domingo, 1 de março de 2015

A Corrente da vida - Walcy Carrasco - Resenha

Por Eric Silva para Wendy, que me apresentou o livro

“A ignorância não fica tão distante da verdade quanto o preconceito”
Denis Diderot

Começo a resenha deste livro com a frase de um dos grandes pensadores do iluminismo francês porque ela contém muito da mensagem que Walcy Carrasco quis passar a seus leitores com sua pequena novela A Corrente da Vida.

A Corrente da Vida conta a história de Nelson (Nel) pelos olhos e voz de sua melhor amiga Raquel. Nelson é um garoto como qualquer outro, estuda, se diverte, namora, mas estranhamente deixa de ira a escola e sua família recusa qualquer visita, inventando desculpas para afastar seus amigos. A apesar de muitas tentativas Raquel tenta saber o que aconteceu com o amigo, mas os familiares do rapaz inventam várias desculpas para persuadi-la de que Nel só estivera com gripe e agora estava de repouso não necessitando de visitas ou preocupação. Mas, não convencida, Raquel consegue com ajuda de outro amigo – não muito próximo quanto Nelson – chamado Marcelo forçar sua entrada na casa de Nel mediante uma visita surpresa. Apesar da situação um tanto estranha e desconfortável Raquel é bem recebida pelo amigo que havia emagrecido de mais para quem tivera apenas uma gripe. Apesar de desconfiada só mais tarde Raquel saberá a cruel verdade: Nel contraiu AIDS.

Raquel que jamais havia imaginado que aquilo poderia acontecer com alguém tão próximo se desespera, mas o amor pelo amigo a impulsiona a criar forças para apoia-lo a enfrentar o maior desafio de sua vida. Por isso ela busca se informar sobretudo que já se sabia na época sobre a doença e se torna a principal aliada da família de Nelson no combate à doença e ao preconceito que existia em relação aos seus portadores.

Na época em que o livro foi publicado em sua primeira edição (1993, editora Moderna) a AIDS era uma doença muito mais cercada de tabus do que ela é hoje e com um tratamento muito menos eficaz e mais caro. Por isso Nelson, com ajuda de Raquel e também de Marcelo, teve que enfrentar o preconceito na escola por parte daqueles que antes eram seus amigos, e também das mães destes jovens que por ignorância temiam pela segurança de seus filhos. A própria Raquel é vítima de preconceito e fofocas por apoiar o amigo, e também tem que enfrentar o medo e o desconhecimento sua família. A ignorância e o preconceito porém não são os únicos desafios enfrenados pelos protagonistas, Nel tem uma doença oportunista gravíssima – doenças que se aproveitam da debilidade do sistema imunológico do aidético (http://www.aids.gov.br/pagina/infeccoes-oportunistas) – e não tem condições de trata-la adequadamente. A doença de Nel também será responsável pela aproximação de Raquel e Marcelo.

Ao longo da narrativa percebemos como seus personagens, ainda muito jovens, amadurecem com a situação difícil do amigo. Ela também nos mostra como o ser humano é capaz de importar-se com seu semelhante e dar-se através do ato da solidariedade despindo-se de todo sentimento mesquinho e egoísta em nome do sentimento mais nobre e que a milênios traz esperanças aos corações de milhões: o amor ao próximo. Outros temas como a pobreza e a solidariedade também encontram espaço na narrativa que se mostra bastante didática e informativa quanto a AIDS, e por essa mesma razão o livro é amplamente utilizado pelas escolas como forma de informar os jovens sobre a doença. Eu mesmo, descobri o livro através de um dos meus alunos que tinha uma atividade escolar para fazer com ele. Uma iniciativa importante da escola ante ao fato de que a AIDS é ainda um problema de ordem pública em muitos países e que não tem cura comprovada, sendo que o aidético fica preso aos medicamentos existentes pelo resto da vida. Considero informar e conscientizar os jovens, assim como vem feito a escola de meu aluno, um ato de amor que a escola e seus educadores demonstram para com os seus alunos, mesmo que os últimos nem sempre vejam desta forma. Seria talvez um exemplo prático da desgastada frase: quem ama cuida, adaptada para quem ama ensina. Esse é o valor que tenho levado eu também para minha práxis como professor que se importa com o bem estar dos jovens com o qual trabalha e instrui. Tudo que posso dar a eles é instrução, e faço da melhor forma possível e torno a dizer: quem educa sabe o quão difícil é a missão de ser professor.
Símbolo internacional de solidariedade 
aos portadores da AIDS. Fonte: Wkimedia Commons

Hoje a AIDS é uma doença amplamente conhecida no Brasil e como dito estudada nas escolas, mas que vem sendo perigosamente banalizada, contraditória e insanamente por já não mais inspirar em muitos o terror que outrora inspirava na população mundial. Muitos jovens, e também adultos, têm se descuidados com a própria saúde. Na África, onde a AIDS já pode ser considerada uma epidemia, centenas de pessoas morrem todos os anos e outras centenas são contaminadas todos os anos, não apenas por descuido por parte da população, mas por falta de acesso à informação, acesso a preservativos, questões étnico-religiosas e guerras que formam o cenário perfeito para o alastramento da doença. No Brasil, da década de 80 até o ano de 2012, 656.701 foram notificados, sendo que 38.776 casos somente no ano de 2011 (http://www.aids.gov.br/pagina/aids-no-brasil). No final do ano passado (2014) foi noticiado no Fantástico - programa de televisão da Rede Globo – que o Brasil teve um aumento de 50% na incidência de AIDS entre os jovens brasileiros nos últimos 6 anos (http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2014/11/casos-de-hiv-entre-jovens-aumentam-mais-de-50-em-6-anos-no-brasil.html), um dado muito preocupante.

Informar é ainda a melhor forma de impedir que estes jovens destruam toda uma vida. Voltando a frase de Diderot: a ignorância quando reconhecida aproxima o sujeito da verdade que, por sua vez, só será encontrada quando nos despimos do preconceito. O preconceituoso está mais distante da verdade justamente porque ele é cego ante sua própria ignorância, ele não a reconhece e jamais se aproxima da verdade. Raquel – apesar de ser apenas um personagem fictício, mas que poderia ser qualquer um de nós – reconheceu sua ignorância e estudou com afinco para ajudar o amigo que precisava de sua apoio moral e assim afastou de si qualquer pensamento ou ação preconceituosa e foi ainda mais longe ajudou outros a sarar dessa doença que pode ser mais cruel que a própria AIDS.

Obrigado, Wendy, por me apresentar o livro que você estava lendo, e parabéns pela iniciativa de sua escola em continuar abordando o tema.

A edição lida foi de 2012, pela editora Moderna, digital e com 70 Locations (parâmetro para epub) lido através de um tablete de 7”.

Para saber mais sobre a AIDS consulte o portal do Departamento de DST, AIDS e Hepatites virais (http://www.aids.gov.br/).

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