terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Los Alamos - Resenha - Martin Cruz Smith



Na capa da edição lida podemos visualizar 
dois buttes carcterísticos da paisagem
desértica da região dos Monument Valley
no Novo México durante o anoitecer.

Foi nas terras áridas e cingidas por montanhas e desfiladeiros de Los Alamos, no Estado americano de Novo México, onde se realizaram os primeiros testes para a produção da Bomba Atômica, ainda na segunda Guerra mundial. O controverso projeto denominado de Projeto Manhattan e comandado pelo físico Robert Oppenheimer e pelo major-general Leslie Groves, foi responsável pela produção das bombas nucleares que destruíram Nagasaki e Hiroshima – um dos maiores atentados ocorridos até então – como estratégia militar para pôr fim à guerra empreendida contra os japoneses no Pacífico. Contudo é o Projeto Manhattan o cenário escolhido por Martin Cruz Smith para ambientar o seu romance Los Alamos originalmente publicado em 1986 com o título de Stallion Gate.

A narrativa de Los Alamos gira entorno de Joe Peña, um sargento indígena do exército que havia sido preso por se envolver com a mulher de um oficial superior e que foi solto pelo Capitão Augustino especialmente para cuidar da segurança do projeto Manhattan.

Joe já era muito famoso dentro do exército e sobretudo no Novo México, sua terra natal, pela suas lutas como pugilista, sua música e também pelo sucesso que fazia com as mulheres. Mas a razão de Capitão Augustino quere-lo em Los Alamos era o seu conhecimento do lugar, dos povos indígenas que viviam ali e ameaçavam as operações secretas do projeto bem como sua proximidade com o chefe científico do projeto, Oppenheimer. Augustino desconfiava da presença de espiões entre os membros do corpo científico e Joe era sem dúvida o homem perfeito para ser seus olhos e ouvidos dentro do Projeto Manhattan.


Vista sobre Los Alamos, Novo México. 
A ponte no canto inferior direito é a ponte 
Ômega construída através de Los Alamos Canyon. 
Fonte: Wikimedia Commons
Ao longo da história, Cruz Smith descreve as aventuras amorosas de Joe Peña bem como o dia-a-dia dentro das instalações militares criadas especialmente para o projeto. Narra também os conflitos com alguns grupos indígenas da localidade e que colocam Joe em uma difícil posição entre suas obrigações como militar e para com seu povo. Também é muito enfatizado na história os conflitos internos travados por Joe que se sente culpado pela morte do irmão, Rudy, ocorrida durante a guerra no pacífico e que só entrara no exército por admirar o trabalho do irmão mais velho. A perda do irmão, porém, era para Joe um martírio ainda maior, pois também a mãe, Dolores, morrera culpando-o por ter impulsionado Rudy a seguir carreira militar.

Resenha

Há algum tempo eu vinha tendo uma vontade grande de ler este livro em grande parte por meu interesse sobre a temática da guerra que lhe serve de cenário e, em segundo lugar, pelo meu desconhecimento acerca de seu autor. Bem, tive minha oportunidade quando encontrei um volume antigo e amarelado na biblioteca da Filarmônica 30 de Junho. Fiquei ansioso para começa-lo e qual foi minha surpresa quando percebi que a narrativa não era nada do que eu imaginava. Joguei o livro em uma prateleira qualquer e acabei levando três meses para voltar e terminar de ler. E aí vocês me perguntam: e afinal porque você está resenhando esse livro? O motivo é bem simples: a relevância de sua temática e a qualidade de suas descrições, mas vamos por partes.
Os Físicos do Distrito Manhattan num colóquio em 
Los Alamos em 1946. Na linha de frente estão 
(da esquerda para direita) Norris Bradbury, 
John Manley, Enrico Fermi e J. M. B. 
Kellogg. Robert Oppenheimer, de paletó escuro,
está trás de Manley; à esquerda de Oppenheimer 
está Richard Feynman. Destes Fermi e Oppenheimer 
aparecem como personagens da narrativa de Cruz Smith.

Primeiro, porque não gostei da narrativa. Bem, para começar tudo o que eu esperava na história foi secundarizado ou não era o seu foco principal. Cruz Smith tinha em suas mãos a possibilidade de escrever uma narrativa emocionante cheia de conspirações e espionagem, não que estes elementos não estivessem presentes na história, mas foram tão secundarizadas que ficaram perdidas em meios aos problemas existenciais e amorosos do personagem principal, além disso faltou mais emoção, suspense e espaço na narrativa para que estes elementos se desenvolvessem. Na minha modesta opinião, somente o final dramático entre o fanático Augustino e Joe esteve a altura de tudo que a narrativa poderia ter sido, mas não foi. Além disso a história não vai além do Projeto Manhattan, não mostra suas consequências ou uso sobre as cidades japonesas destruídas pela bomba. Por fim, se centra demais na história e nas aventuras de Joe. Contudo, este último ponto possibilitou também alguns pontos interessante da narrativa.

Entretanto decidi resenhar o livro por dois motivos: a cultura indígena que aparece em alguns trechos e determinados pontos espaçados da história que nos mostra o que pensavam os americanos em relação a guerra que acontecia no Pacífico.

A "bomba" (recipiente sob pressão) 
sendo baixado em uma fornalha

Joe, como já afirmei, é indígena e através de suas andanças e das confusões em que se mete podemos conhecer um pouco da vida dos indígenas que viviam próximo à Los Alamos. Cruz Smith nos mostra um pouco da cultura indígena, de seus costumes e religião, além de nos apresentarmos aos kivas e aos pueblos. Ainda conhecemos um pouco das condições de pobreza e exploração em que viviam os índios dos pueblos do Novo México. O trabalho de cerâmica muito bem elaborado e com uma decoração que representava muito de sua cultura e mitologia mas que, no entanto, era comercializada para os turistas a preços irrisórios, assim como acontecia com a venda de turquesas e outras quinquilharias. Por fim, o autor ainda revela um pouco da tentativa destes povos de preservar parte de seus costumes religiosos. É inclusive por questões religiosas que os índios da região acabam por entrar em conflito com o exército e tentam sabotar suas atividades em Los Alamos. Motivados por Roberto, um velho índio cego, e seus sonhes proféticos, alguns índios começam um incêndio em uma das instalações de Los Alamos e devido a essa e outras interferências e incidentes acabam sendo perseguidos por dois vaqueiros do Serviço de Proteção aos Índios, por ordens do Exército americano.
Os Pueblos eram a forma de moradia típica dos indígenas 
que viviam no território do atual estado de Novo México. 
Na imagem Taos Pueblo (ou Pueblo de Taos). 
Fonte: Wikimedia Commons

O outro aspecto que me levou a resenhar o livro de Cruz Smith foi saber um pouco sobre o que os americanos e os cientistas – aqueles envolvidos com o projeto – pensavam da guerra e da construção daquela arma mortífera. Percebi que era consenso da maioria de que a bomba seria a única maneira de fazer com que os japoneses se rendessem e por fim de vez a guerra. Ficou nítido que, a qualquer custo, a meta perseguida era poupar a vida do maior número de soldados americanos. Em uma das passagens, inclusive, em um diálogo entre Dr. Harvey, Oppenheimer e Joe, o autor levanta a questão dos custos de vidas que o uso daquela bomba teria e se seria correto ou não construí-la ou detona-la sobre as cidades japonesas. Leiam um trecho:

“— Você argumenta, Harvey, que os japoneses estão praticamente derrotados. Segundo qualquer padrão racional, eles deveriam estar, concordo. Você acha que seria preferível explodir a bomba em uma demonstração anunciada publicamente — uma ilha da Baía de Tóquio, por exemplo, um lugar onde eles pudessem reunir seus melhores cientistas e generais. Se tivermos real mente de lançar a bomba sobre eles, você acha que o alvo deveria ser um posto militar remoto, uma base tão distante quanto possível de qualquer agrupamento de civis. Você não admite que mulheres e crianças morram simplesmente porque queremos demonstrar nossa eficiência. E acrescenta que há prisioneiros de guerra americanos em numerosas cidades japonesas que poderão estar relacionadas como alvos possíveis. Você acredita que se formos a primeira nação a usar uma arma tão terrível, ficaremos historicamente estigmatizados, granjeando a má vontade do mundo inteiro. Pior ainda, você receia o desencadeamento de uma corrida armamentista, com o aparecimento de artefatos cada vez mais poderosos, como a humanidade jamais sonhou e que a destruirão. Acha que usar uma arma assim na guerra impedirá qualquer tentativa de acordo internacional, relativo ao futuro controle de artefatos apocalípticos. Por fim, você argumenta que seremos os responsáveis diretos e específicos por essas armas, uma vez que fomos os homens e mulheres que as criamos. Quem, senão nós, tem o direito de decidir como e se tais armas devem ser usadas? Agora me diga: não fiz um resumo honesto de seus argumentos?”

São questões realmente importantes, mas que todos sabem pelo estudo da historiografia que não impediram a construção nem a detonação das bombas sobre Nagasaki e Hiroshima. Além disso, já li em alguns livros que a intensão americana não se resumia a forçar a rendição japonesa – o que aconteceu em 15 de agosto de 1945 – mas também demonstrar seu poderio militar a União Soviética que já despontava como principal rival do Estado americano. Inclusive há em Los Alamos há um rápido comentário em referência a isso, feito por um dos oficiais do projeto.

Por fim, outro ponto relevante a se destacar é a qualidade e propriedade mostrada pelo autor ao descrever os experimentos e testes envolvidos na fabricação da bomba, resultado provável de uma profunda pesquisa sobre o tema.

Bem, para quem quiser ler Los Alamos indico que o façam mais pela importância histórica do momento que serve de cenário ao romance do que pela busca por um thriller ou por uma história de ação e espionagem, porque esse não é o caráter desta obra. É meu primeiro Cruz Smith e já ouvi falar de outros dois livros dele que são considerados suas melhores obras: Parque Gorki e Terrores da Noite, mas ainda não decidi se vou lê-los.

A edição lida é da editora Record, publicado em 1986 com 303 páginas.

Obrigado pela atenção.

Os Kivas são antigas construções circulares que eram utilizadas para alguns rituais religiosos dos indígenas. Em um dos trechos da narrativa, Cruz Smith descreve o interior de um kiva: “Havíamos caído dentro de um antigo kiva e estávamos sentados no centro dele. Ao redor de nós havia uma porção de imagens. Um homem com a pele azul como a de um pássaro e a cabeça de búfalo. Uma andorinha com a cabeça de uma menina. Um puma sentado como se fosse humano. O kiva deveria ter uns quinhentos anos, talvez mil, mas as cores estavam tão vivas como se as figuras tivessem sido pintadas na véspera. Entretanto, passada uma hora, elas foram esmaecendo, e passada outra hora, mal podiam ser vistas; pouco depois, eu já nem enxergava as paredes da sala, que se enchia de terra e desaparecia, mas continuávamos lá”. Na foto o Interior de um kiva reconstruído no Parque Nacional de Mesa Verde. Fonte: Wikimedia Commons

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Treze à Mesa - Agatha Christie - Resenha

Eric Silva

Quem lê Agatha Christie sabe porque a autora é chamada de a rainha do crime. São poucos os autores de romances policiais que se aproximam de sua genialidade em compor uma trama intricada, um mistério aparentemente irresolvível ou cegar o seu leitor para que ele não enxergue o que é obvio. Tive provas destes fatos quando li A Mansão Hollow (The Hollow, 1946) e Um Gato entre os Pombos (Cat Among the Pigeons, 1959) ambos com o detetive belga Hercule Poirot. Hoje, estou aqui para falar de mais um Christie, de mais um dos seus celebres casos policiais. Impressiona-me a forma como Agatha consegue levar até as últimas páginas o mistério de quem é o assassino, de quais eram suas reais intensões e nos faz suspeitar de todos, mesmo quando álibis muito consistentes são apresentados.

Minha última leitura de Agatha foi Treze à Mesa publicado pela autora ainda no ano de 1933 com o nome original de Lord Edgware Dies, ou literalmente A morte de Lord Edgware. Narrado em primeira pessoa, é pela voz do amigo inseparável de Poirot, o capitão Hastings, que ficamos sabendo de toda a trama acompanhado de sua impressão dos fatos, das atitudes tomadas pelos demais personagens ora nos dando pistas pelas suas observações, ora nos desviando sem querer da trilha do assassino.

Poirot e Hastings assistiam em um teatro londrino à apresentação do espetáculo da atriz americana Carlota Adams, que fazia no momento um sucesso estrondoso nos palcos ingleses. Em sua exibição a Carlota encenava uma série de esquetes – peças de curta duração e de caráter cômico – que finalizava com a imitação de pessoas famosas do cinema, entre elas Jane Wilkinson, outra atriz de grande fama entre os ingleses e que por coincidência se encontrava na plateia assistindo a encenação na companhia de outro astro, o ator Bryan Martin. Hastings não deixa de notar a presença de Jane na casa e se surpreende com a forma bem humorada como ela assiste à sua imitante.

Após o término da apresentação Poirot e Hastings seguem para jantar no luxuoso hotel Savoy onde, por coincidência – se é que elas existem nas narrativas de Christie –, encontram Jane, Bryan e outros dois convivas e também Carlota Adams em companhia de um rapaz. Ao reconhecer Poirot Jane Wilkinson se aproxima dos dois amigos para cumprimentá-los e solicita uma entrevista com Poirot, ali mesmo no seu apartamento onde receberia também seus acompanhantes e Carlota com seu companheiro para um jantar. Hastings deixa transparecer em sua narrativa a forma impetuosa com que Jane levantou-se e dirigiu-se aos dois imprimindo claramente a urgência com o qual precisava falar com o detetive.

Antes que todos se dirigissem ao apartamento, a atriz conduz Poirot e Hastings para seus aposentos e lá esclarece aos dois que o motivo de sua urgência em fala-los era a necessidade imperativa de livrar-se de seu marido, o barão Edgware. Jane conta o seu desejo de divorciar-se do barão para casa-se com outro nobre inglês, o Duque de Merton, e da recusa de seu marido em conceder-lhe a separação. Por isso a atriz tenta convencer a Poirot a advogar pela sua causa junto ao Lord Edgware e persuadi-lo a aceitar o divórcio. Mostra-se inclusive disposta a ir ao extremo de cometer um homicídio para alcançar o que desejava.

“Levantou-se, apanhou o abrigo branco e ficou parada, com uma expressão suplicante no rosto. Escutei um rumor de vozes no corredor. A porta estava entreaberta.

— Caso contrário... — continuou ela. 

— Caso contrário, Madame? 

Deu uma risada.
— Terei de chamar um táxi e ir dar cabo dele pessoalmente”.


Mesmo relutante Poirot aceita a causa e passa ali parte da noite em companhia dos convidados da atriz que chegam logo após o término da entrevista.

Cena do crime em versão para a televisão 
dirigido por Brian Farnham. No
canto esquerdo, Poirot interpretado
por David Suchet. Fonte: Investigating 
Agatha Christie's Poirot
No dia seguinte, Poirot recebe a inesperada visita de Bryan Martin que lhe consulta sobre um caso em que desconfia estar sendo seguido por um misterioso homem do dente de ouro e pede-lhe ajuda. Contudo, não lhe dá mais nenhum detalhe a despeito da necessidade de consultar uma terceira pessoa, a única que poderia lhe autorizar a seguir em frente com a investigação. A jusante dessa história, Bryan aproveita para comentar os desatinos de sua colega Jane, e reforça que ela seria realmente capaz de dar cabo do marido para conseguir o que queria.

Mais à frente, Poirot consegue obter uma entrevista com o barão Edgware e este lhe revela algo inesperado: ele estava disposto a conceder a separação à esposa e que, inclusive, já havia há algum tempo escrito uma carta avisando-a de sua intenção. Diante daquilo Poirot e Hastings vão ao encontro de Jane e dão lhe as boas novas que ela recebe com alegria. O caso estava resolvido! Era ao menos o que Poirot considerava.

No dia seguinte o detetive é surpreendido com a vista do inspetor Japp. Lord Edgware havia sido encontrado morto em sua biblioteca apunhalado na nuca e a principal suspeita era a própria Jane Wilkinson com quem o barão havia se encontrado horas antes de ser descoberto morto. Mas Poirot não se convence da suposição da polícia, afinal, como Jane poderia ter assassinado o marido no mesmo momento em que estivera em um jantar na companhia de mais de uma dezena de pessoas? Haviam muito mais mistérios naquela morte do que a polícia imaginava.

Treze à Mesa é uma trama de muitos enganos capazes até mesmo de confundir a própria genialidade do mais famoso detetive de Agatha Christie. Cheia de pistas e fatos aparentemente desconexos que nos deixam a todo momento inseguros em apontar um possível assassino. Saltamos de um forte candidato a outro à medida que novas pistas são reveladas. Descartamo-los e voltamos a reconsiderá-los. Todos tem motivos de sobra para matar o barão que aos poucos é revelado como um homem odioso e com vários desafetos.

Mas mais surpreendente ainda é o desfecho inusitado em que nos é revelado a forma como tudo foi feito: uma trama intrincada, um crime quase perfeito e ousado, digno de um gênio do crime. Inimaginável para nós que contávamos apenas com algumas poucas pistas soltas. Digo que o ponto mais forte da história é, com certeza, o seu desfecho: a ousadia dos métodos do criminoso que por muito pouco não saiu impune.

Contudo Treze à Mesa tem também seus pontos problemáticos para quem o lê em nossa época.

Foto de pince-nez, antigo modelo de óculos usado entre 
os séculos de XV e XX. Fonte: Wikimedia Commons 
Por ser uma história publicada a mais de oitenta anos ela está povoada de elementos antigos essenciais para o entendimento da história mas que na época eram muito conhecidos pelos primeiros leitores da autora. O que seria um pince-nez, um chapéu clochê e ou ainda veronal? Todas essas coisas nos exige pequenas pesquisas no Google para termos ideia mais clara do que acontece na narrativa. Outro ponto negativo são as tiradas em francês de Hercule Poirot que exige, pelo menos de quem não fala o idioma, que façamos outras consultas, só que dessa vez, ao Google Tradutor.

A edição lida é da Editora Nova Fronteira, com 166 páginas, tradução de Milton Persson. 



domingo, 21 de junho de 2015

O Elixir da Longa Vida - J. W. Rochester - Resenha

Magia, riquezas inimagináveis, segredos perdidos sob o véu empoeirado do tempo e uma sociedade secreta e milenar formada por pessoas que já não conhecem os limites do corpo e do tempo. Este é o universo que o leitor de  de J. W. Rochester adentrará ao lado de Morgan, e com ele dividirá a experiência de um mundo fantástico e ao mesmo tempo tenebroso.

O Elixir da Longa Vida conta a história de Ralph Morgan, um jovem médico londrino que, vitimado por uma doença que limitava sua vida a uma existência modesta e moderada, espera o dia de sua morte eminente. Contudo, um dia Morgan é surpreendido pela chegada de um misterioso homem que carregava consigo uma caixa de prata cinzelada e que numa estranha conversa propõe ao jovem médico uma troca: uma vida imortal em troca de um pouco do sangue do médico marimbondo. Ralph se surpreende inicialmente, mas sua curiosidade e o fato de que nada mais tinha a perder na vida o empelem a seguir com o desconhecido que lhe promete o segredo do elixir.

Morgan e o príncipe Naraiana Supramati, como se chamava o misterioso homem, seguem numa viagem aos Alpes onde fazem uma escalada a montanha que o leva a um luxuoso esconderijo encravado na rocha:

“Na extremidade do corredor, o doutor percebeu uma escada em espiral, dando numa plataforma onde se abriam muitas portas. O desconhecido empurrou uma delas e ambos se acharam numa projeção de rocha em forma de terraço. Uma vista magnífica se estendia ali e Ralph, não se contendo, soltou um grito de entusiasmo,

Daquela altitude formidável, se descortinava uma paisagem mágica. Os rochedos, as planícies nevadas e as crateras profundas pareciam se perder na bruma purpúrea dos raios do sol poente. Ao longe, os campos e prados verdejantes se estendiam gigantescos, verdes como esmeraldas” (trecho de O Elixir da Longa Vida, J. W. Rochester).

     Será nesta paisagem que Morgan conhecerá a identidade de seu companheiro de viagem, de sua existência imortal, mas que poderia chegar ao fim com um pouco do sangue doente do médico. Em troca da liberdade que a morte lhe daria, Naraiana oferecia a Ralph um novo estado de saúde, a imortalidade e toda riqueza incalculável que possuía reunida ao longo de séculos de existência. Será a decisão tomada pelo jovem londrino que desencadeará sua longa trajetória por um mundo desconhecido, onde magos poderosos vivem além do que a existência humana pode permitir e seres obscuros espreitam em toda parte. Após tomar sua decisão, Ralph conhecerá pessoas cujas histórias revelarão todas as facetas das paixões e traições humanas; o lado obscuro, mesquinho e egoísta da natureza humana e até onde as pessoas são capazes de ir para obter o que desejam.
Retrato de John Wilmot,  o segundo conde
de Rochester, cujo espírito é atribuída a autoria
de O Elixir da Longa Vida. Fonte: Wekimedia Commons. 

Eu já havia lido este livro há algum tempo, mas retornei à sua leitura nessas últimas semanas porque foi uma narrativa que muito me chamou atenção, para além de seu conteúdo que me lembram um pouco as narrativas fantásticas, mas em razão da multiplicidade de espaços e épocas diferentes em que a narrativa se dá. Com O Elixir da Longa Vida, o leitor é levado a caminhar por paisagens as mais diversas. Começamos nossa narrativa na fria Londres e de lá vamos aos picos congelados dos Alpes. Do frio vamos a Veneza, Paris, um castelo medieval e um suntuoso palácio indiano. Também navegamos pelos mares em outras épocas e visitamos a antiga Roma. Isso tudo para um geografo como eu é um deleite.  Confesso que a narrativa pra mim ficou em alguns momentos em segundo plano, mas os mistério no qual está envolto também instiga a imaginação.

O Elixir da Longa Vida faz parte de uma trilogia no qual o segundo livro se chama Os Magos e o terceiro A Ira Divina.

A edição lida é da Livraria Espírita Boa Nova, de 1990, com 200 páginas. 


sábado, 7 de março de 2015

Lugar Nenhum - Neil Gaiman - Resenha


Por Eric Silva para a Conhecer Tudo
Nobreza e indigência se misturam no livro de Neil Gaiman que criou dentro de Lugar Nenhum todo um universo singular e irracional - ainda que no caos se encontre alguma ordem lógica – mas capaz de prender a atenção justamente por seus espaços e personagens inusitados.

Em Lugar Nenhum Gaiman imagina uma cidade subterrânea que pulsa e fervilha em vida no interior da rede labiríntica de galerias de esgotos, nos tuneis de metrô a muito selados e esquecidos e em outros ainda em intensa atividade, além de em lugares a muito abandonados e condenados a demolição da secular capital londrina. Esse conjunto inusitados de lugares estranhamente conectados entre si comporão assim como um Frankenstein a Londres-de-baixo, a cidade que vive abaixo de Londres. Uma outra Londres que abriga criaturas estranhas que se esgueiram na escuridão lamacenta ou na nevoa mais densa, e que também é o lar e domínio de pessoas que apesar de maltrapilhas e cobertas de sujeiras carregam consigo a mesma altivez que outrora tiveram os nobres ingleses do século XVII.

Mas se não bastasse singular universo, as pessoas que vivem e partilham da mágica às avessas deste lugar imaginado pela fértil mente de Neil Gaiman são também completamente invisíveis – como se não existissem – ao olhar daqueles que pertencem a Londres-de-cima, e como mal infeccioso, aqueles que são da Londres-de-cima e muito se envolvem com este mundo também passam a pertencer a Londres-de-baixo deixando de existir na cidade da superfície. É o que acontece a Richard um rapaz que saiu do interior para trabalhar na capital inglesa e lá vive uma vida enfadonha e acomodada ao lado de uma noiva tão promissora quanto ditadora, cujo nome é Jessica. Entretanto tudo muda para o rapaz quando ele na companhia da noiva encontra uma moça ferida caída na calçada e que do nada parecia ter simplesmente surgido na sua frente. A moça é Door, uma garota da Londres-de-baixo e que fugindo de dois implacáveis assassinos de aluguel que eliminou toda a sua família consegue escapar graças a seu dom de abrir portas até mesmo onde elas nem se quer existem. Decidido a ajudar a desconhecida, Richard deixa a furiosa noiva pra trás e leva Door para seu apartamento, esse será o seu passaporte para ser também perseguido por uma dupla asquerosa e inescrupulosa de assassinos e adentrar forçosamente o universo da Londres-de-baixo. Ele perderá tudo o que conhece e preza e para recuperar sua vida terá que enfrentar desafios que vão além do que a racionalidade é capaz de aceitar.

Mr. Croup e Mr. Vandemar, dois dos 
principais vilões de Lugar Nenhum.

Lugar Nenhum é uma história povoada por personagens que de tão singulares podem ser fantásticos como o oportunista Marquês de Carabas, o “homem-pássaro” Old Bailey, e a dupla criminosa: o senhor Croup e senhor Vandemar. Porém os personagens principais ficam um pouco a desejar. A minha primeira impressão de Richard – impressão que permeia boa parte da narrativa – é a de um homem fraco e sem determinação, um verdadeiro idiota – talvez seria melhor chama-lo de ingênuo – que cai de paraquedas na mais terrível e impressionante aventura de sua vida e que o forçará a amadurecer. Door é mais determinada, mas um pouco sem sal, transitando da menina indefesa e sozinha no mundo para a garota determinada a conseguir vingar a morte prematura de toda sua família. Mas os lugares que servem de cenário às aventura travada por eles é o suficiente para fazer interessante a história. Cada novo lugar percorrido é um novo mistério, um novo perigo eminente e cada novo passo é cercado de incertezas, nada parece real, mas traz consequências concretas, a pior delas: a morte.

HMS Belfast, navio-museu pertencente à Marinha Real Britânica, 
é um importante cartão postal londrino e que encontra ancorado
permanentemente nas margens do Tâmisa. Em Lugar Nenhum,
o navio é o local escolhido para a realização de uma das 
edições do  Mercado Flutuante, importante e itinerante ponto de
encontro  e trocas comerciais na Londres-de-Baixo.  
Fonte: Wikimedia Commons.
Confesso que aprendi muito sobre Londres (a de cima) e que achei fantástica a capacidade criativa do autor para criar lugares, e parece que seu foco era esse mesmo,  focar nos lugares - o que faz com que o titulo seja bem sugestivo - criar um mundo completamente novo, bem adverso ao nosso e ao mesmo tempo impregnado pelos mesmos problemas, pelos mesmos sentimentos mesquinhos, individualistas, mas cabendo o lugar para ações e sentimentos mais nobres.

            Essa habilidade de criar mundos novos e fantásticos parece ser o grande talento do autor que também nos presenteou com outro universo singular – um pouco mais modesto mas ainda assim fantástico – em Stardust (O Mistério da Estrela: Stardust) que foi adaptado para o cinema e que assim como em Lugar Nenhum se encontra separado do mundo real, dessa vez porém por um muro.

Indico para quem gosta de literatura fantástica – como eu – e que queira conhecer um mundo novo, para quem quiser saber muito sobre Londres e sua história – quase me senti um londrino – mas advirto que não é o melhor livro de Neil Gaiman.

As edição lida foi digital sem procedência conhecida. 571 locations (padrão epub) através do aplicativo calibre para PC.

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domingo, 1 de março de 2015

A Corrente da vida - Walcy Carrasco - Resenha

Por Eric Silva para Wendy, que me apresentou o livro

“A ignorância não fica tão distante da verdade quanto o preconceito”
Denis Diderot

Começo a resenha deste livro com a frase de um dos grandes pensadores do iluminismo francês porque ela contém muito da mensagem que Walcy Carrasco quis passar a seus leitores com sua pequena novela A Corrente da Vida.

A Corrente da Vida conta a história de Nelson (Nel) pelos olhos e voz de sua melhor amiga Raquel. Nelson é um garoto como qualquer outro, estuda, se diverte, namora, mas estranhamente deixa de ira a escola e sua família recusa qualquer visita, inventando desculpas para afastar seus amigos. A apesar de muitas tentativas Raquel tenta saber o que aconteceu com o amigo, mas os familiares do rapaz inventam várias desculpas para persuadi-la de que Nel só estivera com gripe e agora estava de repouso não necessitando de visitas ou preocupação. Mas, não convencida, Raquel consegue com ajuda de outro amigo – não muito próximo quanto Nelson – chamado Marcelo forçar sua entrada na casa de Nel mediante uma visita surpresa. Apesar da situação um tanto estranha e desconfortável Raquel é bem recebida pelo amigo que havia emagrecido de mais para quem tivera apenas uma gripe. Apesar de desconfiada só mais tarde Raquel saberá a cruel verdade: Nel contraiu AIDS.

Raquel que jamais havia imaginado que aquilo poderia acontecer com alguém tão próximo se desespera, mas o amor pelo amigo a impulsiona a criar forças para apoia-lo a enfrentar o maior desafio de sua vida. Por isso ela busca se informar sobretudo que já se sabia na época sobre a doença e se torna a principal aliada da família de Nelson no combate à doença e ao preconceito que existia em relação aos seus portadores.

Na época em que o livro foi publicado em sua primeira edição (1993, editora Moderna) a AIDS era uma doença muito mais cercada de tabus do que ela é hoje e com um tratamento muito menos eficaz e mais caro. Por isso Nelson, com ajuda de Raquel e também de Marcelo, teve que enfrentar o preconceito na escola por parte daqueles que antes eram seus amigos, e também das mães destes jovens que por ignorância temiam pela segurança de seus filhos. A própria Raquel é vítima de preconceito e fofocas por apoiar o amigo, e também tem que enfrentar o medo e o desconhecimento sua família. A ignorância e o preconceito porém não são os únicos desafios enfrenados pelos protagonistas, Nel tem uma doença oportunista gravíssima – doenças que se aproveitam da debilidade do sistema imunológico do aidético (http://www.aids.gov.br/pagina/infeccoes-oportunistas) – e não tem condições de trata-la adequadamente. A doença de Nel também será responsável pela aproximação de Raquel e Marcelo.

Ao longo da narrativa percebemos como seus personagens, ainda muito jovens, amadurecem com a situação difícil do amigo. Ela também nos mostra como o ser humano é capaz de importar-se com seu semelhante e dar-se através do ato da solidariedade despindo-se de todo sentimento mesquinho e egoísta em nome do sentimento mais nobre e que a milênios traz esperanças aos corações de milhões: o amor ao próximo. Outros temas como a pobreza e a solidariedade também encontram espaço na narrativa que se mostra bastante didática e informativa quanto a AIDS, e por essa mesma razão o livro é amplamente utilizado pelas escolas como forma de informar os jovens sobre a doença. Eu mesmo, descobri o livro através de um dos meus alunos que tinha uma atividade escolar para fazer com ele. Uma iniciativa importante da escola ante ao fato de que a AIDS é ainda um problema de ordem pública em muitos países e que não tem cura comprovada, sendo que o aidético fica preso aos medicamentos existentes pelo resto da vida. Considero informar e conscientizar os jovens, assim como vem feito a escola de meu aluno, um ato de amor que a escola e seus educadores demonstram para com os seus alunos, mesmo que os últimos nem sempre vejam desta forma. Seria talvez um exemplo prático da desgastada frase: quem ama cuida, adaptada para quem ama ensina. Esse é o valor que tenho levado eu também para minha práxis como professor que se importa com o bem estar dos jovens com o qual trabalha e instrui. Tudo que posso dar a eles é instrução, e faço da melhor forma possível e torno a dizer: quem educa sabe o quão difícil é a missão de ser professor.
Símbolo internacional de solidariedade 
aos portadores da AIDS. Fonte: Wkimedia Commons

Hoje a AIDS é uma doença amplamente conhecida no Brasil e como dito estudada nas escolas, mas que vem sendo perigosamente banalizada, contraditória e insanamente por já não mais inspirar em muitos o terror que outrora inspirava na população mundial. Muitos jovens, e também adultos, têm se descuidados com a própria saúde. Na África, onde a AIDS já pode ser considerada uma epidemia, centenas de pessoas morrem todos os anos e outras centenas são contaminadas todos os anos, não apenas por descuido por parte da população, mas por falta de acesso à informação, acesso a preservativos, questões étnico-religiosas e guerras que formam o cenário perfeito para o alastramento da doença. No Brasil, da década de 80 até o ano de 2012, 656.701 foram notificados, sendo que 38.776 casos somente no ano de 2011 (http://www.aids.gov.br/pagina/aids-no-brasil). No final do ano passado (2014) foi noticiado no Fantástico - programa de televisão da Rede Globo – que o Brasil teve um aumento de 50% na incidência de AIDS entre os jovens brasileiros nos últimos 6 anos (http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2014/11/casos-de-hiv-entre-jovens-aumentam-mais-de-50-em-6-anos-no-brasil.html), um dado muito preocupante.

Informar é ainda a melhor forma de impedir que estes jovens destruam toda uma vida. Voltando a frase de Diderot: a ignorância quando reconhecida aproxima o sujeito da verdade que, por sua vez, só será encontrada quando nos despimos do preconceito. O preconceituoso está mais distante da verdade justamente porque ele é cego ante sua própria ignorância, ele não a reconhece e jamais se aproxima da verdade. Raquel – apesar de ser apenas um personagem fictício, mas que poderia ser qualquer um de nós – reconheceu sua ignorância e estudou com afinco para ajudar o amigo que precisava de sua apoio moral e assim afastou de si qualquer pensamento ou ação preconceituosa e foi ainda mais longe ajudou outros a sarar dessa doença que pode ser mais cruel que a própria AIDS.

Obrigado, Wendy, por me apresentar o livro que você estava lendo, e parabéns pela iniciativa de sua escola em continuar abordando o tema.

A edição lida foi de 2012, pela editora Moderna, digital e com 70 Locations (parâmetro para epub) lido através de um tablete de 7”.

Para saber mais sobre a AIDS consulte o portal do Departamento de DST, AIDS e Hepatites virais (http://www.aids.gov.br/).

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domingo, 8 de fevereiro de 2015

A Última Grande Lição - Mitch Albom - Resenha

Por Eric Silva para Kayo Araújo
            
          De aluno para professor. De professor para aluno. A história real deste livro que eu vou apresentar a vocês é um dos mais comoventes e importantes lições de vida que já li em um livro. Mas antes de falar da história do livro quero falar de como ele chegou as minhas mãos.
Sou professor e sempre incentivo meus alunos a lerem seja lá o que for, até mesmo embalagem de biscoito, mas que busquem criar o hábito da leitura, seja para fins educacionais, mas principalmente para o engrandecimento humano de cada um deles.  Em minha cidade é grande o número de jovens que conheço que não gostam de ler, sobretudo aqueles das classes sociais menos favorecidas. Mas é justificável, nossa educação vai de mal a pior, não há muito incentivo em várias famílias, livros são ainda caros e pouco acessíveis e se não fosse a filarmônica da nossa cidade – mesmo com todas as limitações – não teríamos uma biblioteca decente. Nossas livrarias na verdade são papelarias, digo isso porque nelas você encontrará de tudo, menos livros. E ter acesso a livros se torna difícil. Ainda assim tento incentiva-los a ler, a minerar em suas escolas as esquecidas e empoeiradas bibliotecas e quando estiverem fora da cidade procurar uma livraria ou sebo que venda barato, ou que peça emprestado aos amigos, mas que leiam.  Alguns seguem esse conselho e outros não, mas paciência.
Kayo é um dos que venho incentivando a ler, é uma garoto muito esforçado e de futuro, mas que precisa urgentemente pôr mais leitura em sua vida. Mas dessa vez foi ele que se lembrando de mim e de como sou devorador de livros – um verdadeiro bibliomaníaco para ser honesto – resolveu me dar um livro. E me presenteou com A última grande lição, de Mitch Albom, um presente que me trouxe muitas lições de vida e que, tenham certeza, não vai sair mais da minha cabeceira, vocês vão entender porquê.
Mitch Albom é jornalista e dedica grande parte de seu tempo a seu trabalho, na verdade fica tão mergulhado em seu trabalho que se esquece de coisas que são verdadeiramente importantes como a família e os amigos. Seu irmão, por exemplo se isolou na Europa sem querer contato nenhum com a família após descobrir que sofria de câncer no pâncreas e há muito tempo Mitch não o via. Mitch estava imerso nas armadilhas da nossa cultura onde o financeiro e a realização profissional está na frente até mesmo do sentimento e do estar com o outro viver para e com o outro. Quem trabalha compulsivamente entende o que Mitch passava. Mas uma notícia inesperada tira nosso protagonista de sua zona de conforto e por um programa de televisão, juntamente com milhões de outras pessoas, ele fica sabendo que Morrie Schwartz estava morrendo de uma forma terrível.
Quem era Morrie Schwartz? Que importância ele teria para o mundo? Você se perguntaria. Ele poderia não interessar a ninguém (o que eu considero muito difícil), mas para Mitch aquela noticia era, na palavra mais eufemística, estremecedora. Morrie era um antigo professor seu, dos tempos da universidade, sociólogo e uma pessoa viva, alegre, extremamente inteligente e contagiante, por quem Mitch nutria um grande afeto, mas com quem não falava há anos apenas por estar imergido tempo de mais em seu trabalho. Morrie, que tinha tantos amigos, uma família que se amava, alunos queridos, se despedia do mundo de uma forma terrível: Esclerose lateral amiotrófica (ELA), a mesma doença do astrofísico inglês Stephen Hawkins. Esta doença simplesmente vai tirando todos os movimentos do enfermo, enquanto enrijece e atrofia seus músculos, até que quando já próxima do fim ela, se não tratada, tira a capacidade de falar, engolir e pode matar por incapacidade de respirar.
A notícia chocou o rapaz que pegando o primeiro avião foi ao encontro do professor que o recebeu de forma calorosa e alegre. Apesar de sua condição nada havia abalado Morrie Schwartz que se concentrava em a aproveitar seus últimos momentos e já havia se conformado com a morte, uma pessoa de um equilíbrio, serenidade e sensibilidade estupendas, mas ainda mais: como um bom professor, ainda disposto a ensinar, e a última grande tese que ele irá compor, todas as terças feiras, ao lado de seu aluno, será o sentido da vida, uma tese onde caberá reflexões sobre vários temas que preocupam a nossa sociedade doente: remorso, família, emoção, autocomiseração, envelhecer, dinheiro, permanência do amor, casamento, cultura, perdão, dia perfeito e morte. Páginas em que a grande inteligência e singela forma de falar de Morrie nos ensinará verdades que não sabemos ou fingimos não perceber.
É um livro que indico a todos e que curiosamente, Kayo tenha sabido ou não, foi de aluno para professor e de professor para aluno. Muito obrigado, Kayo.

Abaixo deixo um trecho. A edição lida é da Sextante, de 2010, com 123 p.

“Eu gostava do jeito com que Morrie se iluminava quando eu entrava na sala. Sei que fazia isso para muitas pessoas, mas ele tinha um talento especial para fazer cada visitante sentir que o sorriso era só para ele.

“Ah, é o meu amigão”, dizia, ao me ver, com voz sumida. E não ficava nisso. Quando Morrie estava com alguém, entregava-se por inteiro. Olhava a pessoa nos olhos e a escutava como se ela fosse a única no mundo. Como seria melhor se o primeiro encontro do dia fosse assim, e não com o resmungo de uma garçonete, de um motorista de ônibus ou de um chefe”. (A Última Grande Lição, Mitch Albom).


Leia textos de outros blogs: http://uparticular.blogspot.com.br/2013/09/resenha-ultima-grande-licao-mitch-albom.html

Lei também as resenhas no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/resenhas/1030/edicao:1372

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Tonico - José Rezende Filho - Resenha

Por Eric Silva, dedicado à Lewie Jhony.

Já não me lembro como este livro chegou às minhas mãos, mas de uma coisa eu tenho certeza, assim como Meu Pé de Laranja Lima de José Mauro de Vasconcelos, Tonico de José Rezende Filho foi e ainda é uma narrativa que mexe muito comigo, seja por que este livro é um triste retrato da realidade de muitas crianças brasileiras, seja porque o sofrimento e as quimeras de uma criança me tocam muito.

José Rezende Filho escreve uma breve novela onde cabe todo o desejo, sonhos e incertezas de um personagem que poderia ser só mais uma criancinha mimada e teimosa, mas que se mostra alguém ansioso pela independência.

Tonico, um garoto de 13 anos (quase 14), pertence a uma família pobre do subúrbio ferroviário do Rio de Janeiro. Ele acabou de perder o pai, o que o fez do dia pra noite o homem da casa, mas tempos difíceis despontam no horizonte. Sua vida muda de uma hora para outra e o garoto, cujas únicas preocupações eram estudar e brincar, é cobrado a se tornar um pequeno trabalhador.

O tio tenta reorganizar a vida da família da irmã dentro das suas possibilidades parcas e, na impossibilidade dele mesmo ajuda-los financeiramente, vê como única saída que o sobrinho mais velho passe para a escola noturna e comece a trabalhar para ajudar a mãe e a avó no sustento da casa.  

Incialmente, Tonico se sente eufórico diante dessa nova realidade de trabalhar, ganhar seu próprio dinheiro e ajudar a família de cinco pessoas (ele, duas irmãs, mãe e avó), contudo, trabalhar na loja do seu Duda ou na farmácia do Seu Fonseca não estavam no seu ideário. Tonico, que ainda se equilibrava sobre o fino fio que separa a infância despreocupada da maturidade cheia de responsabilidades, desejava trabalhar e ser útil a casa, mas não estava disposto a sacrificar sua liberdade e por isso não sabia como lidar com toda aquela situação. Ora desejava sua vida de volta, ora sentia que necessitava ajudar a família, necessitava vestir as calças do “homem da casa” assim como lhe falara o tio.  Mas, por outro lado, também queria ser independente, queria ser livre. É na cadência desses sentimentos que o garoto enxerga na vida de Carniça, outro pequeno trabalhador, a possibilidade de conquistar seus sonhos.

Carniça é um garoto negro que desde os seis anos ganha a vida trabalhando vendendo jornais de trem em trem e engraxando sapatos na Zona Sul do Rio de Janeiro. Vivia pelas ruas, dormia no deposito de jornais, comia em pensões e quando queria voltava para casa onde morava com a mãe e dividia com ela o dinheiro que conseguia. Apesar de tudo, Carniça era livre, algumas vezes conseguia reunir em um único dia 30 cruzeiros, fazia o que queria e “não tinham hora para nada. A vida, boa ou má, já lhes pertencia”. A mãe de Tonico detestava o garoto, mas Tonico o idolatrava como um modelo e esse modelo de vida tão novo, tão excitante, tão aventureiro e livre seduz o menino que passa a planejar sua fuga de casa para trabalhar pelas ruas como o amigo de futebol.  

Tonico é um livro que nos leva à realidade das famílias pobres do nosso país que diante da necessidade são obrigadas a colocar suas crianças para trabalharem expondo-as a todo tipo de risco. Os trabalhos que o tio de Tonico arruma para ele são leves, o garoto poderia ser considerado apenas como um aprendiz, no entanto os mesmos obrigavam o garoto a estudar a noite e ter uma rotina exaustiva. No outro lado, a vida de Carniça é ainda mais perigosa e insalubre. Além de não estudar seu trabalho é altamente degradante no sentido em que está exposto a todo tipo de violência e doenças.

Carniça é o modelo perfeito da criança pobre que vive em situação de rua, ou seja, trabalha nas ruas para adquirir seu sustento, contudo ainda mantem laços com a família. Mas a liberdade que esta vida proporciona a quem a vive é o que atrai Tonico, que sem nenhum conhecimento prático sobre tudo a que ele estará exposto, não sabe o quanto difícil e perigoso é aventurar-se na vida de uma pequeno trabalhador das ruas.

Convido-os a descobrir os desafios enfrentados por Tonico que confrontar-se com sua família para ir em busca de seus sonhos de liberdade. O livro possui uma leitura fluída e rápida, de uma narrativa onde o psicológico de cada personagem é muito bem costurado. Um livro sensível cujo personagem principal vive o conflitante desafio de crescer.

A edição lida possui 94 páginas, ilustrada, é do ano de 1993, e é pertencente a Coleção Vaga-Lume da editora Ática – uma coleção altamente recomendável e uma das responsáveis pela minha iniciação no mundo da leitura (cresci lendo-a). Minha avaliação pessoal: Muito Bom.


PS.: A História de Tonico possui uma continuação no livro Tonico e Carniça de Assis Brasil e José Rezende Filho. Esse livro foi pensado por Rezende Filho, mas infelizmente o autor faleceu sem concretiza-lo. Seu amigo pessoal Assis Brasil, então decidiu-se reunir as anotações e ideias de Rezende Filho e concluiu ele mesmo a história, nos presenteando com mais uma ventura do pequeno Tonico. Esse livro é inédito pra mim, mas assim que eu o conseguir compartilho com vocês minhas impressões. Até lá. 



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