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quinta-feira, 12 de novembro de 2020

[Especial Zafón] O Príncipe da Névoa – Carlos Ruiz Zafón – Resenha

 

Por Eric Silva para o Especial Zafón

04 de julho de 2020

“As lembranças ruins perseguem você sem que precise carregá-las consigo”

Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.

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Um romance jovem intercortado pelo sobrenatural durante a tensão e as incertezas da guerra, Príncipe da Névoa é o livro com o qual Zafón principiou sua carreira nas letras e também seu primeiro romance juvenil. Já nessa época, o escritor barcelonês esboçava alguns traços do estilo gótico marcante em sua obra numa narrativa que, sem deixar de ser “juvenil”, já se encontrava no limiar de uma escrita que em pouco tempo se tornaria madura.

Confira a resenha.

Sinopse do enredo

No verão do ano de 1943, a batalha dos países Aliados contra os nazistas e fascistas durante a Segunda Guerra Mundial caminhava para completar seu quarto ano, e mesmo nos lugares onde os blindados da Heer e os aviões da Luftwaffe alemã ainda não haviam chegado, a tensão provocada pela guerra era tão presente quanto em qualquer outro lugar da Europa. O Velho Mundo vivia anos de horror, desolação e apreensão que se estenderiam até o verão de 1945.

Foi justamente para fugir da guerra que naquele mesmo ano o relojoeiro e inventor Maximilian Carver decidiu que ele e sua família deveriam mudar-se para outro lugar, um pequeno vilarejo no litoral, cujas casas pareciam ter saído de uma maquete. Porém, a nova moradia dos Carver era uma casa de praia com um passado trágico e cercado de mistérios. A abastarda família que havia morado ali anteriormente tinha se diluído por completo após a morte trágica de seu único herdeiro, Jacob, vítima de afogamento aos cinco anos. Desde então a casa esteve abandonada a espera de ser novamente habitada.

Quando finalmente a família do relojoeiro ali se instala, logo fica nítido que algo não está certo. Max, o curioso filho dos Carver, descobre atrás da casa um jardim de pedra abandonado que guardava em seu interior um estranho conjunto de estátuas e símbolos desconhecidos. A irmã mais velha de Max, Alicia, passa a ter sonhos perturbadores, e a caçula, Irina, ouve vozes que sussurram para ela de um velho armário.

Mas nem tudo naquela vida nova parecia ruim. Max e Alicia fazem um novo amigo, o jovem Roland, e com ele desbravam os segredos de um velho barco que naufragou há muitos anos, durante uma terrível tempestade. Daquele naufrágio só saiu vivo um único tripulante, o avô do rapaz, o engenheiro responsável por construir o farol no fim da praia, onde passou a viver durante todos aqueles anos, vigiando a costa.

Mas os obscuros segredos daquele pequeno vilarejo não tardam a se revelar e enquanto os adolescentes exploram os mistérios do lugar, se interpõe em seu caminho uma entidade diabólica que ao longo de muitos anos deixou para trás um rastro de mortes e destruição: o Príncipe da Névoa. Um ser enigmático com forma humana que há muito ilude os incautos[1] com sua capacidade de conceder desejos em troca de favores malignos.

Resenha

Escrever essa resenha hoje está sendo para mim, assim como foi a leitura deste livro, um exercício de autoconvencimento de que é fato a morte recente de Zafón e de que nunca mais sentirei a expectativa de esperar o próximo lançamento desse autor que foi importantíssimo para mim e para a história deste blog. Foram os livros do escritor espanhol que me ensinaram a amar a Espanha, e mais particularmente a Catalunha, bem como o romance com estética gótica e que me inspiraram a criar a Campanha Anual de Literatura do Conhecer Tudo em 2016. Novamente para homenageá-lo, retomo o especial sobre esse autor iniciado há quase dois anos, mas que não pude terminar por conta da rotina exaustiva de trabalho que se abateu sobre mim em 2019.

O Príncipe da Névoa: juvenil de fantasia gótica

Escrito na década de 1990, O Príncipe da Névoa pode ser considerado como o livro de estreia do falecido escritor barcelonês Carlos Ruiz Zafón, e o primeiro de uma série de romances voltados para o público juvenil, que inclui também O Palácio da Meia-noite e As Luzes de Setembro. Três livros que são considerados como “série”, mas que são independentes entre si e não possuem conexões diretas entre suas narrativas.



Em geral, Zafón é mais conhecido por sua série mais famosa, O Cemitério dos Livros Esquecidos, que gira entorno de escritores malditos dos anos da Espanha franquista e da colossal biblioteca secreta que dá nome a série. Contudo, o autor que nos deixou poucos livros escritos até seu falecimento prematuro aos 55 anos, também deixou ao seu público essa série composta de três livros juvenis que foram responsáveis por sua inserção no mundo das letras e que, já na década de 90, revelavam as nuances da estética literária gótica que mercariam seus livros posteriores.

No entanto, quem lê O Príncipe da Névoa pode se surpreender ao constatar que para um livro classificado como juvenil, ele tem contornos que não são tão comuns a esse tipo de narrativa. Mas isso não mudou o fato de que o livro fora escrito pensando nos leitores mais jovens, o que se constata pela brevidade da narrativa que pode ser facilmente entendida como uma novela; pela opção por personagens majoritariamente jovens e vivendo as primeiras descobertas da idade; pela alusão a elementos do imaginário infantil como palhaços e mágicos de circo; pelo desenvolvimento rápido de seus personagens e, por fim, por sua narrativa sem muita complexidade e com linguagem mais acessível.

Um artigo da Wikipédia[2] sobre literatura infantojuvenil classifica como as principais características que marcam os livros do gênero juvenil:

·         Apresentar temas de interesse ao jovem adolescente, alguns deles controversos, como sexo, violência, drogas, relacionamentos amorosos, etc;

·         Ter em sua trama personagens da mesma faixa etária dos leitores, especialmente seus protagonistas;

·         Podem ser ilustrados, ainda que não necessariamente;

·         E possuir um número maior de páginas, podendo alcançar 200 a 300 páginas.

Com exceção de não ser um livro ilustrado, O Príncipe da Névoa possui todos os elementos elencados e pode ser facilmente classificado como um livro da literatura juvenil por estes elementos, não obstante sua atmosfera e sua composição excedem o gênero em alguns pontos: há nele uma elevada maturidade de seus personagens, o seu desfecho que vai na contramão do que é comum ao gênero, a sua história permeada de um terror não tão infantil, além do fato de que um dos adolescentes está preste a ser convocado para lutar na guerra (um tema bem adulto, mas tratado com bastante leveza). Por conta destes elementos me surpreendi com a proposta de enredo do autor, ainda que eu a considere um tanto simplória.

Nas notas do livro, Zafón explica que quando era adolescente não costumava ler romances juvenis e por isso resolveu ao escrever O Príncipe da Névoa compor um romance que ele mesmo teria gostado de ler com 13 ou 14 anos, mas que ainda o interessasse depois de adulto. O resultado foi algo muito bom. Um livro ágil, instigante no qual terror, tragédia, romance e aventura se encontra nos níveis nos quais qualquer pré-adolescente se interessaria, mas que também é agradável a qualquer adulto que se disponha a lê-lo.

Eu, ao contrário do escritor espanhol, li e ainda leio muitos livros juvenis. Na minha infância de leitor cheguei a ler algumas obras classificadas como infantojuvenis ou apenas como juvenis que possuía alguma maturidade, geralmente em seus temas, como foi o caso de Tonico, de José Rezende Filho, que aborda a questão da pobreza e o trabalho infantil, e o bem pouco conhecido Anjos no Aquário, de Júlio Emílio Braz, que aborda o difícil tema da gravidez na adolescência. Mas havia também os livros que são maduros por seus desfechos como o inesquecível Meu Pé de Laranja Lima de José Mauro de Vasconcelos, que fala da aceitação da morte na infância e da violência revestida pelo rótulo tradicionalista de “educação doméstica”. Contudo, nunca li algo como O Príncipe da Névoa que se diferencia por ser maduro em seu desfecho, nas personalidades dos protagonistas, na atmosfera trágica da trama, no seu tema de terror sem comicidade. Um livro que em alguns momentos me fez lembrar das histórias de Stephen King sem, no entanto, apelar para a carnificina das mesmas.

A narrativa em si é muito simples e não muito original (pelo menos não para a literatura mais madura), reitero, porém, que seu estilo é marcadamente incomum entre as obras mais ingênuas classificadas como infantojuvenis ou apenas como juvenis. A narrativa como um todo se passa em um período muito curto de tempo (apenas algumas semanas do verão de 1943) e como quase qualquer história que use os verões litorâneos como cenário desenvolve uma súbita paixão entre adolescente em seu enredo.

Os personagens são desenvolvidos de forma breve por conta da extensão mais curta do romance e, para fazê-lo de forma mais propicia a cativa os narradores, Zafón foca suas energias em apenas uma parte do elenco já bastante reduzido: Max, sua irmã Alicia, o jovem Roland e seu avô Víctor Kray, que dividem entre si o protagonismo da narrativa junto com o ser sombrio da narrativa que é ora chamado de Dr. Cain, ora de Príncipe da Névoa.

Max é o personagem central da trama, a mente pensante do grupo. Um garoto introspectivo, perspicaz, inteligente e, por esses traços, bastante observador. Ele é o primeiro a notar as estranhezas daquele vilarejo: sua estranha aparência de maquete, o relógio da estação ferroviária que parecia andar para trás, a aura medonha que circunda o gato que sua irmã Irina adota assim que chegam de viagem.

Por suas características entre ele e o pai existe uma cumplicidade e autoentendimento difícil de descrever e que se produz com poucas palavras. Maximilian o estimula com leituras avançadas a exemplo dos tratados de Copérnico sobre o sistema solar e o menino responde às ações do pai com uma maturidade acentuada. As falas de Max são em geral bem calculadas e meticulosas, a menos que esteja sendo provocado pelas brincadeiras de Roland e sinta a necessidade de rebatê-las, ou quando quer ser divertido com o jovem casal que vai se formando entre seu novo amigo e sua irmã.

Alicia por sua vez é ainda mais introspectiva e de uma rebeldia silenciosa. Come pouco porque se preocupa com sua aparência e interage muito menos ainda com a família, preferindo o isolamento de seu quarto e de seus silêncios. De todos, ela é a quem menos se satisfez com a mudança repentina para o litoral, no entanto, Alicia é daqueles personagens que crescem e se modificam ao longo da narrativa e, por isso, vai aos poucos conquistando seu espaço, até se tornar um elemento importante da história, apesar do elevado protagonismo masculino da trama.

De sua parte, Roland é o típico rapaz criado em cidade pequena. Ativo, entusiasmado em interagir com os visitantes, desejoso de aventuras e por respirar outros ares longe da monotonia do pequeno vilarejo. Extremamente apaixonado pelo mar, o rapaz construiu sua própria cabana na praia, onde passa a maior parte de seu tempo quando não está com o avô no farol, ou vasculhando os restos de um velho navio naufragado perto da costa.

Expansivo, prestativo e brincalhão, Roland facilmente conquista a amizade de Max e Alicia que passam a segui-lo por toda parte, e acaba por ser a cola que começará a unir os dois irmãos que pouco conversavam. Ainda assim, paira sobre o rapaz, assim como sobre Max, a incerteza do futuro, uma vez que Roland está alistado no exército e teme que aquele seja seu último verão antes que seja convocado para o front de guerra. A Max restaria mais alguns anos de liberdade caso a guerra não encontrasse seu desfecho logo.

Entorno destes três personagens e do velho faroleiro girará a história do personagem principal da trama e que dá nome a mesma, o Príncipe da Névoa, Dr. Cain. Um mago, um bruxo, uma entidade maligna, não dá exatamente para precisar o quê, mas que ao longo de muitas décadas se dedicou a destruir muitas vidas através de seus dons de conceder desejos, pelos quais exigia um preço elevado demais.

Apreciação crítica

Confesso que apesar de ser um livro excelente, O Príncipe da Névoa não se compara ao estilo e qualidade literária atingido por Zafón quando este escreveu A Sombra do Vento, seu livro de maior sucesso. Provavelmente por isso que o autor teve que lutar contra seu desejo de reescrever a história deste livro, desejo este que ele expressou também na introdução de O Palácio da Meia-noite. No entanto, para uma trama de livro juvenil, O Príncipe da Névoa é um livro estimulante, porque um pouco da estética do escritor barcelonês já é visível, e sua predileção pelas temáticas góticas já são evidentes.

Ele escreve uma narrativa de terror, aventura e suspense com a estética gótica que marca seus livros, mas com uma delicadeza e uma sensibilidade acentuada. Não há nada no livro que dialogue com o universo barcelonês que serve de cenário a seus livros posteriores, nem mesmo a localização de onde se dão os fatos narrados em O Príncipe da Névoa são revelados, o que deu a cada série de livros uma alma e personalidade própria e distintas, estando ligados unicamente pela estética narrativa de seu autor.

A escrita é fluida, instigante, mais leve e delicada do que a encontramos nos livros da série d’O Cemitério dos Livros Esquecidos, mas mesmo ali a linguagem empregada por Zafón é de uma beleza poética que quase não é sentida, uma vez que suas narrativas têm um caráter cinematográfico proeminente que envolve o leitor na narrativa tal como se a vivesse ou a assistisse na penumbra de uma sala de cinema. Essa característica cinematográfica também já é notável em O Príncipe da Névoa que nos conduz a locais sombrios e paisagens marítimas.

Chamou-me a atenção sobretudo o desfecho que achei extremamente original e inesperado, ou melhor, esperado, se partíssemos de uma lógica mais racional. É um livro que acredito que deixou muitos de seus leitores com um leve aperto no peito e um sentimento de impotência. Igualmente belo é a forma como naturalmente os laços entre os personagens vão sendo construídos e fortalecidos, como se o encontro entre eles tivesse sido destinado a acontecer. A questão é que você vive com os personagens aquele verão, os acompanha a toda parte, e o laço se estende a você também. Trata-se de uma narrativa que fala do amor, da juventude, do medo e da necessidade de união para vencer as adversidades da vida.

Mesmo tendo me surpreendido com o desfecho escolhido pelo escritor para uma narrativa juvenil, reitero que a forma como ele decidiu fechar a trama é a parte mais original do livro, justamente por não seguir as velhas fórmulas já tornadas clássicas neste gênero. Senti-me frustrado apenas com o fato de não existir conexão entre as tramas dos livros seguintes que seguem como obras independentes. Ainda assim, sinto-me ansioso pelo que virá dos últimos livros escritos por Zafón que ainda não li, e ao mesmo tempo triste por saber que serão os últimos.

A edição lida é da Editora Suma de Letras, do ano de 2013 e possui 184 páginas. Título original: El Príncipe de la Niebla.

Preview do Google Books

Abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Google Books.

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[1] “Diz-se de ou aquele que não tem cautela; descuidado, imprudente; que ou o que é destituído de malícia; crédulo, ingênuo” (Houaiss, 2009)

[2] LITERATURA INFANTOJUVENIL. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2020. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Literatura_infantojuvenil&oldid=57297725>. Acesso em: 05 jul. 2020.

 


quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

[Especial Zafón] O Jogo do Anjo – Carlos Ruiz Zafón – Resenha


Por Eric Silva

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“Só aceitamos como verdadeiro aquilo que pode ser narrado”.
(O Jogo do Anjo, Carlos Ruiz Zafón)

Ano passado lancei no Conhecer Tudo um especial sobre o escritor barcelonês Carlos Ruiz Zafón, onde pretendo ler e resenhar todos os livros publicados pelo autor. Alguns meses após ter relido A Sombra do Vento volto a série do Cementerio de los libros olvidados (Cemitério dos Livros Esquecidos) com a leitura de seu segundo volume, O Jogo do Anjo.

Um livro de forte atmosfera gótica e carregado de mistérios, O Jogo do Anjo explora com mais intensidade o talento de Zafón para escrever sobre o sobrenatural sem deixar de lado o misterioso e temas como a loucura e a solidão. Um livro muito bem escrito no mais autêntico estilo do escritor espanhol.

Confiram a resenha do segundo livro do Especial Zafón.

Sinopse

Em O Jogo do Anjo, voltamos à Barcelona, nos anos de 1920, para conhecer David Martín, um jovem e talentoso escritor perseguido por desgraças desde a infância. Com uma doença terminal e vendendo barato o seu talento para editores oportunistas, David vive o seu pior momento e nenhuma perspectiva de futuro. É nesse momento que surge Andreas Corelli, um misterioso editor estrangeiro que trazia consigo uma proposta irrecusável: o restabelecimento da saúde de David e uma pequena fortuna em troca de escrever um livro que influenciaria milhões de pessoas. Contudo, a medida com que prossegue o trabalho com Corelli, David descobre-se enredado a segredos perturbadores e a um rastro de sangue e mortes que vai surgindo em seu caminho..

Resenha

O enredo

Barcelona, les Rambles 1920.
Narrado em primeira pessoa, O Jogo do Anjo introduz um novo personagem ao universo de escritores malditos do Cemitério dos Livros Esquecidos, e recua no tempo até a década de 20 para contar a história de David Martín, um jornalista barcelonês que sob o pseudônimo de Ignatius B. Samson se torna um conhecido escritor de histórias policiais.

David, assim como a maioria dos personagens de Zafón, teve uma infância solitária e conturbada. Seu pai era um ex-combatente que retornou da guerra miserável e desiludido, e que logo depois foi abandonado pela esposa que nunca mais quis saber nem dele nem do único filho. Um homem truculento e envergonhado com sua condição analfabeta, que nunca conseguiu reconhecer as potencialidades do filho e não se contentava com o seu interesse pelos livros, atividade que considerava uma perda de tempo. O pouco afeto que o pequeno David encontraria seria a do livreiro Sempere (avô de Daniel de A Sombra do Vento). O velho Sempere sempre lhe presenteava com um novo livro e anos mais tarde o levaria para conhecer a colossal e secreta biblioteca de livros esquecidos.

Sozinho no mundo após a morte repentina do pai, David encontra apoio e incentivo na caridade de Pedro Vidal, milionário excêntrico e escritor boêmio que o ajuda na fase mais difícil de sua vida. Através de Vidal David conseguiria um trabalho no jornal La Voz de La Industria e conheceria Cristina, a filha do motorista de seu benfeitor.

No La Voz o rapaz se torna jornalista e depois escritor de novelas policiais que publicava ali mesmo no periódico. Após conseguir alguma fama com as histórias que escrevia para o jornal e novamente com a ajuda de Vidal, David consegue dois editores, Barrido e Escobillas, para quem passa a publicar com exclusividade.

O jovem escritor abandona o trabalho no La Voz e com o dinheiro do acordo editorial aluga um antigo casarão com fama de assombrado, onde passa a viver enclausurado em seu escritório, dedicando-se a cumprir os prazos ridículos previstos em seu contrato.

A rotina incessante de trabalho, o desejo de escrever uma obra que levasse seu nome e o pouco cuidado com a própria saúde levam o escritor a uma situação desesperadora. Mas é quando tudo a sua volta parecia ruir que David recebe uma tentadora proposta que mudaria o seu destino.

Em troca de uma pequena fortuna, Andreas Corelli, um misterioso e sombrio editor francês, propõe a David escrever um livro que mudaria o mundo. Mesmo relutante David aceita aquilo que parecia uma tarefa impossível, mas que na verdade o enreda em uma ciranda de acontecimentos, na qual estaria sempre a ponto de resvalar em um poço negro e sem fundo.

Ao longo da narrativa os mistérios entrono de Andreas Corelli se tornam cada vez mais intrincados e sombrios. Desconfiado dos reais intensões de Corelli David decide investigar a nebulosa vida do editor, enquanto um rastro de sangue vai sendo deixado pelo caminho.

Personagens importantes
Universidade de Barcelona. 1920-1930.
Muitos personagens aparecem na trama de O Jogo do Anjo e ocupam cada qual em seu momento um papel de destaque. Sendo impossível falar de todos, destacarei só os principais, que marcadamente se diferem dos encontrados no primeiro volume da série, principalmente, quando analisamos o seu narrador.
O desesperançado David é bem mais velho e maduro do que Daniel, protagonista de A Sombra do Vento, e por isso, com ele, a narrativa perde o ar de juventude que Daniel imprime no primeiro livro. Os dissabores de sua vida difícil tornaram David irônico e sarcástico, além de sínico, e essas características se tornam a armadura de defesa do personagem. Também desapaixonado e desiludido com o mundo, o protagonista só consegue se demonstrar afetuoso com os Sempere e com Cristina, sua paixão mal resolvida. Em muitos momentos da narrativa temos dúvidas sobre a sanidade do personagem e de até onde os fatos contados por ele são de fato reais ou produto de uma mente convalescente.
Em contraste a David, temos a determinada, solícita e igualmente irônica Isabella a personagem mais jovem da trama que se torna assistente do protagonista e futuramente a mãe de Daniel Sempere. De tordo os personagens ela é a mais viva e vibrante e por isso a identificação com ela é imediata. O que contrasta bastante também com altivez e inconstância de Cristina e com a timidez e continência de Sempere Filho. Em relação a este último, o futuro pai de Daniel, possui na trama presença bem mais apagada na narrativa do que no primeiro livro. O Jogo do Anjo nos mostra um Sempere mais novo, mas desde já trabalhador, cauteloso, sério e até melancólico.
A grande surpresa é o avô de Daniel, denominado apenas como Sr. Sempere. Este, ao contrário do filho, é muito mais espontâneo e vivo. Um homem bonachão e muito afável e que preenche a carência paterna e afetiva de David, defendendo-o até o fim.
Mas de todos os personagens o mais inquietante é Corelli. Figurando como um personagem central da narrativa e o principal elo que liga todos os fatos ocorridos com David, o editor francês é um homem muito bem-vestido que traz na lapela de seu paletó a figura de um anjo. Sinistro e de presença sombria, Corelli parece na trama alguém revestido de sobrenaturalidade e é, dos personagens, o mais bem construído, com vida e existência quase própria.  Sarcástico e crítico, Corelli ainda possui uma visão muito fria e clínica da vida, do homem e da humanidade o que revela nele também uma personalidade que beira a racionalidade fria e calculista dos psicopatas.
 Mais gótico e focado no sobrenatural
O Jogo do Anjo é sem dúvidas um bom livro e uma obra genuína ao estilo já consagrado do escritor espanhol, mas dentro do conjunto da série Cemitério dos Livros Esquecidos ele se difere em vários aspectos em relação A Sombra do Vento, livro que abre a coleção.
A história de O Jogo do Anjo se passa 30 anos antes dos acontecimentos narrados em A Sombra do Vento, numa Barcelona diferente daquela vivida por Daniel e anos antes de estourar a Guerra Civil Espanhola que culminaria com a instauração do regime franquista. Por conta disso, a Barcelona descrita por Zafón em O Jogo do Anjo dista bastante em relação ao primeiro livro.
O Jogo do Anjo é essencialmente mais gótico do que A Sombra do Vento e flerta muito mais com o sobrenatural. A loucura e o desalento são bem mais fortes na vida de seus personagens e por isso contrasta com a melancolia e o sentimento de perda que é bem mais forte no séquito que povoa o primeiro livro. Por essas características que eu diria que O Jogo do Anjo seria um livro mais “noturno”, mais sombrio. Acho que devido a isso que, nesse livro, Barcelona se reveste de uma áurea bem mais soturna e pesada do que no primeiro.
Se, em A Sombra do Vento, Barcelona é ao mesmo tempo misteriosa e bela, em O Jogo do Anjo ela se carrega com o peso de sua existência secular e demonstra-se ainda mais hostil e sombria, gótica e antiga, uma cidade cheia de seus segredos e de dramas silenciosos.

Parque Güell em imagem de 1900-1910, autor desconhecido. Esse é um dos principais cenários de O Jogo do Anjo.Era próximo ao parque criado pelo arquiteto catalão Antonio Gaudí que se situava um dos principais pontos de encontro entre David e Corelli.

Outra distinção está na organização da obra. Muito diferente de A Sombra do Vento, onde o livro era dividido em anos que acompanham o crescimento de Daniel e o desenvolvimento desse personagem, em O Jogo do Anjo, Zafón divide a trama em três grandes atos como se assistíssemos a uma tragédia gótica.

No primeiro deles, A Cidade dos Malditos, conhecemos a fundo a história e a personalidade do narrador enquanto ele nos conta sua infância conturbada ao lado de um pai violento e intransigente, sua vida regrada e sem brilho de jornalista de pouco sucesso, a ascensão de sua carreira como escritor de histórias policiais, sua paixão desencontrada por Cristina e nos apresenta aos principais personagens que o orbitarão ao longo de toda a narrativa. Mas é nesse ato também que o mais tenebroso dos personagens do livro tem suas primeiras aparições e acompanhamos como gradualmente a vida e a saúde de David vão se deteriorando.

A partir do segundo ato, Lux Aeterna, também o mais longo, a trama vai ganhando corpo e se complexifica. Novos personagens emergem e a existência de uma teia de mistérios que envolvem Corelli e seu último escritor vão se tornando mais evidentes, porém cada vez mais sombrios e difíceis de deduzir.

Ainda assim, de todos os atos, o último e que leva o mesmo nome da obra, é de longe o mais intenso. Nele O Jogo do Anjo ganha gradativamente mais ritmo e, até alcançar os últimos capítulos, o desenvolvimento da trama ganha celeridade.

Zafón preserva nesse livro o que há de melhor em sua escrita: o magnetismo e a originalidade que marcadamente brinca com as palavras e faz construções de grande beleza estética.

A escrita de Zafón é o que acho de mais precioso no conjunto de sua obra. Ela é muito bem estruturada e flui muito bem sem nunca ser cansativa. Por vezes ela parece se aproximar do poético sem deixar de ser gótica, mas sempre segue um fluxo contínuo e compassado que me embala e me faz esquecer do que acontece no meu entorno. Mesmo quando o narrador é irônico e desapaixonado como David, ela se sobressai como algo intrínseco e muito próprio do escritor. Ainda que se mescle com a personalidade individual de cada narrador, em cada livro, a marca do autor é evidente, porque Zafón domina a arte de escrever bem.

Em conclusão

Foto: Eric Silva. Fevereiro de 2018.
O livro não produziu em mim o mesmo fascínio e arrebatamento que A Sombra do Vento porque achei que houve uma inversão na proposta inicial do primeiro tomo da série. Enquanto A Sombra do Vento é um livro realista com um enredo que flerta com o sobrenatural, O Jogo do Anjo é um livro a respeito do sobrenatural, mas com ares de realista quando nos faz duvidar muitas vezes da sanidade do narrador e logo também da pretensa natureza supra-humana de Corelli.

A solidão, a descrença, a ironia e a quase insanidade de David influencia o tom da obra, são os reflexos de sua personalidade e os principais sentimentos presentes na obra. Se A Sombra do Vento é povoado pelo sentimento da solidão e da perda, O Jogo do Anjo tem muito disso e mais a acidez da ironia de David tornando ainda mais rica a escrita originalíssima de Zafón.

Não gostei mais de O Jogo do Anjo porque havia lido A Sombra do Vento antes. Os estilos, como já disse, diferem um pouco e me deixaram confuso em relação ao que esperar dos próximos volumes: O prisioneiro do Céu e O Labirinto do Espíritos. Mas algo que me chamou a atenção é como os personagens de O Jogo do Anjo, sobretudo Corelli, parecem tão vivos, tão reais e quase palpáveis. Nunca havia ficado ansioso e desconfortável com um personagem como fiquei a cada nova aparição do editor francês. Isso mostra como a escrita do barcelonês evoluiu de um livro para o outro. Por isso fico imaginando se encontrarei um Zafón ainda mais maduro nos dois livros que se seguirão.

Contudo, mesmo os bons livros possuem pontos fracos. Em O Jogo do Anjo, o principal deles é a desproporção de velocidade entre a maior parte da narrativa e o seu desfecho. Em todo o Primeiro e Segundo Ato encontramos um desenvolvimento despreocupado com o tempo e dedicado a contar com calma e riqueza de detalhes os lances da narrativa. Porém, na segunda metade do Terceiro Ato a história ganha uma velocidade muito grande que se apodera do leitor. Por vezes somos induzidos a ler cada vez mais rápido como se quiséssemos acompanhar a celeridade do desenvolvimento do desfecho. A trama só vai retomar seu ritmo normal nas últimas páginas quando são descritos os destinos de cada personagem e o grande mistério da trama é por fim (e acredito eu, parcialmente) revelado.

Enfim, o autor repete a fórmula de uma história completa, ou seja, de enredo com desfecho fechado, o que aumenta as expectativas em relação ao volume seguinte da série, mas de um jeito diferente. A expectativa não é com o que acontecerá em seguir, mas como a história dos dois primeiros livros vão se ligar aos demais. Estou ansioso para saber como tudo se dará, mas, sinceramente, estou mais ansioso é por reencontrar Daniel e Firmino.

A edição lida é da Editora Suma de Letras, do ano de 2008 e possui 410 páginas. Abaixo você pode conferir uma prévia da última edição do livro disponível no Google Books.

Preview do Google Books



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sábado, 30 de setembro de 2017

A Sombra do Vento – Carlos Ruiz Zafón – Resenha de Releitura – Especial Zafón

Por Eric Silva

Notas:                                                                                                                                   
{1} a presente resenha é uma ampliação que reestrutura, adapta e aprofunda as considerações presentes em outro texto anterior sobre o mesmo livro, além de acrescentar observações e elementos ausentes no outro.
{2} todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.
{3} Diga-nos o que achou da resenha nos comentários.


“Você sabe quando leu um bom livro quando vira a última página e sente-se quase como se tivesse perdido um amigo”. (Paul Sweeney)




“Os livros são capazes de mudar vidas, até mesmo guiá-las. Não são apenas palavras impressas no papel, mas o clamor da alma de quem as escreve, que se mistura a alma de quem as lê, em um frenesi de sensações e sentimentos tão violento quanto o caudal de um rio furioso.  Foi esse frenesi, tão parecido com a sensação de estar apaixonado, que revolucionou a vida de Daniel e fez dele o homem que se tornou. Que o guiou pelas ramblas e ruelas da antiga Barcelona franquista, em busca dos rastro de alguém que parecia ter sido engolido pelas sombras e pelo fogo”. Hoje retorno a este livro fabuloso para o especial Zafón e preservo aqui a mesma introdução da primeira resenha que fiz desse livro, porque ainda sinto viva a mesma chama de paixão que me consumiu quando li A Sombra do Vento pela primeira vez. Que essa paixão perdure por um tempo incontável.

Sinopse

Daniel ainda tinha 11 anos quando em uma noite se dá conta de que não se lembra mais do rosto da falecida mãe.  Para consolar o filho, o senhor Sempere conduz o menino pelas ruas de Barcelona durante a madrugada para conhecer um lugar misterioso e secreto: o Cemitério dos Livros Esquecidos. Na imensidão de livros daquele lugar, Daniel descobre A sombra do vento, livro de um misterioso e desconhecido escritor chamado Julián Carax. Obcecado pelo livro, Daniel busca saber mais sobre seu autor, mas a vida de Carax se demonstra um mistério cheio de lacunas. Se isso não bastasse, alguém estava decidido a destruir todos os seus livros e talvez aquele volume da Sombra do Vento fosse o último sobrevivente. Sempre em busca de desvendar o passado de Julian, Daniel dedica anos a sua investigação, percorrendo todos os recantos da antiga cidade cheia de histórias, segredos e perigos, e o que antes era só uma curiosidade se torna o principal propósito de sua vida.

Resenha

Obra do escritor espanhol Carlos Ruiz Zafón, A Sombra do Vento é decididamente um dos meus livros prediletos. Li esse romance pela primeira vez no primeiro semestre de 2016, em sua edição portuguesa, mas gostei tanto que decidi me aventurar mais pela literatura espanhola e inspirado na obra de Zafón criei a campanha do #AnoDaEspanha, primeira edição daquilo que depois chamei de Campanha Anula de Literatura do Conhecer Tudo.

Não há nada nesse livro que eu não gostei ou ache cansativo ou clichê. Gosto da sua narrativa, da beleza das palavras escolhidas pelo autor e da atmosfera de romance folhetinesco de aventura que ao mesmo tempo conserva uma atmosfera de saudosismo e uma poética que é toda própria de sua narrativa. Dessa vez li a edição brasileira e achei-a igualmente bela, e no futuro, quem sabe, leia também a edição original em espanhol.

Volto hoje a esse livro fantástico para reafirmar e aprofundar minhas considerações sobre ele, destacando minhas impressões sobre uma história que me parece quase perfeita porque não me deixou brechas para críticas negativas.

Sobre perdas e solidão: o contexto histórico e o enredo

Escrito em primeira pessoa, A Sombra do Vento conta a história das aventuras de seu narrador, Daniel Sempere, em busca de desvendar o passado e o destino dado a Julián Carax, um desconhecido escritor que além de ter desaparecido do mapa como muitos outros no período final da Guerra Civil Espanhola, ainda, estava tendo todos os seus livros sistematicamente destruídos por um misterioso incendiário.

Toda a trama começa na noite quando Daniel, ainda criança, acorda desesperado por não conseguir mais lembrar do rosto da mãe, falecida alguns anos antes. Para consolá-lo, o pai do menino leva-o no meio da noite a um lugar escondido na cidade de Barcelona, cuja localização deveria continuar em segredo: o Cemitério dos Livros Esquecidos. Nesse lugar, que nada mais era do que uma colossal biblioteca secreta, eram mantidos centenas de livros a salvos do furor da ditadura da época.

Como todos que conheciam pela primeira vez o Cemitério, Daniel teve o direito de levar para si um exemplar de suas muitas estantes e conservá-lo consigo para sempre. Caminhando naquela profusão de livros, o menino encontra aquele que seria o estopim para uma aventura que mudaria os rumos de sua vida: A Sombra do Vento, o livro de um escritor de nome Julián Carax.

Feliz com seu achado, Daniel volta para casa com o pai e mergulha no enredo daquele livro misterioso sem, no entanto, conseguir se desvencilhar de sua narrativa gótica ao longo de toda a madrugada. Tão fantástico era aquele livro que Daniel desejou conhecer mais da obra de seu escritor e ler todos os seus livros. Contudo, para sua decepção bem pouco se sabia sobre Carax, de sua história, destino e mesmo de seus livros. Nem mesmo o pai do menino, “livreiro de raça e bom conhecedor dos catálogos editoriais”, nunca havia ouvido falar do misterioso escritor. Pior do que isso, ao que parecia todos os livros do autor estavam sendo queimados por um louco que os comprava a qualquer preço, unicamente para depois deitar-lhes fogo.
                                                                                     
Diante daquele impasse, Daniel por muitos anos se lançaria na aventura de desvendar esse passado de Carax sempre envolto em mistérios, perigos e lacunas. O livro de Zafón irá, então, nos guiar entorno desta busca que muito contribuiu para o crescimento do próprio Daniel e que incansável persistia em reunir todas as informações possíveis sobre a vida de Carax.

Barcelona 1950.
Imagem: Francesc Català Roca

Passada entre os anos de 1945 e 1956, a história de A Sombra do Vento tem por cenário a Barcelona dos tempos do governo fascista do general Francisco Franco.

Depois da sangrenta guerra civil entre republicanos e nacionalistas que findaria com ascensão do general Franco ao poder, em 1939, a Espanha mergulharia em um período fortemente marcado pela repressão e controle social da ditadura franquista e que perduraria até a morte do ditador em 1975. Durante o conflito, Barcelona foi uma das cidades que por mais tempo resistiram às tropas de Franco e por isso as marcas do conflito ali parecem ser bem mais profundas.

A história contada pelo livro de Zafón se situa exatamente no auge de um período marcado pela repressão e eliminação dos opositores políticos por parte da administração do regime. Uma época na qual também se buscava propagar “um discurso romântico nacionalista, catolicista, anticomunismo e tradicionalista”[1] que se centrava e enaltecia a figura do líder. Cenário que se materializa sobretudo na figura louca e tirânica de um dos principais personagens da trama: o Inspetor de polícia Francisco Javier Fumero que encontra no sistema vigente o espaço necessário para dar vazão a sua brutalidade e insanidade.

Por se situar neste período, A Sombra do Vento não é uma obra que se limita a falar de livros ou da paixão por eles, é uma obra que fala sobre uma época sombria da história da Espanha. A Barcelona descrita na história é uma cidade de pessoas ainda marcadas pelos anos de Guerra Civil. As marcas do conflito estão em todos os lugares, como nos restos de estilhaço na Plaza de San Felipe Neri, mas principalmente nas pessoas. A Sombra do Vento, parafraseando Saramago, é um ensaio sobre a amargura e a solidão. Quase todos os personagens são de alguma forma atingidos pela amargura, alguns deles pela loucura, mas principalmente pelo sentimento da perda. São pessoas que sofreram os terrores do conflito, que perderam pessoas queridas no Castillo de Montjuic[2], que amargam vidas solitárias ou que vivem os dissabores da perseguição política, ideológica ou moralista vigente no período ditatorial.

[...] "Falei-lhe de como, até aquele instante, não havia compreendido que aquela era uma história de pessoas solitárias, de ausências e de perda, e que, por esse motivo, havia me refugiado nela até confundi-la com a minha própria vida, como quem escapa pelas páginas de um romance porque aqueles que precisam amar são apenas sombras que moram na alma de um estranho." [...]

Por outro lado, o livro não se limita a falar de desesperança e ao mesmo tempo abre espaço para o sonho, a amizade e o amor juvenil. Daniel é o principal exemplo disso. Um rapaz jovem e apaixonado, que como qualquer adolescente tem seus momentos de dúvida e de cometer seus erros e injustiças, mas que carrega consigo sua própria luz. Ainda que carregue como todos os outros o peso de uma perda, esse sentimento se contrapõe a seu coração sincero, curioso e aventureiro que anima e move toda a história e as pessoas que atravessam seu caminho ou estão a sua volta.

Uma escrita fabulosa que mistura vários estilos

O autor.
Imagem: Wikimedia Commons.
A Sombra do Vento é um livro em estilo gótico cheio de surpresas e lugares espetaculares. À medida que vamos lendo o magnetismo da escrita de Zafón prende nossa curiosidade e a cada nova revelação tece uma parte de outra história paralela e marcada por sofrimento e desencontros: a história do passado de Julian Carax. Uma trama original que mistura muitos estilos como o suspense das novelas de detetives e de aventuras com um toque gótico e da ficção sobrenatural, o que, no conjunto, dá a trama um caráter único, singular, sem abusar de clichês, ou tornar complexo e cansativo o enredo.

Logo no começo da narrativa, Zafón demonstra o poder de um escrita que também é marcada pela originalidade, e, brincando com as palavras, faz construções de grande beleza estética para descrever com detalhes concretos os cenários e as personagens que os animam. É com uma escrita elegante sem ser cansativa nem por demasia extravagante que o autor, logo nas primeiras páginas, descreve a imagem melancólica de um amanhecer enevoado – e a capa do livro não poderia ser mais adequada – na qual um pai e seu filho atravessam as ruas desertas de uma Barcelona que ainda despertava, para irem de encontro com a maior aventura de suas vidas:

[...] Ainda me lembro daquele amanhecer em que o meu pai me levou pela primeira vez para visitar o Cemitério dos Livros Esquecidos. Despontavam os primeiros dias de Verão de 1945 e andávamos pelas ruas de uma Barcelona aprisionada sob um céu cinzento, com um sol de vapor que se derramava na Rambla de Santa Mónica como uma grinalda de cobre líquido.
– Daniel, o que você vai ver hoje não pode contar a ninguém - advertiu meu pai. – Nem ao seu amigo Tomás. A ninguém.
– Nem a mamãe? – perguntei, em voz baixa.
Meu pai deu um suspiro, amparado naquele sorriso triste que o perseguia como uma sombra pela vida.
– Claro que sim – respondeu, cabisbaixo. – Com ela não temos segredos. A ela você pode contar tudo. [...]

Esse estilo e construções narrativas é marcante na narrativa sempre que o autor tenta reproduzir a atmosfera de uma Barcelona misteriosa e gótica e que se encontrava mergulhada no torpor de uma época de censura e repressão.

No que tange à tradução, acho que tanto aquela realizada para o português lusitano    por J. Teixeira de Aguilar quanto a tradução brasileira feita por Marcia Ribas[3] são esplendorosas, no entanto, em alguns momentos de maior lirismo da escrita de Zafón acho que a tradução portuguesa ficou mais sofisticada, contudo a tradução brasileira é mais limpa e fluida, sem deixar de ser bela. Dessa forma, o lirismo de Zafón é preservado, e, assim como suas construções, cria cenários na qual mergulhamos sem sentir e nos faz vislumbrar toda a cena como se assistíssemos a um filme:

[...] Por quase meia hora perambulei pelos esconderijos daquele labirinto com cheiro de papel velho, pó e magia. Deixei que minha mão roçasse as avenidas de volumes expostos, numa tentativa de fazer a minha escolha. Percebi, entre os títulos apagados pelo tempo, palavras em línguas conhecidas e dezenas de outras que não podia reconhecer. Percorri corredores e galerias em espiral, repletos de milhares de volumes que pareciam saber mais a meu respeito do que eu sobre eles. Aos poucos, assaltou-me a ideia de que atrás da capa de cada um daqueles livros se abria um infinito universo por explorar e que, fora daquelas paredes, o mundo deixava que a vida passasse em tardes de futebol e em novelas de rádio, satisfeito em ver apenas até onde vai o seu umbigo e pouco mais. Talvez tenha sido esse pensamento, talvez o acaso ou seu parente elegante, o destino, mas naquele mesmo instante percebi que tinha escolhido o livro que ia adotar. Ou talvez devesse dizer, o livro que me adotaria. Ele se destacava timidamente no canto de um estante, encadernado numa capa cor de vinho e sussurrando o seu título em letras douradas que brilhavam na luz vinda da cúpula no alto. Aproximei-me dele e acariciei as palavras com as pontas dos dedos, lendo em silêncio:

A Sombra do Vento
JULIÁN CARAX

[...]

Essa é uma passagem que, além de revelar importantes aspectos do lirismo da escrita de Zafón, mostra também como este registra os fatos e os lugares de forma criativa e tece as história de seus personagens ligando-os entre si de forma majestosa e inteligente. Mesmo quando li a versão portuguesa com todos os limites das diferenças regionais do idioma ainda consegui me apaixonar pela forma como ele compõe sua história, pela sua capacidade criativa.

Dos personagens principais, os meus favoritos

Ilustração a lápis para o livro de Carlos Ruiz Zafón: A sombra do Vento.
Novembro de 2008.
Arte de Elisa de la Torre
A Sombra do Vento é um romance de muitos personagens, cada qual com sua própria importância e participação na aventura de Daniel, porém alguns, além do protagonista, se destacam e se tornaram os meus favoritos ou dignos de nota, como é o caso do principal antagonista da trama: Fumero.

Daniel é o principal personagem da trama junto com o misterioso Julian Carax. Filho do comerciante de livros Sempere, Daniel se mostra, a princípio, um garoto ingênuo, mas que ao longo da história vai ganhando maturidade, porém sem perder o frescor que é comum a juventude, nem a capacidade de se apaixonar por qualquer mulher que lhe encantasse os olhos. Perdera cedo a mãe cujo rosto já não se lembrava e tem uma relação de altos e baixos com o pai que possui ao longo da trama uma presença relativamente silenciosa apesar de sua importância enorme para o enredo.

Pouco a pouco, o menino entristecido que nos é apresentado no primeiro capítulo vai dando lugar a um outro, mais aventureiro, mais ousado e aberto ao desconhecido. Na minha opinião – dando uma de psicólogo até – eu diria que, na verdade, a busca pelo passado de Carax foi para o garoto uma forma de preencher um vazio deixado pela morte da mãe. Vazio que o pai nunca foi capaz de suprimir apesar de seu zelo e amor. Desvendar Carax seria a chave para que ele recordasse o rosto perdido de sua mãe, como sugere o enredo.

Muito intenso, Daniel é um personagem cativante, a pesar de em alguns momentos se mostrar inseguro, vacilante, mas são características que o torna mais humano.  Ainda me impressionou algumas vezes como com o seu jeito manso, sua malícia e astúcia convencia as pessoas a dizerem o que ele queria e precisava saber. É através de seus passos e andanças que vamos conhecendo a cidade e seus curiosos e melancólicos habitantes.

Por sua vez, Fermín era um alegre e beberrão morador de rua que fora resgatado da indigência por Daniel e seu pai que lhe deram um trabalho na livraria. Um literato desavergonhado e mulherengo que viva fazendo referências aos clássicos junto com seus comentários bem humorados sobre a virilidade masculina e os jogos de sedução entre homens e mulheres. Mas Fermín é também um personagem que considero curioso. Mesmo tendo sofrido horrores durante e depois da Guerra Civil, ele conservava a alegria, a espiritualidade e a juventude que somente os personagens mais jovens da trama conseguiam esboçar e até de forma mais intensa do que esses.

Fermín juntamente com Daniel são a alma da história e por isso, em meados da narrativa, o ex-mendigo se torna o principal aliado de Daniel na investigação sobre o mistério de Carax.

Outros dois personagens dignos de nota são Julian Carax e o inspetor Francisco Javier Fumero.
Carax se revela a maior surpresa desse livro, pois ao contrário do que se poderia esperar de um escritor, sua vida foi bastante conturbada e cheia de percalços. Um personagem enigmático, sedutor, cuja existência foi capaz de interferir na vida de muitas outras pessoas. Uma história digna de seus próprios livros.

Ao longo da trama vamos aprendendo a amá-lo e odiá-lo, somos alimentados pelo mistério de sua vida e agraciados com um final surpreendente. Carax figura para Daniel como um personagem misterioso cujo mistério da vida o seduzia e tragava e no fim, dividimos com o rapaz o seu fascínio por esse homem cheio de mistérios e pelas várias formas que esse toma ao longo da vida.

Fumero, por seu turno, era um homem asqueroso e louco com uma lista de assassinatos e torturas tão grande que fazia dele o homem mais perigoso de Barcelona e o terror causado pelos anos de ditadura é marcante na história através de sua figura sinistra. Ao longo do livro o personagem vai ganhando espaço e importância como o principal antagonista de Daniel e principalmente de seu companheiro de aventuras, Fermín, a quem Fumero já perseguia desde a época da guerra, tomando-o como um de seus maiores desafetos.

Gradativamente a trama vai conectando cada personagem e expõe uma rede de relações conturbadas e perigosas que conecta cada história entorno de Carax, Daniel e Fermín, entrelaçando as vidas de todos eles como se fossem os fios de uma grande e complexa tapeçaria. Contudo, nenhuma dessas conexões soa ao leitor como absurda ou forçada pelo autor para dar um destino à história. Pelo contrário, demonstram a sagacidade de um escritor acostumado ao mistério e que por isso sabe soltar cada revelação, cada segredo no seu devido momento e assim reconstituir aos poucos cada passo do passado e do presente de seus personagens.

Um livro onde cabe uma cidade inteira

Vista sobre a avenida Paseo de Gracia.
Imagem: Wikimedia Commons

Acho que dizer que Barcelona é também uma personagem de A Sombra do Vento não seria de todo um absurdo, porque nesse livro vivemos a cidade catalã junto com Daniel, aprendemos o nome de suas ruas, de suas ramblas e plazas, conhecemos seus cantos e recantos, sua gente. Ela tem também uma importância enorme para seus moradores que a vivem com intensidade e conhecem-na intimamente.

Afirma Pedro Lacerda[4], em artigo sobre o filme Las Insoladas, que a cidade pode possuir “um papel importante na condução dos seus indivíduos e também é reflexo deles, estabelecendo uma troca que pode gerar, por vezes uma apatia, em outros momentos a descoberta de novos sentidos escondidos em parques, ruelas, paredes e topos de prédios”.

A Barcelona de Zafón é cheio dessas identificações de que fala Lacerda. Ela guarda seus segredos encantados como O Cemitério dos Livros Esquecidos, reduto de alguns poucos escolhidos. Ela guarda lugares tenebroso e esquecidos como “O Anjo da Bruma”, mas também é fonte de diversos laços subjetivos que seus moradores nutrem com seus espaços. Isso torna Barcelona não só o cenário mas um personagem que influi sobre a vida de seus personagens, em seu humor e estado de espírito. Além disso sua história tem peso sobre os personagens tanto quanto eles tem peso sobre a construção de sua história futura. 

Daniel como narrador cita e descreve lugares de Barcelona de uma forma espontânea e cheia de detalhes, demonstrando que conhece-a em toda a sua intimidade, além de deixar nítido na sua fala a relação de amor que nutre por sua cidade:

[...] O dia estava esplêndido, com um céu azul de brigadeiro e uma brisa limpa e fresca que cheirava a outono e a mar. A minha Barcelona favorita foi sempre a de outubro, quando a nossa alma sai para passear e nos sentimos mais sábios só de beber água na fonte de Canaletas que, por milagre, nesses dias se quer tem gosto de cloro. Eu avançava a passos rápidos, esquivando-me dos engraxates, dos empregados de escritório que voltavam do cafezinho da manhã, dos vendedores de bilhetes de loteria e de um balé de lixeiros que pareciam limpar a cidade a pincel, sem pressa e muito meticuloso. Nessa época, Barcelona começava a se encher de automóveis, e na altura do sinal da Rua Balmes observei, de pé nas duas calçadas empregados de escritório com capas de chuva cinzentas e olhar faminto que comiam com os olhos um Studebaker como se ele fosse uma mulher de roupa de banho. Subi pela Balmes até à Gran Via, aflito os sinais, bondes, automóveis e até motocicletas com sidecar. [...]

Mas o garoto não apenas vive cada pedaço de Barcelona como em certos momentos a cidade parece responder aos seus sentimentos através da mudança das estações e do tempo.

[...] Ela vai ligar depois, falei para mim mesmo. Alguém devia tê-la surpreendido. Não devia ser fácil burlar o toque de recolher do senhor Aguilar. Não havia razão para sustos. Com essa e outras desculpas arrastei-me até à mesa para fingir que acompanhava o meu pai e Fermín no seu café da manhã. Talvez fosse a chuva, mas a comida havia perdido todo o seu sabor.
Choveu a manhã inteira e, logo depois de abrir a livraria, tivemos uma falta de luz geral no bairro que durou até o meio-dia. [...]

Quase sempre que os personagens se encontravam apreensivos ou tristes, como Daniel nessa passagem, a cidade parece em sintonia com o sentimento vivido por eles. Por isso, falar em Barcelona como um outro personagem da trama não me soa como exagero.

Ultimas considerações sobre um livro marcante

Imagem: Eric Silva.

Como disse em outro momento, A Sombra do Vento é um livro lindo e sincero e o principal responsável por despertar em mim um fascínio pela Espanha, particularmente por Barcelona, que até então não existia. Em grande parte esse fascínio se deve a narrativa tão cheia de imagens de uma Barcelona antiga e pelo fato de Daniel nos pegar pela mão e ir apresentando cada recanto do mais belo ao mais tenebrosos de uma cidade fantástica, mas que se encontrava sempre encoberta por uma neblina criada pelo momento histórico.

Assim como o livro de Carax se caracterizava por ser uma narrativa fantástica que envolvia o sobrenatural e o misterioso, a obra de Zafón mergulha nesse mesmo universo de ausências, mistérios, perdas e solidão. O autor ainda demonstra uma sensível capacidade de compor imagens singelas e tenebrosas em que reúne beleza e sensibilidade – “uma rosa rodeada de inverno”.

Ler A Sombra do Vento foi ainda mais interessante porque fala de um apaixonado pelos livros, assim como eu. Além disso, a narrativa misturou tudo o que gosto: lugares incríveis, mistério, uma boa escrita e aventura. É ao mesmo tempo um livro que traça a história “recente” de uma cidade deslumbrante e com séculos de existência provocando o seu leitor para ama-la tanto quanto os seus personagens, e provavelmente o seu autor.

Só faz um ano que li esse livro e essa releitura só veio reafirmar o que eu já sabia: A Sombra do Vento é um livro fantástico que nunca me cansa, uma narrativa que eu amo. Só renovou um desejo que expressei na primeira vez que resenhei esse livro, torno a repetir aqui: ainda quero um dia encontrar o caminho para o Cemitério dos Livros Esquecidos, e complemento que este caminho está em Barcelona cidade que definitivamente um dia percorrerei assim como fizeram Daniel e Fermín.

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[1] https://www.todamateria.com.br/franquismo-na-espanha/
[2] Antiga fortaleza militar situada em uma montanha com o mesmo nome. O local foi ponto estratégico de defesa e palco de muitas prisões e torturas ao longo de diversos conflitos ocorridos em Barcelona.
[3] Os trechos publicados aqui foram extraídos da edição brasileira: ZAFÓN, Carlos R. A Sombra do Vento. Tradução: Marcia Ribas. 1 ed. Rio de Janeiro: Suma de letras, 2007. 400 p.
[4] http://obviousmag.org/megafone_vermelho/2015/a-cidade-como-personagem.html

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