quarta-feira, 21 de setembro de 2016

[#MeusLivros] A Serra dos Dois Meninos - Aristides Fraga Lima - Resenha

Por Eric Silva, com um pouco de timidez, 
porque hoje abro minha vida pessoal para falar de meus livros


Eu e A Serra dos Dois Meninos


A Serra dos Dois Meninos é o primeiro livro da minha infância que resenho aqui no blog. Na verdade, ele é da época da minha pré-adolescência, porque deveria ter entre 11 e 12 anos quando o tive em minhas mãos pela primeira vez. Mas escolhi começar por esta pequena narrativa que integra a famosa e fabulosa coleção Vagalume, devido a dois motivos: o primeiro deles é a minha identificação muito grande com a história. Trata-se de um enredo que diz muito de mim e de minha vida, muito mais hoje do que naquela época. Em segundo lugar, o escolhi para ser o primeiro pelo carinho que dedico ao meu volume, que conservo comigo por quase uma década e meia.

A Serra dos Dois Meninos não foi um livro escolhido ou um presente que ganhei de alguém. Não foi um daqueles muitos volumes de livraria que você passa horas tentando se decidir quais levar, e que por um título ou sinopse você faz a sua escolha. Não. Eu posso dizer que ele estava destinado a mim e eu a ele. Precisávamos um do outro e pacientemente ele esperou por alguém que lhe desse o valor e o carinho de que necessitava.

Nosso encontro se deu em um dos costumeiros dias frios do bairro de Brotas, quando eu e minha mãe voltávamos da missa. Caminhávamos sozinhos pela pequena e sinuosa ladeira em que terminava a rua da capela e falávamos amenidades. Lembro que, da minha parte, estava aliviado que o enfadonho ritual dos meus sábados e domingos havia acabado – a catequese e a missa dominical –, mas já não lembro do que ela falava. Isto está há muito perdido no tempo. Como sempre, eu estava mais atento aos meus passos do que ao que de fato ela dizia. E foi ai que, ainda alguns passos de distância, mirei algo que me chamou a atenção: descartado ao pé de um poste e com as folhas amareladas abertas para o céu, um livro jogado no chão. Adiantei-me e me curvei para pegá-lo. Estava limpo, mas bastante maltratado. Tinha as folhas envelhecidas, alguns riscos e nomes escritos aqui e ali, e também algumas folhas com as bordas destruídas pela ausência da capa que, me parecia, havia sido arrancada muito tempo antes.

Não havia em mim nenhum preconceito ou nojo. Não havia em mim nenhum desprezo pelo seu estado. O que eu sentir era que se ele estava ali descartado, abandonado a própria sorte, e eu o tinha achado era porque ele me pertencia. Cabia a mim lhe dar zelo e um lugar resguardado da chuva e do calor. Ele deveria (e iria) ocupar um lugar entre os demais da minha coleção de didáticos.

Minha desgastada e
mal-tratada edição do livro
Corri os olhos rapidamente pelo seu título e retomei a marcha seguindo mainha com meu achado nas mãos. Ela em nenhum momento se opôs ao meu novo amigo e eu não o descartaria mesmo que ela pedisse. Para minha alegria mainha sempre compreendeu meu amor e compulsão pelos livros, mesmo hoje quando já não tenho espaço para guardá-los e continuo a adquiri-los.

Chegando a casa da Clião Arouca, pensei como protegeria as primeira e as últimas páginas que, devido ao deszelo dos antigos donos, já se consumiam. Arranquei então uma capa de uma revista e com fita adesiva improvisei a capa que até hoje o protege. Como em minha mente toda capa deveria ter o título de seu livro escrevi com uma letra que julguei caprichada o nome da obra e de seu autor e fiquei orgulhoso de meu trabalho, porque agora ele estava protegido e poderia enfim ser manuseado.

Não lembro se comecei sua leitura de imediato, mas é bem provável que não. Devo ter me detido apenas a lhe dar os primeiros socorros, olhar suas ilustrações e buscar um lugar na caixa de livros em que ele pudesse ficar sem que sua nova capa fosse arrancada ou amassada. O quarto era pequeno e não havia prateleira para meus livros, de modo que todos ficavam em caixas de papelão. Contudo independente de tê-lo lido de imediato ou não, me recordo de que quando o fiz aquela história me prendeu de tal forma que nunca a esqueci em seus detalhes, nem de suas ilustrações muito bem feitas. É por isso que agora divido com vocês essa história e também minhas impressões do enredo do meu pequeno amigo, o livro de Aristides Fraga Lima.

Sinopse

Depois de ter adquirido a fazenda Gravatá, Seu Domingos resolve levar a esposa e os filhos para conhecer a propriedade e um pouco da vida sertaneja.

A fazenda ficava em meio a caatinga do sertão baiano e ali abrigava três grandes e misteriosas serras que chama a atenção de todos, mas onde ninguém mais além das suçuaranas viviam.

Os dias que se passam e a família se integra rapidamente com a realidade da vida no campo, sobretudo Ricardo e Maneca, os dois escoteiros filhos mais novos de Dona Mariana e Seu Domingos.  A simplicidade e curiosidade dos dois meninos conquistam facilmente a amizade dos vaqueiros da região com os quais passam a conviver com muita proximidade. Com os vaqueiros Maneca e Ricardo também aprendem bastante sobre a lida com o gado e sobre os mistérios e perigos existentes na caatinga e sobretudo nas três serras imponentes.

Contudo, todas as histórias dos vaqueiros e dos caçadores Alexandre e Zé Pequeno sobre as serras só servem para avivar nos dois meninos o desejo irresistível de explorá-las o que decidem fazer um dia ao saírem escondidos de casa. Mas o que parecia ser fácil para dois escoteiros se mostraria por demais perigoso devido a mata traiçoeira das serras e ao perigo eminente do ataque das onças que ali viviam. Perdidos em meio a caatinga densa os meninos precisam de todo o seu conhecimento para saírem vivos daquela aventura no sertão da Bahia.

Resenha

Como a maioria dos leitores brasileiros sabem, a coleção vaga-lume da editora Ática esteve presente na vida e na infância de milhares de brasileiros. Muitos de seus volumes são até hoje lido pelas crianças do país todo e algumas desta obras ainda tem conservam muito destaque como referências da leitura infanto-juvenil nacional como é o caso de Escaravelho do Diabo, livro de Lúcia Machado de Almeida, e que este ano foi adaptado para o cinema.  A Serra dos dois Meninos não é a história mais conhecida da coleção, mas é a mais preciosa para mim, juntamente com Sozinha no Mundo, do autor Edmundo Donato que escreve o livro com o pseudônimo de Marcos Rey. Os motivos são vários, como já elencados no começo do texto, mas hoje a história tem para mim um significado novo.

Representação da paisagem nordestina
e do trabalho com o gado
A narrativa do livro se passa em uma localidade próxima ao município baiano de Adustina em uma propriedade em meio a caatinga nordestina. Eu também hoje moro em uma cidade do sertão baiano, pertencente ao domínio das caatingas[1] e dentro do polígono das secas. Sou soteropolitano como Maneca e Ricardo, mas me sinto sertanejo. Por essa vivência em uma cidade sertaneja do interior, hoje, identifico na história muitos dos elementos que existem também na localidade onde moro. A forma própria de falar que Fraga Lima fez questão de destacar em seu enredo com expressões como “esfalfado”, “malhada”, “pega”, “trempe”, “ferra” e “obrigação”, vejo-a presente ainda em muitas pessoas que vivem no campo e que ainda estão ligadas a terra e a criação de gado. Não são os mesmos termos, mas a mesma forma de falar e que vai aos poucos se perdendo.

Outra coisa que chama atenção é o destaque que o autor dá a simplicidade e a amizade gratuita que as pessoas do campo dedicam aos vizinhos, a comunidade.  É certo que a história de Lima vê um campo ainda romantizado, como um lugar bucólico, ignorando as profundas mudanças que estes espaços vem sofrendo. Mas uma coisa é verídica, a generosidade e simplicidade dessas pessoas ainda estão vivas. Porém, hoje me incomoda a forma como o autor se refere a estas pessoas como “homens rudes”, “mentes rudes e simples”. São expressões que generalizam e diminuem as capacidades dessas pessoas, que são bastante inteligentes, detentoras de um conhecimento da natureza, do trabalho do campo, da vida comunitária e da luta pelo direito da terra. Capacidades e conhecimentos que surpreendem até aos mais versados doutores universitários.

Neste retorno à Serra dos dois Meninos foi impossível não o comparar aos tempos atuais. Quem hoje vive em plena explosão de um mundo conectado em redes, era do celular e das tecnologias de comunicação e lê este livro, estranha a curiosidade e o encantamento de dois meninos da cidade pela vida do campo. Atualmente, muito conectados e “urbanizados”, os jovens, em sua maioria, possuem completa aversão ao campo, visto por eles como atrasado. Porém, na época em que a história foi concebida, os tempos eram outros e um pouco distantes deste universo tecnológico, distrativo, volta e meia entorpecente. Para o jovem da cidade o campo era um universo novo, um mundo a ser explorado, desbravado, e isso é bem ilustrado por Maneca e Ricardo. A força do distinto, da novidade, do contraste com a vida urbana era sedutora, e os dois irmãos foram seduzidos por ela.

Em relação a narrativa, fica claro o foco nos personagens Maneca e Ricardo. Os meninos são bastante cativantes, tanto dentro quanto fora da narrativa. Pela simplicidade os dois encantam os vaqueiros, mas pela cumplicidade, companheirismo e amizade forte entre os dois também conquistam o leitor que torce para que a aventura dos dois não acabe em tragédia. Além disso chama a atenção como os personagens conseguem empregar muito bem seus conhecimentos de escoteirismo para sobreviverem às adversidades da caatinga fechada e, até hoje, me surpreende a forma encontrada pelos dois para dormirem no meio da mata estando fora do alcance das onças e também como fazem para preparar os ovos de jacu mesmo sem uma panela por perto. É uma história que para mim ainda tem grande parte do encanto que tivera há vinte anos atrás quando li pela primeira vez, e é justamente no tempo em que os dois meninos se encontram perdidos na mata que está o ponto alto do livro.

A Serra dos dois Meninos contém um dos conjuntos
de ilustrações mais bem desenhados da coleção
Vagalume, trabalho de Paulo César Pereira
Porém, a história possui ainda alguns pontos que hoje me perturbam. A primeira dela são as personalidades tão parecidas dos irmãos. Os dois meninos apresentam personalidades muito próximas, diferindo, tenuamente, pelo caráter ligeiramente mais adulto do mais velho deles. Fora isso é como se os dois dividissem um mesmo ego, uma mesma personalidade. Isso descaracteriza um pouco as personagens como pessoas que encerram em si suas próprias individualidades. Mas essa não é a única crítica que tenho em relação ao desenvolvimento das personagens do livro.

Um outro ponto que só emergiu agora, depois de reler o livro com um novo olhar mais maduro e vivido, foi a forma como as personagens femininas são demasiadamente secundarizadas na narrativa, algumas delas deixadas totalmente a parte. O autor, concentrado nos dois meninos, em seu pai e nos vaqueiros, esquece-se de desenvolver alguns personagens. As filhas do fazendeiro, a empregada – esta desaparece da narrativa depois de ser citada no primeiro capítulo – e mesmo Dona Mariana, esposa de seu Domingos, é muito deixada a parte na narrativa. Isso hoje me incomoda porque dá a história um ar um tanto machista que, creio eu, não tenha sido a intensão do autor. Além disso ficamos com um leque muito grande de personagens coadjuvantes que são esquecidos ao longo da história.

Mas fora estes pontos que consideram negativos na história, A Serra dos Dois Meninos é uma narrativa que ainda hoje prende minha atenção, assim como da primeira vez. Ainda criança ficava fascinado com suas ilustrações desenhadas com esmero e realismo por Paulo César Pereira, esboçando aqui e ali, na paisagem, as características físicas do sertão baiano, da sua flora e geomorfologia, bem como do trabalho com o gado. Elementos que não se encerram nas ilustrações, mas que povoam toda a narrativa.

Hoje estas imagens possuem ainda mais significado, porque as vejo com um novo olhar, o de geógrafo que lê na paisagem as características do lugar. Também hoje estimo muito mais o resgate cultural que é feito pela obra de Aristides ao dar um grande foco ao trabalho do vaqueiro, à difícil lida com o gado e às tradições que se amontam em volta dessa profissão tão desvalorizada.

Enfim, ainda hoje conservo por este livro uma estima muito grande. Ele faz parte de mim e, mesmo que minimamente, eu não seria o mesmo se nossos caminhos não tivessem se cruzados. Um encontro que já havia sido decidido muito antes daquela tarde fria no bairro de Brotas.

A edição lida, com 110 páginas, é da editora Ática, do ano de 1984 e é parte integrante da Coleção Vagalume.





[1] Domínio morfoclimáticos das caatingas, segundo a classificação do geógrafo brasileiro Aziz Ab’Saber.

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