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domingo, 1 de novembro de 2020

[Especial Zafón] O Labirinto dos Espíritos – Carlos Ruiz Zafón – Resenha

Por Eric Silva

15 de abril de 2020

As recordações que enterramos no silêncio são as que nunca deixam de nos perseguir

(O Labirinto dos Espíritos – Carlos Ruiz Zafón).

 

Está sem tempo para ler? Ouça a nossa resenha, basta clicar no play.

Retomando o Especial Zafón trago a resenha do livro épico que fecha a Série do Cemitério dos Livros Esquecidos. Numa trama noir e cinematográfica, O Labirinto dos Espíritos faz confluir as narrativas de todos os principais personagens da série e explora de forma bastante incisiva o lado obscuro do passado da cidade catalã de Barcelona nos seus tempos de regime franquista, denunciando as atrocidades que eram comuns durante e também após a Guerra Civil Espanhola.

Sinopse do enredo

A Espanha vivia o auge da Guerra Civil que culminaria com ascensão do General Francisco Franco quando Barcelona se tornou o alvo da Aviazione Legionaria italiana. Entre os dias 16 e 18 março de 1938 a cidade catalã seria intensamente bombardeada e 1.300 pessoas morreriam no ataque[1].

Na época, Alicia Gris ainda era uma menina que só escapou da morte, graças a inesperada ajuda de um amigo de seu pai, o foragido Fermín Romero de Torres. Desesperados, os dois fogem pelos telhados dos prédios vizinhos à casa da menina até que uma explosão os separa e deixa em Alicia uma ferida que a torturaria pelo resto de sua vida.

Vinte e um anos depois, Alicia é uma investigadora talentosa que percorre o submundo da capital espanhola solucionando casos a serviço do sistema franquista. Quando o ministro da educação, Maurício Valls, desaparece, a moça é recrutada para investigar e determinar seu paradeiro. É nesse momento que ela e seu parceiro no caso, o capitão Vargas, imergem numa trama obscura envolvendo o passado do ministro e que tem início ainda no período da guerra, quando ele ainda era diretor da prisão barcelonesa de Montjuic.

Em Barcelona, Daniel Sempere, protagonista de A Sombra do Vento, vive uma vida pacata ao lado da esposa e do filho, Julián, mas é constantemente atormentado pelas sombras do mistério que cerca a morte de sua mãe, Isabella. Angustiado pelo seu desejo de vingança, o rapaz dedica-se secretamente a investigações inúteis sobre seu principal suspeito, o desaparecido ministro Valls, enquanto administra a livraria do pai ao lado da esposa e de Fermín.

A medida que a investigação de Alicie avança, os fios que compõe a trama de uma história cheia de crimes e segredos vão convergindo e se entrelaçando à história da família Sempere, e em pouco tempo o destino de Alicia, Daniel e Fermín se entrecruzam revelando mistérios e fechando lacunas que foram deixadas nos livros publicados anteriormente. Assim, a macronarrativa do Cemitério dos Livros Esquecidos, que teve seu início a 18 anos atrás (2001 foi o ano de publicação de A Sombra do Vento), encontra seu desfecho com o entrecruzamento das várias narrativas dos muitos personagens que compõem a série.

 

Resenha

Quarto e último livro da série O Cemitério dos Livros Esquecidos, O Labirinto dos Espíritos reúne, integra e faz confluir as narrativas de todos os principais personagens da série, fazendo dos livros predecessores afluentes de um rio tortuoso que vai preenchendo as lacunas e clareando os livros anteriores. Ao mesmo tempo essa é também a mais longa narrativa de Zafón, que introduz na trama a história de um novo e importante personagem: a sombria e sarcástica Alicia Gris.

Sou fã declarado da série e do estilo de escrita de Zafón e a leitura de O Labirinto dos Espíritos me prendeu de forma irresistível em seu labirinto de histórias, tragédias e tramas. Zafón constrói cenários, enredos e personagens de uma forma única e, em seu estilo sombrio e misterioso, compõe com uma escrita que me fascina. O Labirinto dos Espíritos é mais um atestado da qualidade da obra do escritor barcelonês que fecha com estilo a sua série mais famosa.

Percebi que ao longo da escrita da série Zafón optou por escrever combinando as características de diferentes gêneros literários. A Sombra do Vento é basicamente um livro de mistério e aventura, característica que é mantida em O Prisioneiro do Céu, entretanto, esse último vai além da aventura e ressalta o cenário de terror da ascensão do regime franquista. Por sua vez, O Jogo do Anjo possui uma pegada mais sobrenatural e gótica, no qual elementos mágicos e a loucura são muito explorados. Contudo, O Labirinto dos Espíritos é essencialmente um romance noir[2]. Digo isso porque seu principal foco está nas investigações de Alicia e seu companheiro Vargas que na busca por encontrar o paradeiro de Valls revira o seu passado e desenterra seus crimes.

Diferente do que ocorre em A Sombra do Vento, no qual Daniel e Fermín investigam o passado do escritor maldito Julián Carax, os personagens do último livro da série são de fato investigadores profissionais.

Alicia não é uma policial como Vargas, mas não deixa de se comportar como uma investigadora, uma detetive implacável. Ela é uma mulher soturna e sofrida, como tantas outras que sobreviveram aos tempos de guerra.  Como investigadora Alice é uma pessoa curiosa, determinada e capaz de tudo. Sua aura é sombria e até mesmo fatal e seu humor sarcástico só vacila quando as dores de seu ferimento de guerra a atormentam. Mas no fundo ela é também uma pessoa sensível e que ama, uma literata apaixonada e alguém que inveja a felicidade modesta daqueles que vivem uma vida comum. Como um mosaico de sentimentos conflitantes que vão da frieza a doçura, Alicia é um personagem singular e único dentro do livro responsável por revelar cada um dos fios que ligam os muitos personagens da série.  Não é à toa que ela é a personagem preferida de seu criador.

Vargas, por sua vez, faz o papel do investigador durão e rústico, comilão e que odeia demonstrar qualquer tipo de fragilidade. Ele é o típico policial que, de tão acostumado ao submundo e aos seus horrores, já não consegue ter uma perspectiva positiva da vida, além de carregar consigo todo o peso de um passado de tragédias e traumas.

Juntos, mesmo que contra a vontade, os dois reviram o passado nebuloso do ministro Valls e revelam a corrupção e a podridão que existe por trás do sistema e das pessoas ilustres que representam o seu panteão.

Quanto a Daniel, também nesse livro sua participação é modesta, como vinha se revelando nos volumes anteriores protagonizados por outros personagens, mas tudo conflui para ele e para o passado de sua família como também já se era de esperar. O mesmo se dá com Fermín que, depois do seu protagonismo em O Prisioneiro do Céu, volta a dar mais espaço aos novos personagens, contudo ainda sendo uma peça chave para o desencadeamento da narrativa e para ligar as histórias de cada personagem na trama.  Por vezes, me questiono se Fermín não seria o grande personagem dessa série, haja vista a sua extensa participação nos fatos ocorridos em várias épocas da linha histórica de O Cemitério dos Livros Esquecidos.

Estilo e temática de um livro mosaico, caleidoscópico

Em O Labirinto dos Espíritos, Zafón volta a falar da corrupção e de toda a podridão impregnada dentro do sistema implantado durante o governo do general Franco. Os horrores do fim da Guerra Civil Espanhola também são novamente invocados.

Fotografia do bombardeio aéreo de Barcelona em 17 de março de 1938, visto de um bombardeiro italiano. Wikimedia Commons.
Fotografia do bombardeio aéreo a Barcelona em 17 de março de 1938, visto de um bombardeiro italiano. Wikimedia Commons.


Barcelona e Madri são cidades mergulhadas na obscuridade, ainda mais sombrias do que a Barcelona narrada pelo olhar de Daniel no primeiro livro da série. A narrativa, as suas personagens e os lugares que lhes servem de cenário estão impregnados pela melancolia, pelo sabor de derrota e pela taciturnidade dos espanhóis, mas principalmente pelas sombras pesadas de um regime que espalhara a morte e cultivava o terror através de seus agentes sombrios, que carregavam a morte no olhar e ceifavam vidas em nome de um sistema deturpado e a favor apenas dos mais poderosos.

Mas o elemento que mais se destaca no livro é o estilo. O Labirinto dos Espíritos representa, sem dúvida, o ápice da escrita de Zafón. Nele seu estilo que mistura poética, romance gótico e policial ganha um maior refinamento e sua escrita chega ao seu auge.

Sempre comento como admiro o estilo poético e cheio de construções estilísticas da escrita de Zafón. Mesmo falando sobre temas sombrios ele escreve de uma forma única que lhe é peculiar e que ajuda a construir com sombras e vapores os cenários e a atmosfera de seus enredos. A escrita é bastante descritiva, mas nunca se torna cansativa. Humor, sarcasmo, ironia e divagações poetizadas se misturam a uma descrição impecável e original que encanta aqueles que, como eu, apreciam um texto muito bem escrito. Mas o que o escritor barcelonês faz no último livro de sua série é levar ao ponto mais extremo esse seu estilo único e compor o volume mais bem escrito da coleção.

Confesso que ainda prefiro A Sombra do Vento, o livro mais romântico da série e que apresenta meu personagem predileto, Daniel. Ali Barcelona é uma mistura de sombras e perfumes que se misturam e revelam uma cidade cheia de mistérios, perdas e pessoas sofridas e taciturnas. Mas, ao mesmo tempo, é uma cidade que permite o florescer dos amores juvenis e inconsequentes como o de Daniel e Beatriz, e que abriga, apesar dos pesares, os sonhos daqueles que possuem muito pouca esperança.


Não obstante, à medida que avançamos na série, Barcelona vai se tornando cada vez mais sombria, por vezes gótica, mas sempre encoberta por um véu de obscuridade formada pelo medo, por mentiras e mistérios, e pela crueldade da guerra e do regime de Franco. O Labirinto dos Espíritos explora de forma ainda mais incisiva esse lado obscuro do passado da cidade catalã e denuncia as atrocidades cometidas durante a Guerra Civil Espanhola, ao mesmo tempo que faz uma excursão pelos bastidores do sistema implantado após a sua conclusão.

O romance é mosaico e em suas muitas partes ele vai conectando cada uma das narrativas contadas nos livros anteriores da série, compondo um labirinto com muitas portas, ramificações e fantasmas. Todas as histórias e personagens do Cemitério dos Livros Esquecidos convergem para essa trama e muitos pontos propositadamente deixados soltos nos demais livros vão sendo preenchidos e os vários fios da trama são atados em um ponto de convergência único.

Podemos considerar que em si o livro todo é o desfecho de uma grande história, a do Cemitério dos Livros Esquecidos, mas Zafón também buscou dar ao Labirinto dos Espíritos um desfecho completamente e indubitavelmente fechado, o que nos torna oficialmente órfãos da série.

O autor dá destino a todos os seus personagens, encerrando para sempre uma das melhores séries que já li. Por isso, O livro de Julián, a última parte que compõe a história, não só nos dá uma noção de depois, indicando os desdobramentos das vidas de cada personagem, como também nos dá uma noção da transformação sofrida pela Espanha com o final do regime franquista. A cidade que vemos é uma cidade que se moderniza e que dissipa as trevas e a lugubridade que marcam a Barcelona da série.

Assim, a história épica que começa com o jovem e ingênuo Daniel Sempere em uma madrugada de magia e descobertas, se encerra com a perigosa aventura de Alicia Gris e com o destino da nova geração que vislumbra, com brilho nos olhos, a magnífica basílica de livros, o Cemitério dos Livros Esquecidos.

Enfim, um fim digno a uma narrativa caleidoscópica que por 15 anos embalou os leitores assíduos e apaixonados de Zafón.

A edição lida é da Editora Suma, do ano de 2016 e possui 680 páginas.

Sobre o autor

Saiba mais sobre Carlos Ruiz Zafón na postagem especial que fizemos sobre ele.

Preview do Google Books

Abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Google Books.

 



[1]https://pt.wikipedia.org/wiki/Bombardeio_de_Barcelona

[2]Os romances Noir, Preto em francês é o tipo de romance policial onde os personagens são mais humanizados, os detetives nesse tipo de história, costumam beber, brigar, se envolver em romances e sexo. Também existem outras tramas paralelas, a história portanto não gira em torno de apenas um fato, mas vários. (Wikipédia)



sábado, 12 de dezembro de 2020

[Especial Zafón] Rosa de Fuego (conto) - Carlos Ruiz Zafón - Resenha

 Por Eric Silva para o Especial Zafón

12 de dezembro de 2020

Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.

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Conto breve que remota às origens do Cemitério dos Livros Esquecidos, Rosa de Fuego retrocede até a Barcelona do século XV, em meio a tragédia de uma praga de febre e das atrocidades cometidas pelo Tribunal do Santo Ofício, para contar como tudo começou e como chegou a um dos primeiros membros da família Sempere a semente que originaria o lendário e labiríntico palácio feito de livros que povoa as narrativas da série que leva seu nome. Uma história curta e de cunho fantástico que até então nunca foi traduzido para o português e que compõe o livro póstumo do autor, La Ciudad de Vapor.

Confira a resenha de mais esta obra em mais uma postagem do projeto do Especial Zafón, que faz um raio-X de toda a obra publicada do autor.

Resenha

Publicado em 2012 pela revista Magazine y Diário de Ibiza[1], só um ano depois após o lançamento de O Prisioneiro do Céu, Rosa de Fuego é um pequeno conto pertencente à série do Cemitério dos Livros Esquecidos e que fora escrito em comemoração ao Dia do Livro naquele ano.

Apesar de nunca ter sido traduzido para o português, assim como outras histórias curtas do autor, Rosa de Fuego pode ser considerada como marco inicial na cronologia da série por fazer um longo retrocesso no tempo até o ano de 1454 para contar as origens mais remotas do intrincado labirinto que daria origem ao cemitério de livros, um velho e secreto palacete barcelonês onde ao longo de séculos foram escondidos milhares de livros, desde obras raras ou desconhecidas até aqueles tomos que precisaram ser protegidos em tempos ditatoriais e de censura.

O Cemitério dos Livros Esquecidos funciona como um importante personagem dentro d atrama da série iniciada com A Sombra do Vento e é citado em todos os livros que compõe a tetralogia. No entanto, sua origem é totalmente desconhecida e permanece na obscuridade durante toda a série. Não obstante, em Rosa de Fuego Zafón dá as primeiras indicações da origem do colossal templo literário, a catedral de livros que muito atiçou o fascínio e curiosidade dos personagens e leitores de Zafón.

Como se trata de um relato brevíssimo (perto de 10 páginas) dividido em sete capítulos de aproximadamente uma página, é muito difícil resenhá-lo sem dar spoilers consideráveis, mas em resumo, o enredo gira entorno de um dos mais antigos antepassados da família Sempere, o impresor (impressor) Raimundo de Sempere, o inquisidor Jorge de Léon e o misterioso e quase forasteiro Edmond de Luna, um construtor barcelonês  de labirintos que fizera fama em terras estrangeiras.

A história se passa logo depois que uma praga de febre quase havia dizimado a população de Barcelona durante o inverno de 1454 e, por conta da epidemia, a cidade catalã havia sido selada pelo Santo Oficio, cujas investigações (nem um pouco imparciais) haviam apontado a origem da moléstia um poço próximo ao bairro judio de Call de Sanaüja, supostamente envenenado pelos semitas ali residentes, o que valeu aos judeus a expropriação de seus bens e o descarte de seus corpos em um pântano. Enquanto isso, os cadáveres dos mortos pela febre perniciosa se acumulavam nas fogueiras ascendidas pelas ruas para incineração.

É em meio a este cenário desolador que uma embarcação arruinada chega ao porto de Barcelona trazendo em seu interior uma dúzia de sarcófagos e um único sobrevivente: Edmond de Luna, um engenheiro “hacedor de labirintos” que trazia consigo apenas uma relíquia e um diário de bordo que continha a sua história e a do objeto que portava consigo.

Imediatamente após o seu resgate, Edmond é entregue aos oficiais do Santo Ofício sob o comando do ambicioso inquisidor Jorge de Léon. Como o caderno encontrado com Edmond se encontrava escrito em um idioma desconhecido ao inquisidor, Léon confia a tarefa de traduzir os escritos do engenheiro ao impressor Raimundo de Sempere e o que este encontra naquele diário leva a cidade a um segundo suplício, desta vez de fogo e cinzas. A partir daqui é melhor eu não contar mais nada.

O conto de Zafón vai para o gênero fantástico ou de fantasia até então pouco explorado pelo autor na série, mas que é figura carimbada em seus livros da Trilogia da Névoa. Contudo, o estilo usado é muito distinto daquele que encontramos no segundo romance da série, O Jogo do Anjo, que não é só gótico como trata de elementos sobrenaturais. Por isso, Rosa de Fuego está mais próximo das narrativas da supracitada Trilogia da Névoa, do que de sua série original. Ainda assim, acho que ela se enquadraria melhor entre as narrativas de fantasia que utilizam o mundo medieval como cenário, unindo elementos reais com aqueles de natureza mítica, o que faz com que este conto faça uma curva e se distancie bastante da matéria do qual é feita a série do Cemitério dos Livros Esquecidos e se aproxime do estilo mágico-sobrenatural de O Príncipe da Névoa  e O Palácio da Meia-noite, sem, no entanto, ter temáticas, cenários, período e nível linguístico dos mesmos.

A mim parece que o autor quis dar um tom mais fantástico para a origem do misterioso e secreto palácio de livros para assim acrescentar o gênero fantasia à hibridização de gêneros que marca suas obras. Mas a pesar disso, o que mais chamou a minha atenção no conto foram suas referências históricas ao período medieval barcelonês que muito bem conheci com a leitura de outro livro, A Catedral do Mar do também hispânico Ildefonso Falcones. Neste bildungsroman, termo alemão para designar o romance de formação ou de aprendizagem, Falcones faz um verdadeiro panorama histórico-cultural e social da Idade Média catalã e faz referências muito próximas daquelas que foram feitas em Rosa de Fuego por Zafón. Alguns desses pontos de semelhança são as referências ao trabalho parcial e tendencioso das autoridades do Tribunal do Santo Ofício, à perseguição religiosa e fanática aos judeus e às constantes epidemias que, vez por outra, dizimavam parte da população e cujas origens, quase sempre, eram atribuídas a desígnios divinos ou a suposta vilania dos judeus – odiados pelos cristãos por fazerem parte do povo que julgou e condenou Cristo ao flagelo da cruz.

Quanto ao estilo, Zafón preserva neste conto toda a estética linguística e literária com o qual descreveu sua Barcelona feita de vapor nos romances da referida série. Mais do que isso, ler este conto em seu idioma original reforçou em mim a certeza que a tradução para o português muito bem representou o estilo do autor, suas construções metafóricas cheias de “arabescos” e seus jogos inusitados de palavras que caracterizam seu estilo.

Infelizmente, para aqueles que não dominam o espanhol, os contos de Zafón nunca foram traduzidos para o português (nem mesmo para o lusitano, ao que me parece) e o conto, apesar de se encontrar gratuitamente em forma digital nas plataformas brasileiras da Amazon e do Google Play, está em espanhol. A esperança de tê-los traduzidos, porém surgiu em novembro quando foi lançado na Espanha o livro La Ciudad de Vapor, uma coletânea que reúne todos os contos publicados do autor e alguns ainda inéditos.

O livro não tem previsão de publicação no Brasil, mas como se trata de uma obra póstuma que homenageia o autor, e tendo sido toda a sua obra traduzida anteriormente em terras tupiniquins, é plausível afirmar que em breve teremos nossa versão traduzida de Rosa de Fuego e de outras dez narrativas que compõe o livro, dentre elas outro conto (quase uma novela) que ainda estou lendo: El Príncipe de Parnaso.

Então, até lá sugiro um bom dicionário (o meu é da Real Academia Española) e um pouco de esforço (bem recompensado e não tão grande haja vista o tamanho reduzido do conto) e saboreie o original em castelhano.

A edição lida é digital, distribuída gratuitamente pela Vintage Español, uma divisão da Random House. O conto tem aproximadamente 10 páginas e é do ano de 2012.

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O Príncipe da Névoa – Carlos Ruiz Zafón – Resenha

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[1]https://es.wikipedia.org/wiki/Rosa_de_fuego.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

[Especial Zafón] O Prisioneiro do Céu – Carlos Ruiz Zafón – Resenha


Por Eric Silva

Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.

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Mistério, loucura, tortura, vingança, sacrifício e impunidade. Chegando ao terceiro volume da série d’O Cemitério dos Livros Esquecidos o nosso especial sobre Carlos Ruiz Zafón vem falar de O Prisioneiro do Céu o menor dos livros da coleção, mas para onde convergem as tramas de A Sombra do Vento e de O Jogo do Anjo. Nesse livro instigante conhecemos mais ao fundo o passado de Fermín Romero de Torres principal escudeiro de Daniel Sempere e como as tramas do destino os ligaram muito antes de se conhecerem. Um livro no qual literatura e história se unem mais uma vez para falar de uma Barcelona cheia de segredos e perigos.

Sinopse do enredo

É dezembro de 1957 e dois anos se passaram após os fatos narrados em A Sombra do Vento. Daniel Sempere prossegue sua vida agora casado com Beatriz e pai do pequeno Julián. Os negócios da livraria vão mal, mas além das vendas escassas outros problemas vem tirando o sono de Daniel: o comportamento estranho de Fermín as vésperas de seu casamento com Bernarda e, mais tarde, também o segredo que Beatriz escondia e que poderia abalar sua relação.

Contudo, o cenário pouco animador se torna ainda pior quando um estranho com a mão de porcelana visita a loja e compra um exemplar raro de O Conde de Monte Cristo, o item mais caro da livraria, e deixa nele uma dedicatória inquietante endereçada a Fermín: “Para Fermín Romero de Torres, que retornou de entre os mortos e tem a chave do futuro”. Irrequieto com aquele mistério Daniel resolve investigar quem seria o homem misterioso, e descobre não só onde esteva hospedado com o mais inquietante: este usava um nome falso, o do próprio Fermín.

Sentindo que algo estava muito errado, o rapaz resolve pressionar o amigo e falar da visita do enigmático homem expondo os fatos que descobrira. Após muita insistência e também se abrir com Fermín sobre as dúvidas que o persegue em relação a Beatriz, Daniel consegue que o amigo também se abra e explique sua conexão com o homem da mão de porcelana. Nesse momento, somos transportados para o passado de Fermín Romero de Torres, para a época quando ele foi capturado pelo regime franquista que ascendia após a Guerra Civil Espanhola, torturado e preso no Castelo de Montjuic, local onde seu destino começa a convergir em direção aos dos Sempere.

Resenha

O Prisioneiro do Céu possui uma trama que é bem mais próxima do estilo de A Sombra do Vento do que da atmosfera gótica e sobrenatural de O Jogo do Anjo, porém bem menos romantizado do que o primeiro e substancialmente menos sombrio e dúbio se comparado ao segundo. É um livro de memórias e confluências e a preparação para o livro seguinte e derradeiro: O Labirinto dos Espíritos. Aqui parte dos personagens de A Sombra do Vento se encontram com os d’O Jogo do Anjo, novos personagens são incluídos e a ligação entre Fermín e os Sempere é finalmente esclarecida.

O livro é dividido em três partes. Na primeira, Um Conto de Natal, voltamos a Barcelona para saber como vivia Daniel e sua família após o casamento com Bea e o nascimento de seu filhinho Julián. Nessa parte também temos o surgimento da estranha figura que procurava por Fermín e acaba comprando o livro mais caro da loja apenas para transmitir uma mensagem. A segunda e a terceira parte do livro, De entre os Mortos e Nascer de Novo, são inteiramente dedicadas ao passado de Fermín e sua passagem pela prisão de Montjuic. Por fim, com O Nome do Herói, Zafón encerra sua narrativa.

Assim como os demais esse é um livro magnético que prende o seu leitor em uma leitura voraz e muito rápida. O texto transcorre com uma fluidez incrível que me fez lê-lo completamente do sábado para o domingo mesmo com as dores impostas por uma virose horrível.

No que se refere aos personagens, O prisioneiro do Céu conserva parte bem pequena do núcleo principal de A Sombra do Vento formado pelos Sempere, Bea, Fermín e Isaac, e resgata de O Jogo do Anjo o seu protagonista, David Martin, e a jovem mãe de Daniel, Isabella.

Ao elenco modesto – se comparado com os livros anteriores – é acrescido apenas alguns novos personagens dignos de nota. Pablo, ex-noivo de Bea que volta a atormentar o juízo de um Daniel enciumado; Fernando Brians, um advogado de pequena projeção social, e Rociíto, uma jovem prostituta, que ajudam Fermín quando esse foge da prisão. Mas os dois mais importantes a adentrarem a narrativa são Maurício Valls, diretor da prisão de Montjuic e entorno do qual gira boa parte da trama como principal antagonista do livro, e Sebastián Salgado um dos presos de Montjuic e que também possui um papel de grande relevo na trama. Infelizmente revelar mais alguma coisa estragaria a surpresa do livro.

História e literatura como fio condutor: Montjuic e O Conde de Monte Cristo

Castelo de Montjuic. Wikimedia Commons.
Como em todos os livros da série, a literatura somada a história de Barcelona na primeira metade do século XX são os principais fios condutores da trama e para cada personagem a literatura é também sua inspiração, seu meio de vida, sua salvação ou sua desgraça.

Habitado por autores malditos que se tornam os próprios personagens de suas histórias, o insondável e nebuloso mundo dos livros é novamente explorado atestando que O Cemitério dos Livros Esquecidos foi pensado como um verdadeiro labirinto de livros dentro de livros, histórias dentro de histórias, que não só busca tornar misterioso e fascinante o universo da literatura como explora com muita inteligência a história trágica da própria Espanha.

Interior do Castelo. Wikimedia Commons.
Mas dessa vez Zafón também buscou na literatura universal inspiração para escrever sua obra. O Conde de Monte Cristo, livro de Alexandre Dumas, é citado diversas vezes ao longo da trama e cumpre no enredo um papel crucial e central, se misturando à própria narrativa e fazendo da prisão barcelonesa de Montjuic (Castillo de Montjuic) a reencarnação do próprio Château d'If (Castelo de If).

É tomando como ponto de partida a compra do volume raro do famoso livro do romancista francês que Zafón conta a passagem do mais icônico personagem de A Sombra do Vento pelo tenebroso castelo barcelonês, que nos finais da Guerra Civil Espanhola se tornou a principal prisão e campo de execução dos franquistas na cidade catalã. Desta forma Montjuic se torna o principal cenário da trama, a literatura o seu principal tema e o fim da guerra civil, o contexto histórico do livro.

Magnetismo

Como em todos os seus livros Zafón escreve uma trama instigante e que prende a atenção dos leitores para cada detalhe.

Em minha experiência com o livro, a minha atenção era prendida principalmente com qualquer coisa que dissesse respeito a David Martin, protagonista de O Jogo do Anjo. Para mim a narrativa do segundo livro da série é a mais atípica e estranha da coleção e, por isso, qualquer pequena informação sobre David em O Prisioneiro do Céu poderia se tornar em uma pista para compreender os pontos nebulosos da narrativa anterior. De fato, muitas passagens do terceiro livro ajudam a compreender o estranhamento que a narrativa de David produz no leitor e porquê ela se distancia substancialmente do estilo empregado em A Sombra do Vento. Além disso, ficamos sabendo em que circunstâncias O Jogo do Anjo foi escrito por David.

Zafón em fato durante o período de publicação do livro na Espanha (2011).
Outra coisa que me chamou a atenção foi a escolha de narradores. Apesar de grande parte da narrativa ser um relato de sua história contada por Fermín para Daniel, Zafón optou por manter Daniel como narrador principal da narrativa e elegeu um narrador onisciente para contar a história que na verdade seria narrada por Fermín.

Não é a primeira vez que Zafón utiliza-se de mais de um narrador para contar passagens diferentes de sua história. Em A Sombra do Vento todo o mistério por trás da história de Julian é narrado por Nuria através de uma carta deixada pra Daniel, tornando a personagem em uma segunda narradora do livro.

Em O Prisioneiro do Céu, Zafón utiliza-se de recurso semelhante, mas opta por não usar Fermín como narrador para permitir que a narração fosse além dos muros da fortaleza, onde ele se encontrava preso, e alcançasse igualmente outros personagens. O restante da trama é narrado por Daniel. Uma jogada inteligente e estrategicamente escolhida que permitiu, de um lado, que em parte do livro revivêssemos a sensação de ter Daniel novamente como narrador de sua história e, do outro, permitiu ao autor desenvolver a narrativa da forma como queria. Assim foi possível a Zafón fornecer os detalhes e desenlaces necessários para compor o enredo que prepara o terreno para o livro seguinte.

Outro ponto está relacionado a escrita do texto. Zafón mantém uma escrita impecável, mas achei bem menos poética, mais crua e prática do que nos livros anteriores. É certo que o lirismo de que se vale para escrever seus livros é bem dosado e aprece em momentos bem estratégicos, sobretudo nos quais ele descreve os cenários e a atmosfera geral da cidade de Barcelona. Mas achei que nesse livro ele buscou se preocupar bem menos com a estética e concentrou-se mais na história. A verdade é que notei muito pouco a presença das construções estéticas que sempre elogio na obra do autor (leia a resenha de releitura de A Sombra do Vento).

Desfecho: entrecruzando caminhos numa edição lindíssima

Apostando em uma trama rápida que revela e omite ao mesmo tempo, o desfecho do livro é muito interessante e deixa muitas coisas pelo caminho: perguntas não respondidas, mistérios não explicados e um desejo visível de vingança. Esses elementos nos fazem ter uma ideia de que o livro que se segue e com o qual, enfim, Zafón encerra a trama do Cemitério dos Livros Esquecidos, deverá ter muitos desdobramentos e uma história arrebatadora. Essa é a minha expectativa. Pelo tamanho do tomo – que conta com 679 páginas – há muita história a ser contada em O Labirinto dos Espíritos e se a qualidade da série foi mantida até o fim, esse, sem dúvida, será um final inesquecível.

Por fim, gostaria só de fazer um rápido comentário sobre a edição. Não costumo falar muito disso nos livros que leio, porque em sua maioria são livros digitais, mas não podia deixar de mencionar como a nova edição de O prisioneiro do Céu é linda. A ilustração da capa tem uma resolução perfeita apesar da provável idade da fotografia. Além disso, a atmosfera misteriosa de uma manhã nublada e úmida pelas ramblas[1] de Barcelona combina perfeitamente com a atmosfera que Zafón dá às suas histórias. A capa é ao mesmo tempo bonita, elegante e combina com sua narrativa. Digo seguramente que é o livro mais bonito da minha biblioteca.

A edição lida é da Editora Suma de Letras, do ano de 2017 e possui 270 páginas. Abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Google Books.

Preview do Google Books

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Quem é Carlos Ruiz Zafón? - Especial Zafón

Por Eric Silva

Escritor barcelonês, Carlos Ruiz Zafón é autor do romance A Sombra do Vento, seu livro mais conhecido e que já foi traduzido para mais de 30 idiomas e publicado em cerca de 45 países.

Nascido em 25 de setembro de 1964, Zafón é filho de uma família sem tradição literária. Sua mãe era dona de casa e o pai, um agente de seguros bem sucedido. Contudo desde muito cedo o jovem Carlos despertou o seu talento e interesse para a literatura. Sendo um amante do romance do século XIX, Zafón tem como suas principais influências autores como Fedor Dostoyevsky, Leon Tolstoy e Charles Dickens.

Foi educado na escola dos jesuítas de San Ignacio de Sarriá e seguiu com a formação em Ciências da Informação chegando a receber ainda no primeiro ano de curso uma proposta de trabalho no mundo da publicidade. Atuou como diretor criativo de uma importante agência barcelonesa até o ano de 1992 quando decidiu deixar a publicidade e seguir uma carreira na literatura.

Muda-se, em 1933, para Los Angeles, onde começa a trabalhar como roteirista enquanto dedicava parte de seu tempo na confecção de seu primeiro romance, O Príncipe da Névoa, (do original em espanhol El príncipe de la niebla), obra ganhadora do prêmio espanhol Edebé de literatura infantil e juvenil. Com uma história de mistério ambientado em uma cidade nas margens do Atlântico, durante a Segunda Guerra Mundial, ainda no ano de 1943, esse livro é o primeiro da Trilogia da Névoa composta também pelos livros O Palácio da Meia-Noite (1994) e As luzes de Setembro (1995).

Em 2001, lançou seu primeiro livro adulto A Sombra do Vento (em espanhol, La Sombra Del Viento) com o qual se tornou uma das maiores revelações literárias. Ambientado em Barcelona durante o período da ditadura franquista na Espanha, esse livro inaugura uma nova série O Cemitério dos Livros Esquecidos (do espanhol, El cementerio de los libros olvidados), produzida pelo autor nos últimos 15 anos e finalizada em 2016. 

A tetralogia é composta também pelos livros O Jogo do Anjo (2008) (El juego del ángel), O Prisioneiro do Céu (2011) (El prisionero del cielo) e O Labirinto dos Espíritos (2016) (El laberinto de los espíritus). Em 2012, publicou ainda um conto complementar à série chamado Rosa de Fuego, onde narra as origens do Cemitério dos Livros Esquecidos remontando à época da inquisição espanhola do século XV.

Por A Sombra do Vento, Zafón foi finalista dos prêmios literários espanhóis Fernando Lara 2001 e Llibreter 2002, e em Portugal, foi premiado com as Correntes d'Escritas (2006).

É ainda autor do livro Marina, publicado em 1999, e que é possivelmente, das obras de Ruiz Zafón “a mais indefinível e impossível de categorizar, e talvez a mais pessoal delas” (Wikipédia Espanhola).

Todas as obras citadas foram traduzidas e publicadas no Brasil pelo selo editorial Suma de Letras, pertencente ao grupo Companhia das Letras. Hoje, o trabalho de Zafón já foi traduzido para mais de cinquenta línguas o que o tornou em um dos autores mais reconhecidos da literatura internacional dos nossos dias e o escritor espanhol mais lido no mundo depois de Cervantes.

Zafón faleceu no dia 19 de junho de 2020, na cidade onde vivia no EUA, Los Angeles, em decorrência de um câncer contra o qual lutou ao longo de dois anos. Zafón tinha 55 anos.

Confira abaixo a lista completa dos prêmios ganhos pelo autor disponível em seu website oficial:

·         Na Espanha:
o    Prêmio da Fundação Jose Manuel Lara para o livro mais vendido.
o    Prêmio dos Leitores de La Vanguardia.
o    Prêmio Protagonistas.
·         Nos Estados Unidos:
o    Borders Original Voices Award.
o    Prêmio Gumshoe.
o    New York Public Library Book to Remember.
o    BookSense Book of the Year (Menção Honrosa).
o    Barry Award, Joseph-Beth e Davis-Kidd Booksellers Fiction Award.
·         Na França:
o    Livre de Poche 2006.
o    Prêmio pelo melhor livro estrangeiro.
o    Prix ​​du Scribe.
o    Prix ​​Michelet.
o    Prix ​​de Saint Emilion.
·         Na Holanda:
o    Prêmio dos Leitores.
·         Na Noruega:
o    Bjornson Ordem para o mérito literário.
·         No Canadá:
o    Prêmio Canadian / Quebec Bookstores.
·         Na Bélgica:
o    Humus Award pelo melhor livro do ano votado pelos leitores da Bélgica (2006).
·         No Reino Unido:
o    Prêmio de Ottakar.
o    Nielsen Golden Book Award.
o    Finalista para o autor do ano 2006 British Book Awards.
o    Sexta posição na lista da Waterstone dos 25 melhores livros dos últimos 25 anos.
·         Em Portugal:
o    Prêmio Varzim de Povoa.

Referências
http://www.carlosruizzafon.com

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