domingo, 1 de novembro de 2020

[Especial Zafón] O Labirinto dos Espíritos – Carlos Ruiz Zafón – Resenha

Por Eric Silva

15 de abril de 2020

As recordações que enterramos no silêncio são as que nunca deixam de nos perseguir

(O Labirinto dos Espíritos – Carlos Ruiz Zafón).

 

Está sem tempo para ler? Ouça a nossa resenha, basta clicar no play.

Retomando o Especial Zafón trago a resenha do livro épico que fecha a Série do Cemitério dos Livros Esquecidos. Numa trama noir e cinematográfica, O Labirinto dos Espíritos faz confluir as narrativas de todos os principais personagens da série e explora de forma bastante incisiva o lado obscuro do passado da cidade catalã de Barcelona nos seus tempos de regime franquista, denunciando as atrocidades que eram comuns durante e também após a Guerra Civil Espanhola.

Sinopse do enredo

A Espanha vivia o auge da Guerra Civil que culminaria com ascensão do General Francisco Franco quando Barcelona se tornou o alvo da Aviazione Legionaria italiana. Entre os dias 16 e 18 março de 1938 a cidade catalã seria intensamente bombardeada e 1.300 pessoas morreriam no ataque[1].

Na época, Alicia Gris ainda era uma menina que só escapou da morte, graças a inesperada ajuda de um amigo de seu pai, o foragido Fermín Romero de Torres. Desesperados, os dois fogem pelos telhados dos prédios vizinhos à casa da menina até que uma explosão os separa e deixa em Alicia uma ferida que a torturaria pelo resto de sua vida.

Vinte e um anos depois, Alicia é uma investigadora talentosa que percorre o submundo da capital espanhola solucionando casos a serviço do sistema franquista. Quando o ministro da educação, Maurício Valls, desaparece, a moça é recrutada para investigar e determinar seu paradeiro. É nesse momento que ela e seu parceiro no caso, o capitão Vargas, imergem numa trama obscura envolvendo o passado do ministro e que tem início ainda no período da guerra, quando ele ainda era diretor da prisão barcelonesa de Montjuic.

Em Barcelona, Daniel Sempere, protagonista de A Sombra do Vento, vive uma vida pacata ao lado da esposa e do filho, Julián, mas é constantemente atormentado pelas sombras do mistério que cerca a morte de sua mãe, Isabella. Angustiado pelo seu desejo de vingança, o rapaz dedica-se secretamente a investigações inúteis sobre seu principal suspeito, o desaparecido ministro Valls, enquanto administra a livraria do pai ao lado da esposa e de Fermín.

A medida que a investigação de Alicie avança, os fios que compõe a trama de uma história cheia de crimes e segredos vão convergindo e se entrelaçando à história da família Sempere, e em pouco tempo o destino de Alicia, Daniel e Fermín se entrecruzam revelando mistérios e fechando lacunas que foram deixadas nos livros publicados anteriormente. Assim, a macronarrativa do Cemitério dos Livros Esquecidos, que teve seu início a 18 anos atrás (2001 foi o ano de publicação de A Sombra do Vento), encontra seu desfecho com o entrecruzamento das várias narrativas dos muitos personagens que compõem a série.

 

Resenha

Quarto e último livro da série O Cemitério dos Livros Esquecidos, O Labirinto dos Espíritos reúne, integra e faz confluir as narrativas de todos os principais personagens da série, fazendo dos livros predecessores afluentes de um rio tortuoso que vai preenchendo as lacunas e clareando os livros anteriores. Ao mesmo tempo essa é também a mais longa narrativa de Zafón, que introduz na trama a história de um novo e importante personagem: a sombria e sarcástica Alicia Gris.

Sou fã declarado da série e do estilo de escrita de Zafón e a leitura de O Labirinto dos Espíritos me prendeu de forma irresistível em seu labirinto de histórias, tragédias e tramas. Zafón constrói cenários, enredos e personagens de uma forma única e, em seu estilo sombrio e misterioso, compõe com uma escrita que me fascina. O Labirinto dos Espíritos é mais um atestado da qualidade da obra do escritor barcelonês que fecha com estilo a sua série mais famosa.

Percebi que ao longo da escrita da série Zafón optou por escrever combinando as características de diferentes gêneros literários. A Sombra do Vento é basicamente um livro de mistério e aventura, característica que é mantida em O Prisioneiro do Céu, entretanto, esse último vai além da aventura e ressalta o cenário de terror da ascensão do regime franquista. Por sua vez, O Jogo do Anjo possui uma pegada mais sobrenatural e gótica, no qual elementos mágicos e a loucura são muito explorados. Contudo, O Labirinto dos Espíritos é essencialmente um romance noir[2]. Digo isso porque seu principal foco está nas investigações de Alicia e seu companheiro Vargas que na busca por encontrar o paradeiro de Valls revira o seu passado e desenterra seus crimes.

Diferente do que ocorre em A Sombra do Vento, no qual Daniel e Fermín investigam o passado do escritor maldito Julián Carax, os personagens do último livro da série são de fato investigadores profissionais.

Alicia não é uma policial como Vargas, mas não deixa de se comportar como uma investigadora, uma detetive implacável. Ela é uma mulher soturna e sofrida, como tantas outras que sobreviveram aos tempos de guerra.  Como investigadora Alice é uma pessoa curiosa, determinada e capaz de tudo. Sua aura é sombria e até mesmo fatal e seu humor sarcástico só vacila quando as dores de seu ferimento de guerra a atormentam. Mas no fundo ela é também uma pessoa sensível e que ama, uma literata apaixonada e alguém que inveja a felicidade modesta daqueles que vivem uma vida comum. Como um mosaico de sentimentos conflitantes que vão da frieza a doçura, Alicia é um personagem singular e único dentro do livro responsável por revelar cada um dos fios que ligam os muitos personagens da série.  Não é à toa que ela é a personagem preferida de seu criador.

Vargas, por sua vez, faz o papel do investigador durão e rústico, comilão e que odeia demonstrar qualquer tipo de fragilidade. Ele é o típico policial que, de tão acostumado ao submundo e aos seus horrores, já não consegue ter uma perspectiva positiva da vida, além de carregar consigo todo o peso de um passado de tragédias e traumas.

Juntos, mesmo que contra a vontade, os dois reviram o passado nebuloso do ministro Valls e revelam a corrupção e a podridão que existe por trás do sistema e das pessoas ilustres que representam o seu panteão.

Quanto a Daniel, também nesse livro sua participação é modesta, como vinha se revelando nos volumes anteriores protagonizados por outros personagens, mas tudo conflui para ele e para o passado de sua família como também já se era de esperar. O mesmo se dá com Fermín que, depois do seu protagonismo em O Prisioneiro do Céu, volta a dar mais espaço aos novos personagens, contudo ainda sendo uma peça chave para o desencadeamento da narrativa e para ligar as histórias de cada personagem na trama.  Por vezes, me questiono se Fermín não seria o grande personagem dessa série, haja vista a sua extensa participação nos fatos ocorridos em várias épocas da linha histórica de O Cemitério dos Livros Esquecidos.

Estilo e temática de um livro mosaico, caleidoscópico

Em O Labirinto dos Espíritos, Zafón volta a falar da corrupção e de toda a podridão impregnada dentro do sistema implantado durante o governo do general Franco. Os horrores do fim da Guerra Civil Espanhola também são novamente invocados.

Fotografia do bombardeio aéreo de Barcelona em 17 de março de 1938, visto de um bombardeiro italiano. Wikimedia Commons.
Fotografia do bombardeio aéreo a Barcelona em 17 de março de 1938, visto de um bombardeiro italiano. Wikimedia Commons.


Barcelona e Madri são cidades mergulhadas na obscuridade, ainda mais sombrias do que a Barcelona narrada pelo olhar de Daniel no primeiro livro da série. A narrativa, as suas personagens e os lugares que lhes servem de cenário estão impregnados pela melancolia, pelo sabor de derrota e pela taciturnidade dos espanhóis, mas principalmente pelas sombras pesadas de um regime que espalhara a morte e cultivava o terror através de seus agentes sombrios, que carregavam a morte no olhar e ceifavam vidas em nome de um sistema deturpado e a favor apenas dos mais poderosos.

Mas o elemento que mais se destaca no livro é o estilo. O Labirinto dos Espíritos representa, sem dúvida, o ápice da escrita de Zafón. Nele seu estilo que mistura poética, romance gótico e policial ganha um maior refinamento e sua escrita chega ao seu auge.

Sempre comento como admiro o estilo poético e cheio de construções estilísticas da escrita de Zafón. Mesmo falando sobre temas sombrios ele escreve de uma forma única que lhe é peculiar e que ajuda a construir com sombras e vapores os cenários e a atmosfera de seus enredos. A escrita é bastante descritiva, mas nunca se torna cansativa. Humor, sarcasmo, ironia e divagações poetizadas se misturam a uma descrição impecável e original que encanta aqueles que, como eu, apreciam um texto muito bem escrito. Mas o que o escritor barcelonês faz no último livro de sua série é levar ao ponto mais extremo esse seu estilo único e compor o volume mais bem escrito da coleção.

Confesso que ainda prefiro A Sombra do Vento, o livro mais romântico da série e que apresenta meu personagem predileto, Daniel. Ali Barcelona é uma mistura de sombras e perfumes que se misturam e revelam uma cidade cheia de mistérios, perdas e pessoas sofridas e taciturnas. Mas, ao mesmo tempo, é uma cidade que permite o florescer dos amores juvenis e inconsequentes como o de Daniel e Beatriz, e que abriga, apesar dos pesares, os sonhos daqueles que possuem muito pouca esperança.


Não obstante, à medida que avançamos na série, Barcelona vai se tornando cada vez mais sombria, por vezes gótica, mas sempre encoberta por um véu de obscuridade formada pelo medo, por mentiras e mistérios, e pela crueldade da guerra e do regime de Franco. O Labirinto dos Espíritos explora de forma ainda mais incisiva esse lado obscuro do passado da cidade catalã e denuncia as atrocidades cometidas durante a Guerra Civil Espanhola, ao mesmo tempo que faz uma excursão pelos bastidores do sistema implantado após a sua conclusão.

O romance é mosaico e em suas muitas partes ele vai conectando cada uma das narrativas contadas nos livros anteriores da série, compondo um labirinto com muitas portas, ramificações e fantasmas. Todas as histórias e personagens do Cemitério dos Livros Esquecidos convergem para essa trama e muitos pontos propositadamente deixados soltos nos demais livros vão sendo preenchidos e os vários fios da trama são atados em um ponto de convergência único.

Podemos considerar que em si o livro todo é o desfecho de uma grande história, a do Cemitério dos Livros Esquecidos, mas Zafón também buscou dar ao Labirinto dos Espíritos um desfecho completamente e indubitavelmente fechado, o que nos torna oficialmente órfãos da série.

O autor dá destino a todos os seus personagens, encerrando para sempre uma das melhores séries que já li. Por isso, O livro de Julián, a última parte que compõe a história, não só nos dá uma noção de depois, indicando os desdobramentos das vidas de cada personagem, como também nos dá uma noção da transformação sofrida pela Espanha com o final do regime franquista. A cidade que vemos é uma cidade que se moderniza e que dissipa as trevas e a lugubridade que marcam a Barcelona da série.

Assim, a história épica que começa com o jovem e ingênuo Daniel Sempere em uma madrugada de magia e descobertas, se encerra com a perigosa aventura de Alicia Gris e com o destino da nova geração que vislumbra, com brilho nos olhos, a magnífica basílica de livros, o Cemitério dos Livros Esquecidos.

Enfim, um fim digno a uma narrativa caleidoscópica que por 15 anos embalou os leitores assíduos e apaixonados de Zafón.

A edição lida é da Editora Suma, do ano de 2016 e possui 680 páginas.

Sobre o autor

Saiba mais sobre Carlos Ruiz Zafón na postagem especial que fizemos sobre ele.

Preview do Google Books

Abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Google Books.

 



[1]https://pt.wikipedia.org/wiki/Bombardeio_de_Barcelona

[2]Os romances Noir, Preto em francês é o tipo de romance policial onde os personagens são mais humanizados, os detetives nesse tipo de história, costumam beber, brigar, se envolver em romances e sexo. Também existem outras tramas paralelas, a história portanto não gira em torno de apenas um fato, mas vários. (Wikipédia)



domingo, 4 de outubro de 2020

[#MeusLivros] Admirável Mundo Novo – Aldous Huxley – Resenha

Por Eric Silva

Dedicado à ex-professora de Inglês

Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.

Diga-nos o que achou da resenha nos comentários.

Está sem tempo para ler? Ouça a nossa resenha, basta clicar no play.

Edição de bolso que ganhei na aurora dos meus 18 anos de idade
 e que me acompanha até hoje.
Distópico e desolador, Admirável Mundo Novo foi o último livro a marcar minha adolescência deixando impressões que influenciaram meu pensamento político e social ainda no começo da minha vida adulta. Um romance sobre uma sociedade supertecnológica e consumista que aboliu a família, a religião e as relações duradoras em nome de uma felicidade programada e determinada pelo estado. Um livro cuja crítica social se torna cada vez mais atual apesar dos mais de setenta anos de escrito.

Confira a resenha.

Sinopse

Após uma guerra que revolucionaria a história da humanidade, a sociedade é inteiramente reorganizada entorno de um regime totalitário baseado em princípios científicos, com divisão social em castas e que prega a felicidade eterna. Nessa nova organização social de escala planetária, famílias e religiões forma abolidas tornando-se um mundo de pessoas biologicamente programadas em laboratório, e adestradas para cumprir um papel predeterminado na sociedade. Um mundo altamente tecnológico que proibiu a literatura e exalta o avanço da técnica e a uniformidade. Esse é o cenário de Admirável Mundo Novo, obra mais conhecida do escritor inglês Aldous Huxley publicado pela primeira vez em 1932.

Resenha

Eu e Admirável Mundo Novo

Ganhei esse livro de minha professora de Língua Inglesa já no final do último ano do Ensino Médio, como uma lembrança dos últimos três anos em que fui seu aluno. Ela, é claro, acertou em cheio em sua escolha, porque não há presente algum que me faça mais feliz do que ganhar um livro. É um tipo de presente que não me desfaço e que conservo com carinho. A prova disso é que os primeiros livros que ganhei na vida estão comigo há quase 22 anos.

Mas Admirável Mundo Novo significa muito mais do que uma lembrança carinhosa de alguém que admiro como ser humano e profissional docente, ele marcou um período de mudança para mim e se tornou uma importante referência no meu posicionamento crítico e político. Dentro da lista dos livros da Minha infância e adolescência, ele representa o último portal que atravessei antes de me tornar um leitor maduro.

Era dezembro de 2008, eu tinha 18 anos e o fim do ensino médio marcava para mim uma mudança profunda: o fim da vida escolar como eu a conhecia. Era o fim daquela rotina a qual estava acostumado desde os meus três anos de idade, e confesso que só não me sentia assustado com o que estaria por vir, porque sempre tive maturidade o suficiente para me manter equilibrado diante da mudança.

Sabia que o fim do período escolar marcava um momento em que se abriria para mim uma nova perspectiva: a vida adulta (que na verdade se iniciara um ano antes com o adoecimento de minha mãe) e também a vida acadêmica (que eu adiaria até meados do ano de 2010). De fato, um mundo novo de possibilidades e novas experiências me projetariam para além do universo e da rotina que eu conhecia até meus malformados 18 anos. O Eric CDF da escola daria lugar ao acadêmico, a um Eric mais crítico e fortemente ligado à ciência, à crítica social e à literatura como um todo. 

Como o protagonista do livro de Aldous Huxley, eu deixaria o mundo que conhecia para contemplar as maravilhas e os dissabores de outro, desconhecido. Por outro lado, também como ele, esse indivíduo que contemplaria e vivenciaria um mundo novo estaria de toda forma fortemente ligado e alicerçado no seu, no meu caso, o passado escolar, porque sou o que meus professores fizeram de mim, e eles são partes que compõem o meu todo.

Li Admirável Mundo Novo justamente nessa época, fazendo com que fosse o meu último livro desse período. Contudo sua influência vai além. A obra icônica de Huxley carrega em seu enredo uma crítica muito forte e contundente a uma sociedade que vive para o consumo e para a produção em massa. Uma sociedade alienada, baseada em um modo de vida alienante e de forte controle social, que é garantido mediante a inculcação de valores e ideias que reproduzem o status quo ao naturalizar a organização social hierarquizada e injusta, e que também reproduzia o conformismo e a submissão.

Admirável Mundo Novo é uma fabulosa crítica ao sistema capitalista bem como toda forma de autoritarismo seja ele de direita ou de esquerda, e, por isso, esse livro também se tornaria referência para mim em meus estudos acadêmicos.

Por conta destas coisas Admirável Mundo Novo é um livro que tem uma dupla importância para mim.

O Enredo e os Personagens Principais

No ano de 632 depois de Ford (2540 d.C.), muito séculos após A Guerra dos Nove Anos (141 d.F. – 2049 d.C.), o mundo e a sociedade como a conhecemos não existe mais. A sociedade humana alcançou o seu apogeu tornando-se ainda mais industrializada e voltada para o trabalho e o consumo, além de quase desprovida de humanidade.

Não existem mais pais ou filhos, maridos ou esposas, porque as crianças são produzidas, criadas e educadas em Centros de Incubação e Condicionamento como o de Londres Central, onde são também condicionadas e deformadas de acordo com sua posição social predefinida, duplicadas em grupo de dezenas de gêmeos para atender a demanda de mão de obra nas fábricas e condicionadas a não criarem vínculos afetivos duradouros. O amor e a paixão foram abolidos assim como as relações baseadas em compromisso.

Em nome de uma pretensa estabilidade a religião foi extinta, assim como as ciências humanas e a literatura, só os meios de comunicação de massa são permitidos e o acesso ao conhecimento é filtrado e restrito a uns poucos. A sociedade dividida em classes sociais foi substituída por uma comunidade organizada em castas (alfas, betas, gamas…), sem mobilidade social e definidas desde o nascimento. Da mesma forma é definida desde o nascimento a identidade individual e coletiva de cada indivíduo, condicionado a aceitar passivamente e alienadamente o seu lugar na sociedade.

Todos são sempre jovens e livres para ter tudo o que foram condicionados a desejar e, por isso, o isolamento, a castidade e a contemplação, mesmo que da natureza, são vistos como comportamentos estranhos e inadequados, atitudes antissociais e reprimíveis. Toda essa forma de pensar é inculcada e reproduzida constantemente através da repetição de uma ideologia que prega uma mentalidade e uma felicidade quase que infantil, que exalta o novo sobre o velho e a superficialidade das relações. A vida se resume a trabalhar e ser produtivo, consumir e descartar e, enfim, entregar-se aos prazeres proporcionado pelo sexo livre e sem compromisso, pelas drogas e pelas atividades de lazer em grupo, mas que envolvam algum tipo de consumo. E para àqueles que por algum erro no processo de “fabricação” ou de condicionamento não conseguem se encaixar nesse modelo de sociedade resta o exílio em alguma ilha isolada em algum lugar do globo.

Em resumo, essa é a sociedade distópica a que somos apresentados por Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo. Uma sociedade criada e organizada por um Estado Mundial que tem como lema: COMUNIDADE, IDENTIDADE, ESTABILIDADE. Estabilidade essa que é forjada a partir de um controle social rígido, legitimado e inescapável e do consumo regular do soma, uma droga psicodélica capaz de afastar os anseios e sentimentos negativos através de uma fuga da realidade.

Ao longo dos três capítulos que iniciam a obra somos apresentados a forma como esse novo mundo se apresenta e é organizado. Acompanhando uma visita técnica de estudantes alfas – a casta superior na hierarquia social, formada basicamente por cientistas e dirigentes ao Centros de Incubação e Condicionamento de Londres Central, o narrador de Aldous vai descortinando a tessitura[1] social sustentado pelo Estado Mundial bem como história que levou a sociedade humana desprezar toda a sua cultura e natureza biológica para criar outra sociedade, uma que fosse “feliz”.

Porém sob a capa da pretensa felicidade, comunhão e estabilidade entre os povos mundiais existem aqueles que não conseguem se encaixar completamente dentro da sociedade e se sentem sempre deslocados e incompletos. O enredo de Admirável Mundo Novo gira entorno principalmente de três destes deslocados: Bernard, Helmholtz e Jhon.

Psicólogo da casta dos alfas, Bernard é um dos poucos em Londres que tem consciência da futilidade e promiscuidade das relações, além disso ele se sente diferente dos demais de sua casta porque possui um físico acanhado e muito parecido com o comum entre os indivíduos das castas inferiores, o que o irrita e diminui seu sucesso com as mulheres. Por conta destas inadequações, o psicólogo evita bastante a interação social com seus colegas de trabalho e nutre uma certa paixão por Lenina, uma das funcionárias do Centro de Incubação. Por outro lado, as atitudes “antissociais” de Bernard fazem com que gradativamente ele vá sendo evitado, desprezado e considerado como estranho por seus pares.

Por sua vez, Helmholtz é o justo contrário de seu amigo Bernard. Porém, mesmo sendo socialmente muito requisitado e um competente e promissor “Engenheiro em Emoção”, Helmholtz se sentia tolhido em uma sociedade tão carregada de superficialidade e tão desprovida de conteúdo. Decepcionava-o a falta de significado em tudo o que fazia como engenheiro (escrever para rádios, compor cenários para filmes sensíveis e criar slogans e versinhos hipnopédicos) e ansiava por algo que não sabia descrever ao certo o que era.

Por fim, temos John, ou o Selvagem, como seria chamado posteriormente. John é o principal personagem da trama de Aldous – apesar de só aparecer a partir do capítulo 7 – e o mais deslocado dos três, por ser o único que não havia nascido e sido criado dentro da sociedade controlada pelo Estado mundial.

John era filho de Linda, uma beta que acidentalmente se perdeu em uma reserva indígena durante uma viagem de turismo. Lá ela deu à luz a uma criança do último homem com quem se relacionara antes de se perder, e, por conta da vergonha de ter se tornado mãe, é forçada a viver entre os índios. Contudo as reservas indígenas eram os únicos recantos do mundo onde ainda se era permitido viver como séculos atrás, e impedidos de se adequar as gritantes diferenças culturais entre Linda e os indígenas, mãe e filho foram durante muitos anos desprezados e excluídos socialmente pela tribo até que são resgatados por Bernard e Lenina e levados de volta para Londres.

Em Londres John passa a conhecer aquele mundo novo que só conhecia das histórias contadas pela mãe, e começa a sentir o forte choque cultural que essa aproximação lhe impõe, sobretudo quando se descobre apaixonado pela fútil e sedutora Lenina. Ele era muito ligado às tradições e aos costumes da reserva, e com a forte influência dos livros de Shakespeare, ele era incapaz de compreender a futilidade, a licenciosidade e a superficialidade daquele modo de viver. Era incapaz de entender que seu sentimento por Lenina jamais seria correspondido da mesma maneira, porque o amor sublime, por vezes platônico e capaz de sacrifícios inimagináveis, simplesmente não existia na realidade em que ela vivia, e da qual fazia parte. Ela não conhecia essas coisas e era incapaz de compreendê-lo, e ele, a ela.

Quando pesamos o quanto John e sua mãe eram considerados indesejáveis na Reserva e toda a sua relutância em aderir ao modo de viver e de pensar do Outro Lado, concluímos que ele não pertencia a nenhum dos dois mundos, nem ao da reserva, nem a da sociedade condicionada a qual pertencia Lenina, e por isso estava ainda mais deslocado e irremediavelmente perdido.

Outros personagens importantes na trama são: a própria Lenina Crowne, que como todas as moças de seu tempo era uma mulher superficial e pouco inclinada a compreender as excentricidades de Bernard e John; o rígido Diretor do Centro de Incubação de Londres, Thomas “Tomakin”, e o Administrador Mundial, Mustafá Mond, principal dirigente da sociedade londrina e inglesa e notadamente o homem mais culto da trama.

Controle total: totalitarismo como tema principal

Admirável mundo Novo é um livro de ficção científica, mas é também uma distopia moderna. O principal tema deste livro é o totalitarismo, um totalitarismo que passa a controlar não apenas a ideologia e o comportamento das pessoas, como também, através do condicionamento e do soma, o seu nascimento, suas preferências e seu lugar no mundo. Um controle total e quase inescapável, tanto onipresente (uma vez que todos dentro da sociedade se tornam vigilantes em relação aos comportamentos uns dos outros) como onipotente (já que o sistema direciona todos os aspectos da vida dos indivíduos). 

É muito claro na narrativa que o principal objetivo de Aldous é, ao mesmo tempo que critica o autoritarismo, demonstrar o destino para o qual a sociedade humana está caminhando: uma sociedade de supercontrole, consumista, superficial e da fugacidade.

Objetivando alcançar uma felicidade absoluta e incontestável a sociedade de Admirável Mundo Novo caminha para uma ditadura totalitária e de controle total. Para a filósofa política alemã Hannah Arendt, o totalitarismo tem de específico “a dominação permanente de todos os indivíduos em toda e qualquer esfera da vida[2], ou seja, exatamente o que é feito pela sociedade imaginada por Huxley.

As “medidas biopolíticas de administração da vida[3] existem e são aplicadas pelo Governo Mundial visando garantir o controle total sobre os indivíduos e seus corpos. A manipulação genética é utilizada para selecionar e agrupar os indivíduos, separando-os pelas potencialidades e cerceando por completo a liberdade de escolha; a propaganda ideológica serve à disseminação da obediência e da visão ideológica do sistema, naturalizando-as; a hipnopedia é empregada nas crianças para incutir a aceitação e o conformismo, ampliando as possibilidades de dominação absoluta na fase adulta – a mais complicada das fases; o soma existe como droga capaz de entorpecer os desejos e inconformismo, alienador químico, possibilidade de fuga controlada; a proibição da literatura para que ideias contrárias ao sistema e seus valores não sejam propagadas, bem como impedir o desenvolvimento da criticidade dos sujeitos para que eles não enxerguem como prisioneiros do sistema; e, por fim, o monitoramento constante dos comportamentos que desestimula a solidão e a exclusividade para que os próprios indivíduos se tornem vigilantes e vigiados, uma vigilância eterna, ininterrupta e sem rosto definido. Uma vigilância sem necessidade de câmeras.

Enfim, o que se vê em Admirável Mundo Novo é uma sociedade de controle total da vida, no qual cada aspecto do indivíduo (profissional, emocional, comportamental, amoroso, religioso e intelectual) é moldado a pensar e agir conforme a programação do regime.

Mas além de totalitária a sociedade de Admirável Mundo Novo é também utilitarista, forjada para o consumo e para uma vida emocionalmente fácil.

Tudo e cada coisa é medida e dado valor pela utilidade no tocante a torná-los felizes. Mesmo o corpo e o sexo deve ter essa utilidade, deixando de ser espaço individual e privado. Por outro lado, para sustentar o próprio sistema o consumo se torna essencial para que a economia esteja sempre em movimento. Consumista, a sociedade de Huxley se torna também do descarte, porque o que não é novo, o que não é tendência deve ser descartado eliminado, trocado, alimentando o consumismo irresponsável, despreocupado.

Se não bastasse, não há por que se preocupar com os laços por que eles não existem. Nesta sociedade vínculos familiares, de amizade e de amor inexistem. O primeiro é considerado uma aberração, um ato vergonhoso e quase criminoso. Os dois últimos são desestimulados para que se evite os excessos, os sentimentos de posse e de ciúmes. A felicidade pensada para essa sociedade é uma felicidade encontrada no descompromisso, caminho que, se pensarmos, já vem sendo seguido, sobretudo pelos mais jovens que buscam relações cada vez mais líquidas e descompromissadas. Contudo, a sociedade do livro de Huxley elimina completamente essas relações e as cercam de tabus.

Fico imaginando se não deveria ser solitário e vazio não se ter uma origem, não se ter pais ou família, viver com a certeza que será sempre só você e as pessoas que, transitoriamente, passarão por sua vida sem, no entanto, deixarem impressões profundas, sem que haja permanência e continuidade nessas relações tão somente marcadas pela realização dos desejos mais urgentes e efêmeros. Admirável Mundo Novo é, parafraseando Saramago, um ensaio sobre a efemeridade e a superficialidade. Ali tudo é efêmero ou superficial: a vida, os sentimentos, as relações, a utilidade das coisas. Acho que por isso mesmo houve a necessidade por aquela sociedade de adotar o consumo em massa de uma droga que fosse capaz de preencher as lacunas deixadas por essas coisas, por essas ausências, efemeridades e superficialidades que em nada combina com a natureza intensa e complexa do ser humano.

Contraditoriamente, a sociedade imaginada para o livro exalta a “comunidade”, o “fazer junto”, o “nunca estar só ou isolado” e o “compartilhar-se” literalmente. Todavia o resultado que essa exigência de comunidade produz no leitor é um sentimento de solidão inexpugnável, porque na verdade todos ali estão e sempre foram sós. Tudo no mundo daqueles personagens é vazio de conteúdo e profundidade, mas eles não são capazes de percebê-lo. O regime não o permitem ver.

Sátira da sociedade capitalista, consumista e utilitarista, em Admirável Mundo Novo Huxley faz sua crítica a sociedade capitalista moderna cada vez mais vazia de sentido em si. Tão acríticos quanto os personagens de sua trama, nós, a sociedade do consumismo e da liquidez, não vemos o vazio de nossas existências regidas pelo consumo do supérfluo e pelo desejo do que é inútil, vazio, entorpecente e alienante. A organização mundial da economia e a indústria cultural nos oferece o seu soma e como ovelhas lobotomizadas os seguimos sem refletir a essência das coisas. Nada é coletivo, mas é de massa. Os que por acaso se desviam deste caminho predefinido – semelhante ao que acontece no livro de Huxley – são acusados de desajustamento e sofrem preconceito, hostilidade ou são alvos de piadas.

Cheio de referências

Um dos livros mais importantes de Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo (Brave New World) foi escrito em 1931, mas só foi publicado no ano seguinte pela Chatto & Windus. O título é inspirado em uma passagem do livro A Tempestade (Ato V), de William Shakespeare, mas funciona dentro da trama como um jogo de palavras, uma vez que para John o mundo moderno e ultratecnológico de Admirável Mundo Novo é uma realidade nova e desconhecida. Contudo, o livro é ainda cheio de outras referências à obra de Shakespeare, bem como de várias personalidades importantes que influenciaram profundamente a ciência e a história recente da humanidade. As principais dessas referências são a Henry Ford, Sigmund Freud e Thomas Malthus.

Em uma sociedade extremamente industrializada em que até a fecundação e o nascimento dos indivíduos se dá como em uma linha de produção fabril, Henry Ford, mundialmente conhecido pela criação da Linha de Montagem, acaba por se tornar uma figura messiânica[4] dentro do mundo controlado pelo Estado Mundial. Ele é mencionado e exaltado a todo momento pelos personagens da trama. Não apenas seu nome como também algumas de suas ideias são mencionadas e configurando-se quase como um Deus, a referência a Ford substitui na trama até a tão conhecida expressão inglesa “my God” por “our Ford”, e a cruz, símbolo máximo do cristianismo, pelo “T”, nome do primeiro modelo de carro confeccionado pela empresa de Ford.

No caso de Freud o destaque é bem menor e por vezes citado no lugar de Henry Ford. Por sua vez, quanto a Thomas Malthus, economista britânico que via o crescimento da população como a causa da pobreza no mundo, a referência é bem mais sutil e relacionada aos métodos contraceptivos adotados pelas mulheres que podem reproduzir. Por fim, Shakespeare é outra grande referência na obra que cita através das falas de John – um dos poucos a ter tido contato com alguma obra de literatura – grandes passagens de obras como Macbeth, A Tempestade, Romeu e Julieta, Hamlet, Rei Lear, Sonho de uma Noite de Verão, Medida por Medida e Otelo.

Sobre a estética literária

Admirável Mundo Novo é dividido em 18 capítulos sem títulos e sem que haja grandes ganchos entre eles. Não há suspense ou grandes reviravoltas em grande parte de sua narrativa, mas Huxley garante a atenção do seu leitor pelo deslumbramento causado por um mundo absurdo, onde certamente não conseguiríamos nos encaixar facilmente. E é por ser absurdo um mundo sem pais, filhos, amor ou religião que o livro de Huxley causa em seus leitores mais sensíveis um sentimento de desolação e desesperança.

Apesar de escrito há quase 89 anos atrás a escrita de Huxley nesse livro é muito fluida e de fácil compreensão o que e aliado a tradução de Lino Vallandro ajudou bastante para o entendimento de todo o universo distópico e muito singular imaginado pelo autor.

O narrador deste livro é onisciente[5] e bastante complexo, ora mostrando distanciamento da narrativa ora “deixando marcas das suas impressões” como atesta Nelson Samuel Porto Veratti. Na sua narração, muitas vezes crítica, irônica e até desdenhosa, como a caracteriza o autor supracitado, o narrador permite que os pensamentos dos personagens se misturem à sua fala indo no íntimo das convicções e dos pensamentos alheios, sem, no entanto, acatá-los, por isso, Veratti o classifica como um “entre aqueles que não se deixam iludir pelas aparências” daquele mundo novo.

O que mais gosto nessa narrativa é sua crítica social ao totalitarismo, à sociedade do consumo, à superficialidade e à banalidade das relações do mundo dito pós-moderno. É quase uma aula de Zygmunt Bauman. Porém, o livro tem também seus pontos fracos e o principal deles é a lentidão do seu desenvolvimento. Contudo, esse foi um mal necessário sem o qual não conheceríamos e compreenderíamos a fundo nem o mundo criado para o livro nem as pretensões do autor ao escrevê-lo.

Notas finais: a atualidade de um livro complexo e fascinante

Admirável Mundo Novo foi escrito numa época na qual grande parte de seus avanços tecnológicos ainda se encontravam no campo do vir a ser, do pode vir a ser. O capitalismo financeiro e industrial se encontrava instalado e passava primeira de suas mais profundas crises, a grande depressão. O tom da obra transmite o pessimismo daqueles dias sombrios, nos quais as nações capitalistas viviam anos de profunda recessão econômica e desemprego crescente, regimes totalitários emergiam na Europa e as circunstâncias preparavam o terreno para uma segunda guerra mundial que eclodiria em set de 1939.

O profundo pessimismo de Huxley que não oferece saída a seus personagens reflete a própria atmosfera de um período no qual o futuro era incerto e as circunstâncias adversas, por isso esse tom carregado de desalento domina o livro. Mas em grande parte, para a sociedade da década de 30, Admirável Mundo Novo não fez tanto sentido quanto ele faz nos dias atuais de um capitalismo globalizado, de grandes avanços científicos e tecnológicos de uma sociedade liquida e consumista e com uma população mundial de 7,5 bilhões de pessoas (na década de 30 éramos pouco mais de 2 bilhões).

Parecemo-nos muito mais com a sociedade de Admirável Mundo Novo do que há 89 anos, quando instituições como a família e religião eram sólidas e as relações, duradoras. O consumo se encontrava limitado pelas circunstâncias dos anos difíceis, mas em anos anteriores, sobretudo nos EUA, havia ocorrido um crescimento exponencial do consumo por conta da busca incessante dos estadunidenses por manter o American way of life[6] (o estilo americano de vida) e concretizar o tão sonhado American Dream[7] (o sonho americano).

Por se parecer tanto com nossa sociedade é que Admirável Mundo Novo pode ser considerado visionário e fazer mais sentido hoje do que na época em que foi escrito. Com uma clareza impressionante o pesquisador Nelson Samuel Porto Veratti expõe a atualidade do livro de Huxley quando afirma que:

 “A passividade e a cooptação que caracterizam as personagens huxleyanas também estão presentes na massa acrítica do mundo atual, muitas vezes sedada por tranquilizantes (Soma), distraída por superficialidades sensoriais (cinema sensível e música sintética), conduzida pelo aboio ideológico capitalista (consumismo desenfreado), seduzida pela busca da felicidade a qualquer preço (hedonismo e ecstasy), privada das instâncias libertadoras (escasso incentivo à leitura e à reflexão) e infantilizada pela intolerância à frustração (liberdade sem responsabilidade), entre outras coisas

Enfim, a ideia do livro de Huxley não é só criativa como avançadíssima para a época em que a obra fora escrita. O autor antevê avanços como a inseminação artificial e a clonagem que só se tornariam possíveis muitas décadas depois. Além disso, o consumismo retratado na narrativa é um tema cada vez mais atual e próximo da forma como se dá na trama: ilimitado, superestimulado e inconsciente. Em muitos aspectos, como expõem Veratti, nos encontramos perigosamente próximos de um mundo admiravelmente novo.

O desfecho é inusitado, bastante realista e pessimista, mas bastante condizente com o caráter desapaixonado de seu narrador e de toda a narrativa, bem como com a insanidade daquele mundo. [ALERTA DE SPOILER SOBRE O DESFECHO]. Não havia ali possibilidade de um final romântico ou ingênuo, mas só da realidade crua e bruta de quando somos incapazes de nos encaixar e possibilidades de solução nos faltam. Aos personagens que conseguem vislumbrar algo para além do que o controle social lhe permite resta apenas duas opções:  ou aceitar o que é posto e aderir a ele, ou ir para o extremo contrário e abandonar tudo, pois não é a eles permitido transformar a realidade ao sabor dos próprios desejos ou convicções. Uma realidade inescapável tão não só pela morte.

Enfim, um livro crítico, atual, possível e desapaixonadamente marcante.

A edição lida é da Editora Globo, do ano de 2003 e possui 318 páginas. Abaixo você pode conferir uma prévia do livro em outra edição que se encontra disponível no Google Books.

Sobre o autor

Escritor inglês, Aldous Leonard Huxley nasceu em Godalming, no dia 26 de julho de 1894. Estudou no Balliol College, em Oxford e graduou-se em inglês em 1916.

Huxley é mundialmente conhecido pelos seus romances e ensaios.

Seus primeiros poemas foram publicados em 1916. Quatro anos depois lançou mais duas obras. Só em 1921 chegou a publicar seu primeiro livro de crítica social, "Crome Yellow", ainda sem tradução no Brasil.

Atuou como crítico literário e teatral e escreveu artigos para várias revistas. Foi editor da revista Oxford Poetry e publicou contos, poesias, literatura de viagem e roteiros de filmes.

A partir da década de 50, tornou-se um entusiasta do uso responsável do LSD, fazendo ele mesmo uso do alucinógeno. Em 1960, Huxley foi diagnosticado com câncer de laringe e faleceu em Los Angeles no dia 22 de novembro de 1963.

Prévia do Google Books



[1]Modo como estão interligadas as partes de um todo; organização, contextura

[2]ARENDT, H. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989

[3]Nelson Samuel Porto Veratti.

[4]https://pt.wikipedia.org/wiki/Admirável_Mundo_Novo

[5]Segundo Ana Paula de Araújo é quando o narrador “sabe de tudo. Há vários tipos de narrador onisciente, mas podemos dizer que são chamados assim porque conhecem todos os aspectos da história e de seus personagens. Pode por exemplo descrever sentimentos e pensamentos das personagens, assim como pode descrever coisas que acontecem em dois locais ao mesmo tempo”. (Infoescola).

[6]O Sonho Americano (em inglês: American Dream) é um ethos nacional dos Estados Unidos, uma variedade de ideais de liberdade inclui a chance para o sucesso e prosperidade, maior mobilidade social para as famílias e crianças, alcançada através de trabalho duro em uma sociedade sem obstáculos. (Wikipédia).

[7]O American way (em português, '‘jeito ou estilo americano’') ou American way of life ('estilo americano de vida’') é a expressão aplicada a um estilo de vida que funcionaria como referência de autoimagem para a maioria dos habitantes dos Estados Unidos da América. Seria uma modalidade comportamento dominante e expressão do ethos nacionalista desenvolvido a partir do século XVIII, cuja base é a crença nos direitos à vida, à liberdade e à busca da felicidade, como direitos inalienáveis de todos americanos, nos termos da Declaração de Independência. Pode-se relacionar o American way com o American Dream. (Wikipédia).


terça-feira, 22 de setembro de 2020

[Especial Zafón] “La Ciudad de Vapor”: livro póstumo de Carlos Ruiz Zafón é anunciado para novembro

Por Eric Silva

21 de setembro de 2020

Está sem tempo para ler? Ouça a nossa resenha, basta clicar no play.

Editora Planeta anuncia para novembro a publicação de uma coletânea de contos publicados e inéditos do escritor barcelonês.

La Ciudad de Vapor será publicado pela editora espanhola Planeta em novembro. 224 páginas. Imagem: Divulgação.

Após dois anos de luta, no dia 19 de junho deste ano, o escritor Carlos Ruiz Zafón perdeu a batalha contra um câncer e veio a falecer na cidade de Los Angeles, EUA, deixando aos seus leitores uma obra composta por oito romances publicados e uma série de contos e que o colocara na qualidade do escritor espanhol mais vendido no mundo.

A morte prematura do escritor fez supor que O Labirinto dos Espíritos, publicado na Espanha, em 2016, seria a última obra publicado do autor. Contudo, para a surpresa dos fãs, na última segunda feira (21), a editora espanhola Planeta anunciou a publicação de um livro póstumo de Zafón, com data prevista para o dia 17 de novembro ainda deste ano.

La Ciudad de Vapor, título escolhido para obra, é uma coletânea que reúne os contos publicados por Zafón em vida, além de outros textos do autor ainda inéditos. Trata-se de um copilado de onze narrativas breves, sete delas publicadas em jornais, revistas e edições especiais de suas próprias novelas e que, por isso, se encontram atualmente fora de circulação. Já as outras quatro narrativas, ainda inéditas, reúnem tanto personagens como situações presentes nos quatro romances da série O Cemitério dos Livros Esquecidos do qual fazem parte livros como A Sombra do Vento e O Prisioneiro do Céu.

Entre os contos já publicados e que farão parte da publicação anunciada se encontram Gaudí em Manhattan (2002) e Leyenda de Navidad (2003), ambos publicados no periódico La Vanguardia; La Mujer de Vapor e Alicia al Alba, ambos publicados no livro Barcelona Gothic, obra organizada por Libros de Vanguardia y Renfe em 2008.

Além destes, fazem parte também da coleção os contos Hombres de Gris (2008) e El Príncipe de Parnaso (2012) que foram publicados pela editora Planeta em edições promocionais. Por fim, há ainda o pequeno conto Rosa de Fuego, que apareceu na Magazine do periódico La Vanguardia em 2012. Estes dois últimos contos serão, em breve, resenhados aqui no blog dentro do projeto do Especial Zafón.

Apesar de só ter sido divulgado alguns meses após o falecimento do autor, o projeto do livro não é recente e foi discutido por Zafón e seu editor e amigo Emili Rosales, mas foi adiado com a piora do quadro clínico do escritor.

La Ciudad de Vapor, foi idealizado originalmente para ser uma homenagem aos leitores de A Sombra do Vento, mas será publicado como homenagem póstuma ao autor barcelonês.

O livro chegará às livrarias espanholas no dia 17 de novembro com uma edição também em catalão, segundo idioma da comunidade autônoma espanhola da Catalunha, onde se localiza a Barcelona eternizada pelos escritos de Zafón.

Não há previsão para uma edição brasileira.

Referências das informações coletadas

ALONSO, Begoña. Tu libro de otoño va a ser seguro 'La ciudad de vapor', la obra póstuma de Carlos Ruiz Zafón. Elle, [s.l.], 21 set. 2020. Disponível em: https://www.elle.com/es/living/ocio-cultura/a34092820/la-ciudad-de-vapor-cuentos-carlos-ruiz-zafon/. Acesso em: 21 set. 2020.

MORÁN, David. Los relatos inéditos de Carlos Ruiz Zafón verán la luz en «La ciudad de vapor». ABC, Barcelona, 21 set. 2020. Disponível em: https://www.abc.es/cultura/libros/abci-relatos-ineditos-carlos-ruiz-zafon-veran-ciudad-vapor-202009211109_noticia.html. Acesso em: 21 set. 2020.

VILA-SANJUÁN, Sergio. El libro “La ciudad de vapor” rescatará los relatos inéditos de Carlos Ruiz Zafón. La Vanguardia, [s.l.], 21 set. 2020. Disponível em: https://www.lavanguardia.com/cultura/culturas/20200921/483582072849/ciudad-de-vapor-ruiz-zafon.html. Acesso em: 21 set. 2020.

 

Postagens Relacionadas

Especial Zafón

Quem é Carlos Ruiz Zafón?

Resenhas

A Sombra do Vento – Carlos Ruiz Zafón – Resenha de Releitura

O Jogo do Anjo – Carlos Ruiz Zafón – Resenha

O Prisioneiro do Céu – Carlos Ruiz Zafón – Resenha

O Labirinto dos Espíritos – Carlos Ruiz Zafón – Resenha (em breve)

 


domingo, 13 de setembro de 2020

O Retrato de Dorian Gray – Oscar Wilde – Resenha

Por Eric Silva

19 de abril de 2020

“Não existem fatos morais ou imorais em um livro. Os livros são apenas bem ou mal escritos. Isto é tudo”.

(Oscar Wilde)

Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.

Diga-nos o que achou da resenha nos comentários.

Está sem tempo para ler? Ouça a nossa resenha, basta clicar no play.

A história fantástica de Dorian Gray, mesmo após de 130 anos, é uma ressalva sobre a corrupção nascida da vaidade e do ego ainda bastante atual, ainda que a intenção do autor não fosse originalmente dar nenhuma lição de moralidade. Complexo, dramático e absurdamente original em sua ideia básica de enredo, O Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde causou polêmica em sua época por trazer temas reprováveis pela sociedade da época, e é o tipo do livro que ou você ou vai amar ou odiar (e há muitos motivos para ambos).

Sinopse do enredo

O pintor Basil Hallward encontra um novo ímpeto e inspiração para sua arte depois que conhece o jovem Dorian Gray, um rapaz um tanto puro, ingênuo e imaturo, mas dono de uma beleza juvenil espetacular e que vinha chamando a atenção da aristocrática sociedade londrina. Movido por essa adoração quase romântica, Basil comenta com seu amigo, o hedonista e cínico Lorde Henry Wotton, sobre o seu achado. Exalta o caráter e beleza de Dorian e fala sobre o retrato estupendo do rapaz que com tanto afinco e arte ele pintava, ainda que Dorian se sentisse entediado de posar por tanto tempo para seu amigo pintor.

Curioso com a devoção apaixonada de Basil pelo rapaz, Henry insiste em conhecer Dorian, e também se encanta com o rapaz, logo se tornando amigos. Com a convivências com Henry, Dorian pouco a pouco se desvia para uma vida de prazeres imediatos e de superficialidades estéticas que o Lorde cultuava como o único tipo de vida que valia a pena ser vivida e que tratou de incutir na mente do rapaz.

Quando finalmente a pintura de Basil fica pronta, o pintor teme ter impresso na tela todo o seu íntimo e assim ter exposto seus sentimentos mais recônditos pelo rapaz. Então, decide presentear Dorian com o retrato pintado dele. Impressionado com a pintura, o rapaz se dá conta, pela primeira vez, de sua enorme beleza e inveja a pintura, porque ela nunca envelheceria, enquanto ele perderia o frescor da juventude com o transcorrer dos anos.

Depois daquele episódio, a medida com que o tempo passa, a beleza do rapaz aprece imutável e enquanto todos envelhecem ele se mantém jovem. Ao mesmo tempo, uma revolução se dá no caráter do rapaz, e Dorian vai se tornando ele também hedonista, egoísta e narcisista, entregando-se a um estilo de vida que transforma radicalmente a ele e ao retrato.

Resenha

Antes de começar, preciso fazer a seguinte observação: O Retrato de Dorian Gray possui duas versões, a original de 1890, com treze capítulos, e outra, publicada no ano seguinte, com vinte capítulos. Essa segunda versão ampliada e modificada foi exigência dos editores de Oscar Wilde que desejavam que a narrativa original de 1890 fosse suavizada, provavelmente pela recepção do público e as controvérsias entorno do livro.

A edição que eu li, é a versão original, bilíngue, contendo apenas os 13 capítulos originais. Por conta disso, essa edição não pode ser comparada, por exemplo, com o filme homônimo de Oliver Parker (2009), que possui personagens existentes na versão ampliada, mas que inexistem na versão original de 1890.

Como falei no lead desta resenha, O Retrato de Dorian Gray é uma obra complexa, dramática e absurdamente original em sua ideia básica de enredo. Mas preciso, no entanto, esclarecer cada um desses pontos.

Afirmo que o único romance escrito por Oscar Wilde é uma obra complexa por um motivo bastante peculiar. Em geral considero um livro complexo pela natureza de sua narrativa, mas este não é o caso, porque que em geral os acontecimentos narrados em O Retrato de Dorian Gray se dá em espaços fechados como o ateliê de Basil, ou em teatros e óperas, quando não nas salas de estar dos aristocratas Henry e Dorian. Não, em relação a enredo o livro é simples, bem pouco dinâmico e pesado na quantidade de diálogos. O que faz essa narrativa complexa do meu ponto de vista é a complexidade de dois de seus personagens principais. Falemos um pouco então deles: Dorian e Lorde Henry.

Dorian

O rapaz Dorian é de longe o mais complexo dos personagens do livro, porque o protagonista da trama foi pintado por Wilde com muitos matizes de cores e sua personalidade vai se metamorfoseando com o desenvolvimento da trama, tornando-o extremamente narcisista, imoral, insensível e até pérfido.

Segundo dá a entender o narrador, Dorian, antes mesmo de conhecer Basil, era um garoto ingênuo, puro e bom. Sua beleza física, que se encontrava na primavera da vida, se harmonizava com uma candura, talvez, bucólica, campestre. Mas talvez ele não fosse isso tudo, e essa minha sensação seja influência da atuação de Ben Barnes, que interpreta um Dorian bastante tímido e um tantinho interiorano no filme de Oliver Parker (2009). Mas seja como for, foram o culto recebido nos salões ingleses, mas principalmente a devoção apaixonada de Basil, que levaram o rapaz a tomar consciência do quão grande e fascinante era a sua beleza física, despertando nele a primeira semente de sua derrocada: uma vaidade até então adormecida.

Dorian, interpretado por Ben Barnes, ao chegar em Londres

Contudo, Henry, foi o ator e o regente principal da perdição do jovem Dorian, que inocente das maldades e vaidades do mundo, encontra no Lorde um instrutor para uma vida de prazeres supérfluos, devassidão, superficialidade e galanterias.

Henry incute em Dorian uma paixão doentia pelo que a vida e a sua condição podiam lhe dar. Dentro dessa paixão ele acaba deturpando ou afastando qualquer outro sentimento que possa prendê-lo ou afastá-lo de uma realidade que ele criou em sua mente e considera como perfeita. [ALERTA DE SPOILER]. Por isso, ele se mostra capaz distorcer a realidade para que ela caiba no que seu desejo lhe impõe, como convencer a si mesmo que Sibyl Vane, atriz sem sucesso por quem ele pensou estar apaixonado e que depois ele ilude e abandona por um motivo torpe e sem sentido, não cometeu suicídio por sua causa. Ele, literalmente, convence a si mesmo que não tem culpa por aquela morte desesperada, e passa a ver o caso com indiferença e a Sibyl como um sonho de um passado mais longínquo do que recente.

Além disso, essa paixão pela vida leva Dorian a ter uma sede insaciável por conhecer coisas novas, uma fome de conhecimento que poderia ser construtiva, se em outros aspectos de seu caráter o rapaz não fosse danoso a si e a todos os demais (na narrativa quase todo mundo que se relaciona com ele se desvia, entra em declínio ou tem fim trágico).

Contudo, Dorian não é, em nenhum sentido, um personagem plano, ou seja, previsível e constituído de uma única ideia ou qualidade. Em muitos momentos, a mente de Dorian parece enevoada e tentando resistir ao declínio rápido e acentuado de seu caráter. Ele tem momentos breves de sensatez e humanidade, mas que logo depois são espantados pela vaidade e degeneração a que estava submetido. Ainda assim, Dorian vai ser, até o fim da trama, egoísta e egocêntricos. Incapaz de arrepender-se de seus crimes e das consequências de seus atos. Até chega a surgir um lampejo de uma vontade de ser bom novamente, talvez resultado do cansaço promovido pelo peso de sua vida depravada, mas na minha opinião (a mesma de Henry), ele só estava inclinando-se ao desejo de sentir uma nova sensação, novamente agia por vaidade. Porque a imagem que construí de Dorian, é que ele só tinha pena de si mesmo e tudo que fazia era pensando unicamente em si, em sua vaidade e em alimentar sua fome de novidades, prazeres, de sentir novas sensações e de afastar o tédio.

Todo esse egoísmo e depravação de Dorian se tornam evidentes na pintura de Basil que passa a carregar em si o peso dos pecados e da consciência que o próprio rapaz parecia perder.  Tanto que seu instinto de esconder o quadro não era apenas para ocultar dos outros o seu segredo, era também ocultar de si a verdade de que ele se transformava em um monstro desalmado, porque a pintura, como um espelho, era o reflexo de sua alma corrupta. Por desejar nunca envelhecer e perder sua beleza, colocando a beleza e a estética na frente de tudo, de todos e de todas as coisas que ele teria “uma carga terrível de carregar”. Essa seria a frase que melhor ilustra o futuro de Dorian na trama.

 

Lorde Henry

Considero Lorde Henry Wotton como um hedonista desprezível. Henry é uma pessoa inescrupulosa, imoral e sob sua influência Dorian vai se tornando sórdido e desprezível. Um dos personagens mais repulsivos que já tive o desprazer de conhecer na literatura. A avó sadista dos Dollanganger de O Jardim dos Esquecidos, não conseguiu provocar em mim tanta repulsa quanto o personagem do aristocrata de O Retrato de Dorian Gray.

Lorde Henry, interpretado por Colin Firth

Ele é o que na época era chamado de dândi, um homem que se vestia de forma refinada, com excelente senso estético, conhecedor da arte, que defendia que a vida deveria ser vivida de forma intensa e que dava um enorme valor ao esteticismo e à beleza presente em detalhes miúdos e por vezes até insignificantes[1]. No popular um boa-vida muito bem trajado e cheio de tempo ocioso para pensar, tecer e falar sobre coisas pouco imediatas enquanto se entretém com jogos e lazer. Contudo, Henry era um dândi em decadência, além disso, um homem arrogante e sem nenhum moralismo.

Era profundo defensor da filosofia hedonista[2], mas um completo hipócrita, uma vez que ele mesmo não pusesse em prática as suas ideias. Em lugar disso, usava como experiências aqueles que, ao seu redor, fossem impressionáveis o bastante para se envolver em suas preleções pomposas, aparentemente muito profundas e reveladoras. Uma vez que os mergulhava em suas ideias Henry se entretinha em observá-los, estudá-los e distorcer pensamentos e sentimentos.

Dorian foi ingênuo e impressionável o bastante para se tornar um experimento de Henry, e, enquanto Basil criou sua obra-prima a partir da imagem de Dorian, impresso na tela, o aristocrata hedonista buscou tornar Dorian, literalmente, em seu magnum opus[3]. Talvez, acredito eu, que ele só o tenha conseguido porque faltou a Dorian orientação familiar. O rapaz havia tido como única família um tio que o desprezava, maltratava e o trancava, isolando-o do mundo. Dorian era novo demais e não foi preparado para pensar por si mesmo ou para separar o joio do trigo. Basil, que era profundamente moral, talvez pudesse tê-lo ajudado, se sua devoção, se sua paixão por Dorian não o tivesse tornado fraco e complacente[4] com os erros do rapaz.

Gosto de filosofia, mas o hedonismo e esteticismo apresentado pelo personagem Henry, me enojou bastante, não me convenceu e foi insuportável de ler.

Dramático e absurdamente original

Mesmo tendo falado mais profundamente destes dois personagens, porém, isso não é o suficiente para explicar porque eu acho O Retrato de Dorian Gray dramático, absurdamente original e o tipo do livro que ou você ama ou odeia, havendo muitos motivos para ambos.

Corrupção: o retrato antes e depois.

Histórias de maldições e de pactos com o demônio são comuns, mas eu ainda não vi nada na literatura moderna que se assemelhe a proposta de enredo de O Retrato de Dorian Gray e que não tenha sido inspiração na própria obra de Wilde.

Em primeiro lugar, temos aqui uma maldição muito peculiar: trocar de lugar com um retrato que envelhecerá em seu lugar e representará o âmago de sua alma como se fosse um espelho. Faz lembrar o conto da Branca de Neve, onde o espelho seria o retrato, e a vaidade o motor que move o seu usuário. Contudo, Dorian não é um bruxo. Ao contrário do que ocorre no conto dos Irmãos Grimm, trata-se de uma maldição que dota o personagem de uma personalidade muito singular e maquiavélica, sem, no entanto, dotá-lo de nenhum poder sobrenatural em particular o qual ele possa fazer uso. Mas se fossemos comparar esse texto a algum clássico antecessor, eu o compararia a uma releitura moderna do mito de Narciso.

Na trama, Basil talvez seria a versão masculina da ninfa Eco, que cultua a imagem de Narciso (Dorian), enamora-se e fica preso a uma torrente devocional que causa a desgraça dos dois. No caso, a Eco de Wilde confecciona a pintura que será a destruição dos dois.

No mito, por conta de Eco, que em algumas versões morre apaixonada, Narciso é levado por Nêmesis, deusa da vingança, a olhar para seu reflexo n’água e apaixona-se por sua própria imagem refletida, ficando tão fixado e incapaz de afastar-se da imagem, que morre ali mesmo à margem do regato. Dorian, assim como Narciso, era belo, orgulhosos e arrogante, e ao ver-se representado na tela de Basil, inveja a si mesmo, porque passa a amar a si mesmo mais do que a tudo e a todos. Como Narciso, era incapaz de se apaixonar, e por isso causou dor, não só a Basil, como a muitas outras pessoas que por ele se enamoraram. [ALERTA DE SPOILER] E pela vaidade e egoísmo condena a si e a Basil a um fim trágico.

“A própria agudeza do contraste costumava animar seu sentimento de prazer. Ele se tornava cada vez mais enamorado de sua própria beleza e cada vez mais interessado na corrupção de sua alma”.

Mas voltando a discussão.

Em segundo lugar, o livro de Wilde contém uma maldição nascida de um desejo muito forte, mas quase inconsciente e sem que haja uma promessa, um pacto demoníaco. E por fim, Wilde faz com que tudo isso se torne uma união entre o fantástico sobrenatural, sem perder as raízes na podridão muito real das relações humanas em uma sociedade hipócrita, conservadora e corrupta. Por isso, achei O Retrato de Dorian Gray original, sobretudo para a sua época.

Segundo afirma a introdução da edição lida, Wilde teria tido a ideia após ser chamado ao estúdio do pintor Basil Ward. Na época, o pintor estava finalizando uma pintura de um jovem modelo, e Wilde, após ter visto a obra teria dito: “é uma pena que tal gloriosa criatura um dia envelheça”, afirmação com a qual Basil Ward concordou e acrescentou: “seria maravilhoso se ele pudesse permanecer exatamente como ele é; a imagem do quadro é que deveria ganhar as marcas do tempo”. Daí nasceria a inspiração para o livro.

Contudo, apesar dessa ideia básica do enredo ser estimulante, instigante, a escrita de Wilde não ajudou muito. O Retrato de Dorian Gray é um livro pensado pelo autor para que seja filosófico e defenda suas ideias esteticistas e, por isso, o autor carrega a narrativa com diálogos pomposos e longuíssimos que logo entediam o leitor mais acostumado ao dinamismo da literatura contemporânea, ou simplesmente àqueles que não estão interessados na temática do hedonismo ou do esteticismo wildiano (este último é meu caso em particular).

Além desse fator, o livro é extremamente dramático no sentido dramatúrgico da palavra. Único romance do autor inglês que, no entanto, escreveu dezenas de peças teatrais, é provável que por conta da veia dramaturga de Wilde tudo nesse livro soa como uma grande peça de teatro, com longos discursos do narrador e diálogos extensos quase sempre com duas ou três pessoas no máximo.

Outro aspecto da narrativa a ser destacada é o seu conteúdo filosófico proeminente, ligado ao hedonismo e ao esteticismo (falo mais sobre logo a seguir), e que torna a leitura do livro um pouco irritante, bastante cansativa e me fez levar 105 dias para terminar de ler. Esses 105 dias é expressão do quanto muito pouco a escrita wildiana me estimulou a terminar de ler.

Por isso, afirmo que ele é um livro que ou você vai amar (pela originalidade e pela narrativa de cunho fantástico) ou odiar (por todos os outros motivos).

Temas que saltam à vista: esteticismo e homossexualidade

Como falei, O Retrato de Dorian Gray é um livro que aborda com ênfase o esteticismo.

Segundo Alexandre Garcia Peres[5], o esteticismo foi um movimento tanto artístico quanto intelectual que se desenvolveu ao longo do século XIX. Tinha por características o “[...] culto ao Belo na arte, em detrimento da função ético-moral que ela pode ter [...]” e “[...] foi um dos vários movimentos que se valeram da ideia de se fazer ‘arte pela arte’”.

Segundo informa a introdução[6] da edição que eu li “as bases do Esteticismo foram desenvolvidas principalmente por Walter Pater, professor de Estética da Universidade de Oxford [...].” A principal defesa do movimento seria “[...] o ‘belo’ como única solução contra tudo o que considerava denegrir a sociedade da época, onde em suas manifestações mais fortes, os valores estéticos têm predominância sobre todos os demais aspectos da vida, numa atitude elitista em relação à arte”. Seria naquele século um movimento, que contaria com o apoio de uma geração de intelectuais e artistas britânicos e que “[...] visava transformar o tradicionalismo na época vitoriana, dando um tom de vanguarda às artes”. 

Seguidor desta corrente Wilde imprime na sua obra muitos aspectos de suas ideias, e obviamente entrara em choque com a posição que era corrente na preconceituosa, moralista e conservadora sociedade vitoriana, “onde a Arte não é apenas um meio de se propagar a moralidade, mas também um meio de reforçá-la[7].

Por conta das ideias do esteticismo, o livro traz muitas referências às artes, desde as artes menores (joias e objetos decorativos), até as artes mais destacadas como às literaturas clássica e moderna, à música, dentre outras formas de artes. O capítulo nove, por exemplo, dedica várias páginas a falar dos hobbies de Dorian e as coisas que por algumas temporadas chamavam-lhe a atenção, e as quais se dedicava com afinco até abandoná-las e seguir para a atividade seguinte. Essas atividades, quase todas, estavam ligadas ao mundo artístico. Além disso, o amor passageiro de Dorian por Sibyl Vane estava mais ligado aos talentos artísticos da moça no teatro, do que de fato à pessoa que ela era: uma jovem apaixonada e inexperiente.

As ideias esteticistas estão também nos discursos tediosos de Lorde Henry e também nas observações do narrador. Por fazer essa defesa das ideias do autor, o narrador é bastante opinativo, porque ele representa a própria voz do autor, que como havia se referido uma vez, via nos personagens algo de si:

Basil Hallward é o que penso que sou: Lorde Henry é o que o mundo pensa de mim: Dorian Gray é o que eu gostaria de ser — em outras eras, talvez”.

Acredito que com isso ele queria firmar que era um apaixonado como Basil, mas que era visto como um degenerado que desviava inocentes, como Lorde Henry, e desejava ser tão encantador e fascinante quanto era Dorian.

Sou uma pessoa que gosta de filosofia, sobretudo do ato de pensar filosoficamente, apesar de ser mais da prática do que da teoria, mas esse autor me cansou verdadeiramente, não tive muita paciência de ler as ideias filosóficas de Wilde, e o texto se tornou um martírio para mim.

No entanto, algo que surpreende em O Retrato de Dorian Gray é a coragem de Wilde de, naquela época, fazer referências tão óbvias ao homossexualismo, sobretudo com o personagem do pintor Basil. Mas esta atitude corajosa se voltou contra ele quando, em uma contenda judicial contra o pai de um de seus amantes, passagens de O Retrato de Dorian Gray foram usados como provas das inclinações homossexuais de Wilde. Além de ter sido preso ele foi afastado de seus filhos e, depois, abandonou a Inglaterra.

A era vitoriana foi marcada por uma moral muito severa, marcada por valores que englobavam a “restrição sexual, pouca tolerância para o crime e um código social de conduta pública rigoroso[8] e nesse período foram constantes os processos por sodomia ilegal. Na época, os homossexuais eram tratados como sodomitas, uma referência a Sodoma, cidade citada na bíblia sobre a qual eram relatados casos de relações sexuais entre homens. A homossexualidade era considerada uma aberração e era alvo de estudos médicos que tentavam entendê-la.

No plano legal, a Emenda Labouchere à Lei de Emenda da Lei Criminal de 1885, tornou todos os atos homossexuais masculinos ilegais no Reino Unido. A punição para quem desrespeitasse pública ou privadamente a norma era de dois anos de prisão, em outras palavras, cometer ou ser parte em atos de homossexualidade era crime, mesmo quando isso ocorria de forma privada. Oscar Wilde foi um dos condenados por violar esta lei, em 1895, se tornando símbolo da repressão puritana inglesa[9].

Mesmo muitos anos depois, no Reino Unido, a homossexualidade continuou como um tabu que gerava punições. É também icônico o caso do cientista da computação Alan Turing, retratado no filme O Jogo da Imitação (2014) como um dos responsáveis pela vitória sobre os alemães durante a segunda guerra mundial. Turing era homossexual e, para não ser condenado a prisão, foi forçado a sofrer castração química em 1952. Ainda naquela época a orientação homossexual era amplamente considerada pelos britânicos como uma doença mental cujo tratamento eficaz seria a castração química[10]

Para finalizar...

O Retrato de Dorian Gray é um livro interessante e peculiar. Um romance gótico que seria um dos meus favoritos se tivesse sido escrito em outra época e sem o exagero de tantos diálogos longuíssimos e suntuosos, e sem tanto destaque para o hedonismo e o esteticismo que foi exaustivamente descrito por Wilde.

Os personagens são complexos e muito bem desenvolvidos e a trama fantástica (gótica) muito bem pensada e executada. O texto traz muitas referências a cidade de Londres, aos costumes ingleses em voga e também a obras da literatura clássica que tornam as notas de tradução indispensáveis. O desfecho não se dá pelos motivos mais criativos, mas não decepciona.

Atrevo-me a dizer, apesar de não ter gostado do livro, que a obra de Wilde é uma expressão vívida e apaixonada do idealismo de uma época e do íntimo de um grupo que era marginalizado, ainda que falar de homossexualismo não fosse o objetivo do autor, mas, como era de sua natureza e Wilde se coloca tão intensamente nesta obra, não foi possível a ele dissimular.

A edição lida é bilíngue (português e inglês), da Editora Landmark, do ano de 2012 e possui 224 páginas.

Sobre o autor

Nascido em 16 de outubro de 1854, em Dublin, na Irlanda, e filho de uma poetisa nacionalista, Oscar Fingal O'Flahertie Wills Wilde foi escritor, poeta e dramaturgo. Em quanto estudou em Oxford se aliou ao movimento artístico do Esteticismo. Casou-se em 1884 com Constance Lloyd, com quem teve dois filhos.

Embora conhecido nos círculos sociais, recebeu pouco reconhecimento por sua obra durante muitos anos.

Em 1895, o marquês de Queensberry, pai de Lorde Douglas amante de Wilde, iniciou uma campanha pública contra o autor. Após perder um processo judicial contra o Marquês, Wilde foi condenado a dois anos de trabalhos forçados. Ao ser libertado, se autoexilou em França, onde morreu na completa obscuridade em 30 de novembro de 1900.

 



[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/D%C3%A2ndi

[2] Cada uma das doutrinas que concordam na determinação do prazer como o bem supremo, finalidade e fundamento da vida moral, embora se afastem no momento de explicitar o conteúdo e as características da plena fruição, assim como os meios para obtê-la (HOUAISS, 2009).

[3] Refere-se a melhor, mais popular ou renomada obra de um artista ou pensador.

[4] Desejoso de agradar, de demonstrar cortesia, de servir

[5] PERES, Alexandre Garcia. Esteticismo – O que é? Quando surgiu? O que defende? Características e Artistas. Disponível em: <https://www.gestaoeducacional.com.br/esteticismo-o-que-e/>. Acesso em: 19 de abril de 2020.

[6] INTRODUÇÃO. In: WILDE, Oscar. O Retrato de Dorian Gray. São Paulo: Landmark, 2014. 224 p.

[7] INTRODUÇÃO. In: WILDE, Oscar. O Retrato de Dorian Gray. São Paulo: Landmark, 2014. 224 p.

[8] https://pt.wikipedia.org/wiki/Moral_vitoriana

[9] https://pt.wikipedia.org/wiki/Moral_vitoriana

[10] https://pt.wikipedia.org/wiki/Castra%C3%A7%C3%A3o_qu%C3%ADmica#Europa


Postagens populares

Conhecer Tudo