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domingo, 26 de dezembro de 2021

2021 #AnoDaItália: Os autores que lemos na Campanha Anual de Literatura do Conhecer Tudo (CALCT)


Italo Calvino

Italo Calvino nasceu em Santiago de Las Vegas, Cuba, em 15 de outubro de 1923, e foi para a Itália logo após o nascimento. Formou-se em Letras e participou na resistência ao fascismo durante a Segunda Guerra Mundial, tendo atuado muitos anos como militante e membro do Partido Comunista Italiano, até que se desfilou-se em 1957. 

Foi um dos mais importantes escritores italianos do século XX e sua primeira obra foi Il sentiero dei nidi di ragno (A trilha dos ninhos de aranha), publicada em 1947. Uma de suas obras mais conhecidas é Le città invisibili (As cidades invisíveis), de 1972. 

Morreu em Siena, em 19 de setembro de 1985.

Livros dele no blog: Se um Viajante numa Noite de Inverno ( de janeiro)

Elena Ferrante

Elena Ferrante é o pseudônimo de uma escritora italiana que prefere manter sua identidade em segredo sob a justificativo poder escrever com liberdade, e para que a recepção de seus livros não seja influenciada por uma imagem pública. Especula-se que seja uma tradutora, Anita Raja, que nasceu em Nápoles e que seja casada com o também escritor Domenico Starnone.

A autora concede poucas entrevistas, todas elas por escrito e intermediadas pelas suas editoras italianas. A única certeza sobre ela é que escreve desde 1991, ano em que publicou seu primeiro romance, L'amore molesto, livro resenhado nesta postagem.

Livros dela no blog: Um Amor Incômodo (7 de fevereiro)

Niccolò Ammaniti

Niccolò Ammaniti nasceu em Roma e é um dos mais conceituados autores italianos da atualidade. Os seus livros são sucessos de vendas internacionais e estão publicados em quarenta e quatro países. Escreveu os romances Branchie, Ti prendo e ti porto via e Não tenho medo, além da antologia de contos Fango. Como Deus Manda recebeu o prêmio Strega, mais importante e disputado da literatura italiana. A Festa do Século, seu livro seguinte, demonstra todo o talento do autor por meio de uma crítica tão criativa quanto impiedosa à sociedade. Com Eu E Você, Ammaniti comprova a versatilidade literária que o levou a ser traduzido para mais de quarenta idiomas.

Livros dele no blog: Eu e Você (7 de março)

Referências

https://pt.wikipedia.org/wiki/Italo_Calvino
https://www.companhiadasletras.com.br/autor.php?codigo=00077
https://pt.wikipedia.org/wiki/Elena_Ferrante
https://en.wikipedia.org/wiki/Niccol%C3%B2_Ammaniti




domingo, 7 de março de 2021

Eu e Você – Niccolò Ammaniti – Resenha

Por Eric Silva para a 4ª Campanha Anual de Literatura do Conhecer Tudo

7 de março de 2021, ano da Itália

“O mimetismo batesiano se verifica quando uma espécie animal inócua, aproveitando sua semelhança com uma espécie tóxica ou venenosa que vive no mesmo território, consegue imitar a cor e os comportamentos dessa última. Assim, na mente dos predadores, a espécie imitadora é associada à perigosa, o que aumenta suas possibilidades de sobrevivência”.

(Niccolò Ammaniti, epígrafe)

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Um livro que explora a natureza humana quando esta é forçada a se adequar ao meio e que aborda a transição da adolescência para a idade adulta, Eu e Você, do italiano Niccolò Ammaniti, é um livro sensível que aborda as dificuldades de um garoto calado e antissocial em interagir de forma honesta e sincera com o mundo, mas que é confrontado pelo destino e posto à prova quando forçado a conviver, mesmo que temporariamente, com sua meia-irmã problemática e viciada em narcóticos.

Confira a resenha do terceiro livro da IV Campanha Anual de Literatura do Conhecer Tudo que neste ano homenageia a literatura italiana.

Sinopse do enredo

Roma, fevereiro de 2000. Munido de comida, bebida, livros e jogos, Lorenzo Cuni está escondido no porão de seu prédio, rodeado de objetos empoeirados de uma condessa morta, esperando que a semana branca (settimana bianca) acabe e ele possa enfim retornar para o andar de cima e contar para a mãe o quão divertido foi passar aqueles dias esquiando nos alpes italianos com seus amigos.

Mentir e esconder-se ali era a única opção depois que ele inventou uma viagem que não existia com amigos que ele nem se quer conhecia. Uma maneira louca de fugir da perseguição dos pais que queriam que ele tivesse amizades.

Tudo parecia dar certo. Ele conseguiu enganar os pais em relação a viagem, e conseguiu despistar a mãe quando esta queria levá-lo ao ponto de encontro com os tais amigos. Depois disso, conseguiu se instalar secretamente em seu refúgio sem grandes esforços. Apesar disso, ele não contava que um segundo elemento se introduziria em seus planos: a meia irmã Olivia, com a qual Lorenzo quase não teve nenhum contato e que era viciada em drogas.

Naquele justo momento, Olivia aparece em busca de algumas coisas pessoais no porão da casa do pai, de algum dinheiro e de um lugar para “ficar limpa”, ou seja, para esperar passar o tempo de abstinência dos narcóticos que usava. Sob coerção, Lorenzo se vê obrigado a “hospedar” a irmã em seu refúgio secreto e, por vários dias, conviver com ela, uma quase desconhecida. É assim que Olivia se soma a equação de Eu e Você, e à vida do jovem Lorenzo.

Resenha

Quando comprei Eu e Você, em 2019, de planos fazer naquele ano a quarta edição da CALCT, fiquei um tanto receoso porque a capa e o título sugerem mais um daqueles romances de amor adolescente e dramático. Todavia o livro de Niccolò Ammaniti vai para um caminho totalmente oposto, e se ainda assim Eu e Você (no original, Io e Te) seja um tanto dramático, é um livro sem muito romantismo, cheio de originalidade e que conseguiu me agradar com seus personagens, sua narrativa e sua leitura ágil e descomplicada.

Li numa resenha que este livro promete pouco e entrega pouco, mas para mim, esse “pouco” foi mais do que o suficiente. É claro que Eu e Você não explora as belas paisagens italianas ou os cenários romanos seculares, mas, por outro lado, explora um pouco da natureza humana daqueles que são deslocados. O próprio protagonista e narrador é daquelas almas egocêntricas que preferem a solitude de estar em sua própria companhia porque considera que não há nenhuma outra associação melhor, mas que se vê – por atrito – forçado a amadurecer. A outra protagonista é uma pessoa destruída pelo desprezo de seus pares e pelo vício das drogas. Alguém desajustado, que mesmo não estando à espera de que alguém lhe estenda a mão, luta com suas próprias forças para encontrar um caminho.

Ammaniti parece gostar dos romances dramáticos e de família, a exemplo do seu elogiado Como Deus Manda (Come Dio Comanda), onde os dois protagonistas, pai e filho, vivem uma relação baseada na violência e no conflito. Eu e Você é mais suave, mas possui seus próprios tons dramáticos. A temática sobre as drogas já se tornou corriqueira – afinal, mais do que nunca, o uso de drogas se tornou um fato universal –, mas está em perfeito equilíbrio com a proposta e nível do livro. Ainda assim, ele foi bom o suficiente para garantir uma adaptação para o cinema realizado em 2012 por Bernardo Bertolucci e que rendeu várias indicações para o Prêmio David di Donatello.

A escrita de Ammaniti é ágil, leve e sucinta sem deixar de ser descritiva e bem escrita. É prosaica, mas não destituídas de alguma poesia. Há um equilíbrio entre diálogo e narração, e o narrador, por sua personalidade individualista é irônico e opinativo. Mas o interessante nesse livro é o choque existente entre duas gerações de irmãos tão distintos entre si. Ele amado e mimado, ela ovelha negra, perdida, indesejada. Desse choque nasce uma novela interessante, ainda que limitada. Mas o que quero mesmo é destacar seus personagens muito bem-feitos.

Lorenzo é um personagem tão peculiar quanto interessante. Ele é um ator nato e o meio termo entre um adolescente esnobe e malcriado, mas sensível, e o futuro projeto de um manipulador taciturno, antissocial e calculista, mas que não se concretiza. Observador, inteligente, e egocêntrico, mas pouco dado a conversar com aqueles que não faziam parte de seu círculo familiar. Só a mãe, o pai e a avó lhe importavam.

Os pais se preocupam com a pouca sociabilidade do filho. Quando era pequeno, Lorenzo só respondia aos estranhos com “sim, não, e não sei”, e se insistissem, dizia aquilo que eles queriam ouvir. Quando “os outros” não o deixavam em paz, se tornava agressivo e, por isso, os pais preocupados o mandaram para um psicólogo, que o menino tratou logo de tentar enganar, fazendo-se passar por um “menino normal”. Contudo o diagnóstico não poderia ser ao mais exato: Lorenzo era “incapaz de sentir empatia pelos outros”, “[...] tudo que está fora de seu círculo afetivo não existe, não lhe suscita nada” e “acredita que é especial e que apenas pessoas especiais como ele podem compreendê-lo”.

Os pais, obviamente, desacreditaram deste diagnóstico e tiraram o menino do tratamento. Para eles, o filho era “afetuoso”, “um menino normal”. No entanto, aquela decisão foi a chave para que Lorenzo aprendesse a dissimular, fingir ser quem não era para que as pessoas o deixassem em paz. Se misturava com os outros jovens numa distância segura o suficiente para que eles e os pais pensassem que ele era um “deles”, que tinha amigos, e longe o suficiente para não ser importunado. Como um inseto havia aprendido a mimetizar.

“Eu me misturava como uma sardinha em um cardume de sardinhas, me mimetizava como um bicho-pau entre ramos secos”.

Contudo, ao entrar no liceu[1] público a técnica deixa de ser eficiente e ele se torna alvo de bullying. O que lhe resta é evoluir, não como pessoa, mas como imitador, e é através da imitação das práticas e trejeitos dos mais temidos da escola que ele consegue afastar todo os indesejáveis. Ele passava a ser uma mosca que imitava as vespas.

“Em algum lugar, nos trópicos, vive uma mosca que imita as vespas. Tem quatro asas, como todas as de sua espécie, mas mantém uma sobre a outra, e assim parecem apenas duas. Tem listras amarelas e pretas no abdome, antenas, olhos protuberantes e até um ferrão de mentira. Não faz nada, é boazinha. Mas, vestida como uma vespa, é temida pelas aves, pelas lagartixas, até pelos seres humanos. Pode entrar tranquilamente nos vespeiros, um dos lugares mais perigosos e vigiados do mundo, e ninguém a reconhece.

Eu tinha errado tudo.

Era isso que eu devia fazer.

Imitar os mais perigosos”.

 

Desse modo, Lorenzo continuava sozinho e isolado. Sentia-se feliz sozinho, mas ao lado dos outros tinha que representar, o que chegava a amedrontá-lo. Além disso, inventava mentiras e casos engraçados da escola para deixar os pais tranquilos. Foi nesse círculo interminável de mentiras e dissimulações que ele acabou por inventar que alguns amigos haviam o convidado para esquiar e teve que buscar uma maneira de sustentar sua mentira. Nesse ponto começa de fato a história do livro.

[ALERTA DE SPOILER]. Olivia por sua vez é pintada pelo narrador sob as cores da irmã-mistério, desconhecida, inoportuna, indesejada, inteligente e boa mentirosa, mas, ao mesmo tempo, objeto de uma curiosidade pouco confessada e que ao olhar do irmão vai pouco a pouco se transformando, pela força da convivência forçada, como alguém em mutação.

[ALERTA DE SPOILER]. Ela, por sua vez, oscila da indiferença a curiosidade, das pequenas implicâncias a solidariedade fraternal que quebra lentamente o iceberg em que Lorenzo estava preso. Na maioria do tempo padece dos efeitos da abstinência, mas, nas suas falas, é possível perceber o ressentimento que nutria do pai e da madrasta.

É interessante notar que Olivia na história funciona como o ponto de pressão de Oliver, forçando-o a abandonar seu egocentrismo para ajudá-la em um momento em que ela se encontra extremante vulnerável e doente.

[ALERTA DE SPOILER]. Eles dois não conviveram, mal se conheciam, e se viram em pouquíssimas oportunidades, mas a relação irmão e irmã, com seus altos e baixos, birras e solidariedades está ali, explícita, palpável. E desse modo aquele breve tempo juntos acaba por impulsionar o lado mais humano do garoto e contribui para seu crescimento e amadurecimento por forçá-lo a deixar de olhar para si, para olhar para o outro. Uma temporada breve, mas significativa ao ponto de levar o menino a ampliar seu círculo afetivo outrora tão estreito.

Enfim, o desfecho é singelo e muito sensível, sem deixar de ser, até certo ponto, realista e verossímil. O livro como um todo não é um clássico, e rapidamente caiu no esquecimento, mas tem qualidade e te prende, sendo, em parte, até comovente.

A edição lida é da Editora Bertrand Brasil, do ano de 2013 e possui 160 páginas.

Sobre o autor


Niccolò Ammaniti nasceu em Roma e é um dos mais conceituados autores italianos da atualidade. Os seus livros são sucessos de vendas internacionais e estão publicados em quarenta e quatro países. Escreveu os romances Branchie, Ti prendo e ti porto via e Não tenho medo, além da antologia de contos Fango. Como Deus Manda recebeu o prêmio Strega, mais importante e disputado da literatura italiana. A Festa do Século, seu livro seguinte, demonstra todo o talento do autor por meio de uma crítica tão criativa quanto impiedosa à sociedade. Com Eu E Você, Ammaniti comprova a versatilidade literária que o levou a ser traduzido para mais de quarenta idiomas.

Confira quem são os outros autores participantes da Campanha deste ano.

Saiba mais sobre os autores que estão sendo lidos na Campanha no link: autores.

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Preview do Google Books

Abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Google Books.


domingo, 7 de fevereiro de 2021

Um Amor Incômodo – Elena Ferrante – Resenha

Por Eric Silva para a 4ª Campanha Anual de Literatura do Conhecer Tudo

07 de fevereiro de 2021, ano da Itália

“Talvez eu quisesse tentar estabelecer entre nós uma intimidade que nunca existira, talvez eu quisesse confusamente fazer com que ela soubesse que eu sempre fora infeliz.”

(Elena Ferrante – Um Amor Incômodo)

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Edição Brasileira, pela editora Intrínseca. Preço de capa: R$ 39,90
Livro de estreia da celebrada e misteriosa escritora italiana Elena Ferrante Um Amor Incômodo é um livro um pouco monótono, mas que aborda a violência doméstica de forma autêntica e complexa. Uma narrativa crua, de personagens marcantes, sentimentos intensos e conflitivos e que trabalha com o onírico e com a memória.

Confira a resenha do segundo livro da IV Campanha Anual de Literatura do Conhecer Tudo que neste ano homenageia a literatura italiana.

 

Sinopse do enredo

Delia é uma desenhista de quadrinhos que abandonou sua cidade natal, Nápoles, para fugir do seu passado e da relação complicada que possuía com sua família. A única pessoa com quem a desenhista mantinha proximidade era com Amalia, sua mãe, que frequentemente ia a Roma visitá-la. Entretanto, mesmo essa presença um pouco constante da mãe era indesejada e incômoda a Delia, até o dia que Amalia é encontrada morta em uma praia em circunstâncias misteriosas: seminua, vestida apenas com um sutiã de grife.

A morte inesperada da mãe obriga Delia a retornar à Nápoles e enfrentar novamente o seu passado marcado pela violência doméstica causada pelos rompantes de raiva e ciúmes obsessivo de seu pai. Nessa viagem de volta ao passado, ao mesmo tempo em que busca lidar com a perda da mãe, a quadrinista se vê diante do desafio de buscar preencher as lacunas do passado, encarar os fortes sentimentos que Amalia lhe provocava e descobrir como ocorreu a sua morte. Mas é principalmente a figura do suposto amente da mãe, Caserta, que persegue as lembranças do passado e também o presente de Delia.

Entorno da figura de Amalia e Caserta gira a curiosidade e o desejo sôfrego de Delia de compreender o que de fato havia acontecido entre os dois no passado, provocando na italiana a reflexão dos fatos que se deram em sua infância e que levaram a deterioração da sua relação com a mãe e também com o pai.

Resenha

Elena Ferrante é uma das mais curiosas escritoras italianas que já ouvi falar. Não só por conta do sucesso de sua obra composta de nove livros – todos já publicados no Brasil – como também pelo mistério que envolve sua identidade, segredo este que já rendeu investigações e polêmicas na Itália há alguns anos.

Nunca havia lido nada de Ferrante apesar do sucesso da escritora entre os leitores brasileiros, mas resolvi fazê-lo por conta da IV Campanha Anual de Literatura, que nesse ano homenageia a literatura italiana. Por força desse fator, decidi ter meu primeiro contato com a obra da escritora a partir de seu livro de estreia Um Amor Incômodo (L’amore molesto), que segundo dizem os leitores assíduos da italiana é um livro ainda da fase pouco madura da escritora e, logo, ainda um pouco distante da sua escrita atual.

Um Amor Incômodo é um livro intimista e com uma caraga dramática pesada, mas que aborda com muita sensibilidade os desdobramentos emocionais na vida adulta de uma infância marcada pela violência doméstica.

Publicado em 1992, a obra foi adaptada em filme homônimo pelo cineasta Mario Martone em 1995, mas só em 2017 o livro foi publicado no Brasil.

O enredo conta a história de Delia, uma quadrinista quadragenária, profissionalmente realizada, mas emocionalmente abalada pelo passado familiar, o que imprime em seu comportamento um forte desejo de distanciamento dos seus familiares.

Delia (interpretada por Anna Bonaiuto). Cena do filme L'amore Molesto (1995).

Delia é o tipo de personagem introspectivo que se perde bastante nos próprios sentimentos e pensamentos. Como a história se passa no momento em que ela tenta lidar e processar a perda da mãe encontrada afogada no dia do aniversário da filha, durante grande parte da narrativa, Delia divaga sobre o passado e vai, ao mesmo tempo, reconstruindo a linha histórica de lembranças e memórias não muito confiáveis. Essa reconstrução é importantíssima na trama, porque nos revela o passado da protagonista ao mesmo tempo que, por um lado, nos elucida as circunstâncias que fizeram sua relação com a mãe se tornar insustentável e, por outro, desvenda os últimos passos de Amalia antes de ser encontrada morta.

Vista da cidade de Nápoles com Vesúvio ao fundo. Nápoles é o principal cenário do livro de Ferrante. Imagem de Damirux. Wikimedia Commons.


O enredo em si é esse reencontro da protagonista com o seu passado
, com ela mesma e com as lembranças de sua relação com a mãe. Mas mesmo sendo conturbada essa relação entre mãe e filha, é ela que dá forma e norte a personalidade da protagonista que inicialmente demonstra uma aversão quase que instintiva e bastante intensa pela presença de Amalia, chegando a se sentir um tanto aliviada com a morte de sua progenitora. No entanto, gradativamente vai se revelando que, na verdade, essa aversão é fruto de um sentimento frustrado e infantil de desejo de simbiose, ou melhor dizendo, de querer ser a mãe, fundir-se e confundir-se com a personalidade materna, como também observa Aline Aimee. Daí vem o título do livro. O amor de Dalia por Amalia era tão cheio de marcas, complexos e sentimentos conflitantes que ele se tornava incômodo, angustiante, sofrido.
A principal marca da personagem principal na narrativa é sua difícil relação com a mãe. Delia analisa e reconstrói essa relação a partir das memórias que possui de sua infância com Amalia, o pai, o tio e os vizinhos: Caserta, o menino Antonio e o avô confeiteiro de Antonio. Ao mesmo tempo ela envereda numa busca por reconstituir os últimos acontecimentos vividos por Amalia, como sua reaproximação com o suposto amante do passado, Caserta, e também fechar as lacunas que explicariam as circunstâncias de sua morte.

A minha opinião sobre a personagem principal é que ela não é a figura mais importante de sua própria história e perde um pouco de seu protagonismo para a figura da mãe, personagem forte e dúbio e que, por isso, me faz lembrar de outra personagem feminina: Capitu, do livro Dom Casmurro, obra icônica do escritor brasileiro Machado de Assis.

Amalia, cuja morte é o motivo de existir enredo, rouba a cena por ser uma personagem difícil de precisar e de descrever, mas que ao mesmo tempo é a cola que une todo o elenco do livro e os fios de sua trama. Sem ela, simplesmente, não existiria história.

Amalia jovem, interpretada por Licia Maglietta (1995).

Em sua juventude, a mãe de Delia é descrita por Ferrante como uma mulher bonita, risonha e provocante, que buscava preservar o bom humor e o gosto pela vida, mesmo vivendo em um ambiente sufocante e marcado pela violência. Casada com um pintor fracassado que sobrevivia com a venda de pinturas baratas de temas vulgares, Amalia sofria constantemente com as agressões do marido extremamente ciumento e que sempre a agredia. Mesmo em ambientes públicos, quando algum homem se dirigia a ela e a mesma esboçava algum tipo de simpatia, Amalia costumava ser vítima das agressões. Os abusos também eram muito comuns por conta dos constantes presentes que Amalia recebia do vizinho Caserta que era sócio de seu marido nos negócios de vendas de pinturas.

Desse modo, o tema da violência doméstica se torna um elemento imprescindível da história escrita por Ferrante e dá a narrativa um caráter bastante realista. As lembranças de Delia são profundamente marcadas pelas cenas de violência protagonizadas pelo pai e, por isso, o tema funciona como elemento crucial na formação da personalidade da protagonista. O resultado é que o desenho psicológico de Delia é bastante conturbado e atravessado pelo produto de um passado marcado de um lado pela frustração e nunca conseguir se igualar a figura materna, e de outro pela violência doméstica da qual ela foi testemunha e em um dado momento foi também impulsionadora.

Cenas do filme L'Amore Molesto de Mario Martone (1995) 
e que retratam a violência doméstica sofrida por Amalia.

Outros dois personagens importantes na trama são o tio Filippo, irmão de Amalia e que em vez de defendê-la das agressões a culpava por elas, e Caserta, outro personagem enigmático da trama e que sustenta a narrativa junto com as lembranças de Amalia conservadas por Delia.

Filippo é um homem tosco e irritadiço. Na maior parte do tempo fica xingando no dialeto local e falando mal de Amalia, a culpando por destruir o próprio casamento por seu comportamento, na visão dele, bastante reprovável. Ele junto com o pai de Delia representam na narrativa a figura do homem machista que vê na mulher a reencarnação da devassidão e da pecaminosidade, devendo ser corrigida a sua inclinação inevitável para a infidelidade com pancadas. 

Caserta é descrito no livro como um homem “esperto, de pele escura como um sarraceno, mas com olhos de diabo assanhado”, tinha fama de importunar as mulheres do bairro e desde a infância sua imagem causava a Delia uma mistura conflitante de atração, repulsa e medo. Este não era seu nome, mas um apelido.

Discussão entre Caserta (camiseta branca - por Enzo De Caro), Filippo (com a arma - Francesco Paolantoni) e o pai de Delia (à esquerda - Italo Celoro) em cena de flashback do filme L'amore Molesto (1995).

Na época, o pai da menina já era um pintor medíocre que pintava por ninharias, foi Caserta quem percebeu a possibilidade de que ele ganhasse um pouco mais pintando retratos a óleo das mães, irmãs e namoradas dos marinheiros americanos com saudades de casa. O negócio com Caserta porém de se desfez depois que o pai de Delia achou uma proposta mais vantajosa, pintando imagens de ciganas. Amalia se opôs e daí em diante as brigas entre o casal por conta de Caserta começaram, se tornando pior quando Delia lançou ao pai a semente da desconfiança de uma possível traição. Filippo e o cunhado quase mataram Caserta e seu filho, obrigando-o a fugir com sua família.

Passados todos aqueles anos Caserta ainda era um nome envolto em mistério, e de alguma forma ele estava ligado aos últimos dias de vida de Amalia. Delia não sabia como nem porque, mas o mistério daquele homem asqueroso a atraía.

A título de conclusão...

Apesar de ser uma narrativa na qual a narradora reflete bastante sobre cenas e episódios ocorridos no passado, Ferrante usa de uma narração linear e não recorre a flashbacks. Delia narra os hábitos, as brigas, os fatos, os lugares e as pessoas, mas não perde a sua condição de narradora quando evoca o passado. Por conta disso, ela acaba por caminhando pela linha tênue entre os acontecimentos do passado e o presente, como se o passado fosse imagens fantasmagóricas que a quadrinista vislumbra sobrepostas às imagens do presente. Por isso, não é incomum que sonho, lembrança e realidade se fundam na mente da narradora e ela chegue até mesmo a ter visões, sobretudo da mãe.

Ferrante escreve um livro de atmosfera intimista e psicológica muito marcante. Lembranças, divagações e fantasias da protagonista se misturam, mostrando que muitas das respostas que ela buscava já estavam guardadas em seu subconsciente, e seria o contato que ela faz com todas aquelas pessoas do passado o fator responsável por trazer gradativamente à tona as lembranças mais escondidas.  Desse modo, o tom que percebi dominar na obra foi a da confusão de sentimentos, pensamentos e lembranças que emanam de Delia e que conduzem a personagem em um encontro com seu passado, recuperando cenas e enredos esquecidos e deformados com o passar do tempo.

Enfim, achei o livro monótono, mas a forma como Ferrante aborda a violência doméstica através das lembranças um tanto inconsistentes da protagonista e os complexos e aversões que ela desenvolveu no processo foi excepcionalmente autêntico e até mesmo complexo. Ademais, Um Amor Incômodo é uma narrativa crua, de sentimentos muitos intensos e conflitivos e que trabalha com o onírico e com a memória. Possui personagens muito marcantes, cujos sentimentos e ações nos fazem questionar muito sobre a natureza humana.

Muitos afirmam, que este livro não é o melhor de Elena, mas como minha primeira experiência com a autora, não farei julgamento de valor. Além disso, é sabido de qualquer leitor experimentado que livros de estreia quase sempre são reflexos de um escritor ainda em formação, ainda cru e em processo de aperfeiçoamento. Justamente por isso é interessante ler estes livros, porque eles meio que humanizam aqueles que se encontram no panteão da literatura internacional.

A edição lida é da Editora Intrínseca, do ano de 2017 e possui 176 páginas.

Sobre o autor

Elena Ferrante é o pseudônimo de uma escritora italiana que prefere manter sua identidade em segredo sob a justificativo poder escrever com liberdade, e para que a recepção de seus livros não seja influenciada por uma imagem pública. Especula-se que seja uma tradutora, Anita Raja, que nasceu em Nápoles e que seja casada com o também escritor Domenico Starnone.

A autora concede poucas entrevistas, todas elas por escrito e intermediadas pelas suas editoras italianas. A única certeza sobre ela é que escreve desde 1991, ano em que publicou seu primeiro romance, L'amore molesto, livro resenhado nesta postagem.

Confira quem são os outros autores participantes da Campanha deste ano.

Saiba mais sobre os autores que estão sendo lidos na Campanha no link: autores.

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Preview do Google Books

Abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Google Books.

domingo, 10 de janeiro de 2021

O Decamerão - Giovanni Boccaccio - Resenha

Por Eric Silva para a 4ª Campanha Anual de Literatura do Conhecer Tudo

10 de janeiro de 2021, Ano da Itália

“As palavras, quando recebidas através dos ouvidos do coração, possuem força muito maior do que muitos supõem; aos que se amam, quase todas as coisas se tornam possíveis”

(O Decamerão – Giovanni Boccaccio)

 

Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.

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Edição lida com tradução de Raul de Pollilo. Nova Fronteira, 2018.
Cercados pela desolação provocada pela peste bubônica (negra) que matara grande parte da população florentina e dizimara um terço da população europeia[1], dez jovens de classes abastadas afastam-se da cidade e por quinze dias se dedicam ao lazer e à narração de cem pequenas histórias contadas ao longo de dez jornadas (dias). Livro que influenciou grandes nomes das artes a exemplo de Vivaldi e Molière, O Decamerão não é apenas uma obra que marca a fundação da narrativa moderna[2], como um testemunho escrito com humor e muita ironia e que documenta uma época na história da Europa e um retrato cultural, cotidiano e social de uma sociedade que migrava do feudalismo em direção a consolidação da burguesia.


Confira a resenha do primeiro livro da IV Campanha Anual de Literatura do Conhecer Tudo que no ano de 2021 homenageia a literatura italiana.


Sinopse do enredo

1348, Florença, Itália.

Em pleno auge da pandemia de peste bubônica, comumente conhecida como Peste Negra, a cidade de Florença, na região da Toscana, padecia os horrores da doença misteriosa que não só dizimava sua população, tornando a cidade florentina um grande cemitério e uma zona de repulsão demográfica, como subvertia e recriava os hábitos e costumes dos florentinos sobreviventes.

Em meio ao cenário de morte e desolação, um grupo de sete jovens de Florença e provenientes de respeitadas famílias se reúnem na igreja de Santa Maria Novella [E1] e começam a debater, sob a liderança da mais velha, Pampineia, acerca do infortúnio que se abatera sobre Florença e suas famílias, e decidem deixarem a cidade, por sugestão da moça, e pelo intervalo de alguns dias se instalarem com seus criados em uma propriedade fora dos limites urbanos. No entanto, para concretizar seu intento e salvaguardar suas honras, as sete moças pedem a três rapazes conhecidos e namorados de três delas para que as acompanhem em tal retiro enquanto este durasse.

Na Igreja de Santa Maria Novella os jovens reunidas decidem deixar Florença. fonte: Wikimedia Commons.

Igualmente desejosos de deixar para trás a cidade e sua pestilência, os três rapazes aceitam o convite e no dia seguinte os dez jovens e seu séquito de criados deixam Florença em direção a uma requintada propriedade rural desocupada, mas arrumada e provida com uma excelente adega e ali se instalam por alguns dias.

Confortavelmente instalados e fartamente providos de viveres, os jovens e moças dedicam uma quinzena de dias a passeios, conversas, cantos e danças. No entanto, a principal atividade dos jovens é reunirem-se ao entardecer para narrarem histórias de amor e aventura com temas na maioria das vezes pré-definidos por um rei ou rainha escolhido dentre eles e que era igualmente responsável da governança dos criados, da casa e do grupo. Assim, a cada dia e sob a governança de um rei ou rainha de reinado único são contadas 10 narrativas que formam uma jornada, num total final de dez jornadas e cem contos.

Quando finalmente findam as dez jornadas completas de novelar, no décimo quinto dia de retiro, todos regressam à cidade, encerrando a obra de Boccaccio.

Resenha

Escrito entre os anos de 1348 e 1353[3], O Decamerão (ou Príncipe Galeotto) é uma das mais importantes obras literárias italianas e também da literatura mundial, sendo considerada uma obra que marca a fundação da narrativa (em prosa) moderna, além e ser considerada o magnum opus (obra-prima) do escritor e poeta florentino Giovanni Boccaccio (1313-1375).

O título da obra tem origem no grego e significa “dez dias” ou “dez jornadas” em alusão aos dez dias nos quais os dez protagonistas-narradores se dedicam a novelar sobre o amor. No curso desses dez dias, as sete moças (Pampineia, Fiammetta, Filomena, Emilia, Laurinha, Neifile e Elisa) e os três rapazes (Pânfilo, Filostrato e Dioneio) se dedicam a relatar dez contos cada um que vão do erótico ao trágico, tomando por base casos – reais ou não – de amor, de honra e de vilania, contos de sagacidade, piadas e lições de vida, perfazendo, ao todo, cem contos contados uma dezena por dia e por cada um dos dez novelistas alternadamente.

Jovens contadores de histórias do Decameron em uma pintura de John William Waterhouse, A Tale from Decameron, 1916, Lady Lever Art Gallery, Liverpool. Fonte: Wikimedia Commons.


Quando resolvi incluir O Decamerão entre os livros que leria para essa edição da Campanha Anual de Literatura, o CALCT, o fiz dentre uma farta oferta de títulos por se tratar de um clássico importante da literatura universal, mas o pouco que eu sabia da obra não me estimulava a sua leitura – nem o investimento financeiro em uma edição tão cara e luxuosa.

Não sou particular apreciador de histórias eróticas e tenho minhas implicâncias com os romances de amor, e na época o pouco que sabia de O Decamerão dizia de uma obra cheia de erotismo que me fez associá-lo, talvez a obra de Marques de Sade, mas no sentido de serem narrativas libertinas e de caráter hedonista. Como tenho também certas reservas quanto ao hedonismo tanto como filosofia quanto como princípio de vida, tendo sido este um dos motivos de não ter apreciado parte dos personagens de O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. Esse pesa contra um Decamerão que eu ainda não tinha lido.

Pode até parecer um certo moralismo da minha parte (não que eu me abstenha de preservar certos princípios e valores morais), mas se trata de questão de gosto literário pessoal. Por isso, eu tinha dúvidas se valeria a pena adquirir O Decamerão e fazer o esforço de percorrer suas dez centenas de páginas (1005 págs.). Contudo, o livro se revelou algo não exatamente como me fora descrito o senso comum. É certo que O Decamerão está repleto de histórias de traições conjugais bem-sucedidas, mas para além disso, as narrativas possuem mais o irônico e o cômico do que algo de cunho erótico. Pelo contrário, se os personagens são adúlteros, espertalhões, hipócritas de toda natureza, religiosos libertinos e pessoas pouco dadas a respeitar votos conjugais ou religiosos, por outro lado, o autor e sobretudo os dez novelistas mantêm um impecável decoro, com condutas irrepreensíveis, não entrando em detalhes desnecessários ou lançando mão de expressões chulas e de baixo calão para referenciar práticas sexuais (nenhuma delas sadistas) de seus personagens.

O Decamerão não era o que falavam dele, logo minhas referências eram tão ignorantes sobre a obra quanto eu, ou se baseavam em adaptações que destacavam/explicitavam de forma mais aberta o erotismo existente no conteúdo narrativo da obra. Ainda assim, ler a obra de Boccaccio foi tarefa cansativa e, por vezes, tediosa.

A Peste e os personagens-narradores

Esboçando um panorama do caos criado pela Peste Negra, O Decamerão começa de uma forma que me interessou bastante por ambientar seu leitor em um contexto histórico-social de forma precisa, ampla e elucidativa, mas de forma concisa. Como o autor escrevia em pleno período de pandemia de peste bubônica (olha que coincidência eu lê-lo durante a pandemia de COVID-19), Boccaccio aproveita o triste e desolador cenário da Peste como inspiração para a base narrativa da trama e já imaginando a necessidade de situar os possíveis leitores da posterioridade, faz um panorama profundo e detalhado dos impactos da peste sobre as práticas e relações sociais em Florença, abordando hábitos antigos abandonados e os novos hábitos adquiridos em razão das circunstâncias, os comportamentos, as crenças acerca da doença, as dificuldades de sepultamento, a forma como a doença se manifestava e consumia a vida de suas vítimas e o abandono dos campos e dos animais pelos camponeses, amplamente vitimados por aquele mal.

Por ser testemunha ocular dos fatos, a descrição de Boccaccio possui um peso e potência que as vezes faltam até nos livros de história. Por conta disso a obra pode ser considerada além de um marco na literatura, um documento histórico sobre a Peste Negra de alto valor, sobretudo para entender as dimensões sociais e culturais que a pandemia teve sobre estas. E é em meio a este cenário confuso marcado pela morte e pelo miasma de muitos mortos é que o autor insere seus protagonistas que servem na trama como uma lufada de frescor e vida.

As sete moças e os três rapazes que compõem o grupo de novelistas são jovens solteiros de famílias com posição social elevada, mas que nem por isso escaparam de ter membros de suas famílias vitimados pela peste. No entanto, apesar da situação caótica, os dez decidem isolarem-se com alguns criados sobreviventes de modo a aproveitarem um pouco de divertimento e lazer em lugar afastado, o que se explica tanto pela juventude dos dez como pela incerteza de sobreviverem àquilo tudo.

Quanto ao desenho psicológico Boccaccio não desenvolve esses personagens com particular profundidade, mas algumas características deles são bastante evidentes, marcantes e os individualizam.

Entre as mulheres, cujas idades vão de 18 a 28 anos, Pampineia é a mais velha e a responsável por propor o retiro. Ela é a mais destacada dos novelistas. Cheia de iniciativa, a moça tem um gênio decidido e conta com bastante protagonismo. O que ela propõe ao grupo até certo ponto era imprudente e um pouco indecoroso para a época, mas ela o faz mesmo assim, motivo pelo qual Boccaccio faz questão de destacar a seriedade, honradez, bons costumes, dignidade e nobreza não só do grupo, mas principalmente das moças.

Depois de Pampineia temos Filomena, que é descrita como “sensatíssima” pelo autor e como “otimista” por alguns críticos. Ela é uma das poucas a se opor ao plano inicial de Pampineia – que não incluía os três rapazes – alegando que as mulheres não sabem conviver ou se governarem “sem a previdência de algum homem”. Trata-se de uma visão bastante sexista e patriarcal, mas típica da época e para a posição social das moças, e que queria expressar a insensatez de que elas empreendessem aquela viagem sem algum homem para acompanhá-las. A questão é resolvida quando os três rapazes chegam a igreja e são convidados por Pampineia a acompanhá-las.

Contudo, a posição machista não é única de Filomena, mas também compartilhada por outra personagem, Elisa, que é descrita pela versão espanhola da Wikipédia como “docta [culta] y prudente”, mas “de uma dignidade no exenta [não isenta] de aristocracia”[4] – o que condiz com seu pensamento mais conservador.

As outras moças, por sua vez, se destacam por qualidades diversas: Neifile pela beleza; Fiammetta pela inteligência, beleza e determinação; Emilia pelo narcisismo e egocentrismo, e Laurinha pelo senso de justiça e submissão ao gênero masculino[5].

Quanto aos rapazes, que se encontravam enamorados de algumas daquelas moças, eram todos muito corteses e solícitos. Filostrato é o mais melancólico e com uma personalidade que se inclina para preferir narrativas trágicas. Pânfilo é dentre os jovens o mais sábio, bem resolvido e centrado[6]. E, por fim, Dioneio que é um jovem de natureza transgressora[7], bastante jocoso e conta em Decamerão as novelas mais despudoradas e obscenas.

Nas narrativas que são contadas pelos dez jovens desfilam centenas de personagens dos mais diferentes humores e caráteres, mas seria impossível falar de todos. Considero, porém, que a muitos deles têm peso e importância muito superiores aos dez narradores e se sobressaem dentro do livro, bem como acontece com alguns personagens de As Mil e Uma Noites que resenharei em breve no projeto #MeusLivros.

Apreciação crítica das narrativas e da obra em seu conjunto

Decamerão e Mil e Uma Noites: comparações inevitáveis

Digo sem sombra de dúvidas que gosto de obras com esquemas sherazadianos, a exemplo de A Chave Estrela, de Primo Levi, que resenharei em breve no projeto e As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino, resenhado em 2019. As Mil e Uma Noites, então, é meu favorito e o precursor desse modo de narrar onde pequenas novelas são narradas em sequência por uma ou mais personagens-narradoras e se intercalam, povoando a obra de personagens e histórias.

Em geral não gosto de coletâneas de contos, mas contraditoriamente, gosto de livros com este esquema que já vi alguns críticos chamarem de sherazadiano, em alusão a protagonista d’As Mil e Uma Noites. Acredito que minha predileção por estes livros em detrimento das coletâneas mais comuns de contos, se deva a existência neles de uma narrativa que funciona como plano de fundo.

No caso de O Decamerão não tive a mesma identificação. O número de novelas é excessivo e com uma brevidade que não permite identificação com os personagens. Mesmo com os dez narradores essa identificação é bastante limitada, haja vista que eles não são profundamente desenvolvidos ao longo do livro. Com o tempo, ler O Decamerão se tornou cansativo. Em As Mil e Uma Noites isso não acontece, porque o número de narrativas é menor e algumas narrativas chegam a ser bastante longas como, por exemplo, a história dos “três calândares, filhos de rei” e as histórias de “Simbá, o marujo”, dentre outras.

Outra coisa que diferencia o livro de Boccaccio da obra icônica árabe situa-se no plano temático destas obras, que ora se aproximam bastante e ora se afastam completamente. Enquanto uma marca das narrativas de As Mil e Uma Noites são as crueldades e sofrimentos atrozes aos quais alguns personagens são submetidos, este não é um tema predileto de Boccaccio ainda que apareça em algumas novelas.

Situações fantásticas e criaturas sobrenaturais bem como complexas tramas de acontecimentos e infortúnios em série e interconectados que dão em resultados surpreendentes (narrativas rocambolescas) são duas outras marcas de As Mil e Uma Noites que são bem menos exploradas em O Decamerão. Até onde me recordo apenas uma novela aborda fatos sobrenaturais e poucos personagens são submetidos a “desventuras em série”.

O conto de Nastagio degli Onesti, pintado por Sandro Botticelli. Único conto com tema sobrenatural. Fonte: Wikimedia Commons.


As novelas de Boccaccio tem como principais marcas as aventuras amorosas ou trágicas, o escárnio, a ironia, as críticas jocosas, as burlas bem e malsucedidas e as engenhosidades empreendidas pelos enamorados e adúlteros a fim de estar e ter com seus amantes, enganando e passando para trás seus cônjuges e muitas vezes logrando êxito em alcançar suas pretensões, saindo impunemente de tais situações, mesmo quando descobertos, e, por vezes, até mesmo fazendo com que a situação ficasse a seu favor.

O amor – sobretudo erótico – e a infidelidade conjugal aparecem também em As Mil e Uma Noites e é inclusive o tema que desencadeia a trama principal e leva o Califa a casar-se com Sherazade. Contudo, em cada obra a infidelidade é tratada de uma forma diferente, e no caso d’ As Mil e Uma Noites, em geral, os infiéis pagam elevado preço por sua infidelidade (quase sempre com a vida), o que demonstra a pouquíssima flexibilidade dos autores daqueles “contos árabes”[8] em relação ao tema, tendo-o tratado de forma mais moralista, ou seja, conforme a moral de sua época. Boccaccio é mais flexível e aberto e me pareceu um pouco menos apegado à moralidade de seus contemporâneos.

Já o amor erótico – quando aparece – nem sempre é tratado em As Mil e Uma Noites como uma relação carnal entre dois seres humanos, mas igualmente entre um homem e uma bela criatura/entidade pagã. O casamento é bastante valorizado e por vezes se dá por questões práticas.

Alguns dos aspectos que mais me agradaram em As Mil e Uma Noites são as marcas fantásticas e rocambolescas presentes em quase totalidade do livro, sem falar no multiculturalismo da obra que abarca narrativas de diferentes povos do Oriente médio e da Ásia. Por conta disso, os momentos que mais me agradaram em O Decamerão foram quando o autor utilizou de tais elementos e de alguma forma se aproximou da obra árabe.

As narrativas de burlas não me chamaram a atenção nem as poucas histórias de cavalaria, mas sobretudo me cansaram os contos de questões conjugais. Não se trata, porém, de um falso moralismo da minha parte, mas de uma exploração demasiadamente frequente de uma mesma temática.

Principal temática abordada nas narrativas de O Decamerão, o amor erótico foi quase sempre explorado em conjunto com infidelidades conjugais, sobretudo levados a cabo por intento das mulheres ou de algum rapaz que encontra numa mulher eco para dispô-la como amante (ressalto que a moral da época via na mulher um sexo inclinado a corromper-se e a levar o homem a corromper-se também). Tamanho é o número de novelas com este tema que me cansei delas e até pulei algumas.

No entanto, há um ponto a se destacar. Boccaccio também trata do amor erótico entre indivíduos e membros do clero de ambos os sexos. Ele expõe vários casos de religiosos que rompiam secretamente seus votos de castidade e que usavam de artimanhas das mais engenhosas para viverem vidas libertinas e desviantes, incitando mulheres de suas paróquias a se associarem a eles. Em uma das histórias há também o envolvimento amoroso de freiras com um rapaz do povo. Por isso, não é de surpreender que a obra tenha causado polêmica, críticas e censura na época tendo até sido colocado no Index Librorum Prohibitorum da Igreja Católica[9].

Mas o curioso de O Decamerão é que Boccaccio, apesar de abordar temas tão polêmicos e delicados, faz questão de manter uma separação moral entre os personagens das narrativas e seus narradores a quem o escritor atribuiu uma qualidade de honestidade com moral alargada[10].

Não obstante, em O Decamerão é possível se ter noção sobretudo da mentalidade da época, no qual, por exemplo, se julgava que o homem era de natureza mais nobre e estável que a mulher. Uma ideia que tinha como aporte de sustentação a interpretação do texto bíblico do Gêneses, no qual o homem foi feito primeiro, a partir do barro, e a mulher, um tempo depois e de uma parte pouco nobre do corpo do primeiro homem: a costela. Logo, a mulher – na visão religiosa da época – era inferior e deveria se submeter ao homem como parte menor dele. Mas além disso, a interpretação do mesmo livro tomava a transgressão de Eva ao comer do fruto proibido e induzir Adão a também fazê-lo como base para a defesa da tese de ser a mulher fonte de corrupção do homem e de si mesma, como já mencionado. Boccaccio, contudo, transgrede essa ordem ao compor uma obra que exalta o feminino e que dedica às mulheres.

Sobre a escrita, a linguagem e o estilo

No que diz respeito a linguagem, surpreendeu-me a facilidade com o qual é possível ler esta que é uma obra com quase 670 anos de idade. Não que sua escrita seja simplória, mas o trabalho de tradução de Raul de Polillo é impecável. Ajuda também o fato de que Boccaccio inclina-se mais para uma linguagem prosaica do que poética. Ainda que use de muita retórica para articular certos pensamentos, na minha opinião não abusa das metáforas, dos jogos de palavras ou de construções estilísticas complexas.

No entanto, O Decamerão é um clássico em todos os sentidos, mas sobretudo no sentido temporal que se costuma atribuir à palavra, e por mais que quase sempre as traduções mais modernas suavizem alguns elementos estamos falando de uma obra de quase sete séculos atrás e isso deixa notável as diferenças em discursos, em ideias e ideologia, mas sobretudo em espaço dedicado à descrições, críticas e reflexões filosóficas ou políticas. É comum que os autores clássicos exagerem em um ou mais destes aspectos.

Apesar de muito dinâmico quando as narrativas de fato começam, o autor e seus narradores reservam espaços consideráveis a divagações e discursos sobre os temas que servem de base às histórias na forma de preâmbulos cansativos e até tediosos. Além disso, por ser um livro muito bem colocado em seu contexto histórico e ter grande influência da obra do também italiano Dante Alighieri (1265 d.C. – 1321 d.C.), O Decamerão faz referências a uma enorme quantidade de personagens reais de grande relevância para a história local, bem como de personagens de destaque na sociedade florentina da época. Além deles, o livro faz referências a figuras reais e fictícias retiradas ou citadas na Divina Comédia de Dante, o que acabou por fazer das notas explicativas de rodapé um elemento fundamental e constante, sobretudo no início de cada novela, quando os personagens envolvidos eram apresentados. Não obstante essas constantes idas às notas acabam por quebrar o ritmo de leitura.

O que aprendi com O Decamerão

Agora, me desviando de uma análise técnica, gostaria de ressaltar que aprendi muito com esta leitura.

Toda obra literária é uma possibilidade de aprendizagem e com O Decamerão aprendi duas coisas diferentes. A primeira delas está relacionada às respostas e aos comportamentos humanos em situação de pandemias e grandes surtos com elevada mortalidade. Aprendi como as pandemias se assemelham e se diferenciam em contextos históricos distintos.

A segunda diz respeito aos olhares ora romantizados, ora dicotômicos ou ainda demonizadores que lançamos sobre o passado, quase sempre para reafirmarmos ou justificarmos posturas, ideias e concepções de mundo afirmadas e assumidas no presente. Ou ainda, somente para nos diferenciarmos de nossos antepassados quando na verdade somos em essência de natureza tão similar, apesar dos contextos distintos e de uma ou outra conquista ou avanço real e necessário que tenhamos feitos.

Falarei por hora só da segunda observação e serei breve.

Percebo que é uma tendência humana, a depender do contexto, o desejo de romantizar ou demonizar o passado.

Quando é do nosso agrado envolvemos o passado com uma aura de nostalgia e exaltamos os valores e a decência perdida, bem como aspectos de um dado estilo de vida que se perdeu. Vemos isso nos discursos conservadores tanto quanto na literatura e no cinema, como nos livros e histórias de cavalaria com seus nobres e valorosos cavaleiros que empunham suas armas em nome de um ideal. Trata-se de uma forma de negar as imperfeições do passado para suscitar um desejo de regressar a uma ordem anterior, mas que, no entanto, só existiu da forma como é evocada no imaginário dos próprios nostálgicos.

Todavia quando é do nosso agrado fazemos o justo contrário e sublinhamos com tintas escarlates as barbaridades e violências físicas ou mesmo simbólicas que as muitas gerações passadas foram capazes de levar a efeito. E nisso reconheço um movimento contrário ao saudosismo dos conservadores, mas que não necessariamente é positivo, porque enquanto aqueles exaltam o passado para denegrir o presente, estes denigrem o passado e põem o presente em um pedestal como se esta fosse uma era de esclarecidos e de um grau de desenvolvimento cultural superior. No entanto, ao contrário do que diz essa forma de pensar, as atuais gerações empreendem violências tão mordazes quanto as do passado, porém de formas muitas vezes mais eficazes, silenciosas, sutis e indiretas.

O resultado destes dois movimentos contrários é que nossa visão do passado acaba sempre sendo turva, distorcida e incompleta, bastante distante de abarcar a complexidade das teias sociais e históricas e da diversidade cultural e geográfica das sociedades passadas.

Ler O Decamerão foi para mim importante porque me deu uma visão de que nós, em nossa vida privada e em nossas tumultuadas relações interpessoais e amorosas, não somos tão diferentes dos homens medievos do século 14 e contemporâneos de Boccaccio. É por isso que não há motivo para afirmarmos, por exemplo, que nossa sociedade é moralmente degenerada em comparação com um suposto passado luminoso e de moralidade, quando na verdade, o que antes era feito às escondidas e com mil artifícios para ocultá-lo, hoje simplesmente é feito de forma aberta e mais transparente.

Evoluímos? Regredimos? Ou em essência ainda somos os mesmos?

Por fim, a primorosa edição da Nova Fronteira

Não costumo tecer elogios a questões editoriais, mas em relação a edição lida, tenho somente elogios a fazer.

Edição lida. Fotografia: Eric Silva, 2021.


A Nova Fronteira dividiu o imenso livro de Boccaccio em dois tomos de capa dura e fez com eles um lindo box. Achei a diagramação escolhida para a oba belíssima tanto pelos floreios que enfeitam as páginas, como pelas iluminuras que iniciam cada história devolvendo ao livro seu ar de obra medieval. A fonte e o papel usado também tornam agradável a leitura e o fato das notas aparecerem no rodapé da página nos garante a economia de um tempo que seria desperdiçado caso as notas explicativas se encontrassem no final do livro como em algumas obras similares.

As capas dos dois volumes são impecáveis e com cores chamativas e contrastantes que – a contrassenso – não me desagradaram.

Também achei certeira a escolha por dividir a obra em dois volumes. Livros grandes como este são mais susceptíveis a danificar a costura e a colagem dos cadernos bem como deixa vincos na lombada. A opção de dividir o livro em dois e confeccioná-lo em capa dura diminuem estes efeitos e ajudam a conservar melhor o livro.

Ou seja, não vejo pontos negativos numa edição que além de tudo isso conta com uma tradução de excelente qualidade – como já afirmei.

Concluindo...

E enfim, para concluir essa resenha imensa, afirmo que posso não ter me tornado fã da obra de Boccaccio, mas ela tem seus pontos positivos. Lê-lo pôs por terra a visão preconceituosa que eu tinha da obra e me ajudou a ver a Idade Média sob novos ângulos, de uma “história da vida privada”.

Gostei sobretudo da abordagem que o autor faz dos anos da peste e isso me ajudou a compreender melhor nosso momento histórico ao fazer um paralelo com a atual pandemia de COVID-19, mas da qual falarei semana que vem. Em outras palavras, O Decamerão pode ter sido para mim um tanto cansativo, mas foi igualmente relevante e substancial para estes dois momentos históricos tão distintos.

A edição lida é da Editora Nova Fronteira, em dois tomos, de 2018. A tradução é de Raul de Polillo, com introdução de Edoardo Bizzarri. Ao todo são 1005 páginas. O título original em italiano é Il Decamerone.

Sobre o autor

Giovanni Boccaccio nasceu em Paris, no dia 16 de junho de 1313 e começou a escrever suas primeiras histórias aos sete anos, quando aprendera a ler e a escrever.

Em 1327, começa a estudar comércio e finanças e ingressa na universidade para fazer Direito Canônico, mas dedica todo o seu tempo à atividade literária.

Em 1350, em Florença, faz amizade com Francesco Petrarca e junto com Dante, formam uma grande tríade poética da Itália renascentista. Naquele mesmo ano é nomeado embaixador do governo florentino na cidade de Ravena e passa a viajar em missão diplomática por toda a Itália a serviço de Florença.

Publica O Decamerão em 1353, sua obra-prima. Em 1373 começa uma série de conferências sobre a Divina Comédia de Dante, mas dois anos depois adoece e falece em Certaldo, Itália, no dia 21 de dezembro de 1375.

Conheça os pontos do nosso itinerário no mapa do link: mapa.

Preview do Google Books

Abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Google Books.

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[1] O que foi a peste negra e quanta gente ela matou? Mundo Estranho, [s.l.], 4 jul. 2018. Disponível em: https://super.abril.com.br/mundo-estranho/o-que-foi-a-peste-negra-e-quanta-gente-ela-matou/. Acesso em: 03 jan. 2021.

[2] CAVALLARI, Doris. Decamerão. [Entrevista concedida a] Ederson Granetto.  Literatura Fundamental/UNIVESPtv, São Paulo, [s/d]. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=cqCTE_IfeOo. Acesso em: 03 jan. 2021.

[3] DECAMERÃO. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2020. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Decamer%C3%A3o&oldid=59701159>. Acesso em: 03 jan. 2020.

[4]DECAMERÓN. In: Wikipedia, La enciclopedia libre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2020. Disponível em: <https://es.wikipedia.org/w/index.php?title=Decamer%C3%B3n&oldid=131917997>. Acesso em: 03 jan. 2020.

[5] Idem.

[6] CAVALLARI, op. cit.

[7] DECAMERÓN, op. cit.

[8] Na verdade, só uma parcela dos contos que compõem As Mil e Uma Noites são de origem árabe. Há ali também contos provenientes do folclore indiano, persa e até mesmo chinês.

[9]  DECAMERON. In: Wikipedia, L'enciclopedia libera. Flórida: Wikimedia Foundation, 2020. Disponível em: https://it.wikipedia.org/wiki/Decameron. Acesso em: 05 jan. 2020.

[10] CAVALLARI, op. cit.

 


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