quarta-feira, 1 de março de 2017

A Serraria Baixo-Astral – Lemony Snicket - Resenha

Por Eric Silva

Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.

Diga-nos o que achou da resenha nos comentários.


Com a chegada das Desventuras em Série na Netflix e vendo o entusiasmo de um dos meu alunos quando este decidiu começar a leitura da série de Lemony Snicket (ou Daniel Handler) resolvi retornar a minha própria leitura da série que estava parada desde março do ano passado. Na sequencia o próximo livro que deveria ler era A serraria Baixo-Astral, quarto livro da série que narra as desventuras dos irmãos Baudelaire com um novo e péssimo tutor que os poriam em mais uma situação complicada e perigosa. Para mim uma leitura com um enredo bastante previsível e com muitas fraquezas, mas que ao mesmo tempo trouxe à tona o tema da exploração do trabalho infantil e a delicada questão da dignidade humana do trabalhador.

Sinopse

Depois dos trágicos incidentes ocorridos às margens do lago Lacrimoso que terminaram com o fim de mais um tutor dos irmãos Baudelaire e uma nova fuga do desprezível Conde Olaf, Sr. Poe conduz os jovens irmãos para mais um novo tutor, Senhor, o dono de uma serraria na cidade de Paltryville. Em Paltryville os irmãos Baudelaire conhecem a fatigante e explorada vida dos trabalhadores da serraria Alto-Astral e são forçados pelo seu tutor a trabalharem na perigosa profissão, sob o regime autoritário do sádico capataz Flacutono em troca de serem mantidos longe das investidas do Conde Olaf.

Resenha

Desde março de 2016 que eu não pegava nos livros de Desventuras em Série para dar continuidade a minha leitura que havia parado com os três primeiros livros da série que correspondiam ao roteiro da versão fílmica da série. Mas depois que Reinaldo, um dos meus alunos e leitor voraz antenado com o mundo geek e pop, começou a ler a série e a Netflix anunciou uma nova série baseada nos livros de Snicket, resolvi retornar aos livros de Desventuras. E só para constar, tenho minhas desconfianças de que a série da Netflix possa dar mais alma a narrativa das desventuras dos irmãos Baudelaire do que os próprios livros de Snicket.

No quarto livro da série, titulado nos Estados Unidos como The Miserable Mill (algo como O Miserável Moinho em tradução livre) e traduzida no Brasil como A Serraria Baixo-Astral, os irmãos Baudelaire são entregues na cidade de Paltryville a um novo tutor.

Senhor, como é chamado o novo tutor uma vez que ninguém conseguia pronunciar seu verdadeiro nome, era sócio-diretor da serraria Alto-Astral e decide que a condição para que ele mantivesse os irmãos em segurança era os mesmos trabalharem na serraria na condição de empregados. Sem saber dessas condições (ou talvez não, quem sabe) Poe envia os irmãos para Senhor e os jovens Baudelaire são obrigados a se submeter a condições precárias de um trabalho inadequado para crianças (se é que existe um trabalho adequado para crianças) sob o comando de um capataz sádico e cruel.

Na serraria Violet, Klaus e Sunny descobre os árduos afazeres e as lamentáveis condições de trabalho dos funcionário da Alto-Astral que, além de viverem amontoados em beliches de um dormitório sem janelas, só recebiam chicletes no almoço e tickets como pagamento. Contudo o mais desesperador para as três crianças é a eminente possibilidade do aparecimento inesperado de Olaf e de seus compassas que poderiam surgir a qualquer momento com mais um de seus planos diabólicos.

Bem, não sou bem um fã da série, mas admiro algum de seus principais aspectos: o seu estilo gótico, a escrita sincera do autor, as paisagens incríveis em cenários surreais e os personagens exóticos e absurdos {se quiserem conferir a resenha dos outros três livros link aqui}. Além disso a versão da história no filme estrelado por Jim Carrey é muito boa – a verdade é que comecei a ler por conta do filme.  Por outro lado, em muitos momento Desventuras em Série assume uma monotonia e uma repetição da lógica dos acontecimentos que me incomodam e tornam a história muito previsível à medida que vamos avançando de um volume para outro. Mas falemos do quarto volume que é o primeiro dos livros da série que não fizeram parte do roteiro da versão para o cinema.

Começando pelos pontos negativos, achei que A Serraria Baixo-Astral além de possuir uma história de pouca complexidade, também traz para o leitor da série um enredo fraco e bastante previsível. À parte algumas coisas que irei discutir a seguir sobre o livro, a narrativa do quarto volume não tem muitas emoções, ou muito movimento. [SPOILER em itálico] Logo no início Lemony nos chama a atenção para uma casa em particular que possui o grotesco formato de um olho – a marca de Conde Olaf – e essa decisão, de cara, nos entrega boa parte da trama, bem como a localização do Conde. Além disso, fica óbvio, desde o começo, que o capataz era o próprio ou tinha relações com o Conde Olaf. Isso já minou boa parte do meu interesse.

Mais à frente somos apresentados aos dramas dos trabalhadores da serraria, à personalidade exploradora do tutor e ao capataz intransigente e de péssima índole, porém as complicações que daí se seguem e que acabam levando os irmãos ao Conde – [SPOILER em itálico] e aqui eu me refiro aos eventos relacionados aos incidentes com os óculos de Klaus e de sua consequente hipnose – foram fraquíssimas, na minha opinião. Ademais, o livro de Snicket continua apostando na já desgastada fórmula de que os adultos só passam a acreditar nos irmãos quando tudo se complica e o Conde mostra sua cara. Se isso não bastasse ainda tem a cansativa e completa falta de tato por parte do Sr. Poe que sempre deixa o Conde fugir quando finalmente o tem encurralado.

Porém o livro não foi de todo ruim. Em primeiro lugar porque partes do desfecho, ainda mais macabro do que no terceiro livro, compensa um pouco as fraquezas da narrativa, entretanto alguns pontos extremamente inverossímeis meio que enfraquecem essa parte da história e por isso o desfecho também não é o ponto alto do livro na minha opinião. O ponto alto está no mistério que envolve uma de suas personagens e no valor social da narrativa que, mesmo não sendo esse o objetivo, nos faz pensar em algumas questões como o trabalho análogo à escravidão e o trabalho infantil.

O primeiro ponto que me deixou curioso na história foi o novo tutor e pergunto-me porque o autor fez questão de ocultar completamente a sua identidade. Senhor é retratado na história como um homem baixo e cujo rosto sempre ficava oculto por trás da nuvem de fumaça que vinha de seu charuto. Uma caricatura dos empresários magnatas que obtém seus lucros da exploração do trabalho e da destruição da natureza. Contudo, a insistência de Lemony de esconder sua identidade por trás de um nome impronunciável e de um rosto encoberto pela fumaça inverossímil de um charuto é no mínimo intrigante. Será Senhor uma futura peça-chave da série?

Mas o tutor dos infortunados irmãos ainda o mais estranho e distante de todos os anteriores, é também um homem autoritário e explorador que impõe aos jovens um regime de trabalho ainda mais cruel e perigoso do que aquele imposto por conde Olaf no primeiro livro, Mau Começo. Além de incapaz de demonstrar qualquer afeição pelas crianças ele dispensa aos Baudelaire o mesmo tratamento grosseiro que dava aos seus empregados e encara a presença dos irmãos na serraria como apenas mais uma transação de negócios em que ele oferecia uma suposta proteção em troca de trabalho não remunerado.

Tamanho era o desprezo e indiferença que Senhor tinha pelas crianças, considerando-as um estorvo, que chega ao ponto de decidir que as entregaria a uma estranha que conhecera em um almoço, apenas porque esta manifestara em seu dialogo o desejo de adotar crianças. Se isso já não bastasse, o sócio de Senhor, Charles, demonstra maior consciência e até tenta ajudar as crianças da sua maneira, mas seu temor em irritar o sócio é tão grande que, num ato de covardia, o mesmo acaba se submetendo a vontade absoluta de Senhor e é conivente com os excessos e a exploração que ocorre no estabelecimento.

Mas com certeza o aspecto mais importante e interessante que encontrei neste livro é o que parece ser uma denúncia nas entrelinhas do trabalho infantil e do trabalho análogo a escravidão.

Polícia Federal Brasileira em operação de fiscalização para combate
ao trabalho escravo ou análogo à escravidão. Imagem:  Portal/MTe.
Algo que é de conhecimentos de poucos, infelizmente, é que a escravidão não desapareceu completamente do mundo, e mesmo no Brasil ela ainda existe, contudo, não mais nos mesmos modos que correra no tempo dos negros. Apenas seu modus operandi se modificou, bem como a categoria escravo.

Hoje no nosso país a escravidão, ou melhor, o trabalho análogo a escravidão é entendido assim como está disposto no artigo 149 do Código Penal Brasileiro: “Reduzir alguém a condição análoga à de escravo, quer submetendo-o a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-o a condições degradantes de trabalhando, quer restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o empregador ou preposto”.

Ou seja, trabalho escravo é toda atividade em que o patrão impõe aos seus trabalhadores: trabalho forçado, obrigando-o “a se submeter a condições de trabalho em que é explorado, sem possibilidade de deixar o local seja por causa de dívidas, seja por ameaça e violências física ou psicológica”; jornada exaustiva que vai além de horas extras e coloca em risco a integridade física do trabalhador, já que o intervalo entre as jornadas é insuficiente para a reposição de energia”, servidão por dívida e condições degradantes como alojamento precário, falta de assistência médica, péssima alimentação, falta de saneamento básico e água potável, maus-tratos (incluindo humilhações verbais) e uso de violência[1].

As condições de trabalho na serraria Alto-Astral a que somos apresentados não fogem muito ao que a lei, pelo menos a brasileira, entende como trabalho escravo. Primeiro, o alojamento onde TODOS os empregados da serraria de Senhor vivem não possui uma única janela para garantir nem ventilação nem a iluminação natural do lugar, o que deixa o ambiente constantemente com o cheiro de mofo. Em segundo lugar, os operários da serraria não recebem salário pelo seu trabalho, em lugar disso são pagos com tickets absurdos como “vinte por cento de desconto num xampu no Salão de Cabelereiro do Sam”, ou tickets que valiam chá gelado, ou ainda pior, “compre dois banjos e ganhe um de graça”. Em terceiro lugar, a longuíssima jornada de trabalho começa sem o desjejum e ao som do panelaço e das ofensas do capataz. A primeira refeição acontece apenas ao meio-dia quando cada um recebe um chiclete como almoço e cinco minutos para fazerem a refeição antes de retornarem ao trabalho. A única alimentação mais substancial que os empregados recebem é o jantar ao fim do expediente e que consiste, em geral, em carne com legumes cozidos. É preciso dizer mais alguma coisa?

Mas se isso não bastasse, Senhor obriga os irmãos Baudelaire a trabalhar junto com os adultos em tarefas como operar máquinas perigosas, lidar com instrumentos afiados de decorticação (processo de retirada da casca, córtice ou cortiça de árvores, arbustos etc.), carregamento de peso, no caso toras de madeira, e o trabalho com a serra que transformava a tora em tábuas. Trocando em miúdos, trabalho infantil, insalubre e perigoso.

Todas estas situações absurdas me levaram a crer que um dos objetivos do autor seja denunciar, ao seu modo e nas entre linhas de sua narração, bem como na fala de alguns poucos personagens, a exploração do trabalho que beira ao estado de escravidão, e, principalmente, denunciar o trabalho infantil, ambas realidades muito contrastantes com o propalado discurso dos direitos humanos. Inclusive, a cena em que Sunny, a menor dos irmãos, por não ter como manusear decorticador passa a retirar a casca das toras com os próprio dentes é a mais revoltante.

Enfim, A Serraria Baixo-Astral é um livro que não me agradou muito por sua narrativa em muitos momentos fraca e previsível, mas que, por outro lado, possui um peso social considerável por nos fazer pensar que, à parte os absurdos e exageros caricaturais que são a marca registrada da série, no mundo do trabalho ainda existe uma série de injustiças e crimes que são cometidos contra a dignidade humana e contra o direito à infância.

A edição lida é da Editora Companhia das Letras, do ano de 2002 e possui 176 páginas.
               




[1] http://escravonempensar.org.br/sobre-o-projeto/o-trabalho-escravo-no-brasil/

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