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domingo, 7 de fevereiro de 2021

Um Amor Incômodo – Elena Ferrante – Resenha

Por Eric Silva para a 4ª Campanha Anual de Literatura do Conhecer Tudo

07 de fevereiro de 2021, ano da Itália

“Talvez eu quisesse tentar estabelecer entre nós uma intimidade que nunca existira, talvez eu quisesse confusamente fazer com que ela soubesse que eu sempre fora infeliz.”

(Elena Ferrante – Um Amor Incômodo)

Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.

Diga-nos o que achou da resenha nos comentários.

Está sem tempo para ler? Ouça a nossa resenha, basta clicar no play.

Edição Brasileira, pela editora Intrínseca. Preço de capa: R$ 39,90
Livro de estreia da celebrada e misteriosa escritora italiana Elena Ferrante Um Amor Incômodo é um livro um pouco monótono, mas que aborda a violência doméstica de forma autêntica e complexa. Uma narrativa crua, de personagens marcantes, sentimentos intensos e conflitivos e que trabalha com o onírico e com a memória.

Confira a resenha do segundo livro da IV Campanha Anual de Literatura do Conhecer Tudo que neste ano homenageia a literatura italiana.

 

Sinopse do enredo

Delia é uma desenhista de quadrinhos que abandonou sua cidade natal, Nápoles, para fugir do seu passado e da relação complicada que possuía com sua família. A única pessoa com quem a desenhista mantinha proximidade era com Amalia, sua mãe, que frequentemente ia a Roma visitá-la. Entretanto, mesmo essa presença um pouco constante da mãe era indesejada e incômoda a Delia, até o dia que Amalia é encontrada morta em uma praia em circunstâncias misteriosas: seminua, vestida apenas com um sutiã de grife.

A morte inesperada da mãe obriga Delia a retornar à Nápoles e enfrentar novamente o seu passado marcado pela violência doméstica causada pelos rompantes de raiva e ciúmes obsessivo de seu pai. Nessa viagem de volta ao passado, ao mesmo tempo em que busca lidar com a perda da mãe, a quadrinista se vê diante do desafio de buscar preencher as lacunas do passado, encarar os fortes sentimentos que Amalia lhe provocava e descobrir como ocorreu a sua morte. Mas é principalmente a figura do suposto amente da mãe, Caserta, que persegue as lembranças do passado e também o presente de Delia.

Entorno da figura de Amalia e Caserta gira a curiosidade e o desejo sôfrego de Delia de compreender o que de fato havia acontecido entre os dois no passado, provocando na italiana a reflexão dos fatos que se deram em sua infância e que levaram a deterioração da sua relação com a mãe e também com o pai.

Resenha

Elena Ferrante é uma das mais curiosas escritoras italianas que já ouvi falar. Não só por conta do sucesso de sua obra composta de nove livros – todos já publicados no Brasil – como também pelo mistério que envolve sua identidade, segredo este que já rendeu investigações e polêmicas na Itália há alguns anos.

Nunca havia lido nada de Ferrante apesar do sucesso da escritora entre os leitores brasileiros, mas resolvi fazê-lo por conta da IV Campanha Anual de Literatura, que nesse ano homenageia a literatura italiana. Por força desse fator, decidi ter meu primeiro contato com a obra da escritora a partir de seu livro de estreia Um Amor Incômodo (L’amore molesto), que segundo dizem os leitores assíduos da italiana é um livro ainda da fase pouco madura da escritora e, logo, ainda um pouco distante da sua escrita atual.

Um Amor Incômodo é um livro intimista e com uma caraga dramática pesada, mas que aborda com muita sensibilidade os desdobramentos emocionais na vida adulta de uma infância marcada pela violência doméstica.

Publicado em 1992, a obra foi adaptada em filme homônimo pelo cineasta Mario Martone em 1995, mas só em 2017 o livro foi publicado no Brasil.

O enredo conta a história de Delia, uma quadrinista quadragenária, profissionalmente realizada, mas emocionalmente abalada pelo passado familiar, o que imprime em seu comportamento um forte desejo de distanciamento dos seus familiares.

Delia (interpretada por Anna Bonaiuto). Cena do filme L'amore Molesto (1995).

Delia é o tipo de personagem introspectivo que se perde bastante nos próprios sentimentos e pensamentos. Como a história se passa no momento em que ela tenta lidar e processar a perda da mãe encontrada afogada no dia do aniversário da filha, durante grande parte da narrativa, Delia divaga sobre o passado e vai, ao mesmo tempo, reconstruindo a linha histórica de lembranças e memórias não muito confiáveis. Essa reconstrução é importantíssima na trama, porque nos revela o passado da protagonista ao mesmo tempo que, por um lado, nos elucida as circunstâncias que fizeram sua relação com a mãe se tornar insustentável e, por outro, desvenda os últimos passos de Amalia antes de ser encontrada morta.

Vista da cidade de Nápoles com Vesúvio ao fundo. Nápoles é o principal cenário do livro de Ferrante. Imagem de Damirux. Wikimedia Commons.


O enredo em si é esse reencontro da protagonista com o seu passado
, com ela mesma e com as lembranças de sua relação com a mãe. Mas mesmo sendo conturbada essa relação entre mãe e filha, é ela que dá forma e norte a personalidade da protagonista que inicialmente demonstra uma aversão quase que instintiva e bastante intensa pela presença de Amalia, chegando a se sentir um tanto aliviada com a morte de sua progenitora. No entanto, gradativamente vai se revelando que, na verdade, essa aversão é fruto de um sentimento frustrado e infantil de desejo de simbiose, ou melhor dizendo, de querer ser a mãe, fundir-se e confundir-se com a personalidade materna, como também observa Aline Aimee. Daí vem o título do livro. O amor de Dalia por Amalia era tão cheio de marcas, complexos e sentimentos conflitantes que ele se tornava incômodo, angustiante, sofrido.
A principal marca da personagem principal na narrativa é sua difícil relação com a mãe. Delia analisa e reconstrói essa relação a partir das memórias que possui de sua infância com Amalia, o pai, o tio e os vizinhos: Caserta, o menino Antonio e o avô confeiteiro de Antonio. Ao mesmo tempo ela envereda numa busca por reconstituir os últimos acontecimentos vividos por Amalia, como sua reaproximação com o suposto amante do passado, Caserta, e também fechar as lacunas que explicariam as circunstâncias de sua morte.

A minha opinião sobre a personagem principal é que ela não é a figura mais importante de sua própria história e perde um pouco de seu protagonismo para a figura da mãe, personagem forte e dúbio e que, por isso, me faz lembrar de outra personagem feminina: Capitu, do livro Dom Casmurro, obra icônica do escritor brasileiro Machado de Assis.

Amalia, cuja morte é o motivo de existir enredo, rouba a cena por ser uma personagem difícil de precisar e de descrever, mas que ao mesmo tempo é a cola que une todo o elenco do livro e os fios de sua trama. Sem ela, simplesmente, não existiria história.

Amalia jovem, interpretada por Licia Maglietta (1995).

Em sua juventude, a mãe de Delia é descrita por Ferrante como uma mulher bonita, risonha e provocante, que buscava preservar o bom humor e o gosto pela vida, mesmo vivendo em um ambiente sufocante e marcado pela violência. Casada com um pintor fracassado que sobrevivia com a venda de pinturas baratas de temas vulgares, Amalia sofria constantemente com as agressões do marido extremamente ciumento e que sempre a agredia. Mesmo em ambientes públicos, quando algum homem se dirigia a ela e a mesma esboçava algum tipo de simpatia, Amalia costumava ser vítima das agressões. Os abusos também eram muito comuns por conta dos constantes presentes que Amalia recebia do vizinho Caserta que era sócio de seu marido nos negócios de vendas de pinturas.

Desse modo, o tema da violência doméstica se torna um elemento imprescindível da história escrita por Ferrante e dá a narrativa um caráter bastante realista. As lembranças de Delia são profundamente marcadas pelas cenas de violência protagonizadas pelo pai e, por isso, o tema funciona como elemento crucial na formação da personalidade da protagonista. O resultado é que o desenho psicológico de Delia é bastante conturbado e atravessado pelo produto de um passado marcado de um lado pela frustração e nunca conseguir se igualar a figura materna, e de outro pela violência doméstica da qual ela foi testemunha e em um dado momento foi também impulsionadora.

Cenas do filme L'Amore Molesto de Mario Martone (1995) 
e que retratam a violência doméstica sofrida por Amalia.

Outros dois personagens importantes na trama são o tio Filippo, irmão de Amalia e que em vez de defendê-la das agressões a culpava por elas, e Caserta, outro personagem enigmático da trama e que sustenta a narrativa junto com as lembranças de Amalia conservadas por Delia.

Filippo é um homem tosco e irritadiço. Na maior parte do tempo fica xingando no dialeto local e falando mal de Amalia, a culpando por destruir o próprio casamento por seu comportamento, na visão dele, bastante reprovável. Ele junto com o pai de Delia representam na narrativa a figura do homem machista que vê na mulher a reencarnação da devassidão e da pecaminosidade, devendo ser corrigida a sua inclinação inevitável para a infidelidade com pancadas. 

Caserta é descrito no livro como um homem “esperto, de pele escura como um sarraceno, mas com olhos de diabo assanhado”, tinha fama de importunar as mulheres do bairro e desde a infância sua imagem causava a Delia uma mistura conflitante de atração, repulsa e medo. Este não era seu nome, mas um apelido.

Discussão entre Caserta (camiseta branca - por Enzo De Caro), Filippo (com a arma - Francesco Paolantoni) e o pai de Delia (à esquerda - Italo Celoro) em cena de flashback do filme L'amore Molesto (1995).

Na época, o pai da menina já era um pintor medíocre que pintava por ninharias, foi Caserta quem percebeu a possibilidade de que ele ganhasse um pouco mais pintando retratos a óleo das mães, irmãs e namoradas dos marinheiros americanos com saudades de casa. O negócio com Caserta porém de se desfez depois que o pai de Delia achou uma proposta mais vantajosa, pintando imagens de ciganas. Amalia se opôs e daí em diante as brigas entre o casal por conta de Caserta começaram, se tornando pior quando Delia lançou ao pai a semente da desconfiança de uma possível traição. Filippo e o cunhado quase mataram Caserta e seu filho, obrigando-o a fugir com sua família.

Passados todos aqueles anos Caserta ainda era um nome envolto em mistério, e de alguma forma ele estava ligado aos últimos dias de vida de Amalia. Delia não sabia como nem porque, mas o mistério daquele homem asqueroso a atraía.

A título de conclusão...

Apesar de ser uma narrativa na qual a narradora reflete bastante sobre cenas e episódios ocorridos no passado, Ferrante usa de uma narração linear e não recorre a flashbacks. Delia narra os hábitos, as brigas, os fatos, os lugares e as pessoas, mas não perde a sua condição de narradora quando evoca o passado. Por conta disso, ela acaba por caminhando pela linha tênue entre os acontecimentos do passado e o presente, como se o passado fosse imagens fantasmagóricas que a quadrinista vislumbra sobrepostas às imagens do presente. Por isso, não é incomum que sonho, lembrança e realidade se fundam na mente da narradora e ela chegue até mesmo a ter visões, sobretudo da mãe.

Ferrante escreve um livro de atmosfera intimista e psicológica muito marcante. Lembranças, divagações e fantasias da protagonista se misturam, mostrando que muitas das respostas que ela buscava já estavam guardadas em seu subconsciente, e seria o contato que ela faz com todas aquelas pessoas do passado o fator responsável por trazer gradativamente à tona as lembranças mais escondidas.  Desse modo, o tom que percebi dominar na obra foi a da confusão de sentimentos, pensamentos e lembranças que emanam de Delia e que conduzem a personagem em um encontro com seu passado, recuperando cenas e enredos esquecidos e deformados com o passar do tempo.

Enfim, achei o livro monótono, mas a forma como Ferrante aborda a violência doméstica através das lembranças um tanto inconsistentes da protagonista e os complexos e aversões que ela desenvolveu no processo foi excepcionalmente autêntico e até mesmo complexo. Ademais, Um Amor Incômodo é uma narrativa crua, de sentimentos muitos intensos e conflitivos e que trabalha com o onírico e com a memória. Possui personagens muito marcantes, cujos sentimentos e ações nos fazem questionar muito sobre a natureza humana.

Muitos afirmam, que este livro não é o melhor de Elena, mas como minha primeira experiência com a autora, não farei julgamento de valor. Além disso, é sabido de qualquer leitor experimentado que livros de estreia quase sempre são reflexos de um escritor ainda em formação, ainda cru e em processo de aperfeiçoamento. Justamente por isso é interessante ler estes livros, porque eles meio que humanizam aqueles que se encontram no panteão da literatura internacional.

A edição lida é da Editora Intrínseca, do ano de 2017 e possui 176 páginas.

Sobre o autor

Elena Ferrante é o pseudônimo de uma escritora italiana que prefere manter sua identidade em segredo sob a justificativo poder escrever com liberdade, e para que a recepção de seus livros não seja influenciada por uma imagem pública. Especula-se que seja uma tradutora, Anita Raja, que nasceu em Nápoles e que seja casada com o também escritor Domenico Starnone.

A autora concede poucas entrevistas, todas elas por escrito e intermediadas pelas suas editoras italianas. A única certeza sobre ela é que escreve desde 1991, ano em que publicou seu primeiro romance, L'amore molesto, livro resenhado nesta postagem.

Confira quem são os outros autores participantes da Campanha deste ano.

Saiba mais sobre os autores que estão sendo lidos na Campanha no link: autores.

Conheça os pontos do nosso itinerário no mapa do link: mapa.

Preview do Google Books

Abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Google Books.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

2021, o Ano da Itália no Conhecer Tudo - IV Campanha Anual de Literatura do Conhecer Tudo


Olá, caros leitores.

A Campanha Anual de Literatura do Conhecer Tudo (CALCT) é o nosso projeto mais ambicioso, contudo, no ano de 2019, não pudemos dar continuidade a nossa terceira edição que homenagearia a literatura italiana. Infelizmente a IV CALCT foi interrompida com apenas um mês de projeto. Para corrigir isso, resolvi em abril de 2020 que eu daria continuidade ao projeto com a literatura da Itália do ponto onde paramos logo que começasse 2021. O plano era ao longo do ano ir organizando toda a campanha, para quem no ano seguinte tudo ficasse pronto só para a publicação. Pois bem, estamos aqui e que tudo dê certo!!!!
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Para quem não conhece o projeto principal do nosso blog, todo os anos, desde 2016, fazemos um itinerário de livros de um determinado país que é escolhido por votação pelos usuários do Google Plus. Para a enquete é pré-selecionados cinco países representando cada um dos cinco continentes do globo. Depois de escolhido o país a ser homenageado, fazemos um itinerário de livros de diferentes autores oriundos da nação homenageada e através de resenhas discutimos sobre os livros escolhidos, apresentamos seus autores e, em postagens especiais, discutimos os temas relacionados ao país e que surgem nos livros do itinerário: aspectos culturais, turísticos, históricos, sociais, etc.

Na pré-seleção para a IV CALCT, cinco países estiveram na disputa: Nova Zelândia (Oceania), Chile (América), Itália (Europa), Coreia do Sul (Ásia) e África do Sul (África). Foram 3 meses de votação que contou com a participação de 281 pessoas. E com 36% dos votos a Itália foi escolhida para ser o país homenageado.

Durante doze meses, nos aventuraremos pela literatura italiana. Olharemos mais de perto para um país cheio de cultura milenar que respira história e que influenciou toda a cultura ocidental. Um país de beleza cultural e natural surpreendente.

Visitá-lo-emos pelo olhar de seus escritores e das obras por eles concebidas, conhecendo algumas das milhares de facetas do povo italiano através da literatura. E, em paralelo, falaremos também de filmes do cinema nacional.

É claro que assim como nos anos anteriores, nosso foco não será exclusivo para esta campanha, ainda mais que outros projetos exigem nossa atenção, mas será prioritário e a marca principal do Conhecer este ano.

Quem quiser dar sugestões de livros para o itinerário, fique à vontade para postar nos comentários.

Então é oficial, 2021, em substituição ao ano de 2019, será o #AnoDaItália no Conhecer Tudo e durante este ano estaremos em páginas italianas.

Atte.,
Conhecer Tudo,
01 de Janeiro de 2021, Ano da Itália.

Os livros do nosso itinerário resenhados até agora:
#1 - O Decamerão – Giovanni Boccaccio (publicação - 10 de janeiro)
#2 - Um Amor Incômodo - Elena Ferrante (publicação - 7 de fevereiro)
#3 - Eu e Você - Niccolò Ammaniti (publicação - 7 de março) 
#4 - Se um Viajante numa Noite de Inverno – Italo Calvino (publicação - 4 de abril) 

Sobre os autores:
#1 - 

Filmes do nosso itinerário:
#1 - 

Postagens Especiais do nosso itinerário:
#2 - 


Abaixo você pode localizar, no mapa do Japão, os locais onde se desenrolam as tramas dos livros lidos à medida que eles são resenhados, ou as cidades de origem dos escritores no caso de tramas que se desenrolam em outros lugares reais ou fictícios. Clicando nos ícones do mapa você pode saber mais sobre o livro resenhado e conferir imagens da capa e do local da história ou de nascimento do autor.


quarta-feira, 1 de novembro de 2017

2017 - Ano do Brasil no Conhecer Tudo


Olá, caros leitores. 

Em 2016, aqui no Conhecer Tudo, realizamos o #AnoDaEspanha, a nossa campanha mais ambiciosa. Nela, durante quase nove meses, homenageamos a literatura e um pouco do cinema espanhol através da leitura de sete livros de autores mundialmente reconhecidos, além de três filmes, dois deles integrados a outro de nossos projetos, o 7ª Arte. Nessa linha e do desejo de conhecer mais a fundo a literatura espanhola nascia e ganhava contornos o que depois oficializaríamos como a Campanha Anual de Literatura do Conhecer Tudo, que usualmente identificamos com um #AnoDo...

O período de realização da primeira campanha foi muito especial, não apenas porque conhecemos autores incríveis e alguns livros fabulosos, mas porque olhamos mais de perto para um país cheio de contrastes, de cultura marcante, que respira história em cada pequena vila ou grande cidade, e principalmente, um país de beleza arquitetônica e natural surpreendente.

Foi tão prazeroso homenagear o país, que resolvemos continuar com uma campanha semelhante em 2017, porém com um novo país. Todavia, em 2016, homenagear a Espanha foi uma escolha nossa, mas para 2017 queríamos algo diferente, escolhida por vocês. Pensando nisso pré-selecionamos cinco países para representar os cinco continentes do globo: África do Sul (África), Alemanha (Europa), Brasil (América), Nova Zelândia (Oceania) e Rússia (Ásia - Eurásia).

Selecionados os países candidatos, montamos uma enquete e deixamos vocês escolherem através do nosso perfil no Google+. O resultado é que, em 3 meses de votação, 444 pessoas votaram e, com 72% dos votos, o Brasil foi escolhido para ser o país homenageado em 2017. Então é oficial, 2017 é o #AnoDoBrasil no Conhecer Tudo.

Durante esse período de 12 meses montaremos nosso itinerário pela literatura do nosso país, visitando-o pelo olhar de seus escritores, ou até mesmo indo a lugares longínquos concebidos pela criatividade dos autores nacionais. Assim leremos desde autores de renome internacional até os novos autores que despontam na constelação literária do país em busca de seu lugar no coração dos leitores.

Em paralelo falaremos também de filmes do cinema nacional e comporemos Postagens Especiais sobre os principais temas tratados pelos livros do itinerário.

É claro que assim como em 2016, nosso foco não será exclusivo para esta campanha, ainda mais que outros projetos exigem nossa atenção, mas o #AnoDoBrasil será prioritário e a marca principal do Conhecer este ano.

Quem quiser dar sugestões de livros para o itinerário, fique à vontade para postar nos comentários.


Enfim, será um ano para falar de nosso país e de encontrarmos a nossa brasilidade impressa na literatura. Estaremos em casa, em terras e páginas brasileiras.

Atte.,

Conhecer Tudo,
01 de Janeiro de 2017, Ano do Brasil

Os livros do nosso itinerário resenhados até agora:

#1 - Resenha de O Caçador - Ana Lúcia Merege
#2 - Resenha de Dois Irmãos - Milton Hatoum
#3 - Resenha de Aventuras do Vampiro de Palmares - Gerson Lodi-Ribeiro 
#4 - Resenha de A Mulher que Escreveu a Bíblia - Moacyr Scilar
#5 - Resenha de Tenda dos Milagres - Jorge Amado
#6 - Resenha de Deuses Esquecidos - Eduardo Kasse
#7 - Resenha de Sob a Luz de Seus Olhos - Chris Melo
#8 - Resenha de O Tigre na Sombra - Lya Luft
#9 - Resenha de Quarto de Despejo - Carolina Maria de Jesus
#10 - Resenha de Vidas Secas - Graciliano Ramos
#11 - Resenha de A Hora dos Ruminantes - José J. Veiga
#12 - Resenha de A Batalha do Apocalipse - Eduardo Spohr
#13 - Resenha de Hilda Furacão - Roberto Drummond
#14 - Resenha de Medieval - Ana Lúcia Merege e Eduardo Kasse

Sobre os autores:

2017 #AnoDoBrasil: Os autores que estamos lendo

Filmes do nosso itinerário:
#1 - Comentários sobre O Lobo Atrás da Porta
#2 - 7ª Arte: Hoje Eu Quero Voltar Sozinho
#3 - 7ª Arte: Que Horas Ela Volta?

Postagens Especiais do nosso itinerário:

#1 - Trilha sonora de Sob a luz de Seus Olhos  
#2 - Nós e a Literatura Brasileira  


Listas:
#1 - 5 grandes mulheres da literatura brasileira

Lirismos - antologia poética:
#1 - Sentimental - Carlos Drummond de Andrade
#2 - Meninos Carvoeiros - Manuel Bandeira
#3 - Praia do Caju - Ferreira Gullar
#4 - Tudo, todos e o todo - Carlos Rodrigues Brandão
#5 - O Cântico da Terra - Cora Coralina
#6 - Eu em mim - Carlos Queiroz Telles
#7 - Soneto de Separação - Vincius de Moraes
#8 - Biografia - Ulisses Tavares
#9 - Romance II ou Do ouro Incansável - Cecília Meireles

Abaixo você pode localizar, no mapa do Brasil, os locais onde se desenrolam as tramas dos livros e filmes a medida que eles são resenhados, ou as cidades de origem dos escritores no caso de tramas que se desenrolam em outros lugares reais ou fictícios.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Nós e a literatura brasileira: até quando acharemos que o que é de fora é melhor? - Postagem Especial


Por Eric Silva

Está sem tempo para ler? Ouça a nossa resenha, basta clicar no play.



Literatura brasileira ou estrangeira? Por que no país muitos leitores valorizam mais a literatura de fora?
Imagem: http://educarparacrescer.abril.com.br/blog/biblioteca-basica/.

Porque tantos brasileiros não gostam de literatura brasileira e dão preferência a literatura estrangeira?

Eu como muitos brasileiros também não era grande simpatizante da literatura nacional. Para perceber isso basta observar que leio autores do mundo todo e pouquíssimos deles são nacionais. Contudo, a medida que fui montando um de nossos projetos que fala sobre os livros que marcaram minha infância e adolescência, fui percebendo pela lista de livros que devo muito mais à literatura brasileira do que imaginava. Foi ela quem me iniciou no mundo das letras, foi ela minha primeira amante.

Percebo hoje que foi inspirado por literatura brasileira que tive meus primeiros sonhos literários e que foi com autores como Aristides Fraga Lima (A Serra dos Dois Meninos), Leila Rentroia Iannone (Rio tem Coração?), Clarice Lispector (A Vida Intima de Laura) e tantos outros que me fiz leitor. Mas por algum motivo me perdi na seara de minhas escolhas literárias e como tantos outros passei a olhar de outro modo minhas origens. Cuspi no prato que comi.

Felizmente, todo os anos os projetos do Conhecer e principalmente a nossa Campanha Anual de Literatura me ensina algo novo e dessa vez o ensinamento me fez tomar o papel de filho pródigo e voltar para casa. Por isso, na postagem especial de hoje venho discutir um pouco sobre porque tantos brasileiros não gostam de literatura brasileira. Falar de quais fatores na minha opinião impulsionam essa descrença pela nossa literatura e dos motivos de no país se dar tanto crédito a uma literatura estrangeira supostamente tomada como superior à nossa.

***

Clarice Lispector, uma de minhas iniciadoras na literatura.
Imagem: http://acervo.revistabula.com
Acho um tanto leviano comparar a literatura internacional com a brasileira, porque não temos uma noção ampla da produção de cada país. Ao contrário disso, nossos maiores contatos são com livros de países de língua inglesa, marcadamente de autores estadunidenses e ingleses. No caso de outros países como os do continente africano, por exemplo, poucos são os autores que chegam a ser traduzidos e publicados no país. Então quase sempre que alguém compara nossa literatura com a estrangeira ou o faz pautado em um número restrito de autores de um determinado país, ou o faz baseado na literatura mais comercial estadunidense e inglesa, que é o que de fato chega mais até nós.

Por outro lado, mesmo que tivéssemos a condição de conhecer amplamente a literatura de cada país do mundo, ainda seria leviano ranqueá-las. Entendo a literatura de uma nação como um reflexo da cultura, da identidade, da história, dos problemas e dos sonhos de um povo. Se olhos são o espelho da alma de alguém, a literatura é também uma expressão de uma sociedade, está sempre carregado de identidade própria, mesmo quando se imita uma dada tendência internacional. E se, na era moderna, as nações reconheceram que nenhum povo é superior a outro, nenhuma literatura também o será.

Evidentemente que isso não elimina o fato que a nossa literatura tem seus problemas, de que está repleta de livros que não são muito prazerosos e de tantos outros que foram malsucedidos. Eu, por exemplo, não suportei o livro Noite do Massacre do reconhecido autor Carlos Heitor Cony. A despeito da fama de seu autor, esse pequeno livro de Cony é, na minha opinião, nada muito além de um amontoado de violência gratuita. Foi em respeito às nossas próprias condutas éticas que preferi não resenhar o livro de Cony. Contudo, não é por uma pequena amostragem estatística que se define as reais características de uma população e isso vale também para a literatura seja ela nacional ou estrangeira.

Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien.
Uma das obras estrangeiras que mais fez sucesso no Brasil,
sobretudo após ser adaptado para o cinema.
Os livros que chegaram ao Brasil são quase sempre selecionados de acordo com as possibilidades de sucesso no mercado brasileiro. São best-sellers, ganhadores do prêmio Nobel, autores com público cativo que em geral já acompanha os seus trabalhos na sua língua nativa, livros que viraram filmes e séries de televisão de sucesso ou livros que obtiveram grande aceitação no exterior. Por tanto são livros que são esperados por um determinado público ou que podem ganhar terreno no mercado, tomando como base a sua popularidade e boa aceitação lá fora. Os insucessos raramente chegam até nós e mesmo bons livros não nos alcançam por que não são pops.

Mas é claro que dos livros estrangeiros que chegam até o Brasil, nem todos são cativantes. Há também obras estrangeiras que considerei entediantes como Los Alamos, de Martin Cruz Smith, e A Bela e a Adormecida, do cultuado Neil Gaiman. Esse último, para mim, foi a releitura mais pouco inspirada que já li e não está entre os melhores trabalhos do autor.

Por outro lado, na minha modesta opinião, o principal motivo dos brasileiros não gostarem da literatura local é porque a desconhece em sua profundidade. E por que? A resposta é difícil porque é cíclica e um fator retroalimenta o outro. Em resumo seria: falta divulgação e espaço para o escritor nacional, e falta porque não há procura expressiva, e se não há procura, pela (in)lógica capitalista acaba faltando também interesse de criar oferta.

O grande mercado editorial brasileiro não dá um maior espaço aos novos escritores brasileiros por razões muito óbvias e a principal delas é a dificuldade de vender literatura brasileira quando esta não é popular entre os já escassos leitores do país.

Vamos por partes.

Os brasileiros têm uma tendência muito forte de depreciar tudo o que é nacional. Dizia Nelson Rodrigues, dramaturgo e escritor brasileiro, que nós temos um “complexo de vira-lata”, ou seja, um olhar de povo colonizado que se coloca, “voluntariamente”, ressaltava o autor, em uma posição de inferioridade em relação ao resto do mundo. Esse “complexo” se reflete em diferentes seguimentos da vida e nos faz repetir frases depreciativas como “só podia ser brasileiro” para tudo o que é de ruim e que de alguma forma envolve o país. Não é diferente quando se trata de literatura.

Antes de escrever qualquer postagem, costumo ler sobre o assunto, indo de artigos científicos às opiniões de colunistas e resenhistas. Andei lendo alguns textos também sobre o fato de que nós não gostamos de literatura brasileira e o que descobrir é que as pessoas que não leem a literatura nacional o faz por preconceito, por conhecer pouco de sua diversidade, por um problema de divulgação de milhares de escritores nacionais, pela seletividade do mercado editorial, mas principalmente por estarem dentro deste complexo de que nos falava Nelson Rodrigues.

Na minha pesquisa me deparei com todo tipo de opinião, mas um artigo em particular me chamou muito atenção e que pertence a um blogueiro que costuma fazer listas sobre temas literários.

O conteúdo do blog citado é interessante, para dizer a verdade, porque é objetivo (ao contrário dos meus textos intermináveis) e não assusta quem tem preguiça de ler. Porém, em uma dessas listas o citado blogueiro tece dez razões de porque a literatura estrangeira é mais atraente do que a nossa, tomando por base sua própria experiência literária. Contudo ao ler a lista a sensação que fica para o leitor é que ele lê bem pouco os autores brasileiros ou está preso a um determinado círculo de autores e não se aventura para além do que os vestibulares costumam exigir.

Para justificar sua posição o blogueiro lista uma série de problemas que ele julga ser a razão da literatura brasileira ser (nas minhas palavras) decadente e desestimulante. Eis a lista: falta de objetividade, de movimento, descompromisso com o enredo e com o entretenimento, catálogo reduzido “de bons ficcionistas nacionais”, o uso excessivo de metáforas, ambiguidades e de sentidos figurados, excesso de seriedade (falta humor), excesso de militância, pouca amplitude (só fala das mazelas brasileiras como a corrupção e a violência) e, por fim, somos atraídos pelo desconhecido.

Imagem da fachada da Acadêmia Brasileira de Letras no Rio de Janeiro.
Imagem: Wikimedia Commons.
Após ler a lista concordei em parte com o que ele dizia. Estes problemas de fato existem. Mas ao contrário do que ele quis sugerir não é um problema exclusivo do Brasil, pelo contrário é um fenômeno geral, corriqueiro em todo o mundo. Os problemas são bem mais profundos e estruturais.
Além disso, separemos o joio do trigo, é leviano e generalista afirmar que TODOS os milhares de escritores do país são como a lista descreve e que TODOS os milhões de estrangeiros escrevem melhor do que nós.

Catálogo reduzido? De forma alguma! Catálogo pouco divulgado.

Uso de metáforas e sentidos figurados? É certo que o excesso torna a leitura massacrante, mas em muitos casos são elas que dão charme e seduzem o eleitor pela curiosidade, abrem sua mente para imaginar o que tudo aquilo pode significar! Qual a mensagem que o autor quis passar. Inclusive essa é a alma de A Hora dos Ruminantes, de José J. Veiga, um dos últimos livros que resenhei aqui. Sem o uso da metáfora simplesmente não existiria história no livro citado.

Pouca amplitude? Sem comentários, porque é uma inverdade. Eu diria que muitos autores brasileiros se fixam demais no cotidiano, nas coisas simples da vida brasileira, são introspectivos demais, mas mesmo entre esses a variedade temática é imensa.

Movimento? Literatura agora é cinema? Todo livro tem que falar de ação? As questões psicológicas e/ou filosóficas devem estar a serviço da ação, mesmo que se corra o risco da literatura se tornar um amontoado de obras rasas e sem relevo?

Falta de humor? Convido todos a lerem A Mulher que escreveu a Bíblia de Moacyr Scilar ou Hilda Furacão de Roberto Drummond.

Falta de objetividade? O que se busca não são histórias inteligentes, reais, fantásticas, inspiradas e comoventes? Objetividade não tem nada a ver com nenhuma dessas coisas. Objetividade é questão de estilo e isso é próprio de cada escritor.

Descompromisso? Como é possível pecar pelo excesso de figuras de linguagem, questões filosóficas e existências e ao mesmo tempo ser descompromissado? Foi a que menos entendi, mas me pareceu que se quis dizer – como outro blogueiro afirma claramente, inclusive, – de que os brasileiros só imitam os escritores estrangeiros tentando adaptar estilos e movimentos para a realidade brasileira quando isso nem sempre é possível. Bem, se isso acontece, é porque temos o famigerado “complexo de vira-lata” e na vida estamos sempre buscando imitar o que é de fora.

Militância? Existe em todo lugar porque é algo necessário à conquista dos direitos sociais como a liberdade de expressão, e a literatura sempre foi e sempre será uma ferramenta de luta independente de qual foi o idioma em que foi escrito. Ou devemos esquecer das críticas sociais feitas por grandes escritores europeus como Charles Dickens e Victor Hugo em suas obras?

Por fim, vem a questão do entretenimento. Concordo, em parte, que muitas histórias de escritores brasileiros não são para serem lidas de uma vez, sem o devido cuidado e atenção. São textos para serem digeridos lentamente e são pouco acessíveis para quem tem pouca experiência, vocabulário pobre, ou pouca formação educacional. Como diz o jornalista Felipe Pena, muitos escritores “escrevem para si mesmos e para um ínfimo público letrado, baseando as narrativas em jogos de linguagem que têm como único objetivo demonstrar uma suposta genialidade literária”. Mas essa constatação não pode ser estendida a todos de forma alguma.

As histórias brasileiras podem não ser em sua maioria cinematográficas como os romances do espanhol Carlos Ruiz Zafón, autor que gosto muito. Mas quem foi que disse que todo livro tem que estar a serviço da sociedade do espetáculo? Uma literatura baseada só e puramente no entretenimento seria pobre, rasa e repetitiva – tenderia a ser mais do mesmo. Há que sim, buscar o meio termo.

Mas deixando de lado o blogueiro em questão. O que quero dizer é que o primeiro ponto que nos impossibilita de gostar de literatura brasileira é esse “complexo de vira-lata” que faz o brasileiro depreciar tudo o que é nacional e exaltar o estrangeiro. Foi-se aí o primeiro ponto que eu queria colocar.

O segundo ponto tem relação com as nossas experiências literárias na escola, local onde temos (somos obrigados a ter) maior contato com a produção nacional, particularmente os clássicos.
Para muitos leitores – marcadamente os mais jovens – a literatura brasileira é chata, porque para a maioria deles a literatura do Brasil se resume aos clássicos estudados na escola. Também já pensei assim.

A questão que reside aqui é que a literatura varia no tempo, muda de estilo e de temática e na escola geralmente somos forçados a ler obras em uma linguagem difícil – para qual não fomos devidamente preparados – e sobre temas de relevância para uma época passada que pouco fala de nós e da forma como vivemos. Não se cria identificações nem laços e a barreira da língua contribui enormemente para isso. Como muitos professores não conseguem nos alcançar e mostrar o verdadeiro valor da obra que temos em mão, o efeito obtido é nos traumatizar em relação aos clássicos brasileiros.

Se não bastasse, há pouco espaço para a literatura contemporânea na escola. Nossas primeiras leituras na instituição ou são de livros infantis e pedagógico ou de literatura clássica. Pouco se lê da literatura brasileira atual e pouco se diversifica o tipo de leitura e seus gêneros. No fundamental II não há diversidade e no Ensino Médio só se lê os clássicos. Ou seja, se o estímulo para ler já é pouco, menor ainda é a variedade do que se “obriga” a ler.

Acredito que o que falta nesse quesito é leituras que vão avançando conforme a idade, o letramento e a formação crítica dos alunos. Leituras que vão gradativamente dos livros mais acessíveis aos mais complexos, dos contemporâneos aos clássicos, utilizando-se dos mais variados gêneros, cultivando pouco a pouco e continuamente o interesse pela leitura. E ler deve ser algo divertido, deve se lúdico, envolver projetos, unir literatura a ouras artes como o cinema e o teatro. Como isso não acontece não se cultiva leitores, muito pior, amantes de literatura brasileira.

Imagem de livraria localizada no Brasil. Ao fundo secção dedicada a literatura brasileira.
Imagem: Nelson Kon.
O terceiro ponto está na outra ponta da corda: o mercado editorial.

Como eu disse é difícil vender literatura nacional quando esta não é popular entre os já escassos leitores brasileiros. Por conta disso o mercado procura atender aos nichos de leitores já existentes e publica mais aquilo que interessa a esses grupos.

Muitas vezes as grandes editoras buscam aqueles autores brasileiros que já fizeram sucesso em editoras menores ou com produções independentes porque aí já existe um público interessado. Esse foi o caso de Eduardo Spohr, autor de A Batalha do Apocalipse, e de Chris Mello, autora de Sob a Luz de seus Olhos, que possuem uma qualidade literária muito boa, fizeram sucesso em editoras menores e chamaram a atenção do grande mercado editorial tendo seus livros republicados por ele. Mas, na verdade, a maior parte do espaço é dado a autores brasileiros já consagrados, ganhadores de prêmios, autores indicados para uso pedagógico, celebridades e aqueles escritores que possuem alguma notoriedade dentro de um grupo social específico como o meio artístico, intelectual ou da elite nacional.

A literatura nacional popular, para jovens, de fantasia, de terror, policial, de ação, de aventura, dentre outros gêneros e subgêneros, possui pouco espaço o que cria o mito de que não existe bons autores nacionais que produzam narrativas desse tipo de gênero, o que é, na verdade, um equívoco. Além disso, para as editoras, apostar em autores que já fazem sucesso no exterior nesses gêneros como Rick Riordan (literatura para jovens), George R. R. Martin (fantasia), Stephen King (terror) e Jo Nesbø (policial e suspense) é certeza de lucros maiores.

Ao contrário disso, encontrar, lançar e promover novos autores que sejam bons, do país e desconhecidos pelo grande público é, em muitos casos, um empreendimento que pode dar prejuízos, uma vez que, salvo poucas exceções, esses autores demoram a chamar a atenção do mercado, exigindo um maior trabalho de marketing e logo, gastos maiores. No fim, são as pequenas editoras que mais se lançam nesses projetos de risco, porém com números menores de livros e de autores publicados por ano.

Mas ainda temos um quarto ponto: divulgação.

A literatura que mais vende no Brasil está ligada ao cinema, a TV
 e ao sucesso do autor e da obra no exterior.
Os livros estrangeiros recebem um marketing muito maior e até mais agressivo, enquanto que os livros brasileiros quase sempre são divulgados no boca a boca, geralmente pelos próprios autores ou por blogueiros como nós do Conhecer Tudo e tantos outros. Isso diminui a visibilidade das obras nacionais, de novos escritores. Só quem está ligado nas redes, quem lê bastante pequenos blogs, quem vai a encontros literários por todo país têm contato com os novos escritores e conhecem seu trabalho. E mesmo alguns autores mais antigos e consagrados acabam vendendo pouco porque suas obras são pouco divulgadas ou aparecem apenas em algumas mídias como revistas de grande circulação, mas que não são lidos por todos os seguimentos.

Acredito que o pouco marketing se deva, sobretudo, pelos gastos quando comparados com as possibilidades de retorno, porque divulgação nem sempre elimina o preconceito do brasileiro em relação a nossa literatura.

Como se vê o problema é complexo e não pode ser nem generalizado, nem simplificado. Mas ainda assim, penso que, diante do que discutimos, não é só o mercado editorial brasileiro que tem que mudar, mas o brasileiro também.

De um lado, as escolhas das editoras se baseiam em termos comerciais, porque, no final das contas, elas são empresas que precisam lucrar ou acabam fechando as portas. Mas do outro, também o posicionamento do leitor brasileiro que ainda vê a literatura nacional com preconceito tem que ser mudado.

Acredito que quando a nossa literatura for mais valorizada pelos leitores brasileiros a tendência será de uma valorização dos autores independentes, dos novos autores, da produção vinda de pequenas editoras e também por parte do grande mercado editorial que está sempre farejando tendências.

A verdade é que não importa se a literatura brasileira é mais intelectualizada ou popular, ou se é pouco ou muito ligada ao entretenimento. Precisamos abandonar um posicionamento em que valorizamos mais a literatura estrangeira do que a literatura local, porque para gostar de literatura brasileira, assim como de qualquer outra literatura, é preciso sair do comodismo e minerar: ler de tudo, buscar pequenas editoras, autores estreantes, ler os clássicos, os livros mais intelectualizados, os mais populares, os best-sellers nacionais, as produções independentes e livros de todos os gêneros.

É necessário que nos aventuremos com o olhar despido de qualquer tipo de ideia preconcebida. Porque de outra maneira continuaremos com nossos olhares voltados para fora e deixaremos de enxergar pequenas pérolas de grande valor que surgem aqui mesmo.



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