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domingo, 29 de novembro de 2020

[Especial Zafón] O Palácio da Meia-noite - Carlos Ruiz Zafón - Resenha

 

Por Eric Silva para o Especial Zafón

21 de agosto de 2020

Citação

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Cinematográfico e pirotécnico, o segundo livro juvenil escrito por Carlos Ruiz Zafón viaja até a quente e misteriosa cidade de Calcutá para contar uma história sobre amizade, família e orfandade povoada de segredos do passado e assombrada por um poderoso e perverso espírito de fogo que mesmo depois de décadas ainda espalha sobre a vida de muitos a sua fúria destrutiva e seu desejo implacável de vingança.

Confira a resenha de O Palácio da Meia-noite (El Palacio de la Medianoche), mais uma obra do escritor barcelonês resenhado para o Especial Zafón.

Sinopse do enredo

Maio de 1916, Calcutá, Índia.

Acossado por um assassino implacável e sobre-humano, o tenente do Exército Britânico, Peake, corta a noite úmida e escura da cidade indiana carregando consigo uma carga preciosa: dois bebês recém-arrancados das unhas de seu perseguidor – o diabólico Jawahal.

Em clara desvantagem em relação a seus adversários, o tenente percorre as ruelas da cidade negra, como era chamada a zona norte de Calcutá, até alcançar o velho casarão bengali onde vivia Argami Bosé, a última anciã da família Bosé e avó das duas crianças. Era preciso entregar-lhe os gêmeos, avisar-lhe da morte de seus pais e do perigo que as crianças e também ela corriam, o que ele felizmente consegue fazer antes de se entregar ao seu destino certo enquanto tentaria, por fim, despistar seu poderoso rival.

Sozinha com duas crianças pequenas e sabendo dos riscos que corriam, a velha matriarca não tem tempo para chorar a perda de sua única filha, mãe dos gêmeos, ou de seu genro, e resolve partir o quanto antes de Calcutá. No entanto, sabendo do perigo e das dificuldades de manter os irmãos juntos a ela, Argami resolve deixar para trás uma das crianças, entregando o menino aos cuidados de um velho amigo de seu falecido esposo, o inglês Thomas Carter, administrador do orfanato St Patrick’s, onde a identidade da criança se matéria incógnita, e partiu, levando consigo a menina, ainda que a estratagema não fosse o suficiente para apagar todos os rastros das duas crianças.

Dezesseis anos se passam e vivendo como órfão, Benjamin (Ben) está próximo de completar ele também seus 16 anos, idade na qual terá que deixar o orfanato com seus amigos mais próximos: Isobel, Roshan, Siraj, Michael, Seth e Ian. Juntos eles haviam formado, anos antes, um clube secreto, a Chowbar Society, cujas reuniões aconteciam à meia-noite em um velho e decadente palacete abandonado e por eles apelidados de “o Palácio da Meia-noite”, em alusão ao horário das reuniões. Muito unidos, ali, os jovens juraram ajudar-se mutuamente, garantindo a ajuda, o apoio e a proteção incondicional um dos outros, além de compartilharem entre si os conhecimentos que possuíssem.

No entanto, com a proximidade do décimo sexto aniversário de ingresso de Bem ao orfanato, a Chowbar Society se prepara para ser desfeita e ter suas últimas reuniões antes que Ian embarque para a Inglaterra, onde pretende estudar medicina, e que os demais tomem cada um seu próprio rumo na vida incerta que os esperava fora dos muros de St Patrick’s.

Contudo, após conhecerem a delicada e inteligente Sheere, as coisas começam a mudar rapidamente e eventos estranhos começam a acontecer no velho orfanato, fazendo emergir os segredos de um passado de dor e violência e prenunciando o retorno de um antigo inimigo feito de maldade, fúria e fogo.

Resenha

De todos os livros que já li de Zafón para o projeto do especial que leva seu nome, O Palácio da Meia-noite foi a obra que menos me cativou, que menos me envolveu em sua leitura e em seus mistérios tão infantis (talvez tão infantis quanto os presentes em O Príncipe da Névoa, mas aquele lá me agradou bem mais). Todavia é natural que isso aconteça com qualquer leitor fã de um dado escritor, e eu não me encontre isento disso, ainda que goste muito do autor, de sua escrita e da qualidade de suas narrativas. Também foi seu livro mais famoso, A Sombra do Vento, a inspiração para o projeto principal do nosso blog, a Campanha Anual de Literatura (CALCT), que já teve três edições desde 2016, mas infelizmente foi interrompido em 2019, no começo de sua quarta edição adiada para 2021. Ainda assim, gostar de um autor, não significa gostar de toda a sua obra. Abdiquemos então dos fanatismos sempre desnecessários, prejudiciais e que nada agregam, mas que, no entanto, costumam dividir e criar desarmonia. Mas voltando ao texto….

Há pouco mais de um mês (contando a data em que redijo a primeira versão desta resenha) entrei em contato com O Príncipe da Névoa, a primeira obra juvenil do autor barcelonês. Apesar de considerar esta obra de qualidade abaixo da obra mais madura do autor, teci vários elogios na resenha que escrevi sobre o livro, sobretudo porque o autor conseguiu criar personagens maduros e um desfecho um tanto incomum ao gênero; por fazer referências históricas que fizeram de um dos personagens juvenis um convocado à segunda grande guerra (ainda que o tema seja tratado com leveza) e, por fim, por optar por um terror não muito infantil (ainda que o seja) e que agora me parece ainda mais familiar com o estilo de Stephen King, sem, no entanto, ser propriamente similar ou copiado.

O que se pode julgar das minhas impressões sobre O Príncipe da Névoa, antecessor de O Palácio da Meia-noite, é que o livro de Zafón foi para mim agradável e estimulante, mas não está entre as grandes obras que entraram para o seleto grupo de meus livros preferidos, onde tem lugar cativo o já citado A Sombra do Vento, e obras de outros atores, a exemplo de A Catedral do Mar,  do também espanhol Ildelfonso Falcones, Admirável Mundo Novo de Huxley, Os Miseráveis, do francês Victor Hugo, As Mil e Uma Noites, principal obra da literária árabe, e, por fim, no universo literário nacional, O Caçador, de Ana Lúcia Merege, Capitães da Areia, de Jorge Amado, e Meu Pé de Laranja-lima, obra infantojuvenil consagrada de José Mauro de Vasconcelos. O Palácio da Meia-noite, por seu turno, fica ainda mais distante deste grupo de meus favoritos.

Como se vê, meu gosto é bem eclético, indo do clássico ao infantojuvenil, mas em termos de gênero temático tende sobretudo para o drama. Mas isso não me fez gostar de O Palácio da Meia-noite, que me agradou bem menos do que seu antecessor, sobretudo pela forma como sua narrativa foi construída e conduzida. O seu enredo em si não me atraiu e a verdade é que achei a simplicidade de O Príncipe da Névoa mais atraente do que o desenvolvimento da narrativa ambientada entre ruínas, palácios e ruas empoeiradas de uma Calcutá escaldante e ainda sob domínio britânico (e aqui vejo agora algumas similaridades com os cenários decadentes da Barcelona franquista onde se ambienta A Sombra do Vento).

Assim como em outros dos seus romances, Zafón dá destaque a uma cidade secular e envolta de mistérios ao escolher como cenário de sua narrativa a quente e populosa Calcutá, a atual capital do estado indiano de Bengala Ocidental, situada às margens do rio Hooghly, ao lado do qual, na história de Zafón fora erguida uma suntuosa e engenhosa estação ferroviária feita de aço e vidro, mas que fora destruída no dia de sua inauguração por um monstruoso incêndio que vitimou não só o engenheiro idealizador do projeto, como centena de crianças órfãs que participariam da viagem inaugural. O nome da estação era Jheeter’s Gate, cujas ruínas se destacavam sombriamente na paisagem como uma ferida na cidade. 

Calcutá em 1945. Wikimedia Commons.


As descrições que ele faz de Calcutá lembram de certa forma o que Zafón faria mais tarde em A Sombra do Vento ao construir a atmosfera melancólica e tensa da Barcelona franquista dos anos de 1960. Com parte da minucia que é característica do autor, ele descreve as divisões da cidade, seus guetos e áreas de maior presença colonialista, mas, provavelmente por conta de seu público-alvo ou da pouca maturidade de escritor em começo de carreira, não dá ao romance o peso criativo e a vivacidade narrativa que fez com que Barcelona se despisse ante os olhos de seus leitores tal como ela era na década de 60. E suspeito que falar sobre terras estrangeiras tenha sido também motivo para a menor força descritiva de seu livro juvenil. Ainda que Calcutá se torne visível e compreensível em O Palácio da Meia-noite, não consegui me sentir na Índia, tal como me senti caminhar à noite pelas ramblas barcelonesas com suas luzes vaporosas na companhia soturna de Daniel e Fermín em busca do paradeiro de Carax.

Talvez meu desalento com O Palácio da Meia-noite tenha sido efeito da falta de algumas características e marcas culturais das terras indianas que povoam o imaginário e senso comum ocidental, mas que facilmente nos remeteriam àquelas paragens, a exemplo dos desfiles de turbantes e saris coloridos, vacas “pastando” tranquilamente pelas ruas, mercados sortidos de especiarias multicores, brâmanes eremitas por toda parte e encantadores de serpentes com seus cestos e najas (caso queiramos ser ainda mais clichês). Pela pouca exigência que o gênero juvenil impõe, Zafón faz muito em suas descrições, mas não o faz com a vivacidade com a qual nos acostumamos em sua série mais famosa, (mas talvez eu esteja querendo demais).

Festival das Cores (Holi), Índia. Murtaza Ali/Pixabay.

Por outro lado, Zafón consegue evidenciar na trama um pouco do domínio cultural e político britânico sobre a cidade, o que se torna evidente nas muitas referências aos britânicos e nos nomes ocidentais de alguns dos integrantes da Chowbar Society, não esquecendo das nacionalidades e posições sociais de dois dos personagens centrais da trama, o tenente Peake e o administrador do orfanato, Thomas Carter, ambos ingleses de origem.

O enredo

Em relação ao enredo, Zafón tece uma narrativa que não é tão gótica (seu principal estilo) quanto é fantasmagórica e fantástica (o gênero), e que ele decide narrar sob dois focos narrativos. O primeiro mais poético e saudoso feito pelos olhos do mais frágil dos órfãos, Ian, que fora testemunha ocular de todos (ou quase todos) os fatos narrados, e o outro foco – predominante na obra – feito em terceira pessoa por um narrador onisciente e não-personagem.

A história dos jovens órfãos indianos gira entorno de lugares arruinados e de um espírito maligno com domínio sobre o fogo. Mortes e acidentes complementam o cenário que se inspira na velha fórmula de um grupo de jovens extremamente inteligentes que reúnem suas forças, coragem e capacidades para proteger uns aos outros. Por isso, o romance de Zafón é uma obra que versa sobe a amizade, a coragem e o companheirismo, mas também podemos acrescentar a esta lista a importância da união e do amor familiar, tanto por parte dos gêmeos separados na infância, como por parte dos fortes laços construídos entre os moradores de St Patrick’s. São essa união e o espírito de coletividade que guiam os vários personagens no enfrentamento a um adversário mais poderoso, com maiores recursos (inclusive sobrenaturais) e com a vantagem de saber mais sobre eles do que o grupo de adolescente, em contrapartida, possui sobre a identidade e história de seu antagonista, inclusive esta é daquelas narrativas onde conhecimento se torna crucial para virar o jogo.

A trama não é das mais instigantes, ainda que seja em muitos aspectos bastante original. O desenvolvimento é rápido e alguns pontos são propositadamente confusos, a fim de despistar o leitor. Contudo algumas resoluções encontradas pelo autor no desfecho poderiam ter sido melhor trabalhadas e acredito que este era um dos pontos que na ocasião da publicação do livro Zafón manifestou a vontade de mudar e reescrever a narrativa, mas não o fez para preservar a versão original da obra.

Por seu tamanho um tanto reduzido e narrativa sem muitos elementos a explorar, uma vez que a trama é demasiadamente simples, assim como são limitadas as possibilidades de ramificação da mesma, o livro não consegue desenvolver profundamente o número elevado e desnecessário de personagens (oito só no núcleo jovem que pouco criativamente possuem todos eles a mesma idade). Contudo, por ser um escritor talentoso, Zafón conseguiu imprimir em cada um deles um traço único que de certa forma os individualizam dentro do conjunto.

O mais cinematográfico até então

Uma característica marcante na narrativa de Zafón é sua estética particularmente cinematográfica. Zafón redige com uma riqueza de detalhes e imprime o cenário e também na narração um número tão grande de elementos estéticos, que ler seus livros se torna uma experiência quase fílmica, o que não é mera coincidência, mas um recurso do qual o barcelonês lançou mão para que não houvesse necessidade de que sua obra fosse posteriormente adaptada nem para a TV, nem para a telona. Desta forma, toda a narração de sua obra faz lembrar os planos de filmagem usados na cinematografia. Sinto isso quando ele descreve lugares e cidades como se quisesse desenhar long shots (planos gerais), ou quando vai descrevendo os interiores de casarões e palacetes como se a câmera andasse (o travelling). Mas mais do que isso, ele constrói elementos que dão ainda maior cinematografia ao texto, a exemplo da névoa, do jardim de pedra e do navio afundado que emerge do fundo do mar em O Príncipe da Névoa, ou os cenários chuvosos, decadentes, góticos e obscuros de A Sombra do Vento.

O Palácio da Meia-noite é, no entanto, o mais cinematográfico de todos, porque Zafón não só explora elementos arquitetônicos fabulosos como a imensa estação de trem feita de aço e ferro, arruinada pelo fogo e repleta de túneis obscuros que formam verdadeiros labirintos (outro elemento comum na sua obra), como também explora explosões e incêndios grandiosos (o fogo é outro fascínio de Zafón) e acrescenta ao enredo um fantasmagórico trem em chamas que corre desgovernado por sobre os trilhos e de onde se ouve os gritos de agonia de centenas de crianças consumidas vivas pelo fogo, mas que desaparece tão repentinamente quanto surge a sua frente. É quase uma cena de filme de terror num verdadeiro show pirotécnico no qual acabe a você imaginar tudo enquanto lê. Um deleite para os leitores de imaginação fértil. Enfim, o que quero dizer com isso é que, o que tem de fraca a narrativa de O Palácio da Meia-noite tem de riquíssima, por assim dizer, nestes elementos cinematográficos.

Chegando ao fim….

O Palácio da Meia-noite é exatamente o que propõe: um livro para adolescentes, sem muita profundidade, sem linguagem muito poética (salvo algumas falas de Ian e a simbologia das “lágrimas de Shiva” que encerram atrama), com linguagem nem rebuscada nem coloquial e infantil, com desenvolvimento rápido para não se tornar cansativo e com certa originalidade. Entretanto, no todo, seu enredo é mediano e sua melhor aposta está nos elementos cinematográficos.

Enfim, acho que Zafón cumpriu com seu objetivo de escrever uma obra que agrada uma faixa etária mais ampla, mas que não chama muito a atenção de quem conhece o outro Zafón, o do Cemitério dos Livros Esquecidos. Por isso, vamos a leitura de As Luzes de Setembro, livro que encerra a trilogia juvenil de Zafón, e depois à Marina, que parece ser a linha divisória entre aquele Zafón mais maduro de A Sombra do Vento, e este Zafón dos romances juvenis.

A edição lida é da Editora Suma das Letras, com tradução de Eliana Aguiar. Do ano de 2013 e possui 271 páginas. O título original em espanhol El Palacio de la Medianoche.

Sobre o autor

Saiba mais sobre Carlos Ruiz Zafón na postagem especial que fizemos sobre ele.

Preview do Google Books

Abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Google Books.

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O Príncipe da Névoa – Carlos Ruiz Zafón – Resenha

 


quinta-feira, 12 de novembro de 2020

[Especial Zafón] O Príncipe da Névoa – Carlos Ruiz Zafón – Resenha

 

Por Eric Silva para o Especial Zafón

04 de julho de 2020

“As lembranças ruins perseguem você sem que precise carregá-las consigo”

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Um romance jovem intercortado pelo sobrenatural durante a tensão e as incertezas da guerra, Príncipe da Névoa é o livro com o qual Zafón principiou sua carreira nas letras e também seu primeiro romance juvenil. Já nessa época, o escritor barcelonês esboçava alguns traços do estilo gótico marcante em sua obra numa narrativa que, sem deixar de ser “juvenil”, já se encontrava no limiar de uma escrita que em pouco tempo se tornaria madura.

Confira a resenha.

Sinopse do enredo

No verão do ano de 1943, a batalha dos países Aliados contra os nazistas e fascistas durante a Segunda Guerra Mundial caminhava para completar seu quarto ano, e mesmo nos lugares onde os blindados da Heer e os aviões da Luftwaffe alemã ainda não haviam chegado, a tensão provocada pela guerra era tão presente quanto em qualquer outro lugar da Europa. O Velho Mundo vivia anos de horror, desolação e apreensão que se estenderiam até o verão de 1945.

Foi justamente para fugir da guerra que naquele mesmo ano o relojoeiro e inventor Maximilian Carver decidiu que ele e sua família deveriam mudar-se para outro lugar, um pequeno vilarejo no litoral, cujas casas pareciam ter saído de uma maquete. Porém, a nova moradia dos Carver era uma casa de praia com um passado trágico e cercado de mistérios. A abastarda família que havia morado ali anteriormente tinha se diluído por completo após a morte trágica de seu único herdeiro, Jacob, vítima de afogamento aos cinco anos. Desde então a casa esteve abandonada a espera de ser novamente habitada.

Quando finalmente a família do relojoeiro ali se instala, logo fica nítido que algo não está certo. Max, o curioso filho dos Carver, descobre atrás da casa um jardim de pedra abandonado que guardava em seu interior um estranho conjunto de estátuas e símbolos desconhecidos. A irmã mais velha de Max, Alicia, passa a ter sonhos perturbadores, e a caçula, Irina, ouve vozes que sussurram para ela de um velho armário.

Mas nem tudo naquela vida nova parecia ruim. Max e Alicia fazem um novo amigo, o jovem Roland, e com ele desbravam os segredos de um velho barco que naufragou há muitos anos, durante uma terrível tempestade. Daquele naufrágio só saiu vivo um único tripulante, o avô do rapaz, o engenheiro responsável por construir o farol no fim da praia, onde passou a viver durante todos aqueles anos, vigiando a costa.

Mas os obscuros segredos daquele pequeno vilarejo não tardam a se revelar e enquanto os adolescentes exploram os mistérios do lugar, se interpõe em seu caminho uma entidade diabólica que ao longo de muitos anos deixou para trás um rastro de mortes e destruição: o Príncipe da Névoa. Um ser enigmático com forma humana que há muito ilude os incautos[1] com sua capacidade de conceder desejos em troca de favores malignos.

Resenha

Escrever essa resenha hoje está sendo para mim, assim como foi a leitura deste livro, um exercício de autoconvencimento de que é fato a morte recente de Zafón e de que nunca mais sentirei a expectativa de esperar o próximo lançamento desse autor que foi importantíssimo para mim e para a história deste blog. Foram os livros do escritor espanhol que me ensinaram a amar a Espanha, e mais particularmente a Catalunha, bem como o romance com estética gótica e que me inspiraram a criar a Campanha Anual de Literatura do Conhecer Tudo em 2016. Novamente para homenageá-lo, retomo o especial sobre esse autor iniciado há quase dois anos, mas que não pude terminar por conta da rotina exaustiva de trabalho que se abateu sobre mim em 2019.

O Príncipe da Névoa: juvenil de fantasia gótica

Escrito na década de 1990, O Príncipe da Névoa pode ser considerado como o livro de estreia do falecido escritor barcelonês Carlos Ruiz Zafón, e o primeiro de uma série de romances voltados para o público juvenil, que inclui também O Palácio da Meia-noite e As Luzes de Setembro. Três livros que são considerados como “série”, mas que são independentes entre si e não possuem conexões diretas entre suas narrativas.



Em geral, Zafón é mais conhecido por sua série mais famosa, O Cemitério dos Livros Esquecidos, que gira entorno de escritores malditos dos anos da Espanha franquista e da colossal biblioteca secreta que dá nome a série. Contudo, o autor que nos deixou poucos livros escritos até seu falecimento prematuro aos 55 anos, também deixou ao seu público essa série composta de três livros juvenis que foram responsáveis por sua inserção no mundo das letras e que, já na década de 90, revelavam as nuances da estética literária gótica que mercariam seus livros posteriores.

No entanto, quem lê O Príncipe da Névoa pode se surpreender ao constatar que para um livro classificado como juvenil, ele tem contornos que não são tão comuns a esse tipo de narrativa. Mas isso não mudou o fato de que o livro fora escrito pensando nos leitores mais jovens, o que se constata pela brevidade da narrativa que pode ser facilmente entendida como uma novela; pela opção por personagens majoritariamente jovens e vivendo as primeiras descobertas da idade; pela alusão a elementos do imaginário infantil como palhaços e mágicos de circo; pelo desenvolvimento rápido de seus personagens e, por fim, por sua narrativa sem muita complexidade e com linguagem mais acessível.

Um artigo da Wikipédia[2] sobre literatura infantojuvenil classifica como as principais características que marcam os livros do gênero juvenil:

·         Apresentar temas de interesse ao jovem adolescente, alguns deles controversos, como sexo, violência, drogas, relacionamentos amorosos, etc;

·         Ter em sua trama personagens da mesma faixa etária dos leitores, especialmente seus protagonistas;

·         Podem ser ilustrados, ainda que não necessariamente;

·         E possuir um número maior de páginas, podendo alcançar 200 a 300 páginas.

Com exceção de não ser um livro ilustrado, O Príncipe da Névoa possui todos os elementos elencados e pode ser facilmente classificado como um livro da literatura juvenil por estes elementos, não obstante sua atmosfera e sua composição excedem o gênero em alguns pontos: há nele uma elevada maturidade de seus personagens, o seu desfecho que vai na contramão do que é comum ao gênero, a sua história permeada de um terror não tão infantil, além do fato de que um dos adolescentes está preste a ser convocado para lutar na guerra (um tema bem adulto, mas tratado com bastante leveza). Por conta destes elementos me surpreendi com a proposta de enredo do autor, ainda que eu a considere um tanto simplória.

Nas notas do livro, Zafón explica que quando era adolescente não costumava ler romances juvenis e por isso resolveu ao escrever O Príncipe da Névoa compor um romance que ele mesmo teria gostado de ler com 13 ou 14 anos, mas que ainda o interessasse depois de adulto. O resultado foi algo muito bom. Um livro ágil, instigante no qual terror, tragédia, romance e aventura se encontra nos níveis nos quais qualquer pré-adolescente se interessaria, mas que também é agradável a qualquer adulto que se disponha a lê-lo.

Eu, ao contrário do escritor espanhol, li e ainda leio muitos livros juvenis. Na minha infância de leitor cheguei a ler algumas obras classificadas como infantojuvenis ou apenas como juvenis que possuía alguma maturidade, geralmente em seus temas, como foi o caso de Tonico, de José Rezende Filho, que aborda a questão da pobreza e o trabalho infantil, e o bem pouco conhecido Anjos no Aquário, de Júlio Emílio Braz, que aborda o difícil tema da gravidez na adolescência. Mas havia também os livros que são maduros por seus desfechos como o inesquecível Meu Pé de Laranja Lima de José Mauro de Vasconcelos, que fala da aceitação da morte na infância e da violência revestida pelo rótulo tradicionalista de “educação doméstica”. Contudo, nunca li algo como O Príncipe da Névoa que se diferencia por ser maduro em seu desfecho, nas personalidades dos protagonistas, na atmosfera trágica da trama, no seu tema de terror sem comicidade. Um livro que em alguns momentos me fez lembrar das histórias de Stephen King sem, no entanto, apelar para a carnificina das mesmas.

A narrativa em si é muito simples e não muito original (pelo menos não para a literatura mais madura), reitero, porém, que seu estilo é marcadamente incomum entre as obras mais ingênuas classificadas como infantojuvenis ou apenas como juvenis. A narrativa como um todo se passa em um período muito curto de tempo (apenas algumas semanas do verão de 1943) e como quase qualquer história que use os verões litorâneos como cenário desenvolve uma súbita paixão entre adolescente em seu enredo.

Os personagens são desenvolvidos de forma breve por conta da extensão mais curta do romance e, para fazê-lo de forma mais propicia a cativa os narradores, Zafón foca suas energias em apenas uma parte do elenco já bastante reduzido: Max, sua irmã Alicia, o jovem Roland e seu avô Víctor Kray, que dividem entre si o protagonismo da narrativa junto com o ser sombrio da narrativa que é ora chamado de Dr. Cain, ora de Príncipe da Névoa.

Max é o personagem central da trama, a mente pensante do grupo. Um garoto introspectivo, perspicaz, inteligente e, por esses traços, bastante observador. Ele é o primeiro a notar as estranhezas daquele vilarejo: sua estranha aparência de maquete, o relógio da estação ferroviária que parecia andar para trás, a aura medonha que circunda o gato que sua irmã Irina adota assim que chegam de viagem.

Por suas características entre ele e o pai existe uma cumplicidade e autoentendimento difícil de descrever e que se produz com poucas palavras. Maximilian o estimula com leituras avançadas a exemplo dos tratados de Copérnico sobre o sistema solar e o menino responde às ações do pai com uma maturidade acentuada. As falas de Max são em geral bem calculadas e meticulosas, a menos que esteja sendo provocado pelas brincadeiras de Roland e sinta a necessidade de rebatê-las, ou quando quer ser divertido com o jovem casal que vai se formando entre seu novo amigo e sua irmã.

Alicia por sua vez é ainda mais introspectiva e de uma rebeldia silenciosa. Come pouco porque se preocupa com sua aparência e interage muito menos ainda com a família, preferindo o isolamento de seu quarto e de seus silêncios. De todos, ela é a quem menos se satisfez com a mudança repentina para o litoral, no entanto, Alicia é daqueles personagens que crescem e se modificam ao longo da narrativa e, por isso, vai aos poucos conquistando seu espaço, até se tornar um elemento importante da história, apesar do elevado protagonismo masculino da trama.

De sua parte, Roland é o típico rapaz criado em cidade pequena. Ativo, entusiasmado em interagir com os visitantes, desejoso de aventuras e por respirar outros ares longe da monotonia do pequeno vilarejo. Extremamente apaixonado pelo mar, o rapaz construiu sua própria cabana na praia, onde passa a maior parte de seu tempo quando não está com o avô no farol, ou vasculhando os restos de um velho navio naufragado perto da costa.

Expansivo, prestativo e brincalhão, Roland facilmente conquista a amizade de Max e Alicia que passam a segui-lo por toda parte, e acaba por ser a cola que começará a unir os dois irmãos que pouco conversavam. Ainda assim, paira sobre o rapaz, assim como sobre Max, a incerteza do futuro, uma vez que Roland está alistado no exército e teme que aquele seja seu último verão antes que seja convocado para o front de guerra. A Max restaria mais alguns anos de liberdade caso a guerra não encontrasse seu desfecho logo.

Entorno destes três personagens e do velho faroleiro girará a história do personagem principal da trama e que dá nome a mesma, o Príncipe da Névoa, Dr. Cain. Um mago, um bruxo, uma entidade maligna, não dá exatamente para precisar o quê, mas que ao longo de muitas décadas se dedicou a destruir muitas vidas através de seus dons de conceder desejos, pelos quais exigia um preço elevado demais.

Apreciação crítica

Confesso que apesar de ser um livro excelente, O Príncipe da Névoa não se compara ao estilo e qualidade literária atingido por Zafón quando este escreveu A Sombra do Vento, seu livro de maior sucesso. Provavelmente por isso que o autor teve que lutar contra seu desejo de reescrever a história deste livro, desejo este que ele expressou também na introdução de O Palácio da Meia-noite. No entanto, para uma trama de livro juvenil, O Príncipe da Névoa é um livro estimulante, porque um pouco da estética do escritor barcelonês já é visível, e sua predileção pelas temáticas góticas já são evidentes.

Ele escreve uma narrativa de terror, aventura e suspense com a estética gótica que marca seus livros, mas com uma delicadeza e uma sensibilidade acentuada. Não há nada no livro que dialogue com o universo barcelonês que serve de cenário a seus livros posteriores, nem mesmo a localização de onde se dão os fatos narrados em O Príncipe da Névoa são revelados, o que deu a cada série de livros uma alma e personalidade própria e distintas, estando ligados unicamente pela estética narrativa de seu autor.

A escrita é fluida, instigante, mais leve e delicada do que a encontramos nos livros da série d’O Cemitério dos Livros Esquecidos, mas mesmo ali a linguagem empregada por Zafón é de uma beleza poética que quase não é sentida, uma vez que suas narrativas têm um caráter cinematográfico proeminente que envolve o leitor na narrativa tal como se a vivesse ou a assistisse na penumbra de uma sala de cinema. Essa característica cinematográfica também já é notável em O Príncipe da Névoa que nos conduz a locais sombrios e paisagens marítimas.

Chamou-me a atenção sobretudo o desfecho que achei extremamente original e inesperado, ou melhor, esperado, se partíssemos de uma lógica mais racional. É um livro que acredito que deixou muitos de seus leitores com um leve aperto no peito e um sentimento de impotência. Igualmente belo é a forma como naturalmente os laços entre os personagens vão sendo construídos e fortalecidos, como se o encontro entre eles tivesse sido destinado a acontecer. A questão é que você vive com os personagens aquele verão, os acompanha a toda parte, e o laço se estende a você também. Trata-se de uma narrativa que fala do amor, da juventude, do medo e da necessidade de união para vencer as adversidades da vida.

Mesmo tendo me surpreendido com o desfecho escolhido pelo escritor para uma narrativa juvenil, reitero que a forma como ele decidiu fechar a trama é a parte mais original do livro, justamente por não seguir as velhas fórmulas já tornadas clássicas neste gênero. Senti-me frustrado apenas com o fato de não existir conexão entre as tramas dos livros seguintes que seguem como obras independentes. Ainda assim, sinto-me ansioso pelo que virá dos últimos livros escritos por Zafón que ainda não li, e ao mesmo tempo triste por saber que serão os últimos.

A edição lida é da Editora Suma de Letras, do ano de 2013 e possui 184 páginas. Título original: El Príncipe de la Niebla.

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[1] “Diz-se de ou aquele que não tem cautela; descuidado, imprudente; que ou o que é destituído de malícia; crédulo, ingênuo” (Houaiss, 2009)

[2] LITERATURA INFANTOJUVENIL. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2020. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Literatura_infantojuvenil&oldid=57297725>. Acesso em: 05 jul. 2020.

 


domingo, 13 de setembro de 2020

O Retrato de Dorian Gray – Oscar Wilde – Resenha

Por Eric Silva

19 de abril de 2020

“Não existem fatos morais ou imorais em um livro. Os livros são apenas bem ou mal escritos. Isto é tudo”.

(Oscar Wilde)

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A história fantástica de Dorian Gray, mesmo após de 130 anos, é uma ressalva sobre a corrupção nascida da vaidade e do ego ainda bastante atual, ainda que a intenção do autor não fosse originalmente dar nenhuma lição de moralidade. Complexo, dramático e absurdamente original em sua ideia básica de enredo, O Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde causou polêmica em sua época por trazer temas reprováveis pela sociedade da época, e é o tipo do livro que ou você ou vai amar ou odiar (e há muitos motivos para ambos).

Sinopse do enredo

O pintor Basil Hallward encontra um novo ímpeto e inspiração para sua arte depois que conhece o jovem Dorian Gray, um rapaz um tanto puro, ingênuo e imaturo, mas dono de uma beleza juvenil espetacular e que vinha chamando a atenção da aristocrática sociedade londrina. Movido por essa adoração quase romântica, Basil comenta com seu amigo, o hedonista e cínico Lorde Henry Wotton, sobre o seu achado. Exalta o caráter e beleza de Dorian e fala sobre o retrato estupendo do rapaz que com tanto afinco e arte ele pintava, ainda que Dorian se sentisse entediado de posar por tanto tempo para seu amigo pintor.

Curioso com a devoção apaixonada de Basil pelo rapaz, Henry insiste em conhecer Dorian, e também se encanta com o rapaz, logo se tornando amigos. Com a convivências com Henry, Dorian pouco a pouco se desvia para uma vida de prazeres imediatos e de superficialidades estéticas que o Lorde cultuava como o único tipo de vida que valia a pena ser vivida e que tratou de incutir na mente do rapaz.

Quando finalmente a pintura de Basil fica pronta, o pintor teme ter impresso na tela todo o seu íntimo e assim ter exposto seus sentimentos mais recônditos pelo rapaz. Então, decide presentear Dorian com o retrato pintado dele. Impressionado com a pintura, o rapaz se dá conta, pela primeira vez, de sua enorme beleza e inveja a pintura, porque ela nunca envelheceria, enquanto ele perderia o frescor da juventude com o transcorrer dos anos.

Depois daquele episódio, a medida com que o tempo passa, a beleza do rapaz aprece imutável e enquanto todos envelhecem ele se mantém jovem. Ao mesmo tempo, uma revolução se dá no caráter do rapaz, e Dorian vai se tornando ele também hedonista, egoísta e narcisista, entregando-se a um estilo de vida que transforma radicalmente a ele e ao retrato.

Resenha

Antes de começar, preciso fazer a seguinte observação: O Retrato de Dorian Gray possui duas versões, a original de 1890, com treze capítulos, e outra, publicada no ano seguinte, com vinte capítulos. Essa segunda versão ampliada e modificada foi exigência dos editores de Oscar Wilde que desejavam que a narrativa original de 1890 fosse suavizada, provavelmente pela recepção do público e as controvérsias entorno do livro.

A edição que eu li, é a versão original, bilíngue, contendo apenas os 13 capítulos originais. Por conta disso, essa edição não pode ser comparada, por exemplo, com o filme homônimo de Oliver Parker (2009), que possui personagens existentes na versão ampliada, mas que inexistem na versão original de 1890.

Como falei no lead desta resenha, O Retrato de Dorian Gray é uma obra complexa, dramática e absurdamente original em sua ideia básica de enredo. Mas preciso, no entanto, esclarecer cada um desses pontos.

Afirmo que o único romance escrito por Oscar Wilde é uma obra complexa por um motivo bastante peculiar. Em geral considero um livro complexo pela natureza de sua narrativa, mas este não é o caso, porque que em geral os acontecimentos narrados em O Retrato de Dorian Gray se dá em espaços fechados como o ateliê de Basil, ou em teatros e óperas, quando não nas salas de estar dos aristocratas Henry e Dorian. Não, em relação a enredo o livro é simples, bem pouco dinâmico e pesado na quantidade de diálogos. O que faz essa narrativa complexa do meu ponto de vista é a complexidade de dois de seus personagens principais. Falemos um pouco então deles: Dorian e Lorde Henry.

Dorian

O rapaz Dorian é de longe o mais complexo dos personagens do livro, porque o protagonista da trama foi pintado por Wilde com muitos matizes de cores e sua personalidade vai se metamorfoseando com o desenvolvimento da trama, tornando-o extremamente narcisista, imoral, insensível e até pérfido.

Segundo dá a entender o narrador, Dorian, antes mesmo de conhecer Basil, era um garoto ingênuo, puro e bom. Sua beleza física, que se encontrava na primavera da vida, se harmonizava com uma candura, talvez, bucólica, campestre. Mas talvez ele não fosse isso tudo, e essa minha sensação seja influência da atuação de Ben Barnes, que interpreta um Dorian bastante tímido e um tantinho interiorano no filme de Oliver Parker (2009). Mas seja como for, foram o culto recebido nos salões ingleses, mas principalmente a devoção apaixonada de Basil, que levaram o rapaz a tomar consciência do quão grande e fascinante era a sua beleza física, despertando nele a primeira semente de sua derrocada: uma vaidade até então adormecida.

Dorian, interpretado por Ben Barnes, ao chegar em Londres

Contudo, Henry, foi o ator e o regente principal da perdição do jovem Dorian, que inocente das maldades e vaidades do mundo, encontra no Lorde um instrutor para uma vida de prazeres supérfluos, devassidão, superficialidade e galanterias.

Henry incute em Dorian uma paixão doentia pelo que a vida e a sua condição podiam lhe dar. Dentro dessa paixão ele acaba deturpando ou afastando qualquer outro sentimento que possa prendê-lo ou afastá-lo de uma realidade que ele criou em sua mente e considera como perfeita. [ALERTA DE SPOILER]. Por isso, ele se mostra capaz distorcer a realidade para que ela caiba no que seu desejo lhe impõe, como convencer a si mesmo que Sibyl Vane, atriz sem sucesso por quem ele pensou estar apaixonado e que depois ele ilude e abandona por um motivo torpe e sem sentido, não cometeu suicídio por sua causa. Ele, literalmente, convence a si mesmo que não tem culpa por aquela morte desesperada, e passa a ver o caso com indiferença e a Sibyl como um sonho de um passado mais longínquo do que recente.

Além disso, essa paixão pela vida leva Dorian a ter uma sede insaciável por conhecer coisas novas, uma fome de conhecimento que poderia ser construtiva, se em outros aspectos de seu caráter o rapaz não fosse danoso a si e a todos os demais (na narrativa quase todo mundo que se relaciona com ele se desvia, entra em declínio ou tem fim trágico).

Contudo, Dorian não é, em nenhum sentido, um personagem plano, ou seja, previsível e constituído de uma única ideia ou qualidade. Em muitos momentos, a mente de Dorian parece enevoada e tentando resistir ao declínio rápido e acentuado de seu caráter. Ele tem momentos breves de sensatez e humanidade, mas que logo depois são espantados pela vaidade e degeneração a que estava submetido. Ainda assim, Dorian vai ser, até o fim da trama, egoísta e egocêntricos. Incapaz de arrepender-se de seus crimes e das consequências de seus atos. Até chega a surgir um lampejo de uma vontade de ser bom novamente, talvez resultado do cansaço promovido pelo peso de sua vida depravada, mas na minha opinião (a mesma de Henry), ele só estava inclinando-se ao desejo de sentir uma nova sensação, novamente agia por vaidade. Porque a imagem que construí de Dorian, é que ele só tinha pena de si mesmo e tudo que fazia era pensando unicamente em si, em sua vaidade e em alimentar sua fome de novidades, prazeres, de sentir novas sensações e de afastar o tédio.

Todo esse egoísmo e depravação de Dorian se tornam evidentes na pintura de Basil que passa a carregar em si o peso dos pecados e da consciência que o próprio rapaz parecia perder.  Tanto que seu instinto de esconder o quadro não era apenas para ocultar dos outros o seu segredo, era também ocultar de si a verdade de que ele se transformava em um monstro desalmado, porque a pintura, como um espelho, era o reflexo de sua alma corrupta. Por desejar nunca envelhecer e perder sua beleza, colocando a beleza e a estética na frente de tudo, de todos e de todas as coisas que ele teria “uma carga terrível de carregar”. Essa seria a frase que melhor ilustra o futuro de Dorian na trama.

 

Lorde Henry

Considero Lorde Henry Wotton como um hedonista desprezível. Henry é uma pessoa inescrupulosa, imoral e sob sua influência Dorian vai se tornando sórdido e desprezível. Um dos personagens mais repulsivos que já tive o desprazer de conhecer na literatura. A avó sadista dos Dollanganger de O Jardim dos Esquecidos, não conseguiu provocar em mim tanta repulsa quanto o personagem do aristocrata de O Retrato de Dorian Gray.

Lorde Henry, interpretado por Colin Firth

Ele é o que na época era chamado de dândi, um homem que se vestia de forma refinada, com excelente senso estético, conhecedor da arte, que defendia que a vida deveria ser vivida de forma intensa e que dava um enorme valor ao esteticismo e à beleza presente em detalhes miúdos e por vezes até insignificantes[1]. No popular um boa-vida muito bem trajado e cheio de tempo ocioso para pensar, tecer e falar sobre coisas pouco imediatas enquanto se entretém com jogos e lazer. Contudo, Henry era um dândi em decadência, além disso, um homem arrogante e sem nenhum moralismo.

Era profundo defensor da filosofia hedonista[2], mas um completo hipócrita, uma vez que ele mesmo não pusesse em prática as suas ideias. Em lugar disso, usava como experiências aqueles que, ao seu redor, fossem impressionáveis o bastante para se envolver em suas preleções pomposas, aparentemente muito profundas e reveladoras. Uma vez que os mergulhava em suas ideias Henry se entretinha em observá-los, estudá-los e distorcer pensamentos e sentimentos.

Dorian foi ingênuo e impressionável o bastante para se tornar um experimento de Henry, e, enquanto Basil criou sua obra-prima a partir da imagem de Dorian, impresso na tela, o aristocrata hedonista buscou tornar Dorian, literalmente, em seu magnum opus[3]. Talvez, acredito eu, que ele só o tenha conseguido porque faltou a Dorian orientação familiar. O rapaz havia tido como única família um tio que o desprezava, maltratava e o trancava, isolando-o do mundo. Dorian era novo demais e não foi preparado para pensar por si mesmo ou para separar o joio do trigo. Basil, que era profundamente moral, talvez pudesse tê-lo ajudado, se sua devoção, se sua paixão por Dorian não o tivesse tornado fraco e complacente[4] com os erros do rapaz.

Gosto de filosofia, mas o hedonismo e esteticismo apresentado pelo personagem Henry, me enojou bastante, não me convenceu e foi insuportável de ler.

Dramático e absurdamente original

Mesmo tendo falado mais profundamente destes dois personagens, porém, isso não é o suficiente para explicar porque eu acho O Retrato de Dorian Gray dramático, absurdamente original e o tipo do livro que ou você ama ou odeia, havendo muitos motivos para ambos.

Corrupção: o retrato antes e depois.

Histórias de maldições e de pactos com o demônio são comuns, mas eu ainda não vi nada na literatura moderna que se assemelhe a proposta de enredo de O Retrato de Dorian Gray e que não tenha sido inspiração na própria obra de Wilde.

Em primeiro lugar, temos aqui uma maldição muito peculiar: trocar de lugar com um retrato que envelhecerá em seu lugar e representará o âmago de sua alma como se fosse um espelho. Faz lembrar o conto da Branca de Neve, onde o espelho seria o retrato, e a vaidade o motor que move o seu usuário. Contudo, Dorian não é um bruxo. Ao contrário do que ocorre no conto dos Irmãos Grimm, trata-se de uma maldição que dota o personagem de uma personalidade muito singular e maquiavélica, sem, no entanto, dotá-lo de nenhum poder sobrenatural em particular o qual ele possa fazer uso. Mas se fossemos comparar esse texto a algum clássico antecessor, eu o compararia a uma releitura moderna do mito de Narciso.

Na trama, Basil talvez seria a versão masculina da ninfa Eco, que cultua a imagem de Narciso (Dorian), enamora-se e fica preso a uma torrente devocional que causa a desgraça dos dois. No caso, a Eco de Wilde confecciona a pintura que será a destruição dos dois.

No mito, por conta de Eco, que em algumas versões morre apaixonada, Narciso é levado por Nêmesis, deusa da vingança, a olhar para seu reflexo n’água e apaixona-se por sua própria imagem refletida, ficando tão fixado e incapaz de afastar-se da imagem, que morre ali mesmo à margem do regato. Dorian, assim como Narciso, era belo, orgulhosos e arrogante, e ao ver-se representado na tela de Basil, inveja a si mesmo, porque passa a amar a si mesmo mais do que a tudo e a todos. Como Narciso, era incapaz de se apaixonar, e por isso causou dor, não só a Basil, como a muitas outras pessoas que por ele se enamoraram. [ALERTA DE SPOILER] E pela vaidade e egoísmo condena a si e a Basil a um fim trágico.

“A própria agudeza do contraste costumava animar seu sentimento de prazer. Ele se tornava cada vez mais enamorado de sua própria beleza e cada vez mais interessado na corrupção de sua alma”.

Mas voltando a discussão.

Em segundo lugar, o livro de Wilde contém uma maldição nascida de um desejo muito forte, mas quase inconsciente e sem que haja uma promessa, um pacto demoníaco. E por fim, Wilde faz com que tudo isso se torne uma união entre o fantástico sobrenatural, sem perder as raízes na podridão muito real das relações humanas em uma sociedade hipócrita, conservadora e corrupta. Por isso, achei O Retrato de Dorian Gray original, sobretudo para a sua época.

Segundo afirma a introdução da edição lida, Wilde teria tido a ideia após ser chamado ao estúdio do pintor Basil Ward. Na época, o pintor estava finalizando uma pintura de um jovem modelo, e Wilde, após ter visto a obra teria dito: “é uma pena que tal gloriosa criatura um dia envelheça”, afirmação com a qual Basil Ward concordou e acrescentou: “seria maravilhoso se ele pudesse permanecer exatamente como ele é; a imagem do quadro é que deveria ganhar as marcas do tempo”. Daí nasceria a inspiração para o livro.

Contudo, apesar dessa ideia básica do enredo ser estimulante, instigante, a escrita de Wilde não ajudou muito. O Retrato de Dorian Gray é um livro pensado pelo autor para que seja filosófico e defenda suas ideias esteticistas e, por isso, o autor carrega a narrativa com diálogos pomposos e longuíssimos que logo entediam o leitor mais acostumado ao dinamismo da literatura contemporânea, ou simplesmente àqueles que não estão interessados na temática do hedonismo ou do esteticismo wildiano (este último é meu caso em particular).

Além desse fator, o livro é extremamente dramático no sentido dramatúrgico da palavra. Único romance do autor inglês que, no entanto, escreveu dezenas de peças teatrais, é provável que por conta da veia dramaturga de Wilde tudo nesse livro soa como uma grande peça de teatro, com longos discursos do narrador e diálogos extensos quase sempre com duas ou três pessoas no máximo.

Outro aspecto da narrativa a ser destacada é o seu conteúdo filosófico proeminente, ligado ao hedonismo e ao esteticismo (falo mais sobre logo a seguir), e que torna a leitura do livro um pouco irritante, bastante cansativa e me fez levar 105 dias para terminar de ler. Esses 105 dias é expressão do quanto muito pouco a escrita wildiana me estimulou a terminar de ler.

Por isso, afirmo que ele é um livro que ou você vai amar (pela originalidade e pela narrativa de cunho fantástico) ou odiar (por todos os outros motivos).

Temas que saltam à vista: esteticismo e homossexualidade

Como falei, O Retrato de Dorian Gray é um livro que aborda com ênfase o esteticismo.

Segundo Alexandre Garcia Peres[5], o esteticismo foi um movimento tanto artístico quanto intelectual que se desenvolveu ao longo do século XIX. Tinha por características o “[...] culto ao Belo na arte, em detrimento da função ético-moral que ela pode ter [...]” e “[...] foi um dos vários movimentos que se valeram da ideia de se fazer ‘arte pela arte’”.

Segundo informa a introdução[6] da edição que eu li “as bases do Esteticismo foram desenvolvidas principalmente por Walter Pater, professor de Estética da Universidade de Oxford [...].” A principal defesa do movimento seria “[...] o ‘belo’ como única solução contra tudo o que considerava denegrir a sociedade da época, onde em suas manifestações mais fortes, os valores estéticos têm predominância sobre todos os demais aspectos da vida, numa atitude elitista em relação à arte”. Seria naquele século um movimento, que contaria com o apoio de uma geração de intelectuais e artistas britânicos e que “[...] visava transformar o tradicionalismo na época vitoriana, dando um tom de vanguarda às artes”. 

Seguidor desta corrente Wilde imprime na sua obra muitos aspectos de suas ideias, e obviamente entrara em choque com a posição que era corrente na preconceituosa, moralista e conservadora sociedade vitoriana, “onde a Arte não é apenas um meio de se propagar a moralidade, mas também um meio de reforçá-la[7].

Por conta das ideias do esteticismo, o livro traz muitas referências às artes, desde as artes menores (joias e objetos decorativos), até as artes mais destacadas como às literaturas clássica e moderna, à música, dentre outras formas de artes. O capítulo nove, por exemplo, dedica várias páginas a falar dos hobbies de Dorian e as coisas que por algumas temporadas chamavam-lhe a atenção, e as quais se dedicava com afinco até abandoná-las e seguir para a atividade seguinte. Essas atividades, quase todas, estavam ligadas ao mundo artístico. Além disso, o amor passageiro de Dorian por Sibyl Vane estava mais ligado aos talentos artísticos da moça no teatro, do que de fato à pessoa que ela era: uma jovem apaixonada e inexperiente.

As ideias esteticistas estão também nos discursos tediosos de Lorde Henry e também nas observações do narrador. Por fazer essa defesa das ideias do autor, o narrador é bastante opinativo, porque ele representa a própria voz do autor, que como havia se referido uma vez, via nos personagens algo de si:

Basil Hallward é o que penso que sou: Lorde Henry é o que o mundo pensa de mim: Dorian Gray é o que eu gostaria de ser — em outras eras, talvez”.

Acredito que com isso ele queria firmar que era um apaixonado como Basil, mas que era visto como um degenerado que desviava inocentes, como Lorde Henry, e desejava ser tão encantador e fascinante quanto era Dorian.

Sou uma pessoa que gosta de filosofia, sobretudo do ato de pensar filosoficamente, apesar de ser mais da prática do que da teoria, mas esse autor me cansou verdadeiramente, não tive muita paciência de ler as ideias filosóficas de Wilde, e o texto se tornou um martírio para mim.

No entanto, algo que surpreende em O Retrato de Dorian Gray é a coragem de Wilde de, naquela época, fazer referências tão óbvias ao homossexualismo, sobretudo com o personagem do pintor Basil. Mas esta atitude corajosa se voltou contra ele quando, em uma contenda judicial contra o pai de um de seus amantes, passagens de O Retrato de Dorian Gray foram usados como provas das inclinações homossexuais de Wilde. Além de ter sido preso ele foi afastado de seus filhos e, depois, abandonou a Inglaterra.

A era vitoriana foi marcada por uma moral muito severa, marcada por valores que englobavam a “restrição sexual, pouca tolerância para o crime e um código social de conduta pública rigoroso[8] e nesse período foram constantes os processos por sodomia ilegal. Na época, os homossexuais eram tratados como sodomitas, uma referência a Sodoma, cidade citada na bíblia sobre a qual eram relatados casos de relações sexuais entre homens. A homossexualidade era considerada uma aberração e era alvo de estudos médicos que tentavam entendê-la.

No plano legal, a Emenda Labouchere à Lei de Emenda da Lei Criminal de 1885, tornou todos os atos homossexuais masculinos ilegais no Reino Unido. A punição para quem desrespeitasse pública ou privadamente a norma era de dois anos de prisão, em outras palavras, cometer ou ser parte em atos de homossexualidade era crime, mesmo quando isso ocorria de forma privada. Oscar Wilde foi um dos condenados por violar esta lei, em 1895, se tornando símbolo da repressão puritana inglesa[9].

Mesmo muitos anos depois, no Reino Unido, a homossexualidade continuou como um tabu que gerava punições. É também icônico o caso do cientista da computação Alan Turing, retratado no filme O Jogo da Imitação (2014) como um dos responsáveis pela vitória sobre os alemães durante a segunda guerra mundial. Turing era homossexual e, para não ser condenado a prisão, foi forçado a sofrer castração química em 1952. Ainda naquela época a orientação homossexual era amplamente considerada pelos britânicos como uma doença mental cujo tratamento eficaz seria a castração química[10]

Para finalizar...

O Retrato de Dorian Gray é um livro interessante e peculiar. Um romance gótico que seria um dos meus favoritos se tivesse sido escrito em outra época e sem o exagero de tantos diálogos longuíssimos e suntuosos, e sem tanto destaque para o hedonismo e o esteticismo que foi exaustivamente descrito por Wilde.

Os personagens são complexos e muito bem desenvolvidos e a trama fantástica (gótica) muito bem pensada e executada. O texto traz muitas referências a cidade de Londres, aos costumes ingleses em voga e também a obras da literatura clássica que tornam as notas de tradução indispensáveis. O desfecho não se dá pelos motivos mais criativos, mas não decepciona.

Atrevo-me a dizer, apesar de não ter gostado do livro, que a obra de Wilde é uma expressão vívida e apaixonada do idealismo de uma época e do íntimo de um grupo que era marginalizado, ainda que falar de homossexualismo não fosse o objetivo do autor, mas, como era de sua natureza e Wilde se coloca tão intensamente nesta obra, não foi possível a ele dissimular.

A edição lida é bilíngue (português e inglês), da Editora Landmark, do ano de 2012 e possui 224 páginas.

Sobre o autor

Nascido em 16 de outubro de 1854, em Dublin, na Irlanda, e filho de uma poetisa nacionalista, Oscar Fingal O'Flahertie Wills Wilde foi escritor, poeta e dramaturgo. Em quanto estudou em Oxford se aliou ao movimento artístico do Esteticismo. Casou-se em 1884 com Constance Lloyd, com quem teve dois filhos.

Embora conhecido nos círculos sociais, recebeu pouco reconhecimento por sua obra durante muitos anos.

Em 1895, o marquês de Queensberry, pai de Lorde Douglas amante de Wilde, iniciou uma campanha pública contra o autor. Após perder um processo judicial contra o Marquês, Wilde foi condenado a dois anos de trabalhos forçados. Ao ser libertado, se autoexilou em França, onde morreu na completa obscuridade em 30 de novembro de 1900.

 



[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/D%C3%A2ndi

[2] Cada uma das doutrinas que concordam na determinação do prazer como o bem supremo, finalidade e fundamento da vida moral, embora se afastem no momento de explicitar o conteúdo e as características da plena fruição, assim como os meios para obtê-la (HOUAISS, 2009).

[3] Refere-se a melhor, mais popular ou renomada obra de um artista ou pensador.

[4] Desejoso de agradar, de demonstrar cortesia, de servir

[5] PERES, Alexandre Garcia. Esteticismo – O que é? Quando surgiu? O que defende? Características e Artistas. Disponível em: <https://www.gestaoeducacional.com.br/esteticismo-o-que-e/>. Acesso em: 19 de abril de 2020.

[6] INTRODUÇÃO. In: WILDE, Oscar. O Retrato de Dorian Gray. São Paulo: Landmark, 2014. 224 p.

[7] INTRODUÇÃO. In: WILDE, Oscar. O Retrato de Dorian Gray. São Paulo: Landmark, 2014. 224 p.

[8] https://pt.wikipedia.org/wiki/Moral_vitoriana

[9] https://pt.wikipedia.org/wiki/Moral_vitoriana

[10] https://pt.wikipedia.org/wiki/Castra%C3%A7%C3%A3o_qu%C3%ADmica#Europa


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