sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A história da Escrita 2 – A Invenção da Escrita Cuneiforme – as escritas Ideográficas

A historiografia tradicional periodiza a trajetória humana sobre a Terra em duas grandes épocas: a pré-história e a História tendo como marco uma grande revolução cultural e social humana: a invenção da escrita, ou seja, do registro escrito da comunicação. A pré-história ficaria como sendo todo o período em que o homem desconheceu essa modalidade de comunicação. Porém esse termo, pré-história, é muito discutido e criticado pela historiografia moderna. Por qual razão? Tentemos explicar:


      1º.    O termo é preconceituoso, numa clara alusão á inferiorização dos povos ágrafos. A nossa História possui uma visão bastante eurocêntrica, a própria Ciência Histórica surge na Europa (Grécia Antiga) num período em que a escrita já era bastante difundida e já existiam dela algumas variedades, e desde aquela época os historiadores como Heródoto usam das inscrições, documentos deixados pelos povos para fazer suas pesquisas históricas. Assim documentos escritos se tornaram as principais fontes históricas para a pesquisa, negligenciando-se muitas outras fontes igualmente importantes. A Ciência Histórica “procura entender como os seres humanos viveram e se organizaram desde o passado mias remoto até os dias de hoje” (COTRIN, 207, p. 12), porém durante muito tempo os povos ágrafos foram considerados inferiores, menos desenvolvidos, o próprio nome Pré-história é pejorativo por considerar os povos de sua época como homens não históricos. O termo tem sido então primeiramente criticado “pois o ser humano, desde seu aparecimento no planeta é um ser histórico, mesmo que não tenha utilizado a escrita, em algum período” (idem, ibdem, p. 15).

      2º.    “As sociedades humanas não obedeceram a um padrão geral nas suas evoluções históricas” (PEDRO, LIMA, CARVALHO, 2005, p. 15). Ao contrário do que o ensino fragmentado e tradicional nos faz pensar, nada na história do mundo ocorre ao mesmo tempo, em todos os lugares e da mesma forma. Cada lugar, época e povo possuem suas singularidades e ali os fatos históricos se deram e se dão em contextos, momentos e de modos também singulares. É errôneo pensar que em todas as partes do mundo os homens se desenvolveram, descobriram o fogo, a agricultura, os metais da mesma forma, nas mesmas circunstâncias, ao mesmo tempo e os utilizavam da mesma forma, pelo contrário houveram povos que nem fizeram essas descobertas. Culturas diferentes, povos diferentes, contextos históricos igualmente diferentes.

Mas voltando a escrita...
A descoberta da escrita modifica a história de ALGUNS povos. O uso da escrita pictográfica é passa a dar lugar a uma variação mais complexa: a escrita Ideográfica. Segundo Ricardo Sérgio (2007)

Consiste num sistema de escrita que se manifesta através de "ideogramas": símbolo gráfico ou desenho (signos pictóricos) formando caracteres separados e representando objetos, ideias ou palavras completas, associados aos sons com que tais objetos ou ideias são nomeados no respectivo idioma. (SÉRGIO, 2007)

A escrita ideográfica utiliza-se de desenhos como signos, ideogramas, que indicam cada um uma ideia que se quer expressar, assim se você que dizer: O sol nasce depois do vale, haverá um signo (desenho) ou conjunto deles para sol nascente, outro para “depois” e um outro para vale. Em chinês tradicional essa frase seria escrito dessa forma (GOOGLE TRADUTOR, 2013):





 太陽升起後,從山谷



Onde 太陽升起 significa o Sol nasce. significa depois, e finalmente 從山谷 significa do vale.
O nome vale sozinho significaria . Observe que se trata de um signo, símbolo, desenho que um dia deve ter sido semelhante ao desenho de um vale, forma geográfica muito comum no Japão e na China.
A primeira escrita ideográfica conhecida, porém foi a Cuneiforme surgida na Mesopotâmia e criada pelo povo Sumério. O cuneiforme é um tipo de escrita gravada em blocos de argila frescos através de um instrumento em forma de cunha e que depois eram cozidos para endurecer. Ela surgiu a primeira vez em um sitio arqueológico de uma antiga cidade mesopotâmica chamada Uruk. Ali os arqueólogos encontraram uma pequena tabua contendo inscrições de pequenos desenhos, signos que transmitiam uma mensagem. Logo se descobriu outras tabuas com inscrições semelhantes por todo o Iraque, pais onde se situa a antiga Mesopotâmia.
           

Figura 1- escrita cuneiforme em tabuleta de barro

O Cuneiforme era uma forma ideográfica de escrita onde os sumérios criaram uma serie de símbolos que se assemelhavam aos objetos que queriam representar, assim o desenho de um sol representaria o próprio astro representado. Com o passar do tempo e com o uso, os símbolos foram sofrendo modificações e se tornando cada vez mais abstratos e simplificados. Como a os sumérios utilizavam a escrita principalmente para transações comerciais as modificações podem sugerir a necessidade de que a escrita torna-se mais rápida e prática. A figura a baixo mostra a evolução de dois ideogramas cuneiformes ao longo do tempo.


Figura 2 - da escrita pictográfica à cuneiforme - evolução da escrita

Mas além de modificações na forma como era representada a ideia, começou a surgir uma forma silábica da escrita onde símbolos eram agrupados para formar nomes próprios devido ao som semelhantes a estes nomes. Assim dois ou mais símbolos que tinham na pronúncia som semelhante ao nome de alguém poderiam ser agrupados para representar a própria pessoa.
Outra modificação surgiu na forma como eram feitas as gravações no barro.

Os primeiros ideogramas eram gravados em tabuletas de argila, em sequências verticais de escrita com um estilete feito de cana que gravava traços verticais, horizontais e oblíquos. Até então duas novidades tornaram o processo mais rápido e fácil: as pessoas começaram a escrever em sequências horizontais (rotacionando os ideogramas no processo), e um novo estilete em cunha inclinada passou a ser usado para empurrar o barro, enquanto produzia sinais em forma de cunha. Ajustando a posição relativa da tabuleta ao estilete, o escritor poderia usar uma única ferramenta para fazer uma grande variedade de signos. (WIKIPÉDIA, 2013)

A pesa de ser uma criação suméria a escrita cuneiforme foi também utilizada pelos povos “acadianos, babilônicos, elamitas, hititas e assírios e adaptada para escrever em seus próprios idiomas” (idem, 2013).
Além das escritas Cuneiforme e Chinesa outras escritas surgiram e que também apresentam a característica de serem ideográficas, entre eles os hieróglifos egípcios e as escritas maia e asteca. Confira o quadro informativo baseado em dados da enciclopédia italiana Conhecer.

Povo
Escrita
Maias
Figura 3 - Escrita Maia
“Quando os espanhóis aportaram na península de Yucatán, descobriram entre os maias inscrições que não entenderam. (...) Seus sinais gráficos tendiam para um completo e perfeito sistema alfabético ou silábico. Sua escrita era ideográfica (parecida com a dos egípcios):os sinais reproduziam idéias completas, não apenas sons ou sílabas. Contudo, junto aos ideogramas já começavam a surgir os “determinativos” (incluídos no próprio ideograma)”. (ENCICLOPÉDIA CONHECER, 1972).

Astecas

Figura 4 - escrita asteca
Possuíam “uma escrita parcialmente fonética, embora predominantemente ideográfica. Os astecas escreviam sobre peles de cervo ou numa espécie de papel fabricado com fibras d agave; (...) Com a vinda dos invasores espanhóis, porém, foi destruída a maior parte desse precioso acervo”.
“Os documentos são difíceis de interpretar. Geralmente contem desenhos de características próprias e inconfundíveis, legendas e comentários escritos pelo sistema ideográfico, ideogramas que podem ser lidos foneticamente. Além disso, as cores representam papel de grande importância: um desenho reproduzindo um líquido escorrendo, em vermelho, indica sangue, e em azul, indica água. Para a representação dos nomes próprios, usavam o sistema fonético. O exame detalhado dos documentos recolhidos (os quais são conhecidos por “códices”) revela as impressões de um sistema que ensaiava os passos intermediários na direção de uma escrita perfeita. A invasão espanhola frustrou a tentativa dos ameríndios nesse sentido.” (ENCICLOPÉDIA CONHECER, 1972).
Chineses

Figura 5 - escrita chinesa
“enquanto nas línguas ocidentais o alfabeto é formado por letras, com as quais se compõe palavras, o chinês possui sinais gráficos chamados ideogramas. Ou seja, cada sinal exprime uma ideia ou até uma frase inteira. Existem aproximadamente 60 mil ideograma comuns que podem ser combinados de milhões de maneiras”. (ENCICLOPÉDIA CONHECER, 1972).
Egípcios

Figura 6 - Hieróglifos egípcios
“os sinais inspiravam-se na flora e na fauna do país, bem como em instrumentos de trabalho. A princípio essa escrita não passava de motivos gráficos desenhados artisticamente, reproduzindo o real. Com o tempo, porém, o mesmo desenho adquiriu outros sentidos: simbólico (designando abstrações: ações efetuadas pelo objeto ou ideias que evocava); fonético (representando palavras de que o mesmo som participasse); silábico (usando-se objetos expressos por palavras de uma sílaba para formar as polissilábicas); e, por fim, e muito mais tarde – alfabético (vinte e quatro sinais passando a representar letras)”.
(...)
“Os Hieróglifos (do grego, hieros = sagrado, e glyphein ou graphein = escrita) somente forma decifrados nos começos do século XIX.”
(...)
“Os hieróglifos escreviam-se vertical e horizontalmente; neste último caso, se os animais desenhados olhassem à esquerda, a leitura deveria ser da direita para a esquerda e vice-versa. As palavras não eram separadas; mas ao final de cada uma agregava-se um sinal determinativo – como síntese do termo”.


                        Quer saber mais sobre escritas de povos diferentes? Consulte o site da FIOCRUZ.


Figura 7 - hieróglifos do templo de Karnac



Referências

CALENDÁRIOS dos mais e astecas. In: Enciclopédia Conhecer. Vol. II, pg. 314. Editora Abril Cultural. São Paulo (1972).

CHINESES: 4 milênios de civilização. In: Enciclopédia Conhecer. Vol. II, pg. 603. Editora Abril Cultural. São Paulo (1972).

COTRIM, Gilberto. História Global – Brasil e Geral. 8ª ed. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 608.

DECIFRANDO Hieróglifos. In: Enciclopédia Conhecer. Vol. III, pg. 542-3. Editora Abril Cultural. São Paulo (1972).

ESCRITA cuneiforme. Wikipédia. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Escrita_cuneiforme. Acesso em: 15 fev. 2013.

GOOGLE tradutor. Disponível em: http://translate.google.com.br/. Acesso em: 15 fev. 2013.

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânia de Souza; CARVALHO, Yone de. História da civilização ocidental. 2ª ed. São Paulo: FTD, 2005.  P. 559.

SÉRGIO, Ricardo. Os Sistemas de Escritas. Disponível em:http://www.recantodasletras.com.br/gramatica/370335. Acesso em: 11 fev. 2013.

Imagens


Escrita Chinesa. Disponível em: http://www.invivo.fiocruz.br/media/chines.jpg. Acesso em: 15 fev. 2013.

Escrita cuneiforme em tabuleta de barro. Disponível em: http:/4.bp.blogspot.com/-RNI1BMk3Lmw/TnDcSJnFLyI/AAAAAAAABrI/7CYAsgFVLM0/s1600/3.jpg. Acesso em: 15 fev. 2013.

Da escrita pictográfica à cuneiforme - evolução da escrita. Disponível em: http:/4.bp.blogspot.com/-RNI1BMk3Lmw/TnDcSJnFLyI/AAAAAAAABrI/7CYAsgFVLM0/s1600/3.jpg . Acesso em: 15 fev. 2013.

Escrita asteca. Disponível em: http:/www.invivo.fiocruz.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=915&sid=7. Acesso em: 15 fev. 2013.

Hieróglifos egípcios. Disponível em: http:/www.mariomarcia.com/FotosViagens/Africa/Egipto/InfoEgypt/Imagens/EgyptHieroglifosEdfu2.jpg. Acesso em: 15 fev. 2013.

Hieróglifos do templo de Karnac. Disponível em: http:/4.bp.blogspot.com/_wf2ZhV4rG-Q/TEtHUt4AzRI/AAAAAAAAAQE/rm9qv9pvpsA/s1600/templo+de+karnac+hier%C3%B3glifos.jpg;. Acesso em: 15 fev. 2013.

2 comentários:

  1. Sr Eric. verifique o nome correto da autora do livro "História da civilização ocidental". Me parece que faltou alguma letra. Um abraço.

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