quinta-feira, 31 de março de 2016

Distrofia muscular de Duchenne e o livro Beleza Perdida - Postagem Especial

Postagem especial por Eric Silva

Olá, pessoal. 

Capa da edição lida do livro Beleza Perdida
Recentemente resenhei o livro Beleza Perdida da autora Amy Harmon e naquela oportunidade mencionei que Bailey, um rapaz de pouco mais de 20 anos, portador de Distrofia muscular de Duchenne, era meu personagem preferido pela sua personalidade jovial e bastante humorada que o permite superar as dificuldades de suas condições e continuar vivendo, sempre de bem com a vida. 

Hoje, reitero que Bailey é um personagem lindo, muito bem construído pela sua autora, corajoso, determinado e motivador, ou melhor, ele é capaz de inspirar-nos confiança para desafios que achamos que são enorme. 

Confesso que os desafios enfrentados por Bailey para continuar vivo seriam para mim muralhas intransponíveis, uma verdadeira Bastilha de Saint-Antoine do qual meu espirito não seria capaz de escapar. Porém, o rapaz os enfrentavam sem temor da morte e procurando ser feliz em cada precioso momento que lhe restava. Desta forma, o objetivo dessa postagem especial é ajudar os leitores de Beleza Perdida a entender um pouquinho sobre a Distrofia muscular de Duchenne, seus sintomas e as dificuldades encontradas pelos portadores desta doença para continuar vivendo.

O que é a Distrofia muscular de Duchenne? 


A Distrofia muscular de Duchenne (DMD) foi estudada inicialmente pelo neurologista francês Dr. Guillaine Benjamin Amand Duchenne ainda no ano de 1868. Trata-se de uma doença hereditária que está ligada ao cromossomo sexual X, de caráter recessivo e que provoca a degeneração progressiva e irreversível da musculatura esquelética.

Segundo o médico Dráuzio Varela (2011) a DMD é transmitido de forma simultânea pelo pai e pela mãe, sendo que esta última não manifesta os sintomas. Ainda segundo as pesquisadoras Moraes, Fernandes, Medina-Acosta (2011) as alterações genéticas manifestadas pelos portadores da doença:

(...) têm sido consideradas resultado de 65% por perda de uma parte do DNA (deleção); 5% pela duplicação do gene; e em 30% dos casos, mutação pontual. Sabe-se que cerca de 2/3 de todos os casos de DMD são herdados da mãe, “portadora assintomática do gene”; no 1/3 restante dos casos, ocorre uma “mutação nova” na criança com distrofia, sem que o gene tenha sido herdado (MORAES, FERNANDES, MEDINA-ACOSTA, 2011, p. 12).

A doença só se manifesta em meninos, aproximadamente 1 em 3.500 nascimentos de meninos, segundo as autoras citadas, e se caracteriza pela ausência de uma importante proteína chamada distrofina que garante a integridade dos músculos. Sem a presença da distrofina, a sarcolema (membrana plasmática das células do tecido muscular estriado) “sofre pequenos rompimentos provocando pequenos furos que aumentam a passagem de cálcio para dentro da célula levando a uma necrose segmentar da fibra e perda da sua propriedade contrátil” (MORAES, FERNANDES, MEDINA-ACOSTA, 2011, p. 12). Ainda segundo as autoras as fibras que são necrosadas vão sendo substituídas de forma cada vez mais rápida, porque o a frequência de destruição celular também vai aumentando até que o tecido seja substituído por tecido adiposo e conjuntivo. O resultado é que os músculos passam por um processo progressivo de degeneração.

 Criança portadora de Distrofia muscular de Duchenne. Foto: Barlavento.


Os sintomas 


Evolução da doença
Os sintomas DMD afeta bastante a autonomia do indivíduo. A criança nasce aparentemente normal, mas os sintomas não demoram a surgirem. Ela demora a começar a andar, passa muito tempo engatinhando e só começa a andar a partir dos 18 meses de idade (idem). Depois disso ela começa a apresentar dificuldades no caminhar, cai muito e, segundo Dráuzio Varela (2011), por volta dos sete anos deixa de correr e de subir escadas. Outros sintomas do caminhar, mencionado por Moraes, Fernandes, Medina-Acosta (2011), são andar nas pontas dos pés e com um gingado incomum em consequência de contraturas nos tendões de Aquiles.

Outros sintomas são
·         Dificuldade para levantar quando deitado ou sentado
·         Grandes músculos da panturrilha
·         Dificuldades de aprendizagem
·         Fadiga
·         Deformidades em articulações e na coluna (escoliose severa) 
·         Fraqueza que piora com o tempo.

Ainda segundo Dráuzio Varela (2011), ao atingir aproximadamente doze anos, a criança perde a capacidade de andar e autonomia de uso de seus braços, necessitando do uso de cadeiras de rodas e, com o tempo, da ajuda de outras pessoas para realizar quase a totalidade de suas atividades e necessidades básicas. 

Alguns sintomas da doença

Amedida que o portador da DMD cresce, sua capacidade respiratória é prejudicada e o mesmo sente cada vez mais dificuldades em respirar e surgem problemas cardíacos devido alterações no músculo diafragma.

O paciente morre geralmente por disfunção ventilatória, comumente antes que alcance os 30 anos (por volta dos 25 anos).

Diagnóstico e tratamento 


A Distrofia muscular de Duchenne não tem cura, mas, segundo a Barlavento, na Europa, já foi aprovado pela Agência Europeia do Medicamento (EMA) “o primeiro medicamento destinado a um tipo específico de mutação”.

O diagnóstico segundo Dráuzio Varela (2011), pode ser feito através da análise dos níveis de CPK (creatinofosfoquinase) que já são elevados e podem ser detectados ainda nos primeiros meses de vida. “O exame de sangue para análise do DNA permite o diagnóstico definitivo em 60%, 70% dos casos. Nos 30% restantes, é necessário fazer biópsia do músculo para identificar a proteína ausente”, afirma o médico.

A esperança dos médios para o tratamento da doença está nas pesquisas com células troncos, porém paliativos podem ser usados, como o tratamento precoce com corticoides, fisioterapia e hidroterapia e o uso de aparelhos BiPAP de ventilação assistida “para proporcionar maior conforto para esses pacientes” (VARELA, 2011).

Dráuzio Varela (2011), também faz algumas recomendações que podem ser acessadas pelo link: (clique aqui).

A Distrofia muscular de Duchenne no livro a Beleza Perdida


Em seu livro, Amy Harmon nos apresentam a Distrofia muscular de Duchenne através de Bailey. Bailey é primo de Fern, personagem principal da trama, e já atingiu a segunda década de vida o que já é visto pelo rapaz como uma grande vitória. Bailey já não anda e depende de Fern e de seus pais para quase tudo, até mesmo para coçar o nariz. É bastante comovente quando ele conta a Ambrose, um dos lutadores da equipe do pai e também um dos protagonistas da narrativa, as dificuldades que ele e seus pais passam para que ele consiga continuar vivendo:

— Sabia que, se eu me inclinar muito para pegar alguma coisa, não consigo endireitar as costas? Uma vez eu fiquei meia hora caído sobre os joelhos até que a minha mãe voltasse da rua e me colocasse sentado direito outra vez.

Ambrose ficou em silêncio.

— Sabia que a minha mãe, que pesa cinquenta quilos, consegue me levantar pelas axilas e me colocar na cadeira do chuveiro? Ela me lava, me veste, escova os meus dentes, penteia o meu cabelo. Tudo isso. À noite, ela e meu pai se revezam para me virar na cama, porque eu não consigo fazer isso sozinho e fico com dor se passar a noite toda de um lado só. Eles fazem isso desde que eu tinha uns catorze anos, noite após noite.

Mais à frente ele continua a dar uma lição de moral em Ambrose e relata:

— Eu acabei de te explicar que não consigo ir ao banheiro sozinho, cara. Dependo da minha mãe para abaixar as minhas calças, assoar a droga do meu nariz, passar desodorante nas minhas axilas. E, para pior, quando eu fui para a escola, tinha que confiar em alguém para me ajudar lá também, com quase todas as malditas coisas. Foi embaraçoso. Foi frustrante. Mas foi necessário! Não me restou nenhum orgulho, Ambrose! Nenhum orgulho. Mas era o meu orgulho ou a minha vida. Eu precisei escolher. E você também precisa. Você pode ter o seu orgulho e ficar aqui sentado fazendo cupcakes, ficar gordo e velho, e ninguém vai dar a mínima depois de um tempo. Ou você pode trocar esse orgulho por um pouco de humildade e ter a sua vida de volta.

Essa passagem, em mim, que acompanhava a narrativa e o desenvolvimento e crescimento do personagem no tempo atual da história e em tempos pretéritos, através de flashbacks, deu um nó na garganta. Imaginar que tantos rapazes e garotos em todo o mundo passam por estes mesmos desafios, alguns com os recursos necessários, outros nem tanto. Imaginar os conflitos e incertezas que estas pessoas vivem. Bailey é cativante e isso só mexe ainda mais com o leitor.

Porém Bailey não tem medo da morte, ao contrário desdenha dela e já aceitou o fim inevitável. O que ele busca é, no entanto, viver o máximo que lhe é possível, correr atrás de seus sonhos e ser para aqueles que o cercam uma pessoa especial e inesquecível.

O rapaz é apaixonado por luta livre, assim como seu pai, treinador da escola da pequena Hannah Lake, e acompanha o time da escola para todos os jogos estaduais e locais auxiliando o pai no que pode e motivando os lutadores da equipe que, por sua vez, o admiram e respeitam. Encontramos em Bailey uma pessoa forte, divertida e muito querida que deseja acima de tudo viver da melhor forma que der. Não é à toa que a prima Fern, que sempre o ajudou e esteve ao seu lado, o ama tanto, pelo o que ele é, pelo o que ele representa, pelo o que ele inspira. Espero que para você que leu ou ainda via ler Beleza Perdida ele também seja inspirador.

No Youtube, Amanda Christie compartilhou um vídeo muito interessante que mostra a evolução da doença. Segue o link:


Obrigado pela atenção,
Eric Silva

Sites e artigos consultados


MORAES, Fernanda Mendonça; FERNANDES, R. C. S. C.; ACOSTA, E. M. Distrofia Muscular de Duchenne: relato de caso. Rev. Cient. FMC, v. 6, n. 2, 2011.

terça-feira, 29 de março de 2016

Os 13 mandamentos do bom leitor - postagem especial

1º não julgarás o livro pela capa;
2º não comprarás um livro apenas por modinhas, mas porque o livro te interessa;
3º jamais riscarás ou dobrarás suas preciosas páginas;
4º sempre devolverás e zelarás do livro alheio;
5º só emprestarás teus livros àqueles que obedecem ao 4º mandamento;
6º dividirás com o mundo sua opinião sobre o que lês;
7º ainda que não gostes do livro, em tuas críticas sempre respeitarás o trabalho e o esforço do autor;
8º jamais darás spoilers desnecessários;
9º dedicar-se-á sempre a incentivar novos leitores;
10º respeitarás os gêneros e os livros preferidos alheios;
11º respeitarás o direito do próximo de não querer ler, ainda que não concordes com ele;
12º sempre estarás aberto a novas incursões pelo desconhecido;
13º jamais jogarás teus livros fora, antes te certificarás que ele chegue às mãos de outro leitor.


por Eric Silva para Conhecer Tudo





domingo, 27 de março de 2016

Beleza Perdida - Amy Harmon - Resenha

Capa da edição lida
Aparência ou essência? Perdido ou sozinho? Autopiedade ou coragem para prosseguir? Quando a aparência parece ser mais importante do que somos por dentro? Quando nos deixamos levar pela embalagem e nos esquecemos do que temos por dentro, do nosso conteúdo? E quando tudo parece perdido e a beleza vai embora, o que nos resta? Essas são algumas perguntas que Amy Harmon tenta responder aos seus leitores ao longo das páginas de Beleza Perdida, publicado no Brasil pela Verus Editora.

Ambrose Young era considerado um dos garotos mais atraentes da escola da pequena cidade de Hannah Lake. Principal atleta do time de luta livre da escola, o Hércules, como era chamado, já tinha seu futuro acadêmico garantido pelo esporte. A sua competência como lutador não só lhe fizera principal orgulho dos moradores da cidade, como lhe garantira também uma bolsa de estudos na Universidade da Pensilvânia.  Ele era tudo o que muitos outros jovens ansiavam ser.

Logo ali ao lado, Fern Taylor, a filha do pastor Joshua Taylor, nutria uma paixão inconfessável por Ambrose, mas ela se considerava feia demais para um dia ser notada pelo rapaz que poderia ter qualquer garota que quisesse. Por isso a garota dos cabelos que lembravam “uma coroa de fogo desenfreado” se contentava em sonhar acordada e entregar-se aos romances que lia e escrevia. Mas o verdadeiro consolo de Fern estava na amizade quase maternal que mantinha com o primo, o irreverente Bailey, portador de distrofia muscular de Duchenne, filho do treinador de Ambrose e mascote do time.

Porém tudo fica mais difícil para Fern quando ela descobriu que sua amiga mais próxima, Rita, também estava apaixonada por Ambrose e para ajudá-la acaba escrevendo cartas de amor para o rapaz no lugar de Rita. Porém aquela também seria uma possibilidade de conhecer melhor o objeto de seu amor.

A vida seguia seu curso normal até a chegada do dia 11 de Setembro de 2001. Após testemunhar com seus colegas de classe o trágico incidente com as Torres Gêmeas, Ambrose já não era mais o mesmo. Seu espírito e seu coração foram tomados pelos mesmos sentimentos de vazio e de dor e pelo desejo de justiça que recaíram sobre todos os americanos enlutados. Ambrose tomaria a mais importante e decisiva decisão de sua vida: lutaria ao lado de seus melhores amigos na guerra no Oriente Médio. Entretanto o custo de sua decisão seria mais elevado do que ele poderia supor. Isso iria custar inclusive a sua beleza e suas certezas.

Beleza Perdida é um livro que fala de perdas e de superação, de autopiedade e da necessidade de supera-la. A princípio o clima criado pela paixão platônica da garota feia pelo rapaz mais popular da escola me fez pensar que Beleza Perdida fosse só mais um romance Sessão da Tarde que enjoamos logo nos primeiros capítulos e que deduzimos o final com a mesma facilidade e segurança com que afirmamos que o céu fica azul em dias de sol. Mas confesso que foi surpreendido, fiquei emocionado em alguns dos capítulos que antecederam o seu desfecho e tirei dessa leitura alguns ensinamentos que levarei para a vida. Vamos a nossa resenha falando um pouquinho dos três personagens principais.

Capa da edição em inglês
Fern é uma garota doce, poética e inteligente, exageradamente apaixonada, mas muito dedicada as pessoas que ama e um verdadeiro porto seguro para qualquer um que seja sensível o suficiente para cativa-la. Mais do que romântica a garota mostra em algumas passagem um apurado conhecimento de vida e uma generosidade que transcende o ser amigo, o ser companheiro e alcança a plenitude daquele que ama verdadeiramente e de forma gratuita e devotada.

O que mais me comoveu na personagem não foi nem tanto seu sentimento por Ambrose, mas o seu amor beirando o materno pelo primo doente a quem ela tinha o prazer e a voluntariedade de servir. Arrisco a dizer que Bailey, e não Ambrose, fosse a outra metade da alma da ruiva, porém em um sentimento puramente fraterno.  Eram cúmplices, confidentes, inseparáveis. Os dois compunha um soneto ao mesmo tempo cômico, comovente e bonito.

Ambrose, por sua vez, é uma das veias trágicas da história. O rapaz além de introspectivo vive interiormente atormentado pelas consequências dramáticas de suas escolhas e se culpa por elas, o que faz com que o rapaz esteja sempre em conflito consigo mesmo e procure distanciar os demais de si. As reviravoltas que sua vida dá o distanciando bastante daquele garoto atraente da escola, porém, não diminuem o amor e o desejo que Fern sentia por ele. Contudo, consumido pelas suas amarguras, arrependimentos e pela autopiedade, o rapaz se torna por um certo tempo incapaz de acreditar nos sentimentos de Fern, ao mesmo tempo que duvida que o interesse da garota seria duradouro.

Por fim, termos Bailey, meu personagem preferido. Como portador de distrofia muscular de Duchenne Bailey sempre soube que sua vida seria muito curta e que logo estaria condenado a viver em uma cadeira de rodas, com seus movimentos reduzidos a quase nada e completamente dependente de que as pessoas fizessem tudo por ele. Ter chegado aos vinte e um anos foi para ele um milagre que só foi possível graças a incansável dedicação de seus pais e da prima Fern. É muito comovente quando se desabafando e ao mesmo tempo dando um sermão em Ambrose o rapaz fala de como teve que abandonar por completo qualquer sentimento de orgulho para continuar vivendo.

Porém, ao contrário do que se pode imaginar, Bailey é um rapaz alto-astral, cheio de sonhos, grato pelo o que tem, decidido e, principalmente, sem nenhum temor da morte. Ao contrário, ele é daquelas pessoas que faz piada de sua própria desgraça e se agarra a vida procurando aproveitar cada minuto e nunca perder um minuto que seja com autopiedade. Logo, ele é o polo oposto de Ambrose, ainda que admirasse bastante o lutador.

O tema centra do livro é com certeza a beleza, mas não apenas a beleza estética, a casca, mas a capacidade de ser belo por dentro, o que pressupõe possuir, cultivar e transmitir qualidades como gentileza, amizade, humildade, determinação, perseverança, voluntariedade e amorosidade. Os laços que unem os três personagens centrais da história são feitos destes sentimentos, o que torna a narrativa bonita e tocante. Ambrose precisa de ajuda para vencer seus demônios, e por amor Fern está pronta para fazer de tudo para que ele volte a ter confiança em si e seja capaz de superar seus problemas. Por sua vez, Bailey está também disposto a ajudá-los.

O livro também fala de perdas e da necessidade de que não cultivemos a autopiedade, que não nos deixemos consumir por nossa impotência diante da adversidade, mas que busquemos seguir em frente, conviver com o que somos, o que vemos no espelho, aproveitando o que de melhor a vida pode nos dar, junto de quem amamos.

Gostei muito do livro, e como já disse fui surpreendido pelos seus personagens e pelos acontecimentos que antecedem o desfecho. Mesmo não sendo meu gênero literário preferido fiquei emocionado em vários capítulos.

Achei interessante também por ele nos dá uma noção do sentimento vivido pelos americanos diante do terror do 11 de setembro. Mesmo em que em uma pequena dose, conhecemos através de Ambrose o vazio que aquele acontecimento trágico deixou no coração do povo estadunidense. Ao mesmo tempo ele nos dá uma pequena prova do horror vivido pelos jovens em campo inimigo. Pena que a discussão não foi aprofundada e a geopolítica envolvida na “Guerra contra o Terror” de Bush não é explorada. Mas fica claro que este não era o foco da narrativa. A autora pretendia mostrar a coisa pelo olhar dos jovens americanos, dos que lutaram pela sua nação.

Me chamou a atenção também como o começo da narrativa se assemelha a história de A Marca de uma Lágrima de Pedro Bandeira, outro livro já resenhado aqui no blog. A ideia é bem semelhante: uma garota que se acha feia, apaixonada por um garoto muito bonito que está envolvido com sua melhor amiga e ela se faz passar pela amiga escrevendo cartas de amor inundadas em poesia. Mas no prosseguir dos fatos as narrativas tomam caminho completamente distintos, sendo apenas uma breve semelhança.

Enquanto escrevia esse texto, estava ouvindo Photographde Ed Sheeran e pensando como valeu a pena ler esse livro, unicamente por causa dos laços poderosos e comoventes criados entre esses personagens. Esses laços foram o suficiente para que eu decidisse resenhar o livro, isso o diferenciou de um simples romance tipo Sessão da Tarde. Há momentos cansativos, mas que valem a pena. Na verdade Photograph é muito semelhante a proposta de Amy Harmon:

Loving can heal (Amar pode curar)
Loving can mend your soul (Amar pode remendar sua alma)
And it's the only thing that I know (E é a única coisa que eu sei)

Por fim, só uma dica a quem for ler o livro: prestem bastante atenção aos títulos dos capítulos! :>


A edição lida é de 2015, digital e publicado pela Verus Editora.

Confira também a postagem especial:

Distrofia muscular de Duchenne e o livro Beleza Perdida

quinta-feira, 10 de março de 2016

Desventuras em Série: Mau Começo, A Sala dos Répteis e O Lago das Sanguessugas

Diz o ditado que dinheiro não traz felicidade, mas os Baudelaire afirmariam que ele só traz infortúnios, uma palavra que aqui significa “acontecimentos infelizes que se sucedem a alguém ou a um grupo de pessoas” que no caso são os próprios Baudelaire.
Os irmãos Baudelaire em ilustração de Brett Helquist.

Desventuras em Série é um conjunto de 13 livros infanto-juvenis escritos por Daniel Handler sob o pseudônimo de Lemony Snicket. Os 13 volumes – lembrem que aqui no ocidente 13 representa má sorte – narram as desventuras de três irmãos herdeiros de uma grande fortuna que ao perdem seus pais no misterioso incêndio da mansão da família são entregues a novos tutores. Contudo, ao longo de toda a narrativa os três órfãos, Violet, Klaus e Sunny, são perseguidos pelo seu primeiro tutor, o inescrupuloso e razão das desventuras dos Baudelaire, o Conde Olaf, um ator decadente que com a ajuda de sua trupe de artistas bizarros tentam a todo custo se apoderarem da fortuna dos Baudelaire.

Nesta postagem decidi falar dos três primeiros livros da coleção de forma conjunta porque estes volumes foram as referências da adaptação da obra para o cinema feita pelo estúdios Paramount Pictures, DreamWorks Pictures e Nickelodeon Movies com direção de Brad Silberling. Como eu assistir ao filme antes de ler a série minha leitura foi fortemente influenciada pela película fílmica, e as comparações foram inevitáveis. Por isso, a postagem de hoje será tripla e a resenha unificará as impressões desse conjunto com algumas comparações com o filme. Inevitavelmente haverá spoiler.


Sinopses dos livros


Mau Começo 


Como o nome já insinua, este é o primeiro volume dá série onde somos apresentados aos protagonistas da narrativa: os três irmãos, o banqueiro Sr. Poe e o antagonista Conde Olaf.
Capa da edição brasileira de Mau Começo retratando
a chegada dos órfãos a casa do Conde Olaf

O livro começa narrando como os irmãos Baudelaire receberam pelo Sr. Põe a triste notícia do trágico incêndio que vitimara seus país. A partir dali, responsável pela gestão de seus bens, o banqueiro os conduzem ao seu novo tutor, um parente distante chamado Conde Olaf que seria responsável pela guarda das crianças.

Apoiando-se mutuamente os irmão se consolam com a perda prematura dos pais e depositam suas esperanças nesse novo tutor, contudo a primeira decepção começa com a situação escabrosa da casa onde seriam obrigados a viver:

Os tijolos estavam encardidos e ensebados. Na fachada, só duas pequenas janelas, mantidas fechadas apesar de o dia estar muito bonito. Acima das janelas se erguia uma torre alta e suja, um pouco tombada para a esquerda. A porta da frente estava precisando ser repintada, e entalhada em seu centro havia a imagem de um olho. A construção inteira caía para um dos lados, como um dente torto”. 

Se já não bastasse essa primeira má impressão, o próprio conde era uma criatura de aspecto asquerosa assim como os esquisitos membros de sua trupe de artistas formada por pessoas de aspectos singulares e igualmente tenebrosas. Além disso, logo o novo tutor se demonstraria uma pessoa odiosa, perversa, astuta e ameaçadora com um único interesse: livra-se dos irmãos Baudelaire e apossar-se de sua fortuna, o que só seria possível quando Violet atingisse a maioridade legal. Em uma situação deplorável de abandono e exploração os irmãos encontrariam consolo apenas na juíza Strauss, a amigável vizinha do conde, mas que também logo seria envolvida em um ardiloso plano do conde.


A Sala dos Répteis


O segundo volume da obra conta o destino dado aos órfãos após os eventos narrados em Mau Começo. 
Capa do segundo volume da obra, A Sala dos Répteis,
edição brasileira. Na imagem vemos uma passagem da
história quando Sunny
brinca com a “Víbora Incrivelmente Mortífera".

Após seus planos derem errado, Conde Olaf se encontra foragido e os irmãos Baudelaire são levados por Sr. Poe a mansão de seu novo tutor, outro parente distante, o Dr. Montgomery, também chamado de Tio Monty.

Montgomery é um herpetologista - estudioso de répteis e anfíbios – que mantinha em sua casa uma imensa coleção de animais exóticos, a exemplo da “Víbora Incrivelmente Mortífera", que apesar do nome pomposo e sugestível se demonstrava como a mais dócil das criaturas. Tudo na casa recordava a paixão do seu dono até mesmo a decoração lembrava as perigosas serpentes estudadas por Montgomery: 

Mas, diante da casa, via-se algo verdadeiramente fora do comum: um vasto e bem-cuidado gramado, repleto de longos e finos arbustos que haviam sido podados para ficar com a aparência de cobras. Cada arbusto era um tipo diverso de serpente: umas longas, outras curtas, umas de língua para fora e outras de boca aberta revelando dentes verdes assustadores. Todas bem intimidativas, tanto que Violet, Klaus e Sunny mostraram certa hesitação em caminhar passando ao lado delas no trajeto até a casa”.
Tio Monty se demonstram uma pessoa doce e logo cativa as crianças que pensavam ter finalmente encontrado consolo naquela casa inusitada e no seu alegre proprietário que já planejava uma viagem de expedição com as crianças pelas florestas do Peru. Contudo, tudo mudaria com a chegada do misterioso e suspeito Stephano, o novo ajudante de Montgomery e que viajaria com eles na expedição.

O lago das sanguessugas 


Após os acontecimentos ocorridos no livro anterior, os irmãos Baudelaire são levados para um novo tutor, a tia Josephine, uma mulher apaixonada pelo estudo da gramática, mas com manias e temores que abeiravam o irracional.
Capa da edição brasileira de o Lago das Sanguessugas.
Nela vemos a chegada do furacão Hermano.

Josephine morava próximo ao Cais de Dâmocles em uma casa que ficava a beira de um penhasco sustentada apenas por uma frágil estrutura que lhe impedia de desabar:


“Os Baudelaire deram uma olhada. De início, os três garotos viram apenas algo semelhante a uma caixinha quadrada que tinha uma porta branca com a pintura descascando e que parecia ser um pouco maior do que o táxi que os levara até ali. Mas quando saíram do carro e se aproximaram da construção, viram que a caixinha quadrada era a única parte da casa situada no cume do morro. O resto dela — uma grande pilha de caixas quadradas grudadas umas nas outras como cubos de gelo — pendia das encostas, prendendo-se no morro por estacas metálicas que eram como patas de aranha. Ao olhar para seu novo lar, os três órfãos tiveram a impressão de que a casa inteira se agarrava ao morro como se ele fosse uma tábua de salvação”. 
Ainda que vivendo em uma casa claramente insegura, tia Josephine, após a morte do marido, Belo, devorado pelas sanguessugas carnívoras do lago Lacrimoso, havia se tornado uma mulher muito medrosa que evitava qualquer coisa que jugasse perigoso. Se recusava até mesmo a atender o telefone por medo de ser eletrocutada por ele. Devido a seu medo irracional, a vida dos órfãos não era das mais agradáveis, sendo forçados inclusive a se alimentarem de comida fria pois sua nova tutora não permitia que ninguém usasse o fogão. 

Entretanto, se não era a vida mais aprazível, os irmãos se davam por satisfeitos por estarem juntos e distantes do malvados Conde Olaf. O que os três não imaginavam era que a estranha figura do capitão Sham, às vésperas da chegada do furacão Hermano, travessaria o seu caminho e acabaria com a tranquilidade de todos.

Resenha

Os spoilers começam aqui...

A princípio Desventuras em Série se mostrou um infanto-juvenil de características bastantes peculiares. Seu aspecto gótico, as situações e os lugares absurdos, a sinceridade do autor ao afirmar que ele não estava escrevendo uma história de finais felizes. É mesclar o fantástico e o real, em uma mistura única e original.
Cartaz do filme.

O fantástico está nos lugares como o Lago Lacrimoso com suas sanguessugas carnívoras, a Casa de Josephine dependurada na beira de um penhasco e no Mau Caminho com seu cheiro insuportável de raiz-forte. O real está na consciência de que a vida não é feita apenas de momentos felizes, ou melhor, de que eles são bastante raros e é preciso união para sobreviver. Por fim o gótico permeia toda a atmosfera desse mix de real e fantástico estando nos lugares excepcionais e sombrios, assim como nas personalidades inusitadas de cada um dos personagens. A proposta da série é, por si só, muito interessante. Porém...

Por ter assistido a adaptação para o cinema senti inicialmente que os livros referentes ficaram um pouco a desejar. Primeiramente, o Conde Olaf não tem um senso de humor que supere a criatividade do incrível Jim Carrey, na verdade o ator deu mais alma ao personagem. Em segundo lugar, os momentos de ação e de suspense da narrativa não conseguiram superar a releitura da película e nem a dramaticidade que o filme consegue subsumir (introduzir) na história. Pelo contrário, estes aspectos são um pouco fracos nesses três primeiros livros e talvez por isso o filme tenha introduzido elementos e cenas inexistentes na narrativa dos três primeiros livros, suprimindo e alterado a ordem de alguns acontecimentos.

Ainda assim, o conceito trazido pelo livro é fantástico, um livro gótico para crianças é simplesmente algo que eu jamais imaginaria. Já li infanto-juvenis dramáticos, como Tonico de José Rezende Filho, contudo nada como Desventuras. Sua perspectiva de que não haverá final feliz, de um mundo fantástico situado entre o irreal, o inusitado e um passado de datação incerta é bastante original. Por isso vou destacar alguns aspectos em que o livro ganha de sua adaptação para o cinema.

A primeira delas é que no livro os três irmão parecem mais humanos do que no filme e isso foi um alívio. Os três são realmente inteligentes, sarcásticos e criativos, mas Klaus não é aquela biblioteca ambulante que tem respostas prontas para tudo apenas puxando um ou dois livro de sua mente e que ele tenha lido. No livro ele lê e pesquisa para achar respostas e mesmo sendo sagaz leva um tempo para concluir uma saída para os problemas que aparecem. Violet também é bastante criativa e, sim, ela usa a fita para prender o cabelo, mas a sua genialidade ainda se situa entre a capacidade dos mortais. Por fim, Sunny não é nenhum monstrinho que abre uma lata com os dentes... se bem que ela rompe uma corda com os dentes e abre a perna de pau do capitão Sham com uma mordida... o.O

Em segundo lugar, os livros trabalham mais profundamente o convívio dos órfãos com os personagens coadjuvantes, a exemplo de Sr. Poe, Tio Monty, Tia Josephine e, principalmente, a gentil Juíza Strauss com quem as crianças constrói uma amizade significativa tornando a sua casa em um pequeno e breve refúgio para o sofrimento delas. Desta forma os livros são mais profundos em sua narrativa. Ainda assim o filme consegue preservar as principais características destes personagens

Para concluir destaco aqui três importantes pontos do filme inexistentes no livro ou que foram profundamente modificados:

A cena da destruição da casa de Josephine


Na versão do cinema Violet e Klaus são forçados a pensar um plano de fuga engenhoso para não desabarem do penhasco juntamente com a casa, porém quase toda aquela cena não existe na versão original do livro, há sim uma saída às pressas da casa que desabava, mas só. O plano de Violet com a âncora simplesmente não existe no livro.

Alteração na ordem dos acontecimentos


Com certeza para que o final do filme fosse mais dramático, a ordem cronológica dos fatos nos três livros foram alteradas e uma cena foi criada para dar coesão a narrativa.

No filme, o casamento entre Violet e Conde Olaf, ocorrido durante uma peça de teatro tramada pelo vilão apenas para que a juíza Strauss realizasse um casamento legal entre ele e a mais velha dos irmãos Baudelaire, é usado como desfecho na película, contudo, originalmente este seria o desfecho do primeiro livro, Mau Começo, e não do terceiro livro como faz supor a película fílmica. 

Para fazer com que essa alteração não prejudicasse a ordem lógica dos fatos foi criada uma cena extra como desfecho substituto do primeiro livro. A cena é aquela em que Olaf tenta se livra dos órfãos deixando-os trancados em seu carro na linha férrea enquanto o trem vinha na direção deles. O plano do vilão dá errado devido a inteligência dos irmãos, mas Sr. Poe chega na hora, interpreta a situação de maneira equivocada – só pra variar –, acusa Olaf de irresponsável e tira as crianças dele. Com esse acréscimo o Conde Olaf perde a guarda das crianças e elas são encaminhadas a Tio Monty e a transição de um livro para outro é feito sem prejuízo da ordem lógica dos acontecimentos.

O misterioso grupo da luneta e as investigações sobre incêndios

No filme, em quatro momentos diferentes Klaus encontra evidências da existência de um grupo secreto do qual seus pais, Tio Monty, Tia Josephine e Belo – o falecido marido de Josephine – teriam feito parte no passado.

O símbolo marcante do grupo seria a luneta e cada membro carregaria consigo uma. Outro elemento do mistério são os incêndios: os país dos Baudelaire haviam morrido em um incêndio na mansão onde moravam com os filhos, Monty teria perdido sua família da mesma forma e Belo durante anos havia investigado uma série de incêndios. Contudo nada disso aparece nos livros. Fiquei intrigado, seria mais uma invenção da adaptação para dar mais ânimo ao telespectador? Investiguei e parece que realmente existe um grupo misterioso na história, chamado de V.F.D. (Volunteer Fire Department, algo como Corpo de Bombeiros Voluntários), mas a primeira menção sobre o grupo só aparece em Inferno no Colégio Interno, quinto livro da série, mas não sei os detalhes porque ainda não li os livros seguintes. Fica no suspense.

As edições lidas foram da Editora Cia das Letras, edição de 2001

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

O que é spoiler?


Na mídia Spoiler significa um texto, afirmação, comentário ou imagem que revele informações importantes da narrativa de um livro ou de um filme, prejudicando a trama e desestimulando o leitor/telespectador em ler/assistir a narrativa. O spoiler seria assim como num romance policial um comentário que diga quem é o criminoso e a razão dele ter matado fulano ou sicrano. 


Exemplo de Spoiler:


Gattaca - A Experiência Genética (1997)

SINOPSE: Num futuro no qual os seres humanos são escolhidos geneticamente em laboratórios, as pessoas concebidas biologicamente são consideradas inválidas. Vincent Freeman (Ethan Hawke), o primogênito, nasceu do amor de seus pais sem preparos genéticos. Tem desde pequeno, o desejo de ser um astronauta, mas tem em seu código genético predisposições a doenças que não lhe permitem nada melhor em vida que o emprego de faxineiro. Consegue, porém, um lugar de destaque em uma corporação, escondendo sua identidade genética verdadeira. Tudo segue perfeitamente, com muito esforço, até que um assassinato em seu emprego põe sua máscara em risco, podendo expor seu passado.
Após conseguir se passar por Jeremy Morrow (Jude Law), entrando num acordo em que o ex-nadador paraplégico lhe fornece o material genético em troca de uma vida de conforto, Vincent consegue seguir sua vida tranquilamente e ainda manter um caso com sua colega Irene Cassini (Uma Thurman), que descobre a verdade, mas devido à sua paixão, não revela aos outros.
No dia da partida para lua Titã, objetivo de vida de Vincent, ele se despende de Jeremy pela última vez, e antes do embarquem, acaba se encontrando com seu irmão perfeito geneticamente Antonio, bioquímico da agência espacial, que faz os testes de urina, mas este resolve burlar o sistema e satisfazer o desejo do irmão "não-válido" e finalmente Vincent sai em busca do seu sonho, enquanto Jeremy se lança num incinerador suicidando-se, não sem antes deixar amostras genéticas o suficiente para Vincent e uma carta com uma mecha de cabelo, simbolizando sua decisão final.

Fonte: http://comoterminafilme.blogspot.com.br 

Referências:
SANTOS, Alex. Gattaca - A Experiência Genética (1997). Disponível: em: http://comoterminafilme.blogspot.com.br. Acesso em: 12 fev. 2012.

WIKIPÉDIA. Spoiler. Disponível em: http://pt.wikipedia.org. Acesso em: 12 fev. 2012. 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

CARTA EM DEFESA DO PIBID - FORPIBID - O Conhecertudo apoia esta causa!

Por mais e melhor formação de professores, por mais qualidade na escola pública 

O FÓRUM NACIONAL DOS COORDENADORES INSTITUCIONAIS DO PROGRAMA INSTITUCIONAL DE BOLSA DE INICIAÇÃO À DOCÊNCIA ­ FORPIBID ­ vem manifestar­se, com veemência, pelo fortalecimento do PIBID e do PIBID Diversidade e contra os cortes de, pelo menos, 50% do número de bolsas em 2016, anunciados pela CAPES. Os Programas têm contribuído com a formação de qualidade de uma nova geração de professores da Educação Básica, constituindo­se em uma referência no sentido da valorização da educação e de seus profissionais. 

O êxito do PIBID e PIBID Diversidade deu ensejo a mudanças na legislação educacional, responsabilizando o governo com a manutenção dos Programas. O Plano Nacional de Educação (Lei nº 13.005/2014) institui metas para a formação de professores, incluindo a estratégia de ampliar o PIBID como uma das medidas sistêmicas para a melhoria da qualidade da educação pública em todos os níveis e modalidades. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (alterada pela Lei nº 12.796/2013) estabelece o incentivo à formação de profissionais “mediante programa institucional de bolsa de iniciação à docência aos licenciandos” e as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores (Resolução CNE/CP nº 02/2015) exigem reformas nas licenciaturas, aproximando­as das características e dimensões da iniciação à docência realizadas pelos Programas. 

O PIBID é uma política de estado de caráter estruturante, que cria mecanismos concretos de articulação entre instituições e sujeitos de Norte a Sul do país, movimentando uma rede de trabalho e formação. O ideal de uma educação de qualidade como direito de cada brasileiro, nos Programas, se traduz em atividades planejadas de investigação, inovação e formação docente. Nessa rede, o conhecimento compartilhado sobre o trabalho/formação considera a pluralidade de escolas públicas, estimula enraizamento na cultura local e provoca o olhar para as conexões com o não­local. 

O PIBID lida com demandas que se acumularam no campo da educação. Assim, vem contribuindo para aumentar o interesse dos jovens pela profissão docente, ajudando-­os a construir a própria identidade profissional e a permanecer na licenciatura até concluir os estudos. Em paralelo, também contribui com a profissionalização e formação continuada dos professores formadores e inaugura um espaço privilegiado de diálogo e de trabalho integrado, derrubando os muros que separavam Instituições de Ensino Superior (IES) e escolas da Educação Básica. 

Fragilizar o PIBID e PIBID Diversidade é um grave equívoco da CAPES/MEC, especialmente, diante do “apagão” previsto com a falta de professores para as escolas públicas. Os cortes anunciados, sob o pretexto de recuperar “perdas” geradas pelos Programas implicam em descontinuidade política, fenômeno nefasto que marcou historicamente o campo da educação. Na verdade, dada a capilaridade e institucionalização alcançada, os cortes podem anular o esforço empreendido em regime de colaboração para edificar a política nacional de formação de professores. Tal ruptura implica não só na perda do investimento feito até aqui, mas no atraso de um projeto de educação que está em marcha, no adiamento ao combate às desigualdades, injustiças e problemas sociais, os quais sem a educação não serão jamais vencidos. 

Em respeito ao Estado Democrático, e enquanto sujeitos de direito, conclamamos a todos que almejam uma educação pública, gratuita e de qualidade para que somem forças em defesa do PIBID e PIBID Diversidade. Com efetiva responsabilidade, os atores que sustentam esse Programa mostram que é possível formar mais e melhores professores para a Educação Básica. Unamos forças para que os Programas possam avançar em conjunto com as políticas da educação e venham a contribuir para a construção de escolas melhores e, consequentemente de uma sociedade de fato democrática. 

Brasília, 25 de janeiro de 2015.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Los Alamos - Resenha - Martin Cruz Smith



Na capa da edição lida podemos visualizar 
dois buttes carcterísticos da paisagem
desértica da região dos Monument Valley
no Novo México durante o anoitecer.

Foi nas terras áridas e cingidas por montanhas e desfiladeiros de Los Alamos, no Estado americano de Novo México, onde se realizaram os primeiros testes para a produção da Bomba Atômica, ainda na segunda Guerra mundial. O controverso projeto denominado de Projeto Manhattan e comandado pelo físico Robert Oppenheimer e pelo major-general Leslie Groves, foi responsável pela produção das bombas nucleares que destruíram Nagasaki e Hiroshima – um dos maiores atentados ocorridos até então – como estratégia militar para pôr fim à guerra empreendida contra os japoneses no Pacífico. Contudo é o Projeto Manhattan o cenário escolhido por Martin Cruz Smith para ambientar o seu romance Los Alamos originalmente publicado em 1986 com o título de Stallion Gate.

A narrativa de Los Alamos gira entorno de Joe Peña, um sargento indígena do exército que havia sido preso por se envolver com a mulher de um oficial superior e que foi solto pelo Capitão Augustino especialmente para cuidar da segurança do projeto Manhattan.

Joe já era muito famoso dentro do exército e sobretudo no Novo México, sua terra natal, pela suas lutas como pugilista, sua música e também pelo sucesso que fazia com as mulheres. Mas a razão de Capitão Augustino quere-lo em Los Alamos era o seu conhecimento do lugar, dos povos indígenas que viviam ali e ameaçavam as operações secretas do projeto bem como sua proximidade com o chefe científico do projeto, Oppenheimer. Augustino desconfiava da presença de espiões entre os membros do corpo científico e Joe era sem dúvida o homem perfeito para ser seus olhos e ouvidos dentro do Projeto Manhattan.


Vista sobre Los Alamos, Novo México. 
A ponte no canto inferior direito é a ponte 
Ômega construída através de Los Alamos Canyon. 
Fonte: Wikimedia Commons
Ao longo da história, Cruz Smith descreve as aventuras amorosas de Joe Peña bem como o dia-a-dia dentro das instalações militares criadas especialmente para o projeto. Narra também os conflitos com alguns grupos indígenas da localidade e que colocam Joe em uma difícil posição entre suas obrigações como militar e para com seu povo. Também é muito enfatizado na história os conflitos internos travados por Joe que se sente culpado pela morte do irmão, Rudy, ocorrida durante a guerra no pacífico e que só entrara no exército por admirar o trabalho do irmão mais velho. A perda do irmão, porém, era para Joe um martírio ainda maior, pois também a mãe, Dolores, morrera culpando-o por ter impulsionado Rudy a seguir carreira militar.

Resenha

Há algum tempo eu vinha tendo uma vontade grande de ler este livro em grande parte por meu interesse sobre a temática da guerra que lhe serve de cenário e, em segundo lugar, pelo meu desconhecimento acerca de seu autor. Bem, tive minha oportunidade quando encontrei um volume antigo e amarelado na biblioteca da Filarmônica 30 de Junho. Fiquei ansioso para começa-lo e qual foi minha surpresa quando percebi que a narrativa não era nada do que eu imaginava. Joguei o livro em uma prateleira qualquer e acabei levando três meses para voltar e terminar de ler. E aí vocês me perguntam: e afinal porque você está resenhando esse livro? O motivo é bem simples: a relevância de sua temática e a qualidade de suas descrições, mas vamos por partes.
Os Físicos do Distrito Manhattan num colóquio em 
Los Alamos em 1946. Na linha de frente estão 
(da esquerda para direita) Norris Bradbury, 
John Manley, Enrico Fermi e J. M. B. 
Kellogg. Robert Oppenheimer, de paletó escuro,
está trás de Manley; à esquerda de Oppenheimer 
está Richard Feynman. Destes Fermi e Oppenheimer 
aparecem como personagens da narrativa de Cruz Smith.

Primeiro, porque não gostei da narrativa. Bem, para começar tudo o que eu esperava na história foi secundarizado ou não era o seu foco principal. Cruz Smith tinha em suas mãos a possibilidade de escrever uma narrativa emocionante cheia de conspirações e espionagem, não que estes elementos não estivessem presentes na história, mas foram tão secundarizadas que ficaram perdidas em meios aos problemas existenciais e amorosos do personagem principal, além disso faltou mais emoção, suspense e espaço na narrativa para que estes elementos se desenvolvessem. Na minha modesta opinião, somente o final dramático entre o fanático Augustino e Joe esteve a altura de tudo que a narrativa poderia ter sido, mas não foi. Além disso a história não vai além do Projeto Manhattan, não mostra suas consequências ou uso sobre as cidades japonesas destruídas pela bomba. Por fim, se centra demais na história e nas aventuras de Joe. Contudo, este último ponto possibilitou também alguns pontos interessante da narrativa.

Entretanto decidi resenhar o livro por dois motivos: a cultura indígena que aparece em alguns trechos e determinados pontos espaçados da história que nos mostra o que pensavam os americanos em relação a guerra que acontecia no Pacífico.

A "bomba" (recipiente sob pressão) 
sendo baixado em uma fornalha

Joe, como já afirmei, é indígena e através de suas andanças e das confusões em que se mete podemos conhecer um pouco da vida dos indígenas que viviam próximo à Los Alamos. Cruz Smith nos mostra um pouco da cultura indígena, de seus costumes e religião, além de nos apresentarmos aos kivas e aos pueblos. Ainda conhecemos um pouco das condições de pobreza e exploração em que viviam os índios dos pueblos do Novo México. O trabalho de cerâmica muito bem elaborado e com uma decoração que representava muito de sua cultura e mitologia mas que, no entanto, era comercializada para os turistas a preços irrisórios, assim como acontecia com a venda de turquesas e outras quinquilharias. Por fim, o autor ainda revela um pouco da tentativa destes povos de preservar parte de seus costumes religiosos. É inclusive por questões religiosas que os índios da região acabam por entrar em conflito com o exército e tentam sabotar suas atividades em Los Alamos. Motivados por Roberto, um velho índio cego, e seus sonhes proféticos, alguns índios começam um incêndio em uma das instalações de Los Alamos e devido a essa e outras interferências e incidentes acabam sendo perseguidos por dois vaqueiros do Serviço de Proteção aos Índios, por ordens do Exército americano.
Os Pueblos eram a forma de moradia típica dos indígenas 
que viviam no território do atual estado de Novo México. 
Na imagem Taos Pueblo (ou Pueblo de Taos). 
Fonte: Wikimedia Commons

O outro aspecto que me levou a resenhar o livro de Cruz Smith foi saber um pouco sobre o que os americanos e os cientistas – aqueles envolvidos com o projeto – pensavam da guerra e da construção daquela arma mortífera. Percebi que era consenso da maioria de que a bomba seria a única maneira de fazer com que os japoneses se rendessem e por fim de vez a guerra. Ficou nítido que, a qualquer custo, a meta perseguida era poupar a vida do maior número de soldados americanos. Em uma das passagens, inclusive, em um diálogo entre Dr. Harvey, Oppenheimer e Joe, o autor levanta a questão dos custos de vidas que o uso daquela bomba teria e se seria correto ou não construí-la ou detona-la sobre as cidades japonesas. Leiam um trecho:

“— Você argumenta, Harvey, que os japoneses estão praticamente derrotados. Segundo qualquer padrão racional, eles deveriam estar, concordo. Você acha que seria preferível explodir a bomba em uma demonstração anunciada publicamente — uma ilha da Baía de Tóquio, por exemplo, um lugar onde eles pudessem reunir seus melhores cientistas e generais. Se tivermos real mente de lançar a bomba sobre eles, você acha que o alvo deveria ser um posto militar remoto, uma base tão distante quanto possível de qualquer agrupamento de civis. Você não admite que mulheres e crianças morram simplesmente porque queremos demonstrar nossa eficiência. E acrescenta que há prisioneiros de guerra americanos em numerosas cidades japonesas que poderão estar relacionadas como alvos possíveis. Você acredita que se formos a primeira nação a usar uma arma tão terrível, ficaremos historicamente estigmatizados, granjeando a má vontade do mundo inteiro. Pior ainda, você receia o desencadeamento de uma corrida armamentista, com o aparecimento de artefatos cada vez mais poderosos, como a humanidade jamais sonhou e que a destruirão. Acha que usar uma arma assim na guerra impedirá qualquer tentativa de acordo internacional, relativo ao futuro controle de artefatos apocalípticos. Por fim, você argumenta que seremos os responsáveis diretos e específicos por essas armas, uma vez que fomos os homens e mulheres que as criamos. Quem, senão nós, tem o direito de decidir como e se tais armas devem ser usadas? Agora me diga: não fiz um resumo honesto de seus argumentos?”

São questões realmente importantes, mas que todos sabem pelo estudo da historiografia que não impediram a construção nem a detonação das bombas sobre Nagasaki e Hiroshima. Além disso, já li em alguns livros que a intensão americana não se resumia a forçar a rendição japonesa – o que aconteceu em 15 de agosto de 1945 – mas também demonstrar seu poderio militar a União Soviética que já despontava como principal rival do Estado americano. Inclusive há em Los Alamos há um rápido comentário em referência a isso, feito por um dos oficiais do projeto.

Por fim, outro ponto relevante a se destacar é a qualidade e propriedade mostrada pelo autor ao descrever os experimentos e testes envolvidos na fabricação da bomba, resultado provável de uma profunda pesquisa sobre o tema.

Bem, para quem quiser ler Los Alamos indico que o façam mais pela importância histórica do momento que serve de cenário ao romance do que pela busca por um thriller ou por uma história de ação e espionagem, porque esse não é o caráter desta obra. É meu primeiro Cruz Smith e já ouvi falar de outros dois livros dele que são considerados suas melhores obras: Parque Gorki e Terrores da Noite, mas ainda não decidi se vou lê-los.

A edição lida é da editora Record, publicado em 1986 com 303 páginas.

Obrigado pela atenção.

Os Kivas são antigas construções circulares que eram utilizadas para alguns rituais religiosos dos indígenas. Em um dos trechos da narrativa, Cruz Smith descreve o interior de um kiva: “Havíamos caído dentro de um antigo kiva e estávamos sentados no centro dele. Ao redor de nós havia uma porção de imagens. Um homem com a pele azul como a de um pássaro e a cabeça de búfalo. Uma andorinha com a cabeça de uma menina. Um puma sentado como se fosse humano. O kiva deveria ter uns quinhentos anos, talvez mil, mas as cores estavam tão vivas como se as figuras tivessem sido pintadas na véspera. Entretanto, passada uma hora, elas foram esmaecendo, e passada outra hora, mal podiam ser vistas; pouco depois, eu já nem enxergava as paredes da sala, que se enchia de terra e desaparecia, mas continuávamos lá”. Na foto o Interior de um kiva reconstruído no Parque Nacional de Mesa Verde. Fonte: Wikimedia Commons

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