segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Um Estudo em Vermelho – Conan Doyle - Resenha

Por Eric Silva, pela Conhecer Tudo.

Um crime na cinzenta e chuvosa Londres e o escaldante Deserto do Colorado. O que há de comum entre eles?

Capa da edição lida da publicada 
pela Editora Melhoramentos.
Um estudo em vermelho é um clássico mundial, responsável por imortalizar um dos mais conhecidos autores britânicos do início do século XX. Não há uma só pessoa que goste de ler livros ficcionais que nunca tenha ouvido falar do grande e excêntrico detetive Sherlock Holmes criado pelo autor Sir. Conan Doyle. Holmes é um homem enigmático dotado de uma mente estritamente racional. Suas capacidades dedutivas vão além do normal e o mesmo busca desenvolve-las incessantemente com estudo científicos extremamente racionalizados, mas que nenhum cientista comum se inclinaria ou empreenderia seu tempo para realizar, como o estudo de pegadas e da cinza de charutos. Mas ainda assim, suas histórias conquistaram milhões de leitores ao longo de mais de um século desde quando Um estudo em vermelho apresentou-o ao mundo (o livro foi originalmente publicado em 1887).

Em nosso livro, Conan Doyle narra pela voz de John H. Watson, amigo e escudeiro de Holmes e é dividido em duas partes que narra duas histórias distintas, mas que se encontram como dois extremos de um mesmo fio. A primeira parte se sucede em Londres:

Watson é ex-médico militar que, depois de uma desventurada passagem pelo Afeganistão onde tomou parte na batalha de Maiwand durante a ocupação britânica do Afeganistão, retorna a Inglaterra a fim de restabelecer a saúde abalada durante o conflito. Sem muito dinheiro e longe dos parentes Watson vive na capital britânica em hotéis compatíveis com sua renda. Quando já estava decidido a ir embora da cidade londrina encontra em um bar Stamford, um de seus ex-assistente de hospital, e se alegra ao saber por ele que um outro cavalheiro desejava encontrar alguém para dividir as despesas de um apartamento alugado. Contudo, Watson é insistentemente alertado por seu ex-assistente acerca do temperamento e natureza peculiares de seu futuro flatmate (companheiro de apartamento): 

posso até imaginá-lo capaz de administrar a um amigo uma pitada do último alcaloide vegetal, não por malvadeza, compreenda-me, mas simplesmente pelo espirito da pesquisa e para ter uma ideia precisa dos efeitos. Faço-lhe, porém, justiça de admitir que ele próprio o tomaria com a mesma desenvoltura. Ao que me parece, a sua paixão é o conhecimento exato e completo”.

Contudo, Watson estava persuadido em convidar a notável figura para que com ele dividisse a despesa do aluguel de um apartamento e então não ter mais a necessidade de abandonar a capital. Por intermédio de Stamford Watson conhece Holmes no laboratório químico do hospital onde este trabalhava. Mas quando Sherlock Holmes os recebeu emocionado por ter encontrado um composto químico capaz de revelar evidencias de sangue (chave para a solução de vários crimes), e adivinhar precisamente que o médico vinha do Afeganistão, Watson teve uma amostra que aquele homem era muito mais do que seu ex-assistente pode lhe descrever.

Após um breve entrevista onde ambos expuseram seus principais defeitos e manias, a fim de se decidirem por dividirem o mesmo teto, o acerto é selado, sendo que no dia seguinte os dois alugam um apartamento no 221 B da Baker Street.

A coexistência entre os companheiros se dão de forma amistosa e conciliável. Cada um tentava conviver com os hábitos e manias do outro, sobretudo Watson em relação as esquisitices e mistérios de seu flatmate. Mas tudo o que Holmes fazia, as pessoas que recebia a sós na sala de estar e seus mistérios aguçavam a curiosidade do médico que ansiava compreender melhor quem era e ao que Holmes se dedicava. Ainda atiçava a curiosidade de Watson a dúvida de como Holmes deduzira que ele estivera no Afeganistão quando ainda eram totalmente estranhos um ao outro.

À medida que passavam as semanas, o meu interesse nele e a minha curiosidade quanto aos seus objetivos na vida iam gradualmente aumentando em extensão e profundidade. Até seu físico era tal que despertava a atenção do mais descuidado observador.

Watson só começa a compreender a inteligência prodigiosa e extremamente seletiva de seu companheiro quando sem saber o médico critica a completa ilógica de um dos artigos de Holmes sobre a ciência da dedução e este demonstrar o quanto era logica e coerente suas teorias. Holmes era um detetive nato, capaz de resolver os mais intrincados enigmas do mundo do crime, sem nem mesmo sair de casa ou ir in loco na sena do crime, bastava que lhe dissessem os pormenores dos fatos que ele apenas com o conhecimento racional, dedutivo e sistemático era capaz de solucionar o mistério. Tão certeiras eram suas deduções que os dois mais importantes investigadores da Scotland Yard, a Metropolitan Police Service de Londres, lhe pediam conselhos. Porém Holmes também era frustrado pois mesmo sendo um excepcional investigador, nunca colheu os louros de suas descobertas ficando sempre para polícia os créditos enquanto ele permanecia no anonimato.

Mas Watson fica surpreso com a grande capacidade de seu flatmate e o impele a aceitar o chamado do investigador Gregson para que fosse observar a cena de um crime ocorrido em condições misteriosas numa casa desabitada da Lauriston Gardens. É nesse ponto que a história começa.

Lauriston Gardens
Em uma das casas da Lauriston Gardens foi encontrada na madrugada o corpo de um americano que morrera em condições tais que se não fosse pelo sangue espalhado pela casa e o fato daquele estranha morte ter se dado em uma casa onde não vivia ninguém teria a polícia alegado à sua morte causas naturais, como ataque súbito, uma vez que inexistia marcas de tiros ou punhaladas em seu corpo, logo, o sangue não lhe pertencia. Além disso uma misteriosa inscrição feita em sangue numa das paredes da casa e que trazia a palavra rache, que, segundo o próprio Holmes, se tratava de uma palavra alemã que significava vingança. O crime parece insolucionável, contudo para Holmes “não há nada de novo debaixo do sol”.

A segunda parte da história somos transportados para um outra realidade totalmente adversa num recuo de tempo de várias décadas para o ano de 1847 e jogados em pleno deserto do Colorado diante de um viajante “esquálido e desencarnado” que mesmo vendo a morte se avizinhar permaneciam em seu caminho carregando nas costas uma pequena menina loira. Percebendo que sua jornada havia chegado ao fim, sentou-se com a criança sob a sombra de uma lapa, em companhia de abutres esperando que a morte chegasse para eles como antes havia chegado aos seus companheiros de viagem [mais do que isso é spoiler].

Nessa segunda parte, intitulada País dos Santos, somos levados por Doyle a uma paisagem muito adversa ao cenário londrino, posso afirmar que Um estudo em vermelho é uma história dentro da outra. Inicialmente País dos Santos, como um parêntese, nos lança em uma atmosfera diferenciada, cheia de conspirações, assassinatos e fanatismo religioso, decorado por um panorama paisagístico de tirar o folego. Doyle destila todo o seu potencial em uma narração descritiva impecável e extremamente geográfica do deserto:

(...) um árido e medonho deserto que por muitos anos foi uma barreira contra o avanço da civilização. Da Sierra Nevada ao Nebraska, e do rio Yellowstone, ao norte, até o Coloado, ao sul, tudo é desolação e silêncio. Mas nesta região sinistra a natureza não se apresenta sob um aspecto uniforme, pois que abrange altas montanhas cobertas de neve e vales profundos e tenebrosos. Há rios impetuosos que correm através dos cañons, e há vastas planícies que no inverno branquejam de neve e no verão ficam cinzentas de areia salitrosa e alcalina. Em tudo, porém, prevalece a característica de uma terra nua, inóspita e miserável.

É nessa paisagem que veremos desabrochar da flor do Utah que cresce entre os mórmons e protagonizará uma narrativa dramática.

Deserto do Colorado
Um estudo em vermelho é uma narrativa policial de muita criatividade, sobretudo que ela nos prende na tentativa vã de entender, até que se termine a história, qual a relação entre um assassinato ocorrido numa noite terrível e chuvosa e a narrativa que se desenrola nas vastas planícies áridas do Colorado.

Compreendo que existe dois tipos básicos de romance policial, uma mais tradicional onde a narrativa é preenchida sobretudo pelas capacidades dedutivas e arguciosas do investigador, onde a inteligência sobressai-se a história do assassinato; outras, mais modernas, onde o acaso é mais marcante na investigação, e a ação e as peças deixadas pelo caminho tomam conta da narrativa, sendo que a inteligência dedutiva do investigador é débil, ou pouco valorizada pela narrativa. Livros como os de Conan Doyle e Agatha Christie são do primeiro tipo. Eu, da minha parte, gosto de ambos os tipos, porque acima da inteligência do investigador, valorizo um bom mistério e histórias intricadas e difíceis de resenhar.

A edição que li é da editora Melhoramentos, editado em 1990, com tradução de Hamilcar de Garcia e capa de João Carlos Mosterio de Carvalho. 147 páginas. E minha avaliação pessoal é: Bom.

Abaixo trago um link para a edição ilustrada original em inglês do livro (A Study in Scarlet) disponível para ler online.







Que conhecer outras opiniões? 




sexta-feira, 4 de julho de 2014

A Chegada em Darkover - Marion Zimmer Bradley - Resenha

Por Eric Silva

Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.

Diga-nos o que achou da resenha nos comentários.

Está sem tempo para ler? Ouça a nossa resenha, basta clicar no play.


Resenha

Um acidente acontece e uma das naves terráqueas que se dirigia para mais uma das colônias humanas espalhadas pelos rincões do universo, cai em um planeta completamente desconhecido pela humanidade, um planeta inexplorado que reserva vários segredos a serem revelados. Uma série de pessoas morreram no acidente e tantas outras morrerão até que os sobreviventes conheçam e aprendam a sobreviver num mundo completamente novo.

A chegada em Darkover de Marion Zimmer Bradley é mais uma das incontáveis histórias de ficção científica que povoam a literatura mundial. Fazendo parte da famosa e imensa saga do planeta Darkover criada pela autora de As Brumas de Avalon. A chegada em Darkover não foi o primeiro livro escrito para a série, mas aquele que conta como se deu início a saga humana naquele mundo aparentemente hostil. Darkover é um planeta regido por quatro luas e um grande sol vermelho, com seres completamente desconhecidos e com um clima bastante adverso e que carrega com sigo fenômenos bastante inquietantes como é o caso do "Vento Fantasma" que com suas propriedades psico-neurológicas é capaz de levar a insanidade temporária um número expressivo de pessoas fazendo com que estas percam toda a capacidade de agir racionalidade e se entreguem aos desejos e sentimentos mais inconfessáveis.

Nos deparamos neste livro com uma humanidade intensamente cientifizada que buscará, alguns com mais relutâncias, outros com mais naturalidade, se adaptar a um mundo novo onde eles deverão construir uma nova sociedade a partir das possibilidades que o estranho planeta oferece. Fugindo um tanto dos moldes hollywoodianos de ficção cientifica, onde os grandes efeitos especiais e os instrumentos técnicos extremamente avançados roubam acena e não nos deixam a tentar para a pobreza literária da trama de fundo, A chegada em Darkover aposta no caminho contrário permitindo com que questões existenciais, filosóficas, emocionais, religiosas e culturais tomem conta da trama em muitos momentos. Assim a narrativa pode não agradar aqueles leitores acostumados a ficção cientifica cheia de robôs, carros voadores, exploradores do universo, seres alienígenas destruidores de civilizações. Mas certamente agradará a outros leitores por ser algo que aponta mais para a natureza humana, sem deixar, no entanto, de contar com os velhos mistérios do que é desconhecido e, logo, assustador, mesmo que não tenha razão de o ser.

O livro apresenta uma leitura fluída, e em alguns momentos muito rápida, exigindo do leitor atenção para não sair de uma cena e entrar em outra sem nem se aperceber da transição da narrativa. Particularmente me surpreendi com a rapidez com que terminei de ler, talvez por se tratar de apenas 111 páginas (eu li uma versão digital que rola na internet, mas algumas edições cadastradas no Skoob alcançam maior número de páginas: Editora Y (2004) - 238 pg. Editora Imago (1989) - 172 pg. Editora Círculo do Livro (1972) - 147 pg.). 111 páginas para alguém como eu que lê dezenas de artigos científicos todos os meses é pouco. Ler uma centena de uma narrativa bem construída é relativamente fácil e rápido, mesmo que o tempo para ler também seja escasso.

Não indico para crianças, mas para alguns adolescentes de cabeça mais aberta (como meus alunos) e realmente apreciadores da prática da leitura. Aos adultos, é plenamente indicável. Minha avaliação pessoal: bom.

A nave semidestruída após pouco forçado. Ilustração de Ron Walotsky.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

A Biblioteca do geógrafo - Jon Fasman - Resenha

A Biblioteca do Geógrafo, livro de Jon Fasman, conta a história de um repórter de jornal local que se depara cm um caso que inicialmente parece ser corriqueiro e banal, mas que ao decorrer da investigação se mostra intrigante, misterioso.

A morte do recluso e estranho professor Jaan Pühapäev parecia natural, mas uma ligação anonima dizendo que ele havia morrido indicava que talvez não fosse, ainda mais estranho era o mistério que cercava a vida daquele homem.

Na sede de sua curiosidade e na possibilidade de uma melhoria em sua carreira, Paul Tomm irá mergulhar na vida de Jaan e descobrirá uma trama que vem de muito longe, do Leste Europeu envolvendo mortes, roubos e artes desconhecidas. Em Paralelo à essa trama diversas narrativas de roubos e crimes envolvendo antigos artefatos de alquimia são desenrolados e que dão a trama  grande parte do seu gás.

Uma leitura leve, fluida, que não entrega suas cartas de uma vez, mas a conta-gota ao longo de mais de 400 páginas. Indicadíssimo para quem gosta de conhecer culturas novas e se interessam pela velha (e manjada) disputa entre norte-americanos e soviéticos.


Parece um grande romance, não é mesmo? Minha visão porém não bate muito com ela. se você não liga para Spoiler leia a ficha técnica que preparei com uma crítica  da minha visão do livro. Mas ressalto, minha visão não será necessariamente a sua, caro leitor, o ideal é que se faça uma leitura do livro e quem sabe você não perceba algo em que me passei. Qualquer coisa me conte, será um prazer ler sua crítica. A internet é democrática, espaço de todos.

Link para a Ficha Técnica:

Não sabe o que é Spoiler?
Veja meu glóssario:

Quer saber mais? 

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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A história da Escrita 2 – A Invenção da Escrita Cuneiforme – as escritas Ideográficas

A historiografia tradicional periodiza a trajetória humana sobre a Terra em duas grandes épocas: a pré-história e a História tendo como marco uma grande revolução cultural e social humana: a invenção da escrita, ou seja, do registro escrito da comunicação. A pré-história ficaria como sendo todo o período em que o homem desconheceu essa modalidade de comunicação. Porém esse termo, pré-história, é muito discutido e criticado pela historiografia moderna. Por qual razão? Tentemos explicar:


      1º.    O termo é preconceituoso, numa clara alusão á inferiorização dos povos ágrafos. A nossa História possui uma visão bastante eurocêntrica, a própria Ciência Histórica surge na Europa (Grécia Antiga) num período em que a escrita já era bastante difundida e já existiam dela algumas variedades, e desde aquela época os historiadores como Heródoto usam das inscrições, documentos deixados pelos povos para fazer suas pesquisas históricas. Assim documentos escritos se tornaram as principais fontes históricas para a pesquisa, negligenciando-se muitas outras fontes igualmente importantes. A Ciência Histórica “procura entender como os seres humanos viveram e se organizaram desde o passado mias remoto até os dias de hoje” (COTRIN, 207, p. 12), porém durante muito tempo os povos ágrafos foram considerados inferiores, menos desenvolvidos, o próprio nome Pré-história é pejorativo por considerar os povos de sua época como homens não históricos. O termo tem sido então primeiramente criticado “pois o ser humano, desde seu aparecimento no planeta é um ser histórico, mesmo que não tenha utilizado a escrita, em algum período” (idem, ibdem, p. 15).

      2º.    “As sociedades humanas não obedeceram a um padrão geral nas suas evoluções históricas” (PEDRO, LIMA, CARVALHO, 2005, p. 15). Ao contrário do que o ensino fragmentado e tradicional nos faz pensar, nada na história do mundo ocorre ao mesmo tempo, em todos os lugares e da mesma forma. Cada lugar, época e povo possuem suas singularidades e ali os fatos históricos se deram e se dão em contextos, momentos e de modos também singulares. É errôneo pensar que em todas as partes do mundo os homens se desenvolveram, descobriram o fogo, a agricultura, os metais da mesma forma, nas mesmas circunstâncias, ao mesmo tempo e os utilizavam da mesma forma, pelo contrário houveram povos que nem fizeram essas descobertas. Culturas diferentes, povos diferentes, contextos históricos igualmente diferentes.

Mas voltando a escrita...
A descoberta da escrita modifica a história de ALGUNS povos. O uso da escrita pictográfica é passa a dar lugar a uma variação mais complexa: a escrita Ideográfica. Segundo Ricardo Sérgio (2007)

Consiste num sistema de escrita que se manifesta através de "ideogramas": símbolo gráfico ou desenho (signos pictóricos) formando caracteres separados e representando objetos, ideias ou palavras completas, associados aos sons com que tais objetos ou ideias são nomeados no respectivo idioma. (SÉRGIO, 2007)

A escrita ideográfica utiliza-se de desenhos como signos, ideogramas, que indicam cada um uma ideia que se quer expressar, assim se você que dizer: O sol nasce depois do vale, haverá um signo (desenho) ou conjunto deles para sol nascente, outro para “depois” e um outro para vale. Em chinês tradicional essa frase seria escrito dessa forma (GOOGLE TRADUTOR, 2013):





 太陽升起後,從山谷



Onde 太陽升起 significa o Sol nasce. significa depois, e finalmente 從山谷 significa do vale.
O nome vale sozinho significaria . Observe que se trata de um signo, símbolo, desenho que um dia deve ter sido semelhante ao desenho de um vale, forma geográfica muito comum no Japão e na China.
A primeira escrita ideográfica conhecida, porém foi a Cuneiforme surgida na Mesopotâmia e criada pelo povo Sumério. O cuneiforme é um tipo de escrita gravada em blocos de argila frescos através de um instrumento em forma de cunha e que depois eram cozidos para endurecer. Ela surgiu a primeira vez em um sitio arqueológico de uma antiga cidade mesopotâmica chamada Uruk. Ali os arqueólogos encontraram uma pequena tabua contendo inscrições de pequenos desenhos, signos que transmitiam uma mensagem. Logo se descobriu outras tabuas com inscrições semelhantes por todo o Iraque, pais onde se situa a antiga Mesopotâmia.
           

Figura 1- escrita cuneiforme em tabuleta de barro

O Cuneiforme era uma forma ideográfica de escrita onde os sumérios criaram uma serie de símbolos que se assemelhavam aos objetos que queriam representar, assim o desenho de um sol representaria o próprio astro representado. Com o passar do tempo e com o uso, os símbolos foram sofrendo modificações e se tornando cada vez mais abstratos e simplificados. Como a os sumérios utilizavam a escrita principalmente para transações comerciais as modificações podem sugerir a necessidade de que a escrita torna-se mais rápida e prática. A figura a baixo mostra a evolução de dois ideogramas cuneiformes ao longo do tempo.


Figura 2 - da escrita pictográfica à cuneiforme - evolução da escrita

Mas além de modificações na forma como era representada a ideia, começou a surgir uma forma silábica da escrita onde símbolos eram agrupados para formar nomes próprios devido ao som semelhantes a estes nomes. Assim dois ou mais símbolos que tinham na pronúncia som semelhante ao nome de alguém poderiam ser agrupados para representar a própria pessoa.
Outra modificação surgiu na forma como eram feitas as gravações no barro.

Os primeiros ideogramas eram gravados em tabuletas de argila, em sequências verticais de escrita com um estilete feito de cana que gravava traços verticais, horizontais e oblíquos. Até então duas novidades tornaram o processo mais rápido e fácil: as pessoas começaram a escrever em sequências horizontais (rotacionando os ideogramas no processo), e um novo estilete em cunha inclinada passou a ser usado para empurrar o barro, enquanto produzia sinais em forma de cunha. Ajustando a posição relativa da tabuleta ao estilete, o escritor poderia usar uma única ferramenta para fazer uma grande variedade de signos. (WIKIPÉDIA, 2013)

A pesa de ser uma criação suméria a escrita cuneiforme foi também utilizada pelos povos “acadianos, babilônicos, elamitas, hititas e assírios e adaptada para escrever em seus próprios idiomas” (idem, 2013).
Além das escritas Cuneiforme e Chinesa outras escritas surgiram e que também apresentam a característica de serem ideográficas, entre eles os hieróglifos egípcios e as escritas maia e asteca. Confira o quadro informativo baseado em dados da enciclopédia italiana Conhecer.

Povo
Escrita
Maias
Figura 3 - Escrita Maia
“Quando os espanhóis aportaram na península de Yucatán, descobriram entre os maias inscrições que não entenderam. (...) Seus sinais gráficos tendiam para um completo e perfeito sistema alfabético ou silábico. Sua escrita era ideográfica (parecida com a dos egípcios):os sinais reproduziam idéias completas, não apenas sons ou sílabas. Contudo, junto aos ideogramas já começavam a surgir os “determinativos” (incluídos no próprio ideograma)”. (ENCICLOPÉDIA CONHECER, 1972).

Astecas

Figura 4 - escrita asteca
Possuíam “uma escrita parcialmente fonética, embora predominantemente ideográfica. Os astecas escreviam sobre peles de cervo ou numa espécie de papel fabricado com fibras d agave; (...) Com a vinda dos invasores espanhóis, porém, foi destruída a maior parte desse precioso acervo”.
“Os documentos são difíceis de interpretar. Geralmente contem desenhos de características próprias e inconfundíveis, legendas e comentários escritos pelo sistema ideográfico, ideogramas que podem ser lidos foneticamente. Além disso, as cores representam papel de grande importância: um desenho reproduzindo um líquido escorrendo, em vermelho, indica sangue, e em azul, indica água. Para a representação dos nomes próprios, usavam o sistema fonético. O exame detalhado dos documentos recolhidos (os quais são conhecidos por “códices”) revela as impressões de um sistema que ensaiava os passos intermediários na direção de uma escrita perfeita. A invasão espanhola frustrou a tentativa dos ameríndios nesse sentido.” (ENCICLOPÉDIA CONHECER, 1972).
Chineses

Figura 5 - escrita chinesa
“enquanto nas línguas ocidentais o alfabeto é formado por letras, com as quais se compõe palavras, o chinês possui sinais gráficos chamados ideogramas. Ou seja, cada sinal exprime uma ideia ou até uma frase inteira. Existem aproximadamente 60 mil ideograma comuns que podem ser combinados de milhões de maneiras”. (ENCICLOPÉDIA CONHECER, 1972).
Egípcios

Figura 6 - Hieróglifos egípcios
“os sinais inspiravam-se na flora e na fauna do país, bem como em instrumentos de trabalho. A princípio essa escrita não passava de motivos gráficos desenhados artisticamente, reproduzindo o real. Com o tempo, porém, o mesmo desenho adquiriu outros sentidos: simbólico (designando abstrações: ações efetuadas pelo objeto ou ideias que evocava); fonético (representando palavras de que o mesmo som participasse); silábico (usando-se objetos expressos por palavras de uma sílaba para formar as polissilábicas); e, por fim, e muito mais tarde – alfabético (vinte e quatro sinais passando a representar letras)”.
(...)
“Os Hieróglifos (do grego, hieros = sagrado, e glyphein ou graphein = escrita) somente forma decifrados nos começos do século XIX.”
(...)
“Os hieróglifos escreviam-se vertical e horizontalmente; neste último caso, se os animais desenhados olhassem à esquerda, a leitura deveria ser da direita para a esquerda e vice-versa. As palavras não eram separadas; mas ao final de cada uma agregava-se um sinal determinativo – como síntese do termo”.


                        Quer saber mais sobre escritas de povos diferentes? Consulte o site da FIOCRUZ.


Figura 7 - hieróglifos do templo de Karnac



Referências

CALENDÁRIOS dos mais e astecas. In: Enciclopédia Conhecer. Vol. II, pg. 314. Editora Abril Cultural. São Paulo (1972).

CHINESES: 4 milênios de civilização. In: Enciclopédia Conhecer. Vol. II, pg. 603. Editora Abril Cultural. São Paulo (1972).

COTRIM, Gilberto. História Global – Brasil e Geral. 8ª ed. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 608.

DECIFRANDO Hieróglifos. In: Enciclopédia Conhecer. Vol. III, pg. 542-3. Editora Abril Cultural. São Paulo (1972).

ESCRITA cuneiforme. Wikipédia. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Escrita_cuneiforme. Acesso em: 15 fev. 2013.

GOOGLE tradutor. Disponível em: http://translate.google.com.br/. Acesso em: 15 fev. 2013.

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânia de Souza; CARVALHO, Yone de. História da civilização ocidental. 2ª ed. São Paulo: FTD, 2005.  P. 559.

SÉRGIO, Ricardo. Os Sistemas de Escritas. Disponível em:http://www.recantodasletras.com.br/gramatica/370335. Acesso em: 11 fev. 2013.

Imagens


Escrita Chinesa. Disponível em: http://www.invivo.fiocruz.br/media/chines.jpg. Acesso em: 15 fev. 2013.

Escrita cuneiforme em tabuleta de barro. Disponível em: http:/4.bp.blogspot.com/-RNI1BMk3Lmw/TnDcSJnFLyI/AAAAAAAABrI/7CYAsgFVLM0/s1600/3.jpg. Acesso em: 15 fev. 2013.

Da escrita pictográfica à cuneiforme - evolução da escrita. Disponível em: http:/4.bp.blogspot.com/-RNI1BMk3Lmw/TnDcSJnFLyI/AAAAAAAABrI/7CYAsgFVLM0/s1600/3.jpg . Acesso em: 15 fev. 2013.

Escrita asteca. Disponível em: http:/www.invivo.fiocruz.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=915&sid=7. Acesso em: 15 fev. 2013.

Hieróglifos egípcios. Disponível em: http:/www.mariomarcia.com/FotosViagens/Africa/Egipto/InfoEgypt/Imagens/EgyptHieroglifosEdfu2.jpg. Acesso em: 15 fev. 2013.

Hieróglifos do templo de Karnac. Disponível em: http:/4.bp.blogspot.com/_wf2ZhV4rG-Q/TEtHUt4AzRI/AAAAAAAAAQE/rm9qv9pvpsA/s1600/templo+de+karnac+hier%C3%B3glifos.jpg;. Acesso em: 15 fev. 2013.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

A História da Escrita 1 - A humanidade ágrafa e a escrita pictográfica


A escrita é de longe a mais importante criação humana. A razão? Transmissão de conhecimento por épocas indeterminadas. É certo que muitos conhecimentos, invenções e histórias de povos ágrafos são conhecidos pela humanidade pelo trabalho incansável de arqueólogos, paleontólogos e historiadores. Mas é também fato irrefutável que aqueles povos que conseguiram desenvolver alguma grafia deixaram documentado um maior número de informações acerca de seus costumes, de suas grandes realizações, de suas ciências e religiões, de suas tradições. Teríamos um conhecimento muito superior a cerca do homem pré-histórico se este tivesse desenvolvido alguma forma organizada de comunicação escrita, ainda assim os seus desenhos em cavernas nos permitiu um grande número de descobertas. Esta aí a primeira função da escrita: registrar até as mais longínquas gerações o conhecimento. Mas aliado e intrínseco a essa função está expressar as ideias do escritor ao maior número possível de pessoas possível, como ocorre agora.

Mas podemos dizer que os homens pré-históricos não tiveram uma escrita? Bem, sim e não. Para responder essa questão, primeiro temos que saber o que significa escrita.

Segundo o dicionário eletrônico Houaiss escrita é a representação da linguagem falada por meio de signos gráficos ou o conjunto de signos num sistema de escrita. Por sua vez o minidicionário Livre da Língua Portuguesa de Manoel Mourivaldo Santiago-Almeida considera como sendo escrita a representação de palavras ou ideias por meio de signos gráficos. Dessas definições compreende-se que o homem pré-histórico fez sim uma escrita por procurar modos de representar suas ideias, ou melhor, seu cotidiano, mas não o fez como conhecemos, pois ele não o fazia representando a fala, o som das palavras nem num conjunto amplo de signos, símbolos, desenhos que chegasse a representar ideias abstratas num sistema organizado.

A escrita pré-histórica recebe o nome de pictográfica. Segundo Ricardo Sérgio (2010) as formas de escrita pré-histórica
Eram totalmente independentes da fala. A manifestação mais elaborada desses processos comunicativos foi a "pictografia", ou melhor, a "escrita pictográfica". Consiste em transmitir uma ideia, um conceito ou um objeto através de um desenho (símbolo) figurativo e estilizado.

            Assim os homens das cavernas, na necessidade fundamental de se comunicar, representavam através dos desenhos nas paredes das cavernas fatos cotidianos ou “registrar para a posterioridade os fatos mais significativos de sua vida – os perigos que passavam e as suas façanhas de caça” (CONHECER DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO, 1969). Uma escrita rudimentar essencialmente figurativa, onde os desenhos não representavam sons, nem ideias abstratas, mas puramente o objeto figurado no desenho, os “caracteres eram as próprias imagens do homem e dos animais comuns na época: bisões, ursos, veados lobos, javalis, etc” (idem, ibdem). Essas representações, enfim, relatavam de forma bem simplificadas histórias do dia-a-dia que poderia ser “lidas” por outros membros do grupo, do bando.
Imagem de Caçada

Escrita pictográfica

Criação de Gado no Período Pré-histórico

Referências

A História da Escrita. Disponível em: http://webeduc.mec.gov.br/midiaseducacao/material/impresso/imp_basico/e1_assuntos_a1.html. Acesso em: 11 fev. 2013.

DO Desenho à Escrita. In: Conhecer Dicionário Enciclopédico. Vol. I. São Paulo: Abril Cultural, 1969. p. 255.

INSTITUTO ANTONIO HOUAISS. Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro, Objetiva, 2001.

SANTIAGO-ALMEIDA, Manoel Mourivaldo. Livre da Língua Portuguesa. São Paulo: Hedra, 2011. 720 pp.

SÉRGIO, Ricardo. Os Sistemas de Escritas. Disponível em: http://www.recantodasletras.com.br/gramatica/370335. Acesso em: 11 fev. 2013.

Imagens

Criação de Gado no Período Pré-histórico. Disponível em: http://meninasemarte.files.wordpress.com/2012/02/tassili-najjer-sahara-argelino.jpg Acesso em: 11 fev. 2013.

Escrita pictográfica. Disponível em: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi5F1lPXZDCjNnDcs48Qm8mIUYX0aqkFIQE2rFQsZcNFtvZsNbfPWriCTdpF89szLof9ClMW8X50zvYVrh5JzYvx39F2sLwaAIST_iyouZqWfCHjOgFmSBsdSsiGY-u1G6jJFSTOXyODRjr/s400/tassili_2.jpg Acesso em: 11 fev. 2013.

Imagem de Caçada. Disponível em: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjZ2d9XZaDpJpiY4G-nXeUhyphenhyphenrdD0351UOVqRAz0JORDoF50kZYUVGHKIfGdatT3o_4Q_vcIGaBMXIKei-t_BUNDbyL-tT21HteLhGasMY-xbK9vtUwALhLVoRtbt2BeFZrIzI26EKeVieY/s1600/pintura%252520rupestre.jpg Acesso em: 11 fev. 2013.

Autor:
Eric Silva




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