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quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Anna e a Trilha Secreta – Ana Lúcia Merege - Resenha

Por Eric Silva

Recentemente resenhei um dos principais livros da autora brasileira Anna Lúcia Merege, o primeiro livro da série Athelgard, O Castelo das Águias. Na ocasião da publicação a autora ficou sabendo da nossa resenha e nos deu o privilégio de lê-la e o prazer de manifestar sua opinião sobre ela. Mas mais do que isso Anna Lúcia nos enviou duas de suas outras obras para doação a biblioteca de nossa cidade: a Biblioteca da Filarmônica 30 de Junho. Uma atitude bonita e que permitirá com que os serrinhenses conheçam também um pouco de sua obra.

O primeiro dos livros é O Caçador, a primeira obra de ficção da autora e que resenharemos em breve, e o outro livro é Anna e a Trilha Secreta, obra pertencente ao universo de Athelgard e que será o tema desta resenha.

Sinopse

Anna é uma garota humana, mas que foi criada por sua avó entre os elfos da tribo da Floresta dos Teixos. Na tribo, cada um possui suas próprias responsabilidades e todos trabalham em conjunto para o bem estar e sobrevivência da comunidade. Porém Anna é mais lenta e mais forte do que seus amigos e muitas vezes o trabalho mais pesado acaba sendo dela, o que incomoda bastante a menina que se sente diferente dos demais por ser humana.

Como nem a avó, Kyara, e nem o primo xamã, Zendak, respondem às dúvidas que inquietam seu coração, Anna vai ao encontro de Maryan, sua mestra e esposa de Zendak. Contudo, também Maryan estava muito atarefada para dar a atenção que a menina necessitava naquele momento, mas encube à Anna a missão de levar a Zendak uma bolsa de talismãs que ela havia terminado de preparar.

Um tanto desconsolada, Anna aceita sua tarefa e regressa à floresta com a bolsa, porém, antes que encontrasse o primo, é surpreendida pelo ataque de uma coruja que rouba-lhe a bolsa. Aflita a menina resolve perseguir o animal pela floresta e dá início a uma aventura por uma trilha secreta que irá mudar toda a sua vida.

Resenha

Anna e a Trilha Secreta é uma novela infanto-juvenil que fala de identidade, de afirmação, de coragem e determinação. O livro não só complementa o universo da série Athelgard como dá ao seu leitor um entendimento mais amplo e próximo das origens de sua personagem principal. É uma história curta, mas povoada de significados e simbologias.
A autora

Na resenha do livro O Castelo da Águia abordei a forma como a personagem Anna de Bryle possuía uma forte identidade étnica e um sentimento de pertença muito grande em relação aos membros da tribo da Floresta dos Teixos. A Trilha é sem dúvida a resposta de como se formou esta identidade. Ao longo da narrativa, a menina órfã, humana e criada pela avó elfa em meio ao seu povo vai ganhando os primeiros contornos da mulher corajosa e identitariamente ligada ao seu lugar de origem, a mestra de sagas de O Castelo. Em a Trilha Secreta Anna é apresentada ainda criança e tem seus primeiros contatos com os espíritos guardiões de sua tribo.

Muitas vezes temos dúvidas sobre nosso papel no mundo, sobre a nossa função dentro do grupo, principalmente se nos sentimos diferente dos demais. Quando nos sentimos assim, às vezes, é necessário que ouçamos a opinião de outras pessoas, mais vividas e com mais experiência e que nos ajudam a reconhecer a nossa importância para o grupo. Mas, às vezes, é necessário mais que isso. É preciso que vivamos uma situação limite, que ponha a prova o conhecimento que temos de nós mesmos e do mundo para que, então, possamos reencontraram nosso caminho ou encontrar um caminho novo.

Esse primeiro encontro com as divindades da floresta será para Anna um desafio que lhe servirá não apenas como um teste, mas como um caminho de autoconhecimento, de formação e afirmação da própria identidade, o que será significativo para o seu auto-reconhecimento como membro legítimo do grupo. Desta forma, nas entrelinhas a autora vem trazer um ensinamento da necessidade de que trilhemos estes caminhos de autoconhecimento bastante espinhentos, algumas vezes tortuosos e incertos, para que saiamos deles renovados ou transformados, mas, com certeza, mais fortes. Não se trata apenas de um teste, mas uma busca por respostas, uma busca por nós mesmos.

Assim como em o Castelo das Águias, Anna e a Trilha Secreta também é uma história cheia de referências que se mesclam para compor as características culturais do povo da Floresta dos Teixos. Notei que a autora miscigena traços da cultura indígena norte americana com os mitos de alguns povos antigos da Europa, para compor os traços culturais da tribo de Anna.

Nas divindades da tribo da Floresta dos Teixos encontramos a referência aos indígenas norte-americanos que, em suas crenças, cultuavam animais como o lobo, o corvo, o urso, o coiote, a coruja e a águia. Estes indígenas também tinham no xamã seu guia espiritual e de contato com as divindades da floresta. Alguns destes animais sagrados também figuram o grupo de espíritos guardiões da comunidade de Anna e mesmo Zendak é um xamã, cujo guia é o corvo. Por sua vez, na espécie do povo da Floresta dos Teixos e na própria simbologia do teixo, uma espécie de árvore ancestral (vivem até 1200 anos) muito comum em alguns países europeus, vemos a referência às crenças nórdicas e célticas que acreditavam em elfos e outras criaturas míticas da floresta.

Arilos (maduro e imaturo) e folhagem de teixo. Wikimedia Commons.
Não sei os motivos que levaram a autora a escolher o teixo como símbolo da tribo de Anna, mas esta árvore por si só é muito peculiar. Descobri que além de tomar diferentes formas durante o seu lento processo de crescimento, o teixo é bastante conhecido pela alta toxidade de seus frutos e folhas (todas as partes do teixo são venenosas exceto os seus arilos[1]). Curiosamente suas folhas podem permanecer até 8 anos no ramo[2] e sua madeira, pela resistência, era uma das preferidas para a fabricação de arcos na Idade Média[3]. Mas algo mais curioso veio de um pesquisador alemão, Fred Hageneder, que em suas pesquisas descobriu que o teixo foi associado por algumas culturas antigas ao mito da Árvore do Mundo original[4]. Hageneder inclusive é autor de um livro sobre o teixo que se chama Yew – A History (Teixo – uma história).

Hoje o teixo é uma árvore ameaçada de extinção[5], mas coincidência ou não, existe realmente uma floresta de teixos na Reserva Natural Nacional de Kingley Vale. Kingley Vale fica em West Sussex, no sul da Inglaterra e lá fica uma das mais belas florestas de teixos da Europa. Segundo a lenda local, as arvores teriam teria sido plantadas como um memorial para uma batalha travada entre vikings e anglo-saxões ainda no ano de 859 d.C[6]. Ver as imagens de Kingley Vale nos dá uma ideia concreta de como deve ser a floresta da tribo de Anna imaginada por Merege.

Teixos da Reserva Natural Nacional de Kingley  Vale. Imagem: http://misteriosdomundo.org/

Por seu turno, os elfos figuram a mitologia dos povos escandinavos e dos celtas, interpretados como criaturas mágicas, imunes a velhice e a doença, mas que foram demonizados pelo cristianismo surgente na Europa[7]. Desta forma fica visível como a autora combina de forma harmoniosa um caldeirão de culturas antigas para compor o universo de Athelgard.

Por fim, uma coisa que gostaria de destacar é uma das minhas passagens preferidas no livro: o capítulo que fala dos Bosques sem Fim que crescem e se deslocam incessantemente impossibilitando que qualquer um encontre uma saída. Leia um trecho:

A floresta foi ficando mais e mais sombria. Não era apenas a escuridão da noite, que mal lhe permitia enxergar um palmo a frente do nariz; eram também as árvores, cada vez mais próximas uma das outras além de maiores e mais altas. Não brilhavam como no território do Lobo, mas seus galhos se torciam de forma estranha, e algumas vezes não se pareciam com as árvores que Anna conhecia da Floresta dos Teixos. Ou melhor, tinham alguma semelhança, mas estas se misturavam de um jeito que a deixavam confusa. Ela viu carvalhos nodosos cobertos por agulhas de pinheiro, troncos claros e retos de bétula encimados por copas frondosas, ramos de faia carregados de avelã. Algumas folhas tinham formatos que Anna nunca vira, e cores também, a julgar pelo que enxergava na escuridão crescente. Esse era o pior dos seus problemas: ela não tinha meios de se orientar. Nem conseguia enxergar uma trilha em meio às árvores, que cresciam em zigue-zague.  

Gostei do capítulo que fala do Bosque por dois motivos. O primeiro é que ele me fez lembrar a poesia de García Lorca, Manancial, que coloquei aqui no blog em uma postagem especial da campanha do #AnoDaEspanha. Na passagem mais bela deste poema, Lorca cria um efeito estético impressionante que envolve movimento e magia quando o eu lírico do poema, enquanto contempla o rio, transforma-se em uma árvore às suas margens. De alguma forma imaginar o bosque de Ana Lúcia ativou em minha memória a sensação que senti ao ler o poema de García Lorca, o mais belo do autor na minha opinião.

O segundo motivo foi me fazer lembrar de labirintos, uma imagem que para mim tem muitos significados e que me fez encarar os Bosques sem Fim como uma alegoria[8]. O bosque é nós mesmos, complexos em continua mudança e onde sentimentos, crenças e certezas podem se perder e dar lugar a desesperança. Também é a vida em completa e constante transformação e que se não formos capazes de um olhar total (de cima) acaba por nos tornar incapazes de antever a saída para nossos problemas. O bosque que se movimenta e se modifica é a vida que nos faz mudar de estratégia, que nos faz buscar novos olhares e nos adaptarmos dando resposta às adversidades, sobretudo quando a forma como abordamos os problemas se mostra ineficiente.

Talvez eu tenha ido um pouco longe. Só quem ler ou já leu poderá dizer se me deixei devanear, mas não é sempre que eu encontro tantos símbolos nas entrelinhas de um infanto-juvenil, mas já percebi que essa é uma marca das histórias de Ana Lúcia. Também, para quem lê os livros da autora, Anna e a Trilha Secreta é uma oportunidade de conhecer a personagem Anna quando ainda era criança. Nesta narrativa a menina ainda ignora o que acontecerá em seu futuro, mas os fatos ocorridos na trama lhe revelam lampejos de seu destino nas Terras Férteis.

A edição lida é da Editora Draco, do ano de 2015 e possui 83 páginas. Abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Google Books. Para o pessoal da Biblioteca da Filarmônica: em breve o livro estará lá para todos.


Previa do Google Books






[1] O arilo (arillus) é uma cobertura carnuda de certas sementes, formado a partir do funículo.
[2] http://www.aag.pt/fotos/agenda/ag_3520.PDF
[3] http://www.ehow.com.br/arvores-usadas-arcos-longos-info_190760/
[4] http://www.o-significado-das-arvores.net/o-teixo-e-falsos-conceitos-na-hist%C3%B3ria-religiosa
[5] http://www.aag.pt/fotos/agenda/ag_3520.PDF
[6] http://misteriosdomundo.org/a-antiga-floresta-de-teixo-de-kingley-vale/
[7] http://super.abril.com.br/historia/o-que-sao-os-elfos
[8] “Modo de expressão ou interpretação que consiste em representar pensamentos, ideias, qualidades sob forma figurada” (HOUAISS, 2001).

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Orlando e o Escudo da Coragem – Ana Lúcia Merege – Resenha


Por Eric Silva

Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.
Diga-nos o que achou da resenha nos comentários.

Está sem tempo para ler? Ouça a nossa resenha, basta clicar no play.




Orlando e o Escudo da Coragem é o mais novo infantojuvenil do universo de Athelgard, criação da escritora brasileira Ana Lúcia Merege. Em seu novo livro, Merege conta as aventuras de Orlando, um menino de 12 anos filho de um poderoso senhor de terras em Athelgard, que apesar de sua pouca idade enfrenta uma perigosa prova de coragem para mostrar o seu valor. Um livro criativo e sensível, com uma escrita acolhedora e uma narrativa que ensina o valor da coragem.

Sinopse

Orlando é o mais jovem dos filhos do thane[1] de Leighdale, um garoto esperto, gentil e corajoso de descendência élfica e com o dom da magia, mas que, no entanto, vive à sombra do seu meio-irmão mais velho, Lionel, conhecido por todos pela nobreza e bravura.

O garoto é tão honrado e capaz quanto seu irmão por quem ele tem uma grande admiração, mas ainda não conhece as próprias potencialidades. Em casa, todos implicam por ele insistir em treinar um falcão estrábico, o Vesgo, mas Orlando sabe que assim como ele o pequeno falcão possui potenciais inexplorados e por isso insiste no treinamento do falcão.

Entretanto chega o dia no qual, as potencialidades tanto do menino quanto as do falcão são postas à prova quando Lionel viaja para participar de um torneio e Orlando o acompanha como escudeiro. Naquela viagem às desconhecidas terras das Colinas Negras, por conta de uma série de mal-entendidos e confusões, o menino e seu falcão vivem uma grande e perigosa aventura na qual são testados e levados a mostrar os quão corajosos e capazes eram.

Resenha
Orlando, Lionel e um conto de cavalaria

Imagem: Eric Silva, 2018.
Orlando e o Escudo da Coragem possui uma série grande de personagens importantes, como Brian, que participa do torneio ao lado de Orlando, os caçadores Raylin e Ellak, e o senhor das Colinas Negras, Turnedil, mais a sua esposa, a Dama Elfrida. Porém destacarei apenas Orlando e seu irmão Lionel.

Orlando é um garoto repleto de qualidades positivas. Ele é amigável, aplicado, humilde e sensível, além de guardar em si acentuados graus de sabedoria, maturidade e senso de justiça. Isso tira, na visão de um adulto, um pouco da verossimilhança do personagem, mas para o público infantil ele é um símbolo de retidão e moralidade a ser seguido. Um garoto honesto e bom. Contudo, mesmo aí, o personagem se encaixa perfeitamente dentro das clássicas histórias de cavalaria, onde os cavaleiros tidos como justos eram, em sua maioria, exemplos de nobreza, cristandade e retidão de caráter.

É sem dúvida um personagem que possui seus medos e inseguranças sobretudo pela sua falta de experiência e pouca idade, entretanto ele busca a coragem para vencer seus medos e dar seu melhor.
Lionel é descrito como corajoso e habilidoso estando muito à frente de seu irmão menor, mas também é um bom irmão, atencioso e carinhoso. Defende-o, o estimula e incentiva, além de ensiná-lo, por isso, em lugar de competir com Lionel, Orlando sente admiração e não se importa profundamente de estar à sua sombra. São, em suma companheiros e bons irmãos.

Com precisamente 100 páginas Orlando e o Escudo da Coragem é uma pequena novela que se inspira nos antigos contos de cavalaria medievais. Como é especialidade da sua autora, trata-se de um livro cheio de magia e ensinamentos pensado para o público infantojuvenil, mas escrito com a qualidade de um livro sem faixa etária determinada.

Imagem: Eric Silva, 2018.
No blog da editora Draco[2], Merege conta que teve a ideia do livro depois que viu a imagem de um rapaz falcoeiro com o seu falcão, na imagem um falcão peregrino. Dali junto com o desejo de escrever mais livros voltados para o público infantojuvenil que usasse o universo de Athelgard como plano de fundo, a autora foi, durante o processo de escrita, compondo a narrativa de Orlando.
Para escrever seu livro Ana Lúcia buscou se aprofundar no universo da falcoaria, da cavalaria e dos torneios de justas. Em seu texto ela explica que a relação entre Orlando e seu meio-irmão Lionel foi inicialmente inspirada em “A Espada era a Lei”, e o tema em contos de cavalaria como “Sir Gawaine e o Cavaleiro Verde”. Daí nasceu a ideia de uma novela infantojuvenil inspirado nos romances de cavalaria e histórias de fantasia com a falcoaria, os torneiros medievais, o respeito as diferenças e a coragem como os principais temas abordados.

A falcoaria é uma prática antiga e hoje quase extinta que remota do período medieval. Trata-se da prática de caçar com falcões treinados para este fim. Era uma atividade comum entre a elite medieva e foi o esporte preferido de reis e senhores feudais da época[3]. Para amestrar as aves era necessário paciência e tempo e por isso é preciso escolher muito bem o animal e começar a treiná-la ainda filhote.

No livro de Merege falcoaria e respeito às diferenças se encontram para falar da relação de Orlando com sua ave, o Vesgo. Orlando dedica seu tempo a uma ave estrábica e que provavelmente nunca aprenderia a caçar por conta da alta precisão na visão necessária às aves nessa prática. Contudo, ele não abandona nem despreza Vesgo pelas suas condições físicas e busca explorar seus potenciais ao máximo, jamais desistindo, e irrita-se quando sua ave é descriminada pelos adultos e pelos amigos do irmão.

Image: Eric Silva, 2018.
O tema do respeito às diferenças é marcante na narrativa desse livro e vai muito além da história de Orlando e seu falcão. Ela permeia as relações humanas com os elfos e as criaturas míticas e é um dos principais valores defendidos por Merege em sua obra.

O outro valor é a coragem que vem na trama ligada as grandes dificuldades enfrentadas pelos cavaleiros nos torneios medievais.

Os torneios medievais ou justas eram competições de cavalaria ou pelejas comuns entre os séculos XII ao XVI na Europa[4], e utilizadas como populares formas de diversão executada pelos nobres, mas que atraía também a atenção da população camponesa que assistia às competições.

Todas as provas aplicadas nestes torneios implicavam riscos aos seus participantes e por isso funcionavam também como treinamento e teste de coragem. Mas a coragem de que fala Merege não se resume a bravura, mas a coragem de fazer o que é certo e de ser justo sempre, e Orlando enfrenta suas provações buscando mostra que a coragem possui um significado mais largo e amplo do que a qualidade de não ter medo. O torneio idealizado por ela baliza e faz aflorar a essência dos competidores fazendo emergir os preconceitos e valores: arrogância, bravura, honestidade, compaixão, egoísmo, descriminação, tudo aflora em cada competidor e são jugadas pelos idealizadores da disputa com equidade e justiça.

Essas associações e ensinamentos são comuns na obra de Merege. A autora sempre busca através de suas histórias trazer ao leitor adulto e infantojuvenil algum tipo de aprendizado. Neste livro coragem significa ser justo, não buscar o caminho mais curto, respeitando as diferenças e o outro enquanto busca abrir seu caminho pela vida. Ser corajoso é nunca recuar diante da adversidade e lutar por justiça.

Por esses ensinamentos Orlando e o Escudo da Coragem é um livro que dialoga intensamente com os demais da coleção que compreende o universo ficcional criado pela autora, porque em todos ela encerra algum tipo de ensinamento e valor essencial ao crescimento pessoal das pessoas. Esse diálogo é ainda mais intenso com Anna e a Trilha Secreta, outro livro infantojuvenil sobre a necessidade de que trilhemos caminhos que nos leve ao autoconhecimento, a autocitação e ao respeito às diferenças.

Características gerais e apreciação crítica

Imagem: Eric Silva, 2018.
Uma talentosa contadora de histórias, a escrita de Merege é o ponto que mais me agrada em sua obra. Seja lá qual for a temática que ela escreva, esteja na forma de romances, novelas ou mesmo de contos, e independentemente de para quais públicos ela escreva, sua escrita sempre me dá uma sensação de conforto que poucos autores me causam.

Quando você penetra em seus cenários primorosamente construídos é como se estivesse realmente vivenciando aqueles cenários medievais, bosques e florestas. A linguagem é coerente e adequada, você compreende completamente a história ainda que ela faça referências a elementos e objetos de época que não são conhecidos do público geral. Trata-se de liberdade criativa ampla sem perder o rumo ou deixar o leitor confuso.

A narração é limpa e se limita ao essencial sem perder, porém, a beleza de um texto que te envolve e prende. O narrador não opina nem interfere na narrativa, mas lhe diz o suficiente para que você entenda que toda a peça cumpre o papel de te ensinar algo.

O livro é curto e dividido em 13 capítulos pequenos e por isso a leitura é rápida. Como o texto é fluido e muito bem construído você nem sente quando a história acaba. A linguagem é acessível e mesmo os termos técnicos e históricos não atrapalham o entendimento geral da narrativa, deixa apenas o leitor na curiosidade para saber o que é um jarl (“título usado na Era Viquingue e no início da Idade Média para designar o governador de uma região relativamente grande ou o braço-direito de um rei”)[5] ou um thane (título dado a um oficial do rei local)[6].

Os personagens são construídos conforme suas características e valores, mas como o objetivo da trama é fazer emergir o que está oculto bem poucos são os personagens planos, o que se destaca são os personagens que evoluem com a trama e se transformam. O principal deles é Brian, um dos principais competidores do torneio e que ao longo da história mostra muitas de suas facetas. Isso torna interessante a narrativa e instigante, porque os personagens deixam de ser previsíveis, e ainda que o desfecho da história o seja, não sabemos por quais caminhos a história passará antes de desembocar no resultado que o leitor espera.

A edição é muito semelhante ao livro Anna e a Trilha Secreta e possui o mesmo desenho gráfico e diagramação. O livro é também ilustrado com os desenhos de Ericksama que além de bonitos são também delicados.

Novamente o que mais gostei em Orlando e o Escudo da Coragem é o que costumo gostar e me atrair na obra de Merege: os temas, cenários e a escrita aconchegante e gostosa de se ler. Não vejo pontos fracos em uma trama que foi pensado para o público infantil. Há alguns clichês e o uso de fórmulas já clássicas, mas isso é tudo e está totalmente condizente com o gênero e com o público a que o livro está dirigido. Ainda assim, Merege se sobressai com o seu talento e originalidade nos seus pontos mais fortes. Seus propósitos são claros: divertir, encantar e ensinar, e essas metas o livro cumpre com maestria.

A edição lida é da Editora Draco, do ano de 2018 e possui 100 páginas.

Sobre a autora

Nascida em 1969, na cidade do Rio de Janeiro, Ana Lúcia Merege é romancista e bibliotecária. Possui mestrado em Ciência da Informação, pelo IBICT/UFRJ-ECO, tendo defendido, em 1999, sua dissertação intitulada O livro impresso: trajetória e contemporaneidade. É também formada em Biblioteconomia pela UNIRIO e, desde 1996, trabalha no Setor de Manuscritos da Biblioteca Nacional, onde atua no trabalho com material original, fontes primárias, identificação de documentos e organização de exposições.

Seu primeiro romance publicado, O Caçador (2009), foi também o primeiro do gênero fantasia escrito pela autora que desde então vem se dedicando a organização de diversas coletâneas do gênero, além de contos e romances. Suas principais obras estão ligadas ao universo de Athelgard, criado pela escritora para ambientar sua mais recente trilogia que se inicia com o romance O Castelo das Águias e ganha sequência com os livros A Ilha dos Ossos e A Fonte Âmbar, todos publicados pela editora paulista Draco.

Com vasta experiência com manuscritos e forte interesse pela história do período medieval, Merege foi responsável ainda, na mesma editora, pela organização das coletâneas Excalibur: histórias de reis, magos e távolas redondas e Medieval: Contos de uma era fantástica, este último em parceria com o escritor brasileiro Eduardo Kasse.

A escritora ainda ministra cursos e palestras em instituições e escolas.




[1] Título dado a um oficial do rei local (Wikipédia).
[2] https://blog.editoradraco.com/2018/07/como-escrevi-orlando-e-o-escudo-da-coragem/
[3] Enciclopédia Delta Júnior
[4] https://pt.wikipedia.org/wiki/Torneio_medieval
[5] https://pt.wikipedia.org/wiki/Jarl
[6] https://en.wikipedia.org/wiki/Thane_(Scotland)


terça-feira, 9 de agosto de 2016

O Castelo das Águias – Ana Lúcia Merege – Resenha

Por Eric Silva.

Multiculturalismo, identidade étnica e defesa da natureza em um cenário de fantasia e magia. Mais do que uma simples narrativa do gênero fantasia, O Castelo das Águias, livro da autora brasileira Ana Lúcia Merege, traz em seu bojo uma multiplicidade de temas, alguns de forma não muito explícita, mas que vão além da costumeira atmosfera que encontramos nos livros do gênero. São discussões que podem chamar a atenção daqueles leitores mais antenados com questões como cultura, identidade, docência e ambientalismo, mas que vão se mostrando subjetivamente presentes na narrativa, permeando a construção da personalidade e da identidade de suas personagens.

Sinopse

Ambientado em um mundo mágico onde elfos e humanos convivem sob as mesmas leis e compõem uma sociedade onde a magia é a principal marca e o elemento de confluência entre povos tão diferentes, O Castelo das Águias, narra a história de Anna de Bryle, uma meio-humana criada em uma tribo de elfos, mas que ingressava em uma das mais respeitadas escolas de magia de seu país como Mestra de Sagas e vê sua vida mudada por completo pelas pessoas daquele lugar tão acolhedor, mas também difícil.

Saindo pela primeira vez de sua comunidade, Anna se sente entusiasmada com a oportunidade que lhe é dada pelo idealizador da escola, o Mestre Camdell, mas experimenta também o peso das diferenças culturais entre a vida a qual estava acostumada com seu povo e da tarefa desafiadora de lecionar. Somado a essas questões, a nova professora ainda tem que conciliar suas próprias questões com as diferentes personalidades dos colegas, sobretudo, da imperiosa elfa Thalia e do misterioso Kieran de Scyllix. Mas se isso já não bastasse, a moça ainda se vê envolvida com questões político-militares do Conselho de Guerra das Terras Férteis que porão em risco a liberdade e sobrevivência das poderosas águias guerreiras que dão nome ao castelo.

Resenha

Primeiro livro da série Athelgard, em Castelo das Águias, Ana Lúcia, se preocupa em apresentar ao seu leitor o universo por ela criada. Vamos aos poucos, pelo olhar da protagonista Anna, conhecendo a mistura étnica que compõe a sociedade élfica e humana das Terras Férteis de Athelgard, as crenças religiosas, os costumes culturais de cada povo, os conflitos comuns que se davam nas fronteiras e a importância da magia naquela estrutura social.

Já dentro dos muros da escola de magia também vamos conhecemos a estrutura das diferentes formas daquela arte e a importância que a mente, o poder da palavra e o conhecimento das sagas dos heróis possuem para sua realização. Diria eu, que o Castelo é mais um livro de apresentação da série, de seu mundo e de seus personagens. Como tal ele acabou abrindo espaço para algumas questões muito interessantes e quero pontuar algumas delas ao longo desta resenha.

Referências e originalidade

Quem lê o livro de Ana Lúcia de imediato percebe algumas de suas referências, sobretudo, o universo de Harry Potter e alguns poucos elementos de O Senhor dos Anéis. Não sei se a autora deliberadamente se inspirou nestes livros, mas em alguns pontos as histórias se aproximam, sobretudo na ideia de uma escola de magia e seu singular séquito de professores, presente na série da britânica J. K. Rowling, e as criaturas mágicas representadas pelos elfos, cuja presença é marcante no livro de J. R. R. Tolkien.
A autora, Ana Lúcia Merege, é fluminense. Imagem: Biblioteca Nacional.

Porém, a autora com criatividade soube demonstrar sua originalidade ao se concentrar em um dos mestres da escola, indo em sentido contrário ao que vemos em Harry Potter, cuja história se encontra centrada nas experiências e aventuras de um grupo de estudantes da escola de magia idealizada por Rowling. Mas a originalidade do livro não para por ir e a criatividade da autora desponta, sobretudo, ao criar um universo de convivência íntima e amistosa entre criaturas mágicas e humanos – muito perceptível na sociedade multicultural que é formada na cidade de Vrindavahn – e ao criar uma personagem com referências étnicas tão fortes como as existentes em Anna.

Quem pensa, logo ao iniciar o livro, que a história será uma reprodução de tudo que já foi visto nos livros citados descobre o engano ao conhecer mais profundamente as personagens e a bagagem por elas trazidas. É certo que há muitas semelhanças, mas quero aqui ressaltar o que este livro tem de diferente.

Multiculturalismo, miscigenação e identidade étnica

Uma primeira marca de O Castelo das Águias que chamou minha atenção foi o multiculturalismo presente na sociedade idealizada pela autora. Ana Lúcia cria uma sociedade onde os costumes e crenças de seres humanos e elfos se misturam.

Multiculturalismo, em interpretação livre do rigor acadêmico, significa a presença de diversas culturas no seio de uma mesma sociedade ou coexistindo em uma mesma região. No livro temos algo parecido, marcadamente na cidade de Vrindavahn. Quando Anna chega a cidade e caminha pelas suas ruas, ela inevitavelmente tece uma comparação entre os costumes de seu povo e os elementos que ela empiricamente podia observar no mercado da cidade. Mas, mais do que isso, ela destaca o quanto elementos culturais de ambos os grupos se mesclavam ali:

“As roupas das pessoas também eram diferentes, mais curtas e leves do que as usadas em Lardale. Os delicados bordados figurativos, comuns entre os elfos brilhantes, estavam nos vestidos das moças humanas, e alguns rapazes dispensavam calças e calções em favor de túnicas na altura dos joelhos. Isso era muito mais comum entre os que pareciam abastados, fazendo com que eu me indagasse se, bem lá no fundo, não desejavam ser como a nobreza élfica. Ou aquela mistura de estilos era mais uma consequência natural do convívio entre as raças?”

Nesta passagem Anna constata a partir do vestuário a existência desta convivência de costumes e que se miscigenam em um todo cultural, mas que em parte também se diferia da região de onde a própria Anna vinha.

Indo mais além, essa miscigenação cultural me pareceu existir também no campo religioso em que um mesmo templo abriga diferentes cultos. Trata-se do Templo do Deus Único. Na narrativa, Anna explica que a religião professada pelo templo, apesar de bastante estrita, sobretudo para magos, era, ali em Vrindavahn, bem mais flexível quanto a magia e ao pluralismo que ali existia. Assim, os jovens magos seguiam aquela religião por duas razões:

"A primeira: a Magia da Forma e Pensamento podia ser praticada independentemente de qualquer crença. E a segunda, muito importante para quem se propunha a conhecer as Terras Férteis: a convivência de longa data com os elfos brilhantes, ou a necessidade de partilhar o território com eles, fazia com que os preceitos do Templo fossem mais flexíveis ali do que em outras regiões".

Estrita ou não o certo é que o templo abrigava dentro de si diferentes cultos a uma multiplicidade de deuses, ainda que trouxesse o nome de Deus Único. Essa foi para mim a maior prova de multiculturalismo na história e convivência entre culturas diferentes, mas não foi a única.

É válido ressaltar também que esta convivência está também no ensino da Escola de Magia que não se restringe ao estudo puro desta, mas associado às artes dos saltimbancos, músicos e artesões humanos, em uma integração de áreas de conhecimento no qual, elfos, meio-humanos e humanos estudam juntos elementos de ambas as culturas e com mestres das duas raças.

Mas, em se tratando de cultura, o que mais me chamou a atenção foi a identidade étnica muito forte trazida pela protagonista Anna.

Anna é meio-humana, o que significa que só uma parte do seu sangue é élfico e, no seu caso, uma parte muito pequena, mas foi criada por sua família em uma tribo élfica no coração da floresta dos Teixos. Apesar da cautela inicial que os elfos tinham ao se aproximar dela quando ainda era menina, Anna foi pouco a pouco sendo integrada a vida comunitária e vista como um igual enquanto crescia envolvida pelos costumes e tradições de sua tribo. Se isso não bastasse, a moça ainda sob influência da prima Maryan se apaixona pelas histórias dos seus antepassados e passa a escrever dezenas de narrativas contadas pelos mais velhos de seu povo. Essa experiência, sem dúvida, foi crucial para que Anna se tornasse Mestre de Sagas, mas sobretudo, para que ela criasse uma forte identidade com o seu povo, uma identidade étnica forte que ela defende, valoriza ao passo que a define como pessoa. Não é de surpreender que ela levasse consigo para a Escola de Magia toda essa carga simbólica.

A identidade étnica de Anna aparece por todo o livro, nos seus talismãs, no estranhamento que ela demonstra em relação a algumas práticas culturais das novas pessoas que conhece, na sua prática pedagógica, mas aparecerá mais fortemente nos capítulos 10 e 11 onde a personagem também descobre que dentro de si nascia uma nova identificação, com a Escola e com seu trabalho, que reforça sua identidade como Mestre de Sagas.

Considero Anna a melhor personagem do livro, uma pessoa notável pelo seu caráter e pela sua força que se mistura a uma certa fragilidade que a torna um personagem complexo. Mas será essa forte identidade étnica, sua identificação com seu povo e com a vida na natureza que a tornará ferramenta especial na luta pela preservação das águias que vivem ao redor do castelo.

Luta pela preservação da natureza

Militarismo, política e defesa da natureza (uso consciente e respeitoso da natureza) também são marcas interessantes do livro.

Na floresta ao redor do castelo vivem águias especiais que, por beberem de uma determinada fonte de água, podem ser transformadas em poderosas águias de combate. O problema está na impossibilidade de mantê-las por muito tempo distante da fonte, o que invariavelmente resulta no enfraquecimento e morte das aves.

Contudo, mesmo tendo conhecimento das implicações e do sofrimento que pode ser gerado às aves, o Conselho da cidade militar de Scyllix envia à Vrindavahn uma comitiva responsável por pleitear do Conselho de Vrindavahn a autorização para levar consigo algumas das aves. Como compensação o grupo promete desenvolver uma técnica que permitisse às mesmas sobreviverem longe da fonte e propõem guarnecer àquela e às outras cidades com as aves guerreiras que fossem desenvolvidas pela experiência.

De imediato, os professores da Escola de Magia e principalmente o Mago Kieran, que outrora foi o último Mestre de Águias de Scyllix e conhecia os riscos e as grandes chances de insucesso do projeto, se opõem aos intentos do conselho daquela cidade e lutam para convencer o Conselho de Vrindavahn a não ceder à proposta. É entorno desta problemática que gira em grande parte o enredo de O Castelo das Águias.

O que me chama a atenção na problemática do livro é o seu forte cunho de luta pela preservação da natureza, contrário aos fins militaristas que exporiam as aves ao sofrimento e morte. É notável também a dedicação dos magos à defesa das aves e a forma como argumentam contra um jogo militar e político que beneficiaria alguns poucos em detrimento do bem-estar dos animais.

Trata-se de um tema importante para o nosso mundo real, onde centenas de espécies animais e vegetais são extintos todos os anos devido às ações predatórias do ser humano, que visa seus interesses próprios e desrespeitam o direito natural dos animais de serem livres. Temos um mal costume de pensar nos animais como recursos, quando estes são seres vivos que necessitam de proteção.


Surpreendeu-me que esta temática fosse posta em um livro do gênero de O Castelo das Águias, que quase sempre se concentram e se delineiam apenas como livros épicos ou de guerras mágicas, e isso me fez lembrar do filme Avatar, onde algo parecido é feito. Contudo, encaro o enredo de Avatar como ficção científica e não como fantasia, o que demonstra mais uma originalidade do livro.

Docência e Narrativa Autobiográfica

Por fim, o último destaque que faço do livro está na prática docente de Anna.

Sou professor e universitário e como tal estou envolvido em diversas questões da área. Como tal, chamou minha atenção a prática de ensino de Anna que é condenada por uma das professoras.

Anna como professora de Sagas valoriza as narrativas de seus alunos, dos demais povos, inclusive o seu, valorizando a multiplicidade étnica das Terras Férteis e as narrativas autobiográficas[1] de seus alunos. Desta forma a mestra vai em sentido contrário aos seus antecessores que focavam exclusivamente nas sagas élficas, e devido a isso Anna é duramente criticada. Além disso a professora promove algumas outras mudanças na forma como as aulas eram ministradas e isso agrada os alunos.

Levanto a questão, porque, na educação, muitos professores possuem posicionamentos divergentes em relação às metodologias de ensino e o currículo. Alguns são mais tradicionalistas, outros mais reformistas e alguns, como eu, são de centro, buscando preservar o que é bom nos métodos tradicionais e mudar radicalmente onde é necessário inovar. Vejo no embate que Anna tem com um dos colegas um reflexo destas questões.

Considero louvável a posição de Anna de querer trazer para a sala a multiplicidade cultural presente ali, e valorizar a trajetória de seus alunos e das famílias destes, ainda que eu considere que as sagas élfica deveriam ser igualmente valorizadas. Mais uma vez a personagem me cativou e por isso espero encontrá-la novamente nos outros dois volumes da série: A Ilha dos Ossos e A Fonte Âmbar.

Para quem quiser saber mais sobre a série, a autora mantêm um blog específico sobre ela onde conta as novidades e outros detalhes da obra: http://castelodasaguias.blogspot.com.br/.


A edição lida é de 212 e foi cedida pela editora Draco, em formato digital. A versão impressa da mesma editora contém 192 páginas.


Confira uma prévia do livro disponível no Google Books.






[1]O termo usado é puramente acadêmico e não consta no livro.

domingo, 24 de maio de 2020

Contos Fantásticos de Avós Extraordinários – Ana Lúcia Merege – Resenha


Por Eric Silva
24 de abril de 2020

Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.

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Realização com pareceria do Instituto Pegaí Leitura Grátis, a coletânea Contos Fantásticos de Avós Extraordinários é mais uma das obras delicadas, singelas e muito bem escritas da escritora fluminense Ana Lúcia Merege que neste livro dá destaque à sabedoria, afetividade e experiências de personagens da terceira idade, pertencentes aos universos ficcionais criados pela autora.

Confira a resenha.

Sinopse do enredo

Contos Fantásticos de Avós Extraordinários é uma pequena coletânea de contos publicados com apoio do Instituto Pegaí e que, segundo prefácio da autora, faz parte de um projeto mais amplo denominado Heróis de prata. Nesse projeto a autora escreve uma série de contos de fantasia e ficção científica que daria destaque, nas palavras da própria Merege, a “protagonistas idosos ou, pelo menos, bem maduros, cuja experiência e amplitude de visão são determinantes para a resolução da trama”. Nesse primeiro livro há um destaque para a relação entre esses personagens e seus netos, com os quais contracenam.

Nos dois primeiros contos temos narrativas inspiradas no universo ficcional de fantasia medieval de Athelgard, principal cenário das obras da autora, enquanto os demais situam-se em outros dois universos criados por ela, o último deles compartilhado com o escritor Luiz Felipe Vasques.

Intitulado O espetáculo não pode parar, o primeiro conto é narrado em primeira pessoa e conta algumas das memórias de Zemel, um saltimbanco que se recorda de seu avô com quem aprendeu o ofício, além de relatar os desafios enfrentados por sua família para ganhar o sustento após seu avô sofrer um acidente. Em suas memórias de infância, Zemel conta como o acidente de seu avô, ocorrido durante um dos pequenos espetáculos que os dois faziam juntos, o deixou traumatizado e de como com sapiência o velho saltimbanco não permitiu que o amor do neto pela arte circense morresse.




O segundo conto, O eterno retorno, traz de volta a menina Anna e sua avó, a elfa Kyara, dois importantes personagens de outro livro infantojuvenil de Merege, Anna e a Trilha Secreta, publicado em 2015. Neste conto, Anna tem apenas nove anos e vive feliz com a avó que está ensinando-a a caçar. Contudo a menina, que possui mais sangue humano do que élfico, está cada vez mais curiosa sobre seu povo e pressiona para saber mais sobre o passado da avó, uma história dolorosa que Kyara receia revisitar.

Em De amor e eternidade, Merege revisita a série Contos da Clepsidra, ambientada na cidade de Cartago, no século III, e que em como protagonista o capitão fenício Balthazar de Tiro. Nesta narrativa, Balthazar, já envelhecido, vive com a família de um dos seus ex-tripulantes, família que o capitão adotou como sua e cujo futuro o preocupa bastante. Como de costume ele brinca com suas netas e lhes conta suas aventuras mágicas de viagens no tempo ao lado de outro dos tripulantes do seu navio, Lísias, o que faz emergir lembranças boas e tristes e preocupações relacionadas ao futuro.

Por fim, A era de Leonte, é um conto no estilo space opera[1] baseado no universo ficcional de Medistelara, “no qual as civilizações do antigo Mediterrâneo são transportadas para o espaço”, com destaque neste conto para os fenícios espaciais, os ken’amis, e sua Liga Mercantil, e para os heládicos[2], que na narrativa são donos de uma corporação de mineração chamada Caríbdes, que iniciou uma exploração de um valioso mineral no planeta Carsis.

Nesta narrativa, Merege conta uma história da personagem Elyssa de Quartag e seu neto adolescente, Hanno, um aprendiz de piloto. Elyssa vai ao distante planeta Carsis representando a poderosa Liga Mercantil para firmar um acordo de compensação financeira e comercial com os heládicos após estes começarem a exploração de minério no planeta. Ali, avó e neto percebem uma situação de exploração da mão de obra barata local, e a história encontra uma reviravolta inesperada por conta de uma especial movimentação de astros.

Resenha

Ana Lúcia é uma autora brasileira que venho acompanhando desde 2016, quando fiz a resenha de seu livro O Castelo das Águias. De 2016 para cá, já resenhei outras três obras da autora e um quarto livro no qual foi organizadora ao lado de Eduardo Kasse, autor da série Tempos de Sangue.

No início de 2019, ela me enviou Contos Fantásticos de Avós Extraordinários para que eu conhecesse seu último trabalho. Contudo, aquele ano foi tão difícil e conturbado para mim que acabei abandonando todas as atividades do blog e também a maioria das minhas leituras. Aquele também foi o ano que menos li.

Com o período de quarentena devido ao Covid-19, retomei minhas leituras, o blog e me recordei desse livro e, por isso, resolvi resenhá-lo, antes que minha rotina voltasse a ficar insana.

Contos Fantásticos de Avós Extraordinários é uma coletânea pequena, contando com apenas quatro contos que giram entorno de uma mesma temática: narrativas de aventuras (contos 2 e 4) ou de momentos cotidianos (contos 1 e 3) vividos por avós e netos e que levam esses últimos a beberem das experiências e sapiência de seus avós.

É uma obra infantojuvenil, mas sensível e madura, e que pode agradar outras faixas etárias pela qualidade da escrita da autora e de algumas narrativas que não são particularmente tão infantis.

Como é de seu costume, Merege utiliza novamente suas narrativas para trazer aos leitores mirins algumas lições de vida e, dessa vez, inova por dar destaque a um grupo etário que na sociedade moderna tem enfrentado um visível declínio de importância atribuída.

Serei mais claro.

Nesta sociedade de tantos avanços tecnológicos, de imediatismo exacerbado e de pragmatismo proeminente, a terceira idade vem sendo constantemente tratada como um estorvo para suas famílias, e visivelmente perdem importância no papel de matriarcas e patriarcas, de chefes de família, para os mais jovens. Em grande parte, esse grupo etário passa a ser visto, preconceituosamente, como ultrapassado e incapaz de ser útil numa sociedade tecnológica muito diferente da realidade vivida outrora pelos mesmos. Por conta desse fator, a importância que no passado era atribuída aos mesmos entra em declínio. Por outro lado, em relação a importância adquirida pelos mesmos em termo de vivências e experiências, essa não pode ser diminuída.

Com este pequeno livro, Merege vem com o claro objetivo de mostrar a importância desses personagens mais velhos e falar dos impactos que a relação que se estabelece entre netos e avós tem para a formação do caráter das novas gerações. Sendo ele um livro voltado para crianças de 10 a 12 anos, Merege busca estimular um novo olhar nos pequenos para as gerações que os antecederam. Um olhar de respeito e de admiração.

O livro é escrito por Merege com sua linguagem costumeira que busca um meio termo entre um vocabulário culto e uma linguagem simplificada, e como sempre, a autora mostra que ainda é uma grande contadora de histórias. Esse seu estilo fica bastante proeminente no primeiro conto da série, no qual a autora nos traz um narrador jovem, mas maduro e sensível, de olhar observador e inteligente, e com ele escreve um texto com uma escrita imersiva e gostosa de ler.

Já disse em outras oportunidades que o ponto que me conquistou nas obras de Merege foi a sua escrita impecável, tecida com esmero e, por que não, com amor. Mesmo quando se trata de uma narrativa que eu goste menos, sou tão fascinado pela forma como ela escreve que me esqueço do resto. Além disso, a temática medieval me agrada bastante, sobretudo quando a autora foca no cotidiano medievo, como é o caso do conto O espetáculo não pode parar e do meu livro preferido de Merege, O Caçador.

Como um bibliomaníaco nerd e otaku ligado em História, em vida cotidiana e em cultura nacional e internacional, sou fã de narrativas ambientadas em cenários medievais, de slice-of-life (histórias centradas no dia a dia de pessoas comuns) e de obras artísticas que mostrem a riqueza cultural de uma época ou lugar. O espetáculo não pode parar me conquistou por esses elementos ao apresentar um personagem criança no limiar de adquirir a maturidade adulta, pertencente a um universo medievo, e cujo espírito, ainda jovem, foi forjado nas dificuldades de uma vida nômade e paupérrima. Trata-se do conto mais adulto da obra e que me lembrou da força do livro O Caçador.

Zemel, protagonista do conto, é ainda menino e junto com sua família vive migrando de cidade em cidade, o pai e o tio oferecendo seus serviços de ferreiro e de paneleiro, respectivamente, e o avó e o neto, fazendo pequenos espetáculos de saltimbancos para entreter camponeses e vilões[3] das povoações por onde passavam.

Contudo, a narrativa se dá quando o avô de Zemel sofre um acidente durante uma dessas apresentações e as coisas ficam mais difíceis para a família. Se não bastasse, o menino fica traumatizado com o ocorrido e tenta abandonar as artes circenses, em um momento crítico, no qual seu trabalho também é importante para a sobrevivência de todos. Nesse cenário, Thiers de Pwilrie, o avô da criança, tem que usar de inteligência, paciência e força de vontade para demover o neto e ao mesmo tempo garantir o pão. É um texto que traz uma lição de vida importante e que agrega muito do que gosto nesse tipo de literatura: drama, personagens realistas e vida cotidiana e cultural medieval.

Numa linha similar, ainda que fale de elfos, O eterno retorno foi também um conto que me agradou, um pouco menos do que o primeiro, mas que me fez recordar de narrativas anteriores envolvendo os mesmos personagens.

Uma das narrativas ambientadas na Floresta dos Teixos
Nas histórias envolvendo as tribos élficas da Floresta dos Teixos, Merege costuma nos mergulhar em cenários muito bonitos de florestas e bosques, e desde pequeno tenho particular fascínio por florestas, o que se consolidou com minha formação em Geografia. Por seu turno, esses contos e novelas sobre a infância da protagonista de O Castelo das Águias nos proporciona o contato com esses cenários. Além disso, Merege dá a estas narrativas povoadas por espíritos guardiões e xamãs uma pegada um tanto indígena que faz do seu trabalho bastante original ao somar fantasia e crenças similares às dos indígenas norte-americanos.

O tema de O eterno retorno é também bastante maduro. Na verdade, todo o livro se encontra nesse limiar entre uma obra para crianças e um tom de histórias mais sérias, e acredito que esse tom emana do peso da maturidade de seus protagonistas adultos. Neste conto em particular, Merege falam de dores do passado, e de forma meio velada remota às histórias de amores familiares marcados pela tragédia. Contudo, a autora não entra em todos os detalhes do que ocorreu no passado da protagonista Kyara, porque se trata de uma narrativa retirada de uma história maior que compõe os livros da série Athelgard.

Mesmo para quem não acompanha a obra da autora, o conto ainda assim fará sentido, porque Merege dá todos os elementos necessários para que ele seja lido de forma independente, mas tudo ali faz alusão a uma história mais ampla do qual nos foi permitido ver só uma parte. Isso me lembra, inclusive, que tenho que ler as duas obras de continuação de O Castelo das Águias.

Os contos seguintes foram os que menos me agradaram, ainda que eles tenham muita qualidade e, por isso, não me demorarei neles.

O terceiro conto, De amor e eternidade, traz um personagem de Merege com o qual eu ainda não tinha tido contato, o capitão fenício Balthazar. O conto é baseado em memórias do capitão que ele narra para duas de suas netas a fim de entretê-las.

Por conta dessa sua natureza de narrativa de memórias, é o conto, que na minha opinião, ficou mais deslocado, porque faz muitas referências às outras histórias escritas ou imaginadas pela autora. Merege novamente toma cuidado para fazer todas essas referências compreensíveis ao leitor e não prejudicar a leitura de quem não leu as aventuras da mocidade de Balthazar. Não obstante, o conto tem todo os elementos de um spin-off[4] e por conta disso, a sensação que o conto me deu foi de um leve deslocamento.  Acho que não tive essa mesma sensação com o segundo conto da coletânea tanto pelos motivos já citados, como também porque acompanho a trajetória da personagem Anna desde 2016.

Por sua vez, o último conto da série é um space-opera que se passa em um planeta ainda pouco conhecido e que possui um povo espiritualizado, singular e exótico em um contexto que me fez lembrar um pouco do filme Avatar e um pouco do livro A Chegada a Darkover, da autora estadunidense, Marion Zimmer Bradley.

A era de Leonte me lembra o livro de Bradley por se tratar de uma narrativa sobre viagens intergalácticas com a busca e a descobertas de novos planetas, no caso de Bradley, sobretudo para colonização, e no caso de Merege, para atividades mercantis. E me faz recordar de Avatar, porque além de ser uma narrativa sobre viagens intergalácticas, o conto trata da invasão humana em busca de recursos minerais e possui um povo espiritualizado e intimamente ligado aos fenômenos naturais de seu lugar de vivência.

Contudo, tenho uma crítica a como este conto foi desenvolvido. Acho que a história de Merege tinha potencial para ser mais do que um conto, e, pela escolha da autora em fazer uma narrativa mais breve, fez com que o desenvolvimento da história fosse apressado e a narrativa ficasse um tanto inverossímil em seu desfecho e clímax. O fato é que não gostei do desenvolvimento, e sobretudo do desfecho.

Se Merege explorasse mais as características desse povo tão peculiar e intrigante, de seu planeta e do minério que ali existia, descrevesse a chegada dos heládicos, os primeiros contatos, colocasse alguns conflitos, desenvolvesse mais profundamente os personagens, escrevesse paralelamente a história de Elyssa e Hanno, e chegasse ao desfecho no qual chegou só que de forma mais desenvolvida e detalhada, A era de Leonte daria, não um romance, mas uma novela interessante ao estilo de Bradley, de Arthur C. Clarke, de Frank Herbert ou de seu filho Brian Herbert.

Até mesmo o título, A era de Leonte, é bom para um livro independente. Contudo, na forma compacta em que foi concebida ele não me agradou muito. Por outro lado, o objetivo da autora com seu livro é claro e ela deseja alcançar um público mais jovem. O livro que eu enxergo em minha mente seria algo bem diferente e distante da proposta inicial.

Enfim, para encerrar, no todo, Contos Fantásticos de Avós Extraordinários é um livro simples, mas sensível e original.

A edição lida é da Editora Draco, do ano de 2018 e possui 64 páginas.

Sobre o autor

Ana Lúcia Merege. Imagem: Acervo da Biblioteca Nacional.
Nascida em 1969, na cidade do Rio de Janeiro, Ana Lúcia Merege é romancista e bibliotecária. Possui mestrado em Ciência da Informação, pelo IBICT/UFRJ-ECO, tendo defendido, em 1999, sua dissertação intitulada O livro impresso: trajetória e contemporaneidade. É também formada em Biblioteconomia pela UNIRIO e, desde 1996, trabalha no Setor de Manuscritos da Biblioteca Nacional, onde atua no trabalho com material original, fontes primárias, identificação de documentos e organização de exposições.
Seu primeiro romance publicado, O Caçador (2009), foi também o primeiro do gênero fantasia escrito pela autora que desde então vem se dedicando a organização de diversas coletâneas do gênero, além de contos e romances. Suas principais obras estão ligadas ao universo de Athelgard, criado pela escritora para ambientar sua trilogia que se inicia com o romance O Castelo das Águias e ganha sequência com os livros A Ilha dos Ossos e A Fonte Âmbar, todos publicados pela editora paulista Draco. Pertence também ao universo de Athelgard o livro Anna e a Trilha Secreta, que faz um regresso à infância da principal personagem de O Castelo das Águias, além de Orlando e o Escudo da Coragem, outro infantojuvenil publicado pela autora em 2018.
Com vasta experiência com manuscritos e forte interesse pela história do período medieval, Merege foi responsável ainda, na mesma editora, pela organização das coletâneas Excalibur: histórias de reis, magos e távolas redondas e Medieval: Contos de uma era fantástica, este último em parceria com o escritor brasileiro Eduardo Kasse.




[1]Subgênero da ficção científica que enfatiza a aventura melodramática, as batalhas interplanetárias, o romance cavalheiresco e a tomada de riscos. Definido principalmente ou inteiramente no espaço sideral. (Wikipédia)
[2]Civilização heládica é um termo moderno usado para identificar uma sequência de períodos que caracterizaram a cultura do continente grego durante a idade do bronze. (Wikipédia)
[3]Vilão era, na Idade Média, uma pessoa que não pertencia à nobreza feudal, e que habitava urbanamente em vilas. (Wikipédia)
[4]Nos meios de comunicação, obra derivada, história derivada ou derivagem (em inglês: spin-off) é um programa de rádio, programa de televisão, videojogo, grupo musical ou qualquer obra narrativa criada por derivação, isto é, derivada de uma ou mais obras já existentes. Sua diferença com uma obra original é que a primeira se concentra, em particular, mais detalhadamente em apenas um aspecto (por exemplo, um tema especifico, personagem ou evento) ou modificando um pouco a história e seus aspectos originais.

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