quarta-feira, 16 de novembro de 2016

O Caçador de Pipas em quadrinhos – Khaled Hosseini – Resenha

Por Eric Silva, dedicado a Beatriz Brizolara

Em uma edição linda, e muito bem-acabada, com ilustrações de Fabio Celoni e Mirka Andolfo, a versão HQ de O Caçador de Pipas vem recontar a emocionante e delicada história de Amir e Hassan, dois garotos afegãos cuja amizade ultrapassou as barreiras do tempo e da geografia, mas que também sofreu seus dramas, percalços e tropeços em meio ao cenário de um país segregado, preconceituoso e martirizado pela guerra.

Sinopse

Amir e Hassan nasceram no mesmo país e na mesma casa, em Cabul, capital do Afeganistão, porém pertenciam a etnias diferentes e condições sociais distintas. Mas entre os dois garotos estas diferenças não foram, por muito tempo, grandes problemas, e Amir aceitava a amizade devotada de Hassan ao mesmo tempo que lutava pelo reconhecimento do pai.

Amir admirava a coragem de Hassan e também o talento em conseguir localizar qualquer pipa que tivesse sido cortada no céu, e Hassan se maravilhava com a beleza dos contos escritos pelo único amigo. Um caçador de pipas e um contador de histórias, cuja amizade seria abalada pela incapacidade do ser humano de enxergar a dádiva de se ter uma amizade sincera e gratuita. Vinte anos mais tarde, quando Amir já vivia nos Estados Unidos, após ter abandonado o Afeganistão com seu pai, no episódio da invasão soviética ao país, o passado o obriga a retornar a uma terra arrasada e dominada pelo talibã para cumprir a difícil tarefa de expiar os seus próprios pecados.


Resenha

Ouvi falar muito sobre O Caçador de Pipas quando este já era considerado um clássico moderno, porque na época de seu lançamento, em 2003, nos EUA, e, em 2005, no Brasil, ter acesso a livros não era para mim algo muito fácil. A maioria dos meus livros eram dados ou encontrados na rua. Algumas poucas vezes minha mãe comprou algum livro que precisasse para a escola. Hoje muita coisa mudou e, mesmo assim, nunca cheguei a ler O Caçador de Pipas. Hoje me arrependo de não tê-lo feito logo, de não tê-lo feito ainda, pelo menos não em sua concretude. Logo, o texto de hoje será diferente dos demais. Não vou analisar de forma profunda a história, nem seus personagens e focarei apenas em explicar um pouco de quem é O Caçador de Pipas e fazer uma apreciação crítica da edição de versão HQ da história e através da qual conheci o enredo da trama. Quando ler o livro em si, me dedicarei a resenhá-lo de forma mais profunda, como costumo fazer.

Sobre o livro

O autor
Amir é afegão, mas vive nos Estados Unidos onde é casado e trabalha como escritor. Há vinte anos ele e o pai fugiram do Afeganistão em decorrência da invasão soviética ao país, mas o passado volta a afligi-lo quando, no verão de 2001, recebe a ligação de um velho amigo do pai que lhe pedia que fosse vê-lo no Paquistão. É o abalo provocado pela ligação inesperada que faz com que Amir recorde da Cabul da década de 1970, do Afeganistão de sua infância e do amigo Hassan.

Quando crianças Amir e Hassan eram inseparáveis. Mesmo sendo Hassan um hazara e Amir um pashtun, as antigas hostilidades e preconceitos entre os dois grupos por muito tempo não afetaram a amizade dos dois meninos. Da mesma forma como o fato de Amir ser rico e Hassan o filho do empregado da família parecia ser algo pouco relevante.

Hassan nutria por Amir uma amizade devotada e franca. Corajoso, sempre defendia o amigo e estava pronto para protegê-lo, e é no campeonato de pipas da cidade que o menino reafirma a sinceridade de sua amizade. Porém, quando Hassan se vê em apuros, Amir não tem coragem de defender o amigo e foge. [SPOILER] Depois daquele dia a amizade entre os meninos já não seria a mesma, abalada pelas más escolhas de Amir e que acabariam por afastar Hassan. Contudo aquela ligação telefônica, tantos anos depois, mostraria a Amir a oportunidade de um recomeço e de redenção dos seus pecados.

Lançado nos Estados Unidos em 2003, O Caçador de Pipas foi o livro de estreia do escritor e médico afegão, Khaled Hosseini. Filho de diplomata e nascido na cidade de Cabul, Hosseini vive nos EUA desde 1976 quando sua família se exilou no país em decorrência da invasão soviética ao Afeganistão. Seria do próprio exílio que o autor tiraria parte da inspiração de O Caçador de Pipas que logo se tornou um sucesso mundial e hoje já é considerado por muitos como um clássico.

A verdade é que o livro que conta a história de amizade dos meninos Amir e Hassan surgiu em meio a um período em que as relações entre o Ocidente e o mundo islâmico se encontra muito fragilizadas.
Em 2001 os ataques do 11 de setembro haviam abalado os EUA e o mundo. No mesmo ano o país invade o Afeganistão, e, em 2003, o Iraque de Saddam Hussein. Durante todo esse tempo o mundo assistiria pelos noticiários os dramas e aspectos de dois países arrasados pelas guerras e conflitos sucessivos, pela tirania de governos autoritários e fundamentalistas, e novamente arrasados no conflito contra os estadunidenses. A “guerra contra o terror” parecia muito longe de encontrar seu desfecho e a imagem que se instaurara no imaginário do mundo era a de um Afeganistão pobre, arrasado e violento. É nesse contexto que a publicação da obra de Hosseini surgiu para lançar um olhar mais humano sobre o país muçulmano e também para seu povo. Tamanho sucesso rendeu para a obra, no ano de 2007, a sua primeira adaptação para o cinema em filme do diretor alemão Marc Forster.

Sobre a edição

Uma das cenas mais comoventes da obra. Notem a qualidade do desenho
 e a preocupação com os detalhes tanto na composição da paisagem
como das diferenças físicas dos personagens. 
Como mencionei não vou analisar o enredo, porque por mais que a edição lida seja baseada no livro ela não contém todas as nuances da narrativa, nem transmite todos os conflitos internos de seus personagens. Por isso acho que comecei errado.

O Caçador de Pipas em quadrinho é uma obra interessante e bem-acabada, mas, acho eu, deveria ser lida especialmente por aqueles que já leram o livro, como numa espécie de regresso ao texto e de nova experiência a partir de outra perspectiva: a visual. Não quero afirmar que quem ler O Caçador de Pipas em quadrinho não vá compreender a narrativa. O livro dá conta da história em seus principais aspectos, questões e dramas, mas pela sua extensão e forma não dispensa a leitura do livro se o objetivo for conhecer o íntimo de seus personagens, seus pensamentos e sentimentos. Por isso digo que comecei errado, como aquela pessoa que primeiro assiste ao filme e depois lê o livro. Gostaria de ter lido primeiro o livro, para sentir a densidade da narrativa e dos seus personagens, mas agora a experiência será diferente do que seria se já o tivesse feito.

Mas falando da edição. O Caçador de Pipas em quadrinho tem uma qualidade gráfica muito boa com desenhos de Fabio Celoni e Mirka Andolfo. Celoni é cartunista e escritor italiano e desde o ano de 1990 trabalha como designer da Walt Disney Company entre vários outros trabalhos que compõe seu currículo. Já ganhou vários prêmios e realizou mais de 30 exposições na Itália e em outros países europeus[1]. Mirka, por sua vez, é também ilustradora, cartunista e colorista italiana e a coloração da edição original de O Caçador de Pipas em quadrinho (Il cacciatore di aquiloni), realizado pela editora Edizioni Piemme, em 2010, foi seu primeiro trabalho profissional de certo peso[2]. Hoje o livro, que tem textos de Thomas Valsecchi, já foi publicado em mais de dez países[3].

É fácil perceber o cuidado Celoni e Mirka na elaboração dos desenhos que compõem a obra. Os desenhos além de uma excelente qualidade gráfica e coloração impecável, são bastante detalhados buscando exibir com riqueza os cenários e os aspectos físicos de seus personagens. Não é preciso nem ser muito atencioso para notar nos desenhos do personagem Hassan, e um pouco menos em seu pai, os traços físicos asiáticos que são típicos de sua etnia, o diferenciando enormemente dos demais personagens por sua beleza exótica (farei depois uma postagem especial sobre os Hazaras). Além disso, os cenários das paisagens naturais e culturais típicos do país são também apresentados em riqueza de detalhes: as montanhas, os mercados e as ruas pobres e nobres da cidade de Cabul antes e depois das guerras. A linguagem visual da obra, como tinha de ser, é pujante e minuciosa em seus detalhes.

Sem dúvida, foi para combinar com a arte elaborada por Celoni e Mirka e com a qualidade literária da obra original, que a editora Nova Fronteira deu à edição brasileira um aspecto bastante luxuoso para o que vejo comumente em HQs, em formato de livro com miolo de papel offset (120 g/m²) e capa de papel cartão (250 g/m²).

Recomendo o HQ para quem já leu o livro e gostou, mas para aqueles que não leram ainda, como eu, tenham certeza que ficarão tentados a fazê-lo.

A edição lida é da Editora Nova Fronteira, do ano de 2011 e possui 132 páginas.



[1]https://it.wikipedia.org/wiki/Fabio_Celoni
[2] https://it.wikipedia.org/wiki/Mirka_Andolfo
[3] Ibidem.

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