paris, um castelo medieval e um suntuoso palácio indiano. Também navegamos pelos mares em outras épocas e visitamos a antiga Roma. Isso tudo para um geografo como eu é um deleite.  Confesso que a narrativa pra mim ficou em alguns momentos em segundo plano, mas os mistério no qual está envolto também instiga a imaginação.

O Elixir da Longa Vida faz parte de uma trilogia no qual o segundo livro se chama Os Magos e o terceiro A Ira Divina.

A edição lida é da Livraria Espírita Boa Nova, de 1990, com 200 páginas. 


sábado, 7 de março de 2015

Lugar Nenhum - Neil Gaiman - Resenha


Por Eric Silva para a Conhecer Tudo
Nobreza e indigência se misturam no livro de Neil Gaiman que criou dentro de Lugar Nenhum todo um universo singular e irracional - ainda que no caos se encontre alguma ordem lógica – mas capaz de prender a atenção justamente por seus espaços e personagens inusitados.

Em Lugar Nenhum Gaiman imagina uma cidade subterrânea que pulsa e fervilha em vida no interior da rede labiríntica de galerias de esgotos, nos tuneis de metrô a muito selados e esquecidos e em outros ainda em intensa atividade, além de em lugares a muito abandonados e condenados a demolição da secular capital londrina. Esse conjunto inusitados de lugares estranhamente conectados entre si comporão assim como um Frankenstein a Londres-de-baixo, a cidade que vive abaixo de Londres. Uma outra Londres que abriga criaturas estranhas que se esgueiram na escuridão lamacenta ou na nevoa mais densa, e que também é o lar e domínio de pessoas que apesar de maltrapilhas e cobertas de sujeiras carregam consigo a mesma altivez que outrora tiveram os nobres ingleses do século XVII.

Mas se não bastasse singular universo, as pessoas que vivem e partilham da mágica às avessas deste lugar imaginado pela fértil mente de Neil Gaiman são também completamente invisíveis – como se não existissem – ao olhar daqueles que pertencem a Londres-de-cima, e como mal infeccioso, aqueles que são da Londres-de-cima e muito se envolvem com este mundo também passam a pertencer a Londres-de-baixo deixando de existir na cidade da superfície. É o que acontece a Richard um rapaz que saiu do interior para trabalhar na capital inglesa e lá vive uma vida enfadonha e acomodada ao lado de uma noiva tão promissora quanto ditadora, cujo nome é Jessica. Entretanto tudo muda para o rapaz quando ele na companhia da noiva encontra uma moça ferida caída na calçada e que do nada parecia ter simplesmente surgido na sua frente. A moça é Door, uma garota da Londres-de-baixo e que fugindo de dois implacáveis assassinos de aluguel que eliminou toda a sua família consegue escapar graças a seu dom de abrir portas até mesmo onde elas nem se quer existem. Decidido a ajudar a desconhecida, Richard deixa a furiosa noiva pra trás e leva Door para seu apartamento, esse será o seu passaporte para ser também perseguido por uma dupla asquerosa e inescrupulosa de assassinos e adentrar forçosamente o universo da Londres-de-baixo. Ele perderá tudo o que conhece e preza e para recuperar sua vida terá que enfrentar desafios que vão além do que a racionalidade é capaz de aceitar.

Mr. Croup e Mr. Vandemar, dois dos 
principais vilões de Lugar Nenhum.

Lugar Nenhum é uma história povoada por personagens que de tão singulares podem ser fantásticos como o oportunista Marquês de Carabas, o “homem-pássaro” Old Bailey, e a dupla criminosa: o senhor Croup e senhor Vandemar. Porém os personagens principais ficam um pouco a desejar. A minha primeira impressão de Richard – impressão que permeia boa parte da narrativa – é a de um homem fraco e sem determinação, um verdadeiro idiota – talvez seria melhor chama-lo de ingênuo – que cai de paraquedas na mais terrível e impressionante aventura de sua vida e que o forçará a amadurecer. Door é mais determinada, mas um pouco sem sal, transitando da menina indefesa e sozinha no mundo para a garota determinada a conseguir vingar a morte prematura de toda sua família. Mas os lugares que servem de cenário às aventura travada por eles é o suficiente para fazer interessante a história. Cada novo lugar percorrido é um novo mistério, um novo perigo eminente e cada novo passo é cercado de incertezas, nada parece real, mas traz consequências concretas, a pior delas: a morte.

HMS Belfast, navio-museu pertencente à Marinha Real Britânica, 
é um importante cartão postal londrino e que encontra ancorado
permanentemente nas margens do Tâmisa. Em Lugar Nenhum,
o navio é o local escolhido para a realização de uma das 
edições do  Mercado Flutuante, importante e itinerante ponto de
encontro  e trocas comerciais na Londres-de-Baixo.  
Fonte: Wikimedia Commons.
Confesso que aprendi muito sobre Londres (a de cima) e que achei fantástica a capacidade criativa do autor para criar lugares, e parece que seu foco era esse mesmo,  focar nos lugares - o que faz com que o titulo seja bem sugestivo - criar um mundo completamente novo, bem adverso ao nosso e ao mesmo tempo impregnado pelos mesmos problemas, pelos mesmos sentimentos mesquinhos, individualistas, mas cabendo o lugar para ações e sentimentos mais nobres.

            Essa habilidade de criar mundos novos e fantásticos parece ser o grande talento do autor que também nos presenteou com outro universo singular – um pouco mais modesto mas ainda assim fantástico – em Stardust (O Mistério da Estrela: Stardust) que foi adaptado para o cinema e que assim como em Lugar Nenhum se encontra separado do mundo real, dessa vez porém por um muro.

Indico para quem gosta de literatura fantástica – como eu – e que queira conhecer um mundo novo, para quem quiser saber muito sobre Londres e sua história – quase me senti um londrino – mas advirto que não é o melhor livro de Neil Gaiman.

As edição lida foi digital sem procedência conhecida. 571 locations (padrão epub) através do aplicativo calibre para PC.

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domingo, 1 de março de 2015

A Corrente da vida - Walcy Carrasco - Resenha

Por Eric Silva para Wendy, que me apresentou o livro

“A ignorância não fica tão distante da verdade quanto o preconceito”
Denis Diderot

Começo a resenha deste livro com a frase de um dos grandes pensadores do iluminismo francês porque ela contém muito da mensagem que Walcy Carrasco quis passar a seus leitores com sua pequena novela A Corrente da Vida.

A Corrente da Vida conta a história de Nelson (Nel) pelos olhos e voz de sua melhor amiga Raquel. Nelson é um garoto como qualquer outro, estuda, se diverte, namora, mas estranhamente deixa de ira a escola e sua família recusa qualquer visita, inventando desculpas para afastar seus amigos. A apesar de muitas tentativas Raquel tenta saber o que aconteceu com o amigo, mas os familiares do rapaz inventam várias desculpas para persuadi-la de que Nel só estivera com gripe e agora estava de repouso não necessitando de visitas ou preocupação. Mas, não convencida, Raquel consegue com ajuda de outro amigo – não muito próximo quanto Nelson – chamado Marcelo forçar sua entrada na casa de Nel mediante uma visita surpresa. Apesar da situação um tanto estranha e desconfortável Raquel é bem recebida pelo amigo que havia emagrecido de mais para quem tivera apenas uma gripe. Apesar de desconfiada só mais tarde Raquel saberá a cruel verdade: Nel contraiu AIDS.

Raquel que jamais havia imaginado que aquilo poderia acontecer com alguém tão próximo se desespera, mas o amor pelo amigo a impulsiona a criar forças para apoia-lo a enfrentar o maior desafio de sua vida. Por isso ela busca se informar sobretudo que já se sabia na época sobre a doença e se torna a principal aliada da família de Nelson no combate à doença e ao preconceito que existia em relação aos seus portadores.

Na época em que o livro foi publicado em sua primeira edição (1993, editora Moderna) a AIDS era uma doença muito mais cercada de tabus do que ela é hoje e com um tratamento muito menos eficaz e mais caro. Por isso Nelson, com ajuda de Raquel e também de Marcelo, teve que enfrentar o preconceito na escola por parte daqueles que antes eram seus amigos, e também das mães destes jovens que por ignorância temiam pela segurança de seus filhos. A própria Raquel é vítima de preconceito e fofocas por apoiar o amigo, e também tem que enfrentar o medo e o desconhecimento sua família. A ignorância e o preconceito porém não são os únicos desafios enfrenados pelos protagonistas, Nel tem uma doença oportunista gravíssima – doenças que se aproveitam da debilidade do sistema imunológico do aidético (http://www.aids.gov.br/pagina/infeccoes-oportunistas) – e não tem condições de trata-la adequadamente. A doença de Nel também será responsável pela aproximação de Raquel e Marcelo.

Ao longo da narrativa percebemos como seus personagens, ainda muito jovens, amadurecem com a situação difícil do amigo. Ela também nos mostra como o ser humano é capaz de importar-se com seu semelhante e dar-se através do ato da solidariedade despindo-se de todo sentimento mesquinho e egoísta em nome do sentimento mais nobre e que a milênios traz esperanças aos corações de milhões: o amor ao próximo. Outros temas como a pobreza e a solidariedade também encontram espaço na narrativa que se mostra bastante didática e informativa quanto a AIDS, e por essa mesma razão o livro é amplamente utilizado pelas escolas como forma de informar os jovens sobre a doença. Eu mesmo, descobri o livro através de um dos meus alunos que tinha uma atividade escolar para fazer com ele. Uma iniciativa importante da escola ante ao fato de que a AIDS é ainda um problema de ordem pública em muitos países e que não tem cura comprovada, sendo que o aidético fica preso aos medicamentos existentes pelo resto da vida. Considero informar e conscientizar os jovens, assim como vem feito a escola de meu aluno, um ato de amor que a escola e seus educadores demonstram para com os seus alunos, mesmo que os últimos nem sempre vejam desta forma. Seria talvez um exemplo prático da desgastada frase: quem ama cuida, adaptada para quem ama ensina. Esse é o valor que tenho levado eu também para minha práxis como professor que se importa com o bem estar dos jovens com o qual trabalha e instrui. Tudo que posso dar a eles é instrução, e faço da melhor forma possível e torno a dizer: quem educa sabe o quão difícil é a missão de ser professor.
Símbolo internacional de solidariedade 
aos portadores da AIDS. Fonte: Wkimedia Commons

Hoje a AIDS é uma doença amplamente conhecida no Brasil e como dito estudada nas escolas, mas que vem sendo perigosamente banalizada, contraditória e insanamente por já não mais inspirar em muitos o terror que outrora inspirava na população mundial. Muitos jovens, e também adultos, têm se descuidados com a própria saúde. Na África, onde a AIDS já pode ser considerada uma epidemia, centenas de pessoas morrem todos os anos e outras centenas são contaminadas todos os anos, não apenas por descuido por parte da população, mas por falta de acesso à informação, acesso a preservativos, questões étnico-religiosas e guerras que formam o cenário perfeito para o alastramento da doença. No Brasil, da década de 80 até o ano de 2012, 656.701 foram notificados, sendo que 38.776 casos somente no ano de 2011 (http://www.aids.gov.br/pagina/aids-no-brasil). No final do ano passado (2014) foi noticiado no Fantástico - programa de televisão da Rede Globo – que o Brasil teve um aumento de 50% na incidência de AIDS entre os jovens brasileiros nos últimos 6 anos (http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2014/11/casos-de-hiv-entre-jovens-aumentam-mais-de-50-em-6-anos-no-brasil.html), um dado muito preocupante.

Informar é ainda a melhor forma de impedir que estes jovens destruam toda uma vida. Voltando a frase de Diderot: a ignorância quando reconhecida aproxima o sujeito da verdade que, por sua vez, só será encontrada quando nos despimos do preconceito. O preconceituoso está mais distante da verdade justamente porque ele é cego ante sua própria ignorância, ele não a reconhece e jamais se aproxima da verdade. Raquel – apesar de ser apenas um personagem fictício, mas que poderia ser qualquer um de nós – reconheceu sua ignorância e estudou com afinco para ajudar o amigo que precisava de sua apoio moral e assim afastou de si qualquer pensamento ou ação preconceituosa e foi ainda mais longe ajudou outros a sarar dessa doença que pode ser mais cruel que a própria AIDS.

Obrigado, Wendy, por me apresentar o livro que você estava lendo, e parabéns pela iniciativa de sua escola em continuar abordando o tema.

A edição lida foi de 2012, pela editora Moderna, digital e com 70 Locations (parâmetro para epub) lido através de um tablete de 7”.

Para saber mais sobre a AIDS consulte o portal do Departamento de DST, AIDS e Hepatites virais (http://www.aids.gov.br/).

Quer conhecer outras opiniões:


domingo, 8 de fevereiro de 2015

A Última Grande Lição - Mitch Albom - Resenha

Por Eric Silva para Kayo Araújo
            
          De aluno para professor. De professor para aluno. A história real deste livro que eu vou apresentar a vocês é um dos mais comoventes e importantes lições de vida que já li em um livro. Mas antes de falar da história do livro quero falar de como ele chegou as minhas mãos.
Sou professor e sempre incentivo meus alunos a lerem seja lá o que for, até mesmo embalagem de biscoito, mas que busquem criar o hábito da leitura, seja para fins educacionais, mas principalmente para o engrandecimento humano de cada um deles.  Em minha cidade é grande o número de jovens que conheço que não gostam de ler, sobretudo aqueles das classes sociais menos favorecidas. Mas é justificável, nossa educação vai de mal a pior, não há muito incentivo em várias famílias, livros são ainda caros e pouco acessíveis e se não fosse a filarmônica da nossa cidade – mesmo com todas as limitações – não teríamos uma biblioteca decente. Nossas livrarias na verdade são papelarias, digo isso porque nelas você encontrará de tudo, menos livros. E ter acesso a livros se torna difícil. Ainda assim tento incentiva-los a ler, a minerar em suas escolas as esquecidas e empoeiradas bibliotecas e quando estiverem fora da cidade procurar uma livraria ou sebo que venda barato, ou que peça emprestado aos amigos, mas que leiam.  Alguns seguem esse conselho e outros não, mas paciência.
Kayo é um dos que venho incentivando a ler, é uma garoto muito esforçado e de futuro, mas que precisa urgentemente pôr mais leitura em sua vida. Mas dessa vez foi ele que se lembrando de mim e de como sou devorador de livros – um verdadeiro bibliomaníaco para ser honesto – resolveu me dar um livro. E me presenteou com A última grande lição, de Mitch Albom, um presente que me trouxe muitas lições de vida e que, tenham certeza, não vai sair mais da minha cabeceira, vocês vão entender porquê.
Mitch Albom é jornalista e dedica grande parte de seu tempo a seu trabalho, na verdade fica tão mergulhado em seu trabalho que se esquece de coisas que são verdadeiramente importantes como a família e os amigos. Seu irmão, por exemplo se isolou na Europa sem querer contato nenhum com a família após descobrir que sofria de câncer no pâncreas e há muito tempo Mitch não o via. Mitch estava imerso nas armadilhas da nossa cultura onde o financeiro e a realização profissional está na frente até mesmo do sentimento e do estar com o outro viver para e com o outro. Quem trabalha compulsivamente entende o que Mitch passava. Mas uma notícia inesperada tira nosso protagonista de sua zona de conforto e por um programa de televisão, juntamente com milhões de outras pessoas, ele fica sabendo que Morrie Schwartz estava morrendo de uma forma terrível.
Quem era Morrie Schwartz? Que importância ele teria para o mundo? Você se perguntaria. Ele poderia não interessar a ninguém (o que eu considero muito difícil), mas para Mitch aquela noticia era, na palavra mais eufemística, estremecedora. Morrie era um antigo professor seu, dos tempos da universidade, sociólogo e uma pessoa viva, alegre, extremamente inteligente e contagiante, por quem Mitch nutria um grande afeto, mas com quem não falava há anos apenas por estar imergido tempo de mais em seu trabalho. Morrie, que tinha tantos amigos, uma família que se amava, alunos queridos, se despedia do mundo de uma forma terrível: Esclerose lateral amiotrófica (ELA), a mesma doença do astrofísico inglês Stephen Hawkins. Esta doença simplesmente vai tirando todos os movimentos do enfermo, enquanto enrijece e atrofia seus músculos, até que quando já próxima do fim ela, se não tratada, tira a capacidade de falar, engolir e pode matar por incapacidade de respirar.
A notícia chocou o rapaz que pegando o primeiro avião foi ao encontro do professor que o recebeu de forma calorosa e alegre. Apesar de sua condição nada havia abalado Morrie Schwartz que se concentrava em a aproveitar seus últimos momentos e já havia se conformado com a morte, uma pessoa de um equilíbrio, serenidade e sensibilidade estupendas, mas ainda mais: como um bom professor, ainda disposto a ensinar, e a última grande tese que ele irá compor, todas as terças feiras, ao lado de seu aluno, será o sentido da vida, uma tese onde caberá reflexões sobre vários temas que preocupam a nossa sociedade doente: remorso, família, emoção, autocomiseração, envelhecer, dinheiro, permanência do amor, casamento, cultura, perdão, dia perfeito e morte. Páginas em que a grande inteligência e singela forma de falar de Morrie nos ensinará verdades que não sabemos ou fingimos não perceber.
É um livro que indico a todos e que curiosamente, Kayo tenha sabido ou não, foi de aluno para professor e de professor para aluno. Muito obrigado, Kayo.

Abaixo deixo um trecho. A edição lida é da Sextante, de 2010, com 123 p.

“Eu gostava do jeito com que Morrie se iluminava quando eu entrava na sala. Sei que fazia isso para muitas pessoas, mas ele tinha um talento especial para fazer cada visitante sentir que o sorriso era só para ele.

“Ah, é o meu amigão”, dizia, ao me ver, com voz sumida. E não ficava nisso. Quando Morrie estava com alguém, entregava-se por inteiro. Olhava a pessoa nos olhos e a escutava como se ela fosse a única no mundo. Como seria melhor se o primeiro encontro do dia fosse assim, e não com o resmungo de uma garçonete, de um motorista de ônibus ou de um chefe”. (A Última Grande Lição, Mitch Albom).


Leia textos de outros blogs: http://uparticular.blogspot.com.br/2013/09/resenha-ultima-grande-licao-mitch-albom.html

Lei também as resenhas no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/resenhas/1030/edicao:1372

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Tonico - José Rezende Filho - Resenha

Por Eric Silva, dedicado à Lewie Jhony.

Já não me lembro como este livro chegou às minhas mãos, mas de uma coisa eu tenho certeza, assim como Meu Pé de Laranja Lima de José Mauro de Vasconcelos, Tonico de José Rezende Filho foi e ainda é uma narrativa que mexe muito comigo, seja por que este livro é um triste retrato da realidade de muitas crianças brasileiras, seja porque o sofrimento e as quimeras de uma criança me tocam muito.

José Rezende Filho escreve uma breve novela onde cabe todo o desejo, sonhos e incertezas de um personagem que poderia ser só mais uma criancinha mimada e teimosa, mas que se mostra alguém ansioso pela independência.

Tonico, um garoto de 13 anos (quase 14), pertence a uma família pobre do subúrbio ferroviário do Rio de Janeiro. Ele acabou de perder o pai, o que o fez do dia pra noite o homem da casa, mas tempos difíceis despontam no horizonte. Sua vida muda de uma hora para outra e o garoto, cujas únicas preocupações eram estudar e brincar, é cobrado a se tornar um pequeno trabalhador.

O tio tenta reorganizar a vida da família da irmã dentro das suas possibilidades parcas e, na impossibilidade dele mesmo ajuda-los financeiramente, vê como única saída que o sobrinho mais velho passe para a escola noturna e comece a trabalhar para ajudar a mãe e a avó no sustento da casa.  

Incialmente, Tonico se sente eufórico diante dessa nova realidade de trabalhar, ganhar seu próprio dinheiro e ajudar a família de cinco pessoas (ele, duas irmãs, mãe e avó), contudo, trabalhar na loja do seu Duda ou na farmácia do Seu Fonseca não estavam no seu ideário. Tonico, que ainda se equilibrava sobre o fino fio que separa a infância despreocupada da maturidade cheia de responsabilidades, desejava trabalhar e ser útil a casa, mas não estava disposto a sacrificar sua liberdade e por isso não sabia como lidar com toda aquela situação. Ora desejava sua vida de volta, ora sentia que necessitava ajudar a família, necessitava vestir as calças do “homem da casa” assim como lhe falara o tio.  Mas, por outro lado, também queria ser independente, queria ser livre. É na cadência desses sentimentos que o garoto enxerga na vida de Carniça, outro pequeno trabalhador, a possibilidade de conquistar seus sonhos.

Carniça é um garoto negro que desde os seis anos ganha a vida trabalhando vendendo jornais de trem em trem e engraxando sapatos na Zona Sul do Rio de Janeiro. Vivia pelas ruas, dormia no deposito de jornais, comia em pensões e quando queria voltava para casa onde morava com a mãe e dividia com ela o dinheiro que conseguia. Apesar de tudo, Carniça era livre, algumas vezes conseguia reunir em um único dia 30 cruzeiros, fazia o que queria e “não tinham hora para nada. A vida, boa ou má, já lhes pertencia”. A mãe de Tonico detestava o garoto, mas Tonico o idolatrava como um modelo e esse modelo de vida tão novo, tão excitante, tão aventureiro e livre seduz o menino que passa a planejar sua fuga de casa para trabalhar pelas ruas como o amigo de futebol.  

Tonico é um livro que nos leva à realidade das famílias pobres do nosso país que diante da necessidade são obrigadas a colocar suas crianças para trabalharem expondo-as a todo tipo de risco. Os trabalhos que o tio de Tonico arruma para ele são leves, o garoto poderia ser considerado apenas como um aprendiz, no entanto os mesmos obrigavam o garoto a estudar a noite e ter uma rotina exaustiva. No outro lado, a vida de Carniça é ainda mais perigosa e insalubre. Além de não estudar seu trabalho é altamente degradante no sentido em que está exposto a todo tipo de violência e doenças.

Carniça é o modelo perfeito da criança pobre que vive em situação de rua, ou seja, trabalha nas ruas para adquirir seu sustento, contudo ainda mantem laços com a família. Mas a liberdade que esta vida proporciona a quem a vive é o que atrai Tonico, que sem nenhum conhecimento prático sobre tudo a que ele estará exposto, não sabe o quanto difícil e perigoso é aventurar-se na vida de uma pequeno trabalhador das ruas.

Convido-os a descobrir os desafios enfrentados por Tonico que confrontar-se com sua família para ir em busca de seus sonhos de liberdade. O livro possui uma leitura fluída e rápida, de uma narrativa onde o psicológico de cada personagem é muito bem costurado. Um livro sensível cujo personagem principal vive o conflitante desafio de crescer.

A edição lida possui 94 páginas, ilustrada, é do ano de 1993, e é pertencente a Coleção Vaga-Lume da editora Ática – uma coleção altamente recomendável e uma das responsáveis pela minha iniciação no mundo da leitura (cresci lendo-a). Minha avaliação pessoal: Muito Bom.


PS.: A História de Tonico possui uma continuação no livro Tonico e Carniça de Assis Brasil e José Rezende Filho. Esse livro foi pensado por Rezende Filho, mas infelizmente o autor faleceu sem concretiza-lo. Seu amigo pessoal Assis Brasil, então decidiu-se reunir as anotações e ideias de Rezende Filho e concluiu ele mesmo a história, nos presenteando com mais uma ventura do pequeno Tonico. Esse livro é inédito pra mim, mas assim que eu o conseguir compartilho com vocês minhas impressões. Até lá. 



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segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A Marca de Uma Lágrima - Pedro Bandeira - Resenha

Por Eric Silva

Poesia, amor, mistério e morte – adolescência – esse é o tempero que envolve o coração de uma jovem inconformada com a própria aparência e que, com seu espirito intenso e avido por amar e ser amado, povoa de poesia as páginas de A Marca de uma Lágrima um conhecido infanto-juvenil do consagrado escritor brasileiro Pedro Bandeira.

Gosto de Bandeira, isso é fato incontestável! Considero A Droga da Obediência um clássico da literatura infanto-juvenil brasileira, pela forma ousada com que Pedro Bandeira narra (ele é um verdadeiro quebrador de tabus) e a franqueza de sua escrita. A Marca de uma Lágrima não é diferente, sobretudo quando Bandeira despi a jovem Isabel em corpo e em alma e costura um personagem, que mesmo jovem, fala de amor e sexo em verso e em prosa como um adulto de mente culta e criativa. Talvez esta seja a palavra que melhor descreve Isabel: criatividade.

Isabel é uma colegial de 14 anos, filha de pais separados e com uma mãe que não a compreende e nem a escuta, estando sempre mais preocupada com suas externas enxaquecas. Isabel é também, assim como muitos adolescentes – diga-se de passagem - inconformada com a própria aparência (se acha gorda e feia) e que desconta no espelho a quem trata de inimigo e que ela mesma personifica e dá vida através do êxtase criativo de suas emoções mais intensas. Intensidade é outra palavra que traduz a garota, que também sabe ser irônica e venenosa quando seu espirito ou a situação lhe convém ser.

Pedro Bandeira. Fonte: Wikimedia Commons
Tão absorvente são suas emoções que levam a menina a apaixonar-se desmedidamente e à primeira vista (literalmente) pelo primo que ela nem mais lembrava que existia, mas que sai do anonimato para se tornar aos seus olhos um deus grego reencarnado entre os mortais, um Apolo ou Dionísio que ela prefere chamar de “sonho”. Tudo acontece quando a mãe da garota a força a ir à festa de aniversário do primo, e para não estar sozinha junto a pessoas que para ela eram praticamente estranhas, Isabel leva a tiracolo a melhor amiga, Rosana. Contudo, o destino – ou o Cúpido, para gente não sair da Grécia (rsrsrs!) – leva Cristiano a se apaixonar-se pela amiga de Isabel. Esquecida pelo primo, Isabel se afunda na bebida e trata muito mal um rapaz que tenta corteja-la no jardim, seu nome é Fernando. Conseguindo despistar por um momento o rapaz ela tenta se esconder no jardim e espia um casal de namorados, que apesar da bebida, ela tem certeza que é seu primo e a amiga. Tonta de tão bêbada se desequilibra e cai no chão sendo levantada por um rapaz que o álcool a faz pensar ser Cristiano e o beija com fervor, beijo que não lhe sairá da mente alimentando ainda mais a paixão avassaladora pelo primo.

Abraçou-se fortemente contra o peito que a amparava. O calor daquele corpo forte deu-lhe febre e seus lábios espremeram-se loucamente contra aquela pele quente, com cheiro de colônia. Uma correntinha roçou-lhe o rosto e ela ergueu a cabeça, oferecendo os lábios úmidos, ávidos, desesperados.Uma boca maravilhosa colou-se à dela, enquanto a força daqueles braços a apertava com loucura. Sentiu-se morrer de felicidade e o mundo apagou-se com o nome adorado estourando em sua cabeça como um coro de anjos.— Cristiano... meu amor...

Passado o episódio, o porre e a bronca da mãe, Isabel, ainda nas nuvens sonha e sente o beijo do primo e anseia dizer tudo que seu coração lírico tinha para afagar o dele e a oportunidade surge quando ele pede para que se encontrem secretamente, em um lugar calmo. Ela escolhe o laboratório de química um lugar que para um encontro poderia ser considerado tenebroso:

As janelas do laboratório eram cobertas com cortinas pesadas para proteger da luz os produtos químicos. Um lugar ideal para um encontro de namorados.
Aos poucos, com a fraca luz que se filtrava através das cortinas, Isabel pôde perceber as estantes envidraçadas, cheia de frascos contendo formas assustadoras conservadas em formol. Uma enorme cascavel, com seus guizos, flutuava num líquido avermelhado por seu próprio sangue. Ao lado, uma caranguejeira peluda movia-se lentamente numa gaiola de vidro.

Ali ela anseia pela chegada do primo tensa e inquieta para confessar-lhe o amor que a dominava, mas é lançada ao sofrimento quando Cristiano confessa-lhe a paixão pela amiga Rosana e pede a sua ajuda para arrumar o namoro dos dois. Mesmo destruída a garota aceita e naquele momento está amarrado o seu destino: ser um elo entre os dois namorados, ajudando a amiga a ser feliz as custas de seu sofrimento pessoal. Mas ali também antes que a menina abandone o laboratório algo estranho acontece, uma pessoa que ela não consegue identificar quem entra e meche em um frasco que depois ela descobre ser de linamarina (cianureto, um veneno extremamente forte).

A vida transcorre enquanto, mesmo despedaçada, Isabel ajuda o namoro da amiga escrevendo cartas para Cristiano em nome de Rosana. Tão apaixonadas são as cartas que Cristiano passa a ama-las mais do que ama a própria Rosana, a suposta autora, o que reforça o sentimento do rapaz pela moça. Do outro lado, Fernando, um rapaz maduro, as vezes parece bem filosófico, mas quase sempre é racional, provocativo e insistente, sempre se fazendo presente e persiste em cortejar Isabel, mas sempre sem sucesso, apesar de pouco a pouco conquistar a amizade da garota que emersa em seu dilema sentimental mal repara no rapaz. Mas o que Isabel não sabia era que novamente o destino lhe reservava surpresas e ela se vê envolta em um episódio perigoso quando testemunha a morte da diretora da escola, que num suposto suicídio é encontrada envenenada por cianureto. Mas nem tudo parece se encaixar... {não vou dar spoiler}.

Temos aqui uma história romântica e poética, em alguns momentos maçante, é verdade, mas que nos pega de surpresa com uma morte inesperada que coloca nossos personagens principais em maus lençóis. Pedro então nos conduz num vai e vem entre os pensamentos de Isabel, sua poesia e os fatos que se desenrolam até o fim surpreendente da narrativa.

Isabel é uma personagem apaixonada por poesia e literatura e que se expressa na poesia moderna com tamanha desenvoltura que chega assustar quem a ouve explodir em amor e desejo através das suas palavras. Um gênio criativo perturbado que devora autores renomados e de estilos marcantes como Paul Valéry, Vinícius, Ferreira Gullar, Garcia Lorca e Pablo Neruda. De tão fantástica Isabel parece irreal. Contudo, como uma faca de dois gume, o que faz da personagem interessante é também o punhal que enfraquece a narrativa e quando a paixão desmedida e quase sem proposito toma conta de forma excessiva do enredo este se torna um tanto desinteressante.

O interessante da história é a discussão que traz a respeito da questão, entre os jovens, da aparência. A imposição da sociedade de um padrão de beleza leva muitos adolescentes como Isabel a um estado lastimável de desconforto com a própria aparência e isso é trabalhado por Bandeira de uma forma fantástica: através da personificação que ele faz do espelho com quem Isabel discute como se fosse um ser real que a afrontasse e humilhasse incessantemente, um inimigo mortal sempre pronto a escarnecer da garota (deixo um trecho no final pra vocês curtirem). A forma aberta com que o autor fala de temas que envolvem a sexualidade, a sensualidade, o entregar-se e o desejo também é muito provocante e ousado, o que considero uma marca do autor como já comentei.

Indico o livro para os adolescentes que curtem uma história de amor e poesia moderna. Pode ficar um tanto chato em alguns momentos, mas vale apena ir até o final e descobrir o que o destino reservava a Isabel.

Minha avaliação pessoal: não supera A droga da obediência - que ainda terei o prazer de resenhar, mas é bom, enfim, um Bandeira.

TRECHO SELECIONADO

Aquele era o seu pior inimigo. O mais cruel, o mais cínico, o mais sem piedade. Um inimigo que falava a verdade. Sempre. Sempre a verdade. Toda aquela verdade que Isabel conhecia muito bem e que nunca a abandonava.
Ainda com a escova de cabelo na mão, ela não podia deixar de encará-lo. Lá estava ele, encarando Isabel de volta, com os próprios olhos da menina. De um lado, eles estavam molhados. Do outro, refletiam-se gelados, vítreos, impiedosos.— Feia...Isabel sufocou um soluço.— Gorducha...Uma lágrima formou-se na pontinha da pálpebra.— Que óculos horrorosos...Como um bichinho que foge, a lágrima saiu da toca e foi esconder-se no aro dos óculos.— Você plantou uma rosa no nariz, é?— Cale a boca... por favor...Já mais grossa, a lágrima livrou-se dos óculos e escorreu pelo rosto de Isabel.— Sabe que essa rosa vai ficar amarela? Amarela e grande... A lágrima penetrou-lhe pelos lábios e Isabel reconheceu aquele gosto salgado, tão comum e tão amargo em momentos como aquele.— Por favor... me deixe em paz...— Você vai espremer a rosa amarela. O seu nariz vai inchar... Os lábios de Isabel apertaram-se, molhados, sem palavras. Aquela garota que sempre tinha resposta para tudo, sempre uma gozação na hora certa, uma tirada de gênio que deixava qualquer provocador sem graça, não sabia o que dizer quando seu grande inimigo apontava sadicamente cada ponto fraco que havia para apontar.—... e você vai ter vergonha de voltar às aulas na semana que vem...— Cale a boca!A raiva foi tanta que a escova de cabelo voou com força, acertando o inimigo em cheio, bem na cara.— Isabel! Venha cá. Morreu aí no banheiro, é?A voz penetrou-lhe os ouvidos como uma campainha de despertador. A voz irritante da mãe.Estridente como uma campainha. Devia estar com enxaqueca, é claro. Na certa ia reclamar de alguma coisa, exigir que a filha respeitasse pelo menos sua dor de cabeça, queixar-se de...O combate com o inimigo estava suspenso, por hora. Isabel sacudiu a cabeça, como se despertasse, e esfregou o rosto, apagando as marcas da luta.Uma última olhada para o inimigo. Ele a olhou de volta, agora com uma rachadura de alto a baixo."Sete anos de azar!", pensou Isabel. "Ah, o que são sete, para quem já viveu quatorze dos anos mais azarados do mundo?''

Um Estudo em Vermelho – Conan Doyle - Resenha

Por Eric Silva, pela Conhecer Tudo.

Um crime na cinzenta e chuvosa Londres e o escaldante Deserto do Colorado. O que há de comum entre eles?

Capa da edição lida da publicada 
pela Editora Melhoramentos.
Um estudo em vermelho é um clássico mundial, responsável por imortalizar um dos mais conhecidos autores britânicos do início do século XX. Não há uma só pessoa que goste de ler livros ficcionais que nunca tenha ouvido falar do grande e excêntrico detetive Sherlock Holmes criado pelo autor Sir. Conan Doyle. Holmes é um homem enigmático dotado de uma mente estritamente racional. Suas capacidades dedutivas vão além do normal e o mesmo busca desenvolve-las incessantemente com estudo científicos extremamente racionalizados, mas que nenhum cientista comum se inclinaria ou empreenderia seu tempo para realizar, como o estudo de pegadas e da cinza de charutos. Mas ainda assim, suas histórias conquistaram milhões de leitores ao longo de mais de um século desde quando Um estudo em vermelho apresentou-o ao mundo (o livro foi originalmente publicado em 1887).

Em nosso livro, Conan Doyle narra pela voz de John H. Watson, amigo e escudeiro de Holmes e é dividido em duas partes que narra duas histórias distintas, mas que se encontram como dois extremos de um mesmo fio. A primeira parte se sucede em Londres:

Watson é ex-médico militar que, depois de uma desventurada passagem pelo Afeganistão onde tomou parte na batalha de Maiwand durante a ocupação britânica do Afeganistão, retorna a Inglaterra a fim de restabelecer a saúde abalada durante o conflito. Sem muito dinheiro e longe dos parentes Watson vive na capital britânica em hotéis compatíveis com sua renda. Quando já estava decidido a ir embora da cidade londrina encontra em um bar Stamford, um de seus ex-assistente de hospital, e se alegra ao saber por ele que um outro cavalheiro desejava encontrar alguém para dividir as despesas de um apartamento alugado. Contudo, Watson é insistentemente alertado por seu ex-assistente acerca do temperamento e natureza peculiares de seu futuro flatmate (companheiro de apartamento): 

posso até imaginá-lo capaz de administrar a um amigo uma pitada do último alcaloide vegetal, não por malvadeza, compreenda-me, mas simplesmente pelo espirito da pesquisa e para ter uma ideia precisa dos efeitos. Faço-lhe, porém, justiça de admitir que ele próprio o tomaria com a mesma desenvoltura. Ao que me parece, a sua paixão é o conhecimento exato e completo”.

Contudo, Watson estava persuadido em convidar a notável figura para que com ele dividisse a despesa do aluguel de um apartamento e então não ter mais a necessidade de abandonar a capital. Por intermédio de Stamford Watson conhece Holmes no laboratório químico do hospital onde este trabalhava. Mas quando Sherlock Holmes os recebeu emocionado por ter encontrado um composto químico capaz de revelar evidencias de sangue (chave para a solução de vários crimes), e adivinhar precisamente que o médico vinha do Afeganistão, Watson teve uma amostra que aquele homem era muito mais do que seu ex-assistente pode lhe descrever.

Após um breve entrevista onde ambos expuseram seus principais defeitos e manias, a fim de se decidirem por dividirem o mesmo teto, o acerto é selado, sendo que no dia seguinte os dois alugam um apartamento no 221 B da Baker Street.

A coexistência entre os companheiros se dão de forma amistosa e conciliável. Cada um tentava conviver com os hábitos e manias do outro, sobretudo Watson em relação as esquisitices e mistérios de seu flatmate. Mas tudo o que Holmes fazia, as pessoas que recebia a sós na sala de estar e seus mistérios aguçavam a curiosidade do médico que ansiava compreender melhor quem era e ao que Holmes se dedicava. Ainda atiçava a curiosidade de Watson a dúvida de como Holmes deduzira que ele estivera no Afeganistão quando ainda eram totalmente estranhos um ao outro.

À medida que passavam as semanas, o meu interesse nele e a minha curiosidade quanto aos seus objetivos na vida iam gradualmente aumentando em extensão e profundidade. Até seu físico era tal que despertava a atenção do mais descuidado observador.

Watson só começa a compreender a inteligência prodigiosa e extremamente seletiva de seu companheiro quando sem saber o médico critica a completa ilógica de um dos artigos de Holmes sobre a ciência da dedução e este demonstrar o quanto era logica e coerente suas teorias. Holmes era um detetive nato, capaz de resolver os mais intrincados enigmas do mundo do crime, sem nem mesmo sair de casa ou ir in loco na sena do crime, bastava que lhe dissessem os pormenores dos fatos que ele apenas com o conhecimento racional, dedutivo e sistemático era capaz de solucionar o mistério. Tão certeiras eram suas deduções que os dois mais importantes investigadores da Scotland Yard, a Metropolitan Police Service de Londres, lhe pediam conselhos. Porém Holmes também era frustrado pois mesmo sendo um excepcional investigador, nunca colheu os louros de suas descobertas ficando sempre para polícia os créditos enquanto ele permanecia no anonimato.

Mas Watson fica surpreso com a grande capacidade de seu flatmate e o impele a aceitar o chamado do investigador Gregson para que fosse observar a cena de um crime ocorrido em condições misteriosas numa casa desabitada da Lauriston Gardens. É nesse ponto que a história começa.

Lauriston Gardens
Em uma das casas da Lauriston Gardens foi encontrada na madrugada o corpo de um americano que morrera em condições tais que se não fosse pelo sangue espalhado pela casa e o fato daquele estranha morte ter se dado em uma casa onde não vivia ninguém teria a polícia alegado à sua morte causas naturais, como ataque súbito, uma vez que inexistia marcas de tiros ou punhaladas em seu corpo, logo, o sangue não lhe pertencia. Além disso uma misteriosa inscrição feita em sangue numa das paredes da casa e que trazia a palavra rache, que, segundo o próprio Holmes, se tratava de uma palavra alemã que significava vingança. O crime parece insolucionável, contudo para Holmes “não há nada de novo debaixo do sol”.

A segunda parte da história somos transportados para um outra realidade totalmente adversa num recuo de tempo de várias décadas para o ano de 1847 e jogados em pleno deserto do Colorado diante de um viajante “esquálido e desencarnado” que mesmo vendo a morte se avizinhar permaneciam em seu caminho carregando nas costas uma pequena menina loira. Percebendo que sua jornada havia chegado ao fim, sentou-se com a criança sob a sombra de uma lapa, em companhia de abutres esperando que a morte chegasse para eles como antes havia chegado aos seus companheiros de viagem [mais do que isso é spoiler].

Nessa segunda parte, intitulada País dos Santos, somos levados por Doyle a uma paisagem muito adversa ao cenário londrino, posso afirmar que Um estudo em vermelho é uma história dentro da outra. Inicialmente País dos Santos, como um parêntese, nos lança em uma atmosfera diferenciada, cheia de conspirações, assassinatos e fanatismo religioso, decorado por um panorama paisagístico de tirar o folego. Doyle destila todo o seu potencial em uma narração descritiva impecável e extremamente geográfica do deserto:

(...) um árido e medonho deserto que por muitos anos foi uma barreira contra o avanço da civilização. Da Sierra Nevada ao Nebraska, e do rio Yellowstone, ao norte, até o Coloado, ao sul, tudo é desolação e silêncio. Mas nesta região sinistra a natureza não se apresenta sob um aspecto uniforme, pois que abrange altas montanhas cobertas de neve e vales profundos e tenebrosos. Há rios impetuosos que correm através dos cañons, e há vastas planícies que no inverno branquejam de neve e no verão ficam cinzentas de areia salitrosa e alcalina. Em tudo, porém, prevalece a característica de uma terra nua, inóspita e miserável.

É nessa paisagem que veremos desabrochar da flor do Utah que cresce entre os mórmons e protagonizará uma narrativa dramática.

Deserto do Colorado
Um estudo em vermelho é uma narrativa policial de muita criatividade, sobretudo que ela nos prende na tentativa vã de entender, até que se termine a história, qual a relação entre um assassinato ocorrido numa noite terrível e chuvosa e a narrativa que se desenrola nas vastas planícies áridas do Colorado.

Compreendo que existe dois tipos básicos de romance policial, uma mais tradicional onde a narrativa é preenchida sobretudo pelas capacidades dedutivas e arguciosas do investigador, onde a inteligência sobressai-se a história do assassinato; outras, mais modernas, onde o acaso é mais marcante na investigação, e a ação e as peças deixadas pelo caminho tomam conta da narrativa, sendo que a inteligência dedutiva do investigador é débil, ou pouco valorizada pela narrativa. Livros como os de Conan Doyle e Agatha Christie são do primeiro tipo. Eu, da minha parte, gosto de ambos os tipos, porque acima da inteligência do investigador, valorizo um bom mistério e histórias intricadas e difíceis de resenhar.

A edição que li é da editora Melhoramentos, editado em 1990, com tradução de Hamilcar de Garcia e capa de João Carlos Mosterio de Carvalho. 147 páginas. E minha avaliação pessoal é: Bom.

Abaixo trago um link para a edição ilustrada original em inglês do livro (A Study in Scarlet) disponível para ler online.







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