quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Império de Diamante – J. M. Beraldo - Resenha

Por Eric Silva

Primeiro livro de fantasia inspirado na África que eu já tenha ouvido falar na literatura brasileira, Império de Diamante, do escritor de ficção científica e game designer brasileiro, João Marcelo Beraldo, foi mais um livro da nova geração de escritores nacionais que tem me reaproximado da literatura brasileira. Ambientado em um universo de guerras territoriais e religiosas que se mesclam a seres mágicos e um imperador imortal que se impõe como um deus entre os homens, Império de Diamante é um livro cheio de aventuras, lutas e mistérios que em uma narrativa bem construída, intensa e agitada pelo calor de muitas batalhas prende o seu leitor até o fim da leitura.

Sinopse

Myambe é um vasto continente repleto de diferentes culturas e de onde se originou a maioria dos povos do mundo. Porém há alguns milênios surgira ali um poderoso e imortal guerreiro, que reconhecido pelo seu povo como o deus-vivo, empreendeu uma longa campanha de guerra para subjugar os povos hereges e impor o seu próprio culto. Sob o comando deste Deus sem nome, ergue-se um dos mais poderosos impérios do planeta com um regente que é eterno e um exército de poderes sobrenaturais.

Contudo após milênios de governo próspero o Império de Diamante se encontra em rápido processo de decadência. A terra morre e com ele o seu povo, acometidos pela fome causada pela seca terrível. Apenas na capital, Jimfara, ainda impera a prosperidade, apesar de que após vinte longos anos, a ausência do imperador em reclusão pode ser sentida. Aproveitando da fragilidade do império, grupos rebeldes se erguem para derrubar o império monarca imortal e fazer ressurgir as culturas e religiões que outrora foram subjugadas. Em meio a este cenário de caos, quatro homens com vidas, crenças e interesses diferentes terão seus caminhos cruzados com o próprio destino do Império e com o mistério da origem do deus-vivo e ajudarão a decidir a sorte de toda a Myambe.

Resenha

Myambe é um continente marcado por guerras religiosas e expansionistas, mas cujo reino mais poderoso demonstra fortes sinais de desgaste. A população pobre, desesperada sucumbe à fome devido a uma seca severa e o seu Imperador, visto como um Deus entre os mortais e que subjugou dezenas de civilizações descrentes em relação a sua religião, por duas décadas se mantem recluso após ser ferido em combate.
Mapa de Myambe

Na clara ausência do Imperador seus sacerdotes de maior escalão assumem o governo da capital buscando manter os palacianos ignorantes em relação a situação de caos que se instalara além das fronteiras da capital, nas províncias mais distantes e também nas fronteiras, abandonadas à própria sorte pelo poder central.

Neste cenário emergem os quatro principais personagens da trama: Rais Kasim, um miliciano de Myambe que tendo lutado na guerra dos povos do Vale contra o Imperador de Diamante vai embora para terras estrangeiras e quando retorna é chefe de um pequeno e heterogêneo grupo de milicianos estrangeiros; Adisa, um jovem sacerdote do Império, com o talento de compreender toda e qualquer linga existente ou extinta, e que imerso em uma fé profunda no deus-vivo desconhece todos os problemas que vem enfrentando o povo de Myambe, mas que de repente se vê envolvido com os mistérios de seu imperador; Zaim Adoud, o general e governante da esquecida província fronteiriça de Abechét e que se vê com grandes dificuldades de gerir os problemas da cidade, da falta de compromisso e dos casos de heresia da elite local, bem como os problemas do crescimento descontrolado da comunidade de migrantes nos limites de Abechét e da escalada de violência de rebeldes contrários ao seu governo e ao do Império, sem que para enfrentar tantos problemas tenha nenhum apoio do governo da capital; e, por fim, Mukhtar Marid, líder das forças rebeldes do povo do Vale e fiel da crença a Estrela da Manhã, que com seus poucos soldados fieis, buscam uma maneira de pôr fim ao reinado do imperador imortal. Quando os caminhos destes quatro homens se cruzam o Império parece confluir para o seu destino em uma trama que envolve ação, aventura, magia e lutas que parecem impossíveis.

O primeiro a quem somos apresentados é a Rais Kasim ainda em meio ao calor da batalha contra a campanha imperial de anexar as terras do Vale ao império. Nesta batalha somos também apresentados ao formidável exército do imperador e, sobretudo, aos primogênitos, guerreiros poderosos que cobriam seus rostos com longas tiras de contas coloridas, donos de poderes sobre-humanos e temidos pela sua pretensa imortalidade. É ai, logo no começo, que o autor nos apresenta a grandiosidade do implacável exército imperial e a forma como o próprio Imperador é gravemente ferido em uma cena agitada de uma batalha desesperada entre o enfraquecido exército do Vale ante outro poderoso e invencível.

Após aquela batalha o império de Diamante já não seria o mesmo e a fome e a miséria arrasaria com todas as terras além da capital. Também Rais deixaria o continente para voltar vinte anos depois, sem ter conhecimento dos problemas em que Myambe fora mergulhada depois daquela batalha. Ao longo dos demais capítulos vamos conhecendo os demais personagens e suas histórias, até que elas se encontrem em caminhando a narrativa para o seu desfecho.

O Autor
Em o Império de Diamante, J. M. Beraldo tece uma narrativa complexa e inspirada na geografia física e cultural do continente africano. É a primeira vez em que leio um livro brasileiro onde os negros são os personagens principais e ao mesmo tempo que destaca o poder e a coragem de seu povo sem retrata-los nem como escravos, nem como membros de comunidades urbanas periféricas e empobrecidas – o que me deixou muito feliz. Beraldo parece se inspirar na força natural das tribos africanas e dos antigos impérios que ali existiam antes da chegada dos colonizadores. Povos que tiravam de suas relações com a natureza não só o substrato de sua fé, como também a força guerreira que faz das culturas africanas não apenas curiosas como sublimes e fascinantes. Por isso as imagens que são evocadas pela narrativa são fortes e impactantes, como a dos guerreiros do imperador de Diamante com suas máscaras de contas coloridas, com as poderosas zebras que lhe serviam de montaria e o poder mágico que deles emanavam.

Acho a África, com sua riqueza natural-paisagística e também cultural, um lugar sublime, ainda que marcado por chagas sociais profundas. Isso fez com que me identificasse de imediato com a narrativa de Beraldo que busca naquele continente a inspiração para criar Myambe e a complexa trama social e cultural de seu território, impossíveis de abarcar toda em uma só resenha.

Quanto ao enredo, o Império de Diamante é um daqueles livros que se devora rápido porque a todo o momento algo está acontecendo. Não é nem de longe uma trama parada, e o mistério de quem é de fato o imperador, se ele é realmente imortal, se de fato é um deus, bem como de qual é sua origem, permeia toda a narração como um fantasma que persegue os seus personagens. Além disso, o autor consegue um desfecho inesperado, realmente surpreendente em que muitos dos mistérios são revelados, mas algumas questões sobre o destino do continente negro ficam em suspenso e à espera da continuação da série.

Além disso a narrativa é fácil de compreender sem ser reducionista ou simplória e sem se descuidar com a qualidade da escrita, das descrições e do desencadeamento das ideias, cenas e acontecimentos. Cuidados que são essenciais para uma boa história e que junto com a qualidade e criatividade da ideia nos faz ter vontade de ler a continuação da narrativa.

Confesso que nunca tinha ouvido falar de Beraldo, mas a Editora Draco tem se revelado para mim, assim como as cavernas dos quarenta ladrões foi para Ali Babá, um recanto cheio de tesouros escondidos a espera de quem os encontre. E eu encontrei Eduardo Kasse, Ana Lúcia Merege e, agora, J. M. Beraldo. Três pérolas da literatura fantástica nacional que até então desconhecia. Kasse com a melhor história de vampiros que já li: o Andarilho das Sombras; Ana Lúcia com sua escrita gostosa, primorosamente bem feita e cheia de mágica que encontrei em O Castelo das Águias e em Anna e a Trilha Secreta; e agora Beraldo com este livro diferente de qualquer coisa que já li na nossa literatura. Autores antenados com os temas e os estilos que os brasileiros vão normalmente busca na literatura estrangeira e que mostram que boa literatura fantástica é feita aqui mesmo no Brasil.

A edição lida é digital, cedido pela Editora Draco, publicada no ano de 2015. A edição impressa possui 328 páginas e a história tem continuidade com o livro ÚltimoRefúgio.

Abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Google Books.


Prévia do Google Books

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